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23 de ago. de 2014

Como a mim mesmo

Rodopios, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 23-08-2014
Rodopios*, criado em 23-08-2014.

ah, tem que ser (tem que ser!) hoje que eu vim
eu vim com tudo que tem haver com você
você nem sabe que sim, que simplesmente é assim:
assim que vejo você, você de frente pra mim,
eu me arrepio, grito, pulo, assobio, gesticulo, rodopio,
vou girando, vou girando, até cair no meio-fio

(Rodopio - Luiz Tatit)


Não há como pedir a quem quer que seja que entenda o que produzo.

Tudo que faço é apenas um reflexo das elaborações dos sentimentos que são provados por fornalhas de pensamentos, moldados a partir de uma ética do fortalecimento mútuo: recebo diariamente, de fontes diversas, os estímulos necessários para tal. Nenhum deles igual.

O que resiste e consegue vir à tona é digno de se manifestar.

Assim, acesse ao que escrevo e ao que desenho como o melhor de mim oferecido a quem quiser e puder utilizá-lo em benefício próprio.

Puro ato de antropofagia, o como a mim mesmo é o meu mais puro egoísmo em favor do seu. Só assim, expondo a minha verdade nua e crua posso contribuir com alguém. Vez por outra, agrido. Algumas, sensibilizo. Melhor quando apenas provoco e com isso desloco a passividade.

Não tento ensinar nada. Sequer pretendo ocupar o lugar da verdade, apenas sonho vivenciar as minhas.

As de muitos afetaram a minha, especialmente daqueles das artes. Escritores, filósofos, músicos, dançarinos, atores, médicos, amantes e amados são os artistas pensadores que conseguiram incendiar minhas inquietações.

E, certamente mais que todos os outros, os rodopios que o amor promove dos fundamentos à cama.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 23 de agosto de 2014.

* Série de giros ou voltas executados, em torno do próprio eixo, rapidamente; girar como um pião. Isso descreve muito bem as idas e vindas destes pensamentos e sentimentos que me tomam, mas que não possuem a graciosidade dos movimentos dos bailarinos.

17 de ago. de 2014

Vício intrínseco

Vício intrínseco, criado por Wellington de Oliveira Teixeira, em 17-08-2014.
Vício intrínseco, criado em 17-08-2014.

Ela é uma droga pesada que te arranca de casa e, ao mesmo tempo, é o motivo de voltar pra casa.
Ela é lunática e perfeita, essa é pra casar; daquelas que mata o noivo no altar, se atrasar.
Te arremessa na cama e te poe no divã; é o veneno mortal no seu café da manhã;
é o amor matinal e a roubada de brisa. Até sua foto 3x4 é arte Mona Lisa.
Mano, avisa lá que hoje eu não vou jogar
porque ela acaba de ligar dizendo que tá muito louca pra que eu fique muito louco, também,
esperando ela voltar pra me fazer de refém.
Isso parece crime, mas eu não quero abrir ocorrência, senão eu sofro de abstinência:
ela combina carinho e dependência com poesia e inocência. Essa mina vicia.
(Rashid - Vício)


É como a gravidade, de que não se escapa. A gente foge, se dirige para a direção oposta. Desvia o pensamento e tenta preencher os vazios que repentinamente se impõem.

É inviável tentar se policiar o tempo todo. Um pequeno vacilo, uma brecha: lá se vai o controle e o pensamento vai em busca do desejo interditado, guardado, ocultado por tanto tempo, até da própria consciência.

É a vontade de comer ou qualquer outra forma de prazer, que se achega e nos seduz e nos reduz de forma inescapável ao que nos constitui.

Avaliando por moral, o imoral é temporal e isso para quem não é ingênuo é algo de que é difícil não resvalar sempre.

Queria que cada um se permitisse o que merece, inclusive um pequeno jantar acompanhado de um bom vinho. Pequenos, deliciosos e desejáveis prazeres.

Fugir do enrijecer: não dá para ser o que quer que seja em tempo integral, aceite! Somos parciais e desejamos as diferentes formas de nos satisfazer: todo excesso enjoa e destrói o encanto. Até mesmo um talento, uma profissão ou uma paixão.

Encenamos um espetáculo de encontros e desencontros e, na medida do possível, tentamos dar um toque de infinitude nos sentimentos que nos tomam e até nos encantam, como esta enevoada mas enluarada noite que convida para voos nos recônditos da alma. Que pede um surpreendimento dos covardes e escravizadores padrões como se gritasse 'É preciso ultrapassar(-se)'.

E enquanto a cortina do novo dia não ilumina o rosto, aprontando com o sonolento despertar e afugentando os resquícios dos pequenos, pulsantes, mas resguardados indícios dos verdadeiros sonhos, a gente fica de olhos fechados. Faz de conta que dorme. Disfarça que a vida tropeçou e quase xingou e engoliu em seco para seguir em frente. Não se diz que, lá no cantinho, se permitiu sentir a dor que tumultuou a alma. Respira-se fundo, tenta-se preencher qualquer espaço raso ou profundo, se preparando para abrir as cortinas e, de novo, saudar o respeitável público.

E lava-se o rosto, para espantar o que não pode ocupar o dia, e enfrenta-se as realidades produzidas ou admitidas como se fossem ansiadas. É como um vício intrínseco. Mesmo esfacelando-o em milhões de pequenos e inofensivos pedaços, não se pode garantir a impossibilidade de que a sua regeneração instantânea ocorra em um determinado segundo onde a trama do destino nos coloque no palco dos acasos ou dos encontros. A inevitável negação de si talvez seja a única possibilidade para quem dirige a peça. E para todos que a assistem.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 17 de agosto de 2014.

* O termo originado do latim intrinsecus - interno, inerente, constitutivo - pode qualificar algo na parte interior de outra coisa e que é fundamental para a sua existência. O âmago, íntimo e profundo.
É o que se estabelece fora de qualquer convenção:
  • o valor intrínseco de uma moeda é o seu valor conforme o peso do metal precioso à cotação comercial.
  • anatomicamente, o que se origina e incide no local em que age: o músculo.
  • na Física, o que decorre de maneira igualitária; o semicondutor ideal sem quaisquer influências e/ou impurezas.

2 de ago. de 2014

Hélices de vidro

Hélices de vidro, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 02-08-2014.
Hélices de vidro, criado em 02-08-2014.
Assim como talvez não haja, dizem os médicos, ninguém completamente são,
também se poderia dizer, conhecendo bem o homem, que nem um só existe que esteja isento de desespero,
que não tenha lá no fundo uma inquietação, uma perturbação, uma desarmonia,
um receio de não se sabe o quê de desconhecido ou que ele nem ousa conhecer,
receio duma eventualidade exterior ou receio de si próprio;
tal como os médicos dizem de uma doença, o homem traz em estado latente uma enfermidade,
da qual, num relâmpago, raramente um medo inexplicável lhe revela a presença interna.

(Søren Aabye Kierkgaard - O Desespero Humano, em Os Pensadores, p.329 *)

Cortantes e praticamente invisíveis, palavras são como hélices, de vidro:
refletem, somente em lampejos, a intenção dos que geram, a custa da paz,
a propulsão para alçar seus vôos mesquinhos.

(Wellington de Oliveira Teixeira)
São muitos os caminhos que percorremos em função de conquistar uma vida plena. Aquela que acreditamos será a que nos trará a paz, a tranquilidade. Talvez, a plenitude.

Nos inventamos. Em cada dia, pedacinhos não de vitórias mas de avanços iludem nossas percepções e nos carregam para um outro adiante, uma outra meta, ou apenas um seguir.

Nos tornamos. E, de quando em vez, paramos. O fluxo interrompe. Um espaço fica não preenchido e com ele — o vazio que se instaurou — as inquietações, as dúvidas.

Nos esvaziamos. São silêncios que não sinalizam pausa, descanso, quietude de alma. São momentos não classificáveis. Não são tristezas por algo, não são dores por perdas, não é sentimento de nulidade.

Nos caçamos. É como um eco distante. Um sinal das profundezas da alma. Algo amorfo que apenas transparece, reluz por infinitesimal instante, fazendo com que algo seja disparado, aceso, ligado. Fugidio estalo que se propaga mente e corpo e produz uma angústia pelo infinito, inalcançável entendimento de tudo, uma expressão plena e total de si.

Nos encontramos. Nessas brechas atemporais que se produzem apesar do cotidiano, involuntariamente, é onde detectamos a fonte máxima de cada um. A pura vontade em potencial. Aquilo que intuímos como potência de vida. Nosso único lar, em si: Ser.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 02 de agosto de 2014.

* Minha vida não será, apesar de tudo, mais do que uma existência poética. Segundo György Lukács (1885-1970), o dinamarquês Kierkegaard (1813-1855) revela em sua declaração heroísmo, honestidade e tragédia. Heroísmo, em ter desejado criar formas a partir da vida; probidade, em ter seguido até o fim o caminho escolhido; tragédia, em ter desejado viver aquilo que jamais poderia ser vivido.
Para Régis Jolivet o pensamento de Kierkegaard formou-se, não tanto por assimilação de elementos estranhos, mas sobretudo através de uma luta de consciência, cada vez mais intensa e cada vez mais exigente, perante as condições, não já da existência em geral, mas do seu próprio existir. Sua filosofia é precisamente ele mesmo, não fortuitamente e, de certo modo contrariado, mas ele mesmo voluntária e sistematicamente, a tal ponto que o existir como indivíduo e a consciência desse existir chegaram, a ser, para ele, condição absoluta da filosofia e até sua única razão de ser.

