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25 de jul. de 2014

Transportabilidade linguística

Transgeneralização, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 23-07-2014.
Transgeneralização, criado em 23-07-2014.
Liberem-no com um gesto demasiado violento,
façam saltar os estratos sem prudência
e vocês mesmo se matarão, encravados num buraco negro,
ou mesmo envolvidos numa catástrofe, ao invés de saltar o plano.
O pior não é permanecer estratificado – organizado, significado, sujeitado –
mas precipitar os estratos numa queda suicida ou demente,
que os faz recair sobre nós, mais pesados do que nunca.

(Giles Deleuze e Felix Guattari — Mil Platôs: capitalismo e esquizofrenia. v.3, p.23-24)


Línguas de ascendência latinas são eminentemente machistas perante a questão de gêneros. A nossa também. Dizemos: as rosas e os cravos, eles são lindos. Viu? Diante de palavras com gêneros diferentes priorizamos o masculino. Parece natural, mas linguagem é algo criado para a comunicação, logo qualquer padronização vem das relações sociais existentes.

A língua permite atravessamentos nas portabilidades. Da antiga preponderância biológica e genética do XY ou XX, constituímos valor para a manifestação subjetiva onde estes elementos não possuem determinação no gênero, socialmente vivenciado.

Não tão comuns como na língua inglesa*, há substantivos que possuem uma única forma indistinta (geralmente chamados de comuns de dois**) que necessitam de artigo (o, a, um, uma) ou outros elementos textuais para determinar o gênero: anarquista, camarada ou colega, colegial ou estudante, fã, imigrante, indígena, doente, suicida. Há profissões — e suas relações — que encampam a mesma ideia: agente, dentista, intérprete, jornalista, taxista, policial, servente, gerente, chefe, cliente.

Poderíamos chamá-los de unissex, termo criado na década de 1960, para dar conta das práticas dos hippies de abarcarem elementos transgêneros em função das ideias de compartilhamento universal: cabelo, roupa, acessórios, dentre outros, não deveriam ser determinantes de sexualidade. Se na época eram posicionamento contra o estabelecido ocidentalmente, tornou-se algo comum, adotado até hoje.

A proposta não visa — como tenta induzir o livro UNISEX – A criação do ser humano “sem identidade”, de Enrica Perucchietti e Gianluca Marletta — à constituição de um imaginário global influenciador das escolhas das massas ou demolir as identidades sociais, religiosas, políticas ou culturais. Que dirá a absurda correlação com a desintegração da instituição familiar para criar o consumidor perfeito, facilmente manipulável***.

Em contraposição a esse nível de preconceitos, a atual linguagem proporciona um apontamento diferenciado, uma abertura clara na fundamentação da comunicação: é preciso transpor a predeterminação, pois não há como obrigar ninguém a se sentir como gostaríamos. Até há, e infelizmente a história comprova, a custa de muitos seres infelizes, a formação dos guetos sociais.

Para ilustrar a questão da transposição dos gêneros, vou utilizar uma proposta bem humorada do DCE da Uff que recorre a uma generalização do masculino quando a ideia implica em aumentativo ou força: Bandejão, a bandeja transgenérica. A maioria das pessoas, por força do hábito, esquece que aumentativo de bandeja é bandejona e não bandejão. Mas produzimos a transposição do seu gênero para demonstrar ampliação e criamos o transgênero A bandejão (em contraposição a bandejona), por ser inaceitável, transformou-se em O bandejão - o bandeja agradece.

Um costume que não aprovo — o de se realizar questões de múltiplas escolhas tendo no enunciado Marque com um X a opção… — foi tão usado, no período em que se queria reprodutores de conhecimento e técnicos especialistas e não pessoas pensantes, que se perpetuou. O tal X, porém, acabou sendo adotado para algo muito interessante, que vejo com muito bons olhos: seu uso como elemento genérico de desgenerização por inclusão. Se antes excluíamos o feminino, agora ele introduz o conceito de universalização, de participação geral e todxs estão convidadxs a usá-lo.

Wellington de Oliveira Teixeira, entre 24 e 25 de julho de 2014.

* Com ascendência da língua falada pelos povos germânicos, o idioma nascidos nas ilhas britânicas conhecido como anglo-saxão, o originalmente Englisc (ou língua dos anglos") deu origem ao inglês atual.

** Cuidado para não confundir substantivos comuns aos dois gêneros com substantivos sobrecomuns (que apresentam um só gênero, como a criança, a testemunha, a pessoa; ou o gênio, o anjo, o algoz) ou epicenos (nomes de animais que precisam do macho/fêmea para distinguir (a cobra, a formiga, a gaivota; ou o condor, o crocodilo, o gavião).

