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14 de jan. de 2018

Sinalização e limites

Sinalizações, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 15-01-2018.
Sinalizações *, criado em

E no instante está o é dele mesmo. Quero captar o meu é. […]
E eis que percebo que quero para mim o substrato vibrante da palavra repetida em canto gregoriano. Estou consciente de que tudo que sei não posso dizer, só sei pintando ou pronunciando, sílabas cegas de sentido. E se tenho aqui que usar-te palavras, elas têm que fazer um sentido quase que só corpóreo, estou em luta com a vibração última. Para te dizer o meu substrato faço uma frase de palavras feitas apenas dos instantes-já.

(Clarice Lispector — Água Viva, p. 7 e 9)


Não sou exceção porque acontece muitas vezes na vida de também desejar uma sinalização mais evidente sobre o melhor caminho a seguir e me deparar com o silencio.

As superfícies estão aí com os seus marcos que mais se parecem com hieróglifos, símbolos de uma escrita a ser decifrada. Às vezes, o corpo tem uma apreensão própria e sinaliza a aproximação ou a repulsa; mas, em muitos outros momentos, encara o impermeável aos seus escrutínios, por mais que se insista.

Tento identificar a minha essência naquilo que estou vivendo e no que me torno. Sou uma escultura em fase de aperfeiçoamento: as ferramentas da vida abrasaram dolorosamente e rasgaram a superfície do meu corpo, mas percebo que estão estabelecendo linhas com mais equilíbrio e beleza na alma.

Esculpir-se exige conseguir estabelecer além de uma razão, um referencial de equilíbrio nos instantes de confusão para suportar cada desafio.

Simultaneamente doloroso, assustador e de uma beleza selvagem: de suas profundezas, a terra jorra magma que refaz e alimenta a sua superfície. Nossa natureza também o exige: é preciso constituir ambientes favoráveis para trazer à tona o melhor e o pior que nos habita. Encará-los com dignidade de quem aceita o que é, mas encontrar os pontos de transição e transformação para efetuá-los.

É preciso humildade para entender que, se a imensidão nos chama, o infinitesimal também. Temos o infinitamente grande guardado no peito, mas ainda expressamos as pequenas tiranias e a mesquinhez da nossa humanidade.

Podemos nos situar limítrofes, avançar numa linha de equilíbrio transitório, investir na ampliação das potências da vida. Mas, se surgir aquele instante mágico quando conseguimos estabelecer uma abertura maior no compasso que delineia os fluxos que nos determinam, uma expansão pode ocorrer e promover um novo território – com as aventuras, prazeres e dores que o desconhecido sempre oferece. É uma renovação, mas num novo patamar: algo que podemos denominar como recomeço.
Wellington de Oliveira Teixeira, em 15 de janeiro de 2018.

* Como um fluxo de água viva e pujante, ao mesmo tempo destrutiva e constitutiva do novo, a vida nos fornece desafios, experimentos capazes de gerar transformação quando assimilados. Disfarçados neles, em um conjunto de sinais, um manual de superação. É preciso encará-los e, a seguir, destilar seus venenos. O resultado é a renovação, um recomeço em outras bases, além de uma reserva em energia pessoal para compreender melhor as próprias necessidades e dar passos ao seu encontro.

23 de jun. de 2017

Engrenagens do pensamento

Engrenagens, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 23-06-2017.
Engrenagens *, criado em 23-06-2017.

Além dos objetos designados, além das verdades inteligíveis e formuladas, além das cadeias de associação subjetivas e de ressurreições por semelhança ou contiguidade, há as essências, que são alógicas ou supra lógicas.
Elas ultrapassam tanto os estados da subjetividade quanto as propriedades do objetivo.
É a essência que constitui a verdadeira unidade do signo e do sentido; é ela que constitui o signo como irredutível ao objeto que a emite; é ela que constitui o sentido como irredutível ao sujeito que o apreende.
Ela é a última palavra do aprendizado ou a revelação final.

(Gilles Deleuze — Proust e os signos, p.37-38)


Um pensamento, para que receba essa denominação, precisa ultrapassar a razão simples, o óbvio, com o exercício de uma investigação — dentro do escopo e do acesso a fontes de dados de cada um — até que se estruture num raciocínio lógico.

O nível de estruturação de qualquer raciocínio — dentro dos que acatam a crítica antes da expressão desenfreada de opiniões — sempre permitirá rupturas, brechas, pontos com sustentação menos consistente, por conta dos diversos modos de apreensão da realidade: do tipo de informações obtidas (acuradas, fragmentadas, ocultadas, indisponíveis), do estabelecimento de uma estruturação interna e externa coerentes.

Pontos controversos trazem à pauta reavaliações — fundamentos, avaliações e interpretações, modos de expressão e apresentação, tipos de conclusão —, portanto, dificilmente podem ser desconsiderados ou, pior, desqualificados. Acatá-los, exige disposição, exige ultrapassamentos, exige um reordenamento dos sentimentos e da aceitação dos limites pessoais. E isso nada tem a ver com neutralidade. Todo pensamento carrega uma interferência de disposições e preferências do ser que o exercita.

Esse movimento contínuo de retorno às bases, de reavaliações, de avanço para formas mais apuradas, do acatamento e inclusões de raciocínios mais eficientes durante os diálogos e debates é o processo de crescimento e de expansão das capacidades pessoais. Algo mais que bem vindo.

A bem da verdade, o melhor é sempre procurar o embate com outros seres pensantes, exatamente para pôr à prova as estruturas já desenvolvidas e, a seguir, para assimilar estruturas mais eficientes ou diferenciadas das que se conseguiu apreender.

Um bom combate sempre enaltecerá seus participantes, uma vez que raciocínios pífios são desperdício de um tempo importante, desmerecendo a consideração. Encontre sempre oponentes capazes de fazê-lo avançar, ampliar a visão e expandir sua capacidade; mas seja generoso no processo didático e colabore com os iniciantes: eles são os novos navegantes nos mares das descobertas, da imaginação criativa, crítica e capacitadora.