17 de jun. de 2014

Indizíveis necessários

Indizíveis necessários, criado por Wellington de Oliveira Teixeira entre 16 e 17-06-2014.
Indizíveis necessários, criado entre 16 e 17-06-2014.

O que os outros recebem de mim reflete-se então de volta para mim,
e forma a atmosfera do que se chama: eu.
A outra — a incógnita e anônima — essa outra minha existência que era apenas profunda,
era o que provavelmente me dava a segurança de quem tem sempre na cozinha uma chaleira em fogo baixo:
para o que desse e viesse, eu teria qualquer momento água fervendo.

(Clarice Lispector — A paixão segundo G.H., p.27)


Dizem que não se deve expressar sentimentos ou promover raciocínios ou debates quando se está em uma situação difícil, quando vivências ou acontecimentos ao seu redor são desestruturantes. Vou aceitar como verdadeiro, mas vou me dar a chance de apenas divagar sobre questões que pertencem à ordem da vida como as preferências por determinadas coisas que fazemos.

Gosto muito de me permitir elaborar novos sabores para os pratos mais tradicionais, ler algo bem fora de minha área de atuação, encarar o aprendizado de algo novo. É verdade que são atividades nem sempre voltadas para mim. Talvez porque quase sempre preciso agir e pensar em função do coletivo.

Mas me permito uma boa companhia, compartilhar o pensamento e ousadias metafísicas, promover avaliações que possibilitem raciocínios ou ações mais conscientes. Esse, sim, um lado mais egocêntrico meu.

Ver possibilidades onde muitos optam por adotar bandeiras de verdades ou mentiras foi a minha iniciação ou primeiro passo para situar realidade e ilusão como almas gêmeas da percepção — poderosas geradoras do mundo interior de cada um de nós.

O segundo, para esse conjunto de pensamentos, foi o desconstruir os rótulos — aquelas etiquetas coladas nas testas de [e por] tantos conhecidos — do tipo fulano é isso, sicrano é aquilo; esse é assim e o outro é assado. Fiz opção por não reafirmá-los em prol de colaborar especialmente no sentido de desterritorializar as pessoas, de desconstruir movimentos repetitivos e incapacitantes de transformação, típicos da sua aceitação ou reprodução.

O terceiro, construir elementos que me encorajassem a expressar o que tenho de essencialmente válido em cada momento de minha vida. Um conceito que já absorvi é o de que meus encontros me transformam, trazem desejos diversos, provocam reações inexplicáveis pela sua unicidade — entenda, é por isso que não posso ser o mesmo para todos sem me falsificar.

As verdades que digo são forjadas nessa estruturação e eu sei que mesmo aqueles conceitos que não desejo abrir mão carregam um quê de pura interpretação — a exclusivamente minha. É como se eu parasse a vida num instante e me permitisse perceber alguns detalhes que só eu vejo e aparecem como um brilho fugaz numa superfície qualquer. Se poetizo um pouco esse entendimento, diria ser aquele reflexo da lua no alto da onda que se forma no mar e que consegue nos cegar por um brevíssimo momento.

Talvez, e realmente talvez, aquela pontada que tira a respiração e nos faz dobrar, não importa aonde estejamos, seja uma das únicas metáforas que consigo admitir para não deixar de tentar citar aquela dor, aquele vago momento onde se perde o próprio pensamento e se deseja o impróprio e o indizível.

Ainda muito imprecisa essa ideia, mas eu acredito que aquilo que impede a passagem, a ida que é sem retorno é apenas uma blindagem transparente que construímos para que um fluxo de loucura não penetre a nossa alma.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 17 de junho de 2014.

* Conceitos como os de desterritorialização estão presentes nas obras de Giles Deleuze e Felix Guattari. Cito alguns trechos para incentivar a pesquisa:

Um regime alimentar, um regime sexual regulam, antes de tudo, misturas de corpos obrigatórias, necessárias ou permitidas. Até mesmo a tecnologia erra ao considerar as ferramentas nelas mesmas: estas só existem em relação às misturas que tornam possíveis ou que as tornam possíveis.
(Deleuze e Guattari — Mil Platôs: capitalismo e esquizofrenia. vol. 2, p.31)

Os seres existentes se organizam segundo territórios que os delimitam e os articulam aos outros existentes e aos fluxos cósmicos. O território pode ser relativo tanto a um espaço vivido, quanto a um sistema percebido no seio do qual um sujeito se sente 'em casa'.
O território é sinônimo de apropriação, de subjetivação fechada sobre si mesma. Ele é o conjunto de projetos e representações nos quais vai desembocar, pragmaticamente, toda uma série de comportamentos, de investimentos, nos tempos e nos espaços sociais, culturais, estéticos, cognitivos.

(Guattari e Rolnik — Micropolítica: cartografias do desejo, p.323)

4 de jun. de 2014

Intrinseco

Intrínseco, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 03-06-2014.
Intrínseco, criado em 03-06-2014.

Intrínseco pode ser definido como o que está no interior, no âmago, no íntimo;
profundamente inerente, imanente, inseparável e constitutivo
e que é essencial para sua existência.


A Física teórica moderna […] colocou nosso pensamento acerca da essência da matéria
num contexto diferente. Ela desviou nosso olhar do que é visível — as partículas —
para a entidade subjacente, o campo. A presença da matéria é
acidental, poder-se-ia dizer, um mero 'defeito'. Assim, não existem leis
simples que descrevam as forças entre as partículas elementares.
[…] A ordem e a simetria devem ser buscadas no campo subjacente.

Walter Thirring — Urbausteine der Materie, p.160
(citado por Fritjof Capra - O Tao da Física p.163)


Somos formados por diversos elementos combinados em função de arranjos únicos num determinado complexo que constitui-se num espaço-tempo. Em nível probabilístico, um impossível de se repetir. Não por impossibilidade de clonagem ou reprodução como variável industrial, mas por conta dos invisíveis constitutivos de uma psiquê.

Exclusividade é uma característica da alma.

Em algum momento da vida, acontece de permitirmos um composto aditivo, uma recombinação, ao permitirmos um entrelace, em nosso âmago, com algo que é diverso de si mesmo. Às vezes, a impressão é de ser tomado. Essa química que ocorre — e há quem defenda ser supervalorizada pela reação que acontece no cérebro —, estranhamente se manteve nos últimos séculos posicionada no coração.

Só que o encantamento não necessariamente é relativo aos relacionamentos humanos, não! Há aqueles que em sua profunda conexão com a Ordem universal se redefinem. Outros, tomados por causas consideradas de grande magnitude, refazem o percurso de suas vidas.

Amar é algo que promove transcendência e, por um feliz contrassenso, torna-se o que há de mais intrínseco em alguém.

Quem vive relacionamentos profundos, em escalas e modos diversos, sabe que o amor em si — se é que tenha existência sem um ser — se afirma neles. Possivelmente, por isso, se diz que um pedaço foi arrancado de si, na ausência do promotor deste amor.

A dor como lição, nessa hora, remete ao ensinamento Zen: Você pode produzir o som de duas mãos batendo uma na outra. Mas qual é o som de uma das mãos?

Wellington de Oliveira Teixeira, em 03-04 de junho de 2014.

* Há quem torne-se intrínseco à nossa vida, não podendo mais ser retirado sem que haja falência do ser: uma consequência da eternidade do amor.

3 de jun. de 2014

Posição, direção e determinação

Atomizando, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 02 de junho de 2014.
Atomizando, criado em 02-06-2014.

O homem é uma corda, atada entre o animal e o além-do-homem — uma corda sobre um abismo.
Perigosa travessia, perigoso a-caminho, perigoso olhar-para-trás, perigoso arrepiar-se e parar.
O que é grande no homem, é que ele é uma ponte e não um fim:
o que pode ser amado no homem, é que ele é um passar e um sucumbir.
[…] Amo Aqueles que não procuram atrás das estrelas uma razão para sucumbir e serem sacrificados:
mas se sacrificam à terra, para que a terra um dia se torne do além-do-homem.
Amo Aquele que vive para conhecer e que quer conhecer para que um dia o além-do-homem viva.
E assim quer ele sucumbir.

(Nietzsche — Trecho de Zaratustra, prefácio §4, ano de 1883)


Escolher um caminho a seguir é o que sempre recomendo a todos que se veem diante de escolhas muito díspares, ou que conflituam os sentimentos, pensamentos e relações sociais. E quando — quase sempre — ouço 'Falar é fácil!', sou o primeiro a concordar. Ainda assim, mantenho a proposição inicial.

Certa vez, alguém me confrontou com uma frase que soou o gongo interior: 'você é um masoquista!'. O porque de soar é inteligível, uma vez que em sociedade abrimos mão do desejo puro e simples em prol de uma coletividade. No meu caso, a de suma importância para mim — a família.

O quanto vale a pena ou não é algo variável. Encarar os momentos solitários tende a diminuir, enquanto os de convívio a maximizar. Certamente, a questão se espelha em cada um que encarou a questão — talvez, todo o mundo.

