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30 de mar. de 2015

Reavaliar antes de revalidar

Avaliar—Revalidar criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 30-03-2015.
Avaliar—Revalidar*, criado em 30-03-2015.

Seja pontual ou contínua, a avaliação só faz sentido quando leva ao desenvolvimento do educando.
(Cipriano Carlos Luckesi — UFBa)


Não é porque a prática de limpar os dentes com uma certa planta foi entendido como benéfico e adotado por uma sociedade, tornando-se uma tradição, que deveremos continuar repetindo os mesmos procedimentos. Somente ao se entender seu sentido — a higiene bucal é saudável — será possível avançar para novas e mais eficiente e saudáveis práticas que esta.

Uma questão importante a se desenvolver é que referências para a vida podem se tornar aprisionamento. Práticas imutáveis são como o gesso em uma perna fraturada, cuja função reparadora ocorre apenas durante um determinado tempo e, quando não retirado, incomoda, impede os movimentos, podendo gerar algo pior.

As tradições, assim como algumas rotinas que adotamos, carregam um aprendizado prático, especialmente as relacionadas ao convívio humano. Seu uso tem seu motivo e importância. Porém, mais importante que repetir uma prática é compreendê-la. Entender o sentido que lhe deu origem em determinado contexto, o motivo de sua adoção, no momento em que se formou, e sua atual utilidade.

Ao conseguir efetuar tal raciocínio, será possível fazer a apropriação das lições que carregam e desenvolver novas práticas que ampliem futuros e diferentes aprendizados pessoais ou sociais.

Nenhuma tradição vale por si. Assim como os aprendizados pessoais podem ser desenvolvidos, conforme o indivíduo alcança maior maturidade, toda e qualquer regra de prática de vida precisa ser reavaliada para que possa ser revalidada.

Do contrário, indivíduos e a sociedade conseguirão apenas engatinhar. Não há desenvolvimento quando a pessoa se recusa a deixar sua alimentação ultrapassar o leite materno. O resultado, que se evidencia diariamente, são indivíduos fragilizados, facilmente controláveis, presos ao seu estágio emocional, psicológico e espiritual mais primário.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 30 de março de 2015.

* Avaliar é:
  • Diagnosticar — determinar o nível atual de desempenho do aluno;
  • Qualificar — o que será necessário ensinar, no processo educativo;
  • Desenvolver — produzir continuamente ações visando alcançar os resultados esperados: que atividades, em que sequência, quais instrumentos, inclusive avaliativos para cada etapa.

7 de jul. de 2014

Um ideal de convivência

Silhueta,  criado por Wellington de Oliveira Teixeira entre 04 e 07 de julho de 2014
Silhueta, criado entre 04 e 07 de julho de 2014.

Os homens devem moldar seu caminho.
A partir do momento em que você vir o caminho em tudo o que fizer,
você se tornará o caminho.

(Bushido O Código Do Samurai – Daidoji Yuzan)


Silhuetas me fascinam, especialmente quando o foco central está bem protegido por sombras. Não gosto, do mesmo modo que na fotografia, do preto e branco apenas. A opção por uma tonalização monocromática permite iluminar e sublinhar a diferença entre os detalhes de cada elemento.

Minha busca de aprendizado encaminhou-me à milenar arte japonesa — volto para lá meu olhar em busca de inspiração. Não é a primeira vez. Comecei a avaliar esses elementos, me prendendo à ideia subjacente ao Último samurai de buscar a perfeição em cada gesto, sem pressa, cercando ritualmente de beleza os pequenos detalhes da vida. O, literalmente caminho do guerreiro, Bushido *.

Prática que também capturou meus sentidos em História de um gueixa, quando o duro aprendizado dos cerimoniais de relacionamento se elevavam a níveis da sedução artística — onde cada quimono, gesto ou toque recebia uma ornamentação merecedora de ser considerada obra de arte. Alí, o que não se mostra ou o é feito de forma muito sutil e parcial é o que se valoriza.

