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5 de abr. de 2018

Um espelho para a alma

Espelhos da Alma, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 25-03-2018.
Espelhos da Alma *, criado em 25-03-2018.

A cada espécie de signo corresponde, sem dúvida, uma linha de tempo privilegiada. […]
Sem se corresponderem ou simbolizarem, sem se entrecruzar, sem entrarem em combinações complexas que constituem o sistema da verdade, os signos não se desenvolvem, não se explicam, pelas linhas do tempo.


(Gilles Deleuze — Proust e os signos, p.24)
O pensamento é um instrumento poderosíssimo para construir níveis de autonomia e de superação do automatismo.

Somos literalmente atravessados por fluxos poderosos, ativadores ou potencializadores do afeto e, apenas posteriormente, da compreensão – que é um exercício do pensamento e não uma reação automática.

Ser reativo é o grau mais básico de ser: reage-se, instintivamente, a tudo. Mas ser afetado não garante o ultrapassamento, o esmiuçar as estruturas e contextos do que estimula. Por isso, em sua maioria, somos constantemente levados, ao invés de nos impulsionar consciente e estrategicamente.

Seres vivos são sensíveis ao amor. Isso não significa entender o que é ser amado, muito menos aprender-se o que é amar. O outro é um sinal, um signo, uma fonte de estímulo e não carrega em si a resposta. Sua efetividade está no alterar as percepções que temos – intimamente relacionadas ao fato de disparar desejos, estabelecer memórias, estimular transformações.

Não compreendemos o quanto isso o torna valioso. E muitas estações se vão até vislumbrarmos que ele é a superfície refletora do que se projeta no mundo: um espelho para a alma.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 05 de abril de 2018.

* Qualquer elemento da vida é um signo (sinal, sinalizador) que promove mudanças: ativam novas conexões ou nos retiram do tempo — momentos em que se fica aéreo, vislumbrando horizontes ou em recordações. A interferência na percepção pode ser fonte de aprendizado efetivo se, ao invés de só reagir a ela, defini-la como um referencial para o questionamento dos próprios atos e atitudes. O signo, em si, continuará lá, independente de sua reação. Mas, constituir-se como um aprendiz dos signos — ao torná-lo um espelho para observar-se e entender-se — permitirá expandir, ampliar e enriquecer a sua verdade pessoal.

24 de fev. de 2017

Situações significadas

Fantasia criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 21-02-2017.
Fantasia*, criado em 21-02-2017.

É bom que comecem a pensar nos limites da magia do caos. Em como é irresponsável e desonesto usar métodos que ponham vidas em risco só para descobrir esses limites. Como todas as escolas, estamos sempre interessados em aprendizado, pesquisa e em ampliar os limites do conhecimento. Mas temos de equilibrar isso com a nossa obrigação de proteger o mundo, mesmo que seja de nós mesmos.
(Holly Black & Cassandra Clare — Magisterium 3: A chave de bronze, p.74)


De uma vez por todas. Não há MAL que vem para o BEM. Há situações difíceis, mas necessárias ao aprendizado: se ocorreu, deu significado a tudo.

Essa expressão está diretamente ligada a nossas pequenas e insignificantes imbecilidades (uma dentre tantas rotulações que adotamos sem criticar) capazes de retirar do belíssimo processo de construção pessoal as vitórias ao retirar a imensa potência que há nos desafios.

Quem quer crescer busca desafios: fato indiscutível. A sorte de principiante acaba após a primeira tentativa. Dá o gostinho da vitória para provar ser possível conquistá-la. Quer provar outra vez esse gostinho? Construa a sua capacidade para alcançá-la novamente.

Um dos maiores pilares dos aprendizados da vida, a estratégia é o modo mais eficiente para a superação dos desafios. Quais são os limites? Quais são as fortalezas e como usá-las para minimizar os limites?

Concordo com quem pensou 'falar é fácil' mas, desde a mais tenra idade, a superação tem se apresentado na maior parte da vida, quase como uma marca registrada em cada desafio vencido: se comunicar, andar, conquistar e amar. Recordar a jornada lhe parece difícil?

Se apenas imaginar-se muito além de onde está não basta para você, saiba que tem um parceio em mim. Qualquer utopia pode ser uma fantasia de momento, como beijos no carnaval, ou pode ser a imaginação preparando o caminho adiante. Sonhos constroem estradas para a realização. É tudo uma questão de como encarar e dar significado às questões da vida.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 24 de fevereiro de 2017.

* Um trecho da música Kissing You cantada por Des'ree (tema do filme Romeu e Julieta) demonstra que desafios ultrapassam conquistas mundanas. Tudo apenas ganha significado quando é tomado por uma razão: a sua razão.
O orgulho pode constituir-se após milhares de tentativas: o forte nunca desfalece.
Mas olhando as estrelas sem você, minha alma chorou. Coração altivo tomado de temor: a dor.
Pois estou beijando você, beijando você.
Toque-me profundamente, pureza e verdade dotem-me para sempre.
Pois estou beijando você. Onde você está agora?

6 de mar. de 2016

Simuladores desnecessários

Simuladores de mundos, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 03-03-2016.
Simuladores de mundos, criado em 03-03-2016.

Eu sei bem os pensamentos que tenho a seu respeito: pensamentos de paz e não de mal.
(Bíblia — Jeremias 29:11)


O cérebro humana é uma máquina com infinitas capacidades. Nele, há uma camada que se expande durante a vida e bloqueia um pouco a visão da essência que carregamos — o manto da ilusão. O ilusório é uma determinada percepção tomada como realidade exclusiva (uma visão de mundo empobrecida, uma simulação). Nele não enxergamos a verdadeira completude da vida: somos eternos e uno.

A que serve o ilusório, então? Ele é uma opção excepcional já que por meio dele podemos simular situações onde verdadeiramente nossas habilidades são desenvolvidas, nossas capacidades multiplicadas, nossa consciência expandida.

Como em um jogo, a virtualidade do aprendizado tem limite. Alcançada a etapa final, o que resta é a repetição sem ganhos (novidade, descobertas ou desafios) significativos. Escolhe-se ir a uma nova fase e a uma nova versão mais desafiadora do jogo ou submete-se ao repetitivo, agora constrangedor e impeditivo das novas descobertas. É como usar peças antigas em um corpo que se desenvolveu: uma roupa apertada, um calçado de número menor, elementos limitadores e ineficazes que só atrapalham o avançar.

Compare com o abandono de um jogo cujas etapas foram conquistadas habilmente. O game over produz o anseio por uma versão mais nova e desafiadora. Crianças ensinam isso diariamente: é preciso desapegar do prazer e aprendizado do passado e dispor-se às promessas de expansão trazidas pelo novo.

É possível ficar paralisado porque o equipamento que reproduz o novo jogo não é capaz de reproduzir em sua totalidade os avanços trazidos na nova versão ou pelo fato de que o desapego à antiga máquina simuladora causa tristeza — os momentos agradáveis ainda estão acessos, as sensações desfrutadas ao longo de seu uso remetem a uma nova sessão. Esse momento poderia ser resumido em: ficar ou seguir?

A simulação atual gerou uma forte vontade de descobrir e vivenciar as possibilidades inerentes ao novo, e encará-lo se tornou um desafio incrível e estimulante? O ultrapassamento da simulação anterior (o jogo vencido) produziu a consciência de que as experiências prazerosas poderão ser expandidas?

Se sim, o entendimento dirá que essa escolha é uma falácia, é falsa. Ela não existe! Como água do rio, que avança inexoravelmente para a amplidão do mar — e durante o percurso se esquiva de todo obstáculo (*) —, seguimos. Quem sabe, um dia, a máquina que gera as simulações poderá nos ser desnecessária?

Wellington de Oliveira Teixeira, em 06 de março de 2016.

* Quando se usa o arsenal de que se dispõe em uma determinada missão, o esgotamento produzido reclama o descanso, mas os desafios não admitem. A reenergização é algo essencial. Mas é passível de ser obtida por meio de alianças, pelo compartilhamento, pela colaboração. É para isso que serve inserir-se profundamente na teia das relações energéticas entre os seres. A barreira produzida pelo campo de força de aliados funciona!
Nagil Teixeira, meu agradecimento eterno. Cai na PAz!

16 de jan. de 2016

Um ventinho favorável

Vento Favorável, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 11-10-2015.
Vento Favorável*, criado em 11-10-2015.

Mas chegou um dia que Chiang desapareceu. Estivera conversando tranquilamente com todos eles, exortando-os a nunca deixar de aprender, de treinar e de esforçar-se para compreender mais o princípio invisível e perfeito de toda a vida. Mas, enquanto falava, suas penas tornaram-se mais brilhantes, cada vez mais brilhantes, e, finalmente, tão brilhantes que nenhuma gaivota pôde mais olhar para ele.
— Fernão — disse, e essas foram as últimas palavras que pronunciou —, continue a trabalhar no amor.
Quando conseguiram olhar novamente, Chiang havia desaparecido.