Direcionar as ações com base na razão pura e simples é o maior criador de recalques que conheço. Cada desejo reprimido se anexa aos anteriores acumulando mais um grau na escala da insatisfação. Certamente você conhece pessoas que julgam todo mundo o tempo inteiro, os primeiros a jogarem a pedra, os que ignoram seus erros apontado os demais. Devo dizer sinceramente: seja piedoso com eles, são os que mais estão sofrendo.

A questão se encaminha mais para como canalizar a energia do desejo, em que momentos acatá-la e como utilizar o potencial que lhe é inerente.

Para avaliar a proposta, não é necessário ir muito longe, já que alimentação é um exemplo simples e preciso: comer o que se gosta, sempre, gera problemas sérios. Basta avaliar as consequências — físicas, sociais, emocionais, financeiras e outras mais — para a si mesmo e para os que estão ao seu redor (em especial nos casos em que se torna uma questão de doença).

Tentei me posicionar a respeito, quando da criação da imagem (para ver esses detalhes, clique nela com a rodinha do mouse).
  • Sabe aquela plantinha do bem-me-quer—mal-me-quer?
  • Sabe a órbita que o elétron faz em torno do núcleo do átomo?
  • Já viu uma rosa dos ventos ou utilizou uma bússola?
  • Já encarou um paredão de rochas durante uma caminhada pela areia de uma praia?
Tudo isso me remete a posicionamento. Exatamente o que é necessário ter diante das questões da vida. Não se escapa: em cada situação encarada, haverá as perdas e danos como, também, seu oposto ganhos e restauração. Simultaneamente.

Fugir, fica claro por esse raciocínio, não resolve a questão, muito menos a adia — a faz piorar. É como o medo de um fantasma que paralisa. Só piora quando não encarado.

Todos temos nossos fantasmas e medos. Sabemos o terror que nos causam. Vi um filme em que ensinavam uma criança a ter coragem de se levantar da cama e acender a luz, quando sofria de terror noturno e tinha pesadelos imobilizadores e catalizadores de reações físicas muito fortes. Envolvia diretamente posicionamento e direção, junto com uma determinação construída por uma tática simples.

Com os olhos fechados, pense naquilo que tornou o seu dia mais legal, levante-se da cama e se prepare para ir em direção ao interruptor. Em 5, 4, 3, 2 , 1.

Abra os olhos, vá e acenda a luz!

Wellington de Oliveira Teixeira, em 03 de junho de 2014.

* Esse texto acabou antecipando o que gostaria de fazer para homenagear meus familiares que aniversariam no mês de junho.

21 de mai. de 2014

Ideia fixa

Ideia fixa, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 20-05-2014.
Ideia fixa, criado em 20-05-2014.

Fixação: seus olhos no retrato, minha assombração, fantasmas no meu quarto.
Fixação,
I want to be alone!
(Fixação - Kid Abelha)


Algumas pessoas não percebem que quanto mais você tenta se livrar de uma ideia, mais ela se fixa e exige a sua atenção. Resta apenas dedicar-lhe o seu tempo.

O problema é quando ela é do tipo muito, muito insistente. Ela vai e volta, sempre nos momentos mais inconvenientes para desviar sua atenção e retirar a objetividade de um raciocínio.

Esse peixe é uma ideia assim: de tão insistente acabou sendo construído com a reprodução de milhares de peixes iguais reduzidos. Algo semelhante à técnica utilizada nas imagens 3D que vinham em livros ou quadros e exigiam um determinado modo de observar para que sua profundidade fosse obtida. Há pouco tempo achei uma imagem nesse padrão e refiz a sensação do campo ampliado de visão.

Apesar de, no caso do peixe dessa imagem — fruto de uma outra imagem que criei —, antes de desistir de mudá-lo, testei várias proposições: isolamento, descamação e fossilização. Mas ele se revitalizava sempre. Chegou o momento onde larguei de mão e admiti que precisava destacá-lo, desfazendo toda a imagem de fundo e tornando-a apenas um suporte.

No fim das contas, justifiquei a ação pelo fato de ser um elemento importante que me acompanha e me dá prazer há muito tempo — talvez desde a adolescência. No fundo, tentei apenas me livrar dele ou do que ele representa para mim nesse momento.

Por fim, construí um certo afastamento e obtive de volta a capacidade de raciocinar, que havia perdido. Não é muito, mas já dá para superar a paralisação e ir adiante: melhor uma ideia flutuante do que uma fixa.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 20 de maio de 2014.

* Obsessão, como uma ideia fixa, refere-se às crenças erradas e distorcidas, que, por conta de uma intensa repetição involuntária, tornam-se um transtorno limitador à vida por distorcer a realidade: pensamentos negativos conectado a algo que causam incompletude e culpa. Há sempre a sensação da falta ou de algo mal feito, independente das novas tentativas de finalização.

30 de abr. de 2014

Reviravolta

Reviravolta, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 30-04-2014.
Reviravolta, criado em 30-04-2014.

s.f. Ato ou efeito de desfazer a volta;
giro ou volta sobre si mesmo, firmando-se apenas em um dos calcanhares;
volta rápida, pirueta, contravolta: o ginasta fez uma reviravolta.
Mudança brusca: reviravolta de opiniões.

(http://www.dicio.com.br/reviravolta/)


Hoje eu escolhi focar nos momentos felizes de pessoas conhecidas, amigas e ver como a vida é diversificada: estonteantemente capaz de produzir felicidade nas situações onde prevalece uma tristeza.

A bem da verdade, acredito que é mais uma capacidade humana de determinar a dosagem que se permitirá vivenciar de cada uma - a cada momento.

Sim, às vezes precisamos desviar o foco da nossa atenção, por alguns momentos, de determinados aspectos da realidade. Ela pode ser bastante dura, especialmente naquelas situações de grandes dificuldades que envolvem você e uma pessoa amada.

Há um determinado desgaste, que surge nesses casos, que ultrapassa o cansaço físico. Ele mina com as certezas e seguranças e corrói a esperança. Isto é, se não houver o devido cuidado e respeito a si mesmo.

É certo que somente encarando o desafio poderemos ultrapassá-lo. Mas é certo, também, que focar um ponto apenas, por muito tempo, provoca uma visão turva ou nebulosa.

Então, equilibrar-se nessas horas é precisamente dosar o foco no alvo, permitindo-nos um descanso de tempo em tempo para que, ao voltar, a visão esteja mais liberta e possa perceber e avaliar os detalhes, novamente.

Para ampliar a analogia, é ousar criar uma nova perspectiva, fazer um giro sobre si mesmo e dar uma reviravolta.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 30 de abril de 2014.

* Adorei saber que é o Mathias quem está a caminho, Mariana!

23 de abr. de 2014

Ladrilhos e fragmentos


Ladrilhos, criado em 22-04-2014.

Parte da genialidade de Einstein consistiu em perceber que embora as colisões ocorram com muita frequência,
como as moléculas são muito leves, colisões isoladas não têm efeito visível.
As mudanças de direções observáveis só ocorrem quando, por pura sorte,
as colisões numa direção particular forem preponderantes[…].
Quando einstein fez as contas, descobriu que, apesar do caos no nível microscópio,
havia uma relação previsível entre os fatores[…].

(Leonard Mlodinow - O andar do Bêbado: como o acaso determina nossas vidas, p. 178)


É possível não se gostar da ideia, mas somos um apanhado de ladrilhos sobrepostos em uma superfície que não é plana, nem um pouquinho, e, por mais que a gente queira, não se complementam bem. Tem tortuosidades, reboco aparente, partes descascadas, infiltrações e tudo o mais que garante a não homogeneidade, apesar de a apresentarmos como tendo.

Como o núcleo da terra, estamos em ebulição constante que liquidifica todo o material absorvido e o transforma, com um gasto considerável de energia.

De vez em quando, a mistura não se dá facilmente e ocorrem reações turbulentas que, de tão violentas, extravasam à superfície. Exatamente como os vulcões. Conforme o tempo passa, a massa se esfria e solidifica, criando uma nova carcaça. Assim se transforma a face visível.

Essa é a versão natural dos acontecimentos. Excepcionalmente, porém, esse processo também acontece provocado por tempestades emocionais que remexem com nosso conteúdo interior como num caldeirão de bruxa. Por ser um processo súbito, os raios de grande intensidade e velocidade penetram a superfície e, como os que provocam as trovoadas ensurdecedoras, atraem a nossa atenção.

Dependendo da capacidade de administrar suas consequências — um processo que pode ser demorado, doloroso, mas sempre revelador — a descaraterização da superfície ocorre e alguns não se reconhecem mais. É o surgimento de um novo eu, fundido como ferro ao fogo.

O que revelará, só se mostrará após o tempo de resfriamento. Para quem é cuidadoso consigo mesmo, talvez (quem sabe?), se houver dedicação cuidadosa ao processo de aparamento das arestas e polimento de sua superfície, a modelagem possa ser realizada de acordo com o perfil que sua vontade determine.

Em todos os casos, não há retorno quando acontece. A transformação ocorre e os ladrilhos se modificam, ou se perdem.

Somos um mundo rico em transformações de microescala. Fragmentos copiando a ordem natural da natureza cósmica. Afinal, nossas partículas não são tão diferenciadas de nós perante o todo.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 22 de abril de 2014.

