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20 de nov. de 2016

Particularidades, Peculiaridades e Periculosidades

Cinco.Cinco, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 20-11-2016
Cinco.Cinco*, criado em 20-11-2016.

Tenho que ter paciência para não me perder dentro de mim: vivo me perdendo de vista.
Preciso de paciência porque sou vários caminhos, inclusive o fatal beco-sem-saída.
Sou um homem que escolheu o silêncio grande.
Criar um ser que me contraponha é de dentro do silêncio.

(Clarice Lispector — Um sopro de vida, p.29)


Escolhi, antes de iniciar a segunda parte desta década da minha trajetória de vida, verificar se — e o quanto, neste período — as transformações vivenciadas me auxiliaram no projeto de tornar-me um pouco mais eficiente na absorção do que amplia o aprendizado e torna a vida mais agradável, sempre que possível para outros, além de mim.

Muito do que avaliei como importante facilmente se encaixou em três categorias: estão nas particularidades, possuem peculiaridades intrínsecas e exigem uma exposição de um nível especialmente perigoso – o peito aberto ao novo e ao outro. Nenhum admitiu o contato egoisticamente manipulativo. Estavam no caminho onde a doação daquilo que se vai conquistando é o necessário: o mais fundamental ponto de equilíbrio.

Encontros plenos acatam cada particularidade, nas mínimas peculiaridades, mesmo quando promovem riscos — inclusive o de morte. Erro após erro, intercalados de tão poucos acertos, a experimentação foi gerando pequenos centros de conhecimento. Tentativa após tentativa de transmiti-los sem repassar as excentricidades, menos ainda os desequilíbrios, inseguranças e afetos negativos, fortaleceram esses núcleos.

Seria muito bom se os gráficos fossem representados só com cores vibrantes pontuando positividades, embalados por uma música contagiante e efeitos mirabolantes de transição. Aliás, seria fantástico.

Mas, em que pese não ter negativado na maior parte, há resíduos de passado que resistem em interferir — e conseguem! — desconstruindo vários pontos do que considero minha integralidade: há ansiedades que me deslocam o equilíbrio na hora de interferir na realidade; há novas concepções que desafiam o meu olhar perscrutador e avaliativo; há fragilidades ao lidar com intrusões, com decepções, com perdas.

Ainda que os processos racionais tenham avançado, ficaram aquém de outros mais sensíveis ou de níveis holísticos com a Ordem.

Na exterioridade, a 'camaleosidade' foi trabalhada arduamente. Resultou significativamente em maior facilidade de acatar os estranhamentos, assimilar as diferenças, interagir com o desconhecido [quase] sem sucumbir à propensão de desqualificar nenhum e ninguém.

Internamente, as novas configurações restauraram zonas devastadas por outros que (pura incapacidade minha) não consegui impedir; restabeleceram pontos de contato com personalidades que não havia encontrado pontos de identificação (pura imbecilidade minha) para estabelecer conexões potentes; estabeleceram, nos processos de doação de sentimentos, energias e força de vontade, um ponto estratégico onde a integridade não se fragiliza.

Sob esse ponto de vista e de elaboração de pensamentos, acato com felicidade a ideia de que avancei nos propósitos que estabeleci quando zerei a década, cinco anos atrás.

Mas isso exigiu um processo de alquimia e me obriguei, inclusive, a produzir um perímetro de distanciamento de todos: foi o ponto de partida fundamental para poder encarar a segunda metade desta etapa. Falta pouco para o cinco.cinco.

Já que decidi compartilhar essas reflexões, vou cruzar o limite de não explicar as imagens que crio (veja a nota de rodapé desta postagem). É um bom começo flexibilizar sem quebrar as barreiras, os absolutos, os determinantes que constitui estrategicamente: permeabilizar meus pontos de referência.

Pois bem: expus as minhas particularidades, expressei minhas peculiaridades e sei que isso é um processo perigoso, mas necessário. É que eu quis que você soubesse dessa nano transformação em todos os níveis e do fato de que sou agradecido por ter sido parte integrante dela (até você que eu não conheço!).

Um grande abraço, Caiam na PAz!

Wellington de Oliveira Teixeira, em 20 de novembro de 2016.

* Na imagem que ilustra esse texto utilizei de medidas, números e letras que identificam o 5 e o ponto. Seu núcleo foi exclusivamente estruturado em cinquenta e cinco camadas de pentaedros com medidas 5,5 a partir de centésimos de milímetro (o novo computador passou no teste!) para representar a nova idade. Em seguida, percebi que era essencial inserir, também, os elementos incompletos e em reestruturação, até conseguir reconfigurá-los a este ser que me torno.

30 de out. de 2014

Reflexos infinitos

Reflexos infinitos, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 04-10-2014
Reflexos infinitos*, criado em 04-10-2014.

Com cada início de vida, a roda das decisões começa a girar reproduzindo os mesmos processos anteriores,
e apenas uma decisão permite se distanciar da repetição em busca de algo original.
É isso que define tornar a vida expressiva ou não.

(Wellington de Oliveira Teixeira)


Me remeto àquelas improváveis possibilidades que eu pude dispersar ou reunir em uma única e simples decisão.

Por que, após elas, nos tornamos apenas isso, limitação. Perdemos a infinitude em prol da concretização.

Num paradoxo que me escapa ao entendimento, mesmo restrito às escolhas que foram estabelecidas, instituímos, após cada uma, um novo e infinito campo de possibilidades.

Nisso somos seres de quem somos, nisso a Ordem se estabelece em nós, nisso exploramos a cada encontro uma plenitude seguida de transformação.

Nisso contribuímos com a plenitude e a transformação da Ordem: reflexos infinitos, qual um único raio de sol atravessando uma minúscula gota d'água que gera, não apenas por si, um fragmentário e belo campo luminoso.

Energia luminosa que, uma vez liberada, não é possível mais cercear, por que cada reflexo se expande em múltiplos reflexos, numa escala infinita.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 30 de outubro de 2014.

* Reflexos que escapam da similaridade com seus originais tornam-se autênticos.

30 de ago. de 2014

Energia em formato de memória

Memória, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 29-08-2014.
Memória, criado em 29-08-2014.

Confie em seu poder pessoal: é tudo o que temos neste mundo misterioso.
A escuridão é como o vento, uma entidade desconhecida à solta, que pode lhe pegar se não tiver cuidado.
Você deve entregar-se ao seu poder pessoal, fundir-se com ele…
Um guerreiro é impecável quando confia em seu poder pessoal,
sem considerar que ele seja pequeno ou grande.

(Dom Juan, em Viagem a Ixtlan de Carlos Castañeda, p.161-162)
É quando os fios de cabelo da nuca arrepiam e uma estranha sensação, vaga, de estar fora do tempo, é subtituída por outra que cola na mente uma certeza; não em outro.

Nesse momento, único em efeitos, em que perco o senhorio de mim, ao mesmo tempo em que me expresso mais verdadeiro que nunca; não em outro.

Só quando preciso encontrar um modo de racionalizar - qualquer um - para que esse encontro da alma com o infinito, com o atemporal, não me faça ultrapassar os limites de um corpo cada vez menos interessado no estático, no substancial, no sequencial; só nele.

Eu me confidencio, calmamente, que este tempo de vida é pequeno; que as marcas estampadas no invólucro individualizante cumpriram sua função; que os motivos encontrados para realizar essa jornada se esgotaram; que tudo se iguala e por isso mesmo ganha o mesmo status: não há importância pois tudo tem valor; que não há dor na paz, na aparência, talvez; que é quando um antigo fluxo se expande que um novo núcleo se aglutina: a vida não se desfaz se reconstitui em outras vias; que, a novidade chega não para ocupar o lugar do antigo, ela estabelece um novo;

Apenas um flash, um estalo. Em um piscar de olhos o tudo torna-se nada, melhor, visibiliza-se como apenas uma camada transparente - como as da cebola - que por um exato e ínfimo instante é permeável e permite ser transposto.

Não mais substância, o que se configurou forma desfaz-se e torna-se, aos poucos, o que sempre foi: uma energia que flui e ganha, em todos, o formato de uma memória.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 30 de agosto de 2014.

* Quando converso com algumas pessoas sobre poder pessoal, cito o conceito de capacidades pessoais bem conhecido por cristãos, resumido em uma parábola (uma ilustração que permite a absorção imediata de um conceito difícil), como a que a palavra talento pode significar poder, capacidade ou habilidade pessoal, além do conceito de bem, gravado em moeda com esse mesmo nome.
Porque isto é também como um homem que, partindo para fora da terra, chamou os seus servos, e entregou-lhes os seus bens.
E a um deu cinco talentos, e a outro dois, e a outro um, a cada um segundo a sua capacidade, e ausentou-se logo para longe.

(Bíblia - Mateus 25:14-15)

28 de ago. de 2014

Intuir é possível

Intuir, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 28-08-2014.
Intuir, criado em 28-08-2014.

Intuição sempre constrói meu próprio abrigo, desculpe amigo, se eu não sei o que dizer.
Se estou aqui agora é porque faz sentido, minha esperança é bem maior do que sei ser.
Eu sou inteiro e é mais honesto ser assim porque de mim ninguém vai ter coisa melhor
do que tentar eternamente achar em mim o que há de luz, o que há de sombra, o que há de só.

(Fábio Jr. - Intuição)


Já ouvi incontáveis histórias de percepção instantânea que surpreendeu uma pessoa quando, em um milésimo de segundo, tomou uma decisão que influiu diretamente no desenrolar dos acontecimentos.

Intuição é o nome que comumente damos para um processo fantástico que o cérebro é capaz de executar que pode ser comparado aos sistemas de computador que operam em multitarefa. Sabe aquelas ações que ele executa enquanto você usa outras funções? Ações do tipo ir baixando e avaliando a periculosidade de um arquivo enquanto você troca mensagens com alguém e, simultaneamente, abre uma nova janela para ver a foto enviada.

Uma experiência usual, a consciência foca a ação do seu dia a dia, como ir para algum lugar, e ele trabalha agrupando informações em segundo plano: enquanto você vê alguém na rua, próxima ou distante, o cérebro vê tudo dessa pessoa e ao seu redor, gravando o contexto. Faz isso e armazena os dados coletados para gerar novas informações.