O legado — que é, talvez, o mais importante — a se deixar é esse brilho nos olhos que a descoberta do novo e o descobrimento das capacidades pessoais pode ofertar. Acende o fogo interior e essa chama, uma vez acesa, jamais apagará.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 23 de junho de 2017.

* As intercorrências da vida são como um brilho que, de repente, ilumina o campo de visão e permite perceber as engrenagens que o constituem. Cabe a cada um, individual ou coletivamente, utilizar esse momento e potencializar as bases que sustentam o seu pensamento, de modo a instituir novas e mais eficazes práticas de vida.

Dedico esse texto aos meus filhotes e companheiros dessa breve jornada.

18 de jun. de 2017

Ridículas e Ridículos

Fantasias, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 18-06-2017.
Fantasias *, criado em 18-06-2017.

Todas as cartas de amor...


Todas as cartas de amor são Ridículas. Não seriam cartas de amor se não fossem Ridículas.
Também escrevi em meu tempo cartas de amor, Como as outras, Ridículas.
As cartas de amor, se há amor, Têm de ser Ridículas.
Mas, afinal, Só as criaturas que nunca escreveram Cartas de amor É que são Ridículas.
Quem me dera no tempo em que escrevia Sem dar por isso Cartas de amor Ridículas.
A verdade é que hoje As minhas memórias Dessas cartas de amor É que são Ridículas.
(Todas as palavras esdrúxulas, Como os sentimentos esdrúxulos, São naturalmente Ridículas.)

(Fernando Pessoa — Poesias de Álvaro de Campos, 21/10/1935 )

Há um que de ridículo em filmes e seriados para (pré)adolescentes que resiste até mesmo em comédias românticas para adultos. Nos orientais com toque de ocidentais, de certa forma, há um entrelaçamento de filosofia de vida nos discursos que, retirados da cena, caberiam em projetos de pensamento, mas, na cena, tornam-se piegas e fazem juz ao comportamento de muitos dessa faixa de idade. Fiz uma compilação de trechos que, mais que ilustrar, pode ser usado como ponto para reflexão.

  1. — Cante para mim. Você nunca cantou para mim.
    — Que música?
    — Uma que me faça lembrar de você, que faça você se lembrar de mim, que lembraremos durante muito tempo.

  2. Essa noite, as estrelas estão especialmente radiantes, o tempo passa, eu recordarei as suas palavras com apego, nostalgia e tristeza, até a noite terminar.

  3. Ah! dias felizes, aquelas promessas sussurradas ao ouvido, agora atraem tristeza. Não por culpa sua. É apenas uma súbita vontade de chorar porque foi um lindo sonho.

  4. O amor pode ser travesso, faz quem não acredita nele sentir seu maior poder.

  5. Olhando para trás, percebo que todos protegem alguém que lhe é precioso, lutando, se machucando. E que todos são capazes de ser ferozes. Inclusive eu.

  6. Me tornei uma árvore que se curva; as imponentes, o tufão derruba.

  7. Inúmeras vezes, eu assisti as pessoas nascerem e morrerem. Então, eu pensei, por que se esforçam tanto se vão morrer? Todos vão envelhecer, ter rugas, vão morrer de muitas e diferentes formas.
    Por que se esforçar, como se até viver fosse um ato de guerra? Para um olhar atemporal, é patético e inútil.
    Só se pauta em morte quem não entende que ninguém vive para morrer. Os momentos dão importância à vida. É possível viver, mesmo com um final previsível. É algo tão simples, mas leva tempo para aprender.

  8. Algo como um ditado oriental diz:
    Você deve dizer as suas despedidas antes do fim; quando ele vier, não haverá tempo para isso.

  9. Tenha orgulho de saber isso. Se você viver muito mais tempo que eu, talvez até esqueça, mas tenha orgulho de ter sido importante para mim.
Pois é, verdades podem ser encontradas em qualquer lugar, basta estar acessível e coletar o importante, mesmo em meio ao que se poderia chamar 'lixo' ou 'popularesco'.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 18 de junho de 2017.

* Todas as frases são de Meu amor das Estrelas, um seriado coreano que assisti na Netflix. Momentos 'pastelão' são entremeados com conceitos filosóficos e românticos, uma espécie de existencialismo para pré adolescentes (ops!). O importante nessa aventura, além de dar um tempo para descanso e riso, é entender que, quando se garimpa, pedras preciosas são encontradas onde menos se espera. Um destaque é a linda melodia tema My destiny na voz suave de Lyn que, como Fernando Pessoa indica, precisa ser ridícula para ser de amor:

Meu Destino

Se eu tivesse me permitido uma vez mais, se eu pudesse vê-lo novamente.
Nas minhas lembranças do passado, dentro dessa dor, chamo por você.

Você é o meu destino, meu tudo.
Eu o chamo em silêncio.
Você é o meu único amor, todo o meu prazer.
Você é meu amor para sempre.

Venha para o meu lado, se você ainda me ama.
As lágrimas nos meus olhos tentam dizer 'Eu o amo'.

Você é o meu destino, meu tudo.
A única coisa que não mudou foi o meu amor por você.
Você é o meu único amor, todo o meu prazer,
Meu destino.

Mesmo que o mundo mude, você sabe que eu só vou amar você?
Eu chamo por você.

21 de abr. de 2017

Caçando equinócios

Caçando equinócios, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 21-04-2017.
Caçando equinócios, criado em 21-04-2017.

Fernão Gaivota viveu solitário o resto de seus dias, mas voou pra muito além dos Penhascos do Fim do Mundo. Sua única mágoa não era a solidão, e sim que as outras gaivotas se recusassem a acreditar na glória do voo que as esperava. recuravam-se a abrir os olhos e enxergar.
E ele aprendia mais a cada dia.

(Richard Bach — Fernão Capelo Gaivota, p.26)


Há um certo regozijo, um prazer que foge da narrativa, que não se deixa capturar; que permanece, que se sustenta em si. E só agora compreendo que é ele o que precisa ser reativado, não a sua motivação momentânea.