A busca por algo semelhante — já afirmo que não me atreveria jamais a correlacionar meus desenhos àqueles — me conduziu por uma demorada jornada. Exigiu jogar fora versões belas e interessantes por estarem ainda impregnadas de ocidentalismos. Meu ponto de partida real foi um pensamento — mais para intuição — de que não um elemento, mas a justaposição entre eles deveria criar o sentido de completude. E comecei a retirar dos aproximadamente vinte quadros anteriores os elementos que os sustentavam e a reuní-los como em um quebra-cabeças de modo que as transições fizessem sentido.

O porque de me dar tal trabalho é simples: há muitas peças soltas, pontas que sobram e não encaixam na vida de cada um de nós e, geralmente, permitimos que assim continue — parecem não atrapalhar.

Questões que só surgem quando o atrito ocorre, quando uma sobra impede o encaixe perfeito e o encontro não se sustenta mais por si mesmo, como a queda de um alinhamento de cartas ou dominós. É preciso desfazer o trançado da tapeçaria, retornar ao ponto, desfazer a diferença e voltar a tecer tudo novamente.

Parece-me com um pedir desculpas que, sendo aceito, proporciona um novo início, uma nova tentativa de percorrer o mesmo caminho (agora sem a rusga que o tornava impróprio).

Não entendo de ideogramas, também não entendo muito alguns dos gestos das pessoas ou meus, mas eu sei que eles estão imbuídos de grandes significados e carregam em si esperanças e desejos.

Busco então desembaraçar os fios, me permito a delicadeza de cada gesto para não estragar ou arrebentar a linha: tentar desembolar sem partir e sem emendar.

Convivência deveria ter esse sentido, também. Deixar de seguir adiante, se é preciso retornar e corrigir. Não por sentido de culpa, mas por ser a chance de construir algo mais forte, por proporcionar paz aos encontros posteriores. Por realizar uma potência que cada encontro permite de ser uma bela obra de arte — que, mesmo demorando para ser construída, representa o ideal de um relacionamento pleno e feliz.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 07 de julho de 2014.

* O link abaixo, de acordo com informações que recebi, são anotações simplificadas, mas facilitam bastante o entendimento desta prática tão antiga e distante da ocidental.
http://pt.wikipedia.org/wiki/Bushido

23 de abr. de 2014

Ladrilhos e fragmentos


Ladrilhos, criado em 22-04-2014.

Parte da genialidade de Einstein consistiu em perceber que embora as colisões ocorram com muita frequência,
como as moléculas são muito leves, colisões isoladas não têm efeito visível.
As mudanças de direções observáveis só ocorrem quando, por pura sorte,
as colisões numa direção particular forem preponderantes[…].
Quando einstein fez as contas, descobriu que, apesar do caos no nível microscópio,
havia uma relação previsível entre os fatores[…].

(Leonard Mlodinow - O andar do Bêbado: como o acaso determina nossas vidas, p. 178)


É possível não se gostar da ideia, mas somos um apanhado de ladrilhos sobrepostos em uma superfície que não é plana, nem um pouquinho, e, por mais que a gente queira, não se complementam bem. Tem tortuosidades, reboco aparente, partes descascadas, infiltrações e tudo o mais que garante a não homogeneidade, apesar de a apresentarmos como tendo.

Como o núcleo da terra, estamos em ebulição constante que liquidifica todo o material absorvido e o transforma, com um gasto considerável de energia.

De vez em quando, a mistura não se dá facilmente e ocorrem reações turbulentas que, de tão violentas, extravasam à superfície. Exatamente como os vulcões. Conforme o tempo passa, a massa se esfria e solidifica, criando uma nova carcaça. Assim se transforma a face visível.

Essa é a versão natural dos acontecimentos. Excepcionalmente, porém, esse processo também acontece provocado por tempestades emocionais que remexem com nosso conteúdo interior como num caldeirão de bruxa. Por ser um processo súbito, os raios de grande intensidade e velocidade penetram a superfície e, como os que provocam as trovoadas ensurdecedoras, atraem a nossa atenção.

Dependendo da capacidade de administrar suas consequências — um processo que pode ser demorado, doloroso, mas sempre revelador — a descaraterização da superfície ocorre e alguns não se reconhecem mais. É o surgimento de um novo eu, fundido como ferro ao fogo.