*** A visibilidade da questão dos gêneros não biológicos, antes completamente escondida dentro dos armários, passou a integrar a agenda mundial. Banheiros unissex, não separados, dentre outras transformações, criaram um reboliço imenso nos setores mais conservadores. O que poderia ser apenas uma prática inclusiva transformou-se em uma nova chamada à guerra pelos valores tradicionais, de modo similar aos racistas americanos da Klu Klux Kan (KKK) — cujo objetivo era impedir a integração social dos negros recém-libertados e a universalização dos direitos de cidadãos como adquirir terras e votar — apelam para a destruição dos valores e da família.
A história — quase sempre esquecida — se repete e fundamentalistas reaparecem com outras roupagens.

18 de jul. de 2014

Fragmentos recuperáveis

Fragmentos recuperáveis, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 16-07-2014.
Fragmentos recuperáveis, em 16-07-2014.

Da Vinci sempre fora um tema embaraçoso para os historiadores, especialmente na tradição cristã. Apesar do seu gênio visionário, era um homossexual assumido e um adorador da divina ordem da Natureza, dois "crimes" que o colocavam em perpétuo estado de pecado contra Deus. Além disso, as bizarras excentricidades do artista projetavam uma aura admissivelmente demoníaca: da Vinci exumava cadáveres para estudar a anatomia humana, mantinha misteriosos diários em uma ilegível escrita invertida, acreditava possuir o poder alquímico de transformar o chumbo em ouro, julgava-se até capaz de enganar Deus criando um elixir que adiava a morte, e as suas invenções incluíam horríveis e nunca antes imaginados instrumentos de guerra e de tortura.
A incompreensão gera a desconfiança, refletiu Langdom.
(Dan Brown - Código Da Vinci - edição especial ilustrada, p.52)

Há quem reclame de tédio, mas quer apenas novidades mais ou menos — do tipo que não altera o status quo padrão: ir para novos restaurantes e casas de show, nova tendência da roupa (agora a calça tá mais apertada e colorida!); a gíria, cantor ou banda da moda.

Os retornos constantes de tudo que marcou época, mesmo com pequenas modificações, são a marca da falta de construções realmente novas. Mas, quem as quer realmente?

Sendo franco, acredito que, no fundo, poucos gostam das alterações radicais das rotinas, do desconhecido, do que exige um esforço para se concretizar. O incerto carrega, potencialmente, o medo em sua composição, daí a resistência. Mas, se houver vontade de avaliar, creio que se perceberá que, para contornar a questão, a cultura dominante promove sempre a aproximação com alguma antiga radicalidade que foi apropriada pelo sistema, como o foram as culturas limítrofes do skate, do surf, do rock. Os novos, controlados e lucrativos esportes radicais.

Não é difícil você encontrar expressões com a expressão inglesa new — como foi com o new hippie — para caracterizar o controle. O que era uma marca registrada de um modo de ser aventureiro, o velho jeans amaciado no corpo, surrado com o uso até tornar-se puído, tornou-se uma calça novinha, produzida com as mesmas características - com um preço justo, por isso, é claro: sua pressa foi atendida.

Em um mundo orientado para produtos ou orientado para clientes e não pessoas, o new você já virou padrão: renove-se! A questão que se apresenta é que a proposta não propõe a existência de nenhuma mudança real, são apenas enfeites e penduricalhos no velho manequim — que continua o mesmo de sempre.

Não gostamos do medo, mas deveríamos, mesmo sendo ele paradoxal: se a sobrevivência é impossível sem ele, a impotência se sustenta nele. E você fica entre um extremo e outro, deslizando em função dos acontecimentos e das emoções.

A ousadia na vida é algo tão sui generis que as pessoas já adotaram a expressão isso não é pra mim, quando confrontadas ou incentivadas a tentar.

Então, e essa é a proposta dessa reflexão, não se preocupe, ouse um pouco mais, deixe cair alguns pedaços. Um dia você reabsorverá grande parte dos fragmentos que ficaram dispersos pela vida — repletos de histórias e emoções que o contagiarão de revivências. Os outros, os que não importam de verdade, é melhor que realmente não voltem.

Mas haverá, certamente, haverá uma questão a que você será confrontado: reconstruir, renovar ou construir algo novo?

Wellington de Oliveira Teixeira, em 18 de julho de 2014.

* O código Da Vinci, como livro ou filme, permite aventura e descobertas. Mais ainda, pensar em inventividade: o mundo do explorador de possibilidades, Leonardo, é uma mostra do espírito humano em sua incansável busca por transformação, aperfeiçoamento e expressividade. Todos os códigos apresentados na obra são fragmentos que precisam ser questionados, avaliados e aglutinados para criar um painel completo. Crítica à perda de reverência pelo sagrado, afloram mais que às instituições religiosas ou práticas perversas individuais. Encantadoramente subversivo.