Vulcanismo é um fenômeno geológico que ocorre do interior da Terra para a superfície, quando há o extravasamento do magma em forma de lava, além de gases e fumaça e é resultado das características de pressão e temperatura contidas no subsolo.
(Brasil Escola)

Por se tratar de um processo que ocorre em uma escala temporal mais lenta, durante o processo de fragmentação natural as espécies tendem a se adaptar às transformações da paisagem; em contrapartida com o forte aumento do intensivo processo de fragmentação gerado pelas atividades humanas, a perda estrutural e qualitativa de habitat tem aumentado o número de espécies ameaçadas.
(R. B. Primack - Essentials of conservation biology)

17 de abr. de 2014

O plausivel

Plausível, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 17-04-2014
Plausível, criado em 17-04-2014.

Quero lhe contar como eu vivi e tudo o que aconteceu comigo.
Viver é melhor que sonhar e eu sei que o amor é uma coisa boa, mas também sei que qualquer canto é menor do que a vida
de qualquer pessoa.
Por isso cuidado meu bem: há perigo na esquina! Eles venceram e o sinal está fechado pra nós que somos jovens.
Para abraçar meu irmão e beijar minha menina na rua é que se fez o meu lábio, o seu braço e a minha voz…

(Como nossos pais - Belchior)

Senso comum é o conhecimento irrefletido, tradição.
O senso crítico é baseado na crítica, na reflexão, na pesquisa e no pensamento:
o raciocínio busca comprovação antes de emitir uma avaliação ou realizar uma conclusão.




Uma vez, uma professora universitária me disse que sem uma taça de vinho, nada do que escrevia parecia verdadeiro, recendia a uma casca de verniz social. Bem, na opinião de quase todos os trabalhadores que anseiam por um happy hour ou pela cerveja da SEXta-feira, tudo certo.

Não ousem me dizer — quem não teve a oportunidade de experimentar o relaxamento que uma taça de vinho ou umas duas cervejas proporcionam — que isso seja falso. Como, também, não é falso dizer que não se deve tomar decisões no meio do fogo cruzado das emoções.

Tristes são as histórias de jogadores compulsivos que dizem ser o seu dia de sorte; daqueles que dizem que irão apenas beber mais uma dose; ou daqueles que… recuso-me a continuar. O que importa para minha questão é que a emoção apenas não determina o que fazemos, tudo é uma história de vida. São os pequenos acontecimentos que se acumulam e transformam-se num gigante a ser vencido.

Davi e Golias? Café pequeno.

Alegoria ou fato histórico, jamais irá detalhar a realidade diária de cada um de nós, o enfrentamento de dificuldades, o silêncio engolido com a garganta seca, o surrealismo dos padrões sociais: Negamos! Afirmamos! E, se nos dermos conta, nada daquilo se referencia àquilo que nos torna seres humanos. Nem mesmo a dor. Nem mesmo o prazer.

Sentir-se no meio do furacão? Brinca comigo, não. Com tantas pessoas despejadas, famintas, destituídas da humanidade, é mais do que ridículo recorrer às nossas novelinhas pessoais. Coitados dos mexicanos quando recebem os créditos! Juro (e não se deve jurar!) que a vida produzida socialmente, falsamente, manipulada pelos controles e descontroles de cada um de nós é algo inócuo. Inofensivo. Apenas uma proposição necessária adotada quando não há outra opção: máscaras sociais da madame e do patrão; do operário e do ladrão.

E todos somos responsáveis, tentando desesperadamente ignorar a culpa ou a responsabilidade de não interferirmos nesse modelo social anacrônico, de não sermos agentes de transformação social.

Como os nossos pais (agradeço as palavras de Belchior e a voz da Elis Regina) repetimos, reproduzimos. Somos máquinas copiadoras. Transformadoras? Não se faça rir.

Mas, quando eu vejo meus netos ou meus sobrinhos-netos me questiono: O que realmente eu estou deixando para eles? Que parte de mim eles irão — por opção — avaliar, reproduzir, acreditar?

Um dia eu disse para o meu filho: 'mesmo que eu seja completamente contra o que você faça, jamais irei deixar de amá-lo'. Registrem isso, porque verdades são raras no mundo. Hoje, eu digo com clareza: 'isso jamais me fará abrir mão de mim mesmo, é parte de mim.'. Maturidade? Talvez. Certamente, um aprendizado sobre as relações humanas.

Teve alguém que ousou dizer que teria que ser do mesmo modo que para mim mesmo, a manifestação do meu amor. E eu aposto nele e naquelas palavras. Todo o resto é produção cultural, social. Precisa ser reavaliado (com extremo cuidado, eu sou primeiro a dizer!).

Numa época em que participei de um grupo que queria acessar modos mais plenos do que entendíamos ser adoração (eu era membro de uma estrutura religiosa), a primeira coisa que ficou clara era que era preciso modificar algumas das práticas cristalizadas e solidificadas em bases de tradição ou costumes de época. Antes disso, porém, um 'bando' de adolescentes — era assim que eram qualificados — entendeu que a transformação só aconteceria se eles se envolvessem, investissem naquilo que acreditavam, que se dispusessem a participar do modo que achavam que podiam. Tenho o orgulho imenso de dizer: eles o fizeram!

Mas agora eles cresceram e dizem que a realidade é outra. Será?

Sabe o que impede de agirmos hoje do mesmo modo? Acomodação. A mesma que faz um país inteiro se submeter. A mesma que corrói os ânimos, as reivindicações. A mesma que nos torna reprodutores, nunca produtores. Seres domesticados. Ânimos sem fôlego. E perceba bem, Animo e Fôlego são palavras especiais, sem elas não há existência humana.

Talvez, por isso — e me perdoem o pessimismo — a maquinização dos nossos desejos, a homogeneização de nossas características e o desrespeito às nossas diferenças tenham se tornado a herança para as novas gerações.

Imbecilizados?

Idiotizados?

Certamente, destituídos do possível, do viável, adotamos tristemente o plausível.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 17 de abril de 2014.

* Não esperem de mim, tão cedo, outro desabafo assim.

A arte de dividir-se

Dividir-se, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 16-04-2014
Dividir-se, criado em 16-04-2014.

Não se descobre o absurdo sem ser tentado a escrever algum manual de felicidade. "Mas como, com umas trilhas tão estreitas?" No entanto, só existe um mundo. A felicidade e o absurdo são dois filhos da mesma terra. São inseparáveis. O erro seria dizer que a felicidade nasce forçosamente da descoberta absurda. Ocorre do mesmo modo o sentimento do absurdo nascer da felicidade. "Acho que tudo está bem", diz Édipo, e essa fala é sagrada. Ela ressoa no universo feroz e limitado do homem. Ensina que tudo não é e não foi esgotado. Expulsa deste mundo um deus que nele havia entrado com a insatisfação e o gosto pelas dores inúteis. Faz do destino um assunto do homem e que deve se acertado entre os homens.
(Albert Camus - O Mito de Sísifo)***

Exemplos diários de dissociação incluem veículos de comunicação destacando estresse pós-traumático de soldados que retornam de guerra, vítimas de estupro acometidos de amnésia sobre os detalhes e, na Justiça, o problema de definição de responsabilidade sobre os atos, nos casos de Transtorno Dissociativo de Identidade (múltiplas personalidades). **


Alguém pode me dizer como se faz divisões sem que haja resíduos, sobras, restos? Imagino que é por causa deles que, durante a noite, meu cérebro não pare (mas será que algum momento ele para?).

Um pedido: não me fale de consciente e inconsciente. Pelo amor de Freud! Quociente é o resultado da divisão. E se os sujeitos não são inteiros, vai sobrar para alguém um resto. Geralmente, amargo para engolir.

Quando alguém me diz que tem que dividir-se em dois para dar conta de suas tarefas, eu entendo. A figura propõe multiplicar ou dobrar a capacidade de resolução. E quando alguém me diz que está dividido, eu entendo. A figura propõe menos da metade da capacidade.

Ilógico? Pode ser, mas eu lhe garanto que a atenção de uma pessoa que está dividida não atinge a metade exata de suas tarefas, uma recebe menos que a outra de maior interesse. Essa é uma avaliação de senso comum, isto é, não está embasada na exatidão ou cientificidade. É uma atestado de sua existência por detecção e comprovação de um fato: é algo que acontece, realmente.

Imagine os alunos e trabalhadores que estão doidos para irem embora, na véspera do feriadão (é o seu caso?). A menina ou o menino que, em vez de realizar suas tarefas, divaga. Bem, aqui a divisão do tempo parece se prolongar, demora a passar, os ponteiros do relógio não estão favoráveis ao resultado desejado.

O que me provoca nesse processo é o fato de sermos capazes de produzir um outro de nós mesmos — ou algo muito próximo disso — nessas horas. Há pessoas que são capazes de repetir o que estavam dizendo, mesmo com a atenção totalmente fora de onde estavam. Outros, como em reuniões decisivas, que enquanto ouvem um argumento, já estão estruturando os contra-argumentos necessários para outra situação - simultaneamente. Fisicamente muito distantes do lugar em que estão o pensamento e a emoção: dissociados.