O que revelará, só se mostrará após o tempo de resfriamento. Para quem é cuidadoso consigo mesmo, talvez (quem sabe?), se houver dedicação cuidadosa ao processo de aparamento das arestas e polimento de sua superfície, a modelagem possa ser realizada de acordo com o perfil que sua vontade determine.

Em todos os casos, não há retorno quando acontece. A transformação ocorre e os ladrilhos se modificam, ou se perdem.

Somos um mundo rico em transformações de microescala. Fragmentos copiando a ordem natural da natureza cósmica. Afinal, nossas partículas não são tão diferenciadas de nós perante o todo.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 22 de abril de 2014.

Vulcanismo é um fenômeno geológico que ocorre do interior da Terra para a superfície, quando há o extravasamento do magma em forma de lava, além de gases e fumaça e é resultado das características de pressão e temperatura contidas no subsolo.
(Brasil Escola)

Por se tratar de um processo que ocorre em uma escala temporal mais lenta, durante o processo de fragmentação natural as espécies tendem a se adaptar às transformações da paisagem; em contrapartida com o forte aumento do intensivo processo de fragmentação gerado pelas atividades humanas, a perda estrutural e qualitativa de habitat tem aumentado o número de espécies ameaçadas.
(R. B. Primack - Essentials of conservation biology)

10 de jan. de 2013

Germano ou o germinar de uma amizade

Germano Sá-Britto, Capão da Canoa em 31/08/2012
Germano Sá-Britto, Capão da Canoa em 31/08/2012


porque o tempo de uma vida não basta para se viver uma amizade.
Amigos são amigos para sempre.*

Coisas passíveis de transformação, aos poucos podem ir ganhando um status de permanentes e o tempo perde a capacidade de corroer, o caso da amizade.

Vamos, primeiramente, esclarecer um pouco a questão: sonhei que escrevia para ele. Seria algo pleno para mim, até sonhar novamente. Se repetiu-se, é que algo ainda não foi resolvido, adequadamente.

Sei que é um pouco inconveniente isso de se começar dando explicações. É como querer se justificar por fazer algo que se quer. Algumas vezes utilizei esse recurso, talvez pela falta de confiança em mim mesmo. Mas não é esse o caso, agora.

Esse gaúcho, na foto, de sotaque e práticas desconexas é um menino-homem historiador. E, desse modo, construiu a sua história comigo: trocando histórias de vidas.

Ao fim de minha jornada de trabalho, que coincidia com término de suas aulas, ficávamos nas redondezas da UFF matando a fome, a sede, e a vontade de prosear. Pizzas marcaram nossos encontros, assim como, em algumas ocasiões, cervejas. Porém, mais importantes foram as análises de pensamentos, de projetos e de práticas da vida. Essa convivência, por fim, tatuou minha alma de forma indelével.

Ao terminar a sua graduação, questões de busca de melhores oportunidades profissionais que as do Rio, projetaram a sua ida para São Paulo. Claro, precedida de alguns encontros muito interessantes, inclusive pela dificuldade relativa aos ônibus nas madrugadas (apelidados de sereno). Valia a pena.

Dificuldades iniciais marcaram sua chegada ao outro estado. E, durante um longo período, um certo silêncio marcou nosso espaço. Mas os recursos virtuais começaram a proporcionar uma certa reaproximação. E, com isso, outras histórias alcançaram meus olhos e ouvidos e trouxeram um pouco de alegria à minha saudade.

Na vez passada, as coisas estavam mais bem organizadas, seus projetos com mais certezas que dúvidas e me pareceu que suas vivências paulistanas estavam refletindo nos seus atos mais segurança. Como sempre, mais um bom encontro.

Mas o garoto que havia nele tinha uma questão ainda a resolver e precisava de uma participação minha. E, até hoje fico a pensar na escolha que fiz. Talvez, a preocupação de não construir nenhum obstáculo ao nosso espaço ou o medo de uma mudança nos nossos costumes - sei lá o quanto mais pesou na resposta - pode ter criado algum obstáculo para o fluxo contínuo de nossa alma: uma certa falta de coincidência de práticas históricas e atuais comportamentos parece ter retirado um pouco da nossa simultaneidade.

Certamente, não foi um prejuízo que se possa considerar grande, mas parece que algo se transformou.