14 de jul. de 2014

Moitidis

Moitidi, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 14-07-2014.
Moitidi*, criado em 14-07-2014.

O Destino é uma sucessão inevitável de acontecimentos que conduz a vida
de acordo com uma ordem natural, onde nada que existe pode escapar.
Na mitologia grega, as três irmãs responsáveis por fabricar, tecer e cortar
aquilo que seria o fio da vida de todos os indivíduos eram as Moiras.
Seu tear chamava-se Roda da Fortuna que em suas voltas posicionam o fio do indivíduo
ora na parte superior, ora na parte inferior, explicando-se assim os períodos de boa ou má sorte,
o auge e o fundo do poço de todos nós.


Vamos admitir em um puro exercício de imaginação que houvesse um destino traçado para cada um de nós. Tracejado, indicando uma rota. O preenchimento dos espaços vazios ficando por conta das vivências, como o conceito de meta valorizado no mundo atual.

Lamento dizer que essa ideia tão sedutora apenas criaria uma ilusão de liberdade, de escolhas, de propósito.

Talvez influenciados pela morte inescapável ao final de qualquer trajetória, é isso que constantemente boa parte de nós utiliza como desculpa para minimizar a grande responsabilidade que é gerir, por si mesmo, a própria vida ou se livrar da carga de pensar na inutilidade de muito dos sacrifícios aceitos ou exigidos de si mesmo.

Criamos um moitidi, um destino e o culpabilizamos para nos isentar do complexo mundo das possibilidades. Inventamos o revés e o azar para justificar escolhas falhas ou que não resultaram em nosso desejo satisfeito. Construímos um paraíso ou a perfeição para escalarmos nossas conquistas.

Entendo a produção na psiquê do vislumbre de um futuro melhor, o que se denomina de esperança, que age como uma isca a nossa frente para nos levar adiante. Está na estruturação atual de nosso dna como um construto chamado sobrevivência. Nele, tudo o que você imaginar é possível, até a destituição completa de qualquer verniz de moral ou de civilidade, simplesmente porque essas práticas foram adotadas em função da necessidade do convívio, da reprodução, da proteção e da percepção de que, em grupo, o projeto de sobreviver seria facilitado.

Civilidade durou até o momento em que a lei do mais forte voltou a imperar. Demos um passo atrás no nosso desenvolvimento e abrimos espaço na natureza para uma prática inexistente: matar por divergência, por diversão e toda e qualquer forma de preconceito.

A dominação de territórios já fazia parte de uma grupalização — inclusive para a propagação de um dna do mais apto a sobreviver — que permitia o controle do assédio de predadores ousados.

Agora nos tornamos nossos maiores destruidores. Eliminamos inclusive da ordem da natureza a sobrevivência em troca do 'quero mais, muito mais pra mim', do acúmulo do desnecessário. Destituímos as coisas de seus valores intrínsecos e as carregamos de um desejo de superioridade: uma marca vale mais que o produto. E conseguimos fazer com que esta ilusão fosse compartilhada, tornando-se a dominante, ao ponto de que, se você não tem, mate para obter.

Futuro para que?

Wellington de Oliveira Teixeira, em 14 de julho de 2014.

* No terceiro dia, quando o sol tocou a forma novamente, ela abriu aqueles olhos e enxergou o mundo. "Eu sou Cénzi", disse a criatura, "e esse lugar é meu". E ele então se levantou e começou a andar…
Este é o início do Toustour, o Conto Supremo. Com o tempo, conforme a história da criação continua, Cénzi sente-se solitário e cria companheiros, os moitidis, feitos a partir do sopro de seu corpo, que ainda continha o grande poder de Vucta. Esses companheiros, por sua vez, imitam seu criador e dão origem a todas as criaturas vivas da terra: plantas e animais, incluindo os humanos. Os próprios sopros dos moitidis eram fracos, e portanto suas criações saíram igualmente imperfeitas. Mas o sopro de Cénzi e os sopros mais fracos dos moitidis permearam a atmosfera e tornaram-se o Ilmodo que os humanos conseguiram aprender a moldar através da reza, devoção a Cénzi e intenso estudo.
Mas o relacionamento entre Cénzi e sua prole sempre foi litigioso, marcado por conflitos e inveja. Cénzi fez várias leis para suas criações seguirem, mas, com o tempo, os moitidis começaram a mudar e ignorar essas leis, e vangloriaram-se em relação a Cénzi. Cénzi ficou furioso com os moitidis por conta dessas atitudes, mas eles não se arrependeram e começaram a se opôr abertamente ao criador. Foi um conflito longo e brutal, e poucas criaturas vivas sobreviveram ao embate, pois naquele passado havia muitas criaturas vivas capazes de falar e pensar.[…]

(S. L. Farrell, O Trono do Sol — A magia da Alvorada — primeiro livro da trilogia O Ciclo Nessântico, p.572-573)

24 de jun. de 2014

Fluxos circundantes

Irradiar, criado por Irradiar, criado em 22-06-2014. em 22 de junho de 2014.
Irradiar, criado em 22-06-2014.