Em uma ação inconsciente para você ele correlaciona as novas informações com os padrões já estruturados de experiência e, em caso de emergência, envia um sinal imediato.

Fantástico isso, não é? O que me impressiona é o fato de que muitas pessoas acreditam que intuir é algo de histórias fantásticas, deixando de lado exercitar e utilizar um instrumento valioso para o nosso viver diário.

Preconceitos não estão ligados apenas a raças e à sistematização de preceitos. Relacionam-se, predominantemente mais, ao que somos capazes de admitir no contexto de nossas vidas e ao que, ao contrário, bloqueamos por desconhecimento dos processos de produção ou de constituição.

Geralmente, cientistas e pesquisadores precisam diariamente se desvencilhar de sua visão de mundo estabelecida para constituir as novas formas de pensar de uma sociedade, em bases não acorrentadas ao senso comum. Ao mesmo tempo, esse desenvolvimento pode ser produzido por pensadores de comunidades consideradas menos desenvolvidas. Não à toa, o processo de intuir que plantas com determinados formatos poderiam ter uso medicinal, produziu experiências que geraram os chás, infusões e pastas poderosas, altamente cobiçadas pela indústria farmacêutica ou cosmética.

Na próxima vez que comprar um produto de beleza, ou sua mãe, ou outro parceiro de vida lhe der um aviso, não titubeie, avalie com calma. Intuições não respondem à interpretação simples. Há muito mais razões…

Wellington de Oliveira Teixeira, em 28 de outubro de 2014.

* Jung propôs que a Sensação e Intuição são coisas diversas, mas estreitamente relacionadas ao modo de perceber ou sentir o mundo: agem como um sensor. Razão e Sentimento ligados ao julgamento e à avaliação.
Todas são modalidades da percepção e do pensamento (os processos cognitivos) que o ser humano usa para se guiar na vida. Precisam ser integrados para que a personalidade possa ser equilibrada e saudável, independente de transformar-se sempre, a partir de situações diversas.

21 de ago. de 2014

Quem sabe?, um dia...

Contingências, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 11-08-2014.
Contingências*, criado em 11-08-2014.

A contingência é a forma de representar como determinados comportamentos surgiram e se mantêm.
É a formula que a análise do comportamento se utiliza para estudar e entender como
certos comportamentos foram formados e como eles se mantêm atualmente.
A contingência não é apenas o evento reforçador, mas todo o sistema que mostra
como/porque uma resposta foi dada, como se formou repertórios comportamentais
e como tais repertórios se mantém no presente.

(Blog Psicologia analítico comportamental)
Há um certo grau de predição na prevenção.

Os acontecimentos não seguem seu cronograma, você já deve ter percebido. No entanto, já lhe passou pelo pensamento predeterminá-los. Acontece com todo mundo.

Desde que seus projetos incluam espaço para alterações, é um método eficiente. Do contrário, o que lhe aguarda são as frustrações.

Há diversas precauções possíveis: você planta a semente, mas sabe que o verão se aproxima. Então, você se resguarda com poço e cisternas onde acumula água e a libera na medida em que as reservas estejam sempre contingenciadas. Em lugares muito frios, prepara-se uma capa que protege o plantio, fruto ou fruta, do contato direto com a geada ou a neve.

O que geralmente esquecemos é de contingenciarmos uma reserva interna para os momentos dolorosos da vida. E, todos sabemos, eles vêm.

Muitos talvez não percebam ou desconheçam, o cuidado com a mente e a alma, o desenvolvimento espiritual são instrumentos para alcançarmos esse objetivo. Funcionam quando você interrompe o fluxo louco da vida, para e medita; quando você alonga seu passeio em local aprazível ou cria esse momento de forma inusitada, fora dos seus padrões; quando você se esforça para bloquear os fluxos de pensamentos que o agitam, toma um chá quente, ouve uma música leve, lendo um texto que incentiva práticas saudáveis…

Não tenho como imaginar a sua própria forma de tranquilizar-se, de ampliar suas forças internas e externas, de criar conexões que o fortalecem - alimentos, bebidas, pessoas e outros elementos que estariam incluídos aqui. Mas, se houver disposição pessoal, você se permitirá avaliar o que realmente lhe faz bem, não apenas os pequenos agrados diários que você se oferece.

A questão é que, quando se lê esse tipo de comentário ou exortação, a gente acena com a cabeça concordando com a lógica e a proposta mas, a seguir, se permite dizer: Verdade. Quem sabe?, um dia…

Wellington de Oliveira Teixeira, em 21 de agosto de 2014.

* Natureza daquilo que acontece de modo eventual, incidental ou desnecessário, possível de ocorrer de outra forma ou não se efetivar. Algo duvidoso, possível, mas incerto. Um acaso.
Um plano de contingência ou planejamento de riscos, de continuidade de negócios ou de recuperação de desastres objetiva produzir medidas que reativem rapidamente processos vitais, de forma plena ou minimamente aceitável, evitando paralisações prolongadas geradoras de qualquer forma de prejuízo.

2 de ago. de 2014

Hélices de vidro

Hélices de vidro, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 02-08-2014.
Hélices de vidro, criado em 02-08-2014.
Assim como talvez não haja, dizem os médicos, ninguém completamente são,
também se poderia dizer, conhecendo bem o homem, que nem um só existe que esteja isento de desespero,
que não tenha lá no fundo uma inquietação, uma perturbação, uma desarmonia,
um receio de não se sabe o quê de desconhecido ou que ele nem ousa conhecer,
receio duma eventualidade exterior ou receio de si próprio;
tal como os médicos dizem de uma doença, o homem traz em estado latente uma enfermidade,
da qual, num relâmpago, raramente um medo inexplicável lhe revela a presença interna.

(Søren Aabye Kierkgaard - O Desespero Humano, em Os Pensadores, p.329 *)

Cortantes e praticamente invisíveis, palavras são como hélices, de vidro:
refletem, somente em lampejos, a intenção dos que geram, a custa da paz,
a propulsão para alçar seus vôos mesquinhos.

(Wellington de Oliveira Teixeira)
São muitos os caminhos que percorremos em função de conquistar uma vida plena. Aquela que acreditamos será a que nos trará a paz, a tranquilidade. Talvez, a plenitude.

Nos inventamos. Em cada dia, pedacinhos não de vitórias mas de avanços iludem nossas percepções e nos carregam para um outro adiante, uma outra meta, ou apenas um seguir.

Nos tornamos. E, de quando em vez, paramos. O fluxo interrompe. Um espaço fica não preenchido e com ele — o vazio que se instaurou — as inquietações, as dúvidas.

Nos esvaziamos. São silêncios que não sinalizam pausa, descanso, quietude de alma. São momentos não classificáveis. Não são tristezas por algo, não são dores por perdas, não é sentimento de nulidade.

Nos caçamos. É como um eco distante. Um sinal das profundezas da alma. Algo amorfo que apenas transparece, reluz por infinitesimal instante, fazendo com que algo seja disparado, aceso, ligado. Fugidio estalo que se propaga mente e corpo e produz uma angústia pelo infinito, inalcançável entendimento de tudo, uma expressão plena e total de si.

Nos encontramos. Nessas brechas atemporais que se produzem apesar do cotidiano, involuntariamente, é onde detectamos a fonte máxima de cada um. A pura vontade em potencial. Aquilo que intuímos como potência de vida. Nosso único lar, em si: Ser.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 02 de agosto de 2014.

* Minha vida não será, apesar de tudo, mais do que uma existência poética. Segundo György Lukács (1885-1970), o dinamarquês Kierkegaard (1813-1855) revela em sua declaração heroísmo, honestidade e tragédia. Heroísmo, em ter desejado criar formas a partir da vida; probidade, em ter seguido até o fim o caminho escolhido; tragédia, em ter desejado viver aquilo que jamais poderia ser vivido.
Para Régis Jolivet o pensamento de Kierkegaard formou-se, não tanto por assimilação de elementos estranhos, mas sobretudo através de uma luta de consciência, cada vez mais intensa e cada vez mais exigente, perante as condições, não já da existência em geral, mas do seu próprio existir. Sua filosofia é precisamente ele mesmo, não fortuitamente e, de certo modo contrariado, mas ele mesmo voluntária e sistematicamente, a tal ponto que o existir como indivíduo e a consciência desse existir chegaram, a ser, para ele, condição absoluta da filosofia e até sua única razão de ser.

25 de jul. de 2014

Transportabilidade linguística

Transgeneralização, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 23-07-2014.
Transgeneralização, criado em 23-07-2014.
Liberem-no com um gesto demasiado violento,
façam saltar os estratos sem prudência
e vocês mesmo se matarão, encravados num buraco negro,
ou mesmo envolvidos numa catástrofe, ao invés de saltar o plano.
O pior não é permanecer estratificado – organizado, significado, sujeitado –
mas precipitar os estratos numa queda suicida ou demente,
que os faz recair sobre nós, mais pesados do que nunca.

(Giles Deleuze e Felix Guattari — Mil Platôs: capitalismo e esquizofrenia. v.3, p.23-24)


Línguas de ascendência latinas são eminentemente machistas perante a questão de gêneros. A nossa também. Dizemos: as rosas e os cravos, eles são lindos. Viu? Diante de palavras com gêneros diferentes priorizamos o masculino. Parece natural, mas linguagem é algo criado para a comunicação, logo qualquer padronização vem das relações sociais existentes.

A língua permite atravessamentos nas portabilidades. Da antiga preponderância biológica e genética do XY ou XX, constituímos valor para a manifestação subjetiva onde estes elementos não possuem determinação no gênero, socialmente vivenciado.

Não tão comuns como na língua inglesa*, há substantivos que possuem uma única forma indistinta (geralmente chamados de comuns de dois**) que necessitam de artigo (o, a, um, uma) ou outros elementos textuais para determinar o gênero: anarquista, camarada ou colega, colegial ou estudante, fã, imigrante, indígena, doente, suicida. Há profissões — e suas relações — que encampam a mesma ideia: agente, dentista, intérprete, jornalista, taxista, policial, servente, gerente, chefe, cliente.

