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4 de set. de 2017

Subterfúgio humano

afetação, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 01-09-2017.
Afetação *, criado em 01-09-2017.

A eternidade é o estado das coisas neste momento.
(Clarice Lispector)


O aqui e o agora, como única forma de constituição do eu, traz gigantescos desafios à noção noção de ser, especialmente de ser de forma duradoura. Temos essa sensação-ilusão de sermos o mesmo desde a infância, mesmo com transições nem um pouco suaves. Há um certo apego a essa ideia. Em alguns, a obsessão pelo contínuo faz da rejeição ao que foge aos padrões uma questão de vida.

Seres humanos desejam profundamente acreditar no ser, mais do que no estar sendo. Somos incapazes de lidar conscientemente com os infinitos e variáveis modos de ser que carregamos e que podem ser atualizados a cada instante, disparados por cada encontro efetivado como composição ou decomposição de nossas potências.

Qualquer presunção de fixidez é vã. Cada forma de ser dura apenas uma certa fração de momento pois, a seguir, somos afetados por alguma força de vida e desviados da aparente trajetória traçada. Instantaneamente, mudamos de gente de bem para gênios do mal, ou qualquer variante intermediária. Somos pura transformação: amando-odiando, aproximando-afastando, cuidando-negligenciando, em todos os graus possíveis.

Tudo se define nos encontros que estabelecemos, a cada instante. Cada imagem, som, sensação tátil, aroma, sabor, capturados pelos sentidos é capaz de incendiar a alma; e rimos, choramos, amamos ou odiamos, inclusive todos os indeterminados. E isso é o suficiente para nos mobilizar, nos retirar da paralisia e da mesmice: somos os seres da afetação, aqueles que se deixam afetar e afetam o que quer que encontrem.

À despeito de tudo isso, nos agarramos a fixação, esquecemos o movimento e estabelecemos uma paralisação: apenas uma fotografia de certa imagem mental que foi impressa em nossa alma. Impactos vivenciados, que viram marcas na superfície de um encontro, podem estabelecer um certo padrão: assim surgem as opiniões a respeito de algo, alguém e sobre si mesmo.

A rotulação ultrapassa essa opinião acerca da marca da dor-prazer vivenciada. Ela surge como uma extrapolação visando determinar uma essência para algo ou alguém, a despeito de nada poder garanti-la: o desconhecido e o diferente tornam-se os maiores inimigos imaginários de quem não consegue lidar com o que produz incerteza.

Assujeitados a esse processo, o que evidência nossas transformações se torna quase imperceptível, ou mesmo ignorado: o bloqueio permite acreditar num si mesmo contínuo. A ilusão da permanência, nossa ou a do outro, é o subterfúgio humano para acreditar que tem algum controle sobre a própria vida.

A bem da verdade, nos despedaçamos e nos remontamos na totalidade do tempo de nossas vidas, em função dos distanciamentos ou aproximações, dos embates ou das pacificações, do que quer que nos aglutine ou desagregue.

A metamorfose ambulante não é a exceção, mas a mais profunda realidade experimentada por cada ser humano que ainda carrega a sanidade. Loucura é o estabelecimento de uma aparência forçada, dessa máscara social que ocupa o lugar da fuga do vir a ser em nome da permanência.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 03 de setembro de 2017.

* Temporalidade e Transformações são a essência da vida física e, dependendo do ângulo ou prisma adotado, ganham cursos muito diferenciados de influência nas práticas. Somente aqueles que conseguem se determinar um certo desapego, um certo espaço para novas experimentações, conseguem se estabelecer como ser de encontros potentes. Esvaziar-se é necessário para que novos conteúdos tenham vez: tarefa hercúlea, que traz consigo igual medida de descobertas e de ampliação de horizontes.

9 de ago. de 2017

Novas efetivações

Efetivações, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 06-10-2017.
Efetivações *, criado em 06-10-2017.

Morcegos voam e localizam insetos no escuro por meio de um sistema de sonar, ou ecolocalização, emitindo em alta frequência gritos que refletem nos objetos à sua volta e retornam a eles em forma de eco.
Essa forma de percepção é completamente diferente de qualquer sentido que possuímos, portanto, é razoável supor que é subjetivamente diferente por completo de qualquer coisa que podemos experimentar. De fato, existem experiências que nós, como humanos, jamais poderemos experimentar, mesmo em princípio; existem fatos sobre experiências cuja natureza exata está além de nossa compreensão. A incompreensibilidade essencial desses fatos deve-se à sua natureza subjetiva – ao fato de que incorporam essencialmente um ponto de vista particular.

(Ben Dupré — Como é ser um morcego?, em A mente importa, p.36-37)


São incríveis, incontáveis e instantâneas, as formas de um indivíduo se apropriar de qualquer percepção e, inconscientemente, fundamentar o seu modo de ser, manifestando uma subjetividade: o que vê, o que sente, o que processa é a resultante de um processo de interposição ou sobreposição de fluxos de diversas fontes, com suas composições com absolutamente tudo (de escalas nano à cósmica) disponível a cada instante na Ordem.

Por falta de termo melhor, nomeamos essas apreensões de mundo como realidade. O mesmo ocorre com a palavra pessoa, essa ilusão de continuidade gerada por flashes sequenciais, similar a um filme, que é apenas uma sucessão de diferentes imagens fixas.

Não temos uma continuidade material, somos pura transformação. Gravitamos em torno de um determinado núcleo expressivo onde, a qualquer momento, pode ocorrer um rompimento nas composições de forças ou até mesmo novas áreas de atração alterarem o núcleo da gravitação. Percebemos cada nova estruturação como uma mudança no ser.

Assim, mudança exige a quebra das cadeias e amarras que mantinham a órbita e essa ruptura gera energia capaz de pressionar e impulsionar avanços ou retrocessos nas composições já constituídas. Estas variações são bem vindas, por permitirem as condições de refazimento do ser e a desconstrução de sua estruturação mais rígida, as máscaras.

Se a atualidade é a ressonância que ocorre entre as impossibilidades (já se efetivou) e os não constituídos ou prováveis; somos um puro presente, o resultado de uma reação entre passados e futuros. E nessa espécie de liquidez, de insustentável leveza do ser (ou outra formulação expressiva para nomeá-la) podemos efetuar uma superação do enrijecimento, via [des]agregações e superações, desse continuum e estabelecer uma espiral sobre o círculo.

Ao observar mudanças, entende-se que a riqueza da transcendência de um ser está em franca oposição aos fundamentalismos ou imobilismos: sem os giros ascendentes, sem novas composições de equilíbrios, somos um ciclo, monótono e repetitivo, destituídos da vida e de suas múltiplas capacidades.

Já que na Ordem nada é estático, qualquer imposição para produzir um acorde fixo ou a continuidade do imobilismo gera estagnações e desequilíbrios. Nos seres humanos, previsivelmente, isso só conduz ao tédio e ao sofrimento: o resultado de não conseguir constituir novas efetivações e apenas estabelecer motivos para criticar as dos outros. Não à toa, seres assujeitados encaram a decomposição de sua humanidade e acabam por se tornar indignos dela.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 09 de agosto de 2017.

* Efetivar é fazer com que se torne efetivo (produzir efeito). Efetuar-se como ser exige um processo contínuo de efetivações. Ao gerar-se oposições ao processo ou mesmo empecilhos às efetivações de si mesmo ou de outrem, produz-se um aprisionamento a um determinado modo de ser. Pode parecer banal, mas é o mesmo que destituir alguém de seu mundo, de suas particularidades, sua subjetividade. E isso só gera infelicidade e uma sociedade doente.

8 de jul. de 2017

Misturas mais feéricas e intensas

Misturas feéricas, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em  08-07-2017.
Misturas feéricas *, criado em 08-07-2017.

PeloamordeDeus, faça o possível para tirar esse chavão da cabeça. Nunca é demais repetir aqui a formulação correta da teoria, da maneira como a compreendemos hoje: seleção natural não é a sobrevivência dos mais fortes, nem mesmo dos 'mais aptos', mas sim — e se prepare para alguns palavrões técnicos agora — do 'sucesso reprodutivo diferencial'.
(Reinaldo José Lopes — Os 11 maiores mistérios do universo, p.197)


São raros os momentos em que alguém se desvencilha da rede estruturante de formatação. Comando poderoso, capaz de apagar individualidades, expressividades, novidades, mas, como todo comando, tem origem, deixa traços, e é exatamente aqui onde podemos encontrar a brecha e deixar vazar os fluxos que iluminam a mente e o coração.

Há uma certa dose de ingenuidade e de idealismo nessa proposição, reconheço. Mas a experiência tem demonstrado que não há qualquer tipo de fluxo que não receba interferências, que não tenha, em si, a semente de sua própria desestruturação: a vida se propõe as sucessivas migrações, não no padrão virótico ou aniquilador (arrasa com um terreno e segue para outro), mas no expansivo anexador.

Se o for, certamente não carrega um conceito do tipo moral: este modo vale para todas as formas e expressões da vida. Tem momentos que imagino isso como um liquidificador, onde os extremos são triturados e entram na composição de formas mais equilibradas, mais condensadas.

