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5 de abr. de 2018

Um espelho para a alma

Espelhos da Alma, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 25-03-2018.
Espelhos da Alma *, criado em 25-03-2018.

A cada espécie de signo corresponde, sem dúvida, uma linha de tempo privilegiada. […]
Sem se corresponderem ou simbolizarem, sem se entrecruzar, sem entrarem em combinações complexas que constituem o sistema da verdade, os signos não se desenvolvem, não se explicam, pelas linhas do tempo.


(Gilles Deleuze — Proust e os signos, p.24)
O pensamento é um instrumento poderosíssimo para construir níveis de autonomia e de superação do automatismo.

Somos literalmente atravessados por fluxos poderosos, ativadores ou potencializadores do afeto e, apenas posteriormente, da compreensão – que é um exercício do pensamento e não uma reação automática.

Ser reativo é o grau mais básico de ser: reage-se, instintivamente, a tudo. Mas ser afetado não garante o ultrapassamento, o esmiuçar as estruturas e contextos do que estimula. Por isso, em sua maioria, somos constantemente levados, ao invés de nos impulsionar consciente e estrategicamente.

Seres vivos são sensíveis ao amor. Isso não significa entender o que é ser amado, muito menos aprender-se o que é amar. O outro é um sinal, um signo, uma fonte de estímulo e não carrega em si a resposta. Sua efetividade está no alterar as percepções que temos – intimamente relacionadas ao fato de disparar desejos, estabelecer memórias, estimular transformações.

Não compreendemos o quanto isso o torna valioso. E muitas estações se vão até vislumbrarmos que ele é a superfície refletora do que se projeta no mundo: um espelho para a alma.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 05 de abril de 2018.

* Qualquer elemento da vida é um signo (sinal, sinalizador) que promove mudanças: ativam novas conexões ou nos retiram do tempo — momentos em que se fica aéreo, vislumbrando horizontes ou em recordações. A interferência na percepção pode ser fonte de aprendizado efetivo se, ao invés de só reagir a ela, defini-la como um referencial para o questionamento dos próprios atos e atitudes. O signo, em si, continuará lá, independente de sua reação. Mas, constituir-se como um aprendiz dos signos — ao torná-lo um espelho para observar-se e entender-se — permitirá expandir, ampliar e enriquecer a sua verdade pessoal.

15 de mar. de 2018

Um Monte de Águas Leves

Monte Das Águas Leves, criado por Wellington de Oliveira Teixeira entre 11-15/03/2018.
Monte Das Águas Leves *, criado entre 11-15/03/2018.

O confucionismo foi falsamente rotulado como uma religião. Na realidade, configurou-se como um sistema de pensamentos e ritos sociais preocupado com as necessidades da sociedade chinesa e seus relacionamentos sociais. Ao contrário do budismo e do taoísmo, o confucionismo nada tinha a ver com o papel da natureza ou com vida após morte.
Em meio à incerteza política e social, o pensamento confuciano preconizava que uma civilização poderia ser harmônica se governada por um sistema de métodos padronizado e universalmente compreendido. Confúcio defendia cinco qualidades básicas: benevolência, retidão, decoro, sabedoria e honestidade. Entre elas, a benevolência era considerada a pedra fundamental englobando lealdade, piedade filial, tolerância e bondade.
Quando Confúcio morreu, por volta de 479 a.C., suas ideias não eram universalmente conhecidas e a noção do pensamento confuciano como uma verdadeira filosofia não havia criado raízes. Seus ensinamentos foram registrados e compilados por muitas gerações de discípulos e são hoje conhecidos como os “Quatro Livros”, textos essenciais que formam a obra do pensamento confuciano: "Os Analectos", "O Drande Aprendizado", "A Doutrina do Método" e "O Livro de Mêncio".


(Kuijie Zhou — Aprendendo a Viver com Confúcio)


Da nascente até o mar, a água flui produzindo vida, alimentando solos, vegetais, animais. E o cenário que ela forma alimenta a alma de todos seres viventes.

Em planos mais altos ou nas planícies, a superfície reflexiva, transparente e maleável inventa formas de vencer seus obstáculos sem perder sua essência. Um dia, após sua longa ou curta jornada, se reintegra à imensidão. Na bagagem, os aprendizados compartilhados com as incríveis formações terrenas serão compartilhados com o mar.

Quem sabe?, talvez seja esse o motivo de, com tanta persistência por meio de suas ondas, o mar insistir em retornar e experimentar, por instantes que sejam, a agradável sensação de deslizar em areias.

Vivências permitem a absorção de elementos que se agregam à constituição do ser, no interior ou no exterior: marcas, sinais, energias, aprendizados e tudo o mais que estrutura a alma em seu percurso.

Não selecionar o que guardar só produz acúmulo, obstrui o trajeto e impede a experimentação do novo: doença na alma, o saudosismo oferece apenas a estagnação. Aprendizados e prazer constituem, em essência, os fundamentos da vida e da expansão em seu modo verdadeiramente livre e pleno e integrado ao todo.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 15 de março de 2018.

* O olhar que projetamos desafia um número infindável de camadas das formas existentes. É tentar realizar um processo semelhante ao repartir uma cebola para perceber sua constituição e essência. Só quando seu envólucro é desfeito é que a expansão de todas as outras camadas se visibiliza. Na leveza ou na turbulência de suas múltiplas vivências, a sua estrutura tornou-se, dia após dia, um pouco maior e mais enriquecida: seu poder individual, exclusivo e inalienável.

12 de fev. de 2018

Reformas e reformulações

Reformulação, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 12-02-2018.
Reformulação *, criado em 12-02-2018.

O resultado disso tudo é que vou ter que criar um personagem — mais ou menos como fazem os novelistas, e através da criação dele para conhecer. Porque eu sozinho não consigo: a solidão, a mesma que existe em cada um, me faz inventar. E haverá algum outro meio de salvar-se? senão o de criar as próprias realidades? Tenho força para isso como todo o mundo — é ou não é verdade que nós terminamos por criar uma frágil e doida realidade que é a civilização? essa civilização apenas guiada pelo sonho. Cada invenção minha soa-me como uma prece leiga — tal é a intensidade de sentir, escrevo para aprender. Escolhi a mim e ao meu personagem — Ângela Pralini — para que talvez através de nós eu possa entender essa falta de definição da vida. Vida não tem adjetivo. É uma mistura em cadinho estranho mas que me dá em última análise, em respirar. E à vezes arfar. E às vezes mal pode respirar. É. Mas às vezes há também o profundo hausto de ar que até atinge o fino frio do espírito preso ao corpo por enquanto.
(Clarice Lispector — Um sopro de vida - Pulsações, p.19)


Os motivos são diversos: desde uma nova cosmética a um conserto emergencial e inadiável. Mas, cada vez que a sua casa entra em reforma, o mundo vira de ponta a cabeça, chega a ser desesperante. Invariavelmente. O pensamento me veio à tona em função de um estufamento de quatro peças no piso da sala.

No entanto, só quem não verificou os resultados de transformações estaria incapacitado para entender que melhorias exigem um processo de mudanças, de uma simples realocação de móveis e utensílios até a reconstrução das estruturas – camada de sustentação mais profunda, o interior de tetos, paredes e pisos.

Em qualquer caso, é preciso se aconselhar com um especialista, verificar a qualidade dos produtos a serem utilizados, preparar uma operação meticulosa de organização a fim de evitar estragos em outras áreas. Tudo isso tem seu custo versus benefício a ser avaliado e nunca deve ser procrastinado.

Não esqueça de colocar a placa de 'Cuidado! Em obras.' para alertar quem se aproxima de que a situação é sensível e, mesmo bem administrada, há riscos imediatos.

Vidas em reformulações carregam todos esses aspectos, também. Em especial, em circunstâncias que fogem ao controle. Nessas horas, diga ao desespero — 'Já sei. Trate de segurar as pontas porque não tem como evitar'. E vá em frente. Substitua, por uma mais bonita, as peças defeituosas; escolha um acabamento que traga uma sensação de novidade e não esqueça de incluir uma ou duas peças novas na decoração final.

Assim, ao final de toda a limpeza, após sentar e respirar fundo, extremamente cansado, permita-se ver o resultado positivamente. Por enquanto, as intempéries se acalmaram, as questões estão sendo resolvidas (de vez em sempre virão outras, né?). Vida é transformação, uma regra inflexível que não impede você de incluir um toque de beleza e comemorar a vitória, ao final de cada uma.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 12 de fevereiro de 2018.

* Reformulação, a imagem que ilustra esta postagem é resultado da desestruturação do processo de criação da imagem utilizada na postagem anterior Brincar de viver e ser feliz e visa trazer à tona toda essa desconfiguração momentânea pela qual passamos em vários momentos da vida e a angústia que traz os redemoinhos de incertezas, as peças defeituosas e todo o processo de reforma interior.

6 de fev. de 2018

A razão é obstinada pela continuidade

Obstinação, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 06-02-2018.
Obstinação *, criado em 06-02-2018.

Momentos radicais exigem muito mais que a radicalidade: a calma, a clareza e a estratégia. A vida ganha permanência exatamente pela capacidade da transmutação: contextos diversos, estruturas diversas, via transformação.
(Wellington de Oliveira Teixeira — Ser Pensante by Well)


A energia alimenta o movimento e a mudança. Ela é um elemento transformador que adquire muitas formas, desde o calor que emana da madeira em chamas até a velocidade da água que escorre morro abaixo. Ela pode se transmutar de um tipo em outro. Mas a energia nunca é criada ou destruída. Ela sempre se conserva como um todo.