E, quando tento explicar de uma maneira racional, me digo que estranhei aquele meu guri, por conta de sua transformação em um homem bem resolvido. Mesmo sendo um motivo de felicidade para mim, parece que não ocorreu a sincronia entre aprendizados na alma e na razão. E, por conseguinte, foi preciso algum tempo para que ocorresse a integração entre eles.

Hoje, sei que nossa vivência criou algo que não pode ser apagado ou extinguido. Por isso, aguardo seu retorno para que, juntos, possamos reacender os momentos onde pensamentos e práticas seguiam concomitantes, pois, isso sim, bastaria para deixar 'a mente quieta, [quiçá] a espinha ereta e o coração tranquilo'**.


Wellington de Oliveira Teixeira, em 10 de janeiro de 2013.

* Trecho de Friends, música de Michael W. Smith.

** Trecho de coração tranquilo, incluída em Serra do Luar, ambas de autoria de Walter Franco e interpretadas por Leila Pinheiro.

30 de set. de 2009

Nudez de alma


misturadedesenhosdeoutros, foi feita em 31-08-2009 misturadedesenhosdeoutros**, foi feita em 31-08-2009.

"Posso voar mas não posso controlar o corpo
Que sorri para o mundo, escuta a música
Faz a dança e cativa sem parar."

Pós TPM - Dirty Fastfood*
(http://dirtyfastfood.blogspot.com/pos-tpm.html)


Que minha arte não me represente, mas me apresente; que não seja marcas que eu fiz, mas minhas marcas que ousei deixar vir à tona e tonalizar a tela; o meu próprio voo de descobrir nas misturas e formas iniciais a ideia que sobressai e ganha plano e me força às mudanças e alterações no que já estava dado - até que eu perceba que apenas um dado no todo e não algo estabelecido como um todo.

E me deixo levar, inventar, descobrir e redescobrir porções, criar camadas sobre outras e efeitos sobre efeitos até que algo em mim olha e vê e sabe que disse algo e que, por isso, me disse.

Então é só inventar uma moldura e não deixar que ela modele todo o caminho traçado e domine a conquista feita com o processo da descoberta.

É melhor ficar sem cobertura, nem cercas. Só de vez em quando, pra dizer que uma ideia se fechou por alguns instantes. E, depois, me permitir modificá-la, restabelecer o vínculo apenas para permitir que fluxos outros tenham vez, talvez os que não tiveram voz no primeiro embate, no primeiro encontro, no primeiro olhar.

E por que não? Há mais olhares possíveis pra cada cena, sempre, como há mais de uma forma de ler, tocar, cantar, escrever, sonhar.

É só um voo. E vôos são as coisas mais difíceis da vida: raridade hoje em dia, porque voo é o encontro de você com a vida, é a expressão de tudo que se armazena e se guarda e se destila. Voo é o encontro consigo mas num plano superior, onde se consegue tudo. Voo é o momento em que nada lhe toca, nada lhe detém, nada lhe contém, nada desvia você de você. E é o momento em que não havendo nada mais para acrescentar, basta crer. Crer que a plenitude se instalou e proporcionou a um ser o se tecer sem temer o vir a ser, o devir e o se desfazer. Por que é bom me dizer, me desdizer, para que haja um novo dizer sobre mim: alteridade em mim, novidade em si, uma nova idade para se viver.

Risco, sim, porque é arriscado viver, se sustentar no fio da teia de uma aranha, mas sem se prender, sem se perder, nunca se esconder, talvez, se proteger.

Um pouco de exposição, mas sempre a ação, sempre a expansão e a busca pela captura do instante do seu olhar, para provocar e fazer fluir e para passar adiante o que me provocou de início.

E torcer para que a construção seja outra, distinta e tão potente quanto a minha e aninhe outras questões: um processo sem fim que se irradia e ilumina quem quiser ser elo e se permitir ser verso ou qualquer outra forma de expressão.

Quem sabe uma nudez de alma, a luz da aura para poder sorrir?


Wellington de Oliveira Teixeira, em 30 de setembro de 2009.


* Uma pessoa que eu amo a maneira como se expõe e que, da mesma forma que se joga largada, se permite uma consistência de ser e estar.
** Espero ter em breve o nome do autor do anjo e da foto para fazer os créditos da minha mixagem.