Aí, talvez, está a raiz dessas contradições que todos os seres carregam e manifestam — que, simultaneamente, permite identificações inesperadas e encontros inusitados.

Este processo é pouco niilista se comparado ao acumulativo e progressivo do yin-yang, que configura um equilíbrio constituído pelos opostos. Pessoalmente, considero as imagens que o expressam de grande poder esclarecedor; porém, para níveis de pensamento crítico mais trabalhados, um pouco rudimentar. A natureza parece ter elaborado e desenvolvido suas artimanhas e artefatos com a evolução: as misturas estão mais feéricas e intensas — os DNA mais díspares estão se associando.

Pode parecer ficção, mas é apenas constatação: a tabela periódica cresce, há novas descobertas de seres, estão sendo criadas em laboratório toda forma de combinação visando uma determinada ação. Tenho um entendimento de que, em breve, as antigas Leis da natureza estarão ultrapassadas. Novas formas se estabelecerão, novos seres se estruturarão nessa massa amorfa, nesse magma instável, nessa fluidez imprevisível que as potências naturais estão expressando.

Por outra via de pensamento, no meio do caminho de soluções importantes para problemas da humanidade sempre haverá o uso inadequado, indevido ou inapropriado, por pessoas ou grupos interessados no controle, na riqueza ou no poder. Visto sem moralismos, estão efetuando sua forma de potência: exclusivista, dominadora e usurpadora, por meio da apropriação da vitalidade de outros — como os antigos contos de vampiros ou demônios.

Como quando iniciei, reafirmo que toda forma de potência gera brechas nos enclausuramentos, por onde encontrarão um meio de se manifestar. Então, o que se propõe não é produzir mais exclusão, em si, para qualquer forma de manifestação. Se a ignorância expande a dominação, o esclarecimento, a amplificação de vozes diferenciadas (geralmente, caladas) torna-se foco principal dos que acreditam nas composições que fortalecem o todo e, por consequência, o fortalecimento dos meios de manutenção individual: esta, sim, uma proteção contra todas as formas de escravização.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 08 de julho de 2017.

* A reprodução das ideias, práticas e dos processos colaborativos são a melhor arma contra os aprisionamentos e dominações de diferentes matizes. Somente na potencialização de todos é possível assimilar os diferentes atributos que existem: mesmo a raiva ou o ódio podem ser propulsores de boas ações.
Sim, é complicado! Tudo depende de dosagens. A higienização, a pasteurização, a homogeneização social carregam mais riscos que benefícios. Isolar uma criança não é a solução. Tentar escamotear as práticas existentes, idem. Isso faz desaprender os processos de defesa corporal ou mental contra os possíveis 'venenos' que habitam a vida.
Impedir alguém de tentar, de descobrir, de se diferenciar e de se encontrar na vida é a pior prática educativa que posso imaginar. Questionamentos permitem muito melhor o desenvolvimento do que a eliminação da questão (ou dos perigos), por isso, capacitar qualquer indivíduo a avaliar criticamente é a melhor ferramenta que se pode oferecer para que ele construa sua individualidade e se expresse de forma plena.

6 de dez. de 2016

Quando a abstração tornou-se abominável

Abominável criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 06-12-2016.
Abominável *, criado em 06-12-2016.

O aumento da flexibilidade comportamental faz também vir à baila a prática do oportunismo intra-espécie baseado em engano. É o que se verifica, por exemplo, no caso de algumas variedades de mosca-doméstica nas quais os macho corteja a fêmea oferecendo-lhe como prenda algum alimento. Enquanto a fêmea se delicia e lambuza com a prenda, o macho aproveita para se acasalar com ela. Até aí tudo certo: nenhuma ilusão ou ardil, apenas uma troca tristemente familiar de equivalentes.
O logro só aparece no momento em que surge um macho heterodoxo da mesma espécie que faz a mímica da fêmea interessada, consegue induzir um macho reto a fazer-lhe a oferenda e, na hora do coito, apanha o alimento e chispa para longe. De um pseudotravesti como esse, nem mesmo uma mísera pseudocópula a mosca iludida consegue arrancar…

(Eduardo Giannetti — Auto-engano, p.21-22)


A experimentação simples confirma que o céu mais amplo surge em dia ensolarado, após um de tempestade. Parábola ou metáfora, um conceito a se constituir em aprendizado de vida. Tudo se transforma. Recordei de Iazul, uma linda história aprendida há décadas, e surgiu um sorriso em meu rosto – mas não é por critica ao seu autor.

Seres tornados tão imediatistas, abdicamos do vislumbrar os horizontes, exceto para programar os ganhos financeiros – lição que cada ser humano trabalhador é obrigado a decorar, recitar e praticar, em nome do mercado.

A abstração tornou-se abominável na atualidade por exigir tempo para ociosidade e permitir-se ser conduíte de fluxos da vida: olhar para ver, ouvir para escutar, falar para dizer. Conduzidos, desde a infância, ao ciclo vicioso da repetição, tornamos inominável quem ousar o além disso. Coitados dos avoados, dos estranhos, dos alienados que, continuamente, recebem carga pejorativa de, no mínimo, vagabundos.

Uma sociedade sem pensadores e sem artistas (entre os trabalhadores, fique claro!) é um ideal para qualquer ditadura. Basta quem crie apenas produtivamente.

Contrassenso, ideias e tecnologias inovadoras iniciaram-se com a ficção, criadas para o prazer por Júlios Vernes da vida. Teorias e teoremas inúteis, desqualificados, alçaram-se a paradigmas da contemporaneidade. Acordamos sobressaltados por multiversos (os universos simultâneos), recombinações genéticas e a provocação da atemporalidade linear provocada pelo universo curvo e os buracos de vermes.

Como em uma dor de topada ou outra de maior duração, sem abstrair os aprendizados que nos trazem, erramos e continuamos errando. Queremos aprender a lição e não apreender o acontecimento, o encontro, as potências e despotencializações a que nos submetemos ou somos submetidos.

Aprendemos assim. Reproduzimos assim. Exigimos que continue assim. Afinal reconhecer fracasso de um modelo estruturado para não pensar é algo forte demais para seres comuns ousar. Por isso – hoje mais que nunca — contextualizar, avaliar interesses em jogo e aprender a desaprender são fundamentais.

Sem dúvidas, um processo amedrontador, pois não há garantias de que o novo será melhor – como tudo na vida, é apenas uma tentativa. Mas difere das reproduções por ser algo particular, único, exclusivo, pessoal e próprio que fundamenta a existência de um indivíduo, de um sujeito que se expressa sem submissão.

Exige destronar conceitos e preconceitos. Pior. Força a encarar o repúdio que costumamos dar aos ousados e ultrapassar as rotulações. Mas, repetindo os chavões de forma simples, quem irá preferir ser o diferente, o rejeitado, aquele que não se encaixa nos padrões?

Talvez tenha sido essa a 'intenção' da Ordem natural ao produzir o processo da puberdade, refletido em contextos mais amplos na adolescência. Uma ordem que se quebra, que se volta contra si mesma em prol da transformação e do amadurecimento. Os demais processos de vida são graduais, este exige rapidez e é arrebatador, expansivo, ousado, iconoclasta; exige uma radical reavaliação dos preexistentes em função de um futuro – inclusive, na escala de espécie.

A produção de valores precisa de condições favoráveis, do contrário, resulta em seres replicantes. Cópias sociais, como clones genéticos. Há os que louvam essa forma de ser: o Ser tornou impeditivo o ser autêntico.

Mas, quando observo meticulosamente um adolescente, para além da 'aborrescência' que isso causa aos que desejam ardentemente o ordinário, vejo o extraordinário: o poder de ser suplantar o poder de estar por meio do poder de reestruturar o estabelecido.

Não há dúvidas quanto aos riscos que existem na suplantação de limites, das fronteiras, quando se aventura às descobertas singulares. Aqui é onde entram as tais condições favoráveis que citei a pouco. A rigorosidade aliada à permissividade é uma proposição de equilíbrio em tudo. Cada expansividade exige a transformação em todos os níveis, assim como, braços e pernas maiores geram desequilíbrios e exigem o aprendizado do reequilíbrio.

O redimensionamento da vida (a própria e em sociedade) é algo fantástico porque abre as portas para o infinito: avançar, pelo desequilíbrio, em equilíbrio constante. Como andar de bicicleta.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 06 de dezembro de 2016.

* Qualquer um que deseja alcançar um determinado grau de autenticidade precisa ultrapassar o discurso conservador, baseado em engano – a vida de aparências. A hipocrisia acéfala e esquizofrênica foi produzida e se sustenta na midiotização — a adoção passiva e irrestrita de padrões televisivos.
A busca por autenticidade não será bem sucedida sem o processo de desconstrução das máscaras pessoais e familiares, a partir da abstração e do questionamento das produções midiáticas de verdade e de felicidade instantânea.
Encontramo-nos em um momento onde é extremamente desejável um toque de rebeldia, como a dos adolescentes.