Buscando formulações menos avançadas, estou pensando especificamente em como fico dividido, em alguns casos, para tomar decisões. A velha e já manjada briguinha entre razão e emoção. É que estar de fora de uma situação dessas facilita o olhar mais frio e crítico. Mas estar dentro… bem… não é nada fácil.

Uma hora ou outra, estaremos contra a parede, com a corda no pescoço, pois não dá para ser um joão-bobo ou o grande boneco inflável que se mexe ao vento ('bonecão do posto tá maluco, tá doidão'!). Situação em que, não fosse o sofrimento estampado, seria risível.

Todo mundo sabe como pode ser paralisante esse embate dentro de si. Afinal de contas, ninguém quer perder ou se machucar. E a matemática da divisão diz que ela é o contrário da multiplicação e representada por uma fração. Ninguém quer ficar fracionado.

Já viu um divisor de sinal de antena? Ele tem uma entrada e várias saídas. E tem uma tarefa ingrata. Sua função é potencializar o sinal que cada saída receberá para não degradar a imagem resultante, mais ou menos o milagre da multiplicação.

Enquanto não houver uma rachadura completa ou uma soldagem bem feita, vale as tentativas. Dessa vez vou tentar uma 'viagem astral'. Meditar e ir aonde meu coração manda. Não vou contestá-lo. Mas, depois, vou segurar a onda com a minha razão. Ela sempre corre atrás da emoção, no meu caso, apesar de toda a minha racionalidade.

Então tá decidido: o jeito é equilibrar a situação porque se eu não tomar um partido, acabarei partido, igual a esse texto. O pior é que já tem muitos pedaços que restaram de outras divisões espalhados dentro de mim.

É preciso ser um artista para se manter inteiro, não é? Alguém tem um cola-tudo para emprestar?

Wellington de Oliveira Teixeira, em 17 e 18 de abril de 2014.

* Sobre divisão matemática, leia:
http://educacao.uol.com.br/disciplinas/matematica/divisao-o-inverso-da-multiplicacao.htm
http://pt.wikipedia.org/wiki/Divis%C3%A3o

** A Ação de dissociar na
Física: Desagregação de moléculas.
Química: Decomposição reversível dos corpos.
Psiquiatria: Ruptura da unidade psíquica, que constitui um dos principais sintomas psicóticos, notadamente da esquizofrenia. (Amplie seu conhecimento em http://www.psicosite.com.br/tex/sod/dis003.htm)

*** CAMUS, Albert - O Mito de Sísifo - http://www.planonacionaldeleitura.gov.pt/clubedeleituras/upload/e_livros/clle000131.pdf

8 de abr. de 2014

Complicado

Complicado, criado por Wellington de Oliveira Teixeira, em 08-04-2014
Complicado, criado em 07-04-2014

Penso nisso:
se foi mal ou entendido, vai ficar mal-resolvido.
Ignoro, pois um caso deixa marcas mas não mata.
O respeito é garantido, a escolha é honrada;
Vá seguindo o seu caminho que eu vou por outra estrada.

(Outra estrada - Wellington de Oliveira Teixeira)


Não.

E dessa vez eu quis começar com uma negativa para depois me afirmar: eu não sou uma pessoa fácil, nem de se lidar! Quando o fluxo dentro de mim se esvai, sou um escorpião exposto ao mundo (que se desidrata e morre). E há quem diga que ele se suicida!

De novo, não. Rota suicidária não faz parte do meu caminho. Solidária, companheira e apaixonada, sim. Mas rotas são planejamentos que fazemos. Quem disse que o caminho deixará o traçado se materializar?

Mas sou tão insistente e persistente que ultrapasso limites, de vez em quando os meus. Também consigo ser transmorfo se a situação exigir. Largo o chão e ganho asas, deixo a casca (e tudo o que fui antes) queimar e me permito carregar apenas o essencial: as marcas que ninguém apaga, nem eu.

Lagos são bons para mergulhar. Mergulho fundo nas minhas lágrimas, se um dia foram de sangue, tudo bem, também. É um processo que chamamos de chorar. Mas seja muito cuidadoso, pois há diversas formas da água cair: pela dor física, pelo sofrimento emocional ou espiritual. Descobri, literalmente sem querer, que quando a alma não se contém a água que nos dá vida sai do corpo e leva com ela parte do desespero. Legal isso. Parece que a vida nos dá um mecanismo para nos ultrapassarmos. Superarmos o que não seria possível e, apenas por alguns momentos, nos permite gerar uma nova estratégia para seguir.

Não sei você, mas eu gosto de mudar, trocar as coisas de lugar, substituir quadros e me permitir um novo olhar ao meu redor. E faço isso extravasando o conteúdo que se estragou dentro de mim - deve ter sido por descuido! - senão o mal pode ser pior.

Também gosto de ouvir músicas. E, ao contrário de muitos, não fico remoendo nada. Música é uma estrada sonora que meu espírito aprendeu a seguir. Percorro refazendo as partes mais desgastadas. Então, como você deve ter imaginado, minha play-list ficou no repeat até eu conseguir projetar algo representativo desse momento.

E, acabei de rir de mim mesmo porque não a substituí ainda. Mas não o fiz porque tocou um trecho que eu adoro: the mountains shall be removed...

Reassisti essa semana um filme lindo (O mistério da libélula) que me impactou com a imagem desse inseto alado que no Japão é um popular símbolo poético do outono. Pontos de vista religiosos à parte, a representação da beleza de uma procura insana, da fé que movia corpo e alma, apresentados nessa obra, é emocionante. Marcou, com a questão de morte e uma nova vida, tanto que a utilizei (garanto que foi só agora que percebi o ato falho que cometi!) para me expressar imageticamente nessa ilustração.

Se eu dissesse, 'viu como eu sou complicado?' seria pretensão minha?

Wellington de Oliveira Teixeira, em 08 de abril de 2014.

* Do livro Uma Estranha Realidade, de Carlos Castaneda, destaco trechos que realmente valem a pena ser analisados:
Para ser um guerreiro, e preciso ser claro como um cristal.
Um guerreiro vive estrategicamente. Nunca carrega fardos que não suporta. Um guerreiro deve sempre estar preparado para combater.
O espírito de um guerreiro não é dado a caprichos nem reclamações, nem a vencer ou perder. O espírito do guerreiro só é dado à luta, e cada embate é a última batalha de um guerreiro sobre a face da terra. Assim, o resultado lhe importa muito pouco. Em sua última batalha na terra, o guerreiro deixa seu espírito correr solto, livre e claro. E enquanto trava sua batalha, sabendo que sua vontade é impecável, o guerreiro ri-se a grande.
Todo e qualquer ato, pode bem ser a sua última batalha. Logo, em sua vida diária o guerreiro escolhe seguir o caminho com coração. É a escolha constante do caminho com coração que torna o guerreiro diferente dos homens comuns. Ele sabe que um caminho tem coração quando é um com ele, quando sente muita paz e prazer percorrendo sua extensão.
As coisas que o guerreiro escolhe para fazer seus escudos são os itens do caminho com coração.

2 de abr. de 2014

Pontos & Perspectivas

Pontos e perspectivas, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 31-03-2014
Pontos e perspectivas, criado em 31-03-2014.

Pense em Adão e Eva como um número imaginário, como a raiz quadrada de menos um:
a gente nunca vê uma prova concreta de que ele existe,
mas quando incluímos esse número nas nossas equações,
podemos calcular todo tipo de coisa que seria impossível imaginar sem ele.

(Philip Pullman - A bússola de ouro p.341 *)


Preciso encontrar um ponto de equilíbrio, aquele que aprendi e construí como conhecimento. O problema é que, quando penso que me aproximei, ele se distancia e tenho que recomeçar do zero a busca. Fico distante.

Pois bem, eu gosto de caminhar à beira-mar e não sei bem o porque de não estar me proporcionado isso, atualmente. Sendo um pouco mais honesto, há muito tempo. Fico olhando apenas as luzes distantes, tanto que são apenas pontos na escuridão. É que as pessoas ligam as suas lâmpadas em casa durante as noites. Esse exercício está tão constante nesses últimos dias que até as distinguo das que são de postes. E olha que eu estou muito, muito longe. De mim.

Acho que estou procurando, também, uma bússola. Não a de ouro do Philip Pullman. Se bem que eu gostaria de ter um Dimom (daemon) - a personalidade de alguém que assume formas de animal - que compartilhasse pensamentos e sentimentos e me acompanhasse por aí. Quem sabe, assim, a loucura de conversar comigo mesmo incansavelmente me parecesse menos grave. Insano.

É que ao se chamar alguém assim cria-se um paradoxo: um sujeito (de)mente não seria o mais sóbrio e racional, em sanidade? Julgo que as áreas 'psi' ainda não chegaram a um acordo sobre o que é e o que não é, estão meio borderline, limítrofes ou fronteiriças. Não conseguem ultrapassar a questão e entrar para valer no novo território. Será que é por que quem foi não quis voltar ou fica como um iô-iô, num vai e volta constante? Retorno.

Talvez, apenas aprendendo a caminhar circundando a realidade, sempre retornando ao mesmo ponto, consigamos maiores esclarecimentos sobre o que se vivencia. Mas isso soa tanto repetição que me incomoda. Não gosto do andar circular. A expressão circular por aí me incomoda, prefiro um andar por aí, não é direcionado previamente. É que eu me esqueço algumas vezes de que não preciso apenas andar num círculo, posso fazer uma espiral ascendente. Com isso, mesmo que percorrendo o mesmo ponto posso estar num outro nível e avaliar sob uma nova perspectiva. Prospecção.

