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21 de abr. de 2017

Caçando equinócios

Caçando equinócios, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 21-04-2017.
Caçando equinócios, criado em 21-04-2017.

Fernão Gaivota viveu solitário o resto de seus dias, mas voou pra muito além dos Penhascos do Fim do Mundo. Sua única mágoa não era a solidão, e sim que as outras gaivotas se recusassem a acreditar na glória do voo que as esperava. recuravam-se a abrir os olhos e enxergar.
E ele aprendia mais a cada dia.

(Richard Bach — Fernão Capelo Gaivota, p.26)


Há um certo regozijo, um prazer que foge da narrativa, que não se deixa capturar; que permanece, que se sustenta em si. E só agora compreendo que é ele o que precisa ser reativado, não a sua motivação momentânea.

Adolescente, percebi que para efetivar o prazer dos meus vôos eu precisava detectar e encontrar sua fonte e sua sustentação. Estavam lá, invisível e potente me elevando como pássaro ou avião, identificável, mensurável e fundamental: um outro ar que diferia do que eu respirava, mas alimentava, em determinado nível, a minha alma.

A vida segue. Vias trilhadas não se eliminam ou se reciclam: tristeza ou dor deixam marcas, exigindo ressignificar seu valor para a própria vida sob a pena de ficar aprisionado em suas garras*. Sonhos despedaçam e é preciso, das partes resultantes, se propor a recomeçar ao criar delas um lindo mosaico.

Imagens quase dizem os sentimentos. Palavras quase ocultam os fatos. São como diminutos sinais, que denunciam o que se sente no que é dito. Tentar interpretar esses resíduos ou efeitos de discursos é como enveredar uma trilha escusa dos simulacros. Tem seu valor, mas não apara as pontiagudas arestas na alma, senão quando há disposição pessoal para assimilar e aprender.

Sentimentos são tortuosos em seu fluxo. Aquietar-se permite o instante necessário para deixar reduzir a potência inicial da tormenta que o capturou. Se antes eu buscava o vento que sustentaria a minha asa, hoje eu atento para a minha respiração e nada mais: acima de tudo, a vida me percorre e eu posso refazer minhas fontes, gerar novos sentidos, produzir outros encontros e, neles, novas formas de ser feliz.

Continua doendo, mas vai ficando menos intenso, deixa de tomar toda a minha atenção, e libera as sombras que encobriram o meu olhar, à pouco. Tem um horizonte, sim. Veja só! Vênus está se erguendo marcando um outro equinócio, onde o dia e a noite ganham a mesma duração. Frio e o calor se sucedem e nos ensinam a entender a vida em seus poderosos, opostos e, por vezes, furiosos fluxos. Na transição de um ponto a outro, o equilíbrio renasce no momento de iniciar uma nova estação, mas exige desprender-se e fluir, corpo e alma.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 21 de abril de 2017.

* Espanta o estado atual em que o sofrimento alheio é relegado ao nível da chacota. O mundo está gerando seres deprimidos, com promessas de felicidade duradoura — apenas até a próxima edição ou versão de felicidade duradoura, a ser conquistada (leia-se, comprada).
Uma expectativa de onipotência proclamada por palestrantes dos empreendedorismos, pagos a peso de ouro, frustrada na semana seguinte. Relações pessoais que emergem e se desintegram na mesma proporção: fantasias falaciosas que se desfazem na primeira discussão.
A estagnação e o ressentimento, após tanta fé investida de forma infrutífera, estão colonizando as almas. A maré da medicalização, que alavanca os lucros farmacêuticos em forma de dependência química das tarjas-pretas, se expande inexoravelmente. Até a inquietude natural das crianças é rotulada de 'transtorno'.
Suicídio não é algo banal. A inexistência de qualquer elemento sustentador da vontade de viver é escandalosamente preocupante. Ignorar o contexto em que são produzidos um número imenso deles é mais do que imbecil. É cegueira opcional.
Não vou citar nenhum filósofo ou pensador. Não necessito. Só é preciso que você pense nas vezes em que se entristeceu para valer, quando nada deu certo e o desespero bateu a sua porta.
Sua ação é fundamental para reverter o quadro. Inicie com propostas colaboracionistas, participativas, inclusivas. Isso, por si só, abre portas para encontros potentes para a transformação pessoal e coletiva.

10 de abr. de 2015

Estrelas-guias geram buracos-negros

Estrelas e buracos, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 10-04-2015.
Estrelas e buracos, criado em 10-04-2015.

Uma sugestão: promova boas recordações, se permita um pequeno túnel do tempo onde você resgate dos acontecimentos o poder que eles possuem de serem eternos em seus efeitos; faça isso sem abdicar dos novos acontecimentos que o cercam no exato momento em que você viaja ao passado. Como? Conte uma história de vida para alguém, uma que o inspire a ir adiante. O que você vive pode ser exclusivamente seu, mas pode efetuar muito mais quando compartilhado.
(Wellington de Oliveira Teixeira — Saudosismo ou saudade*)


São tão estranhos esse amor com desejo de infinitude, essa vontade poderosa de alcançar o inominável e reconstituir as teias do destino, essa forçada quietude da fala — expressa com o silêncio, mas soando alto e ecoando sem fim na cabeça e no coração.

Por que, em zilhões de estrelas-guias, justamente a ordem foi para a minha se desfazer e gerar em mim um buraco negro por pulsar seu brilho e calor onde jamais voltará a ser vista por quem mais a desejava ver?

Saudade e dor jamais deveriam formar par, deveriam ser proibidas de emitir seu gélido sopro e assentar moradia em qualquer canto da alma, não deveriam poder instigar o voo sem conceder uma par de asas.

E eu fico aqui, um terráqueo engolidor da água salgada que foi destilada no fundo da alma, que por pressão interna extravasou e escorreu na face que mirava o horizonte perdido em busca do perdido para o horizonte.

Imagino que talvez algum novo tipo de sonho permita coincidências. Quem sabe do meu com o seu? Quem sabe esses nossos corpos sonhadores encontrem-se por aí, numa esquina do universo?

Até lá, breve ou nunca, vou mirar o vazio que ficou no céu enquanto ele se manifestar em mim, vou imaginar o improvável e quase impossível reencontro enquanto encontro nas marcas do corpo e da alma os signos de sua passagem tão radiante em minha vida.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 10 de abril de 2015.

* A citação é um trecho do texto Saudosismo ou Saudade que encontra-se completo nesse blog no endereço http://bigwzh.blogspot.com.br/2014/04/saudosismo-ou-saudade.html

14 de nov. de 2014

Potências muito subutilizadas

Potencias subutilizadas, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 10-11-2014
Potencia subutilizada*, criado em 10-11-2014.

Julia nunca se perguntava por que coisas ruins aconteciam com pessoas boas, pois já sabia a resposta: coisas ruins aconteciam com todo mundo. Não que isso servisse de desculpa ou justificativa para fazer mal a outro ser humano. Ainda assim, todos tinham uma experiência em comum: a do sofrimento. Ninguém deixava este mundo sem verter uma lágrima, sentir dor ou navegar pelos mares da tristeza. Por que a vida dela deveria ser diferente? Por que ela receberia um tratamento especial, privilegiado? Até Madre Tereza sofreu, e ela era uma santa.
(Sylvain Reynard — O inferno de Gabriel, p.186)


Muitas vezes ignoramos que o sofrimento é um ponto de convergência da raça humana: todos sofrem. Gostamos de pensar que se formos bonzinhos não teremos castigos - e isso é até verdade, nos termos corretos -, só que avaliamos erroneamente o processo imensamente subjetivo da dor e dos valores.

Há muitas formas de não sofrer: há aqueles cujos corpos respondem quase que insensivelmente aos estímulos mais fortes; há os que estão em um nível mental onde as invasões são praticamente inexistentes; há os que se fecharam emocionalmente e, talvez, até tenham perdido a chave para a reabertura; há os que cauterizaram sua consciência.

Há muito mais formas de sofrer: diariamente morremos um pouco, nos incapacitamos fisicamente um pouco, fazemos investimentos que não nos trazem retornos, projetamos futuros e nos decepcionamos, somos envolvidos em situações que nos constrangem, nos sugam a individualidade e a alma.