30 de jul. de 2016

Pela renovação da 'mitoscondria'

Mitoscondria, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 30-07-2016.
Mitoscondria *, criado em 30-07-2016.

Mitocôndria
do grego mitos (fio) + a chondrós, em forma de grão + sufixo grego - ia, que serve para formar substantivos — é o centro de energia celular que permite sua reprodução.

Não se amoldem ao padrão deste mundo, mas transformem-se pela renovação da sua mente, para que sejam capazes de experimentar e comprovar a boa, agradável e perfeita vontade de Deus.
(Bíblia — Romanos 12:2-5 )


Os valores, a moral e os costumes socialmente preponderantes não implicam em verdades inequívocas. Entender esse conceito é o caminho para novos horizontes de inclusão social e de aprimoramento dos relacionamentos.

Um neologismo que construí, 'Mitoscondria', poderia designar o modo extremamente parcializado como os mitos se formam e como são apropriados pelas pessoas. Essa granulação, devida a transmissão oral e pessoal das ideias, certamente ocorre de forma idêntica na apropriação das práticas sociais e no que é estabelecido como verdade.

Especialmente a partir da adolescência, a construção de um conhecimento e pensamento pessoal rejeita a adoção da reprodução do senso comum e, pelo desenvolvimento do pensamento crítico, busca desestruturar o estabelecido, refazendo-o ao retirar elementos considerados ultrapassados ou de funcionamento inapropriado para a atualidade.

Essa recomposição permite o avanço dos conceitos e possível redução dos preconceitos: a constituição de novas formas de entender categorias sociais, relacionamentos pessoais e suas implicações em contextos diferenciados é apenas um dos exemplos.

É que não somos quebra-cabeças que sempre se reorganizam da mesma forma. As transformações alteram os encaixes e isso exige atritos para recriar novos. Para alguns, o enrijecimento dos padrões é fruto de uma estagnação, de um envelhecimento não sadio.

O envelhecimento como processo natural é a redução da eficiência dos processos corporais, prejudicando algumas das funções essenciais. No entanto, o metabolismo não é algo fixo. O corpo humano gera mecanismos de rearticulação de tarefas: se um órgão enfraquece, outros vêm em seu auxílio e contribuem com parte de suas funções. Por isso, podemos alcançar idade avançada com pouca redução da qualidade de vida. Mas a matéria não se eterniza e uma hora a máquina para, dando prosseguimento às transformações em escala impessoal — nada se perde.

Os valores pessoais e sociais passam por um processo similar de envelhecimento. Se não forem retroalimentados, definham e morrem. Na natureza é o nascimento de novos elementos que permite a renovação. A juventude, com suas novas práticas e mudanças, é quem impede os engessamentos sociais e a morte das culturas. Princípios se sustentam por gerações quando se adaptam a novos contextos.

O endurecimento, os radicalismos, os fundamentalismos que a cada época tentam impedir o fluxo das transformações, não o consegue. Apenas geram atritos ineficazes no impedimento das mudanças, mas que são extremamente eficientes em incapacitar ou destruir vidas e sua expressividade. Geração após geração, a juventude é marcada por rejeições e imposições que promovem uma psiquê doentia — reprodução das que nossos pais e nós sofremos. E isso, certamente, não precisa ir adiante. Renovai-vos!

Wellington de Oliveira Teixeira, em 30 de julho de 2016.

* O neologismo é explicado no texto.

6 de jul. de 2016

O ser e o desejar ser

Ser e Desejar ser, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 06-07-2016.
Ser e Desejar ser, criado em 06-07-2016.

Não vê que isto aqui é como filho nascendo? Dói.
Dor é vida exacerbada. O processo dói.
Vir-a-ser é uma lenta e lenta dor boa.
É o espreguiçamento amplo até onde a pessoa pode se esticar.

(Clarice Lispector — Água Viva, p.58)


A insatisfação em se ser o que se é produz o desejo de ser outra coisa, ter outra forma, efetuar-se de outro modo. Em graus distintos, de forma suave ou brusca, se busca e se produz um vir-a-ser(*) outro. E esse processo tem vertentes distintas: a da evolução do ser e a do seu aprisionamento.

Quando alguém fica enredado nas tramas e nas imposições sociais (como se vestir, se expressar, se mover e atuar) ou acredita que ser aquele modelo da propaganda resolverá todas as suas questões, um grande problema surge: a fantasia não cabe na realidade. Invariavelmente, a frustração domina e amplia o desejo de ser outro que não si mesmo. Isso se torna uma espécie de maldição na vida: o desequilíbrio se expressa constantemente pelo sofrimento e se somatiza, manifestando-se como sintoma de diversos tipos de transtornos ou doenças.

Por outra via, quando, por observação ou busca pessoal, alguém começa a alcançar níveis de competência superior, descobrir ou ampliar suas capacidades, equilibrar-se no meio social sem abrir mão de suas características e peculiaridades, o desenvolvimento do ser se efetua com harmonia. A transição de um estado de ser para outro é benéfica e amplia o grau de felicidade, manifestando-se de forma saudável nas relações pessoais.

Um projeto de vida que se possa definir como expressivo e potente não cede diante de ditames de moda ou modelação de comportamentos. É preciso ter a clareza de que esta proposta difere de reproduzir os padrões sociais ou se opor a eles e reforça um caminho de autoprodução e fortalecimento. Muito mais ação do que reação.

A atitude pedagógica, aqui, é aquela que afirma que viver reativamente enfraquece o ser, que tem uma via muito mais eficaz na construção de alianças para efetuar coletivamente o respeito as diferenciações alheias.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 06 de julho de 2016.

* Vir-a-ser ou Devir.
  1. A mudança em si mesma, processo e transição de um estado a outro. Opõe-se ao estabelecimento de um referencial estático e perfeito.
  2. As mudanças sequenciais de modos de Ser. Opõe-se à imutabilidade do Ser.
  3. Um caso especial de mudança, vai do Nada ao Ser e, dele, ao Nada. Afirma-se o Ser imutável mas em contínua transformação.

26 de jun. de 2016

Reacender-se interiormente

Reacender-se
Reacender-se interiormente*, criado em 26-06-2016.

Nossas ideias, que são tudo a que temos acesso direto, formam um impenetrável 'véu da percepção' entre nós e o mundo exterior. […] É apenas restabelecendo uma ligação direta entre o observador e o objeto externo que o véu pode ser rasgado e o cético vencido.
(Ben Dupré — O véu da percepção, p.16-17)


A marca da ignorância caracteriza os [des]propósitos na vida de qualquer indivíduo. Para os que vão alcançando um campo mais ampliado de visão, ela se manifesta na compreensão do quanto há mais para se aprender e a finitude da forma humana a se contrapor. Para a imensa maioria, é um estado rudimentar de entendimento que estreita a visão da realidade em que vivem.

Mesmo sábios, alguns desistem. O que entenderam ou o que não conseguiram absorver determina uma rota de fuga. Em muitos dos casos, suicidária — uma forma de evitar os conflitos inerentes às vivências do que consideram ser a sua realidade. Os abusos diários de alienação o demonstram.

Ter o propósito inflexível de acender cada vez mais o campo de energia alimenta a vida é algo tão raro, mas tão raro, que foi necessário criar mitos, parábolas, contos, para que o conceito pudesse subsistir: superação é algo possível e necessário.

Os fluxos, as forças, as ondas que constituem o movimento do mundo são um mistério que alguns desejam e tentam desvendar ou, pelo menos, encarar, e tornam isso um alvo para a caminhada nessa esfera de vida.

A veracidade desse desejo concomitante com a firme disposição de seguir nesse sentido é o que pode conduzi-los ao inconcebível, no presente.

Acredito plenamente que conforme caminhamos, aprendemos, nos transformamos gradualmente e — como que de repente — compreendemos que a nossa percepção de mundo se desfez e uma outra realidade foi alcançada: engatinhamos e aprendemos a andar sonhando com o correr e o voar.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 26 de junho de 2016.

* Nossas impressões sensoriais, o modo como apreendemos a realidade (via audição, olfato, paladar, tato e visão) podem não ser um retrato fidedigno do que existe, por serem apenas uma representação dela. Platão oferece o mito da caverna para tentar demonstrar esse pensamento, colocando prisioneiros humanos numa caverna subterrânea onde vêem apenas as próprias sombras ou a dos outros, pela iluminação gerada pelo fogo: o conhecimento do mundo sendo uma sombra da realidade do que existe, devido aos vários tipos de limitações a que estamos submetidos. Uma contraposição entre a ilusão e o conhecimento, o campo do existir e do ser.

6 de ago. de 2015

Espaço para transformações internas

Espaço interno, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 04-08-2015.
Espaço interno, criado em 04-08-2015.