(Joanne Baker — Conservação de energia, p.8)


A maioria dos mitos adotados pela humanidade tenta reproduzir a noção de para sempre ou de eternidade. Não nos conformamos com as parcialidades, incompletudes e finitude. Mas o infinito nada mais é que uma longa sequência de acontecimentos e das expressividades que estes estimulam nos seres.

Não acredito em vazios: vácuos estão repletos de forças tão minúsculas e invisíveis que escapam à percepção ordinária; certamente, até mesmo daquela capaz de perceber as camadas constituintes da Ordem. Essas Partículas-Nano-Degraus são as peças recambiantes de um lego universal, que se reestruturam em infinitesimais partículas de tempo. A permanência é fruto de uma ilusão da razão, que é obstinada em se adaptar para manter a percepção de substância, constância, continuidade.

Esse conjunto de forças preponderantes da vida são tão maleáveis e recombinantes que podem se tornar absolutamente tudo no esfera da percepção. É bem possível que se escondam em algum recanto bem resguardado da alma em um dia como esse, com um céu silencioso e cinza com tonalidades de chumbo.

Fruto de uma invasão dos recônditos protegidos pela razão ou da atuação de uma força interna de atração inconsciente, não importa. As forças da vida exigem desintegrar absolutamente tudo o que está estabelecido para recompor as partes em um outro formato ou nível: a transformação é o tom maior da natureza.

Reagindo a sua atuação imperiosa, recorremos a uma certa nostalgia – essa sensação de estranhamento que, em alguns, se manifesta como tédio ou irritação e, em outros, como uma saudade ou tristeza. Diante dessas sensações, até mesmo o compositor Renato Russo recorreu ao 'e o que sinto não sei dizer'.

Essa afetação pelo instante de ausência do brilho de vida – da inexistência de um elemento disparador da vontade de ir para a rua e para as pessoas – ocorre em circunstâncias e momentos diferentes para cada um, mas em todos. A situação parece ser uma constante humana, que se constitui com elementos de interposição entre o que, na falta de conceitos mais esclarecedores, denominamos de interior e de exterior ao ser.

Há, porém, um outro paradigma na vida individual: tudo que passa pela vontade consciente abre o campo das opções. O maior deles é o da afetação: é possível escolher como reagir aos estímulos que nos atingem. Tudo que tem a potência de se tornar um bloqueador dos sorrisos do rosto e da alma também pode ser entendido e assimilado como produtor ou estimulador da resiliência, do aprendizado e, finalmente, constituir uma permeabilidade mais elaborada e eficiente para encarar os encontros que, fatalmente, iremos efetuar.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 04 de fevereiro de 2018.

* A energia que capacita outros modos de ser também proporciona o alcançar novos níveis, em espiral ascendente. A força que torna inflexível uma vontade exige acumular o aprendizado de muitas mudanças de táticas. Se o alvo é importante, o processo de transformação que permite alcançá-lo deve ser valorizado na mesma medida: este é o conceito da transmutação aplicado ao corpo e à alma.

19 de jan. de 2018

Registros de alma

Registros de alma, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 18-01-2018.
Registros de alma *, criado em 18-01-2018.

De almas sinceras a união sincera nada há que impeça:
Amor não é amor se quando encontra obstáculos se altera, ou se vacila ao mínimo temor.
Amor é um marco eterno, dominante, que encara a tempestade com bravura;
É astro que norteia a vela errante, cujo valor se ignora, lá na altura.
Amor não teme o tempo, muito embora seu alfange não poupe a mocidade;
Amor não se transforma de hora em hora, antes se afirma para a eternidade.
Se isso é falso, e que é falso alguém provou, eu não sou poeta, e ninguém nunca amou.

(William Shakespeare — Soneto 116)


Residindo como um núcleo no interior da alma e se manifestando com pleno controle da estrutura física de alguém estão as forças de aproximação intensa: as diversas formas de amor capazes de realizar alguém. Conexões atemporais inerentes e em estado potencial que, circunstancialmente, manifestam-se.

Caracterizam-se pela capacidade de eternizar marcas na alma e no corpo que, continuamente, exigem ser reacendidas. Cada uma capaz de recompor um universo particular cuja ausência não impede o retornar do que foi vivido, se a chama interior brilhar.

A virtualização do outro é sua aquisição como um registro de alma. Torna-se um holograma: gera a sensação de presença e ocupa brechas ou espaços vazios.

Em alguns casos, de tão forte, a manifestação dessa conexão ultrapassa a razão – torna-se um sentido extra que assume uma situação – como as estranhas vivências onde, ao tempo em que se pensa, o contato ocorre no plano físico, via mensagem ou ligação telefônica.

Tenho como um aprendizado de minha vida perceber o irrealizável nos amores verdadeiros: mesmo que ocupem completamente a alma de alguém, o sentido de completude é instável e fluido, vem e vai, preenche e esvazia, sacia e depois torna faminto, novamente. É um encher a taça, saborear até o fim, iluminar-se ao se realizar e, depois, repousar. Mas a sua pausa é como a de uma melodia, que intui a próxima nota e exige a sua execução, provocando, imediatamente, o retorno de sua operação no momento seguinte — a necessidade se torna uma constante.

Não entendo isso como vício, mas como um recurso da natureza para nos impedir a paralisia, o contentamento, a satisfação plena. Como qualquer outra forma de alimentação, seu poder de efetuação é momentâneo. Ainda que reestruture todo o corpo e reacenda a alma, o faz apenas até que ocorra o seu consumo. E o ciclo retorna, infinito enquanto a existência conseguir se perpetuar. Bem… para alguns, essa é a única forma de ligação que não morre: amor se eterniza porque estabeleceu residência na alma.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 18 de janeiro de 2018.

* Aventuras e desventuras sempre aguardarão os amantes, não à toa, as artes o empoderaram como sua máxima. Capaz de sacudir qualquer um, alterar o curso da história, esse elemento que se introduz na alma e mantém-se como um registro nela, parte integrante do ser, pode provocar as maiores tolices da vida e, simultaneamente, a sua realização.

14 de out. de 2017

Singular e Diferenciado

Emanações, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 12-10-2017.
Emanações, criado em 12-10-2017.

E no instante está o é dele mesmo. Quero captar o meu é. E canto aleluia para o ar assim como faz o pássaro. E meu canto é de ninguém. Mas não há paixão sofrida em dor e amor a que não se siga uma aleluia.
Meu tema é o instante? meu tema de vida. Procuro estar a par dele, divido-me milhares de vezes em tantas vezes quanto os instantes que decorrem, fragmentária que sou e precários os momentos — só me comprometo com vida que nasça com o tempo e com ele cresça: só no tempo há espaço para mim.
(Clarice Lispector — Água Viva, p.7)

Usa-se a palavra singular para um caso único e plural para vários. O universo gosta da singularidade. Não é necessário apelar ou usar de conceitos complicados para demonstrar que a única constante no universo é a diferenciação. Tudo nele é exclusivo e único: todos os seres são seus filhos 'unigênitos', para se usar um termo bíblico conhecido.

Haverá falhas em cada tentativa de se generalizar ou criar regras gerais porque, por maiores semelhanças que haja entre indivíduos de uma determinada espécie, estes nunca serão iguais.

Só vai adiante a diferença que permite se adaptar às transformações permanentes e, muitas das vezes, radicais em seu ambiente. Nem sempre se pode contar com a ideia de evolução – o caso quando dá certo uma determinada diferenciação –, na maioria das vezes, ocorre a regressão ou extinção.

O universo não perdoa, nem é gracioso nesse sentido. Sua graça e beleza está na forma igualitária com que dispõe os recursos. Qualquer um de seus elementos têm um campo de possibilidades literalmente infinito para se apropriar durante a sua duração ou tempo de vida.

Pode haver mais, Porém, duas estratégias são comuns (opostas, mas uma não exclui a outra): cooperação ou domínio-submissão. Em qualquer um, a sobrevivência (ou permanência) está na capacidade de composição, de fazer encontros para absorver ou trocar os elementos particularmente necessários.

Notadamente, os agrupamentos se constituíram como refúgio para escapar das dificuldades coletivas existentes. As variações individuais, como meio para melhor adaptação. Nos contextos menos radicais, avança quem combina as duas e, nos demais, aquele cuja diferença permite um encaixe melhor no quebra-cabeça que se formou.

Num universo onde não há Leis imutáveis, a única constante é a diversidade e quando essa determinação é quebrada o cronômetro da extinção se inicia. Isso porque a regressão também é uma forma de ir adiante: a fixidez e o imobilismo torna algo anacrônico, obsoleto, sem uso adequado *.