Poderíamos chamá-los de unissex, termo criado na década de 1960, para dar conta das práticas dos hippies de abarcarem elementos transgêneros em função das ideias de compartilhamento universal: cabelo, roupa, acessórios, dentre outros, não deveriam ser determinantes de sexualidade. Se na época eram posicionamento contra o estabelecido ocidentalmente, tornou-se algo comum, adotado até hoje.

A proposta não visa — como tenta induzir o livro UNISEX – A criação do ser humano “sem identidade”, de Enrica Perucchietti e Gianluca Marletta — à constituição de um imaginário global influenciador das escolhas das massas ou demolir as identidades sociais, religiosas, políticas ou culturais. Que dirá a absurda correlação com a desintegração da instituição familiar para criar o consumidor perfeito, facilmente manipulável***.

Em contraposição a esse nível de preconceitos, a atual linguagem proporciona um apontamento diferenciado, uma abertura clara na fundamentação da comunicação: é preciso transpor a predeterminação, pois não há como obrigar ninguém a se sentir como gostaríamos. Até há, e infelizmente a história comprova, a custa de muitos seres infelizes, a formação dos guetos sociais.

Para ilustrar a questão da transposição dos gêneros, vou utilizar uma proposta bem humorada do DCE da Uff que recorre a uma generalização do masculino quando a ideia implica em aumentativo ou força: Bandejão, a bandeja transgenérica. A maioria das pessoas, por força do hábito, esquece que aumentativo de bandeja é bandejona e não bandejão. Mas produzimos a transposição do seu gênero para demonstrar ampliação e criamos o transgênero A bandejão (em contraposição a bandejona), por ser inaceitável, transformou-se em O bandejão - o bandeja agradece.

Um costume que não aprovo — o de se realizar questões de múltiplas escolhas tendo no enunciado Marque com um X a opção… — foi tão usado, no período em que se queria reprodutores de conhecimento e técnicos especialistas e não pessoas pensantes, que se perpetuou. O tal X, porém, acabou sendo adotado para algo muito interessante, que vejo com muito bons olhos: seu uso como elemento genérico de desgenerização por inclusão. Se antes excluíamos o feminino, agora ele introduz o conceito de universalização, de participação geral e todxs estão convidadxs a usá-lo.

Wellington de Oliveira Teixeira, entre 24 e 25 de julho de 2014.

* Com ascendência da língua falada pelos povos germânicos, o idioma nascidos nas ilhas britânicas conhecido como anglo-saxão, o originalmente Englisc (ou língua dos anglos") deu origem ao inglês atual.

** Cuidado para não confundir substantivos comuns aos dois gêneros com substantivos sobrecomuns (que apresentam um só gênero, como a criança, a testemunha, a pessoa; ou o gênio, o anjo, o algoz) ou epicenos (nomes de animais que precisam do macho/fêmea para distinguir (a cobra, a formiga, a gaivota; ou o condor, o crocodilo, o gavião).

*** A visibilidade da questão dos gêneros não biológicos, antes completamente escondida dentro dos armários, passou a integrar a agenda mundial. Banheiros unissex, não separados, dentre outras transformações, criaram um reboliço imenso nos setores mais conservadores. O que poderia ser apenas uma prática inclusiva transformou-se em uma nova chamada à guerra pelos valores tradicionais, de modo similar aos racistas americanos da Klu Klux Kan (KKK) — cujo objetivo era impedir a integração social dos negros recém-libertados e a universalização dos direitos de cidadãos como adquirir terras e votar — apelam para a destruição dos valores e da família.
A história — quase sempre esquecida — se repete e fundamentalistas reaparecem com outras roupagens.

14 de jul. de 2014

Moitidis

Moitidi, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 14-07-2014.
Moitidi*, criado em 14-07-2014.

O Destino é uma sucessão inevitável de acontecimentos que conduz a vida
de acordo com uma ordem natural, onde nada que existe pode escapar.
Na mitologia grega, as três irmãs responsáveis por fabricar, tecer e cortar
aquilo que seria o fio da vida de todos os indivíduos eram as Moiras.
Seu tear chamava-se Roda da Fortuna que em suas voltas posicionam o fio do indivíduo
ora na parte superior, ora na parte inferior, explicando-se assim os períodos de boa ou má sorte,
o auge e o fundo do poço de todos nós.


Vamos admitir em um puro exercício de imaginação que houvesse um destino traçado para cada um de nós. Tracejado, indicando uma rota. O preenchimento dos espaços vazios ficando por conta das vivências, como o conceito de meta valorizado no mundo atual.

Lamento dizer que essa ideia tão sedutora apenas criaria uma ilusão de liberdade, de escolhas, de propósito.

Talvez influenciados pela morte inescapável ao final de qualquer trajetória, é isso que constantemente boa parte de nós utiliza como desculpa para minimizar a grande responsabilidade que é gerir, por si mesmo, a própria vida ou se livrar da carga de pensar na inutilidade de muito dos sacrifícios aceitos ou exigidos de si mesmo.

Criamos um moitidi, um destino e o culpabilizamos para nos isentar do complexo mundo das possibilidades. Inventamos o revés e o azar para justificar escolhas falhas ou que não resultaram em nosso desejo satisfeito. Construímos um paraíso ou a perfeição para escalarmos nossas conquistas.

Entendo a produção na psiquê do vislumbre de um futuro melhor, o que se denomina de esperança, que age como uma isca a nossa frente para nos levar adiante. Está na estruturação atual de nosso dna como um construto chamado sobrevivência. Nele, tudo o que você imaginar é possível, até a destituição completa de qualquer verniz de moral ou de civilidade, simplesmente porque essas práticas foram adotadas em função da necessidade do convívio, da reprodução, da proteção e da percepção de que, em grupo, o projeto de sobreviver seria facilitado.

Civilidade durou até o momento em que a lei do mais forte voltou a imperar. Demos um passo atrás no nosso desenvolvimento e abrimos espaço na natureza para uma prática inexistente: matar por divergência, por diversão e toda e qualquer forma de preconceito.

A dominação de territórios já fazia parte de uma grupalização — inclusive para a propagação de um dna do mais apto a sobreviver — que permitia o controle do assédio de predadores ousados.

Agora nos tornamos nossos maiores destruidores. Eliminamos inclusive da ordem da natureza a sobrevivência em troca do 'quero mais, muito mais pra mim', do acúmulo do desnecessário. Destituímos as coisas de seus valores intrínsecos e as carregamos de um desejo de superioridade: uma marca vale mais que o produto. E conseguimos fazer com que esta ilusão fosse compartilhada, tornando-se a dominante, ao ponto de que, se você não tem, mate para obter.

Futuro para que?

Wellington de Oliveira Teixeira, em 14 de julho de 2014.

* No terceiro dia, quando o sol tocou a forma novamente, ela abriu aqueles olhos e enxergou o mundo. "Eu sou Cénzi", disse a criatura, "e esse lugar é meu". E ele então se levantou e começou a andar…
Este é o início do Toustour, o Conto Supremo. Com o tempo, conforme a história da criação continua, Cénzi sente-se solitário e cria companheiros, os moitidis, feitos a partir do sopro de seu corpo, que ainda continha o grande poder de Vucta. Esses companheiros, por sua vez, imitam seu criador e dão origem a todas as criaturas vivas da terra: plantas e animais, incluindo os humanos. Os próprios sopros dos moitidis eram fracos, e portanto suas criações saíram igualmente imperfeitas. Mas o sopro de Cénzi e os sopros mais fracos dos moitidis permearam a atmosfera e tornaram-se o Ilmodo que os humanos conseguiram aprender a moldar através da reza, devoção a Cénzi e intenso estudo.
Mas o relacionamento entre Cénzi e sua prole sempre foi litigioso, marcado por conflitos e inveja. Cénzi fez várias leis para suas criações seguirem, mas, com o tempo, os moitidis começaram a mudar e ignorar essas leis, e vangloriaram-se em relação a Cénzi. Cénzi ficou furioso com os moitidis por conta dessas atitudes, mas eles não se arrependeram e começaram a se opôr abertamente ao criador. Foi um conflito longo e brutal, e poucas criaturas vivas sobreviveram ao embate, pois naquele passado havia muitas criaturas vivas capazes de falar e pensar.[…]

(S. L. Farrell, O Trono do Sol — A magia da Alvorada — primeiro livro da trilogia O Ciclo Nessântico, p.572-573)

8 de jul. de 2014

Cabo de guerra ou conflitos de uma vida a dois

Nuances, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 03-07-2014.
Nuances, criado em 03-07-2014.

Todas essas ondas e águas, carregadas de sofrimentos,
precipitavam-se em busca de suas metas, que eram muitas,
as cataratas, o lago, o estreito, o mar
e, uma a uma, as metas eram alcançadas, mas a cada qual seguia outra;
da água formava-se a bruma, que subia ao céu, transformava-se em chuva,
a cair das alturas, virava fonte, virava regato, virava rio
e novamente iniciava sua jornada, novamente fluía rumo à meta.

(Herman Hesse - Sidarta, p.113-114)


Deixe-me perguntá-lo: alguma vez você ficou variando a resposta para uma determinada questão, pelo fato delas serem condizentes com seu pensamento mas inviáveis simultaneamente? De uma maneira estranha, o que se relaciona aos relacionamentos amorosos acabam sempre permitindo essa ambiguidade. Contradição ou não, os fluxos do desejo se reagrupam dentro de nós e alteram nosso modo de agir em cada situação, mesmo nas semelhantes ou repetitivas. Estou falando daquelas separações parciais que ocasionalmente ocorrem quando há uma divergência, discordância ou briga.

Conforme o tempo passa, há uma tendência de abrirmos mão da questão original nos momentos quando estamos mais aditivados pela libido. Parece estranho, mas mudamos em função da proximidade ou de uma longa distância.