Vazio
  1. sem o seu conteúdo habitual:
    Da passeata, restam latas vazias e cansaço.
  2. desocupado:
    Estão tornando o país uma casa vazia: sem móveis ou boas recordações.
  3. sem sua carga
    No metrô, vagões vazios carregavam alguns poucos protestantes.
  4. sem atividade humana
    Depois dos protestos, ruas vazias da cidade tinham as marcas de quem passou.
  5. sem algumas de suas qualidades primordiais
    A má política e a corrupção deixaram como consequência jovens vazios de ideais.
  6. sem força, efeito ou significado
    Com discursos vazios, as falas dos parlamentares não encontram eco na população.
  7. conjunto sem elementos (Matemática)
    O conjunto de números naturais múltiplos de pi é vazio.

Vou direto ao assunto: não dá para ser uma estrutura monolítica* se quisermos ter espaço para transformações internas. É preciso que os blocos ou pedaços de cada fase que vivemos tenham a chance de surgirem, de repente, e aflorarem ou emergirem ou voarem. Somos sim, uma pequena colcha de retalhos, alguns muito bem costurados, outros nem tanto.

É claro que é saudável manter uma estrutura firme que sustente essa vivência dos velhos costumes, mas ela precisa ser capaz de anexar o inusitado. O esperado de cada um pode e deve dialogar com o ainda não conquistado, com o que está em vias de ser em nós. Tipo quando você entra para um curso de formação qualquer, por exemplo, aprender marcenaria. Mesmo possuindo algum talento, é preciso aparar as arestas por dentro, tal como se faz com a madeira cá fora. Nesse processo, algumas práticas menos eficientes devem ceder lugar a outras que permitem ao potencial sua expressão máxima. Vale para tudo na vida, esse raciocínio.

Então, como há em tudo o que se conhece no mundo, é preciso identificar aquelas brechas — o espaço que se diz vazio — e adotá-las. Por elas irá fluir os elementos necessários. Nelas se constituirá a forma que será agregada àquela que se tornou básica, núcleo do ser.

O inusitado nos visita, aguarda um encontro e possivelmente ser absorvido. Isto pode acontecer ora por aprendizado, outra por sensibilização emocional ou espiritual. Como um sopro inspirador, como um fluxo de água a se deslizar, como algo a se escalar, como uma mistura a ser produzida para se constituir novas formas.

Só nas vivências percebemos quais experiências nos são necessárias naquele exato momento.

Destacar uma parte de si a cada momento é uma arte; dar expressão para ela de um modo satisfatório, mais ainda. O receio deve apontar para aqueles pontos de enrijecimento. São estes que se partem quando a estrutura se modifica. É preciso maleabilizá-los.

Ser humano é estar em contínua e infinita transformação, até que todas as possibilidades se esgotem para essa etapa ou ocorra um término repentino. Qualquer dos casos, nos conduz a desejar e buscar uma vivência plena, e esta só ocorre quando há evolução, desenvolvimento, crescimento e a percepção e satisfação de ter construído algo melhor para si e para o mundo: uma coisa chamada plenitude.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 05 de agosto de 2015.

* O homem é um animal segmentário. A segmentaridade pertence a todos os extratos que nos compõe. Habitar, circular, trabalhar, brincar: o vivido é segmentarizado espacial e socialmente.
(Gilles Deleuze e Félix Guattari — Mil Platôs. Capitalismo e Esquizofrenia, p.83)

[…] somos mantidos numa espécie de escravidão. A verdadeira liberdade está em um poder de decisão, de constituição dos próprios problemas: esse poder, 'semidivino', implica tanto o esvaecimento dos falsos problemas quanto o surgimento criador de verdadeiros.
(Gilles Deleuze — Bergsonismo, p.9)

5 de jul. de 2015

A desestruturação é cósmica

Desestruturação cósmica, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 05-07-2015.
Desestruturação cósmica, criado em 05-07-2015.

Oração da Paz
Senhor: Fazei de mim um instrumento de vossa Paz.
Onde houver Ódio, que eu leve o Amor,
Onde houver Ofensa, que eu leve o Perdão.
Onde houver Discórdia, que eu leve a União.
Onde houver Dúvida, que eu leve a Fé.
Onde houver Erro, que eu leve a Verdade.
Onde houver Desespero, que eu leve a Esperança.
Onde houver Tristeza, que eu leve a Alegria.
Onde houver Trevas, que eu leve a Luz!
Ó Mestre, fazei que eu procure mais:
consolar, que ser consolado;
compreender, que ser compreendido;
amar, que ser amado.
Pois é dando que se recebe,
perdoando que se é perdoado,
e é morrendo que se vive para a vida eterna!
Amém.

(Origem anônima, geralmente atribuída a São Francisco de Assis)


Os fluxos de conexão com a terra, a água e o ar não precisam estar em equilíbrio com o indivíduo para que ele saiba quando e onde semear e produzir uma boa colheita. Do mesmo modo, muitas outras formas sensoriais que durante séculos foram utilizadas pela humanidade caíram em desuso. Inclusive, tornou-se obsoleta a capacidade de antecipação, diante das tecnologias desenvolvidas pela humanidade.*

Motivo de preocupação? Talvez. Caso ocorra um novo colapso na configuração mundial — a simples proximidade de um cometa ou expansão do fulgor de uma estrela seriam capazes de desabilitar a maioria dos recursos tecnológicos disponíveis.

Mas pensemos um pouco ampliado. Novos universos estão em formação nas incontáveis e distantes galáxias. Uma estrela está se desintegrando e sua força, ao expandir-se, propulsiona milhões de elementos em nossa direção. Talvez, possamos identificá-los e contemplar a sua luminosidade destacando-se em um céu limpo.

É assim que a transformação — mesmo a produzida com a destruição de uma estrutura milenar — é implacável e eficiente em seus propósitos. O infindável estabelecimento de restruturações. O conceito vale para minúsculas mudanças no seu corpo, para o que afeta sua mente e até para o que se estabelece como novo constituinte do seu espírito.

A Ordem definiu que tudo concorre igualmente para a manutenção do equilíbrio da vida, e nossa inserção nas leis universais deveria produzir respeito e consideração por todas as criaturas.

Apreciar fatos, pesquisar, desenvolver teorias é a manifestação mais pura de nossa natureza como seres desejantes, em especial do conhecimento. Na contramão, inquietação não propicia condições para a superação do que quer que ocupe a sua mente, mesmo o que surge em função dessa reflexão.

A vida propõe questões. Há recursos dentro e fora do ser humano para, apropriando-se deles, ultrapassá-las. E para todas aquelas que, por alguma impossibilidade momentânea, não foram superadas, o aprendizado da paciência e da perseverança também é um caminho que nos conduz à Sabedoria.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 05 de julho de 2015.

* A revolução tecnológica reconfigurou o modus operandi humano. Dispositivos modernos, integrados às redes virtuais, influenciam emoções, razão e inserção social. Produção, consumo, modos de sonhar, de lutar e divulgar ideias alcançaram outro estágio.
A intensificação do imediatismo, o desconforto perante novas exigências na execução de tarefas, a invasão de privacidade, a noção de tempo e as formas de lazer se enraízam e constituem a nova sociedade.
Apenas o primeiro passo para outra estruturação das sensibilidades e do cérebro afim de proporcionar a hibridação humano-máquina.

18 de jun. de 2015

Desmanches e remontes

Desmanches e remontes criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 18-06-2015
Desmanches e remontes*, criado em 18-06-2015.

Em todas as operações da arte e da natureza, nada é criado:
uma mesma quantidade de matéria existe antes e depois do experimento.
Nesse princípio se baseia toda a arte da experimentação em química.
[Atualmente, o princípio foi simplificado: Na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma.]

(Antoine Laurent de Lavoisier — Tratado Elementar de Química)


Estar de bom humor ajuda a analisar temas difíceis ou sombrios. Lição que aprendi há muito, aprendizado é algo para ser buscado e quem aprende evita muitas circunstâncias adversas. Me permitam compartilhar esse tópico: o que ocorre quando somos desapropriados de algo? Em outras palavras, qual as consequências dos desmanches alheios à vontade consciente?

Sim, desejamos — e muito — inconscientemente. Aliás, para alguns estudiosos, só assim. No momento em que a consciência se torna sensível ao acontecimento, muito já foi absorvido ou perdido em função do que foi atraído e que nos atingiu.

Essa é uma proposição que abrange quase tudo que vivenciamos. Fazemos encontros diários com capacidade de se tornarem os transformadores do nosso mundo. É fato que, uma vez realizados, seremos outra coisa depois deles. O que, depende da composição realizada.

Dizem que há amor a primeira vista. Que é possível que, em questão de segundos, hormônios e psiquê promovam o desmoronamento do padrão de realidade cotidiano, da noção de tempo e da razão. É o tal do 'pozinho de pirlipimpim' que torna tudo mágico. Não é o meu caso, uso o exemplo para radicalizar a desestruturação que é promovida em alguns instantes da vida e que pode ser propagada para o resto dela.

Idealismos ou ilusionismos à parte, certamente há forças de atração que atuam nos encontros (e desencontros, também!) e promovem alterações drásticas em alguém. Desfeita a estruturação conquistada com enorme esforço, o que fazer? Como reagir?

Potência e vontade podem redefinir o que foi alterado, disperso ou assimilado? E aqui é preciso um olhar mais acurado: se ficamos alterados, haverá condições de reestruturação que não elimine as capacidades ou os elementos motivadores de antes?

