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11 de mar. de 2018

Discursos dupla mente

Bombardeio mental, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 09-03-2018.
Bombardeio mental *, criado em 09-03-2018.

Podemos aprender algumas lições elementares sobre as pessoas com base no preço de certos produtos. Há alguns anos, a Apple, fabricante de computadores, apresentou seu novo laptop Macbook em duas cores: branco e preto – esta, uma versão especial, mais cara. Apesar de ser idêntica à versão branca – velocidade, espaço disponível em disco e assim por diante –, a versão preta foi vendida por US$ 200 a mais. Mesmo assim, venderam muito bem. Isso não teria acontecido se a demanda não fosse suficiente, e assim ficou claro que as pessoas se dispuseram a pagar um pouco mais só para se diferenciarem de seus vizinhos e seus laptops banais, brancos.
(Edmund Conway — Oferta e procura, cap 2, p.15-16 em 50 ideias de economia que você precisa conhecer)


Na ordem de precedência para o Mercado, a meritocracia é definida pela ascendência via indicação político social ou pelo marketing pessoal e não pela excelência laboral. E, no caso dos produtos, sua criatividade e qualidade submetem-se ao vender o produto a preço supervalorizado.

O registro atual de mercado definiu um padrão de aparência como tudo: com um pouco de marketing social, a roupa de baixa qualidade, feita por mão de obra escrava ou quase, mas, com um logotipo qualquer na etiqueta vira tendência de moda e o preço triplica ou mais. É certamente a subvalorização da eficiência e da produção com qualidade

A ilusão incutida na população, adotada e reproduzida especialmente pela classe média, é a de que se você tiver aparência de marca será bem sucedido na vida. Gasta-se muito mais com moda (aparência) do que com aprendizagem (conteúdo).

O povo não tem acesso à grife exclusiva, compra do atacadão. Não são falsificações que estou avaliando, são produtos encomendados por grandes magazines (rede de lojas popularmente renomadas) a pequenos produtores, a preços irrisórios. Ao seguirem igualmente para o mercado popular e o informal, demonstram que é pura ilusão o padrão de qualidade diferenciado.

Entenda a logística: o mesmo produto feito no exterior (geralmente, na Ásia) é importado por diversas marcas, recebendo como única modificação etiquetas interna e externa. A tal da segunda linha, é esse mesmo produto que recebe apenas a troca das letras no nome, por exemplo, Calvin Lein para as camadas populares e o CK para os medíocres que se definem por rótulos.

A imitação insana dos 'famosos', essas crias passageiras de um marketing de controle social, produz a dominação de padrões (de beleza, de comportamento, de músicas ou de outros produtos), torna supérfluo algo essencial e retira do essencial (alimentação, aprendizado, expressão de características pessoais…) o seu potencial de realização e de plenitude. Chega ao ponto em que copiar se torna melhor que individualizar e se destacar.

Isso é feito para que se deixe de pensar em diversidade, valores diferenciados e singularidades: todos importantes para o enriquecimento de uma cultura e da sociedade.

Deixa de ser uma questão de barato/caro, ruim/bom ou feio/bonito. Torna-se simplesmente a hegemonia de um determinado padrão por conta de uma insistente propaganda. No final, resta apenas aquilo que pode sociologicamente ser considerado um discurso 'dupla mente'. Essa nova técnica de propaganda, que manipula ao reunir pensamentos antagônicos para a produção da lavagem cerebral da 'atitude': o 'ser escravo é ser livre'.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 09 de março de 2018.

* O uso do poder financeiro para manipulação de comportamentos passa pelo convencimento para a adoção de um único padrão como socialmente aceitável e a exclusão dos que não aderem a ele incondicionalmente.

6 de mar. de 2018

Mediação e evolução social

Mediação, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 06-03-2018.
Mediação *, criado em 06-03-2018.

Pode parecer piada, mas a física quântica, que estuda o mundo das partículas fundamentais da matéria e da energia, sabe há décadas que, mesmo num espaço essencialmente vazio, partículas 'virtuais' podem aparecer e desaparecer, criando-se e autodestruindo-se espontaneamente, num piscar de olhos. […] Como diz o físico americano Lawrence Krauss, o problema do 'nada' é que ele é bastante instável: parece estar doidinho para se transformar em alguma coisa.

(Reinaldo José Lopes — Deus existe? em Os 11 maiores mistérios do Universo cap.1 p.34)


A seletividade, enquanto capacidade e potência de mediação de encontros, é a prova cabal de uma evolução contínua das interfaces de vida. As capacidades de [des]conexão e [des]apropriação — suas principais características — se distinguem, no universo, por investir na potência de aglutinar novos elementos e de restruturar um ser visando a sua manutenção e o desenvolvimento de novas etapas evolutivas: fatores essenciais à vida.

A arte da combinação é sutil e delicada, exige um esforço cuidadoso na escolha dos elementos que entrarão na composição desejada. Por meio dela – e de um infinito diálogo de suas estruturas com o ambiente interior e exterior – o ser humano se sofistica, exponencialmente.

A biologia nos mostra como os envólucros (as membranas, as peles, etc) se desenvolveram a partir de uma superfície que impedia as trocas com o ambiente. A natureza desenvolveu mecanismos de filtros visando a permeabilidade contínua das superfícies. Um deles, a configuração de encaixe por semelhança de formas e simetrias, se mostrou fatal: vírus e bactérias mimetizaram (simularam, como faz um cameleão) as formas das portas abertas e se proliferaram nas células. Como resultado, pestes dizimaram milhares de seres humanos.

Hora de uma nova estratégia, a seletividade ganha sofisticação. Práticas diferenciadas de encontros e de apropriação de novos conteúdos foram elaboradas: a permeabilidade das superfícies de órgãos, mais atenta, adotou a assimilação em massa de elementos potencializadores e estimuladores das defesas internas.

Da prática dos isolamentos, adotou-se a de apropriação e de combinação com elementos mais diversificados. Habitam o ser humano incontáveis seres vivos em práticas harmônicas de cooperação — antes inimigos, agora associados em um projeto de permanência e expansão cooperativa.

Mais que o poder da força bruta, a capacidade de assimilação de novas potências e sua propagação se definiram como preponderantes à preservação. Discordâncias e dissidências deixaram de ser prioridade ante o visível risco de ostracismo, obsolescência e extinção. A regra da interseção (encontrar elementos de interesse comum) se sobrepôs à de dominação e, com isso, o equilíbrio tornou-se o objetivo principal, mesmo que sempre renegociado, restruturado e reelaborado. Já imaginou essa estratégia alcançando nosso ambiente social?

Wellington de Oliveira Teixeira, em 04 de março de 2018.

* Há infinitas formas de deturpar os interesses e de tornar inimigas pessoas que visam os mesmos objetivos. Essa prática é politicamente estratégica: dividir para conquistar.
A biologia nos ensina que a seletividade deve atuar em seu aspecto de mediação e assimilação potencializadora. Evolução nas condições de vida são geradas apenas quando há a composição de forças. Mesmo quando em um arranjo temporário, é possível trabalhar os pontos de concordância e expandir as potências individuais, um processo que pode ser renovado com outras formas de alianças para novos objetivos.
RELAÇÕES HARMÔNICAS
Mutualismo
indivíduos de duas espécies diferentes fazem uma associação necessária para a sobrevivência: algas e fungos formam os líquens – os fungos abrigam as algas e elas alimentam os fungos.
Protocooperação
indivíduos de espécies diferentes vivendo de modo independente sem prejuízo para ninguém: mamíferos e búfalos são aliviados de seus carrapatos por pássaros, que comem esses parasitas.
Colônias
indivíduos da mesma ou de diferente espécies ligados fisicamente entre si, com divisão de trabalho (caravela), ou não (agrupamento de bactérias).
Comensalismo
indivíduos de espécies diferentes, onde uma se beneficia sem prejudicar ou beneficiar a outra ao se alimentar daquilo que é rejeitado pela outra espécie: o urubu alimenta-se dos restos deixados pelo homem em lixões e aterros.
Inquilinismo
indivíduos de espécies diferentes, apenas uma se beneficia sem prejudicar a outra. O inquilino (espécie beneficiada) obtém abrigo ou ainda suporte no corpo da espécie não beneficiada (hospedeiro): bromélias e orquídeas que se fixam no tronco das árvores.
Sociedade
é um tipo de relação entre indivíduos da mesma espécie, sem união física, porém caracterizada pela divisão de trabalho como nas sociedades das abelhas, das formigas e dos cupins.

23 de fev. de 2018

Alien Em Ação

AlienEmAção, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 23-02-2018.
AlienEmAção *, criado em 23-02-2018.

Alienação
Do latim alienare, tornar alguém alheio a alguém. Sociologicamente relaciona-se aos processos onde diversos fatores sociais geram o alheamento do indivíduo, induzindo seu alijamento ou exclusão da sociedade. É um estado que interfere na capacidade dos indivíduos de atuarem e de pensarem por si próprios, inconscientes de seu papel na vida.


Alien, de alguns tempos para cá, tornou-se um modo de dizer um ser extra-terrestre. Mas essa denominação qualifica os que ficaram alienados de sua humanidade, manipulados a ponto de perderem a sua identidade: possuídos pela midiotia ou pela opinopatia – principais monstros que atuam impunemente em nosso meio ambiente –, entraram em processo de despersonalização.

Alguns, injetaram as regras do Deus mercado, sem dó nem piedade, em si mesmos: e daí se crianças estão sendo escravizadas, se guerras destroem lares iguaizinhos aos seus, se idosos morrem sem atendimento? Alienados não se importam com outras vidas.

Outros, festejam as desgraças alheias como se fossem suas vitórias: um complexo de inferioridade tão gigantesco que vive do 'gozar com o pau dos outros' ao endeusar famosos midiáticos e desqualificar qualquer um ao seu redor.