Se opor ao que é cronológico, num universo que exige continuidade e adaptação às novas necessidades, é decretar falência e morte. Não importa quão lento, é preciso mudar e se deslocar do anteriormente estabelecido, do contrário a vida cessa.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 14 de outubro de 2017.
* Em grande medida, pensar cientificamente exige sair do lugar comum, do esperado (agradeço por esse aprendizado aos grandes pensadores – em todos os campos de conhecimento – da história da humanidade!). Mas é possível o esforço para gerar uma linguagem acessível, sem abrir mão do rigor necessário. Clinton Richard Dawkins é um divulgador dese tipo de conhecimento e sugiro a leitura de O capelão do diabo (uma coletânea de escritos). Há seriedade, mesmo nos muitos e controversos ataques a alguns pensadores. Não houvesse, perderia seu valor para mim. Vou em direção diversa da dele, mas suas críticas permitem aperfeiçoar minha lógica e fugir às armadilhas em que muitos caem ao recorrer apenas ao palavrório sem consistência.
Escrevendo com paixão e clareza, Richard Dawkins, um dos mais influentes divulgadores de ciência em atividade, não hesita em se posicionar perante temas polêmicos, sempre em busca da verdade científica:
O único membro da lista que é capaz de regularmente persuadir os neófitos quanto à sua superioridade é a verdade científica. As pessoas são leais a outros sistemas de crença pela simples razão de que foram criadas daquela maneira e nunca chegaram a conhecer uma alternativa melhor. Quando elas têm a sorte de poder escolher, os médicos e outros profissionais do gênero prosperam, ao passo que os feiticeiros entram em declínio. Mesmo aqueles que não têm, ou não podem ter, uma educação científica optam por se beneficiar da tecnologia que a educação científica de outras pessoas tornou disponível. É fato reconhecido que os missionários religiosos converteram um enorme contingente de pessoas em todo o mundo subdesenvolvido. Mas, se eles foram bem-sucedidos, não foi pelos méritos de sua religião, e sim devido à tecnologia de base científica que, compreensivelmente, porém ainda assim de maneira injustificável, trouxe reconhecimento à religião. (p.43)

Para dizer uma vez mais, a ciência não tem meios de responder se um aborto é um assassinato, mas ela pode nos alertar que talvez sejamos incongruentes ao afirmar que o aborto é um assassinato enquanto matar chimpanzés não é. É preciso ser coerente. (p.95)

7 de out. de 2017

Estados e estágios

Estados e Estágios, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 05-10-2017.
Estados e Estágios*, criado em 05-10-2017.

Vento no Litoral

De tarde, quero descansar, chegar até a praia, e ver se o vento ainda está forte.
E vai ser bom subir nas pedras.
Sei que faço isso pra esquecer: eu deixo a onda me acertar e o vento vai levando tudo embora.
Agora está tão longe! Ver a linha do horizonte me distrai.
Dos nossos planos é que tenho mais saudade: quando olhávamos juntos na mesma direção.
Aonde está você, agora, além de aqui dentro de mim?
Agimos certo. Sem querer, foi só o tempo que errou.
Vai ser difícil sem você porque você está comigo o tempo todo.
E, quando vejo o mar, existe algo que diz que 'a vida continua e se entregar é uma bobagem'.
Já que você não está aqui, o que posso fazer é cuidar de mim: quero ser feliz, ao menos.
Lembra que o plano era ficarmos bem?
— Ei, olha só o que eu achei: cavalos-marinhos!
(Legião Urbana)
Vivência é a reunião em um estágio da vida de diversos acontecimentos fortuitos que se conectaram, ao longo do tempo, para promover um determinado estado de percepção da realidade: compreensão e motivação tornando-se a propulsão para cada próxima ação, a cada circunstância.

Há muita incompreensão acerca dos episódios colecionados como etapas de vida – não conseguimos identificar plenamente o que permitiu um acontecimento. Mas eles sinalizam sua passagem com uma marca impressa na superfície da alma. Algo semelhante às estacas com placas indicando o percurso em uma estrada.

Geralmente, só quando a poeira baixa obtemos uma visualização razoável para iniciar uma avaliação sobre seus efeitos. E só após um longo aprendizado entendemos que é possível resgatar tais sinais para uso em novas situações. Não é recordar-se, apenas, é revivenciar a força do momento em que ocorreram.

Essa capacidade humana de observar-se como trajeto ou percurso abre uma possibilidade que é impressionante: a de evitar situações assemelhadas ou de aplicá-las às contextualmente próximas. Há no reino animal habilidades semelhantes, mas o pensamento maximiza essas inferências ou sensibilidades.

O uso fortuito dessa habilidade pode provocar um estado de contemplação intenso, uma rememoração que afeta os sentidos atuais: alegria e paz de espírito ou uma nostalgia (o passado tem seu poder atrativo baseado na ilusão de familiaridade). Dependendo da força disponível no instante, vira fixação, a pura repetição do já vivido que aprisiona.

Não resta dúvidas de que é um aliado, em potencial, para todos que desejam mais liberdade de vida e que desejam se permitir experimentações. Quando uma criança tenta subir na árvore e cai, poderia usar a vivência para paralisá-la, gerar desistência; mas, se ao contrário, avaliar o percurso feito e definir um novo, evitando os percalços, poderá conquistar o desafio. O novo estado de mente foi possibilitado pelo uso consciente dos estágios anteriores, das marcas que deixaram. Talvez sabedoria seja apenas isso: exaustivamente, regatar das vivências seu potencial esclarecedor em novos contextos.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 07 de outubro de 2017.

* A imersão em estados destoantes, aqueles em que seus referenciais diários não atuam, é um poderoso fator de expansão ou retração da potência de vida. Estratégia ou Melancolia podem derivar de mesmas fontes, a depender do modo como são acessadas. O fator que determinará é se a intenção de quem acessa é de avanço ou de retorno.
Com esse entendimento, descrever o atual estado em que você se encontra, pode tornar-se algo terapêutico, pois, no instante em se expõe as questões, um outro entendimento pode emergir. Talvez, até mesmo a empatia e colaboração de quem tem em seu próprio histórico um estágio semelhante.

30 de set. de 2017

Iconoclastia para reapropriar-se

Iconoclastia criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 29-09-2017.
Iconoclastia , criado em 29-09-2017.

E o que significa quando, na versão de outra pessoa, eu sou o vilão? Conheço até bem demais as histórias ruins — mal imaginadas ou mal contadas — porque as escuto muitas vezes dos pacientes. Conheço as manobras dos que põem a culpa nos outros, dos que não conseguem enxergar que eles mesmo, e não os outros, constituem o ponto comum em todos os seus relacionamentos ruins. Existem tiques característicos que revelam a falsidade essencial de tais narrativas.
(Teju Cole — Cidade aberta)

O novo iconoclasta deve ser aquele que se utiliza de rigor de crítica para contrapor crenças estabelecidas ou qualquer tradição que seja invocada por si mesma, apenas. Ele denuncia a hipocrisia social e a aceitação passiva que compactuam com a degradação alheia *. Sabe, com absoluta certeza, que isso vai lhe produzir isolamentos. E quando ocorre, recorre ao entendimento de que é só, em si mesmo, mas que tem a potência de estabelecer conexões e composições com forças de mesma direção e, com isso, estar acompanhado em seus projetos.

Iconoclastia é o processo de desconstrução de ícones, mitos, [in]verdades, subjugo cultural. Mas prefiro adotar a ideia de que também é intentar para refazer a própria imagem no espelho em acordo com o que se é. Narrar a sua história e torná-la própria. Reinventar-se.

A antiga associação com a destruição física não é mais necessária. Ela se efetua com a mudança da mentalidade, do entendimento, com a criação de uma nova percepção não atrelada aos preceitos e preconceitos estabelecidos e entronizados no altar do dito cidadão de bem e guardião da moral e dos bons costumes.

A estratégia para encontrar-se consigo mesmo é encarar suas mazelas pessoais, seus ridículos, suas inconstâncias e incoerências, sem medo: elas existem. Mesmo vencendo estas, outras existirão. Evite retornar às mesmas. Descubra seu modo de desestruturar as forças de dominação que apodrecem a veracidade da sua alma. Conforme for conseguindo, mesmo que parcialmente, busque cuidadosamente identificar e retirar, do que sobra, as capacidades e forças que foram destituídas de suas potências iniciais. Faça um resgate delas.

Entenda isso como abandonar o papel de coadjuvante na vida. O conceito é tão antigo quanto não aplicado, não exercido, ou mesmo ignorado: na linha de produção de verdades intocáveis ocorre o massacre de qualquer semente de renovação. Trazemos histórias, toda a história do universo está dentro de nós, mas nenhuma é única até que alguém abra a sua própria trilha, siga seu caminho e constitua a sua jornada: ouse se reapropriar de si mesmo.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 29 de setembro.

Queria muito que você estivesse aqui

Você se crê capaz de distinguir o paraíso do inferno, céus azuis da dor; distinguir um campo esverdeado de um trilho de aço gelado, um sorriso de uma máscara. Acha mesmo que consegue distinguir?
Fizeram você trocar os seus heróis por fantasmas, as árvores por cinzas quentes, uma briza fresca por um ar quente, mudanças por um conforto indiferente? Você trocou um papel principal em uma cela por um de figurante na guerra?
Eu queria muito, queria muito você aqui. Somos apenas duas almas perdidas, nadando num aquário, ano após ano, correndo sobre o mesmo e velho solo. E o que encontramos? As mesmas e antigas inseguranças.
Queria muito que você estivesse aqui.
(Pink Floyd — Wish you were here, trad. livre)

28 de set. de 2017

Adoro a dúvida

Dúvida, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 28-09-2017.
Dúvida *, criado em 28-09-2017.