Muito do que construímos como estrutura de vida nos potencializa, nos dá um certo nível de manipulação ou controle. Mas podem tornar-se imobilizadores em relação a novas capacidades. Seria este um caso de a razão ser sabotada pela vontade de ultrapassamento?

Sem respostas, me disponho à investigação. Como artifício, vou alinhavando ideias, produzindo questões e tentando relacioná-las com o conhecimento acumulado. Não sou do tipo que se paralisa diante de questões. Desafios estão em nosso caminho como bons instrutores, se assim o permitirmos. Se construí uma questão, certamente a resposta está a caminho.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 18 de junho de 2015.

* O conceito de desmanches está associado aos locais de receptação de carros para retirada de peças. Vendidas por preços inferiores ao de mercado, elas são remontadas em outros carros. Tanto o vender quanto o comprar peça roubada são atos ilegais. O pior prejuízo que causa é incentivar o roubo de carros, que pode vitimar até mesmo quem comprou as peças.

16 de jun. de 2015

Repetição, sim. Monotonia, não!

Repetitividade, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 16-06-2015.
Repetividade*, criado em 16-06-2015.

Meu bem às vezes diz que deseja ir ao cinema. Eu olho e vejo bem que não há nenhum problema.
E digo "Não. Por favor, não insista e faça pista. Não quero torturar meu coração…"
Garota, ir ao cinema é uma coisa normal, mas é que eu tenho que manter a minha fama de mau!
E digo não, digo não, digo não, não, não.
Meu bem, chora, chora e diz que vai embora. Exige que eu lhe peça desculpas sem demora.
E digo "Não. Por favor, não insista e faça pista. Não quero torturar meu coração…"
Perdão à namorada é uma coisa normal, mas é que eu tenho que manter a minha fama de mau!
E digo não, digo não, digo não, não, não.

(Erasmo e Roberto Carlos — Minha fama de mal)


A sequência contígua e lenta das mudanças em nós nos ilude e quase nos impede de identificar as transformações. Algo desfeito por uma das maravilhosas proposições que a adolescência nos promove: é possível, num mesmo ser, mudanças radicais.

Não deveria, mas quase sempre me frustro quando, mesmo com exemplos claros, muitos se perdem e não alcançam a ideia de que — apesar de os elementos serem os mesmos — a vida não precisa ser monótona ou repetitiva. Aquelas ideias e práticas adotadas por sua eficácia podem ter perdido a validade. Hora de rever os conceitos.

É a conexão e recombinação que constrói as identidades parciais e temporárias que todos vivenciamos do nascimento até a superação da forma. Isso que chamamos de eu é uma inconstância especial porque consegue carregar para as novas fases aquilo que denominamos de essência.

Projetar o que foi assimilado faz parte do processo. A ousadia é tornar-se artista e investir na exteriorização de novas construções internas.

Não há limites para quem não se enquadra, nem tenta paralisar a diferenciação que se constitui a cada momento. Os ritmos variam, as composições, também. Mas é possível embelezar cada momento da vida, descobrir suas potencialidades e vivenciá-las.

Até que o pó volte ao pó, dá para fazer com ele muitas construções. Imagine-se reformando sua casa. Não, isso não é uma metáfora. É isso mesmo o que acontece.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 16 de junho de 2015.

* Repetitividade, recompõe os elementos das imagens ilustradoras de 'Brinde a vida', 'Uma poção mágica cairia bem' e 'A vida em vermelho'. O objetivo era exemplificar o que acontece em nosso cotidiano: mesmos elementos, nova composição.

19 de set. de 2014

Rotular é tornar o pontual a referência.

Senhor de si, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 19-09-2014
Senhor de si, criado em 19-09-2014.

Transcender
Os espaços, uma a um, devíamos
Com jovialidade percorrer,
Sem nos deixar prender a nenhum deles
Qual um pátria.
O Espírito Universal não quer atar-nos
Nem nos quer encerrar, mas sim
Elevar-nos degrau por degrau, nos ampliando o ser.

(Hermann Hesse - O jogo das contas de vidro, p.447)


Sem sua ousadia não há o que esperar da vida. Estou falando de forma direta, não alegórica ou metafórica. Desde que haja alguma forma de construção, há o possível, o viável, a invenção de si. São eles que se opõem ao estruturado, ao modelado e conduzem à ausência e ao vazio.

Essa espera não no sentido de esperança, ainda que, de algum modo, possa abarcá-la se entendida como projeção, como sonho, como elemento transformador por produzir mobilidade.

Um momento ímpar está acontecendo, em todas as épocas, em diversas esferas da vida, onde quer que os seres humanos estejam se transformando e buscando por mudanças. Costumes e práticas apenas são os indicadores de algo a que se opõem e se agitam grupos de pessoas indocilmente, envolvendo-se numa luta contra a mesmice.

E muito do que se vê pode ser considerado exagero, forçação de barra, imposição - principalmente se percebido de um ponto de vista mais tradicionalista. E aqui se resume a polarização, o antagonismo que tem levado ao extremismo pontual. Sim, é pontual. Mesmo com tanta propaganda querendo rotular todos por conta da ação de uns muito poucos.

Mesmo quando você age de forma mais exacerbada, vez ou outra, isso não dá a ninguém o direito de tachá-lo descontrolado. Se todos tem seus momentos assim, isso não pode torná-lo referência.

Então, por que os meios de comunicação (e muitos os que os reproduzem) tacham pejorativamente pessoas ou movimentos sociais que trazem uma reformulação do padrão que eles ditam? Dos brincos e tatuagens, aos cortes de cabelo e estilos de vestir - quase sempre acompanhados de linguajar, formas de musicar e poetizar novos -, toda era é uma nova era que modifica a anterior.

Desnecessário o gigantismo da tentativa de contê-la, quaisquer que sejam as vias. A repetição do Assim é o certo, quase sempre vem acompanhada da ignorância de que esta também foi uma prática nova. Não se pretende arrazoar, esclarecer, apenas determinar. Surgem vozes iradas, clamando o fim do mundo - há séculos fazem isso! - criando novos apocalipses para amedrontar e controlar. Baseados em que? Costumes.

O mais indelével dos direitos humanos, o ser senhor de si mesmo, quer-se dominado. O maior medo é, se mudar, as vozes que ditam o certo e o errado perderão seu poder. Tentam esconder o fato de que as rupturas sempre acontecerão e que é possível harmonizar o novo com o antigo, há espaço para ambos.

É preciso ousadia, repito, para abrir as asas, saltar no vazio e desconhecido, para descobrir a maravilha que é o voo. O menor dos insetos alados sabe disso. Mas, por mais que muitos dos antigos e os novos-antigos citem as águias, os condores em alegorias da transformação que permite a ampliação da potência de vida pessoal, continuam preferindo as caixas, os ninhos, as asas deformadas por falta de uso. E não admitem que os outros tentem. Fazem isso, ameaçando: 'vai, mas não volta'; se fizer isso, não será mais meu …'; 'isso é coisa de …'; 'filha minha …'; e muito mais.

Antes que eu me esqueça, ao exemplificar as forças conservadoras não é necessário citar qualquer grupo ou prática: todos temos a semente dela em nosso interior, também. Ser cuidadoso é dialogar, avaliar as questões, alinhar os prós e os contras. É se dispor ao apoio do seres que se individualizam. Esse processo eles o percorreram de qualquer forma, agora ou depois, apoiados ou solitários.

E quando uma nova forma de estar em sociedade ocorre, ela é assimilada aos poucos e torna-se parte do antigo modo. Entender e superar tal processo sem gerar mais seres podados, enrustidos, mal-amados, rancorosos, vigiadores do alheio é um desafio imenso.

A vida exige que o ser aflore. E quando o processo de vir à tona ocorre, nada o impede. Pode-se podar todas as manifestações, viver protegido ou escondido, tentar iludir-se ou aos outros. É uma opção. Mas há outra: pode-se lutar para se manifestar de forma única, também.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 19 de setembro de 2014.

* […] Já faz tempo eu vi você na rua, cabelo ao vento, gente jovem reunida.
Na parede da memória, essa lembrança é o quadro que dói mais.
Minha dor é perceber que, apesar de termos feito tudo o que fizemos, ainda somos os mesmos e vivemos como os nossos pais.
Você pode até dizer que eu tô por fora ou, então, que eu tô inventando.
Mas é você que ama o passado e que não vê que o novo sempre vem.
(trecho de 'Como nossos pais' - Antonio Carlos Belchior)

9 de jun. de 2014

O que importa à vida

Substrato, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 09-06-2014.
Substrato, criado em 09-06-2014.