Há a dor dos desesperançados, dos mutilados, dos enlutados, dos desenganados, dos mal amados, assim como a dos juízes do alheio, dos mantenedores dos ódios, dos insufladores de guerras pessoais ou globais, dos ressentidos…

Não gostamos dos nos incluir, mas todos, absolutamente todos desenvolvemos um pouco de tudo isso - é o nosso processo de evolução pessoal.

Talvez por isso, geneticamente estamos predispostos à sensibilidade ante o sofrimento alheio. Ele reflete o nosso, e, quando intervimos para minimizá-lo, fazemo-lo diretamente nos ajudando. Queiramos ou não há uma boa dose de egoísmo nesses atos: ficamos satisfeitos ao agir desse modo. Não desqualifique esse elemento: egoísmos tem matizes boas e ruins, dependendo da intensidade com que se efetua.

Seu dia está ruim? O período não está favorável, o mar não está para peixe? O fruto de seu intenso e esperançoso plantio não corresponde com uma breve e farta colheita? Isso faz parte do processo de aprendizado e aperfeiçoamento pessoal, não é castigo, não é lei do retorno às avessas. Chega o momento em que o peso que você ergue se torna leve e é necessário aumentar a carga. Isso tem consequências dolorosas, também, mas o fortalece e o capacita a uma nova fase bem mais ampla que a anterior.

Então é isso, solidarize-se com o sentimento e sofrimento alheio, mas não se perca nele. Avalie os seus, mas sem fazer comparações, uma vez que cada um tem seus próprios desafios. O caminho de hoje pode ter o sol iluminando um dia ameno e prazeroso, o de outro dia ser extremamente frio ou quente e desagradável ou incômodo. Mas você está lá, vivo, com possibilidades só suas desejando serem atualizadas e vividas plenamente.

No fundo, é sempre muito bom quando alguém percebe suas lutas e é capaz de se aproximar para, apenas com sua presença, partilhar seu momento e estimular suas capacidades de superação. A humanidade tem potências muito subutilizadas, mas estão lá, latentes, aguardando sua ida à fonte delas para dotá-lo de poderosos instrumentos de transformação. Como sempre, basta apenas uma decisão.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 14 de novembro de 2014.

* Muitas filosofias, inclusive as de cunho religioso, tentam dar contar da questão da dor em forma de sofrimento. Aprecio aquelas que tentam encaminhar a questão por um prisma de construção e desenvolvimento pessoal, especialmente aquelas que tentam estruturar sua lógica invadindo os elementos causadores: há os que produzem bem ou mal, dependendo das condições momentâneas e dosagem, mudando completamente o entendimento da questão e tirando o foco do 'coitado' para o do 'focado', isto é, o modo como encaramos as questões é que causa o sofrimento, não qualquer coisa em si.

26 de set. de 2014

Reações ou redemoinhos

Redemoinhos, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 26-09-2014.
Redemoinhos*, criado em 26-09-2014.

Não ter mais alguém muito querido fisicamente presente
não nos impede de recordar e celebrar o tempo compartilhado.
Fazê-lo, com gratidão pela oportunidade que nos foi permitida do convívio,
honrará o sentimento que temos, acalmará nossa saudade,
e perpetuará as marcas deixadas em cada um de nós.

Wellington de Oliveira Teixeira


Uma questão aflorou hoje: se não somos iguais, por que esperar as mesmas reações de outra pessoa?

Há sempre um modo inusitado de reagir capaz de surgir, dependendo das circunstâncias, pelo modo como os fatos embolam dor e algo planejado para adiante. Há momentos em que sonhos e medos se reúnem num único instante numa combinação explosiva que não exige vazão imediata ou nos desagregarão.

Presenciar ou vivenciar algo assim traz de imediato a imagem de um redemoinho que pegou alguém e lhe retirou a noção de espaço e tempo, desfazendo, por alguns instantes, a própria personalidade.

Refazer-se após a reviravolta é de suma importância. Também o é, situar-se com calma e ir se fortalecendo diante dos elementos disparadores, até conseguir superá-los. Um processo assim, tão dolorido, certamente não é simples, por isso não se deve exigir a mudança de imediato.

Um tempo ou dois é o necessário para se reelaborar, gerar outras referências e reprogramar-se. Entenda que é preciso ter serenidade e saber que, pouco a pouco, o rumo da vida retoma, e se consegue ir em frente, realizar os sonhos, mesmo que não da maneira desejada de início. Não é sempre assim nesta vida?

Mas devemos sempre entender que poderá haver muitas outras surpresas ainda. Momentos felizes ou tristes sempre nos encontrarão e precisamos nos preparar para curti-los ou enfrentá-los.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 26 de setembro de 2014.

* Envolver-se é algo lindo, mas cobra seu preço: podemos ser tomado por um redemoinho de emoções.

28 de jun. de 2014

Pode ser dolorido


Monstro ctônico, criado em 28-06-2014.

Na mitologia grega, ctônico (do grego χθονιος khthonios, relativo à terra ou terreno)
liga-se aos deuses ou espíritos do mundo subterrâneo, por oposição às divindades do Olimpo.
Refere-se mais ao interior do solo que à sua superfície (γαιη gaia ou γε gê) ou à seu território (χορα khora)
e alia os conceitos de abundância e sepultura.

(com base na Wikipedia)


Ela me pegou e passou a noite comigo. O nome dela Cefaleia. Ironia à parte, interprete isso como fui acometido por uma dor de cabeça.

Evito usar qualquer droga farmacêutica, então, recorri a um chá quente de erva-doce (era o disponível). Aspirei seu ar quente, usei um pano para segurar a chícara quente e o usava na área entre os olhos tentando dilatar os vasos sanguíneos e relaxar.

Como muitos sabem, dor não combina com conhecimento (evasivo, ele sai pela lateral). Hora de recordar algo sobre áreas e tipo de sintomas, não consigo. Recorro ao São Google (dar três pulinhos estava inviável!), que me mostrou em imagens que o mais próximo era a tensional. Me acorreram as velhas lições sobre psicossomática. Ri. Tenso se tornou meu novo sobrenome, já há algum tempo.

Adentrando a madrugada, resolvo ceder e utilizar algo. Não encontro. Queria perguntar 'Onde você colocou a dipirona, Beto Lobo?', mas o sujeito já estava abraçado e de caso com o Morpheus.

Então tento pano com álcool. Após rolar muito na cama, o corpo pede o arrego. Tenho que levantar. Buscar distrações tanto quanto o possível. Por isso estou aqui, depois de ter limpado utensílios da cozinha, desenhado, deitado e levantado algumas outras vezes.

Nessas tentativas de reduzir a atenção para a dor, alcanço as 5 horas e o cansaço fala bem alto. Vontade imensa de conseguir descansar, esfriar a cabeça (quase um trocadalho), esquecer um pouco. Mas, com tantas questões, não dá. A simples aceitação de que, se chega a se manifestar no corpo, é porque seus recursos se esgotaram não foi eficiente. Nem suficiente.

Os olhos começam a fechar sozinhos. O corpo entra no limiar em que nem a dor o impede de ir apagando. Evito reagir. Melhor aproveitar a oportunidade e tentar, mais uma vez, deitar e relaxar. Quem saber cochilar?

Funcionou. Agora, pela manhã, resolvo revisar e complementar o texto. É preciso aprender com todas as situações. Me sensibiliza, como em ocasiões semelhantes (meu histórico com dores, em particular as de ouvido, preenche um livro), imaginar o quão sofredor pode ser a vida daqueles que a vivem constantemente. Uma dor crônica e recorrente que apenas drogas de ação potente permite apaziguar um pouco.

Com esse alerta, avalio que a realidade não confere com o que supomos: na vida, o normal não é sempre dar tudo certo, o dia ser lindo e feliz, saudável, etc.

Quanto ao lidar com o acúmulo de questões, bem, isso fica para uma outra ocasião. Vamos aproveitar um pouco a distração: começou o jogo do Brasil e Chile, e vou torcer para passarmos juntos dessa fase.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 28 de junho de 2014.