Um elemento modificador é o tempo de separação. Pode ser menos eficaz e até mesmo secundário nos casos onde outras opções ficam disponíveis e acessáveis. Marca isso aquelas pequenas fugas para uma balada noturna, após a discussão e o que chamo de pequenos rompimentos. Funcionam até que fica claro que substitutos não são capazes de alcançar o padrão original. Nessa hora, ocorre um retorno.

Mesmo que você não seja psicólogo, pode entender o mecanismo, não é? Pois bem, e quando sua posição não muda? Você padece com todos os efeitos e ainda assim — pelo fato de a questão ter significado importante — você prefere pagar o preço à aceitação.

É esse conflito interior é o que resolvi analisar (inclusive, fazer uma autoanálise faz muito bem!): forças da libido versus forças dos valores pessoais. Presto o devido esclarecimento de que a libido abarca o amor romântico-sexual enquanto que valores pessoais incluem aqueles sociais.

Para desenvolver a proposta de avaliar vou utilizar o conceito de uma atividade chamada cabo de guerra: uma corda com um nó central tem em ambas as pontas pessoas puxando-a em sua direção. É feito um traçado central e se alguém de algum lado for puxado até ela e ultrapassá-la, perde.

Como você deve ter suposto, o nome da brincadeira é bem alusivo aos acontecimentos: diariamente transformamos algumas das que seriam consideradas pequenas questões em motivo para uma disputa. O objetivo da reflexão não é alcançar uma solução-padrão para a questão, por isso, tenha sempre em mente que a resposta deve ser uma construção condizente com cada caso.

Como tesão e sentimentos amorosos falam por si, uma vez que a sua falta se presentifica em qualquer momento (dia ou noite), irei focar na importância dos valores para a manutenção de uma personalidade. Dependendo do nível de rigidez pessoal ou do esforço despendido na produção de um determinado valor, ele passa a ter um status de identidade, a tal ponto que, sem ele, o sujeito não consegue mais referir-se a si mesmo: não se sente mais o mesmo, e essa despersonalização provoca sofrimento, depressão, em casos extremos suicídio. Por isso, essas duas forças antagônicas e de grande potência produzem uma disputa que pode se estender por uma vida inteira.

Sem nenhum comprometimento com aquela antiga proposta estratificada de relacionamento, quero indicar a transição para as novas questões. Se por um lado havia papéis e liderança definidos e seguidos à risca nos antigos relacionamentos, a nova faceta exige equilíbrio na relação e cada participante precisa equilibrar-se e colaborar no equilíbrio do encontro: dois remadores em um barco pequeno na correnteza.

Em versão bem humorada, a personagem do Jô Soares, o Irmão Carmelo, não queria mais efetuar cerimônias de casamento por conta do 'casa-separa, casa-separa' da vida moderna. Numa tradução possível: Como pessoas que não conseguem ser independentes e capazes de lidar com suas realidades poderão constituir relacionamentos equilibrados? Na realidade, não o fazem. Criam uma espécie de gangorra para lidar com a questão, hora um está por baixo e por isso busca forças para se erguer, mas o faz rebaixando o outro. Por alguns poucos momentos as forças se equilibram, mas isso nunca se mantém.

Bom, creio que você entendeu os pormenores — causas e consequências — e está pronto para avaliar suas próprias disputas. Como já estou acostumado a ouvir 'você não me respondeu a questão!', vou lhe dizer assim: se o que você tem com alguém é de grande valor, aponte a questão para essa pessoa e descubra o quanto de valor você tem na resposta recebida — mesmo que seja uma questão semelhante. Assim, a busca pelo ponto de equilíbrio será uma tarefa conjunta onde limitações poderão ser contornadas.

O não ter dado a devida atenção a um valor resolve-se com um 'me desculpe', mas o silêncio, a omissão numa tentativa de abandonar a questão impede o prosseguir da relação. Aqui difere da gangorra. Não há quem se rebaixe, há pessoas conscientes de seus fortes e fracos que desejam se relacionar de uma forma plena, onde ambos tenham a oportunidade de ficar satisfeitos. Em todas as maneiras.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 08 de julho de 2014.

* Cabo de guerra é uma atividade esportiva que faz parte dos Jogos Mundiais. http://pt.wikipedia.org/wiki/Cabo_de_guerra

24 de jun. de 2014

Fluxos circundantes

Irradiar, criado por Irradiar, criado em 22-06-2014. em 22 de junho de 2014.
Irradiar, criado em 22-06-2014.

Num passado remoto, o homem deve ter ouvido com assombro o som de batidas regulares
que vinham do fundo de seu peito, sem conseguir saber o que seria aquilo.
Não podia identificar-se com um corpo, essa coisa tão estranha e desconhecida.
O corpo era uma gaiola e dentro dela, dissimulada, estava uma coisa qualquer
que olhava, escutava, tinha medo, pensava e espantava-se;
essa coisa qualquer, essa sobra que subsistia, deduzido o corpo,
era a alma.

(Milan Kundera — A insustentável leveza do ser)

Você sempre volta com as mesmas notícias.
Eu queria ter uma bomba, um flit paralisante qualquer,
pra poder me livrar do prático efeito das tuas frases feitas, das tuas noites perfeitas. […]
pra poder te negar — bem no último instante — meu mundo que você não vê, meu sonho que você não crê.

(Cazuza — Eu queria ter uma bomba)


Construir, comprar ou alugar algo para poder aproveitar as águas, as terras ou o ar é uma boa ideia para expandir seu universo e se permitir aprender um pouco mais. Há muitas formas de locomoção e o mundo é imenso. Mas eu passei a gostar de viajar incógnito e o universo das agências de turismo não é opção para mim. Realidades são estritas, não por eu não saber ou querer aproveitá-las. Quando desejo e posso, eu o faço! É que as viagens ganharam como determinantes as interações estabelecidas com a vida.

A palavra encontrar apequenou-se quando entendi que solidões não se atraem. Elas não se gostam — até se evitam! Até que aprendam a vivenciar a solitude, o estar só sem se sentir solitário, os seres tentarão multiplicar suas emoções apenas absorvendo o que lhes é oferecido. Triste situação daqueles que só aprenderam na escola insidiosa do sugar.

Percebi que meu voo sozinho é solidário apenas quando partilha aquilo que é o espaço constitutivo e possibilitador das trocas. Mas, atenção!, trocas não representam uma relação de pesos e medidas de iguais proporções. Todo encontro pleno propicia mais do que algo ou alguém e eu temos para oferecer, é a ordem do equilíbrio que se estabelece.

Para tentar explicitar isso que acontece de forma inexplicável vou citar o cuidar de uma criança. Pais ou responsáveis podem confirmar. Basta lembrar aquele sorrisinho encantador, que instantaneamente aflora uma força que atinge mais do que uma onda do Havaí e engloba tudo. E enriquece a alma.

Houve muitas vezes quando restou como lembrança apenas um encontro que travei durante a viagem realizada. Encontros se fazem com pessoas. Ou com luzes, águas, cores, superfícies, sabores, texturas, sons. Ou movimentos, porque eu adoro trilhar, escalar, nadar — ainda não aprendi a voar, senão adoraria citar.

Nos momentos em que a companhia foi realmente compartilhada, os voos individuais e os modos próprios de absorver a experiência foram determinantes. Cada um com seu cada um criou as condições onde os fluxos circundantes atravessaram simultaneamente ambos. E a satisfação foi plena por isso: em cada um o necessário se estabeleceu como recompensa.

Não tenho pretensões a puritano, então, diria que assemelha-se a uma espécie de clímax simultâneo no sexo.

De algum tempo para cá, as experiências extra muros de casa (minha ou de um familiar) têm sido tão escassas que ficaram meio perdidas da lembrança. E, em função de uma urgência desmedida da alma, adotei os voos virtuais para dar conta do que se apresenta à razão ou à emoção. E os meios, assim como os instrumentos, foram as imagens e os textos. Para os alados deixei a minha confissão das angústias.

Ainda gosto de encarar meus próprios desafios. Mas esse último período tem reservado outro movimento e precisei aglutinar questões daqueles que incluí como do meu mundo. Então, nada a reclamar. Vou lá e limpo, lustro e reafino este instrumento débil, e parto para desobstruir as cacofonias e construir sinfonias com os movimentos propostos pela vida.

Só assim consigo ser. E por ser um momento em que me permito o entendimento de que este é um encontro que vale a pena, me promovo plenitude e ela me aperfeiçoa.

Wellington de Oliveira Teixeira, entre 23 e 24 de junho de 2014.

* Agora é apenas nota de rodapé: …no meu mundo um troço qualquer morreu, num corte lento e profundo entre você e eu. E ficou tudo fora de lugar… (Cazuza — O nosso amor a gente inventa (estória de amor))

23 de jun. de 2014

Desapropriando a própria imagem

Máscaras, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 22-06-2014
Máscaras*, criado em 22-06-2014.

A coragem de viver:
deixo oculto o que precisa ser oculto e precisa irradiar-se em segredo.
Calo-me.
Porque não sei qual é o meu segredo.
Conta-me o teu, ensina-me sobre o secreto de cada um de nós.
Não é segredo difamante. É apenas esse isto: segredo.
E não tem fórmulas.

(Clacire Lispector — Água Viva, p.59)


Todos já falaram de máscara — concordo. — das artes teatrais nas quais somos os figurantes e ela a protagonista. Afinal, a própria identidade nos é desconhecida.

Esse antagonismo — que se precipita e deságua das alturas de desejar um si mesmo — é não perceber ou aceitar a própria multiplicidade estrutural ou a pluralidade na singularidade. As muitas possibilidades existentes em cada um ou essa inevitável esquizofrenia.

As aceitáveis justificativas sociais, a farsa do cidadão modelo. A aparência é o palco pouco antes do fechar as cortinas e os bastidores assumirem, como sempre.

Aprovação social atrelada aos círculos familiares, profissionais ou de amizades é o motriz de todo tipo de aparato maquiador da vivência. O refinamento extremo do fingimento, em outras palavras, a cortesia da hipocrisia nas relações. As pequenas ou grandes omissões da própria motivação sempre covardemente oculta pela tão bem vinda interface descaracterizadora. Personas que se instauram como personalidade ou disfarces adotados pela impossibilidade de encarar o medo estonteante do suicídio social.