Adolescente, percebi que para efetivar o prazer dos meus vôos eu precisava detectar e encontrar sua fonte e sua sustentação. Estavam lá, invisível e potente me elevando como pássaro ou avião, identificável, mensurável e fundamental: um outro ar que diferia do que eu respirava, mas alimentava, em determinado nível, a minha alma.

A vida segue. Vias trilhadas não se eliminam ou se reciclam: tristeza ou dor deixam marcas, exigindo ressignificar seu valor para a própria vida sob a pena de ficar aprisionado em suas garras*. Sonhos despedaçam e é preciso, das partes resultantes, se propor a recomeçar ao criar delas um lindo mosaico.

Imagens quase dizem os sentimentos. Palavras quase ocultam os fatos. São como diminutos sinais, que denunciam o que se sente no que é dito. Tentar interpretar esses resíduos ou efeitos de discursos é como enveredar uma trilha escusa dos simulacros. Tem seu valor, mas não apara as pontiagudas arestas na alma, senão quando há disposição pessoal para assimilar e aprender.

Sentimentos são tortuosos em seu fluxo. Aquietar-se permite o instante necessário para deixar reduzir a potência inicial da tormenta que o capturou. Se antes eu buscava o vento que sustentaria a minha asa, hoje eu atento para a minha respiração e nada mais: acima de tudo, a vida me percorre e eu posso refazer minhas fontes, gerar novos sentidos, produzir outros encontros e, neles, novas formas de ser feliz.

Continua doendo, mas vai ficando menos intenso, deixa de tomar toda a minha atenção, e libera as sombras que encobriram o meu olhar, à pouco. Tem um horizonte, sim. Veja só! Vênus está se erguendo marcando um outro equinócio, onde o dia e a noite ganham a mesma duração. Frio e o calor se sucedem e nos ensinam a entender a vida em seus poderosos, opostos e, por vezes, furiosos fluxos. Na transição de um ponto a outro, o equilíbrio renasce no momento de iniciar uma nova estação, mas exige desprender-se e fluir, corpo e alma.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 21 de abril de 2017.

* Espanta o estado atual em que o sofrimento alheio é relegado ao nível da chacota. O mundo está gerando seres deprimidos, com promessas de felicidade duradoura — apenas até a próxima edição ou versão de felicidade duradoura, a ser conquistada (leia-se, comprada).
Uma expectativa de onipotência proclamada por palestrantes dos empreendedorismos, pagos a peso de ouro, frustrada na semana seguinte. Relações pessoais que emergem e se desintegram na mesma proporção: fantasias falaciosas que se desfazem na primeira discussão.
A estagnação e o ressentimento, após tanta fé investida de forma infrutífera, estão colonizando as almas. A maré da medicalização, que alavanca os lucros farmacêuticos em forma de dependência química das tarjas-pretas, se expande inexoravelmente. Até a inquietude natural das crianças é rotulada de 'transtorno'.
Suicídio não é algo banal. A inexistência de qualquer elemento sustentador da vontade de viver é escandalosamente preocupante. Ignorar o contexto em que são produzidos um número imenso deles é mais do que imbecil. É cegueira opcional.
Não vou citar nenhum filósofo ou pensador. Não necessito. Só é preciso que você pense nas vezes em que se entristeceu para valer, quando nada deu certo e o desespero bateu a sua porta.
Sua ação é fundamental para reverter o quadro. Inicie com propostas colaboracionistas, participativas, inclusivas. Isso, por si só, abre portas para encontros potentes para a transformação pessoal e coletiva.

24 de fev. de 2017

Situações significadas

Fantasia criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 21-02-2017.
Fantasia*, criado em 21-02-2017.

É bom que comecem a pensar nos limites da magia do caos. Em como é irresponsável e desonesto usar métodos que ponham vidas em risco só para descobrir esses limites. Como todas as escolas, estamos sempre interessados em aprendizado, pesquisa e em ampliar os limites do conhecimento. Mas temos de equilibrar isso com a nossa obrigação de proteger o mundo, mesmo que seja de nós mesmos.
(Holly Black & Cassandra Clare — Magisterium 3: A chave de bronze, p.74)


De uma vez por todas. Não há MAL que vem para o BEM. Há situações difíceis, mas necessárias ao aprendizado: se ocorreu, deu significado a tudo.

Essa expressão está diretamente ligada a nossas pequenas e insignificantes imbecilidades (uma dentre tantas rotulações que adotamos sem criticar) capazes de retirar do belíssimo processo de construção pessoal as vitórias ao retirar a imensa potência que há nos desafios.

Quem quer crescer busca desafios: fato indiscutível. A sorte de principiante acaba após a primeira tentativa. Dá o gostinho da vitória para provar ser possível conquistá-la. Quer provar outra vez esse gostinho? Construa a sua capacidade para alcançá-la novamente.

Um dos maiores pilares dos aprendizados da vida, a estratégia é o modo mais eficiente para a superação dos desafios. Quais são os limites? Quais são as fortalezas e como usá-las para minimizar os limites?

Concordo com quem pensou 'falar é fácil' mas, desde a mais tenra idade, a superação tem se apresentado na maior parte da vida, quase como uma marca registrada em cada desafio vencido: se comunicar, andar, conquistar e amar. Recordar a jornada lhe parece difícil?

Se apenas imaginar-se muito além de onde está não basta para você, saiba que tem um parceio em mim. Qualquer utopia pode ser uma fantasia de momento, como beijos no carnaval, ou pode ser a imaginação preparando o caminho adiante. Sonhos constroem estradas para a realização. É tudo uma questão de como encarar e dar significado às questões da vida.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 24 de fevereiro de 2017.