* Ctônico: http://pt.wikipedia.org/wiki/Ct%C3%B3nico
** Perceba como as vivência modificam nossa percepção e produção: abaixo a imagem original feita na hora da dor, do meu monstro ctônico. Avaliando a transformação, reaprendo que, após a tempestade, tudo merece receber uma reavaliado.

*** Para minha satisfação, foi dolorido, mas graças ao Julio Cesar e à trave, passamos.

11 de jun. de 2014

Gritar o indizível

Indizível, criado por Wellington de Oliveira Teixeira entre 10 e 11-06-2014.
Indizível, criado entre 10 e 11-06-2014.

A arte é uma forma de o ser humano expressar suas emoções, sua história e sua cultura
através de alguns valores estéticos, como beleza, harmonia, equilíbrio.

(MEC — Arte na Educação de Jovens e Adultos)*

Não é que eu me arrependi, eu tô com vontade de rir;
Não é que eu me sinto mal, eu posso fazer igual.
Não é que eu vou fazer igual: eu vou fazer pior!
(Nem sempre se pode ser Deus — por isso que estou gritando.)

Não é que eu passei do limite, isso pra mim é normal;
Não é que eu me sinto bem, eu posso fazer igual.
Não é que eu vou fazer igual: eu vou fazer pior!
(Nem sempre se pode ser Deus — por isso que estou gritando.)

(Titãs - Nem sempre se pode ser Deus)


Não se cala à toa.

Forças incomensuráveis impedem o grito de escapar

dos recônditos da alma, sussurrar aos ouvidos da própria vida.

Constituídos os dóceis domesticados a sufocá-lo:

engolimos a dor para, em silêncio, digerí-la.

E a vida, que por muito espremida,

num supremo desespero, quer-se ainda:

se infiltra e constrói a rebeldia,

de cada ato ou expressão produz a súplica

para que a arte grite por nós

o indizível.

[pra ninguém ouvir.]

Wellington de Oliveira Teixeira, em 11 de junho de 2014.

* A publicação dedicada a orientação dos que trabalham com arte no EJA está disponível em
http://portal.mec.gov.br/seb/arquivos/pdf/eja_arte.pdf

4 de jun. de 2014

Intrinseco

Intrínseco, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 03-06-2014.
Intrínseco, criado em 03-06-2014.

Intrínseco pode ser definido como o que está no interior, no âmago, no íntimo;
profundamente inerente, imanente, inseparável e constitutivo
e que é essencial para sua existência.


A Física teórica moderna […] colocou nosso pensamento acerca da essência da matéria
num contexto diferente. Ela desviou nosso olhar do que é visível — as partículas —
para a entidade subjacente, o campo. A presença da matéria é
acidental, poder-se-ia dizer, um mero 'defeito'. Assim, não existem leis
simples que descrevam as forças entre as partículas elementares.
[…] A ordem e a simetria devem ser buscadas no campo subjacente.

Walter Thirring — Urbausteine der Materie, p.160
(citado por Fritjof Capra - O Tao da Física p.163)


Somos formados por diversos elementos combinados em função de arranjos únicos num determinado complexo que constitui-se num espaço-tempo. Em nível probabilístico, um impossível de se repetir. Não por impossibilidade de clonagem ou reprodução como variável industrial, mas por conta dos invisíveis constitutivos de uma psiquê.

Exclusividade é uma característica da alma.

Em algum momento da vida, acontece de permitirmos um composto aditivo, uma recombinação, ao permitirmos um entrelace, em nosso âmago, com algo que é diverso de si mesmo. Às vezes, a impressão é de ser tomado. Essa química que ocorre — e há quem defenda ser supervalorizada pela reação que acontece no cérebro —, estranhamente se manteve nos últimos séculos posicionada no coração.

Só que o encantamento não necessariamente é relativo aos relacionamentos humanos, não! Há aqueles que em sua profunda conexão com a Ordem universal se redefinem. Outros, tomados por causas consideradas de grande magnitude, refazem o percurso de suas vidas.

Amar é algo que promove transcendência e, por um feliz contrassenso, torna-se o que há de mais intrínseco em alguém.

Quem vive relacionamentos profundos, em escalas e modos diversos, sabe que o amor em si — se é que tenha existência sem um ser — se afirma neles. Possivelmente, por isso, se diz que um pedaço foi arrancado de si, na ausência do promotor deste amor.

A dor como lição, nessa hora, remete ao ensinamento Zen: Você pode produzir o som de duas mãos batendo uma na outra. Mas qual é o som de uma das mãos?

Wellington de Oliveira Teixeira, em 03-04 de junho de 2014.

* Há quem torne-se intrínseco à nossa vida, não podendo mais ser retirado sem que haja falência do ser: uma consequência da eternidade do amor.

2 de mai. de 2014

A mensagem do pombo correio

Pombo correio, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 02-05-2014
Pombo correio, criado em 02-05-2014.

Solte-me para que eu possa voar por terras longínquas
onde há campos, árvores e montanhas verdejantes; flores, fontes e florestas:
um lar além do horizonte.
Pombo correio a voar além dos sonhos há muito esquecidos.

(tradução livre do trecho de Skyline Pigeon - Elton John*)


Uma vez citei a forma como as pessoas assimilam músicas que tocam a sua alma transferindo-as para as suas relações pessoais, referindo-me a um costume entre pares de namorados. Não me ocorreu, na época, um outro uso. Um que me foi revelado apenas hoje, por conta de um depoimento feito por um sobrinho para seu tio que havia falecido.

Meu filhote Claudinho narrou o momento quando Paulo Roberto o ensinou a primeira música em inglês que havia aprendido, com isso, reproduzindo nele a mesma experiência - já que foi, também, a sua primeira.

A música é um fio condutor do espírito, produz um nível de sensibilidade cujo espectro ultrapassa palavras. Porém, o que me sensibilizou tanto não é o fato de que a experiência tenha se reproduzido ou que seja a primeira. É a disponibilidade em uma relação familiar para partilhar vivências e abrir portas novas, ocorrendo entre um tio e um sobrinho.

O convívio com os meu sobrinhos é uma das coisas na vida que mais me dão prazer. Para nós, brincar, discutir, analisar faz parte de todos os nossos movimentos juntos. Sempre um movimento aberto para a franqueza e compartilhamento dos fluxos de alma.

No caso do Claudio, a recordação acontece após cerca de 40 anos daquele movimento conjunto e, na narrativa do meu amigo, tornou-se aquela que retornou, no momento da morte do tio.

A letra da música, certamente, tinha correlação com o momento. No entanto, não creio que apenas isso bastaria - há tantas outras que falam do mesmo tema -, uma marca assim se aprofunda e só ganha sentido com a maturidade, com o entendimento de que os momentos são fugidios, evaporam facilmente. E aqueles momentos que não trazem algo para o nosso caminho se perdem pela estrada.

Desejei retratar a mensagem da música com um quadro com traços claros e fundo bem definido: um pombo voando pela linha do horizonte. E foi o que eu fiz. Isto é, até que reli o depoimento de despedida. Na dureza de um sentimento de perda, a dor muitas vezes se escamoteia em palavras exatas, traduções rígidas e, com isso, perdemos a aura poética, espiritual e emocional que sempre ronda a questão vida e (vida-pós) morte.

Voltei ao projeto e o refiz utilizando de aquarelas e movimentos sinuosos - como são os nossos caminhos de vida, como são os nossos pensamentos em momentos como esse, como entendi ser o intento dele ao utilizar de um instrumento de expressão de si para os familiares (muito além do de para si mesmo). Escolhi, para manter o mesmo grau de inferência, refazer a tradução feita por ele da música. E os correlacionei. Desejei reafirmar o seu entendimento de que hoje é o dia em que ele [o tio] pode estender suas asas e voar novamente.

E o que era para ser apenas uma postagem na rede social, generalizou-se, tornou-se um motivo de questionamento e, por isso, um texto do Ser Pensante. Explico. É aqui que eu penso o mundo que meu mundo produz, sob a única e exclusiva ótica que eu tenho: eu mesmo.

Mas saliento (e digo isso com toda a clareza, pois meu filhote sabe) porque ele sempre é parte do meu mundo: simplesmente doeu em mim, também.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 01-02 de maio de 2014.