Num passado remoto, o homem deve ter ouvido com assombro o som de batidas regulares
que vinham do fundo de seu peito, sem conseguir saber o que seria aquilo.
Não podia identificar-se com um corpo, essa coisa tão estranha e desconhecida.
O corpo era uma gaiola e dentro dela, dissimulada, estava uma coisa qualquer
que olhava, escutava, tinha medo, pensava e espantava-se;
essa coisa qualquer, essa sobra que subsistia, deduzido o corpo,
era a alma.

(Milan Kundera — A insustentável leveza do ser)

Você sempre volta com as mesmas notícias.
Eu queria ter uma bomba, um flit paralisante qualquer,
pra poder me livrar do prático efeito das tuas frases feitas, das tuas noites perfeitas. […]
pra poder te negar — bem no último instante — meu mundo que você não vê, meu sonho que você não crê.

(Cazuza — Eu queria ter uma bomba)


Construir, comprar ou alugar algo para poder aproveitar as águas, as terras ou o ar é uma boa ideia para expandir seu universo e se permitir aprender um pouco mais. Há muitas formas de locomoção e o mundo é imenso. Mas eu passei a gostar de viajar incógnito e o universo das agências de turismo não é opção para mim. Realidades são estritas, não por eu não saber ou querer aproveitá-las. Quando desejo e posso, eu o faço! É que as viagens ganharam como determinantes as interações estabelecidas com a vida.

A palavra encontrar apequenou-se quando entendi que solidões não se atraem. Elas não se gostam — até se evitam! Até que aprendam a vivenciar a solitude, o estar só sem se sentir solitário, os seres tentarão multiplicar suas emoções apenas absorvendo o que lhes é oferecido. Triste situação daqueles que só aprenderam na escola insidiosa do sugar.

Percebi que meu voo sozinho é solidário apenas quando partilha aquilo que é o espaço constitutivo e possibilitador das trocas. Mas, atenção!, trocas não representam uma relação de pesos e medidas de iguais proporções. Todo encontro pleno propicia mais do que algo ou alguém e eu temos para oferecer, é a ordem do equilíbrio que se estabelece.

Para tentar explicitar isso que acontece de forma inexplicável vou citar o cuidar de uma criança. Pais ou responsáveis podem confirmar. Basta lembrar aquele sorrisinho encantador, que instantaneamente aflora uma força que atinge mais do que uma onda do Havaí e engloba tudo. E enriquece a alma.

Houve muitas vezes quando restou como lembrança apenas um encontro que travei durante a viagem realizada. Encontros se fazem com pessoas. Ou com luzes, águas, cores, superfícies, sabores, texturas, sons. Ou movimentos, porque eu adoro trilhar, escalar, nadar — ainda não aprendi a voar, senão adoraria citar.

Nos momentos em que a companhia foi realmente compartilhada, os voos individuais e os modos próprios de absorver a experiência foram determinantes. Cada um com seu cada um criou as condições onde os fluxos circundantes atravessaram simultaneamente ambos. E a satisfação foi plena por isso: em cada um o necessário se estabeleceu como recompensa.

Não tenho pretensões a puritano, então, diria que assemelha-se a uma espécie de clímax simultâneo no sexo.

De algum tempo para cá, as experiências extra muros de casa (minha ou de um familiar) têm sido tão escassas que ficaram meio perdidas da lembrança. E, em função de uma urgência desmedida da alma, adotei os voos virtuais para dar conta do que se apresenta à razão ou à emoção. E os meios, assim como os instrumentos, foram as imagens e os textos. Para os alados deixei a minha confissão das angústias.

Ainda gosto de encarar meus próprios desafios. Mas esse último período tem reservado outro movimento e precisei aglutinar questões daqueles que incluí como do meu mundo. Então, nada a reclamar. Vou lá e limpo, lustro e reafino este instrumento débil, e parto para desobstruir as cacofonias e construir sinfonias com os movimentos propostos pela vida.

Só assim consigo ser. E por ser um momento em que me permito o entendimento de que este é um encontro que vale a pena, me promovo plenitude e ela me aperfeiçoa.

Wellington de Oliveira Teixeira, entre 23 e 24 de junho de 2014.