* Um trecho da música Kissing You cantada por Des'ree (tema do filme Romeu e Julieta) demonstra que desafios ultrapassam conquistas mundanas. Tudo apenas ganha significado quando é tomado por uma razão: a sua razão.
O orgulho pode constituir-se após milhares de tentativas: o forte nunca desfalece.
Mas olhando as estrelas sem você, minha alma chorou. Coração altivo tomado de temor: a dor.
Pois estou beijando você, beijando você.
Toque-me profundamente, pureza e verdade dotem-me para sempre.
Pois estou beijando você. Onde você está agora?

17 de fev. de 2017

Linhas de fuga

Linhas de fuga, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 17-02-2017.
Linhas de fuga *, criado em 17-02-2017.

citação prévia.
(— )


Nossos 'bois da cara preta', que eram assustadores, se tornam uma canção de ninar, não é mesmo? Mas foi preciso deixar o silêncio chegar, anjinhos descansarem, tudo relaxar: meditar e permitir a tal da mente quieta, com espinha ereta e coração tranquilo. O tempo acelera, pede pressa? Faça hora a vá na valsa. A vida é tão rara!

Há momentos quando a alma diz que meu ar, meu chão é você, com olhos fechados posso te ver; e, certamente, vou prometer te querer até o amor cair doente.

É simples prestar atenção ou guardar a letra das músicas ao ouvir de amor, amor e amor (melhor se 'apimentada' com sexo ou sacanagem), certo? Você até decorou que num sábado de sol levei a galera pra comer feijão, mas, que vergonha, só tinha maconha; é que você pode usar… baseado em que você pode fazer quase tudo. Mas saiba que foi por estar com medo de perder você, uma semente nativa fui buscar e com todo carinho lhe entreguei a semente que então desabrochou sob a lua cheia…

Não deixe que se percam as nuances, as imagens usadas. Há um prazer imenso em descobrir o que há meio que escondido nas letras das músicas. Se permita esse passatempo. Além de divertido, é muito instrutivo: é aprender literatura de um modo muito fácil. Se cada cabeça é um mundo, cada um é muito mais, o toque de Deus é a diversidade.

Não pense que esse alerta é uma crítica ao seu modo de ser ou estar. É um modo de chamar sua atenção para o fato de que absorver algo sem avaliar o que está engolindo é perigoso. Isso já ganhou um nome: midiotia. Essa doença tornou-se uma pandemia, um monstro capaz de abocanhar toda a população.

Você constrói a estrada da sua vida com seus passos. Mas, o futuro que tentamos pilotar muda nossa vida e depois convida a rir ou chorar: é uma linda passarela de uma aquarela que um dia, enfim, descolorirá. Até lá, tire o sumo dessa fruta, aproveite ao máximo o sabor desse presente. Viver assim é como ter linhas de fuga ao tédio e à monotonia. Você merece!

Wellington de Oliveira Teixeira, em 17 de fevereiro de 2017.

* Experimente ouvir e entender as músicas citadas nessa postagem. Em ordem:
  1. Acalanto (Dorival Caymmi);
  2. Serra Do luar/Coração Tranquilo (Walter Franco);
  3. Sem ar (D'Black);
  4. Tempo da Delicadeza (Chico Buarque);
  5. Sábado de Sol (Mamonas assassinas);
  6. Plantei uma flor (Natiruts);
  7. O mal é o que sai da boca do homem (Pepeu Gomes);
  8. Paciência (Lenine);
  9. Diversidade (Lenine);
  10. Aquarela (Toquinho).
É algo divertido, mobiliza sentimentos diversos, trazem altos e baixos, calma e agitação, como a própria vida.

21 de set. de 2015

Um vértice num vórtice

Vértice no Vórtice, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 21-09-2015.
Vértice no Vórtice, criado em 21-09-2015.

Vértice:
ponto que liga uma aresta a outra, quina de um sólido, uma ponta, o ponto oposto mais afastado da base de uma figura.
A altura máxima atingida por algo que se eleva ou o ponto mais alto de (algo); ápice, cume, culminação.
Vórtice:
movimento forte e giratório; remoinho, turbilhão; o centro de um redemoinho, um furacão, um ponto de sucção em espiral.
O vórtice surge devido a diferença de pressão de duas regiões vizinhas.

É muito complicado lidar com intempéries, todos sabem. Quando a natureza visibiliza seu poder, para além de belo, pode ser extremamente perigoso estar exposto à sua ação. É perigoso viver, certamente, uma vez que somos parte da natureza e participamos de sua capacidade destrutiva.

Conforme os elementos vão sendo adicionados, o conjunto de elementos que integram determinado evento pode se completar e complementar, iniciando a sua manifestação. Se soubéssemos avaliar quais elementos e em qual ordem, poderíamos antecipar sua ocorrência.

A ciência busca entender os processos naturais, isso inclui nossos pensamentos e sentimentos. As variáveis são imensas, as interferências entre elas de igual monta e isso dificulta tudo. Já aprendemos a detectar quais são os elementos e os tipos de interação entre vários deles. Isso nos conduziu a uma era de tecnologias de planejamento e de prevenção.

No entanto, o próprio uso do controle pode ser um elemento disparador de novos fatos e isso pode acelerar a escalada dos níveis de intervenção. Por isso, a cautela sempre foi e será uma atitude indicada em qualquer situação. Ser cauteloso não significa ser inerte, imóvel ou receoso de agir. É preferir avaliar cuidadosamente o máximo possível de possibilidades antes de decidir.

Quando se constrói referenciais firmes, mesmo que as situações se tornem complicadas, haverá um ponto a que se apegar. É como a ideia de vértice, aquele ponto de encontro que une duas retas (como na letra V). Se tudo girar e se misturar alcance o centro do vórtice e permaneça nele até que tenha condições de avançar ou agir, novamente.

Dizem que, de tempos em tempos, precisamos de uma sacudida para não desistirmos de avançar por preguiça ou desânimo*. Construa seu caminho de modo que ao aparecer um tufão, encontre um vértice em seu vórtice e saia mais sábio e mais fortalecido por ele.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 21 de setembro de 2015.