A produção de valores precisa de condições favoráveis, do contrário, resulta em seres replicantes. Cópias sociais, como clones genéticos. Há os que louvam essa forma de ser: o Ser tornou impeditivo o ser autêntico.
(Wellington de Oliveira Teixeira — Quando a abstração tornou-se abominável)


Toda certeza é imprescindível e, ao mesmo tempo, instantânea – gera uma ruptura com o entendimento anterior e constitui uma nova compreensão. O problema em se adotar padrões imutáveis é que o imobilismo, a paralisia, a repetição terminam por deteriorar qualquer sistema.

Camuflado nos fundamentalismos, há controle, verdades e subjugo absolutos que beneficiam exclusivamente os seus incitadores. Períodos da história em que isso se verificou, houve mazelas e degradação nos seres humanos. Mas as pessoas o acataram e, como hoje, o admitiram pelo gosto do empoderamento.

Capitães do mato nada mais eram que escravos despersonalizados, que cauterizaram suas almas em função de obter algum poder sobre seus semelhantes: à época do período áureo da escravatura, já existiam sádicos e sociopatas, dentre outros (destaque para os cidadãos de bem, ditos sãos) que incentivaram a situação para dar vazão ao caldeirão de ódios ou desejos inconfessos e reprimidos.

O paralelo com a atualidade é fácil de fazer. Mas, ao se identificar o uso de um novo mecanismo estimulador mental como a midiotização, a situação torna-se muito mais crítica: ódios aflorando, práticas nefastas se estabelecendo, polarização indiscriminada e acrítica, todos os ingredientes necessários para obscurecer a razão. Não à toa, sugere a um observador atento um retorno à Idade das trevas.

A mente controlada esquece que, assim que se estabelecer o jugo, este recairá não apenas naqueles que foram designados como objetos do repúdio. As liberdades de todos ficam incontornavelmente restringidas. E, quando todos estão dominados, o corpo e a alma coletiva padecem, a sociedade adoece. Muitas das vezes, um arrependimento inócuo surge, mas o silenciamento envergonhado em nada altera a realidade, é puro ressentimento.

Só dando voz às dúvidas, permitindo que se efetuem socialmente, um novo processo tem a chance de se iniciar: o de ultrapassamento. É um movimento que afirma que algo que foi considerado essencial e agora se tornou um empecilho para o desenvolvimento — hora de descartá-lo ou substituí-lo, construir e constituir algo diferente.

A dúvida é o motriz da existência plena: não admite estagnação, anseia o próximo desafio e sua superação. Ela se estabelece e, de repente, neste 'foi de um jeito, agora está assim, mas pode mudar e, possivelmente, para melhor' um novo patamar e uma nova verdade surgem. Eu adoro a dúvida! Tem seus perigos (a vida é perigosa, em si), mas qualquer dúvida é melhor que uma certeza enrijecida.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 28 de setembro de 2017.

* A trilogia Retorno à caverna, Primórdios atualizados e Adoro a dúvida (texto e imagens) apresenta uma avaliação crítica ao momento em que vive o Brasil, a partir do Golpe que reuniu Poder financeiro, Legislativo, Executivo e Judiciário (comprovado com áudios e vídeos) sob a batuta do poderio hegemônico na comunicação da Rede Esgoto de TV.
Como item central e essencial à condução processo, a midiotização (a produção de fundamentalismo acrítico) é a maior e melhor arma já utilizada no país para estabelecimento de controle de comportamentos.
Esses textos não pretendem o academicismo, ao contrário, desejam a provocação, a náusea, a indisposição contra a displicente paralisia que se estabeleceu. Um incentivo à iconoclastia em função dos absolutismos e dos preconceitos de qualquer espécie que estabelecem sorrateira ou descaradamente discriminações e exclusões sociais.

21 de set. de 2017

Retorno à caverna

Caverna, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 16-09-2017.
Caverna, criado em 16-09-2017.

Talvez, o futuro nos prepare uma surpresa:
um resgate nessa louca correnteza, qualquer nave que nos leve pelo espaço encontrar os deuses;
Talvez, um herói venha a surgir por entre as cinzas; das ruínas se levante, alcance a gloria,
e na moral da história o mito acabe com a razão.
Mas a verdade está cima do bem e do mal. Nossa lógica furada é a arma mais mortal:
a raiz de todo erro, a medida desse medo de mudar e achar o avesso, nosso fim, nosso começo.
É a nossa visão congelada no tempo esperando as respostas caírem do céu:
acreditar nas lendas do que virá é um álibi perfeito e tudo fica como está.

(Guilherme Arantes — Nosso Fim, Nosso Começo)


De inócuo não há nada nos discursos e ações que, aproveitando questões sociais ainda não elaboradas por grande parte da população, desqualificam a Ciência como um todo em prol de um determinado tipo de visão religiosa. Na mira dos que desferem os ataques, inclusive literais e físicos, as motivações para abortos, os gêneros e os espectros sociais, o ensino crítico e não religioso, e os pensadores de sistemas políticos financeiros não capitalistas e seus defensores.

Antes de prosseguir, um esclarecimento: há pesquisadores das religiosidades renomados em diversos campos científicos, buscando teorias ou comprovações que remetam às possibilidades de um ser inteligente e superior na constituição de grande parte, ou o pleno, do universo – diferindo totalmente da proposta dos fundamentalistas. Aliás, se posicionando contrariamente a estes.

No Brasil, há diversos líderes religiosos midiáticos apoiando políticos com discursos extremistas similares aos utilizados na Idade Média. Banalizam os crimes perpetuados por ditaduras civil, empresariais e militares, conclamam a retirada dos direitos conquistados por minorias, recorrem a discursos preconceituosos e sexistas afirmando que estão defendo a instituição família. Propõem a retomada de ações destrutivas e excludentes: as queimas de livros e de reputações – o lawfare* é a nova roupagem da 'caça às bruxas'.

Para estabelecer suas pautas, realizam acordos espúrios com representantes comprovadamente corruptos no campo político visando obter facilidades para a aprovação de leis que impedem o ensino ou divulgação de vias de pensamento diferenciadas das que defendem como hegemônica.

A seguir suas proposições, destruiremos os últimos baluartes do Conhecimento e apagaremos as chamas da última fogueira a sustentar a visão plural e respeitosa, não atrelada aos [pre]conceitos religiosos radicais e legalistas. Historicamente repetido de tempos em tempos, o movimento extremista é pendular e, após gerar genocídios de corpos e almas, deteriorará a vida em prol de uma suposta 'verdade'.

O objetivo final é o controle social. O que, neste momento, pode parecer banal, mas a história o comprova que é um movimento sem retorno que nos encaminhará, por meio de uma midiotização legalizada, à cauterização das consciências (já produzimos escravidão indígena e negra e genocídios de judeus, que evoluíram para o massacre racista de negros pobres, o trabalho infantil e/ou análogo ao de um escravo, e para o ataque aos estrangeiros, atualmente) e, por fim, à ignorância coletiva – que fatalmente nos levará de volta às cavernas.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 21 de setembro de 2017.

* Lawfare é dar legalidade aos abusos, manipular as leis para atingir inimigo político; é usar estratégia abusiva do direito em vez de métodos militares.

16 de set. de 2017

Fluxos contingenciados

Fluxos contingenciados, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 16-09-2017.
Fluxos contingenciados *, criado em 16-09-2017.

O tempo do sonho é o instante do olhar, como o clarão de um relâmpado que, subitamente, clareia a paisagem noturna. E o tempo do desejo é sempre o presente, pois é ativo de modo permanente e constante, mesmo quando expressa um Wunsch de trinta anos atrás ou mais. O desejo está sempre lá: ávido de significantes.

(Antonio Quinet – A descoberta do inconsciente: Do desejo ao sintoma, p.75)


Impulsos não tem vida própria, nós lhes damos expressão conforme as percepções pessoais se manifestam. Há pulsos que fazem vibrar ações de amor e nos permitem colocar o outro em nível semelhante ao nosso. Outros, são os monstros que espreitam, prontos para assumir a superfície e provocar danos indiscriminados.

O convívio social exigiu gerar os calabouços interiores, uma espécie de cala-a-boca para diversas forças que atuam em cada um. Mas cada um desses afetos serve como sinalizador de nossas capacidades destrutivas e construtivas e de que o resultado vai depender da combinação e dosagem utilizada. Tudo, em dose exagerada, perde sua função principal e nos encaminha aos distúrbios desnecessários.

Fluxos enjaulados, não se efetuam. Nem visibilizam o que é circunstancialmente bom ou mau, pois nada é, em si, isto ou aquilo. Precisamos da ira tanto quanto da compaixão. Alcançar esse nível de evolução pessoal é fundamental: sem ele, somos presas fáceis da manipulação. Para seres que se estruturam em equilíbrios precários, como nós, é essencial encontrar o que realmente é deletério, o que destrói a integridade, a natureza e a vida.

Há discursos que, em sua essência, objetivam semear o ódio ou visam abusar da boa vontade alheia. Nos irar permite rejeitar o que é sórdido. Pode até nos conduzir a intervir por meio de ações que os desconstroem; na contramão deles, gerar práticas que constroem elementos que capacitam e produzem superação e ultrapassamentos. Mas, cuidado!, é fundamental não moralizar: cada um tem seu processo individual e exclusivo, mas este não precisa tornar-se excludente. O que, hoje, quem produz tais discursos crê, pode mudar, amanhã, alterando suas práticas, também.