* Os trechos da música utilizados aqui são:
Turn me loose from your hands Let me fly to distant lands
Over green fields, trees and mountains, Flowers and forest fountains
Home along the lanes of the skyway

For just a Skyline Pigeon Dreaming of the open
Waiting for the day He can spread his wings And fly away again

Fly away, skyline pigeon, fly
Towards the dreams You've left so very far behind.


a música encontra-se disponível em: http://letras.mus.br/elton-john/64492/

17 de abr. de 2014

A arte de dividir-se

Dividir-se, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 16-04-2014
Dividir-se, criado em 16-04-2014.

Não se descobre o absurdo sem ser tentado a escrever algum manual de felicidade. "Mas como, com umas trilhas tão estreitas?" No entanto, só existe um mundo. A felicidade e o absurdo são dois filhos da mesma terra. São inseparáveis. O erro seria dizer que a felicidade nasce forçosamente da descoberta absurda. Ocorre do mesmo modo o sentimento do absurdo nascer da felicidade. "Acho que tudo está bem", diz Édipo, e essa fala é sagrada. Ela ressoa no universo feroz e limitado do homem. Ensina que tudo não é e não foi esgotado. Expulsa deste mundo um deus que nele havia entrado com a insatisfação e o gosto pelas dores inúteis. Faz do destino um assunto do homem e que deve se acertado entre os homens.
(Albert Camus - O Mito de Sísifo)***

Exemplos diários de dissociação incluem veículos de comunicação destacando estresse pós-traumático de soldados que retornam de guerra, vítimas de estupro acometidos de amnésia sobre os detalhes e, na Justiça, o problema de definição de responsabilidade sobre os atos, nos casos de Transtorno Dissociativo de Identidade (múltiplas personalidades). **


Alguém pode me dizer como se faz divisões sem que haja resíduos, sobras, restos? Imagino que é por causa deles que, durante a noite, meu cérebro não pare (mas será que algum momento ele para?).

Um pedido: não me fale de consciente e inconsciente. Pelo amor de Freud! Quociente é o resultado da divisão. E se os sujeitos não são inteiros, vai sobrar para alguém um resto. Geralmente, amargo para engolir.

Quando alguém me diz que tem que dividir-se em dois para dar conta de suas tarefas, eu entendo. A figura propõe multiplicar ou dobrar a capacidade de resolução. E quando alguém me diz que está dividido, eu entendo. A figura propõe menos da metade da capacidade.

Ilógico? Pode ser, mas eu lhe garanto que a atenção de uma pessoa que está dividida não atinge a metade exata de suas tarefas, uma recebe menos que a outra de maior interesse. Essa é uma avaliação de senso comum, isto é, não está embasada na exatidão ou cientificidade. É uma atestado de sua existência por detecção e comprovação de um fato: é algo que acontece, realmente.

Imagine os alunos e trabalhadores que estão doidos para irem embora, na véspera do feriadão (é o seu caso?). A menina ou o menino que, em vez de realizar suas tarefas, divaga. Bem, aqui a divisão do tempo parece se prolongar, demora a passar, os ponteiros do relógio não estão favoráveis ao resultado desejado.

O que me provoca nesse processo é o fato de sermos capazes de produzir um outro de nós mesmos — ou algo muito próximo disso — nessas horas. Há pessoas que são capazes de repetir o que estavam dizendo, mesmo com a atenção totalmente fora de onde estavam. Outros, como em reuniões decisivas, que enquanto ouvem um argumento, já estão estruturando os contra-argumentos necessários para outra situação - simultaneamente. Fisicamente muito distantes do lugar em que estão o pensamento e a emoção: dissociados.

Buscando formulações menos avançadas, estou pensando especificamente em como fico dividido, em alguns casos, para tomar decisões. A velha e já manjada briguinha entre razão e emoção. É que estar de fora de uma situação dessas facilita o olhar mais frio e crítico. Mas estar dentro… bem… não é nada fácil.

Uma hora ou outra, estaremos contra a parede, com a corda no pescoço, pois não dá para ser um joão-bobo ou o grande boneco inflável que se mexe ao vento ('bonecão do posto tá maluco, tá doidão'!). Situação em que, não fosse o sofrimento estampado, seria risível.

Todo mundo sabe como pode ser paralisante esse embate dentro de si. Afinal de contas, ninguém quer perder ou se machucar. E a matemática da divisão diz que ela é o contrário da multiplicação e representada por uma fração. Ninguém quer ficar fracionado.

Já viu um divisor de sinal de antena? Ele tem uma entrada e várias saídas. E tem uma tarefa ingrata. Sua função é potencializar o sinal que cada saída receberá para não degradar a imagem resultante, mais ou menos o milagre da multiplicação.

Enquanto não houver uma rachadura completa ou uma soldagem bem feita, vale as tentativas. Dessa vez vou tentar uma 'viagem astral'. Meditar e ir aonde meu coração manda. Não vou contestá-lo. Mas, depois, vou segurar a onda com a minha razão. Ela sempre corre atrás da emoção, no meu caso, apesar de toda a minha racionalidade.

Então tá decidido: o jeito é equilibrar a situação porque se eu não tomar um partido, acabarei partido, igual a esse texto. O pior é que já tem muitos pedaços que restaram de outras divisões espalhados dentro de mim.

É preciso ser um artista para se manter inteiro, não é? Alguém tem um cola-tudo para emprestar?

Wellington de Oliveira Teixeira, em 17 e 18 de abril de 2014.

* Sobre divisão matemática, leia:
http://educacao.uol.com.br/disciplinas/matematica/divisao-o-inverso-da-multiplicacao.htm
http://pt.wikipedia.org/wiki/Divis%C3%A3o

** A Ação de dissociar na
Física: Desagregação de moléculas.
Química: Decomposição reversível dos corpos.
Psiquiatria: Ruptura da unidade psíquica, que constitui um dos principais sintomas psicóticos, notadamente da esquizofrenia. (Amplie seu conhecimento em http://www.psicosite.com.br/tex/sod/dis003.htm)

*** CAMUS, Albert - O Mito de Sísifo - http://www.planonacionaldeleitura.gov.pt/clubedeleituras/upload/e_livros/clle000131.pdf

15 de abr. de 2014

Eu queria que o tempo pudesse voltar dessa vez

Tempo, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 15-04-2014.
Tempo, criado em 15-04-2014. (clique para ampliar.)

Eu te desejo muitos amigos (mas que em um você possa confiar) e que tenha até inimigos pra você não deixar de duvidar.
Quando você ficar triste, que seja por um dia e não o ano inteiro, e que você descubra que rir é bom mas que rir de tudo é desespero.
Desejo que você ganhe dinheiro - pois é preciso viver também - e que você diga a ele (pelo menos uma vez)
quem é mesmo o dono de quem.
Desejo que você tenha a quem amar...

[Amor pra recomeçar - Barão Vermelho]

Não preciso de modelos, não preciso de heróis. Eu tenho meus amigos e quando a vida dói eu tento me concentrar num caminho fácil.
Sou eu mesmo e serei eu mesmo, então. E eu queria que o tempo pudesse voltar dessa vez.

[Comédia romântica - Legião Urbana]


Hoje, eu estava lendo uma postagem no facebook da Margareth Marcelo, onde havia uma reclamação em relação às viradas de tempo. Eu me solidarizo com a questão que ela apresentou. Para ser bem sincero, cada vez que o tempo vai mudar, meu corpo antecipa e reage com rinite alérgica. Não é nada, nada bom! Mas, como cantavam The Fevers na música Mar de Rosas, Nem sempre o sol brilha, também há dias em que a chuva cai. O jeito é relaxar e beber água. Mas uma cervejinha ou um vinho também caem bem. Para falar a verdade, cerveja combina com todos os tipos de tempo. Se fosse música eu diria 'em qualquer dia, em qualquer hora…".

Percebi que estou recorrendo a tudo quanto é música que eu recordo. Música me faz bem. Música me ajuda a superar alguns momentos, reavivar outros, imaginar vários.