Máscaras não aderem ao rosto, à alma. São inflexíveis as contraposições ao fluxo do ser e estar pleno que impedem o afirmar-se: é fundamental impedir a transitoriedade e a flexibilidade no modo com que nos identificamos, a verdadeira oferta de cada encontro. Por favor, entenda: um nadador apenas o é quando na substância líquida. Depois que inventam o desportista, sua prática se torna a sua máscara e o domina e o engaja a uma forma modeladora de vida.

Toda escolha ou determinação de papel é apenas máscara aderente: até mesmo a maternidade. O fluxo existe, a conexão é plena. Isso é o que basta na relação. Tudo o mais são costumes, formas temporárias de agir — que, comprovadamente, em cada época ganha formatos diferenciados.

Mas as máscaras permitem interpretações variadas. As artes nos ensinaram que, como elas, são uma fala cifrada que pode ser exposta e ocupa o lugar do não dito: máscara não é maldita; é o mal dito, aquilo que fica encoberto. Toda obra-prima é o que foi oculto em grau máximo, do sofrimento e dor à paixão e alegria — tudo o que permitiu o surgimento de um artista.

Como tudo, a máscara também tem faces. Seu lúdico uso recreativo, como a brincadeira de heróis, é prova de lucidez. Aquele disfarce necessário para ser o mocinho de verdade e vencer o mal na calada da noite. O aprendizado do como, quando e onde permitir-se.

O mesmo não pode se dizer do disfarce do terno no calor tropical, o enchimento das lingeries, apliques e tudo o que é fashion (ou retrô). O não você diário, a sobredeterminação de um modo de ser que desapropria a própria imagem. Aquilo que com sua repetição produz o assujeitado, o reacionário, assim como todos os que não ousam tomar a vida nas próprias mãos: apenas uma máquina que o sistema mantém pois é produtiva e reprodutiva da escravidão.

Wellington de Oliveira Teixeira, entre 22 e 23 de junho de 2014.

* Jung avalia na Psicologia Analítica que carregamos psicogeneticamente um inconsciente que é coletivo, herdado dos ancestrais mais primitivos, perpetuado em cada nova geração. Persona, animus ou anima, sombra e Eu são os estágios do desenvolvimento, seus arquétipos universais.
  • Persona ou máscara são os vários papéis sociais, as relações intrapessoais ou interpessoais. Liga-se à habilidade de convívio e atuações sem se estratificar ou adotar definitivamente uma.
  • Anima constitui o lado feminino da psique masculina, o Animus o lado masculino da psique feminina, e seu desenvolvimento continuado permite relacionamentos mais plenos.
  • Sombra refere-se a parte evolutiva e mais profunda. Mais poderoso — e potencialmente mais perigoso — dos arquétipos: os ferozes e vorazes ímpetos animais do ser humano que precisam ser domesticados no indivíduo.
  • Eu como principal arquétipo organiza a personalidade humana, unificando e harmonizando os demais, atuando nos complexos e na consciência.
O objetivo de qualquer personalidade é o estado de autorrealização e de conhecimento do seu próprio Eu.

7 de jun. de 2014

As lentes e a visao

Lentes, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 07-06-2014
Lentes, criado em 07-06-2014.

E chegou a Betsaida; e trouxeram-lhe um cego, e rogaram-lhe que o tocasse.
E, tomando o cego pela mão, levou-o para fora da aldeia;
e, cuspindo-lhe nos olhos, e impondo-lhe as mãos, perguntou-lhe se via alguma coisa.
E, levantando ele os olhos, disse: Vejo os homens; pois os vejo como árvores que andam.
Depois disto, tornou a pôr-lhe as mãos sobre os olhos, e o fez olhar para cima:
e ele ficou restaurado, e viu a todos claramente.

(Bíblia — Marcos 8:22-25)


Veja bem: os olhos enxergam de acordo com o conjunto de lentes de que ele dispõe. Concordam com a afirmação 100% dos usuários de óculos ou lentes de contato e daqueles que trabalham com microscópios ou telescópios. Mas introduzirei uma outra categoria, a de quem exercita o pensamento crítico.

Diariamente somos expostos a um conjunto imenso de imagens. Imagens brutas ou inocentes, até que passam pelo filtro das edições — e são várias. Me guiarei na lógica por um princípio antigo e um texto atribuído a Jesus, que absorvi: há os quem tem olhos e veem — fica subtendido que há os que não conseguem ver bem mesmo tendo olhos.

Aprimorar o mecanismo que nos permite perceber mais do que o sensível — aquilo que parece ser evidente — é percebermos o fundo do palco, o tipo de iluminação, as cores escolhidas, a trilha sonora, e tudo o mais que produz a transformação de seu sentimento: a manipulação do dado para criar um determinado tipo de informação, um determinado modo de reagir — o que chamamos de aceitação.

Todo mundo sente, mas nem sempre percebe, que é o efeito da sonorização do filme de terror que faz a cena tão impactante; idem para o beijo no final do filme romântico. Talvez nem perceba que o mesmo acontece nos jornais televisivos: a cena original foi cortada, editada, destacada nos trechos que interessam aos seus editores — acredite!, eles também tem preferências políticas e acordos comerciais.

Não são apenas os vilões que se utilizam do recurso: você se veste, se perfuma, usa uma determinada combinação de roupas e acessórios quando pretende encontrar com alguém ou mesmo influenciar pessoas (profissionalmente ou não).

Somente com o uso da crítica — há sempre o positivo e o negativo em cada proposição — que suas opiniões poderão ultrapassar a repetição dos argumentos preparados e emitidos pelos âncoras ou formadores de opinião. Fique muito atento, também, às peças de divulgação produzidas pelos marqueteiros escolhidos por cada partido ou alianças locais. Todos se utilizam dos mesmos recursos, todos querem o mesmo: cativar você.

Você sabe o que significa estar cativo? É estar seduzido, aprisionado, escravizado. É perder a liberdade. É sujeitar-se.
Me permita uma pequena pausa no fluxo do texto para dizer: É por isso a raiva que sinto de que esta tenha sido a palavra escolhida na tradução do Pequeno Príncipe, num dos textos mais famosos do mundo, inclusive a ação proposta a seguir, a de enlaçar (ser preso ou capturado por laços). A expressão não deixou de ser verdadeira: você escravizou, agora se responsabilize! [Isso vai dar panos para mangas… certamente!]. Estabelecer conexões e ser cuidadoso nas relações é bem diferente do que a tradução-traição do original sugeriu.
Agora o outro lado: é preciso descontar muito ao avaliar o contexto e o período em que foi escrito. Eram outras épocas, outros modos de entender relacionamentos como amizade, namoro ou casamento. Viu? Até aqui, utilizar-se de crítica ajuda a entender as lógicas subjacentes ao que se vê.

A proposta que percorre esse texto é simples: há muitos e diferentes tipos de interesses ao seu redor — a seu critério, bons ou ruins — e você precisa estar atento para não se deixar levar inocentemente. Astúcia e prudência são o remédio para a questão (retornei ao meu aprendizado original). Citarei uma narrativa onde tentaram encurralar Jesus*: os impostos. Atento, percebeu a armadilha que haviam preparado, respondeu a questão separando-a em suas partes constituintes: distingua o que é de fé e o que é mundano ou secular (A Deus o que é de Deus e a César o que é de César!).

Muitas das consequências do fundamentalismo vem exatamente por não ser capaz de distinguir essa questão. Optaram pela letra morta e não o seu sentido. Decidiram ignorar todo o contexto que envolvia o momento da narrativa.

Ou receberam lentes ruins ou as utilizam para enganar. Fariseus dos tempos modernos?

Wellington de Oliveira Teixeira, em 07 de junho de 2014.

* Então, retirando-se os fariseus, consultaram entre si como o surpreenderiam nalguma palavra;
E enviaram-lhe os seus discípulos, com os herodianos, dizendo:
Mestre, bem sabemos que és verdadeiro, e ensinas o caminho de Deus segundo a verdade,
e de ninguém se te dá, porque não olhas a aparência dos homens.
Dize-nos, pois, que te parece? É lícito pagar o tributo a César, ou não?
Jesus, porém, conhecendo a sua malícia, disse: Por que me experimentais, hipócritas?
Mostrai-me a moeda do tributo. E eles lhe apresentaram um dinheiro.
E ele diz-lhes: De quem é esta efígie e esta inscrição?
Dizem-lhe eles: De César. Então ele lhes disse: Dai pois a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus.
E eles, ouvindo isto, maravilharam-se, e, deixando-o, se retiraram.

(Bíblia — Mateus 22:15-22)

11 de mai. de 2014

O cérebro e o arbítrio

Arbítrio, criado por Wellington de Oliveira Teixeira, em 09-05-2014
Arbítrio, criado em 09-05-2014.

Precisamos ensinar à próxima geração de crianças,
a partir do primeiro dia, que eles são responsáveis por suas vidas.
A maior dádiva da espécie humana, e também sua maior desgraça,
é que nós temos livre arbítrio.
Podemos fazer nossas escolhas baseadas no amor ou no medo.

(Elizabeth Kubler-Ross)


Um cérebro é um mecanismo tão incrível que não nos damos conta de sua fragilidade. Isto é, até que ocorra uma mínima falha em seu funcionamento.

Tudo o que conhecemos, aprendemos, observamos e vivenciamos se constroem ou se estruturam nele e sem ele não há qualquer pequeno prazer que nos permita o acesso à felicidade.

Nascemos e passamos a usar o olfato, o tato, a audição, o paladar e a visão para nos referenciarmos no mundo. E, ao adicionar registros para o maior banco de dados que se conhece, ele se constitui como o centro de nossas vivências. Sua rede neuronal vai se ativando e se interligando — uma multiplicação espetacular das experiências — até que passamos ter uma visão mental multidimensional da vida.

Quanto mais nos permitimos ampliar o campo sensóriomotor, mais ele consegue fracionar e relacionar os estímulos e a construir o que chamamos de totalidade de uma percepção.