Por uma outra via: itens do caminho, os que são preservados, tornam-se significativos porque fazem uma narrativa de vida. Certamente, você já amou e odiou, já acertou e errou, já conquistou e perdeu. Essas não são oposições conceituais, apenas. Representam os pequenos blocos que o constituíram. Agrupados em diversas configurações, manifestam o ser diferenciadamente, a cada situação.

Não importa o que você guarda dentro de si ou expõe para todos, tudo depende do uso que lhe é dado. Desse modo, não cabe desqualificar elementos do passado em função de práticas renovadas ou mais eficientes. Todos foram fundamentais à evolução pessoal. Há momentos para levar os monstros para passear, sim. Mas considere que, na vida, tudo exige equilíbrio e somente nele efetivamos essa sensação de plenitude e encontramos nosso lugar no mundo e na Ordem dos acontecimentos.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 16 de setembro de 2017.

* O inconsciente já foi entendido como o subterrâneo de um indivíduo, o local onde estariam reprimidos os impulsos destrutivos para ele: a prática de jogar para debaixo do tapete e manter as aparências.
Outras vias de pensamento tentam realizar uma releitura, compreendendo que o que é em determinado momento contido, por ser socialmente indesejável, sempre se manifesta em alguma outra circunstância. É preciso que não sejam contidos, mas contingenciados, que surjam como imagens para refletir (e permitir refletir sobre) os desejos obscuros. Sem isso não é possível colocá-los em cheque, entendê-los.
O uso intencional e equilibrado como fonte de criatividade, de expansão e especialmente como introdutor de novidades deve ser um dos objetivos da sociedade. As academias de arte perceberam isso e foram amplamente beneficiadas com a produção dos filmes de terror e suspense e outras formas de expressão.
O desafio é demonstrar que o 'dar vazão' é algo imprescindível, pois nos subterrâneos da alma esses fluxos contidos corroem o ser e geram as anomalias e distúrbios, as sociopatias. Mas, expressados de forma positiva voltam a ter sua função primordial, peso ou medida que compõe o equilíbrio das forças e permitem emergir um sujeito apto para a integridade e plenitude.

9 de set. de 2017

Artificialização e extinção?

Artificialização, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 09-09-2017.
Artificialização *, criado em 09-09-2017.

Podemos mapear todos os milhões de espécies de seres vivos que existem na Terra, mas nunca saberemos literalmente tudo o que há para saber a respeito de uma única espécie de bactéria que seja – até porque, graças às mutações no DNA e a seleção natural, esse sempre será um alvo em movimento. A vida e os cosmos continuarão a produzir novidades, que precisarão ser escarafunchadas com paixão e precisão. Você pode ou não acreditar em um mundo sobrenatural, mas o mundo natural já contém em si a semente do inesgotável.
(Reinaldo José Lopes — Qual o sentido da vida em os 11 maiores mistérios do universo)


A natureza tende a produzir encaixes em novas configurações da realidade: a tal da adaptabilidade. Assim também os humanos com seu jogo ou guerra de gerações. O diferencial está em que a humanidade tem uma tendência a impor um padrão, mesmo se o objetivo anterior era o de quebrá-lo. Somos contraditórios.

Por exemplo, a pasteurização é um processo que tenta controlar a qualidade de um produto, que busca retirar qualquer traço de impureza nele e, na contramão do que se busca, simultaneamente destrói os elementos que, em doses inócuas, promovem o estímulo às defesas orgânicas, a saúde como um todo.

A pasteurização social se visibiliza pela repetição previsível dos comportamentos, manipulações das práticas de modo a gerar uma hegemonia e sua reprodução indefinida. No que torna seres humanos previsíveis, controláveis, manipuláveis, presas fáceis, tem produzido extinções como as da criatividade e da produção do 'si próprio', perdido em um 'si genérico'. Esse tipo de humanização pode estar gerando efeitos nefastos na natureza.

Prefiro escapar, por enquanto, da desqualificação ou da moralização deste processo. Vou tentar capturar as minúcias, as pistas (pense nisso: as práticas sempre mudam em função de seu ambiente) para constituir um cenário possível das consequências imediatas da nossa inserção na artificialização da vida.

Algo que vai na contramão do que os aferrados à modelação dos comportamentos (fundamentalistas, dentre outros) tentam obliterar e insistem em ignorar: só na diversificação há permanência. Há em todas as épocas um determinado tipo de evento (como uma peste) que dizima parcialmente a humanidade e a extinção só não ocorre por conta da diferenciação que gradualmente ocorre no processo de evolução natural e das práticas diferenciadas.

Sob esse ponto de vista, as mutações, as fugas do padrão ou da normalidade são o que há de mais eficaz na preservação das espécies. Um paradoxo, é verdade — mas quem disse que a Ordem usa o mesmo raciocínio que essa espécie que se considera sapiens ou sábia?

Sempre ocorreram, é verdade, mas o atual ritmo não deve ser ignorado: as transformações nas funções cerebrais e no corpo humano estão se radicalizando e começamos a detectar seus efeitos nos comportamentos. A virtualização está remodelando os órgãos sensoriais e a estrutura de sustentação corporal. Fato preocupante, porque acelerados artificialmente. Ultrapassamos as fronteiras dos escrúpulos, em nome das ganâncias, em especial as dos conglomerados empresariais farmacêuticos e de agrotóxicos globalizados.

Só que, quando as vias comuns não são efetivas, a natureza promove rupturas marcantes, especialmente se a devastação ultrapassar o contexto de espécie, aproximando-se de sua própria extinção. Mudanças genéticas vêm ocorrendo em todas as espécies em um ritmo incomum. É possível supor que para enfrentar essa tentativa de apropriação da cadeia natural e os desastres resultantes das intervenções da humanidade.

Ainda que escalas evolucionárias exijam milhares de anos para efetivar qualquer diferenciação completa e autônoma, o interstício, o período intermediário e de transição é composto por um convívio – geralmente não pacífico – entre os que estão dentro dos conformes anteriores, observando sem entender ou explicar o surgimento e proliferação da mutação. A a tentativa de erradicação do diferente tem sido a prática predominante. Mas, e se o minoritário, de repente, tornar-se um salto evolutivo, e modificar o jogo da preponderância e do predomínio, estaríamos encarando nossa próxima evolução?

Wellington de Oliveira Teixeira, em 09 de setembro de 2017.

* E daí que as opiniões divirjam? Que o campo das ideias seja sempre de batalhas? Não é disso que a proposição acima trata. Ser é a única questão que cada corpo-alma-espírito carrega como próprio. Somos um amontoado de partículas e particularidades assimiladas num percurso. Certo. Mas as formas de constituição diferem. E muito.
Algo recentemente tem me causado um grande incômodo: a verdade não importa, somente sua aparência, aquilo que pode substituí-la porque opera em nome da resolução de algum medo da expressão de si mesmo.
Todo incômodo tem seu lado provocador, instigador que, se bem utilizado, promove transformação. Minha questão relaciona-se a identificação de uma prática retomada atualmente de se escudar em algo ou alguém para expressar ódios, rancores, insatisfações e irritação com diversas situações — perpetuando práticas de fundamentalismos que eu pensava estar ultrapassados. Nessa cadeia de atitudes e práticas, a identidade pessoal é sobreposta.
A negação e a projeção, mecanismos de proteção pessoal, extrapolam para o apagamento da personalidade. Lidamos com a adoção de avatares que possuem corpos. A virtualização desconstruindo as vivências. A imitação e o mimetismo produzindo artificialidades e estas, possivelmente, à extinção do sujeito humano, realizando a especialização do assujeitado como padrão.

31 de ago. de 2017

Artifícios e arte

Artifícios, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 31-08-2017.
Artifícios *, criado em 31-08-2017.

O poeta é um fingidor. Finge tão completamente Que chega a fingir que é dor A dor que deveras sente.
E os que leem o que escreve, Na dor lida sentem bem, Não as duas que ele teve, Mas só a que eles não têm.
E assim nas calhas de roda Gira, a entreter a razão, Esse comboio de corda Que se chama coração.

(Fernando Pessoa — Auto psicografia)


O essencial está na expressividade obtida ao usar qualquer elemento à seu dispor para interferir em seu contexto pessoal ou social. Do contrário, a arte produz passividade e imersão ingênua.

Qualquer intervenção que se pretenda artística deve ter elementos catalisadores de incômodos e questionamentos, de produção de deslocamento: capturar a atenção e provocar estranhamentos é fundamental.

É um desafio complicado: captar o expectador e sua ótica, sem abrir mão de dar vazão a seus movimentos de transformação e de realização pessoal. Onde alguns usam a superexposição ou o exagero para denunciar o que escapa à visão, outros mimetizam a realidade extraindo-a do seu contexto usual para constituir novos contrapontos ao óbvio, ao comum, ao esperado.

Sessões onde o autor explica a sua obra tendem a ser inócuas. No entanto, narrar a experiência pessoal de composição pode ser efetivo: vivências e rotas trilhadas podem encontrar eco, mesmo que de modos díspares. Mas é fundamental compreender que quase nunca se obtém uma transposição da percepção em grande parte dos observadores (repleta de alucinantes rotinas, mesmices e tédios), tornando o inusitado muito raro.