Em todos eles, verdades manipuladas são antolhos, como os usados em animais, que impedem visualizar o seu contexto. Cérebros lavados com propagandas massivas e repetitivas – produzidas para impedir qualquer outra forma de se perceber a própria realidade e de se inserir em seu próprio contexto de vida – os obrigam a apenas reproduzir, em tudo, o que lhe é determinado.

Talvez seja por isso que insistem tanto em ir contra o que é de Direito da Humanidade. Eles não se incluem mais nessa categoria: robotizados, não conseguem mais exercer a sua empatia e não mais se identificam com a felicidade ou tristeza do outro.

Os novos monstros, como nos filmes de ficção e terror, surgem do interior das pessoas, após sugar tudo o que permitia a sua vida como um ser humano. Da alienação, o que resta é uma carcaça, um morto-vivo, um ser desalmado, um juiz da vida alheia para quem qualquer resquício de felicidade, no outro, é motivo para a desqualificação, o rancor, o ódio e, ao final, o próprio sofrimento.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 23 de fevereiro de 2018.

* A tripulação da espaçonave comercial Nostromo é despertada de suas cápsulas crio-sono, durante o seu retorno para a Terra, a fim de investigar um pedido de socorro de outra nave. Ao adentrá-la, encontram um ninho com ovos alienígena. De um deles, uma criatura salta e deposita seus ovos em um dos tripulantes ao asfixiá-lo, deixando-o em estado de coma. Essa é a temática de Alien - O 8.º Passageiro, de Ridley Scott. O texto é uma alusão a esse envenenamento que domina e escraviza visando a reprodução da desumanização, hoje em curso no país e no mundo.

9 de fev. de 2018

Brincar de viver e ser feliz

Nadar criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 09-02-2018.
Nadar *, criado em 09-02-2018.

Quem me chamou? Quem vai querer?
Voltar pro ninho, Redescobrir seu lugar, Retornar e enfrentar o dia a dia, Reaprender a sonhar!
Você verá que a emoção começa agora – agora é brincar de viver.
Não esquecer: Ninguém é o centro do universo e assim é maior o prazer.
Você verá que é mesmo assim, que a história não tem fim
– continua sempre que você responde sim à sua imaginação; à arte de sorrir, cada vez que o mundo diz não.
E eu desejo amar todos que eu cruzar pelo meu caminho:
como sou feliz, eu quero ver feliz quem andar comigo.
Vem!

(Guilherme Arantes/John Lucien — Brincar de Viver)


Monstros existem porque somos capazes de gerá-los. Toda vez que tentam discordar, eu reafirmo: tudo depende apenas do nível em que somos afetados ou nos permitimos ser tocados pela insensibilidade e pela ausência de referenciais.

Sombras de coisas muitos boas podem assustar e a incapacidade de visualizar a realidade das coisas é capaz de ativar os mecanismos de defesa mais profundos e primitivos em cada um. A fragilidade também gera monstros.

O isolamento ou a solidão involuntária vai instalando o terror conforme o tempo passa e ela não é desfeita: o enlouquecer pode ser o monstro alimentado por um processo de ausência de qualquer tipo de presença.

Mas o que mais assusta é quando a insensibilidade impede os sentidos de atuarem e gerarem os estímulos que são capazes. Tudo fica cinza, inodoro, sem sabor, som de uma nota só e o toque não produz o choque de emoções: a vida incapaz de mover-se para produzir encontros e a reação que eles produzem.

É bom saber que todo monstro tem seu ponto fraco, também. Pode ser que não o encontremos nas primeiras tentativas. Então, é só não desistir porque, em algum momento, a luz volta a colorir tudo ao redor e seu brilho invade as profundezas do oceano da alma e a traz à tona para brincar de viver e ser feliz.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 09 de fevereiro de 2018.

* Uma das atividades que mais apreciei em toda a adolescência era nadar. Isso contra os reveses que me causava, por conta de uma otite crônica que me acompanhou desde que nasci e me provocava dores lancinantes. De certa forma, ficou como um registro em mim de que o prazer de viver tinha os seus percalços e de que eu nunca deveria me negar o que me era essencial e, sim, encontrar um modo de driblá-los.

12 de jan. de 2018

Onda vingativa

Onda vingativa criado por Wellington de Oliveira Teixeira entre 10 e 12-01-2018.
Onda vingativa *, criado entre 10 e 12-01-2018

A vingança não vai reduzir ou prevenir o mal, porque ele já aconteceu.
(Dalai Lama)


Todos os seres humanos são capazes de atrocidades. Alguns agem por ganância, outros por necessidade, outros quando submetidos a extorções ou chantagens.

Na psiquê humana há camadas de proteção aos choques inevitáveis da realidade. São como cápsulas que envolvem o inenarrável ou insuportável, isolando-o. Fica mantido oculto e ocupa na alma um lugar obscuro, um poço profundo. Isso não define ninguém como medroso ou como psicopata.

É preciso uma estratégia de preparo e de fortalecimento para poder ir abrindo, consecutivamente, as cápsulas e lidar com seu conteúdo – antes que tenham a chance surgir e atuar de forma reptiliana, como um bote –, pois, situações desfavoráveis permitem que se visibilizem como medos, traumas ou transtornos. E quando o grau de acúmulo atinge certo limiar, dependendo do estímulo a que está submetido, qualquer um é capaz de tornar-se perigoso.

Em tempos em que a ganância impõe a ampliação do número de pessoas nas linhas da miséria, a insegurança evidencia-se, e muito, com o uso das capacidades individuais para obter o necessário. E isso inclui atuar contra outros seres incautos, desprotegidos, ou que possam representar as chances que lhe foram retiradas.

Isso é um a lógica, não uma defesa, porque todos são capazes de externar os monstros inomináveis acobertados do olhar alheio, quando atingidos, agredidos diretamente ou o motivo considerado justo para virem à tona. Lide com eles ou sucumba ao seu poder destrutivo, que apenas se inicia com a obstrução das capacidades racionais e, como em tantos casos recentes, gera uma onda vingativa que atinge todos ao redor.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 12 de janeiro de 2018.

* Acredito que a responsabilidade por atos e atitudes é algo pessoal. Diante de situações gerais ou inesperadas, é possível entender que há um desafio a se encarar (e até ser grato à situação que permite ampliar suas capacidades pessoais) e investir nessa apropriação potencializadora do ser. Quem age destrutivamente, começa por fazê-lo a si mesmo: um fato. Prefiro ir por outra via porque a minha plenitude o exige: paz de espírito é um bem inalienável.

12 de nov. de 2017

Reformulações inesperadas

Reformulações inesperadas, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 12-11-2017.
Reformulações inesperadas, criado em 12-11-2017.

O que podemos fazer a respeito de tudo isso? Não é fácil para você fazer alguma coisa, pois tem apenas dez anos de idade. Mas você pode tentar o seguinte. A próxima vez que alguém lhe disser algo que soe importante, pense consigo mesma: “Será que esse é o tipo de coisa que as pessoas provavelmente sabem porque há evidências? Ou será que é o tipo de coisa em que as pessoas só acreditam por causa da tradição, da autoridade ou da revelação?”. E, quando alguém lhe disser que uma coisa é verdade, por que não dizer a ela: “Que tipo de evidência há para isso?”. E se ela não puder lhe dar uma boa resposta, espero que você pense com muito cuidado antes de acreditar numa só palavra.
Com amor,
de seu pai
(Richard Dawkins — O Capelão do Diago, p.726)
Por situar-se muito além do senso comum, a afetação é um fenômeno a ser investigado. O que denominamos contato (inclusive o físico) está na categoria de um dos mais difíceis elementos da vida a ser destrinchado porque — por incrível que pareça! — ele não ocorre no mundo que a física atual desvendou: detecta-se a proximidade e algo da ordem da interferência, o que ainda não está esclarecido totalmente.

Somos semelhantes a esferas de energia com um campo de força gravitacional que, se receptivo, remodela-se e registra 'ondas' emitidas por alguma fonte ('interna' ou 'externa' é apenas um modo de expressar os atravessamentos). Em que pese ser majoritariamente inconsciente, esta permeabilidade consentida aos impulsos é o que estabelece qualquer tipo de comunicação: em escala genética, passando pelos impulsos que perpassam os neurônios aos efeitos em escala macrodinâmica *.

A sensibilidade é o resultado da interação e, portanto, totalmente relacionada à maleabilidade dessa 'superfície etérea', também de ordem desconhecida. No mundo da físico-química, quanto mais enrijecido é o 'tecido' menores são as probabilidades de trocas, de absorção das diferenciações e de aprendizados (o novo, sua apreensão e seus efeitos no ser). Por isso, a permeabilidade se configura como a única possibilidade de se expor cuidadosamente ao permitir, inicialmente, apenas os fluxos administráveis e, aos poucos, expandir esse processo: as células nos ensinam isso.

Na seletividade e adaptabilidade que configuram a Ordem da vida, não há lugar para seres que não se transformam. Tornam-se excrecências que se autoeliminam por não se difundir, se propagar ou reproduzir-se: evite comparações com 'castigo' por permanecer estático: a vontade potente de vida se enfraqueceu nesse elemento específico – ocorre também nas degenerescências onde a capacidade de renovar-se reduz-se incontornavelmente. Ao fim, todo elemento é absorvido pelo sistema e se reconfigura em uma outra forma.

Antes de qualquer conclusão precipitada, é preciso entender que qualquer contexto que se supõe duradouro permite acontecimentos-surpresa: uma forma de ser inadaptada a determinado contexto pode se tornar a única a resistir diante de uma reformulação inesperada do meio – catástrofes, dentre elas. Por isso, não há espaço para quaisquer predeterminismos ou moralização da natureza. As verdades se estabelecem exclusivamente nos 'encontros' e seus efeitos, e somente os capazes de surfar nessa onda caótica se preservarão e se propagarão – e isso vale para ideias e costumes, também.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 12 de novembro de 2017.