A primeira música que ganhei de alguém — um costume, da época, de ter uma trilha sonora com alguém de quem você gostava (amor ou amizade!) — foi Your Song interpretada pelo Al Jareau. Digo até hoje: totalmente deslumbrante e mágica e a melhor música da minha vida! Pudera: a letra é do Sir Elton John e a voz é a de alguém cuja garganta era considerada uma orquestra completa pelos críticos de todos os estilos (assita os vídeos pelos links para ter a noção do que digo). À Valéria Thuller minha gratidão eterna por ter me acordado às 06h da manhã e me feito escutar ao telefone a versão de estúdio dessa música (And you can tell everybody, this is our song).

Mas, como dizem, águas passadas não movem o moinho. Então, prossigo recordando na trilha da minha vida outras músicas maravilhosas (aproveite para recordar a da sua vida!). Faz muito bem e ajuda a perceber que as coisas mudam, a vida segue adiante, o sofrimento passa - como tudo na vida.

Mas, sabe quando bate aquela pontada estranha, exatamente naquele dia que estava nublado mas resolveu trocar a trilha para 'Deixa chover, deixa a chuva molhar…', ou 'chove chuva, chove sem parar…'? Pois é, fui sorteado. Inundou lá dentro e acho que vi um monstrinho se aproximar da superfície.

Vou preparar uma massa no capricho, selecionar um vinho levemente frutado e me permitir saboreá-los assistindo a um bluray no meu novo home theather (é bom ser carinhoso consigo mesmo) para superar, novamente, o que me incomoda. Mas nada de afogar as mágoas.

Nem sempre, mas hoje eu desejei cantar como o Renato Sou eu mesmo e serei eu mesmo, então. E eu queria que o tempo pudesse voltar dessa vez.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 15 de abril de 2014.

* Al Jarreau - Your Song.
Versão de estúdio: https://www.youtube.com/watch?v=9tmsOJyRR94
Ao vivo! está disponível em https://www.youtube.com/watch?v=OH7xg5Eoi2E&feature=kp

14 de abr. de 2014

Quando a vida se desbota

Desbotando, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 14-04-2014.
Desbotando *, criado em 14-04-2014.

Mas quando a noite chega e eu não tenho mais pra quem fingir, só eu sei o que isso dói.
Eu te vejo sorrir demais e esse olhar que pode tudo.
E eu nem sei se acho graça ou não, porque eu sei, eu sei que lá no fundo,
sempre que a noite chega e você não tem pra quem fingir
Sempre que a noite chega, você queria tanto alguém igual a mim.
E a gente acaba a noite sempre assim:
bebendo orgulho e solidão, chorando em frente a televisão, mantendo silêncio pra ninguém ouvir.
Pra ninguém ouvir. Shh…

(Silêncio - Heróis da Resistência)


Quantas vezes você já viu fotografias do amanhecer? Geralmente, apresentadas com frases que realizam uma ode ao dia ensolarado que se inicia, definido como um espetáculo da natureza. Evidente que a luz tem um poder incrível de avivar as cores e suas tonalidades, destaca inclusive as áreas sombreadas. Em muitos, produz, também, o mesmo efeito nas emoções.

Quem já apreciou um aquário de peixes ornamentais provavelmente vai lembrar de como as cores de um peixe embelezam determinado local. Os que são iluminados, mais ainda.

Não sou biólogo, mas já aprendi que, no mar, quanto mais profundo se vai mais escassa é a iluminação, assim, deve ser extremamente difícil avaliar a coloração dos peixes - se é que ela existe.

Carl Jung também considerava esse fato com relação à psique e questionava: de quais instrumentos dispomos para alcançar determinadas áreas dentro de nós mesmos nesta busca da compreensão de quem somos e o que desejamos? O quanto eles podem colaborar para destacar os elementos encobertos até mesmo de nossa consciência?

É preciso ter clareza de que há diversos níveis de situações. Em algumas delas devemos ser bastante cuidadosos, inclusive buscar ajuda profissional para encará-las. Uma delas é quando ocorre níveis crescentes de depressão.

Se eu tivesse que explicar depressão, sem usar os termos mais específicos, diria que é um processo que ocorre e reduz, em nós, os sentimentos positivos em relação à vida; desbota o colorido que embelezava as coisas ao nosso redor. E, mesmo que esteja tudo maravilhoso, não conseguimos compartilhar dos sentimentos de todos. Nos tornamos um peixe sem cor no aquário.

Nas várias vezes em que me dispus a participar de um processo colaborativo ou psicoterápico, me deparei com a mesma questão: é importante não complicá-lo, mas é preciso facilitá-lo sem banalizar.

Se encontro questões mais superficiais - no sentido de apreendidas com mais facilidade - no dia-a-dia, evito utilizar de instrumentos padrões. Para que 'psicologizar' nesses casos? Todos podemos fazer um exame das situações que vivemos; compartilhar questões que nos afligem; evitar enfrentamentos desnecessários; cuidar melhor de nossa saúde física e mental por meio de atividades físicas e recreativas. Estes são instrumentos que podem ser considerados terapêuticos numa forma ampla.

É porque eu gosto quando as pessoas encaram suas dificuldades e tentam por si mesmas ultrapassá-las que incentivo esse posicionamento perante a vida. Tenho consciência do poder que cada um possui de se construir e reconstruir e sou coerente com esse raciocínio. Colaboro na avaliação da situação e deixo o barco seguir seu rumo: em um mar tão grande, é quase impossível não haver peixes para pescar.

Sou muito fã das relações de amizade, mas avalio que sejam um suporte maravilhoso, desde que por alguns momentos. Processos de dependência nunca devem ser encarados como benéficos. Divida as suas questões mas não aceite ficar na situação de 'coitadinho'. Pena pode ser o pior sentimento que alguém lhe dedique.

Crie coragem, pegue seus pincéis e vá colorir a sua vida!
Wellington de Oliveira Teixeira, em 14 de abril de 2014.

* Para ver detalhes do peixinho, clique na imagem.

12 de abr. de 2014

Desistências

resiliência, criado em Wellington de Oliveira Teixeira, em 12-04-2014
Resiliência, criado em 12-04-2014.

Denyel foi arremessado à goela do monstro. Farejou seu odor nauseante […] estava condenado, mas resistia. Deu cotoveladas e socos.
[…] Quando a bocarra se expandiu, Denyel tomou uma atitude impensada. Sem mais pedras para jogar, enfiou a mão na jaqueta e arremessou tudo o que guardava nos bolsos. […] O querubim achou que seria morto em seguida, no entanto o tentáculo afrouxou. Surpreendentemente, o corpo do monstro se agitou numa tremedeira […]tornou a se espremer, descendo ao abismo da escuridão infinita, uma passagem aberta para o universo sombrio.

(Eduardo Spohr — Filhos do Éden 2: Anjos da morte, p.450-452)

Vejo pessoas que tornam-se dependentes de obter soluções imediatas, senão jogam fora ou abrem mão. Entendo essa atitude ser fruto de uma sociedade consumista que incentiva usos temporários e rápidas desistências.

Muito se diz sobre a capacidade humana de superar. Dentre as maneiras de exaltar a resiliência está uma que propõe, para além de superar uma questão, ser capaz de reconstruir, refazer, reestruturar determinados aspectos ou partes perdidas.

Declaro-me fã deste determinado modo de entender a potência desse processo: mais do que apenas ficar de pé em meio à tempestade, tornar-se capaz de inventar - com o que disponível estiver - escudos protetores para continuar caminhando, seguindo em frente, alcançando mais um trecho para alcançar seu objetivo.

Quase sempre, quando proponho essa forma as pessoas (a maioria discretamente) dão um risinho. Não me parece ser de deboche, apenas manifestação involuntária a uma certa ingenuidade minha. Só que, nas várias vezes que busquei refazer o processo de entendimento e achar as brechas, não as encontrei. É possível. É viável. É factível.

Bem, sendo assim, por que as pessoas consideram ingenuidade? Será que o sofrimento vai deixando resíduos, que aos poucos se acumulam e produzem resistência no sentido contrário, isto é, a busca de evitar os enfrentamentos? Porque é isso o que acontece.

Uma vez eu ouvi a expressão 'tiraram o meu chão', em outras 'estou no fundo do poço' ou 'não tenho mais forças para tentar'. A impotência que elas carregam não é pequena, não é desconsiderável. Manifestam um estado ou condição humana onde a esperança se desfez, a visão de algo além se nublou, um estado emocional de esgotamento. Não à toa, pessoas assim precisam de ajuda especializada, inclusive os próprios especialistas que não estão imunes ao processo por contaminação.