Na selvageria da vida cotidiana, permitir um ponto de fuga, uma distração que seja, de modo a descansar olhos enrijecidos e perspectivas manipuladas é uma tarefa complicada, tanto quanto essencial.

Quando, para além disso, ocorrer um pequeno deslocamento no ponto de equilíbrio, um passo além e suas novas perspectivas, gerou-se um novo mundo. É que essa nova imersão tem potencial de libertar a alma dos cárceres privados impostos pelas sobredeterminações à vida.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 31 de agosto de 2017.

* Para uma ampliação do tema, por outras vias de pensamento, sugiro a leitura de A invenção na arte - Devires e sensações na filosofia de Deleuze e Guattari.

25 de ago. de 2017

Encarando o inusitado

Inusitado, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 23-08-2017.
Inusitado *, criado em 23-08-2017.

Você está enganado. Um guerreiro não procura nada para consolar-se […] um guerreiro nunca pode deixar nada ao acaso, o guerreiro altera o resultado dos acontecimentos pela força de sua percepção e seu propósito inquebrantável.
(Carlos Castaneda — O segundo círculo do poder, p.96)


Há uma certa lógica inusitada para os dias atuais, admito, de, sem recuar perante um ataque pessoal, não se propor um ataque e até evitar um conflito. Não é preciso religiosidade para valorizar essa prática para pessoas com menor grau de compreensão ou incapacidade de avaliar cenários e contextos. Mas discordo de que essa é a prática para todos ou para todos os acontecimentos.

Muito do que alguém aprende e que compõe em termos de crescimento pessoal é consequência direta dos confrontos, seu enfrentamento e superação: desafios são o que há de essencial para o ser humano. Paralisia perante esse nível de vivência interfere no relacionamento interpessoal, induz a ficar refém de posicionar-se como vítima ou malfeitor, ou de avaliá-la como benção ou maldição.

Situações onde é preciso o enfrentamento (ou a fuga) exigem um posicionamento estratégico: avaliar suas capacidades momentâneas e usá-las adequadamente para conseguir uma superação. Cabe, inclusive, utilizar de recuos parciais, de recolhimentos visando a constituição de nova potencialidade – tal como o corpo humano atua diante de doenças – e confundir isso com medo ou submissão é, no mínimo, um ponto de vista frágil.

Ao enfrentar encontros potencialmente decompositores – aqueles que enfraquecem, que entristecem, que debilitam a capacidade de estar integrado ao todo como um ser pleno –, é preciso um olhar diferenciado e compreender que há apenas a atividade encarando seu maior inimigo, a passividade: as paixões e seus efeitos bloqueiam o agir e só permitem o reagir, impedindo o domínio de si.

Diante dos desafios, qualquer avanço, por menor que seja, é demonstração de superação, a começar da assimilação desse conceito: o que faz de alguém um guerreiro não é o ataque, nem as vitórias, exclusivamente; é a capacidade de se inserir em cada situação com posicionamento próprio, estratégico e apreender e aprender com cada uma.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 25 de agosto de 2017.

* Adversidades, adversários, advertências compõem um universo em que se opta por ver a vida como um desafio inigualável, mas breve. Mudam-se os cenários, mas sempre será você quem poderá determinar seu papel como protagonista e escolherá os desafios não como seus antagonistas, mas como coadjuvantes; ou o contrário, tornar todos os demais protagonistas de sua própria vida e ficar agonizando em um papel supérfluo, onde tudo o mais é um antagonista. Qualquer escolha que se faça, a responsabilidade por ela é sua: não há espaço para culpabilizar ninguém pelo que você se tornar.

21 de ago. de 2017

Divi & Dido

Resvalando, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 19-08-2017.
Resvalando *, criado em 19-08-2017.

Divi

Assomam pensamentos, escorrem em emoções,
acham entrecortadas incontáveis projeções;
fantasmas esquecidos, trancados em porões
de alma e calabouço contido em corações.

Dido

Jatos expelidos, quais palavras de vulcão,
magmas efervescentes brotam na ebulição,
silêncios engolidos resvalam na pressão,
querem voz e força e menos solidão.

DiviDidos

Querem voz e força e menos solidão de alma e calabouço. Contido em corações, magmas efervescentes brotam na ebulição. Acham entrecortadas incontáveis projeções: jatos expelidos. Quais palavras de vulcão, assomam pensamentos, escorrem em emoções. Fantasmas esquecidos, silêncios engolidos, trancados em porões resvalam na pressão.

(Wellington de Oliveira Teixeira — Divi & Dido)

Ser alguém inteiro é lidar com incansáveis desejos e afetos, inextrincáveis interrogações e descobertas e, quase sempre, esbarrar em incontáveis desencontros, desencaixes e decomposições que frustram.

A constituição de si é algo instantâneo mas, por mais breve que seja, permite um vislumbre de continuidade, de permanência. Mas atente para esse fato: cada vislumbre precisa ser demarcado, afirmado e registrado como uma conquista.

A Ordem se expressa quase sempre como um emaranhado de forças antagônicas que atravessam e interferem neste processo. A vida se constitui por meio de campos de força, como os imãs potencializados, que promovem ininterrupta divisão nos seres e elementos, impondo novas recomposições.

Mesmo com força de vontade e usar de muito entendimento para efetuar um encontro, a doação de partes de si acontece sem qualquer controle sobre o que acontecerá. Esse vai e vem ou doação-troca, é como ficar sustentado apenas em um fio sobre o abismo.

Quando as circunstâncias impedem a boa combinação dos elementos, pode ocorrer quebras interiores, divisões que em seu extremo provoca a perda da noção do porquê, da motivação ulterior, do desejo do vir-a-ser e da plenitude. Racham a sensibilidade. Implodem o interior. Explodem a razão. Faz passear na linha que beira a vida, sem inserir-se nela: inconformado, sem encaixe no mundo, dissociado.

Relações mal estabelecidas produzem emoções em frangalhos – talvez a razão para tantas canções 'românticas' – e é o que faz ampliar a imensa categoria dos alienados: o 'tudo bem, tanto faz' que se constitui como mote de vida.

Em momentos assim, é preciso gerar os pontos de fuga da pressão, é fundamental dar espaço a essas questões, inquietudes, sofrimentos ou o que mais incomodar. Há incontáveis e inomináveis formas de se fazer um voo e de expressar o que está arraigado e intrínseco, aquilo que fica guardado mas que quer ter voz e expressão própria: escreva, desenhe, se exercite, assista, converse, costure, cozinhe, viaje. É só um jato que alivia a pressão do vulcão, um brilho momentâneo, sim; mas faz toda a diferença.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 19 de agosto de 2017.

* O Transtorno Dissociativo de Identidade (TDI) ou transtorno de múltiplas personalidades é um fenômeno que ocorre quando um único indivíduo apresenta características de personalidades ou identidades diferentes, que se alternam no controle em momentos distintos, alterando sua forma de perceber e interagir com o meio.

Difere da esquizofrenia ('mente dividida') por ser mais uma fratura no funcionamento normal do cérebro do que da personalidade. Intriga profissionais da Saúde, é controverso, e novas pesquisas buscam mais evidências empíricas.

Pense um pouco e veja se você consegue correlacionar a personagem com o diagnóstico:
  • David Banner (Incrível Hulk);
  • Stanley Ipkiss (O Máscara);
  • Saint Seiya gêmeos (Cavaleiros do Zodíaco);
  • Dr Jekyll and Mr Hyde;
  • Sméagol (O Senhor dos Anéis);
  • Kevin Wendell Crumb (Fragmentado, 2017).

9 de ago. de 2017

Novas efetivações

Efetivações, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 06-10-2017.
Efetivações *, criado em 06-10-2017.

Morcegos voam e localizam insetos no escuro por meio de um sistema de sonar, ou ecolocalização, emitindo em alta frequência gritos que refletem nos objetos à sua volta e retornam a eles em forma de eco.
Essa forma de percepção é completamente diferente de qualquer sentido que possuímos, portanto, é razoável supor que é subjetivamente diferente por completo de qualquer coisa que podemos experimentar. De fato, existem experiências que nós, como humanos, jamais poderemos experimentar, mesmo em princípio; existem fatos sobre experiências cuja natureza exata está além de nossa compreensão. A incompreensibilidade essencial desses fatos deve-se à sua natureza subjetiva – ao fato de que incorporam essencialmente um ponto de vista particular.

(Ben Dupré — Como é ser um morcego?, em A mente importa, p.36-37)


São incríveis, incontáveis e instantâneas, as formas de um indivíduo se apropriar de qualquer percepção e, inconscientemente, fundamentar o seu modo de ser, manifestando uma subjetividade: o que vê, o que sente, o que processa é a resultante de um processo de interposição ou sobreposição de fluxos de diversas fontes, com suas composições com absolutamente tudo (de escalas nano à cósmica) disponível a cada instante na Ordem.

Por falta de termo melhor, nomeamos essas apreensões de mundo como realidade. O mesmo ocorre com a palavra pessoa, essa ilusão de continuidade gerada por flashes sequenciais, similar a um filme, que é apenas uma sucessão de diferentes imagens fixas.

Não temos uma continuidade material, somos pura transformação. Gravitamos em torno de um determinado núcleo expressivo onde, a qualquer momento, pode ocorrer um rompimento nas composições de forças ou até mesmo novas áreas de atração alterarem o núcleo da gravitação. Percebemos cada nova estruturação como uma mudança no ser.