* Na Física, reconhecemos a natureza dinâmica do universo não só quando nos voltamos para as pequenas dimensões — para o mundo dos átomos e dos núcleos — mas igualmente quando nos voltamos para as grandes dimensões — para o mundo das estrelas e das galáxias. Através de nossos poderosos telescópios, observamos um universo em permanente movimento. Nuvens rotatórias de hidrogênio contraem-se para formar estrelas, aquecendo-se nesse processo até que se tornem fogos candentes no céu. Atingindo esse estágio, elas continuam a girar, algumas delas lançando material no espaço, que se movimenta em espirais e se condensa em planetas girando em torno da estrela.
Enfim, passados milhões de anos, quando quase todo o seu combustível de hidrogênio foi consumido, uma estrela se expande e se contrai novamente no derradeiro colapso gravitacional. Esse colapso pode envolver explosões gigantescas e pode até mesmo fazer com que a estrela se torne um buraco negro. Todas essas atividades — a formação de estrelas a partir de nuvens de gás interestelar, sua contração e posterior expansão e seu colapso final — podem ser observadas em algum ponto dos céus.
As estrelas em rotação, contração, expansão ou explosão aglutinam-se em galáxias de diversas formas — discos planos, esferas, espirais, etc. — que, uma vez mais, não são imóveis, mas giram. Nossa galáxia, a Via Láctea, é um imenso disco de estrelas e gás girando no espaço como uma roda de dimensões imensas, de tal forma que todas as suas estrelas — inclusive o Sol e seus planetas — se movem em torno do centro da galáxia.
(Fritjof Capra — O Tao da Física, p.150-151)

13 de set. de 2015

Abatimento

Abatimento, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 13-09-2015.
Abatimento*, criado em 13-09-2015.

Já não tem como voltar atrás,
nem acertar o que já foi demais; só por nós dois, eu sei que não dá.
Daqui há pouco o sol vai partir
e eu vou ficar parado como um barco que procura um farol pra se guiar.
Partir sem lugar pra chegar
é como ter que ir e não poder nunca mais voltar…
Fugi, fui deixando você e me perdendo de mim:
é tão difícil enxergar o fim!

(Flávio Venturini — Navios)


O acinzentado do céu ajuda essa sensação de estranhamento, um não saber bem o que se quer, como aquele momento que se vivencia ao abrir a porta da geladeira. É uma certa indecisão, estar entre um lugar ou outro, e não conseguir decidir entre o ir e o ficar. Limbo. Nuvem que paira e não diz bem a que veio.

O intervalo que permite um repouso após a convulsão de sentimentos, os pensamentos embaralhados, as recordações inexatas que são promovidas quando ocorre o distanciamento, a despedida, a viagem de ida sem retorno. Uma cena de filme onde todos torcem para a personagem se virar e olhar, pois o futuro, o feliz para sempre, está logo ali, à distância de um beijo.

Diz-se que alguém está abatido quando entra nesse estágio. É que a base da palavra induz a recordar dos abatedouros, do lugar dos sacrifícios, da falta de esperança e de possibilidades futuras provocada pelo golpe do destino.

Esse esvaziamento das energias, esse esmaecimento das cores, certamente pode ser relacionado à ausência da luz que se apagou, do sorriso desfeito, do amargo retido e dos sonhos tragados — para quem fica. Não sei dizer bem o que, para quem vai. Mas como toda viagem, ao se cruzar as fronteiras, um novo mundo nos aguarda. Talvez uma nova língua, novos costumes, novos encontros. A novidade com todos os percalços e construções possíveis.

Estou novamente atravessando um período de luto. Dia a pós dia superando a pressão no peito, reerguendo meus escudos, fortalecendo minhas determinações. Assim como a vida é um presente, a morte é um futuro certo. Há motivos relevantes para se dar um tempo e refletir, intensificar as marcas deixadas pela vida exaurida. Mas permitir-se a dor não é um ato de entrega ou desistência. É reprisar as boas oportunidades que a vida concedeu nos encontros efetuados e resíduos que permaneceram.

Eu sei que isso soa melancólico demais, mas é necessário: algo assim como esse dia, lindo e triste.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 13 de setembro de 2015.

* Custei muito para conseguir produzir esse texto. É como uma espécie de despedida para o amigo 'brasileiro quase mexicano' com quem compartilhei boas aventuras e risadas, Carlos Leonardo da Silva Querino (eu o chamava de Caleo, por conta de Smallville, a série que assistimos juntos). Ele morreu no dia 08-SET. Certamente levou uma parte de mim consigo e eu vou me esforçar para honrar a sua parte em mim.

5 de jul. de 2015

A desestruturação é cósmica

Desestruturação cósmica, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 05-07-2015.
Desestruturação cósmica, criado em 05-07-2015.

Oração da Paz
Senhor: Fazei de mim um instrumento de vossa Paz.
Onde houver Ódio, que eu leve o Amor,
Onde houver Ofensa, que eu leve o Perdão.
Onde houver Discórdia, que eu leve a União.
Onde houver Dúvida, que eu leve a Fé.
Onde houver Erro, que eu leve a Verdade.
Onde houver Desespero, que eu leve a Esperança.
Onde houver Tristeza, que eu leve a Alegria.
Onde houver Trevas, que eu leve a Luz!
Ó Mestre, fazei que eu procure mais:
consolar, que ser consolado;
compreender, que ser compreendido;
amar, que ser amado.
Pois é dando que se recebe,
perdoando que se é perdoado,
e é morrendo que se vive para a vida eterna!
Amém.

(Origem anônima, geralmente atribuída a São Francisco de Assis)


Os fluxos de conexão com a terra, a água e o ar não precisam estar em equilíbrio com o indivíduo para que ele saiba quando e onde semear e produzir uma boa colheita. Do mesmo modo, muitas outras formas sensoriais que durante séculos foram utilizadas pela humanidade caíram em desuso. Inclusive, tornou-se obsoleta a capacidade de antecipação, diante das tecnologias desenvolvidas pela humanidade.*

Motivo de preocupação? Talvez. Caso ocorra um novo colapso na configuração mundial — a simples proximidade de um cometa ou expansão do fulgor de uma estrela seriam capazes de desabilitar a maioria dos recursos tecnológicos disponíveis.