Ter um olhar dito mais profundo, que examina mais cuidadosa ou atenciosamente os fatos é o que me proponho todas as vezes que virtualizo meus pensamentos e sentimentos. Será que a natureza humana aprende com o universo que tudo é compartilhado equilibradamente? Bem, talvez eu esteja apenas esquecendo dos problemas que ocorrem quando um item da equação (talvez a sinalização de igual) se perde na formulação. Igual ao que me fez começar a escrever depois de desenhar. Projetar.

Um projetor é sempre alguém que tem uma proposta de iluminar algo ou dar conta de alguma questão. O exercício de projeção auxilia quando é preciso dar um tempo a si mesmo, colocar para fora algo e, ao vê-lo projetado, visualizar com mais clareza a situação em seu todo. Nem sempre dá certo, por conta do aprisionamento a ela ou do sofrimento que produz. Aí não tem jeito. É preciso retornar ao início porque é

[Preciso encontrar um ponto de equilíbrio…].

Wellington de Oliveira Teixeira, em 02 de abril de 2014.

* A Bússola de Ouro é o primeiro livro da trilogia de ficção Fronteiras do Universo (os outros são A Faca Sutil e A Luneta Âmbar), escrita por Philip Pullman. Publicado em 1995 no Reino Unido, traduzido em 2007 aqui no Brasil. Um ponto importante é a crítica à dominação por meio da religião, representada pelo Magisterium.
** É importante notar que o título original da trilogia His Dark Materials remete à matéria obscura (matéria escura ou matéria negra) que só pode ser inferida a partir de efeitos gravitacionais sobre a matéria visível, como estrelas e galáxias. Pullman epigrafa seu livro com um trecho do Paraíso Perdido de John Milton, Livro II: "[…] A não ser que o poderoso criador lhes ordene Seus materiais obscuros para criar mais mundos,[…]"

(http://pt.wikipedia.org/wiki/His_Dark_Materials)
(http://pt.wikipedia.org/wiki/Mat%C3%A9ria_escura)

1 de abr. de 2014

Silêncios impostos

Covas profundas, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 31-03-2014
Covas profundas, criado em 31-03-2014

Os feiticeiros dizem que estamos dentro de uma bolha. É uma bolha em que somos colocados no momento de nosso nascimento. A princípio a bolha está aberta, mas depois começa a fechar-se, até nos ter trancafiado dentro dela. Essa bolha é a nossa percepção. Vivemos dentro dessa bolha toda a nossa vida. E o que presenciamos em suas paredes redondas é o nosso próprio reflexo.
(Carlos Castaneda - Porta para o infinito p.222)

Há, contudo, resistências a essas competentes produções de subjetividades, tentativas de se forjar e produzir territórios singulares.
[…] Duas categorias são produzidas e muito disseminadas nesses anos no Brasil: a do subversivo e a do drogado, ligadas à juventude da época. A primeira é apresentada com conotações de grande periculosidade e violência, visto ser uma ameaça política à ordem vigente; deve ser identificada e controlada. Tal categoria vem acompanhada de outros adjetivos, como criminoso, traidor, ateu, o que traz fortes implicações morais. O subversivo não está somente contra o regime, mas contra a religião, a família, a pátria, a moral e a civilização. Está contaminado por “ideologias exóticas”, por mandatários de fora.

(Cecília Maria Bouças Coimbra - Práticas 'Psi' no Brasil do 'milagre': algumas de suas produções***.)


Tentativas de esquecimento forjam no porão da alma silêncios impostos, nascimento e crescimento de monstros que fermentam pesadelos novos.

Cavernas cavadas como covas profundas escondem o grito contido, o soluço impedido e a pele lacerada.

Vento frio e cortante provoca o espirro febril e constante. As máscaras que asfixiam e se fixam nos fios da vida, esgarçados.

Velozes imagens na mente. O olhar é distante e ausente.

Sorrisos embotados, sentimentos embolados, sentidos massacrados. A aspereza dos sentimentos pendentes pede à vida um cuidado urgente.

Ferozes imagens dementes. O olhar é distante e ausente.

Da tortura e amigo distante, investiu em cabeças pensantes. Da vivência brutal, degradante, produziu pensamentos brilhantes.

Resistindo a quem mata ou prende apertando no corpo a corrente, até hoje é quem luta e defende a memória do amigo ausente.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 31 d março de 2014.

* Dedico com um carinho imenso à Cecília Maria Bouças Coimbra, que ultrapassou a Ditadura no Brasil. Sua prática como psicóloga, ex-presidente do Grupo Tortura Nunca Mais-RJ, professora da Universidade Federal Fluminense, minha orientadora na monitoria e pesquisa deixaram marcas e memórias belíssimas em mim.

** O desafio de tentar uma nova forma para descrever o sofrimento que a ditadura causou me assustou, novamente.

*** O texto completo encontra-se disponível em http://www.cliopsyche.uerj.br/livros/clio1/praticaspsinobrasildomilagre.htm

24 de mar. de 2014

Desequilíbrio inicial

Desequilíbrio, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 24-03-2013
Desequilíbrio, criado em 24-03-2014

Dom Juan: Pois bem, um guerreiro começa com a certeza de que seu espírito está desequilibrado;
aí, vivendo num controle e consciência completos mas sem pressa nem compulsão,
ele faz o máximo para conseguir esse equilíbrio.

(Carlos Castaneda - Porta para o Infinito, p.31-32)

Incomodado com a maneira de reagir a alguns acontecimentos de minha vida, peguei o livro Porta para o Infinito para recordar alguns pensamentos do Dom Juan que deram origem a diversas formas que tenho de me expressar. É preciso reaprender diariamente para poder reafirmar ou refazer seus próprios conceitos. Nada deve se estabelecer como imutável na vida, especialmente o aprendizado pessoal adquirido com a vida.

Na época em que fiz a primeira leitura, além de bem novo, eu era devorador de literatura e o livro me pareceu fantástico demais: feiticeiros, poderes, práticas de vida de não-fazer…

No entanto, os pontos de vista apresentados eram extremamente sedutores para uma mente questionadora como a que eu possuía. Então, me entreguei à leitura e avaliação das propostas apresentadas. O fiz tentando abstrair meus preconceitos. Lembro-me que me propus buscar uma visão de mundo de um determinado indígena, no caso o Dom Juan, e a afirmação que me encantou, de início, foi a de que era preciso buscar esclarecimentos, não apenas explicações convenientes.

Seu método, para isso, consistia em acumular um poder pessoal por meio da transformação das práticas diárias: o não-fazer. Este se apresentou como uma prática que possuía um imenso poder ao liberar nossa energia gasta com a repetição, com as nossas rotinas, com as nossas aceitações sem questionamentos e tudo o que nos mantém preso à mesmice, que causa o tédio ou que impede um aperfeiçoamento.

Era tudo de que eu precisava: essa proposição gerou a abertura de um portal dimensional para reavaliar tudo em tudo. Minha busca me levou a trilhar diversos caminhos, a praticar novos esportes, a tentar novas teorias do conhecimento, a experimentar novos sabores e a me afirmar como pessoa e a ter voz sobre o que eu chamava de minha vida.

Hoje, recordando um dos conceitos que mais me seduziram, o da humildade do guerreiro, me recordei de algumas características que assumi como importantes para a minha vida: a busca da impecabilidade em ações e sentimentos, a meus próprios olhos, e não aos olhos de espectadores; a aceitação daquilo que sou não como fonte de pesar mas como um desafio vivo; a não baixar a cabeça para ninguém e não permitir que ninguém o faça para mim.

Tem sido uma aventura e tanto caminhar usando esses conceitos, afinal, não há como forjar um triunfo ou uma derrota. Repito com o Don Juan, que mais uma vez colaborou para que eu ordenasse meus pensamentos e sentimentos: 'Um guerreiro está nas mãos do poder e sua única liberdade é escolher uma vida impecável'.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 24 de março de 2014.

* Para Roberta Ozorio, que hoje estava carente.

Sem medo

Sem medo, montagem criada por Wellington de Oliveira Teixeira em  20-03-2014
Sem medo, montagem criada em 20-03-2014.

Estava pensando em como o tempo nos transforma por meio dos desgastes: ficar idoso é um processo básico da natureza.
Avalio também aqueles que o ultrapassam, resistindo ao envelhecimento expressando a sua alma, experimentando as novidades, inventando novos horizontes diariamente.
[quem sabe se por uma forma oculta de sabedoria eu estava, ali, tentando alcançar o futuro com as mãos?].
(Wellington de Oliveira Teixeira - Postagem em 20-03-2014 no facebook)


Não tenho medo.

Não tenho medo de imaginar como possíveis conversas com forças que me são invisíveis, mas capazes de acessar o conteúdo de minhas reflexões expressas em falas, escritos, imagens, sonhos e práticas de vida;

Não tenho medo de ter sido algo aprendido o nomear, sentir e expressar essa força que denominaram amor e escolhi chamar de Ordem;

Não tenho medo de pensar que já fui unicelular e ao ir evoluindo ou me aperfeiçoando, esteja caminhando para a plenitude desse meu corpo e me aproximando da perfeição de ser.