(Richard Bach — Fernão Capelo Gaivota, p.59)


Sabem muito bem disso tantos amantes dos esportes, profissionais ou amadores. um empurrãozinho e se alcança a melhor corrente, curva, onda, direção, o alvo.

Pra muitos, apenas o acaso. Alguns guerreiros incansáveis, porém, se aprimoram em distinguir o mais leve sopro ao seu redor e aprendem a usá-lo em seu favor. Estrategistas consumados de uma arte muito antiga, o aperfeiçoamento pessoal.

As melhores conquistas são aquelas que, primeiramente, nos aprimoram e também nos mostram que a sorte para um principiante ou para um veterano é fundamental, também.

E justamente aqueles que entenderam os princípios da incerteza da existência, em sua vida — nós não temos o controle de tudo! — que desenvolvem a sua curva de aprendizado utilizando tudo a sua disposição, criativamente. Há talento nisso, sim. Mas um árduo trabalho para torná-lo eficaz, eficiente e excelente. Um instrumento a ser utilizado a qualquer momento, em qualquer situação.

Compreender esse raciocínio não é muito difícil, mas permita-me dizer que o que me encanta mais nesse processo é que ele não é exclusivamente pessoal, é interpessoal. Quase sempre, após alcançarmos nossas pequenas vitórias diárias esquecemos dos agradecimentos. Houve tantos — parentes, amigos, amantes — que deram a sua pitada de boa sorte e incentivo de modo a que conseguíssemos alcançar nosso objetivo…

Aprendizado não se torna completo sem os momentos de retribuir, de usá-lo para tornar a vida (a nossa e a de quem nos rodeia e — quem sabe? — a do mundo) um pouco melhor e agradável. Uma pitadinha de felicidade que se torna o embrião de uma nova fase de vida que é compartilhado e se expande de uma maneira encantadora. Um pequeno brilho, mas que ilumina o suficiente para evitar o abismo em que se cairia adiante.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 16 de janeiro de 2016.

* Obrigado, meu Pilantrão, por ter tornado esses dias tão intensos e iluminado a minha vida.

25 de set. de 2015

Um mundo de gradações

Extrapolando, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 25-09-2015.
Extrapolando*, criado em 25-09-2015.

Extrapolar
Ultrapassar os limites conhecidos (ou polos); ir ou situar-se além de; exceder.
Ampliar o domínio, estender a validade ou generalizar buscando validar ou comprovar novas inferências ou hipóteses.

Mesmo sendo necessário em várias situações posicionar-se por um lado ou outro, confirmar ou negar, excluir ou adicionar, nossas decisões não dão conta completamente de uma simples questão: há camadas ou tons.

Socialmente, tentamos criar conceitos plenos, verdades, base sólida para lidar com acontecimentos e para direcionar nossa decisão ou prática. Dentro do possível, um caminho válido para não estacionar diante do que se atrai para si ou do que vem ao nosso encontro.

Mas não devemos ignorar que entre um ponto e seu oposto há gradações que reúnem quantidades diferenciadas dos extremos. O tal do mundo cinzento entre o preto e o branco, a intensidade entre a ausência ou a presença da luz, apenas para citar exemplos visuais e mais fáceis para gerar associações.

No período de desenvolvimento de uma criança, é preciso aos poucos ir retirando as proibições em prol do aprimoramento da sua capacidade de decisão. Crianças geneticamente são estruturadas para ultrapassar os limites, do contrário, não haveria aprendizado ou desenvolvimento como espécie.

Na prática, em vez de um 'Você vai cair', seria bem melhor um 'Cuidado, é perigoso'. Demanda um pouco mais de tempo e atenção e, é claro, dar explicações**.

É que todos precisam da transição entre o desconhecido e o conhecido, entre o medo e a segurança, entre a irresponsabilidade e a responsabilidade por suas decisões. E isso não ocorre por que fez 12, 18 ou 21 anos, é algo que flui aos poucos dependendo dos estímulos recebidos e das respostas obtidas.

Pessoas bem resolvidas são as que, experimentando, descobriram seu modo certo de fazer (cada um tem o seu!) e foram extrapolando a estrutura para outras situações, reduzindo a necessidade de supervisão. Jamais estaremos livres dos riscos, por isso, aprender a gerenciá-los é tão fundamental. Isso tem que ser estimulado desde a mais tenra idade.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 25 de setembro de 2015.

* Tomo como base o conceito de que o ser humano essencialmente deseja a superação, essa vontade de potência definida por Espinosa como fundadora do ser (Ética, IP34). Isso só ocorre e se desenvolve por meio de suas interações (ou encontros) e elaborações.

Eu reafirmaria que, tal como os argumentos de Nietzsche contra a causalidade deveriam ser lidos como argumentos contra a causalidade externa em favor da causa interna, o ataque à essência é o ataque a uma forma externa de essência. A vontade de potência é a essência do ser. […] É verdade que cada um confia em uma noção de essência, em ambos os casos é uma essência histórica, material e viva, uma essência superficial que nada tem a ver com as estruturas ideais e transcendentais que são usualmente o centro dos argumentos 'essencialistas'.[…]
A fundação do ser, portanto, reside tanto em um plano corpóreo quanto mental, na dinâmica complexa do comportamento, nas interações superficiais dos corpos.
(Michael Hardt — Gilles Deleuze - Um aprendizado em filosofia, nota de rodapé 9, p.84-85)

** Há no sítio português Companhia de STJ vários estilos de perguntas — esclarecendo os porquês — que podem ser utilizados por professores ou mesmo pelos pais, visando um aprendizado mais amplo para as vivências.

20 de jun. de 2015

Entre o previsível e o predizível

Sinalizadores criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 20-06-2015.
Sinalizadores, criado em 20-06-2015.

Delfos criou um clima de piedade e de efervescência intelectual, despojando-se de suas máscaras sociais com incentivo à prática da filosofia. O oráculo de Delfos estimulou Sócrates a ensinar, definindo-o como o mais sábio dos homens para seu discípulo, Platão. Na vila, muitos lemas filosóficos ornavam as ruas:
  • Nada demais (mêdien ágan) — inculcando a medida e rejeitando o excesso;
  • Conhece-te a ti mesmo (gno^~thi seautón) — ensinando a importância da autonomia na busca da verdade (fórmula que Sócrates usará como sua) e a da introspecção;
  • Tu és (Ei~), — subentende-se como "tu também és uma parte do divino".
Como antecipador ou promotor, a presença do oráculo fez de Delfos o lugar ideal para a descoberta de si.
(com base no termo Oráculo — Wikipedia)


Um dos livros de Russel* chama a atenção, já no seu título, para o fato de a filosofia se estabelecer na intermediação entre a ciência e a religião. Pensar é não se radicalizar no que está comprovado nem nas mitologias. Caminho do meio? Também, não. É transitar entre os mundos de modo a aprender a crer para depois ver.

Há questões, a meu ver, para as quais não há, em principio, métodos de comprovação direta. Outras se exclusivisam no terreno da subjetividade como pura interpretação. Algumas poucas, de tão profundas, se estabelecem numa ordem de pura predizibilidade, como as teorias do pluriverso e das aplicações da teoria quântica. Entre tudo isso o cotidiano, as relações de amor e dor, nossa ignorância diária de nossa transitoriedade e da morte iminente.

É que entre os mundos de dimensões galáticas e os do universo invisível do micro ou mínimo, existimos. Ignorando imensamente mais do que conhecendo. E — que paradoxo insustentável — soberbamente nos considerando o centro de tudo.

Não sou antropólogo, tenho o prazer de conviver com muitos e entendi que muitas das práticas e costumes atuais se sustentam apenas em mitos. Mesmo nas das sociedades consideradas mais avançadas da atualidade.

Toda narrativa alegórica corre o risco de ser tomada ao pé da letra. Como minimizar os riscos? Além disso, muito do que é previsível não é predizível: são tanto os incapacitados a receber a mensagem, que inviabiliza qualquer tentativa. O que fazer?

Mesmo considerando o risco, o antigo método de ilustrar com elementos simples ainda hoje é válido. Há milênios contamos histórias, inventamos mitos e criamos conceitos. A partir deles, geramos práticas. Sua eficácia está em alcançar uma gama ampla dentre aqueles a quem nos dirigimos.

Só que nem todas as lições são como a do bichinho que come dente e causa dor, grandemente utilizada ao se ensinar, durante a primeira infância, a escovar os dentes.

Penso nisso e mais ainda me encanta o poder dos grandes mestres, cientistas e pensadores que nos deixaram como legado parábolas ou conceituações que nos incentivam a reavaliar a vida, suas práticas e modos de pensar. Eles anteviram condições, avaliaram contextos, estudaram propostas e alcançaram respostas que nos permitem iniciar nossa jornada de forma muito mais confortável, já que nos legaram tudo o que sua vivência permitiu.