Assim, mudança exige a quebra das cadeias e amarras que mantinham a órbita e essa ruptura gera energia capaz de pressionar e impulsionar avanços ou retrocessos nas composições já constituídas. Estas variações são bem vindas, por permitirem as condições de refazimento do ser e a desconstrução de sua estruturação mais rígida, as máscaras.

Se a atualidade é a ressonância que ocorre entre as impossibilidades (já se efetivou) e os não constituídos ou prováveis; somos um puro presente, o resultado de uma reação entre passados e futuros. E nessa espécie de liquidez, de insustentável leveza do ser (ou outra formulação expressiva para nomeá-la) podemos efetuar uma superação do enrijecimento, via [des]agregações e superações, desse continuum e estabelecer uma espiral sobre o círculo.

Ao observar mudanças, entende-se que a riqueza da transcendência de um ser está em franca oposição aos fundamentalismos ou imobilismos: sem os giros ascendentes, sem novas composições de equilíbrios, somos um ciclo, monótono e repetitivo, destituídos da vida e de suas múltiplas capacidades.

Já que na Ordem nada é estático, qualquer imposição para produzir um acorde fixo ou a continuidade do imobilismo gera estagnações e desequilíbrios. Nos seres humanos, previsivelmente, isso só conduz ao tédio e ao sofrimento: o resultado de não conseguir constituir novas efetivações e apenas estabelecer motivos para criticar as dos outros. Não à toa, seres assujeitados encaram a decomposição de sua humanidade e acabam por se tornar indignos dela.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 09 de agosto de 2017.

* Efetivar é fazer com que se torne efetivo (produzir efeito). Efetuar-se como ser exige um processo contínuo de efetivações. Ao gerar-se oposições ao processo ou mesmo empecilhos às efetivações de si mesmo ou de outrem, produz-se um aprisionamento a um determinado modo de ser. Pode parecer banal, mas é o mesmo que destituir alguém de seu mundo, de suas particularidades, sua subjetividade. E isso só gera infelicidade e uma sociedade doente.

20 de jul. de 2017

Entrar em consonância

Consonância, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 20-07-2017.
Consonância *, criado em 20-07-2017.

Consonância
Concordância: acordo, combinação, conciliação, concordância, concórdia, conformidade, entendimento, consenso;
Combinação: harmonia, eufonia, afinação, concerto.

Apreender é entrar em consonância com uma determinada percepção do mundo. Ocorre no exato momento em que se obtém uma certeza, implícita e até mesmo indescritível, e resume a significação instantânea de algo. Isto é válido para o que quer que seja com o que se esteja em contato, qualquer relação que se estabeleça.

Vários artistas, praticantes de esportes ou artesãos sabem bem determinar o momento em que houve uma apreensão do mundo e, com ela, o entendimento se fez prática de vida. Alguns inclinam-se a nomear esse modo de apreensão de inspiração.

Possivelmente, a vida produz essa espécie de 'insight' como um meio de capturar a atenção de alguém, de modo a apresentar-lhe as possibilidades de expansão que suas potências individuais possuem.

Apenas os que estabeleceram relações de equilíbrio entre essa realidade e a do cotidiano obtiveram uso ou funcionalidade para ela; há vários casos de pessoas com uma única obra desse nível e que ficam perseguindo o resto de suas vidas um outro momento de mesmo quilate.

De diversas maneiras, a vida reúne essências visando a sua expansão, dá-lhes um conjunto sensações de significados mais complexos, que escapam às interpretações de uso comum. Quando essas unidades de essência constituem as bases de comunicação, uma espécie de dicionarização comum, estabelecem as condições de desenvolvimento mútuo. Pense assim: um sujeito só se torna marceneiro se anexar a si os códigos da madeira 1.

De certa forma, esse é um processo de sistematização que permite um modo diferenciado de observação, uma nova forma de ver. E é essa visão que traz a expertise para alguém. Enquanto a maioria consegue perceber uma irritação na pele, um dermatologista vê um determinado tipo raro de infecção, que nem mesmo outros profissionais da área conseguiram.

Como em um dicionário, há signos e significados. Sem estar sensível aos sinais não há apreensão nem interpretação, tornando a experiência algo de senso comum, sem a incrível beleza que há para quem entra em consonância com eles.

É como a questão do homem de conhecimento para o Dom Juan (em Uma estranha realidade), a não ser que você entenda os modos de um homem que conhece, é impossível falar a respeito, pois o que se torna uma predileção para um homem de conhecimento é o que ele faz para saber.

Sendo assim, aquilo que é feito visando plenitude, simultaneamente gera o conhecimento essencial necessário. São os amantes do plantio aqueles que se tornam melhores jardineiros ou agricultores.

Caso seja esta uma via de pensamento potente, pode-se definir que não só encontros que produzem fortalecimento permitem o aprendizado. No entanto, só estes produzem realização. E um ser pensante, como um ser de conhecimento, só o é quando alia o prazer ao aprendizado, não por uma mera opção, mas pelo fato de que é algo inerente, algo que o impele e o projeta a realizar para se realizar a cada momento e indefinidamente.
Wellington de Oliveira Teixeira, em 19 de julho de 2017.

* A teoria do Corpo sem órgãos, trabalhada em O Anti-Édipo, propõe a questão de que alguém é apenas uma espécie de estrutura que contém algo variante: o ser é o conteúdo, que constantemente muda. Não há um único eu, mas transições. Cito dois trechos para provocar:

Primeiro: o conceito de que há forças de composição e de decomposição que vão modelando esses 'seres', que a cada instante nos representam e com o qual nos identificamos.
As forças de atração e repulsão, de pujança e de decadência, produzem uma série de estados intensivos a partir da intensidade=0 [intensidade igual a zero] que designa o corpo sem órgãos.
Segundo: é que não há como estabelecer apenas 'um ser', os processos dos encontros emoção-percepção interferem-se entre si, se tornando, por isso, a causa de cada momentânea constituição do ser.
Foi o que Klossowski admiravelmente demonstrou no seu comentário de Nietzsche: a presença da Stimmung como emoção material, constitutiva do mais alto pensamento e da mais aguda percepção. "As forças centrífugas não fogem para sempre do centro, mas aproximam-se de novo dele para se tornarem a afastar: tais são as veementes oscilações que perturbam um indivíduo enquanto ele procura apenas o seu próprio centro e não vê o círculo de que faz parte; porque se as oscilações o perturbam, é porque cada uma responde a um indivíduo outro que não ele, do ponto de vista do centro que é impossível encontrar. É por isso que a identidade é essencialmente fortuita, e que há uma série de individualidades que devem ser percorridas por cada uma, para que a casualidade desta ou daquela as torne todas necessárias".
(Klossowski citado por Deleuze & Guatarri — O Anti-Édipo, p.25)
(1) Conceito identificado na obra de Proust por Deleuze:
Aprender diz respeito essencialmente aos signos. Os signos são objeto de um aprendizado temporal, não de um saber abstrato. Aprender é, de início, considerar uma matéria, um objeto, um ser, como se emitissem signos a serem decifrados, interpretados. Não existe aprendiz que não seja "egiptólogo" de alguma coisa. Alguém só se torna marceneiro tornando-se sensível aos signos da madeira, e médico tornando-se sensível aos signos da doença. A vocação é sempre uma predestinação com relação a signos. Tudo que nos ensina alguma coisa emite signos, todo ato de aprender é uma interpretação de signos ou de hieróglifos. A obra de Proust é baseada não na exposição da memória, mas no aprendizado dos signos.
Dos signos ela extrai sua unidade e seu surpreendente pluralismo.
(Gilles Deleuze — Proust e os signos, p.4)

16 de jul. de 2017

Continuum inimaginável

Transposição Contínua, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 16-07-2017.
Transposição Contínua*, criado em 16-07-2017.

O corpo pleno sem órgãos é produzido como Antiprodução, isto é, só intervém como tal para recusar toda tentativa de triangulação, implicando uma produção pelos pais. Como é que vocês querem que ele seja produzido por pais, ele que testemunha sua autoprodução, seu engendramento a partir de si mesmo?
E é sobre ele, lá onde ele está, que o Numen se distribui e que as disjunções se estabelecem independentemente de toda projeção.
Sim, eu fui meu pai e eu fui meu filho. "Eu, Antonin Artaud, eu sou meu filho, meu pai, minha mãe, e eu".
O esquizo dispõe de modos de marcação que lhe são próprios, porque dispõe primeiramente de um código de registro particular que não coincide com o código social, ou que só coincide para fazer sua paródia. O código delirante, ou desejante, apresenta uma extraordinária fluidez. Poder-se-ia dizer que o esquizofrênico passa de um código ao outro, que embaralha todos os códigos, num deslizamento rápido, segundo as perguntas que lhe são feitas, não dando nunca a mesma explicação, não invocando a mesma genealogia, não registrando da mesma maneira o mesmo acontecimento, até mesmo aceitando, quando lhe impõem e ele não está irritado, o código banal edipiano, pronto a re-entulhá-lo com todas as disjunções de que este código foi feito para excluir.

(Gilles Deleuze e Félix Guattari — O anti-édipo, p.30-31, destaque meu)


Por melhores que sejam os palpites — já que nada mais são que isso — há um obstáculo imenso a ser transposto até que consigamos definir a constituição de um ser. Certamente não estou me referindo à biologia básica ou à química estrutural, mas esse algo que escapa ao aprisionamento do corpo, flutua ou estabelece uma relação que alcança um certo grau harmonioso com ele.