* Li, por esses dias, a carta de um cientista para sua filha de 10 anos de idade. Reproduzo um dos trechos mais interessantes, que se complementam com a citação inicial desse artigo:
É uma pena, mas não é possível evitar que, visto que as crianças necessitam ser sugadoras de informação tradicional, elas acabem acreditando em tudo aquilo que os adultos lhes dizem, seja verdadeiro ou falso, seja correto ou errado. Muito do que os adultos dizem a elas é verdadeiro e baseado em evidências, ou é ao menos algo que faz sentido. Mas, se uma parcela do que É uma pena, mas não é possível evitar que, visto que as crianças necessitam ser sugadoras de informação tradicional, elas acabem acreditando em tudo aquilo que os adultos lhes dizem, seja verdadeiro ou falso, seja correto ou errado. Muito do que os adultos dizem a elas é verdadeiro e baseado em evidências, ou é ao menos algo que faz sentido. Mas, se uma parcela do que eles dizem é falsa, tola ou mesmo nociva, não há nada que as impeça de acreditar nisso igualmente. Ora, quando as crianças crescem, o que elas fazem? Bem, como seria de esperar, elas dizem as mesmas coisas à geração de crianças seguinte. Assim, uma vez que algo se transforme numa forte crença — mesmo que se trate de algo completamente falso e que, desde o início, nunca tenha havido razões para se acreditar nisso —, pode perdurar para sempre.
Será que foi isso o que aconteceu com as religiões? A crença de que há um deus ou deuses, a crença no paraíso, a crença de que Maria nunca morreu, a crença de que Jesus nunca teve um pai humano, a crença de que as preces são respondidas, a crença de que o vinho se transforma em sangue — nenhuma dessas crenças é sustentada por nenhum tipo de evidência satisfatória. E, no entanto, milhões de pessoas acreditam nelas. Talvez seja porque se disse a essas pessoas que deveriam acreditar nessas coisas quando elas ainda eram tão jovens que acreditavam em qualquer coisa.
Milhões de pessoas acreditam em coisas inteiramente diferentes, porque outras coisas foram ditas a elas quando eram crianças. Coisas distintas são ditas às crianças muçulmanas e às crianças cristãs, e nos dois casos elas crescem absolutamente convencidas de que estão certas e de que as outras estão erradas. Mesmo entre os cristãos, os católicos romanos acreditam em coisas diferentes do que se acredita entre os presbiterianos ou entre os episcopais, entre os shakers ou os quakers, entre os mórmons ou os holly rollers **, e todos se mostram absolutamente convencidos de que estão certos e de que os outros estão errados. Eles acreditam em coisas diferentes, exatamente pelo mesmo tipo de razão pela qual você fala inglês e Ann-Kathrin fala alemão. Ambas as línguas são, em seu próprio país, a língua correta. Mas não pode ser verdade que religiões diferentes estejam certas em seus próprios países, pois as diferentes religiões afirmam que coisas opostas são verdade. Maria não pode estar viva na Irlanda católica ao mesmo tempo que está morta na Irlanda do Norte protestante.
estão errados. Eles acreditam em coisas diferentes, exatamente pelo mesmo tipo de razão pela qual você fala inglês e Ann-Kathrin fala alemão. Ambas as línguas são, em seu próprio país, a língua correta. Mas não pode ser verdade que religiões diferentes estejam certas em seus próprios países, pois as diferentes religiões afirmam que coisas opostas são verdade. Maria não pode estar viva na Irlanda católica ao mesmo tempo que está morta na Irlanda do Norte protestante.
** Denominação depreciativa que faz referência às várias denominações religiosas em que o fervor espiritual é expresso por meio de gritos e de violentos movimentos corporais.

5 de nov. de 2017

Impactos meteóricos

Impactos meteóricos, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 05-11-2017.
Impactos meteóricos, criado em 05-11-2017.

Pensamos que talvez essa "arte" seja uma chave para o entendimento de sua tecnologia. Nossa curiosidade com respeito à "arte" desse povo provocou uma reflexão sobre uma série de pontos significativos:
  1. O desenvolvimento da civilização teve uma aceleração por volta de 5 mil anos atrás quando a escrita antes apareceu na Suméria;
  2. O Povo da Cerâmica Canelada possuía a mesma capacidade mental que nós temos atualmente;
  3. A chave para o nosso rápido e moderno progresso científico é a habilidade de registrar, acessar e usar informações;
  4. Somente uma pequena parte das pessoas no mundo compreende realmente a ciência que faz nossa sociedade funcionar, e essa elite frequentemente usa o conhecimento para controlar as pessoas que não o possuam.
(Robert Lomas e Christopher Knight — A máquina de Uriel: as antigas origens da ciência, p.389 )
O temor provocado pelas forças naturais, em especial, aquelas de grande impacto na superfície da terra, produziu na humanidade uma marca de reverência. Esse nível de referência, para os cientistas atuais, é a origem das mitologias e religiosidades: 'os céus e a terra manifestando o poder dos deuses'. As consequências dessa marca precisam ser estudadas e compreendidas: há um nível de beleza nela que ultrapassa o seu mal uso.

Sensibilidades humanas, como a intuição e a espiritualidade, ainda em primórdios de estudos acadêmicos, permitirão esclarecimentos capazes de ultrapassar os charlatanismos e seu uso para controle social – registrado na história, em diversas épocas, a casta sacerdotal utilizou conhecimento científico, de acesso restrito, para manter o povo em 'cabrestos curtos'. O registro do movimento dos planetas (eclipses eram alguns dentre os meios para comprovar seu poder) foi algo que permitia tal influência.

A antropologia e outras ciências são reunidas em A máquina de Uriel: as antigas origens da ciência * (Robert Lomas e Christopher Knight) para fornecerem fortes indícios de que vários conjuntos de pedras ordenadas – estruturas megalíticas, como Stonehenge – eram observatórios astronômicos sofisticados que permitiam gerar calendários solares, lunares e planetários exatos, a medição do diâmetro da Terra e provavelmente a predição da colisão, na terra, de um meteorito, em 3150 a.C..

Os autores defendem que muito antes do que se ensina nas escolas, já havia uma civilização altamente avançada, dedicada a preparar-se para impactos meteóricos futuros, permitindo a reconstrução da civilização em um mundo destruído.

Sem ignorar polêmicas que surgem (identifico interferências fortes de uma determinada visão produzida pela maçonaria – organização da qual fazem parte os autores), as reflexões apresentadas no livro também promovem um novo nível de pensamento a respeito da formação da hegemonia da religiosidade judaico-cristã via destruição de todo o registro dos conhecimentos celta e dos druidas (rotulados como 'bruxaria' e 'demoníacos') pela casta sacerdotal-cristã.

Aprecio as propostas, avaliações e comprovações apresentadas que resgatam um pensamento muitíssimo anterior ao datado oficialmente. Difiro, aqui, da visão de que há qualquer aproximação possível entre ciência verdadeira e as religiões. A ciência é isso: não ter medo de se aventurar, escavar, escrutinar e repensar e, a seguir, constituir lógicas capazes de subsistir a quaisquer questionamentos racionais, sempre fugindo aos predeterminismos.

Se isso significa encarar aqueles que, de dentro dela, distorcem a sua vocação essencial, tudo bem: cada nova teoria, que se comprovar mais potente que a anterior, será a adotada. Doa a quem doer, as verdades científicas não são um monolítico e, sim, um processo e uma construção constante, pronto a agregar aquilo que ultrapassa o escrutínio rigoroso do que há de opinião ou tradição, em cada teoria.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 05 de novembro de 2017.

* Apesar de, em alguns momentos, a linguagem acadêmica tornar-se um obstáculo, indico a leitura do livro para quem já tem o segundo grau. Para os demais, indico uma iniciação ou noção sobre o tema do livro encontrada no vídeo Resenha - A Máquina de Uriel

3 de nov. de 2017

Aprisionamentos e fugas

 criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 03-11-2017.
Fugas, criado em 03-11-2017.

Retornemos à nossa lista dos sintomas que as pessoas atingidas pelo vírus mental da fé, e sua gangue de infecções secundárias, podem experimentar.
4. O paciente pode surpreender a si mesmo comportando-se de maneira intolerante em relação aos vetores das fés rivais, ou até mesmo, em casos extremos, matando-os ou advogando a sua morte. Ele pode se mostrar igualmente violento em sua disposição em relação aos apóstatas (pessoas que um dia abraçaram essa fé mas depois renunciaram a ela) e aos hereges (pessoas que desposam uma versão diferente da fé — com freqüência, o que talvez seja significativo, uma versão apenas ligeiramente diferente). Ele também pode se sentir hostil em relação a outros modos de pensamento que são potencialmente inimigos de sua fé, tais como o método do pensamento científico, que poderia funcionar como uma espécie de software antiviral.
(Richard Dawkins — O Capelão do Diabo, cap.3: A mente infectada, p.417 )
Humanidade e razão começaram o seu flerte há pouquíssimo tempo e os gestos ou movimentos de encontro ainda são muito tímidos. Mesmo que algumas das formas de construção de pensamentos se mostrem eficientes e potentes para expressar o aprendizado individual e coletivo, a escolha ainda recai para o assujeitamento aos discursos escravizadores*.

A ignorância, os sentimentos confusos e o medo (em seu estado primário diante das forças da natureza) são a matéria prima da constituição dos deuses. Seus porta-vozes apelam para discursos que os usam para capturar almas e ter indivíduos ou populações como serviçais voluntários. Desde os primórdios da humanidade, mitologias escravizaram corações e mentes.