Não tenho medo das teorias do criacionismo nem das que afirmam um processo divino intermediado pelo criacionismo.

Não tenho medo de considerar espelho e enigmas essas imagens ou mitos religiosos, avaliando-os como parábolas para nos ensinar lições fundamentais à vida.

Não tenho medo de alinhar razão e fé, acreditar que mais, muito mais do que eu possa imaginar, sejam os até agora segredos das naturezas divina e humana;

Do que eu tenho muito medo é de que, sendo tudo isso possível e sensível, eu apenas abra mão por não poder provar ou por encarar uma falta de explicação.

É por isso que eu me permito vivenciar e admitir que mesmo não alcançando explicação, sigo em frente, realizando singularmente a minha plenitude e pensando que, em algum momento após aprender e me desenvolver e me tornar aquilo que (mesmo indefinível) era chamado de perfeição, poderei acessar a Ordem e me tornar uno com ela.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 20 de março de 2014.

* A seleção de fotos não segue uma cronologia fixa, foram escolhidas pela facilidade de acesso.

17 de jan. de 2014

Impronunciável

Revolução amorosa, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 11/01/2014
Revolução amorosa, criado em 11/01/2014.

Uma Revolução Amorosa não pode se servir de armas, batalhas, jamais promoveria uma guerra, nunca derramaria uma gota de sangue. A Revolução Amorosa que imaginamos aproveita a Revolução Sexual iniciada há meio século para ir além do corpo exposto e eroticamente ativo. Quer chegar à alma e abrir as defesas que nos impedem de amar de modo amplo e intenso. A trajetória é desenvolvida por exercícios emocionais que questionam condutas e valores morais, substituindo-os por referenciais éticos. Uma ginástica afetiva que gradualmente substitua a moral pela ética pode representar tempo e espaço estendidos e suficientes para que nos aproximemos da Era Amorosa.
(Joaquim Z. B. Motta - A Moral do Amor - da Revolução Sexual À Revolução Amorosa


A experiência da vida é algo extremamente sutil*, não apenas por ser uma apropriação única de vivências. O toque do que nos escapa, do intangível e das considerações sociais pode tornar-se um fardo. E pesado.

Viver o silencioso mundo do oculto e abrigar a terrível missão da omissão, em si, já desconstrói qualquer fortaleza e corrói os escudos defensivos projetados pela razão.

Não é apenas uma questão de valoração. Certo ou errado - a maioria das vezes, neste caso - é apenas reflexo de uma moralização do encontros.

Acontece que a proposição de vivência compartilhada é singular, principalmente se incluir o obscuro mundo dos desejos, aspirações e pirações que a fantasia do viveram felizes para sempre produz.

É provável que seja possível desgrudar o desejo de ter prazer da fantasia do relacionamento perfeito e da apropriação do sentimento do outro. Para alguns que consigam, deve ser a chave para um respeitável modo de associação. Algo como aquela construção social do após a chama da paixão a amizade sustenta.

Ponderar o quanto há de disponibilidade, em si mesmo, para além de aceitar a trajetória do outro e permitir-se o alegrar-se com o caminho que ele percorre, o fazê-lo de forma abnegada e tranquila vivenciando isso sem intromissão dos próprios anseios, é algo que pode ser considerado uma tarefa impossível. Talvez, por isso muitos encaram esperançosamente o desafio. Um 'vamos ver no que dá' quase que inconsciente.

Como tudo na vida, provoca um desgaste. Só que, desta vez, na superfície da alma. E não é de forma alguma imperceptível ou desprezível. Muitos degeneram. Muitos perdem sua propriedade. Muitos se descaracterizam a ponto de não mais encontrar seus referenciais próprios: sucumbiram ao outro e ao seu desejo.

Uma questão que precisa ser solucionada é a de em que medida o confundir-se com o outro, o integrar-se ao outro e a entrega de si não despersonaliza.

Alguns, por conta de um determinado reforço social, não se ressentem da perda de si: autômatos em prol de fazer funcionar um relacionamento, esquecendo que não há relacionamento quando apenas uma parte cede, abre mão ou se abnega. Isso ficou claro nos relacionamentos constituídos durante os últimos séculos.

Como fruto da premissa da negação de si, juízes do comportamento alheio. Julgadores de práticas diferenciadas, mesmo quando escamoteado pelo verniz do desejo do melhor para alguém.

O mundo das relações não é mais o mesmo: as novas construções são determinadas pela exigência de equilíbrio entre as necessidades individuais e as do relacionamento e não há mais o temor do afastamento quando isso não ocorre.

A rejeição aos ditames morais que desqualificavam os que se separavam é algo que se estabeleceu em função de um desejo de encontrar, ou ver alguém amado encontrar, a felicidade compartilhada.

Mas alguns casos ainda não chegaram a receber o benefício dessa nova prática. Ficam escusos, ficam malogrados num gueto de relações indizíveis e se sustentam no apesar de, numa coragem de sobrepujar o imposto, o predeterminado.

Mas, mesmo entre esses, é possível aplicar essas reflexões: todos carregam muito de séculos de representações oficiais. A construção do novo não acontecerá do nada e nem será um decreto que acabará com as regras anteriores.

Sem questionar as diferenças, nem me prender a nenhum conceito pre-estabelecido, me permito avaliar o que percebo, o que vejo, o que não vejo mas surge e se expressa no apesar de. Talvez minha prática como psicólogo ou pensador seja algo a que não posso escapar. Talvez a minha vivência compartilhada seja um elemento provocador. Talvez haja tantos 'talvez' que eu me perca na tentativa de elencá-los, simplesmente para tentar justificar um texto, uma proposição, uma provocação das coisas que quando me pegam e não me soltam me levam às últimas consequências para tentar falar o impronunciável.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 17 de janeiro de 2014.

* A vida tem notas como de perfumes.
Perfumes são como fogos de artifício e sua graduação: explode com as notas de cabeça (o detalhe marcante do primeiro segundo), enriquecendo seu efeito com as notas de coração até que as notas de fundo o mantém como um rastro em nossa recordação.

3 de jan. de 2014

Mexicaninha

Mexicaninha, criado por Wellington de Oliveira Teixeira, em 02-01-2014
Mexicaninha, criado em 02-01-2014

'Não importa o que faça,
cada pessoa na Terra está sempre representando
o papel principal na História do mundo…
E normalmente não sabe disso.'
(O alquimista - Paulo Coelho)


Essa é a primeira postagem desse ano, e quero dedicá-la a minha sobrinha Debora Cristina (minha mexicaninha).

Iniciei 2014 acertando-a com a rolha de um proseco (acreditem!), com isso, acredito que... bem, ela já ficou marcada para o novo ano, né? *

A intenção, apesar da falta de mira, como sempre, era só chamar a atenção para o fato de que eu torço para que esse seja 'o ano' para ela: construído com o que há de melhor da vida, o amor.

Ainda bem que ela faz aniversário logo no início do ano e vou tentar me redimir fazendo algo além das desculpas pedidas na hora.

A Debora possui um tipo peculiar de humor: o veloz. Passa de um estado emocional para outro em milésimos de segundos - entenderam porque o apelido que lhe dei?

Para nós que a acompanhamos desde pequena, um dos piores momentos foi vê-la passar por um problema de pele complicado. E, talvez por isso, uma das maiores satisfações foi vê-la superar a doença.

Tem crescido e amadurecido muito nesses últimos tempos, está construindo a sua carreira profissional, noivou e está se programando para o casamento.

De menina comunicativa, avoadinha e geniosa, que não perdia uma festinha, vejo-a repartir seus interesses com mais sabedoria. E, como já demonstrou, aprendeu a ser a anfitriã cuidadosa com todos, o que (não me bata!) não foi exatamente nos seus 15 anos (queria que ela ouvisse a risada que eu dei quando escrevi a frase anterior!).

Como nesse texto, nossa comunicação é direta, verdadeira; o prazer de estar junto é real e constante; o carinho é via de mão-dupla. É um orgulho ser tio de uma pequena como essa. [viu? eu não chamei você de baixinha!]

Agora que dei uma descrição da pessoa, queria que vocês reparassem em elementos (parte superior da ilustração acima) como um rosto sorridente, braços bem abertos e a palavra sempre. Outros detalhes (no meu modo louco de expressão) como caixa de som, flores, pássaros voando - que tem ao fundo um trilho - são elementos para dizer que meu desejo é que o caminho dela tenha o que ela gosta: musicalidade, leveza, que tudo seja muito colorido e alegre para que, se tudo servir, ela vista a carapuça (ou será um sombrero?).

Com um carinho imenso, eu lhe desejo um feliz aniversário, minha linda!

Wellington de Oliveira Teixeira, em 03 de janeiro de 2013.

* Não jogue fora a rolha, não, hein!