Ao tentar descrever todas as suas capacidades, percebe-se que é preciso uma linguagem que não descreva impulsos elétricos apenas, mas uma poética interposição do conglomerado de estímulos que somos capazes de receber e de absorver: a beleza dos detalhes de uma experiência de vida.

Essa rede tão intricada é o que nos possibilita alcançar o cerne do mundo. E, ao concatenar as dimensões do possível e do imaginável, estabelecemos aquilo que podemos denominar de os olhos da alma. É aqui que testemunhamos o surgimento de um ser humano e suas distinções em relação a todos os outros.

E a linda mítica poética religiosa, que o denomina como o ser especial, estabelece o maior dos dons divinos para a criação: o arbítrio.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 11 de maio de 2014.

* Idealmente, o arbítrio deve ser entendido como o poder ou faculdade de decidir, de escolher, de determinar e de estabelecer juízo com base exclusiva na vontade.

7 de mai. de 2014

A ampulheta do fim

ampulheta do fim, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 07-05-2014
Ampulheta do fim, criado em 07-05-2014.

Recentemente, gastamos milhões de dólares mandando médicos para a África
com a missão de distribuir preservativos gratuitos e instruir as pessoas sobre métodos anticoncepcionais.
E um exército maior ainda de missionários católicos foi para lá em seguida dizer aos africanos que,
se eles usassem os tais preservativos, iriam todos para o inferno.
A África tem agora um novo problema ambiental: lixões transbordando de preservativos não utilizados.

(Dan Brown - Inferno, p.102)

Cerca de 42 milhões de pessoas são portadoras do vírus HIV no mundo todo.
Mais de dois terços delas vive na África, ao sul do Saara.
Nos países mais atingidos, um em cada três adultos tem o vírus.

(BBC Brasil)*


A ampulheta do mundo continua a liberar seus grãos e nós a trilhar a estrada da destruição em massa. Mas, não somos semelhantes aos que nos antecederam. Ao contrário daqueles poucos que viveram antes de nós, nossa contribuição é enormemente maior: somos bilhões que se reproduzem em escala geométrica.

É evidente que um dia, a terra irá sacudir, eliminar esses seres tão incômodos — isso se não a destruirmos junto. Em qualquer dos livros considerados sagrados ou tradições espirituais isso é o ponto final, ou para a civilização cristã-ocidental, o apocalipse.

Hoje, é a ciência que produzimos ao custo de tantas mortes de seres pensantes quem nos alerta, sinalizando já há algum tempo, a tolice que é esse procedimento.

Mas, definitivamente, somos seres individualistas, egoístas. Argumenta-se que por conta de uma evolução em que mais fortes, os que se alimentam melhor, os que matam mais sobrevivem. Não sei. Para mim, há um mal produzido historicamente: a necessidade de se obter mais e mais, a despeito de outros — tantos outros — que ficarão sem nada. Resumindo, consumismo. O fruto não apenas de um sistema econômico (capitalismos, socialismos, comunismos), uma vez que o erro é sistemático: ganância.

Algumas pessoas até esqueceram, após a queda do muro de Berlim, que o arsenal que a terra possui tem a capacidade de destruí-la várias vezes. O desejo de controlar outros povos, de dominar populações não usa mais arco e flexa, ou rifles automáticos. É a famosa escalada do mal: se alguém tem um canhão eu construo uma bomba, crio vírus geneticamente manipulado, utilizo a nanotecnologia da morte. Insanidade.

Mas, como acontece com indivíduos, tomara que o destino da Terra possa ser trocado. Mesmo não havendo mais como corrigir, pelo menos minimizar o estrago.

Não há como isso acontecer por decisão de alguns, assim como não se produz comportamentos apenas baixando leis (elas são subornáveis em benefício de poderosos e abastados). Tem que ser um processo de coletivização da questão. Tem que ser uma decisão interna de contribuir para a melhoria, uma metanoia — a mudança na mente que altera o rumo e as práticas de vida — propagada.

Os movimentos coletivizadores como o Greenpeace, dentre outros, tentam nos sensibilizar. Mas parece que fazemo-nos de surdos, queremos aquele famoso cada um no seu quadrado (uma das maiores imbecilidades já inventadas!) que ignora o fato de que ventos, mares, forças da natureza não são privativas de ninguém. Elas se manifestarão em qualquer lugar, mesmo que geradas há milhas e milhas distantes: alterações climáticas com desertificação ou inundações, destruição da calota polar e falta d'água, poluição e envenenamento das terras cultiváveis, propagação global de novas doenças de um modo incontrolável.

Dan Brown em seu livro Inferno traz um tema à tona: a superpopulação. Propagação do pessimismo? Não. Um tentar até o fim facilitar a conscientização.

Será que conseguiremos em tempo?

Wellington de Oliveira Teixeira, em 07 de maio de 2014.

* O problema não é exclusividade africana. Com 14 mil novos casos globais por dia, cresce o risco de a doença também ganhar força na Ásia.
http://www.bbc.co.uk/portuguese/especial/1341_aids_no_mundo/

6 de mai. de 2014

É preciso aprender a sofrer

Aprendendo a sofrer, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 06-05-2014.
Aprendendo a sofrer, criado em 06-05-2014.

O sofrimento proporciona-nos a melhor protecção para a sobrevivência,
uma vez que aumenta a probabilidade de darmos atenção aos sinais de dor
e agirmos no sentido de evitar a sua origem ou corrigir as suas consequências.

António Damásio — neurocientista.


Dor física ou moral, padecimento, amargura, desgraça, desastre, agrura, desconsolação, desgosto, mágoa e pesar. Não importa seus sinônimos, o sofrimento é algo que atinge a todos. É preciso aprender a sofrer.

Engraçado dizer isso. Sempre que eu uso essa expressão, logo me contradigo dizendo 'Engraçado não, interessante!'. Tem certas coisas que, por mais que a gente queira, repete e não abre mão porque fazem parte de nossa alma. Inclusive o modo de sofrer. Cada um tem o seu, e não é preciso muito esforço para encontrar suficientes elementos da psicologia para afirmar tal fato.

Tendemos a repetir algo que funcionou, de alguma maneira, em uma determinada oportunidade. Pela crença de que irá funcionar sempre ou como uma estratégia de começar tentando por aquilo que já foi eficaz — tipo um determinado remédio que seu corpo se adapta melhor.

Podemos comparar com a fé de que após a noite o dia chegará. Bem, até é muito provável que a terra complete seu ciclo, assim como o fato de estar vivo para apreciar tal acontecimento. Mas isso não é uma certeza absoluta.

Algumas tendências de pensamento afirmam que diante da ausência de algum elemento básico à sobrevivência criamos um reflexo conceitual e passamos a vivenciá-lo: é o entendimento ou surgimento da perda ou da falta. Há correntes na psicologia que definem esse processo como fundamental para a formação de um ser humano.

Dependendo do estado de espírito circunstancial, o efeito pode ser algo simples e superável rapidamente ou — me confirmem os que lidam com tendências depressivas — pode causar um estrago emocional desproporcional.

O que surpreende é a maneira como lidamos com aquilo que nos causa dor: calados, resmungando, chorando, gritando, e por aí vai o leque de opções que caracterizam cada um.

Apesar de, na maioria das vezes, não termos a chance de evitá-la, podemos encarar a dor por meio de um filtro racional: ela é parte da vida, é um elemento necessário ou formador de nós mesmos. E para nos ajudar, citar um exemplo simples como as injeções em momentos de doença.

Não tão simples, são as dores ligadas aos problemas de relacionamento — especialmente os de longa duração. Farta literatura romântica ilustra casos de que alguém tornou-se uma parte de si e seu afastamento é imediatamente sentido como sofrimento. Casos de separação, divórcio ou morte são exemplares. Esse último, que produz separação definitiva, exige uma nova forma de lidar, uma vez que cada ser humano e suas relações conosco são muito diferenciadas.

Quaisquer filtros que apliquemos ficam aquém do que o luto produz. Por isso, há apenas uma forma de reagir: aprender a sofrer.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 06 de maio de 2014.

* Filtros são entendidos aqui como elementos que protegem ao mudar a configuração do que se percebe, assim como óculos escuros em ambiente ensolarado.

2 de mai. de 2014

A mensagem do pombo correio

Pombo correio, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 02-05-2014
Pombo correio, criado em 02-05-2014.

Solte-me para que eu possa voar por terras longínquas
onde há campos, árvores e montanhas verdejantes; flores, fontes e florestas:
um lar além do horizonte.
Pombo correio a voar além dos sonhos há muito esquecidos.

(tradução livre do trecho de Skyline Pigeon - Elton John*)


Uma vez citei a forma como as pessoas assimilam músicas que tocam a sua alma transferindo-as para as suas relações pessoais, referindo-me a um costume entre pares de namorados. Não me ocorreu, na época, um outro uso. Um que me foi revelado apenas hoje, por conta de um depoimento feito por um sobrinho para seu tio que havia falecido.

Meu filhote Claudinho narrou o momento quando Paulo Roberto o ensinou a primeira música em inglês que havia aprendido, com isso, reproduzindo nele a mesma experiência - já que foi, também, a sua primeira.

A música é um fio condutor do espírito, produz um nível de sensibilidade cujo espectro ultrapassa palavras. Porém, o que me sensibilizou tanto não é o fato de que a experiência tenha se reproduzido ou que seja a primeira. É a disponibilidade em uma relação familiar para partilhar vivências e abrir portas novas, ocorrendo entre um tio e um sobrinho.

O convívio com os meu sobrinhos é uma das coisas na vida que mais me dão prazer. Para nós, brincar, discutir, analisar faz parte de todos os nossos movimentos juntos. Sempre um movimento aberto para a franqueza e compartilhamento dos fluxos de alma.

No caso do Claudio, a recordação acontece após cerca de 40 anos daquele movimento conjunto e, na narrativa do meu amigo, tornou-se aquela que retornou, no momento da morte do tio.