As neurociências nos trouxeram perspectivas muito interessantes a respeito do funcionamento do cérebro e sua produção de uma percepção, distinta, exclusiva e pessoal: o mundo em si de cada um.

No entanto, por melhores as lógicas, os experimentos, as filosofias ou místicas, continuamos emaranhados diante dessa impotência própria, já que o ser se mantém inacessível aos esclarecimentos. É como se alguém colocasse diante de um leigo o conjunto completo de peças que, se reunidas corretamente, montam um objeto complexo qualquer. As infinitas tentativas vão gerando miríades de outros e surpreendem, ao mesmo tempo em que frustam: ainda não há noção exata do que se quer construir.

O experimento, esse jogo de tentativas e quase erros (cada tentativa constrói algo, também, mesmo que não o que procurávamos), vai trazendo novos detalhes, novas perspectivas. Aprendemos. Registro isso como ponto fundamental, no meu entendimento, da vida.

Há um outro aspecto que também fundamenta minhas elucubrações: há prazer no percurso. Somos capazes de vibrar com os avanços, com as barreiras rompidas. Uma emoção por ter, mesmo que por uma fração de segundo, ultrapassado os aprisionamentos. Sim. Somos capazes de vislumbrar, como um relâmpago que ilumina o breu. O quê não sabemos. E não importa, nessa etapa.

E essa reunião de aprendizado e prazer nos projeta, nos impulsiona, impede a paralisia e, por outro lado, nos recorda que o que há é ainda insípido, pequeno, um quase nada. Mas — perceba a importância disso — só por ter ultrapassado o nada, é suficiente para fundar um mundo, esse seu mundo individual, pessoal, exclusivo e com potencial para infinito.

Permitam concluir, sem de fato fazê-lo. Tornar-se, esse continuum inimaginável, com todas as desarmonias que promove em seu processo, pode ser o único objetivo para o que denominamos vida. E, qualquer que seja a expansão que consigo construir para esse conceito, sempre me surpreendo por tentar alcançar um pouco mais. Ainda sonho com constituir um mundo que possa ter compartilhada a sua essência e estabelecer o impossível (até agora!): um encontro pleno.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 16 de julho de 2017.

* Para quem não tem familiaridade com o movimento que questiona o pensamento manicomial e o psicanalítico, de fundação do ser na família (triângulo pai, mãe, filho), esse trecho que cita o gigante da literatura Artaud, declarado como esquizofrênico, como exemplo dessa construção de Ser que ultrapassa as determinações sociais, que questiona a preponderância de uma forma de subjetivação que força mas não consegue dar conta do que é ser um ser.
Uma certa elegia aos escapes ou fugas a esta produção. Ainda resta a questão de como poder evitar o aprisionamento, o não ser enquadrado por este sistema que segrega e recolhe a manicômios quaisquer formas de ser ou estar que não se enquadrem, que não se engessem, que ousem o inesperado, o indefinido.
É, de certa forma, uma afirmação de que é possível se constituir um modo de ser singular e, por outro lado, um chamado para um enfrentamento aos modos confinativos e aprisionadores.

5 de mar. de 2017

Amores transcendentes

Transamores criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 05-03-2017.
Transamores *, criado em 05-03-2017.

A coragem de viver: deixo oculto o que precisar ser oculto e precisa irradiar-se em segredo.
Calo-me.
Porque não sei qual é o meu segredo. Conta-me o teu, ensina-me sobre o secreto de cada um de nós. Não é segredo difamante. É apenas esse isto: segredo.
E não tem fórmulas.

(Clarice Lipector — Água Viva, p.59)


Determinado tipo de amor transcende idade e nos acompanha, não importa quantas outras paixões ou amores guardemos no peito. Sobrevive às pequenas tiranias pessoais de ambas as partes, às tempestades e calmarias, à agitação e ao tédio. Permanece.

Como um 'apesar de', retorna. Causticante ou brisa leve de recordações, obriga a discernir que só o que atravessa, irrompe e ultrapassa os escudos, as morais, o medo, vale.

Dramatiza, sim, mas não se torna um dramalhão. Se o fizer, destituiu-se de sua essência, foi envenenado. E resta ao culpado o remorso, as incompletudes e os vazios em cada ócio. Estes geram o ódio refletido em qualquer um próximo.

Amor é amor, mas para obter a aceitação na ordem do dia, o mais comum é que se aceite simulações, simulacros, invenções sociais e infelicidades noturnas que se embrenham na gente, reconfiguram a mente, produzem um ser dependente.

Amor começa no por si mesmo. Aí, ele estimula a ir em frente e buscar um novo ponto de referência. Ele ensina que na ordem dos encontros há muitos tipos de amor e que qualquer um deles produz plenitude e potência. Não há mistérios, não há mágicas, sem tentar não se encontrará. Plante a semente da coragem, construa o ambiente para o seu desenvolvimento. Encare o mundo e deseje. Deseje ser pleno e participar de outras plenitudes. Um segredo: amor atrai amor.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 05 de março de 2017.

* Intriga-me haver tantos obstáculos, carregados ou produzidos na hora, que impedem um encontro mais produtivo entre as pessoas. Deve haver alguma forma de prazer nesse jogo de ocultação de si mesmo.
Mas adoto o conceito de que uma conexão é como uma ponte que supera o hiato que as águas do rio estabelecem entre as margens. O rio da vida se efetuando, constrói margens mais fortes e a capacidade de sustentação da ponte.
Adoro jogos de palavras. Brincar com diversos conceitos. Ficam ocultos apenas para quem não se dispõe a observar.

2 de mar. de 2017

Sobre riscos e riscados

Riscos e riscados, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 28-02-2017.
Riscos e riscados *, criado em 28-02-2017.

Se você fabrica sorvetes de frutas, não pode saber no começo do ano como será a colheira, e por isso não sabe com quantas laranjas poderá contar. Se a colheita for fraca, o preço das laranjas vai subir bastante, mas se a colheita for abundante, os preços vão cair por causa do aumento na oferta de laranjas. Você pode decidir que não quer correr riscos e fechar um contrato para comprar suco de laranja em determinada data do verão por um preço fixo. Você abre mão da oportunidade de economizar caso a colheita seja boa (ou de perder caso seja ruim) em troca da segurança de pagar um valor determinado. Na outra ponta da transação, o agricultor também tem o risco mitigado, garantindo alguma receita para o ano.
(Edmund Conway — O risco dos negócios, p.16-127)


Diferentemente das rotas suicidárias, a vida precisa ter sentido, e este precisa ser construído em sintonia com o próprio ser, motivações pessoais, sonhos e necessidades. Esquecer isso, de imediato, é o mesmo que saltar num abismo. Não é ato de fé, mas é a própria falta dela: o visível é apenas um dos elementos para a escolha e, talvez, o menos determinante.

Quem não entende do riscado, arrisca desconhecendo os riscos. O duplo sentido parece ser bem claro.

É prática comum às grandes empresas, contratar especialistas nesse campo para definir regras e procedimentos obrigatórios para todos na corporação — minimizar os riscos, mais que salvar vidas e impedir acidentes, reduz multas, indenizações e linha de produção interrompida.

No prática interpessoal diária, há riscos que acolhemos em função de julgar que os outros possuam um potencial destrutivo maior. Ao contrário de empresas, cujo risco é racionalizado, quase sempre escolhas pessoais se guiam por intuição ou costume, mais que por razão. O fator determinante é o que se crê. É preciso haver fé, até mesmo para se fazer um sorteio, uma aposta, na hora de decidir.

Obras de ficção (filmes, livros, artes em geral) têm capacidade de transmitir conceitos, que podem ser apropriados, caso a capacidade momentânea do expectador esteja alinhada: observar passados, projetar futuros, meditar sobre o presente são fluxos que nos percorrem, nos motivam, nos ensinam. Inclusive, desconstroem anteriores.

Destinos são traçados a partir das escolhas. Quais escolhas nos dotarão de condições para ir ao encontro da plenitude no próximo momento? Ao final das contas, entre todas as questões, talvez essa seja a mais necessária a ser avaliada ao optar, com ou sem riscos.

O salto de fé só deve ser tentado após o máximo de preparo. É como uma olimpíada. Treina-se muito, segue-se à risca as melhores práticas, só então arrisca-se tudo. Sucesso não é a medalha no peito. Se esta vier, que as lições aprendidas no caminho estejam bem assimiladas. Sempre haverá um novo desafio a ser ultrapassado mais adiante. O maior de todos sempre será ultrapassar-se.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 28 de fevereiro e 02 de março de 2017.

* Conway expõe outro pensamento interessante, referente a se ignorar o traçado, os passos trilhados anteriormente: 'Os seres humanos são criaturas emocionais, podendo passar rapidamente do otimismo ao pessimismo e vice-versa. […] A experiência humana também é um fator importante. Alguns dizem que as sementes de uma crise financeira são plantadas no ano em que se aposenta o último banqueiro a vivenciar a crise anterior. Noutras palavras, quanto mais pessoas se esquecem das consequências duras de uma crise, maior a probabilidade de erros semelhantes serem cometidos novamente, gerando outra bolha.' (O Ciclo Econômico, p.131)