* Agora é apenas nota de rodapé: …no meu mundo um troço qualquer morreu, num corte lento e profundo entre você e eu. E ficou tudo fora de lugar… (Cazuza — O nosso amor a gente inventa (estória de amor))

7 de jun. de 2014

As lentes e a visao

Lentes, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 07-06-2014
Lentes, criado em 07-06-2014.

E chegou a Betsaida; e trouxeram-lhe um cego, e rogaram-lhe que o tocasse.
E, tomando o cego pela mão, levou-o para fora da aldeia;
e, cuspindo-lhe nos olhos, e impondo-lhe as mãos, perguntou-lhe se via alguma coisa.
E, levantando ele os olhos, disse: Vejo os homens; pois os vejo como árvores que andam.
Depois disto, tornou a pôr-lhe as mãos sobre os olhos, e o fez olhar para cima:
e ele ficou restaurado, e viu a todos claramente.

(Bíblia — Marcos 8:22-25)


Veja bem: os olhos enxergam de acordo com o conjunto de lentes de que ele dispõe. Concordam com a afirmação 100% dos usuários de óculos ou lentes de contato e daqueles que trabalham com microscópios ou telescópios. Mas introduzirei uma outra categoria, a de quem exercita o pensamento crítico.

Diariamente somos expostos a um conjunto imenso de imagens. Imagens brutas ou inocentes, até que passam pelo filtro das edições — e são várias. Me guiarei na lógica por um princípio antigo e um texto atribuído a Jesus, que absorvi: há os quem tem olhos e veem — fica subtendido que há os que não conseguem ver bem mesmo tendo olhos.

Aprimorar o mecanismo que nos permite perceber mais do que o sensível — aquilo que parece ser evidente — é percebermos o fundo do palco, o tipo de iluminação, as cores escolhidas, a trilha sonora, e tudo o mais que produz a transformação de seu sentimento: a manipulação do dado para criar um determinado tipo de informação, um determinado modo de reagir — o que chamamos de aceitação.

Todo mundo sente, mas nem sempre percebe, que é o efeito da sonorização do filme de terror que faz a cena tão impactante; idem para o beijo no final do filme romântico. Talvez nem perceba que o mesmo acontece nos jornais televisivos: a cena original foi cortada, editada, destacada nos trechos que interessam aos seus editores — acredite!, eles também tem preferências políticas e acordos comerciais.

Não são apenas os vilões que se utilizam do recurso: você se veste, se perfuma, usa uma determinada combinação de roupas e acessórios quando pretende encontrar com alguém ou mesmo influenciar pessoas (profissionalmente ou não).

Somente com o uso da crítica — há sempre o positivo e o negativo em cada proposição — que suas opiniões poderão ultrapassar a repetição dos argumentos preparados e emitidos pelos âncoras ou formadores de opinião. Fique muito atento, também, às peças de divulgação produzidas pelos marqueteiros escolhidos por cada partido ou alianças locais. Todos se utilizam dos mesmos recursos, todos querem o mesmo: cativar você.

Você sabe o que significa estar cativo? É estar seduzido, aprisionado, escravizado. É perder a liberdade. É sujeitar-se.
Me permita uma pequena pausa no fluxo do texto para dizer: É por isso a raiva que sinto de que esta tenha sido a palavra escolhida na tradução do Pequeno Príncipe, num dos textos mais famosos do mundo, inclusive a ação proposta a seguir, a de enlaçar (ser preso ou capturado por laços). A expressão não deixou de ser verdadeira: você escravizou, agora se responsabilize! [Isso vai dar panos para mangas… certamente!]. Estabelecer conexões e ser cuidadoso nas relações é bem diferente do que a tradução-traição do original sugeriu.
Agora o outro lado: é preciso descontar muito ao avaliar o contexto e o período em que foi escrito. Eram outras épocas, outros modos de entender relacionamentos como amizade, namoro ou casamento. Viu? Até aqui, utilizar-se de crítica ajuda a entender as lógicas subjacentes ao que se vê.

A proposta que percorre esse texto é simples: há muitos e diferentes tipos de interesses ao seu redor — a seu critério, bons ou ruins — e você precisa estar atento para não se deixar levar inocentemente. Astúcia e prudência são o remédio para a questão (retornei ao meu aprendizado original). Citarei uma narrativa onde tentaram encurralar Jesus*: os impostos. Atento, percebeu a armadilha que haviam preparado, respondeu a questão separando-a em suas partes constituintes: distingua o que é de fé e o que é mundano ou secular (A Deus o que é de Deus e a César o que é de César!).

Muitas das consequências do fundamentalismo vem exatamente por não ser capaz de distinguir essa questão. Optaram pela letra morta e não o seu sentido. Decidiram ignorar todo o contexto que envolvia o momento da narrativa.

Ou receberam lentes ruins ou as utilizam para enganar. Fariseus dos tempos modernos?