Nessas horas, em vez de me focar no processo global eu me permito indicar soluções muito particularizadas e parcializadas: não tente resolver tudo de uma vez. Encontre aquele pequenino aspecto em que você ainda se proporciona um pouco de felicidade e use-o como escudo inicial. Ilumine ao redor dele outros. É como ir ao cinema com um amigo e depois passear na praça, na praia. Um prolongamento do momento bom. Isso é como formar pilares para que você possa colocar uma tampa no seu poço que, de placa em placa, vai cobrindo toda a sua superfície. Não tente encher o poço - ele é profundo. Basta tampar a sua abertura externa, construir uma ponte que o permita atravessar essa profundidade. Se você reforçá-la, diariamente, aos poucos nem notará mais que ficou detido por ela, anteriormente.

Somos seres individualmente muito incríveis. De uma potência maravilhosa. O exercício do enfrentar nos empodera mais, nos fortalece mais.

Eu descobri, também, que produzir novos encontros abre novas possibilidades, compartilhar questões permite que escutemos a nossa própria voz, deixar o sofá ou cama e caminhar faz bem.

Bem, essa é a minha visão. Há outras.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 12 de abril de 2014.

* Eu ri quando terminei a revisão do texto. Ficou parecendo texto de autoajuda. Que seja!

2 de abr. de 2014

Pontos & Perspectivas

Pontos e perspectivas, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 31-03-2014
Pontos e perspectivas, criado em 31-03-2014.

Pense em Adão e Eva como um número imaginário, como a raiz quadrada de menos um:
a gente nunca vê uma prova concreta de que ele existe,
mas quando incluímos esse número nas nossas equações,
podemos calcular todo tipo de coisa que seria impossível imaginar sem ele.

(Philip Pullman - A bússola de ouro p.341 *)


Preciso encontrar um ponto de equilíbrio, aquele que aprendi e construí como conhecimento. O problema é que, quando penso que me aproximei, ele se distancia e tenho que recomeçar do zero a busca. Fico distante.

Pois bem, eu gosto de caminhar à beira-mar e não sei bem o porque de não estar me proporcionado isso, atualmente. Sendo um pouco mais honesto, há muito tempo. Fico olhando apenas as luzes distantes, tanto que são apenas pontos na escuridão. É que as pessoas ligam as suas lâmpadas em casa durante as noites. Esse exercício está tão constante nesses últimos dias que até as distinguo das que são de postes. E olha que eu estou muito, muito longe. De mim.

Acho que estou procurando, também, uma bússola. Não a de ouro do Philip Pullman. Se bem que eu gostaria de ter um Dimom (daemon) - a personalidade de alguém que assume formas de animal - que compartilhasse pensamentos e sentimentos e me acompanhasse por aí. Quem sabe, assim, a loucura de conversar comigo mesmo incansavelmente me parecesse menos grave. Insano.

É que ao se chamar alguém assim cria-se um paradoxo: um sujeito (de)mente não seria o mais sóbrio e racional, em sanidade? Julgo que as áreas 'psi' ainda não chegaram a um acordo sobre o que é e o que não é, estão meio borderline, limítrofes ou fronteiriças. Não conseguem ultrapassar a questão e entrar para valer no novo território. Será que é por que quem foi não quis voltar ou fica como um iô-iô, num vai e volta constante? Retorno.

Talvez, apenas aprendendo a caminhar circundando a realidade, sempre retornando ao mesmo ponto, consigamos maiores esclarecimentos sobre o que se vivencia. Mas isso soa tanto repetição que me incomoda. Não gosto do andar circular. A expressão circular por aí me incomoda, prefiro um andar por aí, não é direcionado previamente. É que eu me esqueço algumas vezes de que não preciso apenas andar num círculo, posso fazer uma espiral ascendente. Com isso, mesmo que percorrendo o mesmo ponto posso estar num outro nível e avaliar sob uma nova perspectiva. Prospecção.

Ter um olhar dito mais profundo, que examina mais cuidadosa ou atenciosamente os fatos é o que me proponho todas as vezes que virtualizo meus pensamentos e sentimentos. Será que a natureza humana aprende com o universo que tudo é compartilhado equilibradamente? Bem, talvez eu esteja apenas esquecendo dos problemas que ocorrem quando um item da equação (talvez a sinalização de igual) se perde na formulação. Igual ao que me fez começar a escrever depois de desenhar. Projetar.

Um projetor é sempre alguém que tem uma proposta de iluminar algo ou dar conta de alguma questão. O exercício de projeção auxilia quando é preciso dar um tempo a si mesmo, colocar para fora algo e, ao vê-lo projetado, visualizar com mais clareza a situação em seu todo. Nem sempre dá certo, por conta do aprisionamento a ela ou do sofrimento que produz. Aí não tem jeito. É preciso retornar ao início porque é

[Preciso encontrar um ponto de equilíbrio…].

Wellington de Oliveira Teixeira, em 02 de abril de 2014.

* A Bússola de Ouro é o primeiro livro da trilogia de ficção Fronteiras do Universo (os outros são A Faca Sutil e A Luneta Âmbar), escrita por Philip Pullman. Publicado em 1995 no Reino Unido, traduzido em 2007 aqui no Brasil. Um ponto importante é a crítica à dominação por meio da religião, representada pelo Magisterium.
** É importante notar que o título original da trilogia His Dark Materials remete à matéria obscura (matéria escura ou matéria negra) que só pode ser inferida a partir de efeitos gravitacionais sobre a matéria visível, como estrelas e galáxias. Pullman epigrafa seu livro com um trecho do Paraíso Perdido de John Milton, Livro II: "[…] A não ser que o poderoso criador lhes ordene Seus materiais obscuros para criar mais mundos,[…]"

(http://pt.wikipedia.org/wiki/His_Dark_Materials)
(http://pt.wikipedia.org/wiki/Mat%C3%A9ria_escura)

1 de abr. de 2014

Silêncios impostos

Covas profundas, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 31-03-2014
Covas profundas, criado em 31-03-2014

Os feiticeiros dizem que estamos dentro de uma bolha. É uma bolha em que somos colocados no momento de nosso nascimento. A princípio a bolha está aberta, mas depois começa a fechar-se, até nos ter trancafiado dentro dela. Essa bolha é a nossa percepção. Vivemos dentro dessa bolha toda a nossa vida. E o que presenciamos em suas paredes redondas é o nosso próprio reflexo.
(Carlos Castaneda - Porta para o infinito p.222)

Há, contudo, resistências a essas competentes produções de subjetividades, tentativas de se forjar e produzir territórios singulares.
[…] Duas categorias são produzidas e muito disseminadas nesses anos no Brasil: a do subversivo e a do drogado, ligadas à juventude da época. A primeira é apresentada com conotações de grande periculosidade e violência, visto ser uma ameaça política à ordem vigente; deve ser identificada e controlada. Tal categoria vem acompanhada de outros adjetivos, como criminoso, traidor, ateu, o que traz fortes implicações morais. O subversivo não está somente contra o regime, mas contra a religião, a família, a pátria, a moral e a civilização. Está contaminado por “ideologias exóticas”, por mandatários de fora.

(Cecília Maria Bouças Coimbra - Práticas 'Psi' no Brasil do 'milagre': algumas de suas produções***.)


Tentativas de esquecimento forjam no porão da alma silêncios impostos, nascimento e crescimento de monstros que fermentam pesadelos novos.

Cavernas cavadas como covas profundas escondem o grito contido, o soluço impedido e a pele lacerada.

Vento frio e cortante provoca o espirro febril e constante. As máscaras que asfixiam e se fixam nos fios da vida, esgarçados.

Velozes imagens na mente. O olhar é distante e ausente.

Sorrisos embotados, sentimentos embolados, sentidos massacrados. A aspereza dos sentimentos pendentes pede à vida um cuidado urgente.

Ferozes imagens dementes. O olhar é distante e ausente.

Da tortura e amigo distante, investiu em cabeças pensantes. Da vivência brutal, degradante, produziu pensamentos brilhantes.