Em verdade, em verdade vos digo:
Não é o servo maior do que o seu senhor, nem o enviado maior do que aquele que o enviou.
Se sabeis estas coisas, bem-aventurados sois se as praticardes.
(Bíblia — João 13:16-17)

Com efeito, esse é o mistério da consciência.
Os seres humanos afastam-se desse mistério; nós nos afastamos da escuridão, das coisas que são inexplicáveis.
Encarar a nós mesmos em outros termos é loucura.
Portanto, não despreze o mistério do homem em você sentindo pena de si mesmo ou tentando racionalizá-lo.
Despreze a estupidez do homem em você, compreendendo-a. Mas não se desculpe por nenhum dos dois; ambos são necessários.
Uma das grandes manobras dos espreitadores é contrapor o mistério à estupidez que há em cada um de nós.

(Carlos Castañeda - O Fogo interior, p.177-178)


Fui tomado por um pensamento: Aprender o que importa à vida e não a mim mesmo.
Durante muito tempo a ordem da vida era a transformação, e tudo o que existia era fruto de um elemento anterior.

Assim foi o olho por olho, cujo entendimento era o de que para se gerar a vida era necessário uma vida; somente com a semente germinava uma planta, num ciclo da vida reiniciando com o que se denominou morte. Aquela visão de recomeço, pros antigos: a passagem de uma forma à outra, exigia o fim da anterior, cujo bom aprendizado era ofertado pelas borboletas.

Bem, de certa forma era a única opção existente até algum momento quando a Ordem gerou um novo estatuto, o da transmutação, e foi possível a transfiguração. Nele, o elemento básico não era de ordem física, nem espiritual, nem emocional, mas uma síntese inseparável de tudo o que havia, e, por sua essência, denominou-se amor.

Emissários apresentaram a nova Lei. Os que permitiram-se um novo modo de acesso à Ordem, descobriram seu poder regenerador, multiplicador e aperfeiçoador.
Essa seria a história que eu contaria, se tivesse a habilidade de contá-las de um modo convincente. Como tantas outras, buscando apenas espelhar um aprendizado de eras, que se acumulou nas tradições — as religiosas, inclusive — apenas para tentar demonstrar que o sentido da vida é a própria vida, mas em sua plenitude.

Como tudo que se combina e se transforma nas reações e sínteses de um corpo humano, apenas um espelhamento do que acontece no universo: um só corpo, uma só mente, um só espírito. A totalidade.

A nova Lei determinava que no que convencionamos denominar de partes constituintes — do mais ínfimo, nano ou outra palavra que defina o menor possível — estava o fundamento de tudo. Nela foi-nos apresentado o sentido do quem quiser ser o maior, seja como o menor, espelhe-se e aja no que há de mais simples. A reversão de um modo ser e estar estabelecido com a tecnologia da sobrevivência, a genética do mais adaptável, a preponderância do mais forte.

Os que dominavam no mundo de então estavam exauridos com a preocupação pela manutenção de seu poder que não podiam ter vidas próprias, sentimentos em seu estado mais puro — tudo girava em torno de uma perspectiva estratégica de trocas interessadas e manipuladas: me sirvam que eu os defendo; sacrifiquem-se e serão abençoados; seu sangue em troca da paz.

E com a fundação da nova ordem ocorreu a reversão, a possibilidade da aglutinação em prol do todo. Na busca da plenitude de cada um, o bem maior para o coletivo. E a lógica pôde ser aplicada em todas as esferas da existência. Não a igualdade para todos, mas a diferenciação máxima: conjuntos de células diferenciadas estruturando, por união, órgãos diferenciados, que desenvolvem funções que estruturam um conjunto e constituem uma totalidade. Todos plenos, todos exercitando seu potencial máximo, todos solidários.

Foi assim que seu fundador demonstrou que a beleza do mundo e sua sustentação e plenitude não podem existir sem seu substrato: a energia. E a energia deste novo mundo era o amor.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 09 de junho de 2014.

* Há diversas visões que tentei aglutinar nesse texto. Práticas dos antigos e dos novos xamãs, sacerdotes ou pensadores.
Penso que não precisamos jogar fora as lições, do mesmo modo que não precisamos repetir as práticas ou costumes apenas por si mesmo. Não devemos temer ser os produtores de um novo modo de lidar com os velhos problemas.
Apenas isso: o aprendizado que ultrapassa o si mesmo é o que importa à vida.

26 de mai. de 2014

Cavalgar furacões

Cavalgando furacões, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 26-05-2014
Cavalgando furacões, criado em 26-05-2014.

Ele abriu os céus e desceu; nuvens escuras estavam debaixo dos seus pés.
Montou sobre um querubim e voou; elevou-se sobre as asas do vento.

(Bíblia — 2 Samuel 22: 10-11)

Sopra o Vento!
Voam pelos ares cadeiras, o lixo. Dança a Sacola Plástica.
A bola inalcançável já não faz mais a criança feliz,
Nem o boné aperta os miolos de mais uma Cabeça de Vento.
Ri o Vento pois não há nada mais rebelde do que ele.

(Quando o Vento sorri — C. A. Albani da Silva - 19-09-2012)


Apenas uma sugestão a você que se aventurou por essa leitura: o intrincado jogo de palavras que utilizo aqui não deve ser um elemento paralisador. Ilusões nos dirigem sem controle, mas no mundo tudo é ilusão, a tal ponto que, no pensamento cristão, para superar as limitações todos serão transformados.

Para pontuar o motivo do texto, vou dizer: Vá por mim, a razão não é o melhor instrumento quando você é surpreendido ao ser engolido por um furacão. Uma outra via deve ser ativada, e de forma urgente.

Minha sugestão é que você permita-se adotar as práticas dos inventores, especialmente quando os instrumentos existentes são defasados para uma determinada tarefa. Um modo de entendimento sobre o que eles fazem é exemplificar que quando seus sentidos falham na tentativa de enxergar pelas ondas luminosas (está escuro, há bloqueios) descobrem um meio de usar a detecção de ondas de calor, que permite.

Não é bem uma surpresa, para quem já viu algum filme que utiliza tecnologias avançadas, certo? É um simples processo de usar nível de ondas diferenciadas. Vou me apropriar — nesta prática de escrita-proposição — dessa lógica da viabilidade de trocar o método de percepção. E vou perguntar: Por que acontece o abandono das percepções inimagináveis por uma fixa, se a capacidade de absorção que possuímos ao nascer é virtualmente infinita?

Uma das respostas que me deram foi a inexistência de verdades estabelecidas até que a lei da sobrevivência física toma a dianteira (não há percepção sem uma estrutura que perceba) na forma de uma intricada relação simbiôntica que permite a sobrevivência do todo: um filhinho descobre que sem a mamãe não irá adiante e, com isso, o seu possível torna-se limitado — sem aprender os modos desse ser que lhe dá o suporte, não conseguirá descobrir nem vivenciar suas próprias descobertas.

Dê um pequeno salto e avalie que os seres humanos são frutos de uma adaptação ao planeta mãe. Isso bastaria como apresentação (bem básica) para a inserção de uma alma no mundo, mas não explica o porque de tantos não desenvolverem práticas que permitam retornar àquele desconhecido, optando por permanecer cativos dessa realidade fixa.

Dizem que as almas migram. Se o fazem deveria ser pelo prazer de novas descobertas. Mesmo os que assim acreditam, divergem com relação ao tempo: entre vidas, na própria vida (tipo viagem astral) ou na pós-vida. Será que, adotando-se a eternidade da alma, a questão se resolveria?

Duas vertentes geradoras de modos de pensar-agir me tomaram, a arte e a filosofia. Com filósofos entendi que as pessoas podem usar a alma para ir à fonte primordial do pensamento e, com isso, estruturar ideias dos possíveis existentes por lá. Com artistas entendi que uma obra de arte deve permitir à alma uma subversão das estruturas estabelecidas no mundo das verdades.

Vejo nesse conjunto de pensadores, práticas que são pedagógicas em si. Mas, e cada vez mais, gosto de imaginar que é a transformação pessoal provocada pela experiência estética o motivo para torná-las tão valiosas. Afinal diante de uma arte plena, inexplicavelmente, somos remetidos ao mundo sem fixidez, onde todos os significados vivem na dança das cadeiras, com a pequena distinção de que ninguém é excluído.

No mundo desses seres pensantes, não há determinação de um modo correto de viver, são vários; não há interpretação verdadeira, há modos de apreensão. Só que uma proposição como essa não tem sido o que, em geral, a humanidade deseja ou adota. Ela exige que cada um envolva-se por si e para si mesmo. O desafio, a diferença, a divergência tornam-se o campo de forças sem o qual não somos motivados nem nos deslocamos.

Encará-la exige muita coragem: corre-se um risco sério ao tentar cavalgar furacões. Mas, à rigor, sempre há momentos em que é possível enlouquecer, não importa se você é algum dos que fazem da vida uma busca consciente ou dos que preferem o deixa a vida me levar.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 26 de maio de 2014.

* Uma curiosidade para mim, é que quase desisti de colocar o ser alado cavalgando o furacão, na imagem.

24 de mai. de 2014

Vulcanos

Vulcanos, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 24-05-2014.
Vulcanos, criado em 24-05-2014.