Wellington de Oliveira Teixeira, em 07 de junho de 2014.

* Então, retirando-se os fariseus, consultaram entre si como o surpreenderiam nalguma palavra;
E enviaram-lhe os seus discípulos, com os herodianos, dizendo:
Mestre, bem sabemos que és verdadeiro, e ensinas o caminho de Deus segundo a verdade,
e de ninguém se te dá, porque não olhas a aparência dos homens.
Dize-nos, pois, que te parece? É lícito pagar o tributo a César, ou não?
Jesus, porém, conhecendo a sua malícia, disse: Por que me experimentais, hipócritas?
Mostrai-me a moeda do tributo. E eles lhe apresentaram um dinheiro.
E ele diz-lhes: De quem é esta efígie e esta inscrição?
Dizem-lhe eles: De César. Então ele lhes disse: Dai pois a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus.
E eles, ouvindo isto, maravilharam-se, e, deixando-o, se retiraram.

(Bíblia — Mateus 22:15-22)

26 de mar. de 2014

Sinalizando mudanças

Wellington de Oliveira Teixeira
Foto para o jornal Sete Dias, 07-03-1982 *.

Olhar as águas de um riacho, sentí-la, vivê-la,
é uma forma de se receber energias bio-físicas e se reencontrar consigo mesmo.
Espero vencer na vida, conseguir um emprego, vencer as barreiras que me esperam,
mas nunca perderei minha identidade humana.
Wellington de Oliveira Teixeira, em 07-03-1982.

Não dê as costas a possíveis futuros antes de ter certeza de que não tem nada a aprender com eles.
O que a lagarta chama de fim de mundo, o mestre chama de borboleta.

Richard Bach - Ilusões - As aventuras de um Messias indeciso


Alguns pensamentos me contagiam, talvez porque possibilitam a inversão de um modo de encarar determinadas questões. É o caso do que definimos como fim.

Se nos permitirmos o cuidado de analisar, o ponto que finaliza uma frase é o mesmo que já possibilita o início de outra.

Por algum motivo o fechamento não ocorre, a questão se estende para uma perda, suscita em nós um certo saudosismo, a vontade de não abrir mão. Em qualquer dos casos, produz acorrentamento. Selecionei uma palavra forte, não é? Mas, não se iluda, ela representa muito bem a cadeia de pensamentos que nos obriga a manutenção e impede o afastamento ou desligamento.

Nem tudo, porém, deve ser visto como impeditivo, uma vez que a capacidade de referenciar-se está ligada à retenção de alguns aspectos importantes da vida. Assim, ao se guardar um acontecimento ou experiência passada, sustentamos o bom ou mau sentimento que nos proporcionou: isso é o que podemos chamar, em sentido amplo, de aprendizado emocional ou intelectual.

Dou exemplos: todos conhecemos o uso como gíria da palavra legal (legal, cool, nice, do inglês). Alguém sabia que 'legal' vem do inglês do século XII, e significa tolo ou estúpido? Como eu disse, as coisas se transformam e o novo modo pode suceder ao uso que era comum, até mesmo o padrão assumido. Pense, então, no uso da palavra 'sinistro', que foi febre há algum tempo atrás, no Brasil, ou o irritante 'tá ligado?' carioca. Em breve outros termos ocuparão seu lugar.

Quando pararmos de encarar os términos como negativos, poderemos absorver um encantador conceito: desenvolver-se é ultrapassar o limbo das repetições e buscar o novo, o diferencial ou as mudanças. É ir adiante carregando apenas o que se conquistou que nos fortalece. É avançar.

Talvez, fim seja apenas isso: a marca da transição.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 26 de março de 2014.

* Essa é a primeira vez que publico essa foto e o trecho da primeira entrevista que dei na vida, para o jornal Sete Dias, quando passei em primeiro lugar para o curso de Psicologia da UFF, há 32 anos atrás. Muitas coisas mudaram, inclusive eu mesmo. Mas meus ideais conseguiram superar o tempo.

17 de dez. de 2013

Ousar ser mais que uma parte

Ousar, criado por Wellington de Oliveira Teixeira, em 17-12-2013 Ousar, criado em 17-12-2013

Seus atos, bem como os atos de seus semelhantes em geral, parecem-lhe importantes
porque você aprendeu a pensar que são importantes.
Aprendemos a pensar sobre tudo — disse ele — e depois exercitamos nossos olhos para olharem como pensamos a respeito das coisas que olhamos. Olhamos para nós mesmos já pensando que somos importantes. E, por isso, temos de sentir-nos importantes! Mas quando o homem aprende a ver, entende que não pode mais pensar a respeito das coisas que ele olha, e se não pode mais pensar sobre as coias que olha, tudo fica sem importância […] tudo é igual, e dessa forma sem importância.