26 de dez. de 2013

A sustentabilidade emocional

basta amar, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 20-12-2013
basta amar, criado em 20-12-2013

Aí não haverá mais grego nem judeu, nem bárbaro nem cita, nem escravo nem livre,
mas somente Cristo, que será tudo em todos.
Portanto, como eleitos de Deus, santos e queridos, revesti-vos de entranhada misericórdia,
de bondade, humildade, doçura, paciência.
Suportai-vos uns aos outros e perdoai-vos mutuamente, toda vez que tiverdes queixa contra outrem.
Como o Senhor vos perdoou, assim perdoai também vós.
Mas, acima de tudo, revesti-vos do amor, que é o vínculo da perfeição.
Triunfe em vossos corações a paz de Cristo, para a qual fostes chamados a fim de formar um único corpo.
E sede agradecidos.
(Bíblia - Colossenses 3:11-15).


Conheço muita gente. Me tornei amigo de algumas e o inverso também ocorreu.

Dentre aqueles que tive a oportunidade de acompanhar ou conviver por mais tempo, alguns me surpreendem até hoje pela capacidade conhecida como resiliência. Enfrentam constantemente situações de alta complexidade, sofrem com intensidade e carregam marcas no corpo e na alma. Resistem, ultrapassam e superam.

Me encanta essa disponibilidade para a vida, que até mesmo acontecimentos sórdidos não consegue desfazer.

Ponto em comum que consegui alinhar pela observação e contato foi uma forte carga emocional que tende a ser positiva: veem os acontecimentos como produtores de aprendizado e crescimento pessoal ou como um desafio a ser superado pela fé.

Todos encaram não como super-heróis as situações, não se isolam, buscam na participação de pessoas de confiança o apoio. De certa forma, é esse suporte emocional aliado ao aprendizado anterior que os permite atravessar o momento e a dificuldade sem caírem pelo caminho.

Esse ano, nas postagens de rede social, vi muitos pedidos de amigos que precisavam desse suporte. Enfrentaram situações drásticas que atingiram a si mesmos ou a pessoas muito próximas. E o impacto gerado foi avassalador. Vi, também, o retorno de muitos com palavras de conforto, de incentivo e de solidariedade. E foi com essa ampla rede sustentadora que o dia-a-dia de alguns desses meus amigos foi conquistado e seus males minimizados.

Está até parecendo que estou escrevendo algo como os conselhos que infestam os livros de 'auto-ajuda'. Mas minha meta diverge disso. O que pretendo é demonstrar que cada um tem o enfrentamento necessário para a sua vida. Deve encará-lo singularmente, pois é uma luta pessoal. A rede de apoio é algo a se acessar nos momentos em que a lucidez não é uma companheira. Não é um suporte fixo, onde me jogo e todos me seguram, menos eu.

Creio que o sinal que deve ser dado é: me incentive a ultrapassar; me mostre os pontos fortes que possuo, pois não estou vendo neste momento; amplie minha rede de contatos naqueles lugares que ainda não fiz algum; participe desse momento naquele aspecto em que eu sou imaturo ou sem aliados.

Bem, presença física, em alguns casos é essencial. Mas, talvez, na maioria dos outros, um bate-papo, uma mensagem, uma imagem com mensagem clara relativa à situação, podem ser a melhor opção. Permitem aquela solidão que impulsiona o ultrapassamento.

Acredito que seres humanos são dotados de uma capacidade de enviar pensamentos, sentimentos e outras formas de energia para outros, assim (repito, é uma opinião minha), uma rede de seres desejando intimamente um bem a outro podem influenciar o campo de forças que essa pessoa se encontra e auxiliá-la a atravessá-lo.

Por isso escolhi como tema sustentabilidade. Há um texto bíblico que exorta esta rede com um 'suportai-vos em amor'. E minha turma, rapidamente, passou a usar numa brincadeira, a de ter que suportar um sujeito chato. Mas tive a oportunidade de estudar um pouco mais profundamente o texto e verificar que falava de um conjunto de pessoas que com a manifestação de seu amor formam uma viga de sustentação. Peças em um emaranhado que auxiliam no completar o quebra-cabeça.

Hoje, embora busque até o último momento seguir com minhas próprias forças, não me impeço de recorrer àqueles que confiantemente me permito estar próximo para buscar a crítica, auxílio na elaboração de estratégias de vida para mais uma vez vencer um desafio.

Somos únicos. Indivíduos que nascem e morrem sozinhos. Mas nada nos impede de, ao percorrer este intervalo, nos aliarmos e nos fortalecermos naquilo que cada um traz de melhor em si.

Por isso, desejo que tudo que intento em favor daqueles que amo (dos conhecidos e dos desconhecidos) possa se concretizar: um mundo onde o respeito à diversidade inerente ao ser humano produza a paz.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 26 de dezembro de 2013.

* Notas

21 de nov. de 2013

A spinozidade da vida

spinozidade, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 21/11/2013
Spinozidade, criado em 21/11/2013

Não é por julgarmos uma coisa boa que nos esforçamos por ela, que a queremos, que a apetecemos, que a desejamos,
mas, ao contrário, é por nos esforçarmos por ela, por querê-la, por apetecê-la, por desejá-la, que a julgamos boa".
Espinoza, Ética, parte 3 prop. 9 esc.

A cada novo dia, outra teoria clássica é derrubada. Fundamentos que nos embasaram o pensamento, construídos a partir de definições pré-estabelecidas, perderam seu poder sustentador.

Bem, muitos não gostam e nem desejam aceitar que as definições que fizer se perderão com o tempo. Talvez, por isso, a temporariedade da construção do pensamento como um enigma é o que se propõe para nós outros.

Da física e da química que aprendi no fundamental e no secundário quase nada mais resta de pé. Que bom! Não tenho que me estabelecer como base de estrutura sólida, imutável, independente da variação que se estrutura no momento.

Pego o spin como exemplo: ele definia a direção do giro de uma partícula atômica. Portanto, seu campo magnético. Mas (e físicos, por favor, me ajudem), essa é uma visão muito estreita da realidade, uma vez que o fator giromagnético depende de carga, da espécie de partícula, da vetorialização e angulação, etc.

Me permitam utilizar essa entidade matemática e suas consequências como apoio para repensar meu caminho.

Em cada época, as ondulações do mar da vida produziram as condicionantes de minha apropriação da realidade. Houve épocas em que a dor era tão poderosa que nublava qualquer tentativa de raciocínio, mas o pensamento se estabelecia e produzia o necessário. Aconteceu, da mesma forma, quando era a alegria que assomava o terreno e quando todos os meio-termos se apresentaram, também.

Quem ou o que sou está diretamente relacionado com isso. A vida é isso. Momento.

E como uma mecânica quântica, o campo magnético da vida (que eu adotei com o nome de campo de possibilidades) proporciona e propulsiona atitudes, atos e encontros.

Meus queridos amigos mais jovens têm dito que me tornei hermético e com isso tenho produzido uma escrita obscura para eles. Talvez. Mas o simples preto no branco não se estabelece mais como parâmetro para minhas interpretações da realidade.

Os gestos que meu corpo aprendeu tiveram que receber adaptações ou reconstruções. Fiz o mesmo com meus julgamentos.

O olhar que produzo, diariamente, como realidade é apenas isso: uma produção e não é algo em si. O si, aí, sou eu. A realidade em mim e para mim.

Meu mundo se expandiu a ponto de acoplar outras realidades e a diferenciação se tornou o ponto central para qualquer raciocínio.

Gosto muito da ideia dos criacionistas de que Deus não repetiu nada, produziu a diferença em si, no mundo e nos relacionamentos. A beleza que observamos e vivenciamos se sustenta nisso.

O modo como cada um se propõe a vivenciar, a partir de suas próprias construções de mundo uma determinada realidade, é algo que cabe exclusivamente a essa pessoa. Assim, nossas valorações sobre o outro, seus atos, suas características acabam se tornando nada mais que uma forma de incluirmos a sua participação em nosso mundo.

Tenho sido conhecido como um ativista, especialmente com relação à Educação que considero a pedra fundamental na abertura dos mundos existentes em cada ser. Vou para a vida, participo de discussões, enfrento cacetetes por acreditar nisso.

E agora, nessa etapa de uma jornada que me é mais surpreende por não ter que se estabelecer em instituições estruturantes, e por possibilitar as (des)cobertas e (des)construções, eu honro os vínculos estabelecidos sem os laços que aprisionam. Sou grato pelos encontros que tive e por aqueles que se estruturaram de tal forma que estão aí na ordem do mundo. E do meu mundo. Sem nenhuma obrigação ou determinação de modo.

Talvez, uma das maiores conquistas da minha vida tenha sido essa: adotar, como prática, esse respeito ao tempo do outro, do momento do outro, e de estar aberto ao encontro - quando este se apresenta como possível, viável ou necessário.

Apenas uma visão (uma dentre tantas outras) que vou adotando conforme o aprendizado do ser e sua completude o exigem. Plenitude não é mais uma palavra para mim. É um desafio que altera o meu modo operandis para ser e estar de um modo pleno nessa ordem que a Ordem me permitiu vivenciar.

Se isto servir para dar partida para um outro ou novo pensamento, fique a vontade. Compartilhar é algo que me faz bem.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 21 de novembro de 2013.

* Li na wikipedia que o Spin não possui uma interpretação clássica, ou seja, é um fenômeno estritamente quântico, e sua associação com o movimento de rotação das partículas sobre seu eixo - uma visão clássica - deixa muito a desejar.

** Baruch Spinoza foi um dos grandes racionalistas do século XVII dentro da chamada Filosofia Moderna, juntamente com René Descartes e Gottfried Leibniz.