Convivência, respeito, harmonia e coletividade foram elementos básicos para a humanidade sair da obscuridade. A partir daí, a revolução que a diferenciação por individuação sem qualificação promoveu ganha para mim o status de a etapa máxima alcançada. É que podemos aplicar o entendimento de que, por mais diferente de nós mesmos que seja, o outro é também alguém como nós.

O porquê de qualificar assim? Para mim, essa mudança no trato e no lidar com o outro pode produzir em nós a elevação para um nível que permitirá a humanidade ultrapassar-se. Da cadeia que nos mantém na estrutura animal, tornarmo-nos seres espirituais.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 20 de junho de 2015.

* Bertrand Russell — A Filosofia entre a Religião e a Ciência http://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2292

9 de mai. de 2015

Dar passos

Dar passos, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 06-05-2015
Dar passos, criado em 06-05-2015.

O conhecimento como uma estrutura concreta é uma construção por experimentação e significação: aprender é interpretar o mundo, um processo ativo e individualizado, com base em vivências que podem ser assimiladas e acomodadas em camadas.
Por isso, o aprendizado pode ser estimulado por meio de situações desafiadoras, cujo grau seja compatível com o nível de desenvolvimento cognitivo atual de quem aprende.
Fundamental é que haja a oportunidade de uma livre busca de informações que permitam estruturar e propor soluções para depois confrontá-las e defendê-las em discussões.

(Teoria do Construtivismo de Jean Piaget*)
Fiz um teste comigo: desenvolver, em etapas, imagem e texto e depois consolidá-los em um único artigo. Nomeei esse projeto como Dar Passos.

Há muito não visitava a Teoria do Construtivismo e outras ligadas à infância, a maior paixão no início da faculdade de psicologia, na UFF. Paixão tão grande que me levava a extrapolar a carga horária ao antecipar disciplinas de quatro ou cinco períodos posteriores.

Reconheço que estímulo é algo fortíssimo e, na época, eu tinha imensos, apesar de pequenininhos. Meu sobrinho-neto 4.0.7.7. (ou Arthur de Oliveira Thomaz Teixeira, para as outras pessoas) é o meu atual disparador e atualizador da antiga paixão.

Entendi que é possível construir uma ponte entre meu perfil atual — inclusive a proposta destes artigos — com a promoção de esclarecimentos aos novos pais novos de hoje, meus sobrinhos incluídos.

Então, irei propor uma atividade: leia os pequenos textos postados no meu facebook:
  1. Perante o desafio constante de integrar as partes da vida que se desintegram, temos que entender que tudo o que nos compõe eram elementos soltos.
    Em determinado momento, foi possível um encontro que possibilitou sua apreensão e sua existência em nós.
    Na força de atração, subsistia a absorção e, agora, a separação.
    Dar Passos 1
  2. Em relação às parcialidades que nos compõem como um todo, é necessário estabelecer uma relação crítica.
    Elas possuem o status de utilitárias, não de absolutas. Por isso, devem ser reavaliadas e revalidadas, antes de continuarem a definir nossa totalidade.
    Só na transformação é possível uma existência plena.
    Dar Passos 2
  3. A integração de um ser ocorre gradualmente, camada por camada de elementos absorvidos após sua experimentação. Ainda assim, podemos afirmar que sua realização não impede a plenitude de cada fase percorrida, em sua medida de capacidade naquele momento.
    Eis um paradoxo da vida: somos inteiros porque nos transformamos, vez após vez; porque somos capazes de reestruturações contínuas, sem que as perdas ou ganhos desfaçam o sentido de pleno.
    Ser é transformação e equilíbrio constantemente readquirido e restabelecido em novo patamar.
    Dar Passos 3
Perceba que as etapas seguidas representam, também, uma estruturação de aprendizado, ampliado para a questão da plenitude e realização de um ser. Claro que a proposta foi de um nível mais elevado, mas ilustra como se pode gerar estímulos para o aprendizado, fatiando-o quando sua totalidade dificulta a sua assimilação.

Com relação às crianças? Claro que, em vez de forçar a barra para andar, deve-se estimulá-la a se suspender e depois a se manter de pé segurando seus dedos; iniciar um movimento à frente e permitir que ela tenha o tempo para perceber o que isso significa e tentar por si mesma; criar um ambiente seguro onde ela possa se apoiar e iniciar suas buscas ao redor, engatinhando e se suspendendo; colocar pequeníssimos obstáculos que façam com que ocorra a dobra do joelho para superá-lo, e por aí vai… A palavra-chave é progressivamente. Uma dica extra: sempre repita diversas vezes a palavra, se possível, o verbo (andar, subir, segurar) correspondente ao movimento executado.

É uma verdadeira aventura, para o aprendiz e para o promotor dos estímulos. Ao final, para todos nós que acompanhamos o desenvolvimento deste novo ser (e do antigo, também!).

Wellington de Oliveira Teixeira, entre 05 e 09 de maio de 2015.

* Um texto que simplifica o Construtivismo, teoria da aprendizagem de Jean Piaget, pode ser encontrado em http://www.infoescola.com/pedagogia/teoria-de-aprendizagem-de-piaget/

30 de mar. de 2015

Reavaliar antes de revalidar

Avaliar—Revalidar criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 30-03-2015.
Avaliar—Revalidar*, criado em 30-03-2015.

Seja pontual ou contínua, a avaliação só faz sentido quando leva ao desenvolvimento do educando.
(Cipriano Carlos Luckesi — UFBa)


Não é porque a prática de limpar os dentes com uma certa planta foi entendido como benéfico e adotado por uma sociedade, tornando-se uma tradição, que deveremos continuar repetindo os mesmos procedimentos. Somente ao se entender seu sentido — a higiene bucal é saudável — será possível avançar para novas e mais eficiente e saudáveis práticas que esta.

Uma questão importante a se desenvolver é que referências para a vida podem se tornar aprisionamento. Práticas imutáveis são como o gesso em uma perna fraturada, cuja função reparadora ocorre apenas durante um determinado tempo e, quando não retirado, incomoda, impede os movimentos, podendo gerar algo pior.

As tradições, assim como algumas rotinas que adotamos, carregam um aprendizado prático, especialmente as relacionadas ao convívio humano. Seu uso tem seu motivo e importância. Porém, mais importante que repetir uma prática é compreendê-la. Entender o sentido que lhe deu origem em determinado contexto, o motivo de sua adoção, no momento em que se formou, e sua atual utilidade.

Ao conseguir efetuar tal raciocínio, será possível fazer a apropriação das lições que carregam e desenvolver novas práticas que ampliem futuros e diferentes aprendizados pessoais ou sociais.

Nenhuma tradição vale por si. Assim como os aprendizados pessoais podem ser desenvolvidos, conforme o indivíduo alcança maior maturidade, toda e qualquer regra de prática de vida precisa ser reavaliada para que possa ser revalidada.

Do contrário, indivíduos e a sociedade conseguirão apenas engatinhar. Não há desenvolvimento quando a pessoa se recusa a deixar sua alimentação ultrapassar o leite materno. O resultado, que se evidencia diariamente, são indivíduos fragilizados, facilmente controláveis, presos ao seu estágio emocional, psicológico e espiritual mais primário.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 30 de março de 2015.

* Avaliar é:
  • Diagnosticar — determinar o nível atual de desempenho do aluno;
  • Qualificar — o que será necessário ensinar, no processo educativo;
  • Desenvolver — produzir continuamente ações visando alcançar os resultados esperados: que atividades, em que sequência, quais instrumentos, inclusive avaliativos para cada etapa.

21 de nov. de 2014

Um adulto que a criança se orgulharia

Life goes on criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 20-11-2014.
Life goes on*, criado em 20-11-2014.

Um Deus infinito pode se dar inteiro a cada um dos seus filhos.
Ele não se distribui de modo que cada um tenha uma parte,
mas a cada um ele se dá inteiro, tão integralmente
como se não houvesse outros

(Aiden Wilson Tozer, citado por William P. Young em A Cabana, p.203)


Vi uma imagem com a legenda: A criança que você era teria orgulho de quem você é? E essa é realmente uma questão que gostaria de encarar com esse texto queonde me permiti ser bem intimista.

Com certeza, o que me tornei não foi apenas fruto dos meus desejos, uma vez que houve uma imensa carga de desafios para os quais não estava preparado e sucumbi. Bem, não é com orgulho que alguém se recorda dos seus erros, no entanto, fico feliz por ter conseguido encarar as minhas derrotas. Cada guerreiro sabe o peso dos enfrentamentos que escolhe assumir, e é isso que me faz olhar o passado com bons olhos: eu me superei.