Você teme o vazio da vida de seu amigo.
Mas não existe vazio na vida de um homem de conhecimento, posso garantir-lhe.
Tudo está cheio até a borda.
(Carlos Castaneda - Uma estranha realidade pp.79-85)


Pedaços estão para além de partes de um todo.

Sabe quando você tem uma tarefa a executar que possui camadas de um roteiro a seguir ou uma construção que depende do passo anterior para poder ser executada? Na universidade me ensinaram a classificar essas partes como pre-requisitos: assim, não seria possível alcançar o topo sem percorrer os degraus.

Relativo. Como tudo, aliás.

Nossa mentalidade mecanicista só (re)afirma aquilo que ela foi programada para aceitar. Nosso comportamento padrão recompensa-castigo: meu ratinho branco e velho companheiro, Tommy, das aulas de psicologia comportamental o expressaria. Estímulo e respostas que constroem como agimos e pensamos.

Meu ratinho, parceiro de curso básico — que, para desespero das meninas, me acompanhava dentro da jaqueta às outras aulas —, ganhou esse nome por que eu havia assistido ao filme(*) de mesmo nome onde um autista era brilhante em jogar pimball (ou pebolim, em alguns locais do país). Um autismo programado.

Como o nosso.

Somos brilhantes em reproduzir o cotidiano, suas rotinas, em nos apegarmos ao costumeiro até que não haja mais qualquer gota de prazer a ser retirada das nossas práticas. E, ainda assim, continuamos indefinidamente apegados à crença de precisarmos delas para continuar.

A ruptura, que sempre é possível, precisa acontecer. Mas passei da fase da iconoclastia por si mesma. Já não sou tão punk assim.

Minha fé no poder do desfazer algo vem do crer que a energia que gastávamos para manter determinada rotina pode ser empregada para fortalecer outras diferenciadas.

Gosto de período a período fazer modificações amplas no meu habitat - além daquelas pequenas e quase imperceptíveis a outros olhos. Mas não o faço por fazer. Me obrigo a detectar uma necessidade, que aparece quando meus atos se tornam inócuos, insossos, não representativos daquilo que estou no momento.

É nesse campo propício que invisto nas tentativas de criar um novo, não apenas um renovado estar na vida. E, para obter isso, ouso coisas que não havia tentado, ainda.

Recordo-me de haver sentido esse movimento quando quis aprender a tocar instrumentos de teclas. Foi um desafio imenso para quem não tinha recurso nenhum: as pernas eram as teclas, onde meus dedos simulavam tocar um piano.

Parece um contrassenso, mas deu certo. Aprendi. E depois vivenciei um conjunto de momentos tão maravilhosos quanto inesquecíveis. Inclusive amar além de qualquer possibilidade de resistir.

Bem, isso não é confessionário. Uso o acontecimento como exemplo de o quanto o voo pode ser longo quando nos decidimos a ultrapassar o maquinismo, aquilo que em nós acredita que a roda não pode ser reinventada, que os descobrimentos são apenas tirar a coberta de cima de algo.

Uso porque quero me incentivar a viver situações como a de agora: transição.

Quero ser um transeunte da vida, não um expectador em uma estação de trem, de ônibus, de avião ou de espaçonaves. Quero ir além e transitar seus pensamentos e gerar novas emoções em você também, como o resíduo de minha vida, como a energia que se expande para além de sua fonte.

Um dia eu quis ser veículo, instrumento do sagrado em mim. Hoje entendo que não há dissociação entre mim e o sagrado, já que seu sopro é minha vida.

Ainda bem que, um dia, Deus ousou e disse "Haja Luz!".

Wellington de Oliveira Teixeira, em 17 de dezembro de 2013.

* Filme baseado na ópera rock lançada em 1969 pelo The Who. Durante a II Guerra Mundial o Capitão Walker é considerado morto em batalha. Sua esposa Nora Walker fica com a tarefa de cuidar sozinha de Tommy, filho recém-nascido do casal. Nora se envolve com Frank Hobbs, mas em 1951 seu antigo marido retorna repentinamente e é morto por Frank. O garoto Tommy presencia tudo, mas sua mãe e seu padrasto insistem que ele não viu, ouviu e não vai falar nada a ninguém, e em consequência Tommy se torna cego, surdo e mudo. Já adolescente, Tommy se torna um campeão de pinball, trazendo fama e fortuna para sua família. Depois de curado, ele se torna uma espécie de figura messiânica e angaria um culto de seguidores, que no final rejeitam seus ensinamentos e o abandonam. (http://pt.wikipedia.org/wiki/Tommy_(filme))

21 de nov. de 2013

A spinozidade da vida

spinozidade, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 21/11/2013
Spinozidade, criado em 21/11/2013

Não é por julgarmos uma coisa boa que nos esforçamos por ela, que a queremos, que a apetecemos, que a desejamos,
mas, ao contrário, é por nos esforçarmos por ela, por querê-la, por apetecê-la, por desejá-la, que a julgamos boa".
Espinoza, Ética, parte 3 prop. 9 esc.