Mas pensemos um pouco ampliado. Novos universos estão em formação nas incontáveis e distantes galáxias. Uma estrela está se desintegrando e sua força, ao expandir-se, propulsiona milhões de elementos em nossa direção. Talvez, possamos identificá-los e contemplar a sua luminosidade destacando-se em um céu limpo.

É assim que a transformação — mesmo a produzida com a destruição de uma estrutura milenar — é implacável e eficiente em seus propósitos. O infindável estabelecimento de restruturações. O conceito vale para minúsculas mudanças no seu corpo, para o que afeta sua mente e até para o que se estabelece como novo constituinte do seu espírito.

A Ordem definiu que tudo concorre igualmente para a manutenção do equilíbrio da vida, e nossa inserção nas leis universais deveria produzir respeito e consideração por todas as criaturas.

Apreciar fatos, pesquisar, desenvolver teorias é a manifestação mais pura de nossa natureza como seres desejantes, em especial do conhecimento. Na contramão, inquietação não propicia condições para a superação do que quer que ocupe a sua mente, mesmo o que surge em função dessa reflexão.

A vida propõe questões. Há recursos dentro e fora do ser humano para, apropriando-se deles, ultrapassá-las. E para todas aquelas que, por alguma impossibilidade momentânea, não foram superadas, o aprendizado da paciência e da perseverança também é um caminho que nos conduz à Sabedoria.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 05 de julho de 2015.

* A revolução tecnológica reconfigurou o modus operandi humano. Dispositivos modernos, integrados às redes virtuais, influenciam emoções, razão e inserção social. Produção, consumo, modos de sonhar, de lutar e divulgar ideias alcançaram outro estágio.
A intensificação do imediatismo, o desconforto perante novas exigências na execução de tarefas, a invasão de privacidade, a noção de tempo e as formas de lazer se enraízam e constituem a nova sociedade.
Apenas o primeiro passo para outra estruturação das sensibilidades e do cérebro afim de proporcionar a hibridação humano-máquina.

8 de jun. de 2015

Uma poção mágica cairia bem

 criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 08-06-2015.
poção mágica, criado em 08-06-2015.

Os excessos tentam diminuir tudo o que nos falta, sem conseguir.
Vontades fazem de um rei um escravo quando põe o mundo atrás das grades.
São as forças que nos podem matar, são fraquezas que nos podem salvar.
Erros são certos pra sermos únicos: defeitos se confundem com virtudes.
Todos precisam de um veneno pra encher a sua taça de desejo.
Todos precisam de um desejo pra encher a sua taça de veneno.
Mas com medo não se vive, com receio não se vai, com a dúvida não se arrisca, não se voa, não se cai.
Curto é o caminho dos covardes, triste é o riso dos ignorantes.
Todos precisam…

(Guilherme Arantes — Taça de Veneno)


A bem da verdade, somos quase que incapazes de determiná-los de forma precisa, por que se manifestam como uma espécie de sensação de desconforto. Tipo uma febre que surge do nada, retira o prazer das coisas, mesmo as mais desejadas, causa prostração, impõe um estado incomum e perturbador.

Por isso, me pergunto se é possível escolher o remédio — que pode envenenar ou curar, dependendo da dose — capaz de dar conta das vicissitudes da vida, o estrago interior causado pelas miríades de pequenos ou grandes problemas irresolvidos que vagueiam dentro de nós.

Uma boa dose de poção mágica cairia muito bem nessas situações, não concorda?

É claro que temos nossos próprios remédios alternativos ou paliativos que minimizam as consequências ou efeitos vivenciados nesses momentos. Para alguns, é reunir amigos e/ou familiares para um passeio no fim-de-semana, um joguinho de parcerias, a cervejinha ou outra droga — lícita ou ilícita* —, enfim, compartilhar momentos de lazer. Para outros, momentos de isolamento e descanso. Essas coisas afastam um pouco o fantasma que nos assombra, mas a questão ficou apenas pendente e retornará.

Questões urgentes não cedem tão facilmente, exigem ser encaradas. E nessa hora, amigo, não há outra opção, tem que usar aquela reserva de energia acumulada e ir para o embate. Use da razão ao máximo, investigue para descobrir quais são os elementos causadores, identifique os mais fáceis de serem superados e parta direto para eles.

Haverá, certamente, elementos que por sua complexidade poderão exigir força extra, externa. Não tenha medo de ir buscá-las em um profissional competente, especialmente nos casos onde parentes e amigos não estão capacitados para tal tarefa: ouvir conselhos não basta.

A vida pode ser muito melhor quando nos livramos de fardos desnecessários, de coisas velhas guardadas como se fossem uma verdadeira relíquia: sobras e restos apodrecidos, lixos contaminadores da alma; roupas sem uso no armário, apenas ocupando o espaço de uma novidade.

Não acumule problemas, trate-os da forma correta. Reciclagem também deve ser feita na alma. A tal da higiene mental funciona comprovadamente: se o interior ficar mais leve, mais fácil se torna o encarar novas questões, sem ser subjugado por elas.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 08 de junho de 2015.

* Seria hipocrisia da minha parte não citá-las, uma vez que produzem efeitos semelhantes. As questões do uso recreativo ou de vício englobam qualquer droga, mesmo as lícitas.

2 de mai. de 2015

Esconder-se é vital

Brado, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 02-05-2015.
Brado, criado em 02-05-2015.

Ouviram do Ipiranga as margens plácidas de um povo heroico o brado retumbante,
E o sol da liberdade, em raios fúlgidos, brilhou no céu da pátria nesse instante.

(Hino Nacional Brasileiro — Joaquim Osório Duque Estrada e Francisco Manuel da Silva)


Esconderijo é um lugar para onde você vai quando necessita de refúgio.