Claro que houve várias concessões: pedaços de mim que ficaram para trás, como tributo, no altar da vida plena, mas, das dores no corpo e na alma surgiu um ser humano coletivista.

Falta de modéstia? É! Com muito orgulho que vejo aonde cheguei, apesar da imensidão do que me afirmavam ser impossibilidades, por conta do contexto social e suas enormes dificuldades, por conta do modelo cultural, por conta da falta de referências no caminho que optei por trilhar.

De certa forma, a trilha que abri incentivou aqueles que vieram depois e, hoje, tenho a alegria de ver as novas gerações da família seguindo por um caminho consolidado. Isso reafirma que tudo valeu a pena.

Mas não pense que os créditos são todos meus, claro que não! Sem o precioso e amoroso suporte e incentivo que recebi, o caminho teria sido muito, mas muito mais difícil e, muito provavelmente, mais acidentado. Então, um componente fundamental da minha alegria é saber que na solidão de cada caminho há a possibilidade de se criar conexões e alianças que nos fortalecem, nos esclarecem, impedem a perda gradual da essência da vida que permite nossa plenitude como ser. Meus verdadeiros amigos - isto inclui, especialmente, os familiares - estiveram e estão ao meu lado.

Realização é uma palavra forte demais, ainda, para esse momento — há tanto percurso pela frente. Reconheço que estou mais cansado, porém muito mais esperançoso e esforçado: eu sei o quanto já enfrentei e o quanto já superei. De tudo o que desisti, apenas uma coisa me incomoda, até hoje. E isso é algo muito bom para se dizer, pois há ainda um vislumbre de um pequeno horizonte onde seja possível realizar: nossas utopias pessoais são o incentivo que nos fazem prosseguir tentando.

Não tenho arrependimentos, algumas tristezas, certamente. A vida, em vários momentos, rasgou um pedaço do meu coração e levou. Restou marcas e recordações que reintegro sempre que necessário, sempre que a saudade é forte demais. Não com dor. Agradecido pela partilha solidária do Caminho.

Das esperanças que me acalentam os sonhos, a de ver uma sociedade mais justa é a que me impele mais adiante. Dos prazeres, aqueles especiais e indizíveis momentos quando alguém perdeu a noção de si, comigo. Dos projetos, sempre estudar e possuir um lugarzinho pra chamar de meu, onde possa receber amigos e ver — olha a pretensão! — meus bisnetos correndo ao meu redor. Dos questionamentos, só o caminho onde se sinta pleno vale a pena percorrer. Das certezas, só o amor.

Wellington de Oliveira Teixeira, entre 20 e 21 de novembro de 2014.

* A vida continua

8 de set. de 2014

Vida é o pleno desequilíbrio

Ponto de desequilíbrio, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 08-09-2014
Ponto de desequilíbrio, criado em 08-09-2014.

Não existe um problema que não ofereça uma dádiva para você.
Você procura os problemas porque precisa das dádivas oferecidas por ele…
Valorize suas limitações, e, por certo, não se livrará delas.

(Richard Bach - Ilusões - as aventuras de um messias indeciso, p.62 e 82)


Vida é o pleno desequilíbrio onde estabelecemos um equilíbrio provisório, em que não devemos acreditar totalmente.

A arte de perceber os ventos contrários como uma força capaz de nos impulsionar é um dos maiores aprendizados que temos. Os deslizantes da água, terra e ar confirmam isso.

Na infância, e por muito anos depois, são os apoios que recebemos que nos ajudam a estruturar a base de assimilação dos elementos necessários para seguir adiante. Alguns alcançam a fase de transformação e de individualização consciente, entendendo que devem ir soltando, ponto por ponto, do mais simples ao mais difícil de abrir mão, os antigos apoios em função de construir os novos e próprios.

A vida age e obriga, quando ignoramos esse fato. Em toda a natureza há exemplos claros desse processo, em que é necessário o desapego e o enfrentamento das dificuldades. No entanto, enganam-se os que acreditam que esse processo é, obrigatoriamente, solitário. Não o é. Apenas o aprendizado e sua absorção o é. É possível criar estratégias e agir coletivamente. Deixar de lado apoios e criar referenciais.

Assim, ao invés de olharmos para a área da vida que atualmente está desbotada e desarrumada - por conta dos acontecimentos que nos deslocam, nos descentralizam e nos sacodem -, devemos utilizar como guias ou auxiliares, nesse momento de movimento desequilibrado, os referenciais que nos embasam.

Não tente pegar tudo simultaneamente. Defina o mais imediato e importante e assuma-o como prioridade. Agende, antecipadamente, os próximos e necessários passos, não permitindo que as questões exigidas por eles se tornem pr(é)ocupações que o atrapalhem agora. Foque no hoje. Dê o melhor de si no agora. Pense que, quando chegarem os outros itens, a realidade terá se transformado - e você com ela.

Não é possível assumir a dor, a responsabilidade e os outros elementos inerentes à experiência de vida de outra pessoa - por mais próxima e amada que seja! - mas podemos ser solidários. E devemos deixar isso bem claro.

É isso que tento fazer com essas reflexões junto ao meu sobrinho Weberson (que, nesse momento, tenta corajosamente ocupar os papéis de filho cuidadoso, de neto amoroso e de, em breve, papai e provedor) e ao meu filho Paulo Roberto (em fase de mudanças familiares importantes, inclusive de casa).

Todos nós, vendo esses desafios, estamos respeitosamente permitindo que vocês os enfrentem e decidam o momento em que é necessário alguém ao lado. Seja como companhia para relaxar ou alguém para ajudar a traçar novas rotas, porque, para amar não precisa chamar.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 08 de setembro de 2014.

* Ninguém sabe qual é o calo, onde se encontra e como dói, além da própria pessoa. Por isso, devemos deixá-la decidir como tratá-lo.

22 de jul. de 2014

Construtos

Construtos, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 22-07-2014.
Construtos, criado em 22-07-2014.

São os signos da linguagem que deram origem às ciências abstratas.
Uma qualidade comum a várias ações engendrou as palavras vício e virtude;
uma qualidade comum a vários seres engendrou as palavras feiura e beleza.
Alguém disse um homem, um cavalo, dois animais;
em seguida, alguém disse um, dois, três, e toda a ciência dos números nasceu.
Ninguém tem ideia de uma palavra abstrata.
Notaram-se em todos os corpos três dimensões, o comprimento, a largura e a profundidade;
tratou-se de cada uma dessas dimensões, e daí todas as ciências matemáticas.
Toda abstração não é senão um signo vazio de ideia.

(Diderot: O sonho de D’Alembert - Coleção Os Pensadores, p.280)
*


A estruturação de qualquer elemento exige alguns substratos comuns. Real ou imaginário, a percepção inicia o processo e o desejo o embasa. E essa tem sido uma questão que atravessa, literalmente, grande parte das áreas do conhecimento. Não há, de teorias a práticas, absolutamente nada que escape dessa formulação: somos fundamentalmente seres desejantes e por (e no) desejo produzimos cultura.

Alguns pensadores buscam apontar e visibilizar o processo de geração de cultura de um determinado grupo e a constituição de novos hábitos a partir dos interesses comuns. Outros, navegam na captura do desejo, na aculturação acrítica, onde a imposição mesmo que disfarçada a promove.

Da inicial necessidade de proteção básica da vida, criamos variações que chegaram até a não tão atual assim conquista de status, produzindo relacionamentos, objetos, linguagem, cerimoniais e determinantes ético-morais e religiosos. Todos são fabricados. Não são prévios, muito menos naturais. No entanto, pelo prolongamento da prática, acabamos por naturalizá-los e normatizá-los. O normal passa ser a nossa forma de falar, de ser e de estar, então, os padronizamos.

Um dia encontramos um estrangeiro — migrante ou imigrante em nossas terras — e descobrimos a alteridade como possibilidade, depois do estranhamento. Pontuo, aqui, o início do fim da teoria da normalidade.

Aquele que se dispõe a observar ou avaliar as diferenças poderá se sentir atraído a aprender com a nova forma. Esse desejo, estimulador do contato, poderá viabilizar diálogos não intermediados pelo conhecimento prévio dos vocábulos. Gesticulações, referenciações aos objetos e práticas, seguidos da palavra usada por cada um para o mesmo, dicionariza a relação.

Em pouco tempo, poliglotas constituídos dialogam e referenciam um mundo novo, cuja absorção dos novos padrões culturais é facilitada. Pode parecer complicado, mas é um fato corriqueiro e diário.

Estudiosos como Piaget apontaram a graduação na construção da inteligência utilizando o conceito de camadas sobrepostas e apontaram que – como em qualquer construção – uma absorção não concluída ou parcial poderia gerar as rachaduras na estrutura. Apesar de, em regra, incapazes de fazer ruir o edifício, impedem um avançar mais pleno da manifestação das capacidades individuais. Apontaram mais além, o processo explica a radicalidade da capacidade humana de adaptação.