Dito dessa forma, mesmo que cautelosamente, a reação coletiva é de rejeição: admitir a escravidão e buscar a libertação é algo para pouquíssimos – negação e acomodação tornaram-se amigas íntimas da parcela imensa da humanidade sem acesso ao conhecimento. As cavernas continuam sendo o lar daqueles que se algemaram ou se deixaram algemar por frases de efeito que promovem o terror perante a possibilidade do ciúme, da vingança ou do castigo de uma entidade qualquer. Submetidos a uma avaliação crítica, bastam segundos, na maioria das vezes, para esses discursos caírem por terra: mas frases repetidas incessantemente foram adotadas como 'verdades'.

Essa reflexão rejeita a submissão voluntária, aponta a sabedoria e a ciência como instrumentos de avaliação crítica e promotora da renovação humana e, em especial, as fragilidades promovidas a partir da opção pela ignorância ao invés do conhecimento.

Meu objetivo não é desqualificar ou destituir o poder da intuição, das sensibilidades espirituais e da fé: acredito que são capacidades que os seres humanos possuem de se integrar a um todo e compor as forças da vida. Mas o faço em relação aos que se usam delas para cooptarem incautos e, assim, manter seu status social e financeiro.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 03 de novembro de 2017.

* Nas palavras, bem humoradas mas ferinas, de Dawkins:
Descrever as religiões como vírus da mente é algo entendido às vezes como um sinal de desdém ou mesmo de hostilidade. As duas coisas são verdade. Frequentemente me perguntam por que me oponho tanto à 'religião organizada'. Minha primeira resposta é que também não sou exatamente simpático à religião desorganizada. Como um amante da verdade, suspeito das crenças firmemente defendidas que não encontram sustentação em nenhum tipo de evidência: fadas, unicórnios, lobisomens e todo outro elemento do conjunto infinito de crenças possíveis e irrefutáveis de que fala Bertrand Russell com sua imagem de um hipotético bule de porcelana chinesa girando em torno do Sol (ver “A grande convergência”, p. 258).
A razão pela qual a religião organizada merece franca hostilidade é que, diferentemente da crença no bule de Russell, ela é poderosa, influente, isenta de impostos e, além disso, sistematicamente transmitida a crianças que não têm idade suficiente para se defender.a Não forçamos as crianças a passar seus anos de formação memorizando livros lunáticos a respeito de bules. As escolas subsidiadas pelo governo não excluem as crianças cujos pais dão preferência a outros formatos de bule. Aqueles que acreditam no bule não apedrejam os ateus, os apóstatas, os hereges e os blasfemos em relação ao bule, até levá-los à morte. As mães não obrigam seus filhos a desistirem de se casar com shiksasb [Termo pejorativo que designa as mulheres não judias] cujos pais acreditam em três bules em vez de em um único bule. As pessoas que servem o leite primeiro não dão tiros no joelho daqueles que servem primeiro o chá. (Idem, p.344)

29 de out. de 2017

Sustentável, renovável e includente

Sustentável, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 28-10-2017.
Sustentável *, criado em 28-10-2017.

A esquizoanálise tem um único objetivo, que
a máquina revolucionária, a máquina artística, a máquina analítica
se tornem peças e engrenagens umas das outras.

(Deleuze — Conversações)


O corpo, a alma e o universo se estruturam em uma intricada trama, como a teia de uma aranha. Bastam pequenas falhas para promover a perda do equilíbrio e paralisia parcial ou global, em qualquer dos sistemas, levando ao colapso da estrutura maior. Ou exatamente o oposto: a geração de um novo equilíbrio.

Nem percebemos, mas é necessária uma imensa rede para permitir qualquer tipo de movimento a um corpo – sentar-se, ficar ereto e de pé ou deitar-se. Um eixo central necessita efetuar troca fidedigna de informações, numa comunicação em frações de segundos, com todo os outros elementos participantes.

Um sistema precisa atuar autonomamente e, simultaneamente, integrado completamente aos outros: sistemas que cuidam da energia e de sua distribuição, das informações externas e internas e das decisões decorrentes delas, visando sobrevivência, reprodução e satisfação de um corpo.

Há uma infinidade de sistemas galáticos que se sustentam pelo equilíbrio entre as forças integradoras de suas estrelas; as órbitas são efetivadas com precisão e, no processo, a manutenção, absorção e o surgimento de novos astros estruturam o Ser Universal.

O mundo psíquico é habitado por uma espécie de usina que produz desejo e exige a sua satisfação: sentidos captam e geram um mapeamento do mundo e este se torna a nossa percepção, o nosso referencial de existência – definem o que é necessário e, mais do que estimulam, determinam a sua obtenção. Fluxos de desejos, integrados em um nível superior no corpo humano, o impulsionam a estar vivo.

Somos seres movidos por desejos e, sem eles, não há sustentação da vida, não há constituição de sociedade, não há preservação como espécie, nem a produção do novo. Seres humanos aprenderam a conter sua bestialidade em prol da vida comunitária, só que, mesmo habitando o calabouço da alma, ela está lá, aguardando a brecha para se expressar. Há fluxo de desejo que, quando reconhecido, precisa ser contingenciado a determinados contextos; outros, contidos; mas é preciso dar espaço para os impulsos criativos e reordenadores.

Eu fundo a minha defesa da inclusão social aqui: cada elemento, mesmo os considerados de funções inferiores, são essenciais para a precisão dos sistemas. A sustentabilidade é o equilíbrio não apenas associado ao corpo individual e suas necessidades particulares, mas expande-se às de um conjunto de seres — a rede social, ou planetária, como no universo. Exclusões promovem desequilíbrios que, uma hora ou outra, irão decompor e desestruturar a rede de sustentação e preservação.

A renovação é outro ponto a ser esclarecido: é improdutivo apoiar-se em fundamentalismos. A defesa da reprodução do que já existe geralmente é embasada no seu valor passado. Não leva em consideração a caducidade e decrepitude contínua de um sistema. Os equilíbrios são dinâmicos, baseados na substituição dos elementos antigos e gastos por novos. O enrijecimento gera problemas em nível sistêmico. A história comprova a fatalidade de impedir o novo, com inúmeros fatos de momentos e locais diferentes. Como diz um ditado: errar é humano, a repetição do erro (pode ser por desinformação, mas quando não o é, não tenho medo de afirmar) é burrice.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 28 de outubro de 2017.

* Insistir em vias que se tornaram inócuas não produz efetividade. Sua substituição, criteriosa, é fundamental. Todo e qualquer sistema só se mantém a partir de sua renovação constante. No processo, se perde algo, mas o que ocupa o seu lugar tem potência para fazer valer a sua presença. O medo da mudança e da transformação é o que gera os piores inimigos da vida, de acordo com a história humana.

22 de out. de 2017

Filhos da Revolução

Filhos da Revolução, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 21-10-2017.
Filhos da Revolução, criado em 21-10-2017.

Quando nascemos fomos programados a receber o que vocês nos empurraram com os enlatados dos U.S.A., de nove às seis: desde pequenos nós comemos lixo comercial e industrial.
Mas, agora, chegou nossa vez: vamos cuspir, de volta, o lixo em cima de vocês!
Somos os filhos da revolução, somos burgueses sem religião, somos o futuro da nação: Geração coca-cola.
Depois de 20 anos na escola não é difícil aprender todas as manhas do seu jogo sujo – não é assim que tem que ser!
Vamos fazer nosso dever de casa e aí, então, vocês vão ver suas crianças derrubando reis, fazer comédia no cinema com as suas leis.
Somos os filhos da revolução, somos burgueses sem religião, somos o futuro da nação: Geração coca-cola.

(Legião Urbana — Geração coca-cola*)

Estou idoso (para além da metade aceitável dos anos de vida que ainda me permitem a expressividade plena) e meu olhar ousa escapar das verdades que foram estabelecidas para esse momento histórico. Prefiro uma percepção de eternidade – um olhar que não se deixa capturar pelas imposições instantâneas e temporais e ousa usar tudo disponível como propulsor visando um novo entendimento. Sou irascível, sim! (me irrito com facilidade diante de fundamentalismos e extremismos). À impressão que eu tenho, sou odiado por muitos, amados por poucos e para ninguém ocupo a posição de alguém que abriu mão de ser verdadeiro: quando disputam ou brigam comigo, eu sinto o seu cuidado em primeira mão.

Liberdade, Beleza, Verdade e Amor, os ideais dos Filhos da Revolução, Paris em 1900. Eles chocaram os valores padrões de sua época, no mundo todo. O que àquela época e atualmente se esquece, a extravagância dos jovens e sua chama deve ficar intocada pelos poderosos abraços da estabilidade e das convenções sociais que move o mundo. Replicada em tantos momentos da história, a sua força genuína promoveu o cerne dessa espetacular fonte de transformação social: a ruptura para efetuar a evolução (só de vez em quando, retrocesso!).

É preciso não desvalorizar os discursos e suas lógicas, razões e provocações íntimas que constituíram a representação do pensamento estabelecido por uma geração. Como a da atual. Mas, por favor, entenda que, em todas, os avanços também foram frutos da ruptura com os valores anteriores.

Exageros à parte (concordo com o Cazuza: jovens são exagerados – e tenho uma certa saudade disso!), com todos os possíveis erros e retornos indesejados (o conhecimento histórico não é o forte de qualquer nova geração!), eles investem a alma naquilo que acreditam (e é fundamental não dizer 'para o bem e para o mal', aqui.).

Constantemente preciso me recordar desse fogo que abrasou a minha alma para não cair em tentação de desacreditar da juventude: o tentar (errar e acertar), o tempo e o espaço pertencem a eles, não a nós os idosos (menos ainda aos que se permitiram ser velhos, qualquer que seja a sua idade.).

Virar a página sempre será necessário, do contrário todas as emoções que nos aguardam se tornarão frases repetitivas sem conteúdo: que o mundo deles seja exatamente o que seu investimento (pensamento, seu suor e sua luta) conseguir obter, não mais! Não importa o quanto esse meu sentimento – pleno de amor – lhes deseje um mundo perfeito. Faço uma pausa de declarar: 'Essa é a grande utopia: sonhar com um mundo melhor para as gerações que nos seguem! (estou sentindo, mas do que pensando, nos sobrinhos(-netos) e netos, afilhados e, em especial, nos encontros de alma – aqueles que se estruturaram por um duplo-coração desejando.]'.