Em algum momento da vida, certamente, a necessidade de um recanto irá sobressair diante do aglomerado de questões cotidianas. Engana-se quem acredita que ele não é necessário e fundamental à construção de um indivíduo equilibrado. A vida se constitui de atividade e repouso, manifestos no gradual ciclo climático, da noite e dia, do acordar e dormir. Do mesmo modo, a mente humana.

Incrível mesmo é perceber como uma estrutura que não para consegue fazer esse balanceamento. Todos os nossos sistemas vitais são mantidos porque os nossos órgãos — especialmente coração e cérebro — conseguiram desenvolver um mecanismo de repouso relativo.

A razão que durante o período de atividade ocupa grande parte de nossas atividades cede lugar a um intricado sistema de absorção e rejeição de informações recolhidas: geramos sonhos e pesadelos. Por meio dessa reciclagem constituímos um ambiente emocional melhor. É a tal da higiene mental.

Nos períodos em que a carga de elementos alcança um nível muito elevado e não conseguimos durante o processo comum dar conta, surge uma exigência de refúgio e descanso. Nessa hora construímos um esconderijo. Será para lá aonde iremos em situações semelhantes.

Penso nessa condição como férias. Depois de uma sequência grande de trabalho têm-se que trocar os pontos de referência, do contrário a visão embaça e não conseguimos mais perceber os detalhes, produzindo a degradação da atividade.

Só que refúgio é algo muito pessoal e suas tramas nos envolvem como uma rede. Ficamos suspensos numa espécie de casulo e nos regeneramos e nos transformamos. Saímos dele prontos para encarar o novo ciclo adiante e tudo se repete, ou quase.

É como uma imagem complicada*. Lá no cantinho da base direita é você quem estende os braços e brada, produzindo vibrações que, mais que afastam a obscuridade, produzem luz e brilho bem dentro do coração e da mente.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 02 de maio de 2015.

* Basta clicar na imagem, caso você a queira ampliar para ver o detalhe indicado.

7 de abr. de 2015

Discursos contaminadores

Contaminadores criado por Wellington de Oliveira Tixeira em 04-04-2015.
Contaminadores*, criado em 04-04-2015.

Se o poder fosse somente repressivo, se não fizesse outra coisa a não ser dizer não, você acredita que seria obedecido? O que faz com que o poder se mantenha e que seja aceito é simplesmente que ele não pesa só como uma força que diz não, mas que de fato ele permeia, produz coisas, induz ao prazer, forma saber, produz discurso.
(Michel Foucault — Microfísica do Poder, p.8 )


Contaminados nós já estamos há muito tempo. Especialmente a partir da promulgação da lei do Gerson, os brasileiros, visando levar vantagem em tudo, produziram uma sociedade onde o individualismo sobrepujou o valor da coletividade. Essa reprodução tupiniquim da máxima do capitalismo americano — pisar em todos para o ser o número um — interfere diretamente em nossas vidas.

Nosso país foi alvo fácil para os conglomerados e multinacionais engolidores de pequenas empresas, do artesanato e da agricultura familiar. Já somos reféns. Eles definem tudo: da marca que estará disponível para a venda até o seu preço. Isso vale para energia, comunicação e extrativismo, também. A concorrência tornou-se apenas um acordo entre empresários — os mesmos que investem em campanhas políticas para controlar a legislação do país e obter lucros vergonhosos.

O poder se concentra em poucas mãos. Sabia que apenas seis famílias controlam os meios de comunicação dominantes no país. E se não sair no jornal ou na televisão não é verdade, certo? Em época de redes sociais, há grupos formados para forjar ou falsificar informações, gerando confusão; há propagadores de discursos de ódio e promotores de preconceitos sociais.

Não se iluda: tudo é em função do financeiro. Se há corruptos, há corruptores. Só que você xinga um político corrupto, mas não o seu corruptor — eu me pergunto sempre o porque disso! Empresários que constroem riquezas ilícitas com o dinheiro público, corrompem, além dos representantes da população, os gananciosos e sem escrúpulos.

Ser humilde é não pisar em ninguém e não abaixar a cabeça para ninguém. Só que contaminaram nosso sangue com a subserviência, com o desejo de ser capacho. Quem eleva a voz e promove o discurso contra eles?

Dinheiro não torna ninguém melhor que ninguém, mesmo que possa até comprar pessoas. Mas quem tem preço não tem valor. É preciso criar uma sociedade onde ninguém precise se vender, ou vender seu voto, ou vender a saúde e o tempo em família em troca de um salário indigno. É preciso tirar de nosso DNA o tal do jeitinho brasileiro.

Sabemos que poder financeiro corrompe, que destrói vidas, que denigre a imagem de quem não se corrompe e que, por fim (senão já de início) mata. Contra esse tipo de poder somente unindo forças, somente coletivizando as questões, somente produzindo informações esclarecedoras e denunciando as farsas.

Ninguém terá uma vida tranquila enquanto houver ao seu redor pessoas padecendo. Assaltos, assassinatos, violências são fruto de péssimas condições de vida, mudar isso tem que ser a preocupação e o objetivo de pessoas e governos.

Pense que apenas 1% da população detém os mesmos recursos, ou mais, que os 99% restante. Se esta parcela tão grande passar a pensar e a se posicionar — e não mais se submeter — a transformação é possível. Basta abandonar os discursos que injetaram em nossas veias e contaminou nossas vidas.

Podemos mudar a realidade, se mudarmos a nossa mente, se deixarmos de acreditar que é algo impossível. Se olharmos o próximo com amor e não com ódio.
Wellington de Oliveira Teixeira, em 07 de abril de 2015.

* o vermelho da imagem está diretamente ligado a cor do sangue, não faça falsas suposições.

28 de mar. de 2015

Recordações esquecidas

Recordações esquecidas criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 28-03-2015
Recordações esquecidas, criado em 28-03-2015.