Pense na maturação social, onde uma criança amplia suas referências da família e vizinhos, para a escola e para o mundo: conteúdos, costumes, interesses, conceitos e práticas diversos se presentificam e põem em xeque a unicidade dos valores recebidos. Por curiosidade, por avaliação, por necessidade e por participação, muitos são adotados momentaneamente ou absorvidos. O universo pessoal é expandido.

Esse processo é análogo aos estudos realizados por pesquisadores (cientistas ou não) no seu caminho de descobertas, de confirmações e refutações dos conceitos e valores vigentes. A expressão pensar fora da caixa denota esse conceito.

As ciências sociais e psicológicas estão incluindo a incapacidade de lidar com a questão da variação, da mudança, do aprimoramento ou da transformação como uma das causas da constituição da rigidez nas pessoas.

Seja pela radicalização ou pela inflexão, o mundo daqueles que se agarram ao constituído e determinado como padrão mostra o quanto as construções internas são frágeis. O terror à possibilidade de ruir o arcabouço por conta da troca ou retirada de uma peça, faz com que a rejeição total, intransigente e determinista de um modelo crie, não uma pessoa, um elemento repetidor, impedindo a evolução e o processo de individualização e realização pessoal.

O construto chamado fundamentalismo está carregado dessa processual formalização, que ignora os efeitos do que ódios, agressões, distorções e torturas podem causar aos seres humanos em prol da modelagem comportamental e de pensamento. Sua sobrevivência exige seres docilizados, cujo potencial transformador seja encapsulado em formulações prévias, frases repetidas, posicionamentos irrefletidos mas seguidos à risca. Isso pode ser obtido pelo discurso manipulador ou pela ação direta dos aparelhos de repressão. Em ambos os casos, o resultado é único e triste: quem sofre seus efeitos clama por liberdade, mesmo que silenciosamente.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 22 de julho de 2014.

* Diderot propõe a existência um nível organizacional da natureza, um verdadeiro sistema onde tudo está unido, uma cadeia contínua, das formas mais primitivas de organização da matéria até as mais complexas, nos domínios do humano.
Animado por um fluxo, como concebido por Heráclito de Éfeso (séc. VI-V a.C.), o universo é obediente às leis formuladas por Descartes para a matéria; é dinâmico e em permanente transformação, em vez de estático e criado como um conjunto de coisas fixas, como concebia a tradição aristotélica e escolástica cristã.

17 de abr. de 2014

O plausivel

Plausível, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 17-04-2014
Plausível, criado em 17-04-2014.

Quero lhe contar como eu vivi e tudo o que aconteceu comigo.
Viver é melhor que sonhar e eu sei que o amor é uma coisa boa, mas também sei que qualquer canto é menor do que a vida
de qualquer pessoa.
Por isso cuidado meu bem: há perigo na esquina! Eles venceram e o sinal está fechado pra nós que somos jovens.
Para abraçar meu irmão e beijar minha menina na rua é que se fez o meu lábio, o seu braço e a minha voz…

(Como nossos pais - Belchior)

Senso comum é o conhecimento irrefletido, tradição.
O senso crítico é baseado na crítica, na reflexão, na pesquisa e no pensamento:
o raciocínio busca comprovação antes de emitir uma avaliação ou realizar uma conclusão.




Uma vez, uma professora universitária me disse que sem uma taça de vinho, nada do que escrevia parecia verdadeiro, recendia a uma casca de verniz social. Bem, na opinião de quase todos os trabalhadores que anseiam por um happy hour ou pela cerveja da SEXta-feira, tudo certo.

Não ousem me dizer — quem não teve a oportunidade de experimentar o relaxamento que uma taça de vinho ou umas duas cervejas proporcionam — que isso seja falso. Como, também, não é falso dizer que não se deve tomar decisões no meio do fogo cruzado das emoções.

Tristes são as histórias de jogadores compulsivos que dizem ser o seu dia de sorte; daqueles que dizem que irão apenas beber mais uma dose; ou daqueles que… recuso-me a continuar. O que importa para minha questão é que a emoção apenas não determina o que fazemos, tudo é uma história de vida. São os pequenos acontecimentos que se acumulam e transformam-se num gigante a ser vencido.

Davi e Golias? Café pequeno.

Alegoria ou fato histórico, jamais irá detalhar a realidade diária de cada um de nós, o enfrentamento de dificuldades, o silêncio engolido com a garganta seca, o surrealismo dos padrões sociais: Negamos! Afirmamos! E, se nos dermos conta, nada daquilo se referencia àquilo que nos torna seres humanos. Nem mesmo a dor. Nem mesmo o prazer.

Sentir-se no meio do furacão? Brinca comigo, não. Com tantas pessoas despejadas, famintas, destituídas da humanidade, é mais do que ridículo recorrer às nossas novelinhas pessoais. Coitados dos mexicanos quando recebem os créditos! Juro (e não se deve jurar!) que a vida produzida socialmente, falsamente, manipulada pelos controles e descontroles de cada um de nós é algo inócuo. Inofensivo. Apenas uma proposição necessária adotada quando não há outra opção: máscaras sociais da madame e do patrão; do operário e do ladrão.

E todos somos responsáveis, tentando desesperadamente ignorar a culpa ou a responsabilidade de não interferirmos nesse modelo social anacrônico, de não sermos agentes de transformação social.

Como os nossos pais (agradeço as palavras de Belchior e a voz da Elis Regina) repetimos, reproduzimos. Somos máquinas copiadoras. Transformadoras? Não se faça rir.

Mas, quando eu vejo meus netos ou meus sobrinhos-netos me questiono: O que realmente eu estou deixando para eles? Que parte de mim eles irão — por opção — avaliar, reproduzir, acreditar?

Um dia eu disse para o meu filho: 'mesmo que eu seja completamente contra o que você faça, jamais irei deixar de amá-lo'. Registrem isso, porque verdades são raras no mundo. Hoje, eu digo com clareza: 'isso jamais me fará abrir mão de mim mesmo, é parte de mim.'. Maturidade? Talvez. Certamente, um aprendizado sobre as relações humanas.

Teve alguém que ousou dizer que teria que ser do mesmo modo que para mim mesmo, a manifestação do meu amor. E eu aposto nele e naquelas palavras. Todo o resto é produção cultural, social. Precisa ser reavaliado (com extremo cuidado, eu sou primeiro a dizer!).

Numa época em que participei de um grupo que queria acessar modos mais plenos do que entendíamos ser adoração (eu era membro de uma estrutura religiosa), a primeira coisa que ficou clara era que era preciso modificar algumas das práticas cristalizadas e solidificadas em bases de tradição ou costumes de época. Antes disso, porém, um 'bando' de adolescentes — era assim que eram qualificados — entendeu que a transformação só aconteceria se eles se envolvessem, investissem naquilo que acreditavam, que se dispusessem a participar do modo que achavam que podiam. Tenho o orgulho imenso de dizer: eles o fizeram!

Mas agora eles cresceram e dizem que a realidade é outra. Será?

Sabe o que impede de agirmos hoje do mesmo modo? Acomodação. A mesma que faz um país inteiro se submeter. A mesma que corrói os ânimos, as reivindicações. A mesma que nos torna reprodutores, nunca produtores. Seres domesticados. Ânimos sem fôlego. E perceba bem, Animo e Fôlego são palavras especiais, sem elas não há existência humana.

Talvez, por isso — e me perdoem o pessimismo — a maquinização dos nossos desejos, a homogeneização de nossas características e o desrespeito às nossas diferenças tenham se tornado a herança para as novas gerações.

Imbecilizados?

Idiotizados?

Certamente, destituídos do possível, do viável, adotamos tristemente o plausível.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 17 de abril de 2014.

* Não esperem de mim, tão cedo, outro desabafo assim.

30 de mar. de 2014

Os construtos carregam voce

Construtos criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 30-03-2014
Construtos, criado em 30-03-2014.

Eu sempre amei o deserto. A gente se senta numa duna de areia.
Não vê nada. Não escuta nada. De repente, alguma coisa irradia no silêncio…
— O que torna belo o deserto — disse o principezinho — é que ele esconde um poço em algum lugar.
[…] "O que eu vejo não passa de uma casca. O mais importante é invisível…".

(Antoine de Saint-exupéry - O pequeno príncipe)


Quer produzir algo? Não o faça se não for para trazer à tona um pedaço de você, representar ou apresentar uma instância não alcançada antes: os construtos carregam você.

Pode ser algo estranho, mas que possua uma determinada visão de belo para os seus próprios olhos. Ou não. Às vezes acontece de você alcançar uma beleza que o encanta, porém, ao olhá-la, naquele momento não representa nem parcialidade nem totalidade de você. Melhor 'piorar' o que se produziu. Igual ao jeans surrado, que representou uma geração por muito tempo: apenas uma calça puída - por uso, não por fábrica! - que era mais desejada do que uma nova.