Escrevo em um computador cujo núcleo (somente neste instante) poderia ser considerado de 'última geração', com uma tela que reflete o máximo possível de pixels, e com isso, detalhes de cores e profundidade. Aprecio profundamente o que o novo traz à vida, sem abrir mão da crítica ao que isso provoca ao (meio) ambiente. São eles, xs meninxs de hoje, xs capazes de rejeitar os refugos como aceitáveis, são elxs que exigirão a sustentabilidade da vida (corpo, alma e espírito), que nós arduamente lutamos para que se tornasse a pauta de qualquer investimento.

Eu amo a meninada. Isso eu me permito todos os dias: conviver com os possíveis seres pensantes que radicalizarão a verdade e não os discursos fundamentalistas que visam a desagregação humana. Me integro e me entrego de corpo e alma em prol da vida igualitária, dos processos de aceitação independente de diferenciação. Em qualquer nível!

Eu sou fruto de uma geração que questionou o estabelecimento de um padrão de individualidade e instituiu em seu lugar a subjetividade: só é possível dizer que há vida ser se houver, durante cada fase de estar, espaço para que o interior se expresse exteriormente – com ou sem críticas. Meus predecessores optaram por correr o risco de aceitar o risco de aflorar práticas doentias à escolher ocultá-las – e, com isso, avaliá-las e, quando necessário, curá-las (ou demonstrar que foi essencial liberá-las!).

Continuo lutando (dói mais agora que antes): eu me recuso aceitar a fragilidade (mesmo que a natural), prefiro a cabeça erguida. Fui precedido por exemplos valorosos que estão incrustados em minha alma e no meu corpo. Mas, meu compromisso não é com eles, do mesmo modo que o deles não foi apenas comigo – o mundo precisa de transformadores e vale ousar ceder a energia que me move em prol deles. Vai dar certo? Claro que não: o mundo nunca será perfeito!

De tão difícil entendimento, o avanço é o que mantém a vida; a diferenciação é a única porta para a transformação. Vejo entristecido os que, todos os dias, ouvem e reproduzem aquele discurso de que 'se não fizer diferente, o resultado vai ser o mesmo' e, por incrível que pareça!, em sua maioria, imploram pela escravidão da repetição e não pela liberdade. Ser idoso tem algo de bom: eu posso, ao olhar para o passado, dizer: 'nada mudou!'.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 22 de outubro de 2017.

* Ainda hoje, não se compreende esse genial sarcasmo do escritor e músico Renato Russo: os filhos dos ricos cheiravam Cocaína e os dos pobres cheiravam a Cola de sapateiro, e formavam a nova geração, modelada pelos 'enlatados' – programas de TV americanos, que são reproduzidos no país desde a época da Ditadura Militar.
Em sua visão, a arte (a música e o cinema, em especial) seria o veículo da crítica aos padrões estabelecidos (e corrompidos).

19 de out. de 2017

Despersonalização induzida

Despersonalização induzida, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 17-10-2017.
Despersonalização induzida, criado em 17-10-2017.

Fundamentalismo:
Qualquer grupo religioso ou movimento étnico que acredita nos seus dogmas como verdade absoluta, indiscutível e objetiva voltar ao que são considerados princípios fundamentais, ou vigentes na fundação do determinado grupo.
Extremismo:
Quando o fundamentalismo ultrapassa as fronteiras de seu próprio grupo e inclui impor aos outros suas crenças; descarta o diálogo social atuando, inclusive violentamente, para determinar seu pensamento e sua fé como únicos.

Cessar a predação em prol da cooperação é o objetivo básico da adoção das ideias societárias onde a proteção se estabelece para todos em seu interior. Mas a civilização não é algo definível como universal se avaliarmos os diversos modos de agrupamentos humanos existentes e os produzidos intencionalmente na atualidade.

As imposições por dominação retiram dos seres humanos o mínimo necessário a sua integridade física. Sociedades regidas com despersonalização, empobrecimento, desnutrição e sob armamentos não se incluem no ideal (nem sequer o tangenciam) civilizatório. É preciso identificarmos os controles sociais como um poderoso armamento: os fundamentalismos extremistas e as ditaduras se estabelecem por seu intermédio.

O contrassenso se manifesta no fato de que sociedades avançadas em civilização promovem a descivilização, fomentando colocar seres humanos à margem do mínimo necessário para obtenção de lucros. O apoio (inclusive militar) às ditaduras facilita a extração dos bens nacionais, a utilização de pessoas como cobaias de experimentos laboratoriais, apenas para citar algumas das práticas que se incluem numa imensa lista para a manutenção de seus interesses.

Por fim, um paradigma tanto tortuoso quanto vil estabelece que há vidas que valem mais (e outras que não). Quanto vale 30 mortos nos EUA ou na Europa e quanto valem as vidas da Somália é algo determinado pelo Mercado, o único juiz absoluto da atualidade. Se é vendável, há produção de comoção, do contrário, usa-se o viés do encobrimento, da ocultação do fato nas manchetes dos poderosos meios de comunicação (leia-se, manipulação!) que atravessam a nossa civilização capenga.

Se o objetivo era a proteção da prática predatória, mas esta se estabelece em mentes e coração num outro nível (uma vida se torna descartável se não produz mais riquezas!), a imposição do mais poderoso é a barbárie institucionalizada.

Ou reacendemos em níveis mais fortes as ideias democratizadoras, as práticas de questionamentos e de críticas embasadas, ou, muito em breve, esse encabrestamento do pensamento e das liberdades individuais extremista irá produzir consequências deletérias para todos ao nosso redor. E iremos encarar, sofrendo, nossos jovens e adolescentes expostos, incautos, acreditando em sua imortalidade, sendo abduzidos, encarcerados e abusados* – simplesmente porque alguém poderoso desejou usar as facilidades que o poder absoluto e ditatorial permite.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 19 de outubro de 2017.

* khaled Hosseini é originário de Cabul, no Afeganistão, doutorado em medicina. Suas memórias de um Afeganistão pré-invasão soviética, o colapso do regime Talibã e suas experiências pessoais o levaram a escrever o seu primeiro romance O caçador de Pipas, 101 vezes na lista semanal de dos mais lidos do mundo e número um em quatro delas. O filme aborda o poder destrutivo das crenças religiosas quando são levadas ao extremo do fanatismo. Importantíssimo para se entender (de forma menos traumática) a que leva o calar-se diante dos fundamentalismos extremistas.

11 de out. de 2017

Descrédito e Desistência

Impossibilidades, momentâneas criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 10-10-2017.
Impossibilidades momentâneas, criado em 10-10-2017.

Apatia
Estado caracterizado por indiferença, ausência de sentimentos, falta de atividade e de interesse, insensibilidade, indiferença.
falta de energia (física e moral), falta de ânimo; abatimento, indolência, moleza.


Lutar é algo que não se faz com armas e, sim, com a vontade. Seres que a fortalecem possuem capacidade imensa de resiliência perante as impossibilidades momentâneas; são sempre capazes de constituir novas rotas quando a atual se desmorona – e o mais incrível, conseguem usar os destroços como ponto de partida*.

Um dos efeitos mais nefastos que eu conheço na vida é o imobilismo da catatonia depressiva: nada afeta, nada estimula, nada mais ganha valor. Acontece diante da repetição ou persistência dos elementos que enfraquecem as forças do desejo.

Desistência não é algo simples. Avançar é um imperativo da vida, que luta sempre contra os movimentos paralisantes. Porém, há forças políticas e sociais que promovem o descrédito continuamente. Importa a elas que a população fique imóvel, insensível à realidade, adotando a prática de quem já desistiu de tudo: apatia severa onde qualquer coisa serve, a despeito do mal que lhe cause.

Não importam os obstáculos, o nível de energia momentâneo, nem mesmo o grau de ignorância acerca do momento atual, quando a vontade se afirma e o desejo exige expressão. Há infindáveis possíveis querendo se realizar por aí, a despeito do que querem nos tornar e nos fazer acreditar, visando subjugar nossos sonhos.

Além disso, vontade pode e deve ser coletivizada. É possível criar uma rede de interlocução, de troca, de apoio e de transformação. É necessário desconstruir os discursos de 'verdades' absolutas que só enfraquecem o tecido social. Predeterminações e preconceitos são armas para gerar poder para muito poucos. Guerras nunca tem nada de 'santas', são sempre fruto do abuso do poder e da ganância.

Quanto mais vejo a promoção da inércia, fica mais clara a necessidade de me mobilizar para incendiar as vontades, produzir colaboração em todos os níveis. Parodiando o Lulu Santos, 'nós somos muitos, não somos fracos… nós somos um só coração sangrando pelo sonho de viver'**.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 10 de outubro de 2017.

* Historicamente, a produção de falsidades induz ao descrédito, inclusive ao aprisionamento, de personalidades que lutam pelo direito popular: foi assim com Mahatma Gandhi, com Martin Luther King, com Nelson Mandela e tantos outros.
O mais impressionante é verificar que o recurso mais sistematicamente utilizado, atualmente, na internet, por quem tem condições financeiras, é o da compra de 'Curti' e de 'comentários e postagens favoráveis'. Robôs virtuais iludem a população sobre ser boa ou ruim, para a maioria, uma ideia, desconstruindo um dos conceitos mais importantes para a democracia.
Produzir, antecipadamente, a sensação de derrota tem sido a grande estratégia que despotencializa a vontade de luta e impede o melhor do esforço individual e coletivo. Recurso muito utilizado em todos os encontros onde há disputas, o blefe ilude o virtual vencedor e o leva a desistir..
.
** Lulu Santos - Tudo Azul.