A letra da música, certamente, tinha correlação com o momento. No entanto, não creio que apenas isso bastaria - há tantas outras que falam do mesmo tema -, uma marca assim se aprofunda e só ganha sentido com a maturidade, com o entendimento de que os momentos são fugidios, evaporam facilmente. E aqueles momentos que não trazem algo para o nosso caminho se perdem pela estrada.

Desejei retratar a mensagem da música com um quadro com traços claros e fundo bem definido: um pombo voando pela linha do horizonte. E foi o que eu fiz. Isto é, até que reli o depoimento de despedida. Na dureza de um sentimento de perda, a dor muitas vezes se escamoteia em palavras exatas, traduções rígidas e, com isso, perdemos a aura poética, espiritual e emocional que sempre ronda a questão vida e (vida-pós) morte.

Voltei ao projeto e o refiz utilizando de aquarelas e movimentos sinuosos - como são os nossos caminhos de vida, como são os nossos pensamentos em momentos como esse, como entendi ser o intento dele ao utilizar de um instrumento de expressão de si para os familiares (muito além do de para si mesmo). Escolhi, para manter o mesmo grau de inferência, refazer a tradução feita por ele da música. E os correlacionei. Desejei reafirmar o seu entendimento de que hoje é o dia em que ele [o tio] pode estender suas asas e voar novamente.

E o que era para ser apenas uma postagem na rede social, generalizou-se, tornou-se um motivo de questionamento e, por isso, um texto do Ser Pensante. Explico. É aqui que eu penso o mundo que meu mundo produz, sob a única e exclusiva ótica que eu tenho: eu mesmo.

Mas saliento (e digo isso com toda a clareza, pois meu filhote sabe) porque ele sempre é parte do meu mundo: simplesmente doeu em mim, também.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 01-02 de maio de 2014.

* Os trechos da música utilizados aqui são:
Turn me loose from your hands Let me fly to distant lands
Over green fields, trees and mountains, Flowers and forest fountains
Home along the lanes of the skyway

For just a Skyline Pigeon Dreaming of the open
Waiting for the day He can spread his wings And fly away again

Fly away, skyline pigeon, fly
Towards the dreams You've left so very far behind.


a música encontra-se disponível em: http://letras.mus.br/elton-john/64492/

23 de abr. de 2014

Ladrilhos e fragmentos


Ladrilhos, criado em 22-04-2014.

Parte da genialidade de Einstein consistiu em perceber que embora as colisões ocorram com muita frequência,
como as moléculas são muito leves, colisões isoladas não têm efeito visível.
As mudanças de direções observáveis só ocorrem quando, por pura sorte,
as colisões numa direção particular forem preponderantes[…].
Quando einstein fez as contas, descobriu que, apesar do caos no nível microscópio,
havia uma relação previsível entre os fatores[…].

(Leonard Mlodinow - O andar do Bêbado: como o acaso determina nossas vidas, p. 178)


É possível não se gostar da ideia, mas somos um apanhado de ladrilhos sobrepostos em uma superfície que não é plana, nem um pouquinho, e, por mais que a gente queira, não se complementam bem. Tem tortuosidades, reboco aparente, partes descascadas, infiltrações e tudo o mais que garante a não homogeneidade, apesar de a apresentarmos como tendo.

Como o núcleo da terra, estamos em ebulição constante que liquidifica todo o material absorvido e o transforma, com um gasto considerável de energia.

De vez em quando, a mistura não se dá facilmente e ocorrem reações turbulentas que, de tão violentas, extravasam à superfície. Exatamente como os vulcões. Conforme o tempo passa, a massa se esfria e solidifica, criando uma nova carcaça. Assim se transforma a face visível.

Essa é a versão natural dos acontecimentos. Excepcionalmente, porém, esse processo também acontece provocado por tempestades emocionais que remexem com nosso conteúdo interior como num caldeirão de bruxa. Por ser um processo súbito, os raios de grande intensidade e velocidade penetram a superfície e, como os que provocam as trovoadas ensurdecedoras, atraem a nossa atenção.

Dependendo da capacidade de administrar suas consequências — um processo que pode ser demorado, doloroso, mas sempre revelador — a descaraterização da superfície ocorre e alguns não se reconhecem mais. É o surgimento de um novo eu, fundido como ferro ao fogo.

O que revelará, só se mostrará após o tempo de resfriamento. Para quem é cuidadoso consigo mesmo, talvez (quem sabe?), se houver dedicação cuidadosa ao processo de aparamento das arestas e polimento de sua superfície, a modelagem possa ser realizada de acordo com o perfil que sua vontade determine.

Em todos os casos, não há retorno quando acontece. A transformação ocorre e os ladrilhos se modificam, ou se perdem.

Somos um mundo rico em transformações de microescala. Fragmentos copiando a ordem natural da natureza cósmica. Afinal, nossas partículas não são tão diferenciadas de nós perante o todo.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 22 de abril de 2014.

Vulcanismo é um fenômeno geológico que ocorre do interior da Terra para a superfície, quando há o extravasamento do magma em forma de lava, além de gases e fumaça e é resultado das características de pressão e temperatura contidas no subsolo.
(Brasil Escola)

Por se tratar de um processo que ocorre em uma escala temporal mais lenta, durante o processo de fragmentação natural as espécies tendem a se adaptar às transformações da paisagem; em contrapartida com o forte aumento do intensivo processo de fragmentação gerado pelas atividades humanas, a perda estrutural e qualitativa de habitat tem aumentado o número de espécies ameaçadas.
(R. B. Primack - Essentials of conservation biology)

17 de abr. de 2014

O plausivel

Plausível, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 17-04-2014
Plausível, criado em 17-04-2014.

Quero lhe contar como eu vivi e tudo o que aconteceu comigo.
Viver é melhor que sonhar e eu sei que o amor é uma coisa boa, mas também sei que qualquer canto é menor do que a vida
de qualquer pessoa.
Por isso cuidado meu bem: há perigo na esquina! Eles venceram e o sinal está fechado pra nós que somos jovens.
Para abraçar meu irmão e beijar minha menina na rua é que se fez o meu lábio, o seu braço e a minha voz…

(Como nossos pais - Belchior)

Senso comum é o conhecimento irrefletido, tradição.
O senso crítico é baseado na crítica, na reflexão, na pesquisa e no pensamento:
o raciocínio busca comprovação antes de emitir uma avaliação ou realizar uma conclusão.




Uma vez, uma professora universitária me disse que sem uma taça de vinho, nada do que escrevia parecia verdadeiro, recendia a uma casca de verniz social. Bem, na opinião de quase todos os trabalhadores que anseiam por um happy hour ou pela cerveja da SEXta-feira, tudo certo.

Não ousem me dizer — quem não teve a oportunidade de experimentar o relaxamento que uma taça de vinho ou umas duas cervejas proporcionam — que isso seja falso. Como, também, não é falso dizer que não se deve tomar decisões no meio do fogo cruzado das emoções.

Tristes são as histórias de jogadores compulsivos que dizem ser o seu dia de sorte; daqueles que dizem que irão apenas beber mais uma dose; ou daqueles que… recuso-me a continuar. O que importa para minha questão é que a emoção apenas não determina o que fazemos, tudo é uma história de vida. São os pequenos acontecimentos que se acumulam e transformam-se num gigante a ser vencido.

Davi e Golias? Café pequeno.

Alegoria ou fato histórico, jamais irá detalhar a realidade diária de cada um de nós, o enfrentamento de dificuldades, o silêncio engolido com a garganta seca, o surrealismo dos padrões sociais: Negamos! Afirmamos! E, se nos dermos conta, nada daquilo se referencia àquilo que nos torna seres humanos. Nem mesmo a dor. Nem mesmo o prazer.

Sentir-se no meio do furacão? Brinca comigo, não. Com tantas pessoas despejadas, famintas, destituídas da humanidade, é mais do que ridículo recorrer às nossas novelinhas pessoais. Coitados dos mexicanos quando recebem os créditos! Juro (e não se deve jurar!) que a vida produzida socialmente, falsamente, manipulada pelos controles e descontroles de cada um de nós é algo inócuo. Inofensivo. Apenas uma proposição necessária adotada quando não há outra opção: máscaras sociais da madame e do patrão; do operário e do ladrão.

E todos somos responsáveis, tentando desesperadamente ignorar a culpa ou a responsabilidade de não interferirmos nesse modelo social anacrônico, de não sermos agentes de transformação social.

Como os nossos pais (agradeço as palavras de Belchior e a voz da Elis Regina) repetimos, reproduzimos. Somos máquinas copiadoras. Transformadoras? Não se faça rir.

Mas, quando eu vejo meus netos ou meus sobrinhos-netos me questiono: O que realmente eu estou deixando para eles? Que parte de mim eles irão — por opção — avaliar, reproduzir, acreditar?

Um dia eu disse para o meu filho: 'mesmo que eu seja completamente contra o que você faça, jamais irei deixar de amá-lo'. Registrem isso, porque verdades são raras no mundo. Hoje, eu digo com clareza: 'isso jamais me fará abrir mão de mim mesmo, é parte de mim.'. Maturidade? Talvez. Certamente, um aprendizado sobre as relações humanas.

Teve alguém que ousou dizer que teria que ser do mesmo modo que para mim mesmo, a manifestação do meu amor. E eu aposto nele e naquelas palavras. Todo o resto é produção cultural, social. Precisa ser reavaliado (com extremo cuidado, eu sou primeiro a dizer!).

Numa época em que participei de um grupo que queria acessar modos mais plenos do que entendíamos ser adoração (eu era membro de uma estrutura religiosa), a primeira coisa que ficou clara era que era preciso modificar algumas das práticas cristalizadas e solidificadas em bases de tradição ou costumes de época. Antes disso, porém, um 'bando' de adolescentes — era assim que eram qualificados — entendeu que a transformação só aconteceria se eles se envolvessem, investissem naquilo que acreditavam, que se dispusessem a participar do modo que achavam que podiam. Tenho o orgulho imenso de dizer: eles o fizeram!

Mas agora eles cresceram e dizem que a realidade é outra. Será?