Uma vez me perguntaram do que eu tive medo antes de começar a desenhar, escrever, tocar ou reger, programar. De não poder aprender, creio ter sido a minha resposta. Do que eu lembro: mesmo não sabendo os fundamentos da música, errando ou acertando as notas, eu tocava; mesmo não tendo um português correto e copiando muito do que eu lia e aprendia, eu escrevia; mesmo fazendo traços primários ou apenas utilizando sobreposições do que eu gostava, eu desenhava; mesmo não tendo formação de teatro, adaptava peças para os musicais; mesmo não tendo domínio do inglês, eu traduzia.

Ainda carrego um certo temor de não conseguir trazer minha plenitude ao começar qualquer coisa, não o de obter uma obra de arte ou não. Há pouco tempo atrás eu descobri que algo que eu fazia para dar vazão a minha alma - tocar piano - mexeu com a vida de algumas pessoas que sequer conheci pessoalmente. E, entenda bem, eu nunca fui um grande pianista. Segundo alguma dessas pessoas, sabiam quando era eu quem tocava, porque a música ganhava alma. Talvez, por isso, o que eu transmitia, mesmo com a pobreza do que era construído, ultrapassou a fronteira do eu e repercutiu até hoje em outros.

É disso que eu falo, quando faço essa proposição: apenas seja pleno, utilize o seu potencial, expresse aquilo que você possui. Se isso vai torná-lo um artista ou não, que importa? A construção de si, a expressão de si, o lidar com o que há dentro de você deve ser prioridade.

E, quem sabe?, tentando uma determinada atividade, você encontre um caminho a enveredar. Se for com o coração, poderá até não ser útil por um determinado padrão mas certamente será bom.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 30 de março de 2014.

* Me encantei ao saber que uma das repercussões foi ganhar um xará.

26 de mar. de 2014

Sinalizando mudanças

Wellington de Oliveira Teixeira
Foto para o jornal Sete Dias, 07-03-1982 *.

Olhar as águas de um riacho, sentí-la, vivê-la,
é uma forma de se receber energias bio-físicas e se reencontrar consigo mesmo.
Espero vencer na vida, conseguir um emprego, vencer as barreiras que me esperam,
mas nunca perderei minha identidade humana.
Wellington de Oliveira Teixeira, em 07-03-1982.

Não dê as costas a possíveis futuros antes de ter certeza de que não tem nada a aprender com eles.
O que a lagarta chama de fim de mundo, o mestre chama de borboleta.

Richard Bach - Ilusões - As aventuras de um Messias indeciso


Alguns pensamentos me contagiam, talvez porque possibilitam a inversão de um modo de encarar determinadas questões. É o caso do que definimos como fim.

Se nos permitirmos o cuidado de analisar, o ponto que finaliza uma frase é o mesmo que já possibilita o início de outra.

Por algum motivo o fechamento não ocorre, a questão se estende para uma perda, suscita em nós um certo saudosismo, a vontade de não abrir mão. Em qualquer dos casos, produz acorrentamento. Selecionei uma palavra forte, não é? Mas, não se iluda, ela representa muito bem a cadeia de pensamentos que nos obriga a manutenção e impede o afastamento ou desligamento.

Nem tudo, porém, deve ser visto como impeditivo, uma vez que a capacidade de referenciar-se está ligada à retenção de alguns aspectos importantes da vida. Assim, ao se guardar um acontecimento ou experiência passada, sustentamos o bom ou mau sentimento que nos proporcionou: isso é o que podemos chamar, em sentido amplo, de aprendizado emocional ou intelectual.

Dou exemplos: todos conhecemos o uso como gíria da palavra legal (legal, cool, nice, do inglês). Alguém sabia que 'legal' vem do inglês do século XII, e significa tolo ou estúpido? Como eu disse, as coisas se transformam e o novo modo pode suceder ao uso que era comum, até mesmo o padrão assumido. Pense, então, no uso da palavra 'sinistro', que foi febre há algum tempo atrás, no Brasil, ou o irritante 'tá ligado?' carioca. Em breve outros termos ocuparão seu lugar.

Quando pararmos de encarar os términos como negativos, poderemos absorver um encantador conceito: desenvolver-se é ultrapassar o limbo das repetições e buscar o novo, o diferencial ou as mudanças. É ir adiante carregando apenas o que se conquistou que nos fortalece. É avançar.

Talvez, fim seja apenas isso: a marca da transição.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 26 de março de 2014.

* Essa é a primeira vez que publico essa foto e o trecho da primeira entrevista que dei na vida, para o jornal Sete Dias, quando passei em primeiro lugar para o curso de Psicologia da UFF, há 32 anos atrás. Muitas coisas mudaram, inclusive eu mesmo. Mas meus ideais conseguiram superar o tempo.

24 de mar. de 2014

Desequilíbrio inicial

Desequilíbrio, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 24-03-2013
Desequilíbrio, criado em 24-03-2014

Dom Juan: Pois bem, um guerreiro começa com a certeza de que seu espírito está desequilibrado;
aí, vivendo num controle e consciência completos mas sem pressa nem compulsão,
ele faz o máximo para conseguir esse equilíbrio.

(Carlos Castaneda - Porta para o Infinito, p.31-32)

Incomodado com a maneira de reagir a alguns acontecimentos de minha vida, peguei o livro Porta para o Infinito para recordar alguns pensamentos do Dom Juan que deram origem a diversas formas que tenho de me expressar. É preciso reaprender diariamente para poder reafirmar ou refazer seus próprios conceitos. Nada deve se estabelecer como imutável na vida, especialmente o aprendizado pessoal adquirido com a vida.

Na época em que fiz a primeira leitura, além de bem novo, eu era devorador de literatura e o livro me pareceu fantástico demais: feiticeiros, poderes, práticas de vida de não-fazer…

No entanto, os pontos de vista apresentados eram extremamente sedutores para uma mente questionadora como a que eu possuía. Então, me entreguei à leitura e avaliação das propostas apresentadas. O fiz tentando abstrair meus preconceitos. Lembro-me que me propus buscar uma visão de mundo de um determinado indígena, no caso o Dom Juan, e a afirmação que me encantou, de início, foi a de que era preciso buscar esclarecimentos, não apenas explicações convenientes.

Seu método, para isso, consistia em acumular um poder pessoal por meio da transformação das práticas diárias: o não-fazer. Este se apresentou como uma prática que possuía um imenso poder ao liberar nossa energia gasta com a repetição, com as nossas rotinas, com as nossas aceitações sem questionamentos e tudo o que nos mantém preso à mesmice, que causa o tédio ou que impede um aperfeiçoamento.

Era tudo de que eu precisava: essa proposição gerou a abertura de um portal dimensional para reavaliar tudo em tudo. Minha busca me levou a trilhar diversos caminhos, a praticar novos esportes, a tentar novas teorias do conhecimento, a experimentar novos sabores e a me afirmar como pessoa e a ter voz sobre o que eu chamava de minha vida.

Hoje, recordando um dos conceitos que mais me seduziram, o da humildade do guerreiro, me recordei de algumas características que assumi como importantes para a minha vida: a busca da impecabilidade em ações e sentimentos, a meus próprios olhos, e não aos olhos de espectadores; a aceitação daquilo que sou não como fonte de pesar mas como um desafio vivo; a não baixar a cabeça para ninguém e não permitir que ninguém o faça para mim.

Tem sido uma aventura e tanto caminhar usando esses conceitos, afinal, não há como forjar um triunfo ou uma derrota. Repito com o Don Juan, que mais uma vez colaborou para que eu ordenasse meus pensamentos e sentimentos: 'Um guerreiro está nas mãos do poder e sua única liberdade é escolher uma vida impecável'.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 24 de março de 2014.

* Para Roberta Ozorio, que hoje estava carente.

Sem medo

Sem medo, montagem criada por Wellington de Oliveira Teixeira em  20-03-2014
Sem medo, montagem criada em 20-03-2014.

Estava pensando em como o tempo nos transforma por meio dos desgastes: ficar idoso é um processo básico da natureza.
Avalio também aqueles que o ultrapassam, resistindo ao envelhecimento expressando a sua alma, experimentando as novidades, inventando novos horizontes diariamente.
[quem sabe se por uma forma oculta de sabedoria eu estava, ali, tentando alcançar o futuro com as mãos?].
(Wellington de Oliveira Teixeira - Postagem em 20-03-2014 no facebook)


Não tenho medo.