14 de set. de 2017

Modos de vida guetificantes

Despressurizando, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 14-09-2017.
Despressurizando, criado em 14-09-2017.

Os laços entre nós e uma pessoa somente existem em nosso pensamento. Ao enfraquecer, a memória os afrouxa e, apesar da ilusão de que desejaríamos ser vítimas, e com a qual, por amor, por amizade, por delicadeza, por respeito humano, por dever, iludimos os outros, nós existimos sozinhos*. O homem é o ser que não pode sair de si, que só conhece os outros em si, e se diz o contrário, mente.
(Marcel Proust — Albertina desaparecida, p.48)


As relações sociais nem sempre se estruturam por acordos pacíficos. Qualquer imposição, mesmo as bem sucedidas, produzem um amargo gosto em quem a engoliu porque se transforma em veneno. Claro que qualquer droga em uma pequena dose pode remediar, mas em doses maiores tende a matar.

A história ensina que os fluxos acabam se tornando pendulares, indo de um extremo ao outro, por conta da pressão exercida para exercer um ponto de vista dominante. E tudo que é forçado e indesejado se acumula, pressionando. Um incômodo que exige encontrar ou produzir brechas para escapar. Como um balão, se não o ar não for expelido, despressurizando a tempo, explode.

A eclosão de uma estrutura aprisionante pode exigir uma atividade em tal grau de potência que pode ser comparável a um tsunami, varrendo todas as superfícies. Mas ele surge silenciosamente, em meio a outras ondas. Quem diria que, por um acaso, algumas se reuniriam com outros elementos naturais e comporiam um dos maiores espetáculos da natureza? Destrutivo? Não apenas. Após sua passagem, a paisagem se recompõe, de um modo ou de outro. A única coisa que permanece é a dor da tragédia que se abateu.

Algumas pessoas reagem de forma violenta aos aprisionamentos, outras decaem por suas fragilidades e optam pela inexistência. Em qualquer dos casos, uma tragédia anunciada: as rachaduras vão se expondo porque a pressão exercida se amplia e vai sendo continuamente ignorada.

Como sociedade, é preciso desenvolver modos de convivência que não sejam guetificadores, separatistas e excludentes. Mesmo quando há questões morais. Não é preciso esforço para identificar que há diversas e não apenas uma moral, como os fundamentalismos tendem a afirmar. É preciso reaprender e ensinar o uso das sutilizas, da atenção particularizada, do buscar no outro o subsídio para entender as suas e as nossas próprias questões.

Como o ponto mais importante a se ressaltar, somente com envolvimento crítico, visando uma reabertura à vida colaborativa e cooperadora, será possível mudar a realidade e desestruturar os aprisionamentos, de forma pacífica; antes que o sejam pela via da revolta, dos confrontos e da destruição.

Não somos seres 'naturalmente' pacíficos ou guerreiros; somos um construto que vai se estabelecendo nos inter relacionamentos. Podemos nos agrupar para nos defendermos uns aos outros, por uma opção de vida. Do contrário, resta apenas essa luta para pisar no outro em nome de um modo de vida vendido como o melhor: a questão que você deveria fazer é '— Para quem?'.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 14 de setembro de 2017.

* Esse pensamento propõe que o maior gueto imposto a um ser humano é própria existência, isolada e solitária. Mas, traz uma concepção de que é preciso gerar as estruturas do outro, torná-lo alguém, dentro de si mesmo. O processo é voluntário, e o único capaz de permitir um olhar diferenciado sobre nós mesmos e sobre o outro: entendendo-o como um igual e com isso, desconstruir os segregacionismos.
Gueto
(do italiano ghetto) região em que são confinados os membros de uma etnia ou de grupo minoritário, devido a pressões ou questões econômicas ou sociais. Na Segunda Guerra Mundial, guetos eram regiões urbanas que isolavam e concentravam a população judaica local. Os alemães estabeleceram pelo menos mil guetos na Polônia e na União Soviética.
Atualmente, qualquer estilo de vida ou tipo de existência resultante de segregação ou tratamento discriminatório.
O gueto de Varsóvia ficou famoso pela resistência que ofereceu à dominação nazista. Hoje, grupos ativistas promovem a desguetificação, questionando as segregações e preconceitos e promovendo uma sociedade mais igualitária.
Formação socioespacial delimitada, racial e/ou culturalmente uniforme, baseada no banimento forçado de uma população negativamente tipificada (..) para um território reservado no qual essa população desenvolve um conjunto de instituições que operam ao mesmo tempo como substituto das instituições dominantes da sociedade abrangente e como neutralizador contra elas.

10 de set. de 2017

Receptáculos

Receptáculos, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 10-09-2017.
Receptáculos *, criado em 10-09-2017.

A estrada é longa, com muitas curvas sinuosas que nos guiam quem sabe para aonde.
Mas eu sou forte, forte o suficiente para carregá-lo: ele não é um peso, ele é meu irmão.
Assim prosseguimos: seu bem-estar é de meu interesse. Não é nenhum fardo a suportar
Chegaremos lá! Ele não me atrapalha, ele não é um peso; ele é meu irmão.
Fico sobrecarregado de tristeza porque nem todos os corações
estão repletos da alegria, do amor de um para com o outro.
A estrada é longa e não possui retorno. Durante o percurso, por que não compartilhá-la?
Assim, a carga não vai absolutamente me pesar: "Ele não pesa, ele é meu irmão!"

(Bobby Scott e Bob Russell — He ain't heavy, he's my brother, trad. livre)


Há pesos que carregamos e nos oprimem por impedir a manifestação de um ser completo e pleno. Certas obrigações que não se relacionam com um processo de busca e compreensão do necessário, do essencial ou mesmo daquilo não nos oferece um prisma, por pequeno que seja, de um vir a ser mais evoluído. Os outros, esses são dons de vida, desafios fundamentais para encontrarmos e manifestarmos as capacidades e potencialidades, inclusive aquelas de inclusão, colaboração e participação: o todo só existe com a integração de suas partes e quando cada uma é plena em si mesma.

Essa visão de mundo, carregada de um certo otimismo – acredito eu que sóbrio e equilibrado – com relação aos acontecimentos, dificuldades ou relaxamentos, singularmente vividos e, de vez em quando, absorvidos na composição de um si mesmo legítimo. Certamente alguns dos passos durante, trechos e recortes de um dia ou de um período de vida, são árduos, exigem uma vontade férrea de ir adiante, propõem valores que ultrapassam o olhar apenas sobre si mesmo. São estes que sinalizam: podemos e devemos ser companheiros de vida, parceiros de jornadas, cooperadores uns com os outros.

Claro, isto exigirá abdicar do passo mais rápido, em alguns momentos, em prol de tornar-se o apoio ou sustentáculo para não permitir que uma construção desabe sobre si com as intempéries da vida. Mas eu garanto: empatias e solidariedades retornam em produção de devires mais conectados com o que está por aí, com os elementos que precisamos aglutinar para compor nossas potências pessoais. Nem sempre o que temos a doar é o necessário para alguém, e isso não nos torna desqualificados; os encontros são seletivos e os fluxos só deveriam se reunir quando há compatibilidades a serem compartilhadas.

Essa dose de egoísmo é ímpar, ela nos ensina que um mundo melhor para se viver depende do ambiente e das companhias que tenho ao redor. Somos seres únicos, nascemos e morreremos sozinhos; no ínterim, constituímos as possíveis narrativas dessa caminhada ao optar por composições com aquilo que exprime potência por si e, ainda assim, não se nega a estabelecer novas formações.

Um olhar acurado não é aquele que determina o outro, mas o que permite refletir-se no outro e nesse processo obter a compreensão, o entendimento e a sabedoria. Alguns estão rastejando, outros engatinhando, muitos mais dando os primeiros passos e subindo os degraus. Todos nós, por uma fração de segundo que seja, podemos nos inserir na Ordem e Nela constituir as ousadias, as coragens, as determinações e vontades que nos impulsionam para o adiante.

Gosto de uma alusão que propõe que as percepções variam entre o que está estabelecido e o que é desejável. Em algum momento, quem sabe, a chama acende, a taça se preenche e o todo se manifesta num adeus à forma para ir ao encontro do desconhecido. O incognoscível só o é enquanto não estamos aptos a apreendê-lo e assimilá-lo com a forma ou conteúdo que alcançamos atualmente com nossa percepção e práticas de vida.

Reafirmo, o processo de vida é único e intransferível, mas admite prazerosamente as interações, que não outras, as do aprendizado com os processos estabelecidos por outros: alteridade é fundamental na construção da individualidade.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 10 de setembro de 2017.

* Indico porque gostei muito de assistir ao vídeo: The Justice Collective. Meus sinceros agradecimentos a Genésia Santana de Araújo (uma mãe pra mim!) pelo envio, nesta manhã, que me inspirou esse artigo.

Reconheça os cantores que participaram deste projeto de arrecadação de fundos:
Andy Brown (Lawson),
Gerry Marsden (Gerry and the Pacemakers),
Paul Heaton (The Beautiful South),
Glenn Tilbrook (Squeeze),
John Power (Cast and The La's),
Robbie Williams (Take That),
Melanie C (Spice Girls),
Rebecca Ferguson,
Holly Johnson (Frankie Goes to Hollywood),
Paloma Faith,
Beverley Knight,
Eliza Doolittle,
Dave McCabe (The Zutons),
Peter Hooton (The Farm),
Ren Harvieu,
Jon McClure (Reverend and The Makers),
Paul McCartney (The Beatles),
Shane MacGowan (The Pogues),
Bobby Elliott e Tony Hicks (The Hollies),
Hollie Cook (The Slits),
Coral Gospel LIPA,
Clay Crosse,
Alan Hansen,
Peter Reid,
John Bishop (comediante),
Neil Fitzmaurice (escritor),
Kenny Dalglish (jogador de futebol).

4 de set. de 2017

Subterfúgio humano

afetação, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 01-09-2017.
Afetação *, criado em 01-09-2017.