Vulcão é um tipo de montanha, uma estrutura geológica.
Sua produção é realizada por magma, gases e partículas quentes quando emergem à superfície.
Para além do magma derramado, sua função é injetar poeira, gases e aerossóis na atmosfera
— sem a dose projetada a transformação da superfície retardaria.
Mesmo que inconscientemente, somos pequenos vulcões nas relações que estabelecemos na terra.

(Wellington de Oliveira Teixeira)


Dói, para si e para quem atinge.

Mas, um vulcão que não expele suas lavas não cumpre sua função porque não basta tê-las aceitado dentro de si: sendo substrato e fruto do mundo inteiro, a ele deve retornar.

O significado da dor que sofreu ou da que causou só aparecerá depois; o entendimento da energia gasta e das consequências, muito tempo depois — talvez depois de estar extinto.

Nossa linearidade impede de entendermos o processo.

É necessário retornar à helicoide, ao cone cuja ponta está na base. Um pequeno furo capaz de transbordar imensos jarros produtores de vida.

Talvez por isso as espinhas nos rostos para corações adolescentes: hora de transformar a casca exterior.

Talvez, repito por não ter outra palavra para expressar, somente assim aprendamos que nesta vida o passageiro é apenas isso. Sua viagem por ele também.

E enquanto não entendermos as interpenetrações das realidades (cada um possui a sua) não alcancemos a beleza desse engendramento.

A terra, a areia, o tijolo, as ferramentas e tudo o mais usado, jamais alcançarão os desígnios do engenheiro. Será preciso ultrapassar o tempo da construção para se apreciar o resultado, ainda porque nenhum de nós teve a chance de olhar a planta original.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 24 de maio de 2014.

* Para Diogo de Azevedo Ramos, um filhote de vulcão.

8 de mai. de 2014

O necessário para refazer as suas forças

Turbulências, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 08-05-2014.
Turbulências, criado em 08-05-2014.

Senhor, dai-me a serenidade para aceitar o que não pode ser mudado;
a coragem para mudar o que pode ser mudado;
e a sabedoria para distinguir uma coisa da outra.

Reinhold Niebuhr


Turbulência é algo tão complicado quanto os seus sinônimos: agitação, alvoroço, desordem, inquietação, motim, perturbação, abalo, comoção, conflito, conturbação, desassossego, ebulição, efervescência, estremecimento (a lista é imensa!). Permitir-se um momento de recolhimento é uma tentativa de facilitar lidar com as consequências do que ela provoca na vida.

Há alguns movimentos da natureza que me referenciam o entendimento a respeito de como afetam o dia a dia — meu e de outros caminhantes da estrada da vida. Dentre eles, dois eu considero muito assustadores. São o vulcão em atividade e os tornados, pois destroem a superfície existente ao seu redor e promovem a mudança. Digo que são agentes de transformações radicais.

À distância, é lindo ver a erupção de um vulcão submerso. Documentários a respeito retratam sua atividade modificadora e seus efeitos que alcançam até a prática de surf nas praias, dependendo da profundidade. Tornados na superfície da terra, também. Sempre deixam um rastro que atesta a sua passagem.

Eu construo a minha reflexão com um aprendizado anterior: a água ultrapassa as questões pois aprendeu a ser fluida e a se transformar. Outros elementos são simplesmente destroçados.

Várias questões encaradas diariamente são capazes de transformar uma vivência, remexendo com sentimentos e pensamentos. Dificultam mais quando não há uma ação possível que esteja ao alcance para modificá-las.

Inatividade não é opção ou uma solução. Mas refletir, meditar pode ser. Se não para mudar a questão, para alterar o modo de encará-la ou de ser afetado por ela. E isso não é apenas jogo de palavras.

Quando alguém decide se definir como aprendiz da vida, imediatamente aceita o fato de que nem sempre dará conta de todas as questões. Independente do esforço dispendido para o aprendizado, algum dia surgirá uma questão na prova e ficará confundido ou incapaz momentaneamente de resolver.

Adotar esse posicionamento pode promover um pouco de paz na tormenta, nas revoluções que atingem diretamente a alma e gerar a calma necessária para ir aprendendo e superando, aos poucos.

Há uma reflexão, em forma de oração, atribuída erroneamente ao Francisco de Assis, que tem sido de grande auxílio em situações extremadas ao incentivar ousadia para mudar o que posso, tranquilidade para o que não posso e buscar a capacidade para realizar a distinção.

Sim, porque a vida segue, mesmo quando não estão solucionadas as questões. Mas você se permitiu a abertura necessária para acolher um pouco serenidade e paz: o necessário para refazer as suas forças.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 08 de maio de 2014.

Furacão (também chamado de ciclone ou tufão): ocorre em mares de águas muito quentes (acima de 27°C) e refere-se à mais forte tempestade da natureza, com até 1.000m de diâmetro e ventos a partir de 120km/h. Em seu centro ou 'olho' (de até 16km de diâmetro) é bem calmo, porém o turbilhão ao seu redor há ventos de mais de 300km/h.
Tornado: tormenta violentíssima que ocorre em qualquer lugar, cuja duração é de até três minutos. Sua base ou 'funil' tem poucos metros de diâmetro e ventos de até 800km/h, e arrasa tudo no seu caminho.

30 de abr. de 2014

Reviravolta

Reviravolta, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 30-04-2014.
Reviravolta, criado em 30-04-2014.

s.f. Ato ou efeito de desfazer a volta;
giro ou volta sobre si mesmo, firmando-se apenas em um dos calcanhares;
volta rápida, pirueta, contravolta: o ginasta fez uma reviravolta.
Mudança brusca: reviravolta de opiniões.

(http://www.dicio.com.br/reviravolta/)


Hoje eu escolhi focar nos momentos felizes de pessoas conhecidas, amigas e ver como a vida é diversificada: estonteantemente capaz de produzir felicidade nas situações onde prevalece uma tristeza.

A bem da verdade, acredito que é mais uma capacidade humana de determinar a dosagem que se permitirá vivenciar de cada uma - a cada momento.

Sim, às vezes precisamos desviar o foco da nossa atenção, por alguns momentos, de determinados aspectos da realidade. Ela pode ser bastante dura, especialmente naquelas situações de grandes dificuldades que envolvem você e uma pessoa amada.

Há um determinado desgaste, que surge nesses casos, que ultrapassa o cansaço físico. Ele mina com as certezas e seguranças e corrói a esperança. Isto é, se não houver o devido cuidado e respeito a si mesmo.

É certo que somente encarando o desafio poderemos ultrapassá-lo. Mas é certo, também, que focar um ponto apenas, por muito tempo, provoca uma visão turva ou nebulosa.

Então, equilibrar-se nessas horas é precisamente dosar o foco no alvo, permitindo-nos um descanso de tempo em tempo para que, ao voltar, a visão esteja mais liberta e possa perceber e avaliar os detalhes, novamente.

Para ampliar a analogia, é ousar criar uma nova perspectiva, fazer um giro sobre si mesmo e dar uma reviravolta.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 30 de abril de 2014.

* Adorei saber que é o Mathias quem está a caminho, Mariana!

23 de abr. de 2014

Ladrilhos e fragmentos


Ladrilhos, criado em 22-04-2014.

Parte da genialidade de Einstein consistiu em perceber que embora as colisões ocorram com muita frequência,
como as moléculas são muito leves, colisões isoladas não têm efeito visível.
As mudanças de direções observáveis só ocorrem quando, por pura sorte,
as colisões numa direção particular forem preponderantes[…].
Quando einstein fez as contas, descobriu que, apesar do caos no nível microscópio,
havia uma relação previsível entre os fatores[…].

(Leonard Mlodinow - O andar do Bêbado: como o acaso determina nossas vidas, p. 178)


É possível não se gostar da ideia, mas somos um apanhado de ladrilhos sobrepostos em uma superfície que não é plana, nem um pouquinho, e, por mais que a gente queira, não se complementam bem. Tem tortuosidades, reboco aparente, partes descascadas, infiltrações e tudo o mais que garante a não homogeneidade, apesar de a apresentarmos como tendo.

Como o núcleo da terra, estamos em ebulição constante que liquidifica todo o material absorvido e o transforma, com um gasto considerável de energia.

De vez em quando, a mistura não se dá facilmente e ocorrem reações turbulentas que, de tão violentas, extravasam à superfície. Exatamente como os vulcões. Conforme o tempo passa, a massa se esfria e solidifica, criando uma nova carcaça. Assim se transforma a face visível.

Essa é a versão natural dos acontecimentos. Excepcionalmente, porém, esse processo também acontece provocado por tempestades emocionais que remexem com nosso conteúdo interior como num caldeirão de bruxa. Por ser um processo súbito, os raios de grande intensidade e velocidade penetram a superfície e, como os que provocam as trovoadas ensurdecedoras, atraem a nossa atenção.

Dependendo da capacidade de administrar suas consequências — um processo que pode ser demorado, doloroso, mas sempre revelador — a descaraterização da superfície ocorre e alguns não se reconhecem mais. É o surgimento de um novo eu, fundido como ferro ao fogo.