Não tenho medo de imaginar como possíveis conversas com forças que me são invisíveis, mas capazes de acessar o conteúdo de minhas reflexões expressas em falas, escritos, imagens, sonhos e práticas de vida;

Não tenho medo de ter sido algo aprendido o nomear, sentir e expressar essa força que denominaram amor e escolhi chamar de Ordem;

Não tenho medo de pensar que já fui unicelular e ao ir evoluindo ou me aperfeiçoando, esteja caminhando para a plenitude desse meu corpo e me aproximando da perfeição de ser.

Não tenho medo das teorias do criacionismo nem das que afirmam um processo divino intermediado pelo criacionismo.

Não tenho medo de considerar espelho e enigmas essas imagens ou mitos religiosos, avaliando-os como parábolas para nos ensinar lições fundamentais à vida.

Não tenho medo de alinhar razão e fé, acreditar que mais, muito mais do que eu possa imaginar, sejam os até agora segredos das naturezas divina e humana;

Do que eu tenho muito medo é de que, sendo tudo isso possível e sensível, eu apenas abra mão por não poder provar ou por encarar uma falta de explicação.

É por isso que eu me permito vivenciar e admitir que mesmo não alcançando explicação, sigo em frente, realizando singularmente a minha plenitude e pensando que, em algum momento após aprender e me desenvolver e me tornar aquilo que (mesmo indefinível) era chamado de perfeição, poderei acessar a Ordem e me tornar uno com ela.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 20 de março de 2014.

* A seleção de fotos não segue uma cronologia fixa, foram escolhidas pela facilidade de acesso.

10 de mar. de 2014

Ré menor

Ré menor, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 10-03-2014
Ré menor*, criado em 10-03-2014

Uma vez, aliás, agora é que me lembro, uma esperança bem menor que esta, pousara no meu braço.
Não senti nada, de tão leve que era, foi só visualmente que tomei consciência de sua presença. Encabulei com a delicadeza.
Eu não mexia o braço e pensei: "e essa agora? que devo fazer?"
Em verdade nada fiz. Fiquei extremamente quieta como se uma flor tivesse nascido em mim.
Depois não me lembro mais o que aconteceu. E, acho que não aconteceu nada.
(Felicidade Clandestina, p.94 - Clarice Lispector)


Desejei demonstrar, lhe fazer entender que eu sinto em seu beijo um reflexo, um lampejo que ultrapassa o normal

É que aprendi deixar você ir e voltar: a saudade me ajuda e desfaz toda dúvida desse meu querer bem.

Assim, me permito escutar o silêncio que faz quando eu fico sozinho repensando o caminho que eu quero trilhar.

Já tentei desenhar, de algum modo escrever o que ocorre em meu peito se recordo ou lhe vejo, mas não há nada igual.

Muda o modo de olhar, passear por aí com você junto a mim. Brisa fresquinha como o risinho na esquina quando vem me amar.

Aprender a deixar você ir e voltar: é a verdade que me ajuda e desfaz toda dúvida e me faz querer bem.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 10 de março de 2014.

* Nossos encontros e desencontros, nossas idas e vindas. Quando nossos amores tornam-se os nossos temores são como uma melancólica música em ré menor.

Toda a Arte da Fuga de Johann Sebastian Bach está em Ré menor.

*precisei mudar duas ou três frases para ultrapassar as pequenas fraquezas produzidas pelo momento de tristeza.

26 de dez. de 2013

A sustentabilidade emocional

basta amar, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 20-12-2013
basta amar, criado em 20-12-2013

Aí não haverá mais grego nem judeu, nem bárbaro nem cita, nem escravo nem livre,
mas somente Cristo, que será tudo em todos.
Portanto, como eleitos de Deus, santos e queridos, revesti-vos de entranhada misericórdia,
de bondade, humildade, doçura, paciência.
Suportai-vos uns aos outros e perdoai-vos mutuamente, toda vez que tiverdes queixa contra outrem.
Como o Senhor vos perdoou, assim perdoai também vós.
Mas, acima de tudo, revesti-vos do amor, que é o vínculo da perfeição.
Triunfe em vossos corações a paz de Cristo, para a qual fostes chamados a fim de formar um único corpo.
E sede agradecidos.
(Bíblia - Colossenses 3:11-15).


Conheço muita gente. Me tornei amigo de algumas e o inverso também ocorreu.

Dentre aqueles que tive a oportunidade de acompanhar ou conviver por mais tempo, alguns me surpreendem até hoje pela capacidade conhecida como resiliência. Enfrentam constantemente situações de alta complexidade, sofrem com intensidade e carregam marcas no corpo e na alma. Resistem, ultrapassam e superam.

Me encanta essa disponibilidade para a vida, que até mesmo acontecimentos sórdidos não consegue desfazer.

Ponto em comum que consegui alinhar pela observação e contato foi uma forte carga emocional que tende a ser positiva: veem os acontecimentos como produtores de aprendizado e crescimento pessoal ou como um desafio a ser superado pela fé.

Todos encaram não como super-heróis as situações, não se isolam, buscam na participação de pessoas de confiança o apoio. De certa forma, é esse suporte emocional aliado ao aprendizado anterior que os permite atravessar o momento e a dificuldade sem caírem pelo caminho.

Esse ano, nas postagens de rede social, vi muitos pedidos de amigos que precisavam desse suporte. Enfrentaram situações drásticas que atingiram a si mesmos ou a pessoas muito próximas. E o impacto gerado foi avassalador. Vi, também, o retorno de muitos com palavras de conforto, de incentivo e de solidariedade. E foi com essa ampla rede sustentadora que o dia-a-dia de alguns desses meus amigos foi conquistado e seus males minimizados.

Está até parecendo que estou escrevendo algo como os conselhos que infestam os livros de 'auto-ajuda'. Mas minha meta diverge disso. O que pretendo é demonstrar que cada um tem o enfrentamento necessário para a sua vida. Deve encará-lo singularmente, pois é uma luta pessoal. A rede de apoio é algo a se acessar nos momentos em que a lucidez não é uma companheira. Não é um suporte fixo, onde me jogo e todos me seguram, menos eu.

Creio que o sinal que deve ser dado é: me incentive a ultrapassar; me mostre os pontos fortes que possuo, pois não estou vendo neste momento; amplie minha rede de contatos naqueles lugares que ainda não fiz algum; participe desse momento naquele aspecto em que eu sou imaturo ou sem aliados.

Bem, presença física, em alguns casos é essencial. Mas, talvez, na maioria dos outros, um bate-papo, uma mensagem, uma imagem com mensagem clara relativa à situação, podem ser a melhor opção. Permitem aquela solidão que impulsiona o ultrapassamento.

Acredito que seres humanos são dotados de uma capacidade de enviar pensamentos, sentimentos e outras formas de energia para outros, assim (repito, é uma opinião minha), uma rede de seres desejando intimamente um bem a outro podem influenciar o campo de forças que essa pessoa se encontra e auxiliá-la a atravessá-lo.

Por isso escolhi como tema sustentabilidade. Há um texto bíblico que exorta esta rede com um 'suportai-vos em amor'. E minha turma, rapidamente, passou a usar numa brincadeira, a de ter que suportar um sujeito chato. Mas tive a oportunidade de estudar um pouco mais profundamente o texto e verificar que falava de um conjunto de pessoas que com a manifestação de seu amor formam uma viga de sustentação. Peças em um emaranhado que auxiliam no completar o quebra-cabeça.

Hoje, embora busque até o último momento seguir com minhas próprias forças, não me impeço de recorrer àqueles que confiantemente me permito estar próximo para buscar a crítica, auxílio na elaboração de estratégias de vida para mais uma vez vencer um desafio.

Somos únicos. Indivíduos que nascem e morrem sozinhos. Mas nada nos impede de, ao percorrer este intervalo, nos aliarmos e nos fortalecermos naquilo que cada um traz de melhor em si.

Por isso, desejo que tudo que intento em favor daqueles que amo (dos conhecidos e dos desconhecidos) possa se concretizar: um mundo onde o respeito à diversidade inerente ao ser humano produza a paz.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 26 de dezembro de 2013.

* Notas

29 de jul. de 2013

A vida é como uma casa.

Reconstrução, criado por Wellington de Oliveira Teixeira, em 28/07/2013
Reconstrução, criado em 28/07/2013.

Não brinco, não. Digo apenas o que percebi. O conhecimento pode ser transmitido, mas nunca a sabedoria.
Podemos achá-la; podemos vivê-la; podemos consentir em que ela nos norteie; podemos fazer milagres através dela.
Mas não é dado pronunciá-la e ensiná-la. Esse fato, já o vislumbrei, às vezes, na juventude.
Foi ele que me afastou dos mestres.
(Sidarta - Hermann Hesse, p.118)

Não sei explicar bem. É como se pudesse sentir antecipadamente algo do meu futuro. Fluxos de emoções que tomam corpo e caem como gotas dos meus olhos. Ambíguas, como um quê de tristeza que penetra um momento bom, daqueles que podemos ter após aprendermos uma lição importante e deixarmos para trás um ciclo da nossa vida.