A eternidade é o estado das coisas neste momento.
(Clarice Lispector)


O aqui e o agora, como única forma de constituição do eu, traz gigantescos desafios à noção noção de ser, especialmente de ser de forma duradoura. Temos essa sensação-ilusão de sermos o mesmo desde a infância, mesmo com transições nem um pouco suaves. Há um certo apego a essa ideia. Em alguns, a obsessão pelo contínuo faz da rejeição ao que foge aos padrões uma questão de vida.

Seres humanos desejam profundamente acreditar no ser, mais do que no estar sendo. Somos incapazes de lidar conscientemente com os infinitos e variáveis modos de ser que carregamos e que podem ser atualizados a cada instante, disparados por cada encontro efetivado como composição ou decomposição de nossas potências.

Qualquer presunção de fixidez é vã. Cada forma de ser dura apenas uma certa fração de momento pois, a seguir, somos afetados por alguma força de vida e desviados da aparente trajetória traçada. Instantaneamente, mudamos de gente de bem para gênios do mal, ou qualquer variante intermediária. Somos pura transformação: amando-odiando, aproximando-afastando, cuidando-negligenciando, em todos os graus possíveis.

Tudo se define nos encontros que estabelecemos, a cada instante. Cada imagem, som, sensação tátil, aroma, sabor, capturados pelos sentidos é capaz de incendiar a alma; e rimos, choramos, amamos ou odiamos, inclusive todos os indeterminados. E isso é o suficiente para nos mobilizar, nos retirar da paralisia e da mesmice: somos os seres da afetação, aqueles que se deixam afetar e afetam o que quer que encontrem.

À despeito de tudo isso, nos agarramos a fixação, esquecemos o movimento e estabelecemos uma paralisação: apenas uma fotografia de certa imagem mental que foi impressa em nossa alma. Impactos vivenciados, que viram marcas na superfície de um encontro, podem estabelecer um certo padrão: assim surgem as opiniões a respeito de algo, alguém e sobre si mesmo.

A rotulação ultrapassa essa opinião acerca da marca da dor-prazer vivenciada. Ela surge como uma extrapolação visando determinar uma essência para algo ou alguém, a despeito de nada poder garanti-la: o desconhecido e o diferente tornam-se os maiores inimigos imaginários de quem não consegue lidar com o que produz incerteza.

Assujeitados a esse processo, o que evidência nossas transformações se torna quase imperceptível, ou mesmo ignorado: o bloqueio permite acreditar num si mesmo contínuo. A ilusão da permanência, nossa ou a do outro, é o subterfúgio humano para acreditar que tem algum controle sobre a própria vida.

A bem da verdade, nos despedaçamos e nos remontamos na totalidade do tempo de nossas vidas, em função dos distanciamentos ou aproximações, dos embates ou das pacificações, do que quer que nos aglutine ou desagregue.

A metamorfose ambulante não é a exceção, mas a mais profunda realidade experimentada por cada ser humano que ainda carrega a sanidade. Loucura é o estabelecimento de uma aparência forçada, dessa máscara social que ocupa o lugar da fuga do vir a ser em nome da permanência.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 03 de setembro de 2017.

* Temporalidade e Transformações são a essência da vida física e, dependendo do ângulo ou prisma adotado, ganham cursos muito diferenciados de influência nas práticas. Somente aqueles que conseguem se determinar um certo desapego, um certo espaço para novas experimentações, conseguem se estabelecer como ser de encontros potentes. Esvaziar-se é necessário para que novos conteúdos tenham vez: tarefa hercúlea, que traz consigo igual medida de descobertas e de ampliação de horizontes.

29 de ago. de 2017

Consumidores consumidos

Consumidores, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 27-08-2017.
Consumidores *, criado em 27-08-2017.

Mesmo quando tudo pede um pouco mais de calma, até quando o corpo pede um pouco mais de alma, a vida não para.
Enquanto o tempo acelera e pede pressa; eu me recuso, faço hora, vou na valsa: a vida é tão rara!
Enquanto todo mundo espera a cura do mal e a loucura finge que isso tudo é normal, eu finjo ter paciência.
O mundo vai girando cada vez mais veloz, a gente espera do mundo e o mundo espera de nós um pouco mais de paciência.
Será que é tempo que lhe falta pra perceber? Será que temos esse tempo pra perder? E quem quer saber?
A vida é tão rara, tão rara!

(Lenine — Paciência)


O distanciamento da realidade é um poderosíssimo instrumento para a alienação ou para a restauração da alma e está intimamente ligado à atitude de quem o pratica. Há similaridade do método, talvez da motivação, nunca do projeto de futuro. Em ambas, forma ativa ou passiva, o equilíbrio da vida estará em jogo e a forma de inserção social, também.

Há séculos, a prática da meditação, da contemplação, do isolamento tem sido utilizada com objetivos variados, de monges a estrategistas. Esse intervalo que se proporciona à mente e ao corpo para fins de restauração permite a retomada do fluxo com nova perspectiva e sem a tensão que distorcia a avaliação das condições do momento.

Em tempo semelhante, o uso de substâncias entorpecentes cumpre sua função para um objetivo totalmente oposto: apagar a realidade, fornecer o esquecimento e o desligamento do cotidiano. Se por um lado, as happy hours, as noitadas e assemelhados funcionam como interruptores ou escape da rotina, fora do uso para lazer coletivo, o uso para o bloqueio do sofrimento pessoal, por incapacidade de lidar eficientemente com as exigências da vida contemporânea, torna-se um grave problema de saúde pessoal e pública.

Para além das questões espirituais, religiosas, psicoterápicas ou mercadológicas, a experimentação pessoal define um modus operandi e, por fim, o uso consciente ou perda de domínio próprio.

Está cientificamente comprovado que esses movimentos de afastamento recondiciona seus praticantes, restaura as suas capacidades já estressadas, a ponto de nos países mais desenvolvidos a redução da carga horária de trabalho ser objeto de avaliação positiva até mesmo do empresariado, que produz novos elementos para dar margem maior à sua efetivação, inclusive durante a jornada de trabalho diária. Não é bondade, é a maximização dos lucros que está em jogo.

Numa via de precarização da vontade própria, a drogadicção retira, vez após vez, um outro percentual de potência de agir, favorecendo apenas o reagir anestesiado, seguir o fluxo sem questionamento. Doses cada vez mais ampliadas para poder encarar o cotidiano: o trabalho, a família, a ausência de perspectiva de vida. Daqueles insigths, favorecidos inicialmente pelo uso de alguma substância, resta a incapacidade de elaboração criativa, a inserção não mais positiva em relacionamentos sociais e, por fim, a desvalorização pessoal, inclusive a trabalhista: a nova escória ou dejeto social.

Em meio a esse embate entre potência e impotência, entre atividade e passividade, entre alienação e estratégia de inserção, o modo de investimento nesta batalha de vida determinará ser sujeito ou assujeitado no que se refere a constituição e preservação de sua individualidade e de sua subjetividade. Mais e fundamentalmente essencial: ser capaz de participar sadia ou doentiamente de uma sociedade com paradigmas exacerbadamente consumidores do corpo e da alma.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 29 de agosto de 2017.

* A insanidade é o resultado de elementos não passíveis de assimilação ou absorção de forma sadia, um sobrexposição ou superexposição às exigências pessoais e/ou sociais. O resultado se manifesta como alienação.
A degradação dos valores que potencializam a vida, em nome da homogeneização, padronização, do consumismo e da reprodução dos discursos, é a marca registrada da atual e decadente sociedade: pensamentos e ações cativos e escravizados.
  • Precarizar tudo: de diferentes formas, a sociedade atual compôs mantras sagrados, rendendo-se em idolatria ao deus Mercado – tudo é pouco para ele, pessoas são apenas engrenagens e todos são substituíveis.
  • Quanto piores as condições de vida, melhor: mão de obra mais barata, desistência de direitos em nome da sobrevivência; um passo do uso de seres humanos como cobaias, por alguns trocados das farmacêuticas, à destruição da sustentabilidade ambiental planetária.
Sobretudo, é preciso gerar corpos dóceis, inativos, silenciosos. A nova safra dos expectadores da vida: ela passa por eles, e eles não notam.

18 de ago. de 2017

Expectativas e expectorantes

Anacrônico criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 17-08-2017.
Anacrônico *, criado em 17-08-2017.

Anacronismo
Atitude ou fato que não está de acordo com sua época; assumir ou atribuir ideias e sentimentos cronologicamente impróprios, ou deslocar costumes e objetos da época a que pertencem.

Contextualizar
Dar um sentido e entendimento atual para práticas ou elementos antigos. Interpretar ou analisar, integrando a perspectiva de um determinado contexto: descrever as circunstâncias, explicando uma situação e sua conjuntura.

Tal pai tal filho. A expressão tão difundida, pretende-se algo admirável, até mesmo um elogio. No entanto, carrega uma opressão desmedida: tornar-se o próprio pai é abdicar de si mesmo.

É inegável que pais desejam para seus filhos o que creem ser melhor para si mesmos. Por gerações, os pais artesãos transmitiram a seus filhos o seu ofício pessoal, por exemplo. Sob a perspectiva de época, a construção de sua relação apresentava vários componentes importantes: compartilhavam momentos de entrosamento e de ensino; uma geração aperfeiçoava a que a outra lhe deixou como legado. Enquanto processo de vida, funcionava bem para a maioria dos casos, o que serviu para ser adotado como referência.

Quando esses referenciais não são questionados visando sua contextualização, tornam-se aprisionantes. A avaliação de um determinado percurso, mesmo que efetivo e até mesmo eficiente na composição de um ser, exige entender que os paradigmas ontem adotados estão baseados em perspectiva anacrônica, já ultrapassada: o trajeto de seus filhos, na atualidade, possui uma realidade muito diferenciada da que você viveu, durante o seu.