É digno de nota que, por pouco que os homens sejam capazes de existir isoladamente, sintam, não obstante, como um pesado fardo os sacrifícios que a civilização deles espera, a fim de tornar possível a vida comunitária. A civilização, portanto, tem de ser defendida contra o indivíduo, e seus regulamentos, instituições e ordens dirigem-se a essa tarefa. Visam não apenas a efetuar uma certa distribuição da riqueza, mas também a manter essa distribuição; na verdade, têm de proteger contra os impulsos hostis dos homens tudo o que contribui para a conquista da natureza e a produção de riqueza. As criações humanas são facilmente destruídas, e a ciência e a tecnologia, que as construíram, também podem ser utilizadas para sua aniquilação.
(Sigmund Freud — O futuro de uma ilusão, p.4)
Permitir-se ter os sonhos mais lindos, sem depois acordar e se entristecer diante da realidade que os contradiz é, certamente, um desafio para cada ser humano. Exige equilibrar o desejável diante do possível quando, muitas das vezes, suas expectativas estão desfeitas ou vivências prazerosas frustradas no dia a dia.

Perante o sofrimento, algumas teorias psicológicas* propõem que vivenciamos, da raiva até a aceitação, estágios como a negação, negociação, depressão. Não irei desenvolver o conceito, uso essa informação apenas para mostrar que não é tão simples quanto parece. Embora, para alguns, ocorram de forma sutil, ocultados pelas necessidades diárias; em outros, os estágios ficam visíveis por meio de explosões de fala, lágrimas e inércia. De fora, desqualificar a turbulência vivenciada por outros é fácil. Afinal, a melhor dor é aquela que não sentimos.

Se encaminhar da autodestruição para a superação é o aprendizado principal do 'cair para aprender a se erguer': um processo eminentemente pessoal.

Como tudo na vida, o primeiro passo é entender o Isso passa! presente em cada acontecimento, dos mais tristes aos mais felizes. O segundo, é o Já ultrapassei algo semelhante! — cada queda nos ensina os pontos de desequilíbrio e, além disso, novas formas de reequilibrar. Por fim, perceber o A vida continua! e o tempo que gasto me prendendo ao que passou me impede de vivenciar o presente e de avançar para alcançar outras metas.

Nada que não a cessação da vida finaliza o processo de ser e estar nesse mundo incrível. Mesmo com tão bizarros fatos e acontecimentos que temos que encarar. Por isso, o Segue adiante! é um lema tão importante, não apenas retórica nas falas dos que incentivam.

Uma boa dica é refletir sobre o que foi vivenciado, sempre contextualizando a influência da experiência em seu presente ou futuro. Se não for para aprender a ir adiante, os ensinamentos do passado são inúteis: uma fotografia guardada em um álbum de recordações que já não é aberto há muito tempo.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 28 de março de 2015.

* Em 1969, Elisabeth Kübler-Ross lançou o livro On Death and Dying (Sobre a morte e o morrer, no Brasil) onde apresenta um modelo de cinco estágios vivenciados por quem sente a dor pela perspectiva da morte iminente. Sua pesquisa com pacientes terminais foi avaliada e, em boa parte, validada para diversas outras formas de perda ou sofrimento.

21 de mar. de 2015

Antídoto urgente

Antídoto, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 21-03-2015
Antídoto*, criado em 21-03-2015.

O único transformador, o único alquimista que muda tudo em ouro, é o amor.
O único antídoto contra a morte, a idade, a vida vulgar, é o amor.

(Anaïs Nin)


Vejo, diariamente, quem só conseguem sentir-se bem agredindo: detratam, difamam, desonram. Imagino — e é apenas isso que posso fazer — que não lidam bem consigo mesmos. Desviar-se do foco da luz para iluminar as questões de outros é, claramente, colocar na penumbra ou escuridão as próprias.

Prezo muito a capacidade de manipular minhas próprias emoções, quando realmente preciso. Agradeço à filosofia, à psicologia e aos bons amigos. Mais ainda aos sofrimentos. Para evitar induzir uma interpretação errônea, esclareço que o uso desse recurso limita-se aos momentos quando estou só. Pode-se afirmar que é o meu modo de lidar com as fraquezas ou inconsistências pessoais. Recuperar o equilíbrio.

Imagine que a rigidez está exacerbada e apropriando-se das ações ou dos pensamentos. Antídotos especiais se tornaram os filmes e as músicas, em minha trajetória, que permitem ativar a sensibilidade. Em outros momentos, é necessário erguer barreiras: livros e diálogos complexos ganham prioridade. Se me questiono qual, no fim das contas, é o mais importante, creio que, sendo muito sincero, nenhum.

Capto que a melhor expressão de mim só ocorre quando invisto na produção de textos e imagens. O que eu faço não tem valor em si, mas o que o processo realiza em mim. Cada um precisa descobrir como erguer ou baixar suas defesas pode fortalecê-lo.

Deveríamos ser cautelosos para não usar outros para tal. Manipular as emoções tornou-se moeda corrente, todos querem vender o seu peixe. É uma futilidade, tão cretina quanto aceita, do cotidiano. E, como todos estão sob seu julgo, ninguém escapa da esfera de sua influência.

Vivemos em um mundo onde o extravasar, antes algo apenas necessário, constituiu-se fonte de lucro incessante. A diversão, atualmente, está contaminada e produz tédio. Algo foi retirado de nossa da natureza e de nossa alma e, junto disto, a capacidade de nos reencontrarmos, de sair por aí, de qualquer jeito, sem direção, sem tempo definido; de parar para meditar ou refletir; de ser sensível ao interagir com o suave toque da vida de uma brisa, de uma pétala, da areia, da grama e da água.

Não nos encontramos mais, nos agrupamos solitariamente. Nos trancamos entre paredes que protegem demais ou facilmente escancaramos as portas em momentos de solidão. Falta-nos o equilíbrio. E o antídoto urge ser descoberto e usado de forma individualizada, a custa da vida perder seu valor. Que é um sopro, temos consciência, mas, pelo menos, que seja um refrescante.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 21 de março de 2015.

* Algo que impede ou reduz efeitos destrutivos, seja por impedimento, fortalecimento ou transformação do agente ou do alvo.