Resistindo a quem mata ou prende apertando no corpo a corrente, até hoje é quem luta e defende a memória do amigo ausente.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 31 d março de 2014.

* Dedico com um carinho imenso à Cecília Maria Bouças Coimbra, que ultrapassou a Ditadura no Brasil. Sua prática como psicóloga, ex-presidente do Grupo Tortura Nunca Mais-RJ, professora da Universidade Federal Fluminense, minha orientadora na monitoria e pesquisa deixaram marcas e memórias belíssimas em mim.

** O desafio de tentar uma nova forma para descrever o sofrimento que a ditadura causou me assustou, novamente.

*** O texto completo encontra-se disponível em http://www.cliopsyche.uerj.br/livros/clio1/praticaspsinobrasildomilagre.htm

26 de mar. de 2014

Sinalizando mudanças

Wellington de Oliveira Teixeira
Foto para o jornal Sete Dias, 07-03-1982 *.

Olhar as águas de um riacho, sentí-la, vivê-la,
é uma forma de se receber energias bio-físicas e se reencontrar consigo mesmo.
Espero vencer na vida, conseguir um emprego, vencer as barreiras que me esperam,
mas nunca perderei minha identidade humana.
Wellington de Oliveira Teixeira, em 07-03-1982.

Não dê as costas a possíveis futuros antes de ter certeza de que não tem nada a aprender com eles.
O que a lagarta chama de fim de mundo, o mestre chama de borboleta.

Richard Bach - Ilusões - As aventuras de um Messias indeciso


Alguns pensamentos me contagiam, talvez porque possibilitam a inversão de um modo de encarar determinadas questões. É o caso do que definimos como fim.

Se nos permitirmos o cuidado de analisar, o ponto que finaliza uma frase é o mesmo que já possibilita o início de outra.

Por algum motivo o fechamento não ocorre, a questão se estende para uma perda, suscita em nós um certo saudosismo, a vontade de não abrir mão. Em qualquer dos casos, produz acorrentamento. Selecionei uma palavra forte, não é? Mas, não se iluda, ela representa muito bem a cadeia de pensamentos que nos obriga a manutenção e impede o afastamento ou desligamento.

Nem tudo, porém, deve ser visto como impeditivo, uma vez que a capacidade de referenciar-se está ligada à retenção de alguns aspectos importantes da vida. Assim, ao se guardar um acontecimento ou experiência passada, sustentamos o bom ou mau sentimento que nos proporcionou: isso é o que podemos chamar, em sentido amplo, de aprendizado emocional ou intelectual.

Dou exemplos: todos conhecemos o uso como gíria da palavra legal (legal, cool, nice, do inglês). Alguém sabia que 'legal' vem do inglês do século XII, e significa tolo ou estúpido? Como eu disse, as coisas se transformam e o novo modo pode suceder ao uso que era comum, até mesmo o padrão assumido. Pense, então, no uso da palavra 'sinistro', que foi febre há algum tempo atrás, no Brasil, ou o irritante 'tá ligado?' carioca. Em breve outros termos ocuparão seu lugar.

Quando pararmos de encarar os términos como negativos, poderemos absorver um encantador conceito: desenvolver-se é ultrapassar o limbo das repetições e buscar o novo, o diferencial ou as mudanças. É ir adiante carregando apenas o que se conquistou que nos fortalece. É avançar.

Talvez, fim seja apenas isso: a marca da transição.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 26 de março de 2014.

* Essa é a primeira vez que publico essa foto e o trecho da primeira entrevista que dei na vida, para o jornal Sete Dias, quando passei em primeiro lugar para o curso de Psicologia da UFF, há 32 anos atrás. Muitas coisas mudaram, inclusive eu mesmo. Mas meus ideais conseguiram superar o tempo.

22 de abr. de 2012

Dizer sem palavras?

M3P turbilhão, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 19/07/2007
M3P turbilhão, criado em 19/07/2007
A gente está um pouco só no deserto.
- Entre os homens também, disse a serpente.

(O Pequeno Príncipe - Antoine de Saint-Exupéry)

Quando não sei dizer com palavras, fico buscando uma imagem dentro de mim.

Ela tem que vir à tona, alcançar a superfície e se transferir para um arquivo de computador.

O motivo? Não sei bem. Tento muito poucas vezes explicar. Um possível poderia ser o fato de que gosto de alcançar as pessoas e, quem sabe, lhes dar um momento de contemplação de si mesmas: só por torná-las um pouco mais felizes, eu me sinto também assim.

Espero que o tempo não tenha apagado as boas marcas da história de nossa amizade em você, porque na superfície do meu coração elas continuam muito claras:

Amigos São Amigos Pra Sempre!

Estou aqui e, quando você sentir necessidade, ao seu lado.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 19 de julho de 2007.

*Imagem e texto enviados para Marcelo Mendonça Pereira, músico e grande amigo.

19 de dez. de 2011

Sugado

Cupido
Cupido dobrando seu arco*

Novo mundo - grande horizonte
Abra os olhos e veja que é verdade.
Novo mundo - do outro lado das assustadoras ondas azuis
(David Wilcox))

A dor, a saudade, a sensação de solidão, sentimentos partidos, a vontade imensa de rever. A lista pode prosseguir tão facilmente que assusta.

Sim, estou discorrendo sobre o término de um relacionamento. Talvez, após a perda considerada sem retorno, a forma de luto mais difícil para o ser humano enfrentar.

Claro que, como para tudo, há uma solução. Ou várias. Qual delas se aplicará e imprimirá a marca desejada para mente e coração voltarem a conviver em paz, e permitirá a liberdade do espírito que foi aprisionado?

Meu guri, sobrinho emprestado há muitos anos, está vivendo uma experiência assim. Ele acha que estou longe dele, que não o apoiei quando me enviou uma mensagem sms solicitando força.

E é aqui que a experiência de vida nos orienta a dar os passos. Envelhecer nos dá uma noção de espaço-tempo um pouco mais ampliada. Uma pequena elevação na qual subimos e avaliamos o campo abaixo: ambos os lados e o centro; distâncias e passos a serem dados, por qualquer dos lados; uma análise um pouco melhor do campo de forças existente.

Mas, não existe remédio para a dor, quando se acredita em falta. Pode colocar um F maiúsculo nela, pois é capaz de eliminar as conquistas, as forças absorvidas, os momentos felizes como um buraco negro das galáxias que retira toda a luz do seu redor como um campo magnético imenso puxando tudo para o seu interior faminto.

Meu menino está se sentindo assim: sugado.

Para ele, a questão está apenas ali. E ele não é diferente da maioria, nesse caso.

Mas essa frase anterior é apenas quase verdadeira, pois o meu guri é alguém extremamente diferenciado em suas práticas de vida. Escolheu caminhos que o fortaleceram como ser pensante, como ser social, como ser espiritual e que o encaminharam para um patamar de nível superior: a produção de sua vida influi diretamente na de muitos, sua energia se amplia e alcança mundos que são desconhecidos por ele, como certamente milhões de pessoas diriam se o tivessem conhecido e sabido dos investimentos que fez na ordem do desconhecido - aquela ordem em que a fé é suprema.

Mas é quase impossível para ele nesse momento ampliar seu olhar e aplicar a Visão (têm olhos, mas não vêem). Se o fizesse teria avaliado o momento como todos os outros vividos - nenhum é melhor ou pior do que outro - se o encarar como um desafio de vida. Desafio que ele buscou, ao seguir a meta do aperfeiçoamento.

Insensibilidade não é o que eu estou passando. Ao contrário, estou me empenhando em descobrir as formas de transmitir-lhe a forma dele mesmo obter energia extra que o fará conseguir ultrapassar não apenas esse momento, mas todo e quaisquer outros que venham ao seu encontro.

Como ser pensante que é, meu sobrinho não está passando pela vida: ele a vive intensamente. Intensidade essa que o atravessa agora e o potencializa para aprender com o campo dos encontros.

Silêncio pode ser uma grande arma para quem ama utilizar. Mas em outros momentos é preciso expressões manifestas. 'Vôe por todo o mar e volte aqui pro meu peito...' um trecho da música O Vento, do Jota Quest, em que a banda registra em poesia cantada essa questão é um exemplo de a dor gerando algo bonito que ultrapassa o momento e atinge milhões de pessoas, numa sequência exponencial.