De modo algum seus valores deixaram de ser significativos. Mas precisam da referenciação pessoal: funcionaram para você, ou para a sua geração, se for possível ampliá-los de tal modo.

Os métodos educacionais se transformaram. A multiplicação das opções de profissionalização que as novas tecnologias propiciaram – seguindo a linha de raciocínio estabelecida –, mudaram os cenários. E reproduzi-los deixou de ser algo apreciável ou mesmo desejável. Mas ainda é muito difícil para a maioria dos pais, responsáveis e educadores se propor uma reestruturação dos seus métodos de ensino.

Como doença, a gripe produz o catarro e impede a respiração e a oxigenação. É necessário expectorá-lo, para recuperar a saúde física. Referenciais antigos atuam como essa gosma ou secreção, sufocando novas práticas. São obsoletos, ineficazes e um empecilho para o desenvolvimento de um ser sadio e em uso pleno de suas capacidades.

É necessário constituir uma disposição de mente e um olhar renovados. Quais práticas trazem de volta os elementos que fundamentaram os valores anteriores? Que tipo de tempo de compartilhamento, de transmissão de experiências pessoais, de visão de mundo está sendo estabelecido com a nova geração? Esse é o grande desafio da atualidade para todos os interessados em construir ambientes saudáveis para a formação da sua linha de sucessão.

Não tenha medo de desconstruir paradigmas para reconstruí-los sob uma nova perspectiva. Este é um processo de um valor inestimável: ao mesmo tempo em que propicia a você um desenvolvimento pessoal – e, como bônus, impede o tornar-se anacrônico ou obsoleto para quem você ama – abre um caminho de horizonte amplo, onde o respeito, a confidência, a cumplicidade e a presença verdadeira (não basta estar ao lado!) se estabelecem no comum acordo e, no caso de pais e educadores, estruturam as condições essenciais para a expressividade e a plenitude daqueles sob sua responsabilidade.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 17 de agosto de 2017.

* Há uma má interpretação quando se diz que Desconstruir um conceito é Deturpá-lo. Não se aplica, pois o que está envolvido é recompô-lo aos seus elementos originais e avaliá-los individualmente; a seguir, verificar como foi feita a amálgama (a reunião deles) em sua composição final. Os elementos constitutivos nos dão a noção do que havia em jogo, no momento em que ocorreu a sua constituição e os efeitos produzidos.
Para a contextualização, esse método nos fornece elementos para compreender a valoração que o fundamentou. Em muitos dos casos, ótimos valores de época são a base. A questão que se nos apresenta, na atualidade, é: que elementos atuais os reativam?
Reproduzir o antigo porque foi bom não é saudável, se é possível renovar suas bases conceituais e práticas, pois a nova roupagem permite alcançar a nova geração.
Há que se temer o mau uso ou manipulação desse método, mas, isso é inerente à vida. Acredito que o melhor é buscar com afinco ser o mais eficiente possível na tarefa, e com isso, abrir novas perspectivas e positividades para o mundo.

16 de ago. de 2017

Regenerando o tecido da realidade

tecido da realidade, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 12-08-2017.
Tecido da realidade, criado em 12-08-2017.

Observando o mundo, verifica-se que todo pequeno progresso no sentimento humanitário, cada aperfeiçoamento das leis criminais, cada passo em direção à redução das guerras, ou em direção a um melhor tratamento para as raças de cor, ou abrandamento da escravidão, cada progresso moral que tenha ocorrido no mundo, sempre contaram com a oposição das igrejas mundialmente organizadas […]
Minha opinião pessoal sobre a religião é a mesma de Lucrécio. Considero-a uma enfermidade nascida do medo e fonte de indizível sofrimento para a raça humana. Não posso negar, contudo, que tenha feito alguma contribuição à civilização. Nos primeiros tempos, ajudou a fixar o calendário, fez com que os sacerdotes egípcios registrassem os eclipses com tanto cuidado que acabaram sendo capazes de prevê-los. Estou pronto a reconhecer esses dois serviços, mas não conheço outros quaisquer.

(Bertrand Russel — Por que não sou um cristão e outros ensaios sobre religião e assuntos conexos *)


Está comprovado que não há realidade, como um absoluto para todos. Vivemos mundos diferenciados em função da apreensão dos elementos por nossos sentidos (inclusive ao denominado espiritualidade), psiquê e razão. O tecido da realidade depende da perspectiva adotada para analisá-lo ou apreendê-lo.

É possível verificar diferentes cenários, antes de adotar uma perspectiva principal, para quem avalia criticamente as situações. O método é semelhante a adiantar ou retroceder uma das pernas para permitir uma mudança da perspectiva, sem efetivar o passo atrás ou à frente.

Melhores decisões, dentro de determinado campo de atuação, amplia a chance de conquistar os desafios e ser um vencedor. Jogos de estratégia promovem essa prática de construir os cenários adiante, sob diferentes pontos de vista, para cada situação. Como técnica, quando usada em negócios, política, propaganda e relacionamentos, a prospecção, mais do que conquistas, evita muita dor de cabeça, ou pior.

Por outro lado, o mau uso do método facilita a manipulação daqueles que se aferram a uma única perspectiva. Estes tendem a adotar padrões e predeterminações fundamentalistas porque não exige pensar e se posicionar a respeito do que embasa tais conceitos. Uma perspectiva possível torna-se a Verdade.

O estímulo à constituição de egocentrismos exacerbados tem promovido rupturas graves no tecido das relações: a humanidade do outro é descartada. O interesse nesse tipo de manipulação social é algo muito antigo. Foi feito, por exemplo, objetivando a escravização de indígenas e negros, quando negociantes, políticos e líderes religiosos afirmaram que eles não possuíam alma. Para os que tinham interesse em acreditar na ideia, foi o suficiente para se desculpar até mesmo para cometer atrocidades e ignorar genocídios.

É possível optar por uma via de construção pessoal desenvolvida com independência, mas fortalecendo a colaboração social e o sentido de inclusão. A interdependência, nesse caso, ultrapassa o aprisionamento, produz a cooperação e estabelece o mútuo e harmônico desenvolvimento para todos.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 15 de agosto de 2017.

* A Citação, que está em Pela Bandeira do Paraíso, uma história de fé e violência - Jon Krakauer, me remete a muito do que se tem visto no acumpliciamento Política-Religião, em função do poder financeiro. O Golpe Legislativo-Judiciário contra a presidente Dilma Rousself que, mesmo sem qualquer crime, foi deposta teve toda a bancada evangélica votando a favor, à despeito de sua base exigir outro posicionamento. A formação de um bloco no Legislativo demonstra bem o seu caráter: uma bancada de ruralista, armamentista e religiosa (Boi, Bala e Bíblia).

5 de ago. de 2017

Ladeira abaixo

Ladeira abaixo criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 05-08-2017.
Ladeira abaixo *, criado em 05-08-2017.

É sobretudo quando tudo é falso que se ama o verdadeiro, é sobretudo quando tudo está corrompido que o espetáculo é mais depurado. O cidadão que se apresenta à entrada da Comédie deixa aí todos os seus vícios, a fim de retomá-los apenas à saída. Lá dentro ele é justo, imparcial, bom pai, bom amigo, amigo da virtude; vi muitas vezes a meu lado malvados profundamente indignados contra ações que não deixariam de cometer se se encontrassem nas mesmas circunstâncias em que o poeta situava o personagem que abominavam.

Diderot — Escritos políticos (citado por Giannetti — Auto engano, p.45)


Olha o lobo! tem duas faces: a de quem engana e a dos que se permitem o contínuo engano.

Desastres repentinos acontecem, faz parte da vida. Ninguém está imune às suas consequências. Outros, certamente, são tragédias anunciadas, cujo risco é escalado perigosamente até acontecerem. Desavisado não é a palavra que cabe aqui: quando se escolhe ignorar os sinais que alertam para o perigo iminente e se acata a dessensibilização por costumes, elas ocorrem por opção.

Não se enquadram nessa categoria, o gosto pelo perigo, pelos desafios e por esportes radicais. Neles busca-se a construção de técnicas, via treino árduo e a elaboração e construção de equipamentos mais adequados. Flui em outra sinergia.

Campanhas de esclarecimento público devem atentar para a construção de plataformas com oportunidades de exposição contínua à informação crítica, de base científica e linguagem acessível. Por desumano que pareça, priorizar quem não possui nenhum acesso às informações é essencial. O foco dos alertas deve ser agrupamentos onde há casos de ignorância verdadeira, o desconhecimento do perigo. O convencimento dos que se alienam, mesmo que importante, é etapa secundária.

Fique à vontade para ler este artigo como esclarecimento e apoio à governança e ao trabalho da Polícia Civil, mas ele volta-se especialmente para questões político sociais. Sua crítica principal está direcionada a manipulação, que continua gerando os piores desastres que o país já enfrentou em muitas décadas e tantas outras, anunciadas diariamente, sem que haja esboço de reação por parte da população. Midiotia e Apatia andam de braços dados e repetem o mesmo chavão; caminhando — mesmo que fortemente alertadas sobre o perigo — para o poço sem fundo da alienação.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 05 de agosto de 2017.

* Os meios de comunicação dominantes estão apresentando ideias com recursos que o cidadão comum desconhece, e acolhe sem perceber. Sua ignorância ativa, o torna passivo perante o poder midiático.
A produção incessante da alienação é o princípio básico da dominação. Ela é produzida mais do que com o 'pão e circo' para o 'populacho'. Técnicas avançadas, usam os nano dados individuais, voluntariamente informados (sua localização, o que está fazendo, onde e o que compra, etc), compilados, agrupados e estruturados em informação precisa. Esta é utilizada na propaganda como a 'arma' do negócio. Agora, especialmente na manipulação sociopolítica eleitoreira e na passivação dos ânimos alterados e da indignação popular, redirecionada contra aqueles que tentam ser seus aliados.