O que revelará, só se mostrará após o tempo de resfriamento. Para quem é cuidadoso consigo mesmo, talvez (quem sabe?), se houver dedicação cuidadosa ao processo de aparamento das arestas e polimento de sua superfície, a modelagem possa ser realizada de acordo com o perfil que sua vontade determine.

Em todos os casos, não há retorno quando acontece. A transformação ocorre e os ladrilhos se modificam, ou se perdem.

Somos um mundo rico em transformações de microescala. Fragmentos copiando a ordem natural da natureza cósmica. Afinal, nossas partículas não são tão diferenciadas de nós perante o todo.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 22 de abril de 2014.

Vulcanismo é um fenômeno geológico que ocorre do interior da Terra para a superfície, quando há o extravasamento do magma em forma de lava, além de gases e fumaça e é resultado das características de pressão e temperatura contidas no subsolo.
(Brasil Escola)

Por se tratar de um processo que ocorre em uma escala temporal mais lenta, durante o processo de fragmentação natural as espécies tendem a se adaptar às transformações da paisagem; em contrapartida com o forte aumento do intensivo processo de fragmentação gerado pelas atividades humanas, a perda estrutural e qualitativa de habitat tem aumentado o número de espécies ameaçadas.
(R. B. Primack - Essentials of conservation biology)

26 de mar. de 2014

Sinalizando mudanças

Wellington de Oliveira Teixeira
Foto para o jornal Sete Dias, 07-03-1982 *.

Olhar as águas de um riacho, sentí-la, vivê-la,
é uma forma de se receber energias bio-físicas e se reencontrar consigo mesmo.
Espero vencer na vida, conseguir um emprego, vencer as barreiras que me esperam,
mas nunca perderei minha identidade humana.
Wellington de Oliveira Teixeira, em 07-03-1982.

Não dê as costas a possíveis futuros antes de ter certeza de que não tem nada a aprender com eles.
O que a lagarta chama de fim de mundo, o mestre chama de borboleta.

Richard Bach - Ilusões - As aventuras de um Messias indeciso


Alguns pensamentos me contagiam, talvez porque possibilitam a inversão de um modo de encarar determinadas questões. É o caso do que definimos como fim.

Se nos permitirmos o cuidado de analisar, o ponto que finaliza uma frase é o mesmo que já possibilita o início de outra.

Por algum motivo o fechamento não ocorre, a questão se estende para uma perda, suscita em nós um certo saudosismo, a vontade de não abrir mão. Em qualquer dos casos, produz acorrentamento. Selecionei uma palavra forte, não é? Mas, não se iluda, ela representa muito bem a cadeia de pensamentos que nos obriga a manutenção e impede o afastamento ou desligamento.

Nem tudo, porém, deve ser visto como impeditivo, uma vez que a capacidade de referenciar-se está ligada à retenção de alguns aspectos importantes da vida. Assim, ao se guardar um acontecimento ou experiência passada, sustentamos o bom ou mau sentimento que nos proporcionou: isso é o que podemos chamar, em sentido amplo, de aprendizado emocional ou intelectual.

Dou exemplos: todos conhecemos o uso como gíria da palavra legal (legal, cool, nice, do inglês). Alguém sabia que 'legal' vem do inglês do século XII, e significa tolo ou estúpido? Como eu disse, as coisas se transformam e o novo modo pode suceder ao uso que era comum, até mesmo o padrão assumido. Pense, então, no uso da palavra 'sinistro', que foi febre há algum tempo atrás, no Brasil, ou o irritante 'tá ligado?' carioca. Em breve outros termos ocuparão seu lugar.

Quando pararmos de encarar os términos como negativos, poderemos absorver um encantador conceito: desenvolver-se é ultrapassar o limbo das repetições e buscar o novo, o diferencial ou as mudanças. É ir adiante carregando apenas o que se conquistou que nos fortalece. É avançar.

Talvez, fim seja apenas isso: a marca da transição.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 26 de março de 2014.

* Essa é a primeira vez que publico essa foto e o trecho da primeira entrevista que dei na vida, para o jornal Sete Dias, quando passei em primeiro lugar para o curso de Psicologia da UFF, há 32 anos atrás. Muitas coisas mudaram, inclusive eu mesmo. Mas meus ideais conseguiram superar o tempo.

17 de jan. de 2014

Impronunciável

Revolução amorosa, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 11/01/2014
Revolução amorosa, criado em 11/01/2014.

Uma Revolução Amorosa não pode se servir de armas, batalhas, jamais promoveria uma guerra, nunca derramaria uma gota de sangue. A Revolução Amorosa que imaginamos aproveita a Revolução Sexual iniciada há meio século para ir além do corpo exposto e eroticamente ativo. Quer chegar à alma e abrir as defesas que nos impedem de amar de modo amplo e intenso. A trajetória é desenvolvida por exercícios emocionais que questionam condutas e valores morais, substituindo-os por referenciais éticos. Uma ginástica afetiva que gradualmente substitua a moral pela ética pode representar tempo e espaço estendidos e suficientes para que nos aproximemos da Era Amorosa.
(Joaquim Z. B. Motta - A Moral do Amor - da Revolução Sexual À Revolução Amorosa


A experiência da vida é algo extremamente sutil*, não apenas por ser uma apropriação única de vivências. O toque do que nos escapa, do intangível e das considerações sociais pode tornar-se um fardo. E pesado.

Viver o silencioso mundo do oculto e abrigar a terrível missão da omissão, em si, já desconstrói qualquer fortaleza e corrói os escudos defensivos projetados pela razão.

Não é apenas uma questão de valoração. Certo ou errado - a maioria das vezes, neste caso - é apenas reflexo de uma moralização do encontros.

Acontece que a proposição de vivência compartilhada é singular, principalmente se incluir o obscuro mundo dos desejos, aspirações e pirações que a fantasia do viveram felizes para sempre produz.

É provável que seja possível desgrudar o desejo de ter prazer da fantasia do relacionamento perfeito e da apropriação do sentimento do outro. Para alguns que consigam, deve ser a chave para um respeitável modo de associação. Algo como aquela construção social do após a chama da paixão a amizade sustenta.

Ponderar o quanto há de disponibilidade, em si mesmo, para além de aceitar a trajetória do outro e permitir-se o alegrar-se com o caminho que ele percorre, o fazê-lo de forma abnegada e tranquila vivenciando isso sem intromissão dos próprios anseios, é algo que pode ser considerado uma tarefa impossível. Talvez, por isso muitos encaram esperançosamente o desafio. Um 'vamos ver no que dá' quase que inconsciente.

Como tudo na vida, provoca um desgaste. Só que, desta vez, na superfície da alma. E não é de forma alguma imperceptível ou desprezível. Muitos degeneram. Muitos perdem sua propriedade. Muitos se descaracterizam a ponto de não mais encontrar seus referenciais próprios: sucumbiram ao outro e ao seu desejo.

Uma questão que precisa ser solucionada é a de em que medida o confundir-se com o outro, o integrar-se ao outro e a entrega de si não despersonaliza.

Alguns, por conta de um determinado reforço social, não se ressentem da perda de si: autômatos em prol de fazer funcionar um relacionamento, esquecendo que não há relacionamento quando apenas uma parte cede, abre mão ou se abnega. Isso ficou claro nos relacionamentos constituídos durante os últimos séculos.

Como fruto da premissa da negação de si, juízes do comportamento alheio. Julgadores de práticas diferenciadas, mesmo quando escamoteado pelo verniz do desejo do melhor para alguém.

O mundo das relações não é mais o mesmo: as novas construções são determinadas pela exigência de equilíbrio entre as necessidades individuais e as do relacionamento e não há mais o temor do afastamento quando isso não ocorre.

A rejeição aos ditames morais que desqualificavam os que se separavam é algo que se estabeleceu em função de um desejo de encontrar, ou ver alguém amado encontrar, a felicidade compartilhada.

Mas alguns casos ainda não chegaram a receber o benefício dessa nova prática. Ficam escusos, ficam malogrados num gueto de relações indizíveis e se sustentam no apesar de, numa coragem de sobrepujar o imposto, o predeterminado.

Mas, mesmo entre esses, é possível aplicar essas reflexões: todos carregam muito de séculos de representações oficiais. A construção do novo não acontecerá do nada e nem será um decreto que acabará com as regras anteriores.

Sem questionar as diferenças, nem me prender a nenhum conceito pre-estabelecido, me permito avaliar o que percebo, o que vejo, o que não vejo mas surge e se expressa no apesar de. Talvez minha prática como psicólogo ou pensador seja algo a que não posso escapar. Talvez a minha vivência compartilhada seja um elemento provocador. Talvez haja tantos 'talvez' que eu me perca na tentativa de elencá-los, simplesmente para tentar justificar um texto, uma proposição, uma provocação das coisas que quando me pegam e não me soltam me levam às últimas consequências para tentar falar o impronunciável.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 17 de janeiro de 2014.

* A vida tem notas como de perfumes.
Perfumes são como fogos de artifício e sua graduação: explode com as notas de cabeça (o detalhe marcante do primeiro segundo), enriquecendo seu efeito com as notas de coração até que as notas de fundo o mantém como um rastro em nossa recordação.