A força que cada um possui depende de aonde é aplicada. Muitos demolidores aprenderam isso na prática. Viram o desafio gigantesco ruir aos seus pés, com aplicação nos pontos certos da carga explosiva que possuem. Tudo tem seu calcanhar de Aquiles. Basta avaliar e achá-lo.

Mas um processo assim não merece ser interrompido, nem mesmo atrapalhado com uma força externa. Estragaria o poder do aprendizado, a alegria da vitória e colocaria em outras mãos o troféu.

Sei disso e ajo da maneira que considero melhor. Um poderoso silêncio que carrega uma intenção inflexível de colaborar com a grande ordem do universo a fim de que todo o campo de energia ao redor dele colabore (algum tempo atrás ouvi a expressão 'conspirar' para isso) para que esse guerreiro saia do campo de batalha vitorioso e certo do aperfeiçoamento conquistado junto com a energia de vida que o potencializará para enfrentar os próximos desafios.

A você, meu querido Francis Lauer** (Santa Maria - RS), meus melhores pensamentos, sentimentos e ações.

Aguardo para ouvir, com alegria, a história de sua superação.

Meu abraço afetuoso e meu intento de que você Caia na PAz! (Amor e Entendimento!!!)

Wellington de Oliveira Teixeira, em 19 de dezembro de 2011.


* Cupido dobrando seu arco, cópia romana de um original grego atribuído a Lisipo, Musei Capitolini, Roma.

** Nos áureos tempos do mIRC (dinossauro das mensagens instantâneas, de hoje), participávamos de salas de bate-papo que discutia o mundo desconhecido, invisível, espiritual. E dele, naquela época apenas um gurizinho, recebi bons textos e pude compartilhar boas conversas. Até hoje não tivemos a oportunidade de um encontro pessoal, mas isso não impediu a grande amizade que se desenvolveu.

21 de jul. de 2011

Pais e filhos (Pais, não andem abraçados com seus filhos)

Hulk foi criado em 1962 por Jack Kirby e Stan Lee.
Hulk foi criado em 1962 por Jack Kirby e Stan Lee.

Pais, não andem abraçados com seus filhos:
o ódio pode cegar os intolerantes e vocês podem ter seus corpos mutilados e suas orelhas decepadas.
Eles têm olhos mas não vêem e, no mundo de hoje, a aparência é a única coisa que importa.
Homens abraçados? Gays.
Destruam-nos!
(Wellington de Oliveira Teixeira - Ser Pensante by Well)

Me diz, por que que o céu é azul? Explica a grande fúria do mundo...
É preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã,
Porque se você parar pra pensar, na verdade não há.
(Pais e Filhos - Legião Urbana)

Um simples gesto de afeto entre pai e filho motivou o espancamento. Os dois estavam abraçados quando foram cercados pelos jovens.

“Passou um grupo perguntando se a gente era gay. Eu falei que não. Falei que, como nós vamos ser gays se somos pai e filho. Aí os caras ficaram bravos: não, vocês são gays, vocês são gays”, relatou o autônomo de 42 anos, que é de Vargem Grande do Sul.

O grupo foi embora, mas voltou logo depois. Eles foram abordados novamente com violência, recebendo chutes e socos. O filho teve ferimentos leves e o pai foi espancado.

“Quando eu começei a acordar, escutei gritar: ele está sem orelha, ele está sem orelha”, disse.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 21 de julho de 2011.

* O trecho apresentado é uma reprodução do texto que se encontra em http://eptv.globo.com/noticias/NOT,3,31,359532,Cameras+flagram+discussao+entre+agressores+e+vitimas+de+homofobia+em+Sao+Joao+da+Boa+Vista.aspx

14 de jul. de 2011

Vazio, suspiros e saudades

Vazio suspiros e saudades criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 05/07/2011Vazio, suspiros e saudades, criado em 05/07/2011

Se um dia você for embora
Não pense em mim, que eu não te quero meu
Eu te quero seu

Se um dia você for embora
Vá lentamente como a noite que amanhece
sem que a gente saiba exatamente como aconteceu

Se um dia você for embora
Ria se teu coração pedir, Chore se teu coração manda,
Mas não esconda nada que nada se esconde.

Se por acaso um dia você for embora
Leve o menino que você é

(Meu Menino - Nana Caymmi*)

E, num instante, você partiu.

Não sei dizer o quanto isso me partiu, naquela época.

Eu era um daqueles que apostam nos sonhos, dos que acreditam que o amor completa todas as coisas, assim como nos completa.

Me vi diante dos pedaços de mim, sem ter como alterar os fatos.

Era tudo parte do inexorável poder do necessário da ordem dos acontecimentos.

Mas quem disse que adolescentes acreditam em consequências? Perigo? Jamais!

Tudo estava dentro daqueles desejos, por mais absurdos que fossem, por mais desesperantes nos momentos em que apareciam, por mais febril que nos deixassem durante as noites insones entrecortadas de vazio, suspiros e saudades.

Fazer loucura era normal. Expor-se além do necessário, trivial. Tudo valeria a pena para aproximar-se. Encontrar era muito.

Gato e rato. A fuga era um brinquedo perverso e a adrenalina subia tanto que não havia como fugir de tentar novamente.

Hoje, após tantos anos, um que de saudosismo bate à porta. E, apesar do que poderia imaginar, não quero abri-la: todas as feridas saram, os ossos calcificam, o coração volta a bater com outra cadência, por outro alento e por novas questões.

Ainda assim, não creio que devo abandonar as memórias, impedir os sentimentos de me inundarem por alguns momentos e transbordarem por meus olhos ausentes da vida cotidiana. Isso faz parte dessa coisa chamada amor.

E todo amor é pra sempre.

Até poderia ter dito "isto é, o amor verdadeiro", mas não acredito em nenhum outro tipo.

E daqueles que se foram para sempre - não importa para qual distância ou a quanto tempo - me permito que a alma me inunde. Revivo a força do encontro e dos muitos momentos partilhados.

É que um pouquinho de paz é necessário para vivermos uma vida plena e todos os que nos tornaram um pouquinho melhores merecem ser recordados com aquela tranquilidade linda que só os que respeitam a vida podem se permitir. E também ofertar.


Wellington de Oliveira Teixeira, em 14 de julho de 2011.

* Obrigado a você, Dê, por ter me ensinado a apreciar a Nana e a preferir o amor que cuida.

15 de jun. de 2011

O choque

O choque, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 14/06/2011
O choque, criado em 14/06/2011

Não estejais inquietos por coisa alguma;
antes as vossas petições sejam em tudo conhecidas diante de Deus pela oração e súplica, com ação de graças.
E a paz de Deus, que excede todo o entendimento,
guardará os vossos corações e os vossos sentimentos em Cristo Jesus.
(Bíblia - Filipenses 4:6-7)

O dia-a-dia é aquele mestre que prega peças em seus alunos: de vez em quando dá uma prova surpresa e, é claro, pega quase todo mundo desprevenido.

Em alguns momentos, faz-nos sentir que as portas começaram a se fechar, as cores a desbotar e a vida a murchar.

É algo muito estranho: o positivo pode tornar-se negativo e, com isso, levarmos um choque.

Bichos soltos esse tal de medo, essa tal de insegurança. Bicho estranho esse tal de humano.

É... um dia de tristeza é algo assim.

Mas dias tristes são normais, tanto quanto os felizes. Aprendemos com os dois tipos. É meio estranho o fato de ser típico acabarmos destacando apenas os tristes.

Mas, de repente, basta um pouco de esforço nosso para que pareça que a porta começou a se abrir, a luz começou a brilhar e aquela flor a florecer.

Descobrimos que somos mais do que pensamos e que podemos ir além.

E a vida entra nos trilhos, a caminhada prossegue.

Sorrindo? Ainda não, mas quase.

Um esboço já vale a pena: é suficiente para nos encorajar e para despreocupar os que estão ao nosso redor buscando nos fazer sentir melhor.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 15 de junho de 2011 .

* Para o meu irmão, Beto Lobo, que está aprendendo a ver a mão de Deus e a Sua ação nos fatos de sua vida diária.