Sabe o que impede de agirmos hoje do mesmo modo? Acomodação. A mesma que faz um país inteiro se submeter. A mesma que corrói os ânimos, as reivindicações. A mesma que nos torna reprodutores, nunca produtores. Seres domesticados. Ânimos sem fôlego. E perceba bem, Animo e Fôlego são palavras especiais, sem elas não há existência humana.

Talvez, por isso — e me perdoem o pessimismo — a maquinização dos nossos desejos, a homogeneização de nossas características e o desrespeito às nossas diferenças tenham se tornado a herança para as novas gerações.

Imbecilizados?

Idiotizados?

Certamente, destituídos do possível, do viável, adotamos tristemente o plausível.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 17 de abril de 2014.

* Não esperem de mim, tão cedo, outro desabafo assim.

A arte de dividir-se

Dividir-se, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 16-04-2014
Dividir-se, criado em 16-04-2014.

Não se descobre o absurdo sem ser tentado a escrever algum manual de felicidade. "Mas como, com umas trilhas tão estreitas?" No entanto, só existe um mundo. A felicidade e o absurdo são dois filhos da mesma terra. São inseparáveis. O erro seria dizer que a felicidade nasce forçosamente da descoberta absurda. Ocorre do mesmo modo o sentimento do absurdo nascer da felicidade. "Acho que tudo está bem", diz Édipo, e essa fala é sagrada. Ela ressoa no universo feroz e limitado do homem. Ensina que tudo não é e não foi esgotado. Expulsa deste mundo um deus que nele havia entrado com a insatisfação e o gosto pelas dores inúteis. Faz do destino um assunto do homem e que deve se acertado entre os homens.
(Albert Camus - O Mito de Sísifo)***

Exemplos diários de dissociação incluem veículos de comunicação destacando estresse pós-traumático de soldados que retornam de guerra, vítimas de estupro acometidos de amnésia sobre os detalhes e, na Justiça, o problema de definição de responsabilidade sobre os atos, nos casos de Transtorno Dissociativo de Identidade (múltiplas personalidades). **


Alguém pode me dizer como se faz divisões sem que haja resíduos, sobras, restos? Imagino que é por causa deles que, durante a noite, meu cérebro não pare (mas será que algum momento ele para?).

Um pedido: não me fale de consciente e inconsciente. Pelo amor de Freud! Quociente é o resultado da divisão. E se os sujeitos não são inteiros, vai sobrar para alguém um resto. Geralmente, amargo para engolir.

Quando alguém me diz que tem que dividir-se em dois para dar conta de suas tarefas, eu entendo. A figura propõe multiplicar ou dobrar a capacidade de resolução. E quando alguém me diz que está dividido, eu entendo. A figura propõe menos da metade da capacidade.

Ilógico? Pode ser, mas eu lhe garanto que a atenção de uma pessoa que está dividida não atinge a metade exata de suas tarefas, uma recebe menos que a outra de maior interesse. Essa é uma avaliação de senso comum, isto é, não está embasada na exatidão ou cientificidade. É uma atestado de sua existência por detecção e comprovação de um fato: é algo que acontece, realmente.

Imagine os alunos e trabalhadores que estão doidos para irem embora, na véspera do feriadão (é o seu caso?). A menina ou o menino que, em vez de realizar suas tarefas, divaga. Bem, aqui a divisão do tempo parece se prolongar, demora a passar, os ponteiros do relógio não estão favoráveis ao resultado desejado.

O que me provoca nesse processo é o fato de sermos capazes de produzir um outro de nós mesmos — ou algo muito próximo disso — nessas horas. Há pessoas que são capazes de repetir o que estavam dizendo, mesmo com a atenção totalmente fora de onde estavam. Outros, como em reuniões decisivas, que enquanto ouvem um argumento, já estão estruturando os contra-argumentos necessários para outra situação - simultaneamente. Fisicamente muito distantes do lugar em que estão o pensamento e a emoção: dissociados.

Buscando formulações menos avançadas, estou pensando especificamente em como fico dividido, em alguns casos, para tomar decisões. A velha e já manjada briguinha entre razão e emoção. É que estar de fora de uma situação dessas facilita o olhar mais frio e crítico. Mas estar dentro… bem… não é nada fácil.

Uma hora ou outra, estaremos contra a parede, com a corda no pescoço, pois não dá para ser um joão-bobo ou o grande boneco inflável que se mexe ao vento ('bonecão do posto tá maluco, tá doidão'!). Situação em que, não fosse o sofrimento estampado, seria risível.

Todo mundo sabe como pode ser paralisante esse embate dentro de si. Afinal de contas, ninguém quer perder ou se machucar. E a matemática da divisão diz que ela é o contrário da multiplicação e representada por uma fração. Ninguém quer ficar fracionado.

Já viu um divisor de sinal de antena? Ele tem uma entrada e várias saídas. E tem uma tarefa ingrata. Sua função é potencializar o sinal que cada saída receberá para não degradar a imagem resultante, mais ou menos o milagre da multiplicação.

Enquanto não houver uma rachadura completa ou uma soldagem bem feita, vale as tentativas. Dessa vez vou tentar uma 'viagem astral'. Meditar e ir aonde meu coração manda. Não vou contestá-lo. Mas, depois, vou segurar a onda com a minha razão. Ela sempre corre atrás da emoção, no meu caso, apesar de toda a minha racionalidade.

Então tá decidido: o jeito é equilibrar a situação porque se eu não tomar um partido, acabarei partido, igual a esse texto. O pior é que já tem muitos pedaços que restaram de outras divisões espalhados dentro de mim.

É preciso ser um artista para se manter inteiro, não é? Alguém tem um cola-tudo para emprestar?

Wellington de Oliveira Teixeira, em 17 e 18 de abril de 2014.

* Sobre divisão matemática, leia:
http://educacao.uol.com.br/disciplinas/matematica/divisao-o-inverso-da-multiplicacao.htm
http://pt.wikipedia.org/wiki/Divis%C3%A3o

** A Ação de dissociar na
Física: Desagregação de moléculas.
Química: Decomposição reversível dos corpos.
Psiquiatria: Ruptura da unidade psíquica, que constitui um dos principais sintomas psicóticos, notadamente da esquizofrenia. (Amplie seu conhecimento em http://www.psicosite.com.br/tex/sod/dis003.htm)

*** CAMUS, Albert - O Mito de Sísifo - http://www.planonacionaldeleitura.gov.pt/clubedeleituras/upload/e_livros/clle000131.pdf

15 de abr. de 2014

Eu queria que o tempo pudesse voltar dessa vez

Tempo, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 15-04-2014.
Tempo, criado em 15-04-2014. (clique para ampliar.)

Eu te desejo muitos amigos (mas que em um você possa confiar) e que tenha até inimigos pra você não deixar de duvidar.
Quando você ficar triste, que seja por um dia e não o ano inteiro, e que você descubra que rir é bom mas que rir de tudo é desespero.
Desejo que você ganhe dinheiro - pois é preciso viver também - e que você diga a ele (pelo menos uma vez)
quem é mesmo o dono de quem.
Desejo que você tenha a quem amar...

[Amor pra recomeçar - Barão Vermelho]

Não preciso de modelos, não preciso de heróis. Eu tenho meus amigos e quando a vida dói eu tento me concentrar num caminho fácil.
Sou eu mesmo e serei eu mesmo, então. E eu queria que o tempo pudesse voltar dessa vez.

[Comédia romântica - Legião Urbana]


Hoje, eu estava lendo uma postagem no facebook da Margareth Marcelo, onde havia uma reclamação em relação às viradas de tempo. Eu me solidarizo com a questão que ela apresentou. Para ser bem sincero, cada vez que o tempo vai mudar, meu corpo antecipa e reage com rinite alérgica. Não é nada, nada bom! Mas, como cantavam The Fevers na música Mar de Rosas, Nem sempre o sol brilha, também há dias em que a chuva cai. O jeito é relaxar e beber água. Mas uma cervejinha ou um vinho também caem bem. Para falar a verdade, cerveja combina com todos os tipos de tempo. Se fosse música eu diria 'em qualquer dia, em qualquer hora…".

Percebi que estou recorrendo a tudo quanto é música que eu recordo. Música me faz bem. Música me ajuda a superar alguns momentos, reavivar outros, imaginar vários.

A primeira música que ganhei de alguém — um costume, da época, de ter uma trilha sonora com alguém de quem você gostava (amor ou amizade!) — foi Your Song interpretada pelo Al Jareau. Digo até hoje: totalmente deslumbrante e mágica e a melhor música da minha vida! Pudera: a letra é do Sir Elton John e a voz é a de alguém cuja garganta era considerada uma orquestra completa pelos críticos de todos os estilos (assita os vídeos pelos links para ter a noção do que digo). À Valéria Thuller minha gratidão eterna por ter me acordado às 06h da manhã e me feito escutar ao telefone a versão de estúdio dessa música (And you can tell everybody, this is our song).

Mas, como dizem, águas passadas não movem o moinho. Então, prossigo recordando na trilha da minha vida outras músicas maravilhosas (aproveite para recordar a da sua vida!). Faz muito bem e ajuda a perceber que as coisas mudam, a vida segue adiante, o sofrimento passa - como tudo na vida.

Mas, sabe quando bate aquela pontada estranha, exatamente naquele dia que estava nublado mas resolveu trocar a trilha para 'Deixa chover, deixa a chuva molhar…', ou 'chove chuva, chove sem parar…'? Pois é, fui sorteado. Inundou lá dentro e acho que vi um monstrinho se aproximar da superfície.

Vou preparar uma massa no capricho, selecionar um vinho levemente frutado e me permitir saboreá-los assistindo a um bluray no meu novo home theather (é bom ser carinhoso consigo mesmo) para superar, novamente, o que me incomoda. Mas nada de afogar as mágoas.

Nem sempre, mas hoje eu desejei cantar como o Renato Sou eu mesmo e serei eu mesmo, então. E eu queria que o tempo pudesse voltar dessa vez.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 15 de abril de 2014.

* Al Jarreau - Your Song.
Versão de estúdio: https://www.youtube.com/watch?v=9tmsOJyRR94
Ao vivo! está disponível em https://www.youtube.com/watch?v=OH7xg5Eoi2E&feature=kp