É como quando se consegue ultrapassar um limite, por ter tido a coragem de encarar o desafio, como quando vencemos a covardia que era uma companheira inseparável e nos permitimos lutar, apanhar mas não abrir mão.

Quase como em meio ao deserto, quando já muito sofrido, marcado pelo sol, perdendo as esperanças, surpreender-se ao descobrir que o oásis não era uma ilusão de óptica, mas um lugar para se permitir um pouco de repouso.

Gosto de obras. Pequenas construções e transformações no ambiente em que vivo. Talvez, um pedaço do meu pai que ficou em seus filhos. Aconteceu, esses dias, de ir às compras para o que anualmente me proponho: produzir a chance de renovar meus sentimentos, a forma de olhar e vivenciar o apartamento onde moro.

Dá trabalho, é cansativo, produz irritações, mas, conforme vai aparecendo o resultado o ânimo é refeito e se mantém por um bom período. O olhar ganha aquele brilho especial ao ver o que se renovou.

No hoje, maçanetas novas, estantes para a área de serviço, estruturas metálicas para equipamentos da cozinha... que vão se multiplicando com os sonhos, da mesma forma como foram a (re)pintura dos cômodos, a remodelação dos móveis anteriores - que desmontados deram origem a outros diferenciados e com nova e expressiva camada exterior.

E, num instante para o descanso, quando se para e olha para o que se fez, um sorriso se esboça, um brilho volta ao olhar e mais uma vez a energia recarrega o corpo e a alma porque é hora de aproveitar os frutos do que se plantou.

É isso. Algo simples e corriqueiro, um fugaz momento que se perpetua na alma.

Hoje re[...]assisti ao filme Tempo de Recomeçar. Como sempre, foi o suficiente para eu entender que a minha construção tem duração, mas o que dela for gerado pode ganhar a eternidade.

Sem nem mesmo sonhar com tanto, me satisfaço por me permitir entrever marcas de um possível futuro onde, diante de uma nova etapa de construções, eu possa afirmar a vida e o que ela tem de bom.

A vida é como uma casa*.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 28 de julho de 2013.

* Life as a House (2001 - no Brasil, Tempo de Recomeçar). George Monroe (Kevin Kline) é um arquiteto de meia idade com uma vida amarga que descobre-se repentinamente com câncer incurável. Decide-se por destruir a casa que o pai lhe deixou e construir uma casa para seu filho Sam (Hayden Christensen), problemático, rebelde, usuário de drogas. Aos poucos a construção proporciona a reaproximação com o filho, as pazes com Robin (Kristin Scott Thomas), sua ex-esposa e com vizinhos.

** Dedico esta postagem para a minha mãe Marilda de Oliveira Teixeira e para a Dayla Maria Perrier de Faria Valentim, aniversariantes desse mês de agosto.

15 de jul. de 2013

Nosso interno-ambiente


Conhecimentos, fotografia base: desenho no banheiro do ICHF.*

"Pois então" — pensou —, "já que todas aquelas coisas passageiras me escorregaram por entre as mãos, acho-me novamente sob o sol, sozinho, como nos dias de infância. Nada possuo, nada sei fazer, nada posso realizar, nada aprendi. Não é mesmo estranho? Agora, que já não sou nenhum jovem, que meus cabelos já ficaram grisalhos, que minhas forças diminuem, volto à estaca zero, lá onde estive em criança!" Mais uma vez, esboçou um sorriso. Sim, seu destino era deveras singular. Ele ia abaixo e novamente se encontrava nessa terra totalmente vazio, tolo, desamparado. Mesmo assim, sentia-se incapaz de afligir-se por isso. Antes, pelo contrário, tinha vontade de dar uma gargalhada, de rir-se de si, de zombar desse mundo esquisito, estúpido.
(Sidarta - Herman Hesse, p.81-82)


A novidade é a coisa mais antiga no mundo.

Está na moda o conceito de inovação. Ele carrega em si a ideia de criar algo novo, diferenciado, transformador, ruptor de uma sequência ou de um modo de ser, estar ou desenvolver.

Empresas procuram a preço de outro pessoas com o talento de produzir o inesperado e, para isso, vão buscar em locais ou práticas mais inusitados. Vou propor apenas um exemplo: músicos para empresas de tecnologia. Você deve saber que a Lady Gaga é a nova diretora de criação da Polaroid e que o William Adams, mais conhecido como Will.i.am (do grupo Black Eyed Peas), vai colaborar no desenvolvimento de novas tecnologias da Intel.

Algo estranho, que percebo por trás desse movimento de transformação, é a produção da insaciável sede consumista: o capitalismo vendendo que velho é ruim, novo é bom. Quer saber, o pior é que acreditamos nisso: dizemos que um celular ou laptop de 2 ou 3 anos atrás é uma porcaria.

Na contramão disso, o espanhol Benito Muros está sendo ameaçado de morte por causa de sua criação: uma lâmpada que dura no mínimo 25 anos - que tem por base uma que existe em um parque de bombeiros de Livermore (Califórnia), acesa há mais de 111 anos.

Poucos, talvez, conheçam o conceito, mas a Obsolescência Programada é um acordo de muitos fabricantes para desenvolverem produtos de curta durabilidade de modo a obrigar-nos a adquirir novos produtos que seriam desnecessários se produzidos como antigamente. Você pensa: até aí, tudo bem, tem sempre novidade no pedaço. Mas esquece de que o seu inconsciente absorve, também, esse conceito para as outras áreas de sua vida, inclusive a afetiva.

Apresento de forma não-moralista a questão dos relacionamentos: vejo, a todo momento, imagens e frases nas postagens de redes sociais, nos diálogos ao vivo, que há o desejo de encontrar alguém para amar, para construir um vínculo e (para alguns) constituir uma família e viver uma experiência até a morte como em UP Altas Aventuras. Na prática, apresentamos imagens dos pequenos vôos das baladas, dos encontros fortuitos em finais de semana, dos namoros que duram até a primeira briga e o status do face serem alterados. Essa incoerência surge de onde?

A questão do novo que os negociantes expõe exaustivamente em seus comerciais é a coisa mais velha que o mundo já produziu e se chama transformação: nada se perde, tudo se transforma.

Assim, o inverno dá lugar à primavera, o frio ao calor, a cobra troca a pele e você suas células mortas, as unhas, cabelos... Isso se chama renovação.

Mas a natureza ensina que não é necessário desqualificar o antigo: ele é a estrutura eficaz que permite as mudanças. É na harmonização entre o antes e o depois que se estrutura um presente.

Algumas pessoas optam pelo caminho do monge e se retiram da agitação para meditar. Querem, com isso, não impedir o novo, a novidade de vida, mas melhorar a base deste processo abrindo mão do desnecessário. Isso se chama purificação.

Como eu disse, meu objetivo não é moralização de uma forma de ser social, mas propor uma avaliação dela. A sua própria avaliação. A experiência e a observação ensinam que só precisamos ter elementos que nos ativem a capacidade de pensar, o resto somos nós que fazemos, inclusive trilhar um outro caminho.

Por falar nisso, os antigos chamavam isso de metanóia ou mudança de mente que determinava um novo rumo para a vida.

Viu?, antigos tem muito para a ensinar-aprender com os novos. Essa é a proposição simples e diária da natureza: a busca do equilíbrio.

A palavra que eu queria dizer, que só agora me tomou é transitoriedade. Exatamente o que acontece com tudo. É o Iazul! (Tudo passa!) da história de Malba Tahan**.

Existe algo na ordem do necessário que determina que parte do antigo permaneça no novo e a essa forma de permanência nós humanos aprendemos a denominar de eu. Hora de melhorarmos nosso interno-ambiente.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 15 de julho de 2013.

* Me encanto com a gurizada do ICHF - Instituto de Ciências Humanas e Filosofia da UFF. Essa é uma amostra do que eles produzem por lá e nos incentiva a reavaliar toda a estrutura de conhecimento.

** "Quando o homem atravessa período de felicidade, de alegria, de sorte e tranquilidade, deve pensar no futuro e ser comedido em suas expansões, sóbrio em suas atividades.
Convém que o afortunado não esqueça: IAZUL (isso passa). A roda do destino é incerta. A vida é cheia de mudanças.
Há ocasiões, porém, em que nos sentimos tristes, enfermos, feridos sentimentalmente, caminhando sob nuvens de infortúnios.
Para que o ânimo volte ao nosso espírito, proferimos cheios de fé, fortalecidos de esperança: I A Z U L! Isso passa. Sim, tudo passa.
Virão dias melhores, dias calmos e felizes. A prosperidade e a boa sorte voltarão a iluminar a nossa jornada. A saúde será reconquistada. E a serenidade procurará pouso em nosso coração."