A cada novo dia, outra teoria clássica é derrubada. Fundamentos que nos embasaram o pensamento, construídos a partir de definições pré-estabelecidas, perderam seu poder sustentador.

Bem, muitos não gostam e nem desejam aceitar que as definições que fizer se perderão com o tempo. Talvez, por isso, a temporariedade da construção do pensamento como um enigma é o que se propõe para nós outros.

Da física e da química que aprendi no fundamental e no secundário quase nada mais resta de pé. Que bom! Não tenho que me estabelecer como base de estrutura sólida, imutável, independente da variação que se estrutura no momento.

Pego o spin como exemplo: ele definia a direção do giro de uma partícula atômica. Portanto, seu campo magnético. Mas (e físicos, por favor, me ajudem), essa é uma visão muito estreita da realidade, uma vez que o fator giromagnético depende de carga, da espécie de partícula, da vetorialização e angulação, etc.

Me permitam utilizar essa entidade matemática e suas consequências como apoio para repensar meu caminho.

Em cada época, as ondulações do mar da vida produziram as condicionantes de minha apropriação da realidade. Houve épocas em que a dor era tão poderosa que nublava qualquer tentativa de raciocínio, mas o pensamento se estabelecia e produzia o necessário. Aconteceu, da mesma forma, quando era a alegria que assomava o terreno e quando todos os meio-termos se apresentaram, também.

Quem ou o que sou está diretamente relacionado com isso. A vida é isso. Momento.

E como uma mecânica quântica, o campo magnético da vida (que eu adotei com o nome de campo de possibilidades) proporciona e propulsiona atitudes, atos e encontros.

Meus queridos amigos mais jovens têm dito que me tornei hermético e com isso tenho produzido uma escrita obscura para eles. Talvez. Mas o simples preto no branco não se estabelece mais como parâmetro para minhas interpretações da realidade.

Os gestos que meu corpo aprendeu tiveram que receber adaptações ou reconstruções. Fiz o mesmo com meus julgamentos.

O olhar que produzo, diariamente, como realidade é apenas isso: uma produção e não é algo em si. O si, aí, sou eu. A realidade em mim e para mim.

Meu mundo se expandiu a ponto de acoplar outras realidades e a diferenciação se tornou o ponto central para qualquer raciocínio.

Gosto muito da ideia dos criacionistas de que Deus não repetiu nada, produziu a diferença em si, no mundo e nos relacionamentos. A beleza que observamos e vivenciamos se sustenta nisso.

O modo como cada um se propõe a vivenciar, a partir de suas próprias construções de mundo uma determinada realidade, é algo que cabe exclusivamente a essa pessoa. Assim, nossas valorações sobre o outro, seus atos, suas características acabam se tornando nada mais que uma forma de incluirmos a sua participação em nosso mundo.

Tenho sido conhecido como um ativista, especialmente com relação à Educação que considero a pedra fundamental na abertura dos mundos existentes em cada ser. Vou para a vida, participo de discussões, enfrento cacetetes por acreditar nisso.

E agora, nessa etapa de uma jornada que me é mais surpreende por não ter que se estabelecer em instituições estruturantes, e por possibilitar as (des)cobertas e (des)construções, eu honro os vínculos estabelecidos sem os laços que aprisionam. Sou grato pelos encontros que tive e por aqueles que se estruturaram de tal forma que estão aí na ordem do mundo. E do meu mundo. Sem nenhuma obrigação ou determinação de modo.

Talvez, uma das maiores conquistas da minha vida tenha sido essa: adotar, como prática, esse respeito ao tempo do outro, do momento do outro, e de estar aberto ao encontro - quando este se apresenta como possível, viável ou necessário.

Apenas uma visão (uma dentre tantas outras) que vou adotando conforme o aprendizado do ser e sua completude o exigem. Plenitude não é mais uma palavra para mim. É um desafio que altera o meu modo operandis para ser e estar de um modo pleno nessa ordem que a Ordem me permitiu vivenciar.

Se isto servir para dar partida para um outro ou novo pensamento, fique a vontade. Compartilhar é algo que me faz bem.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 21 de novembro de 2013.

* Li na wikipedia que o Spin não possui uma interpretação clássica, ou seja, é um fenômeno estritamente quântico, e sua associação com o movimento de rotação das partículas sobre seu eixo - uma visão clássica - deixa muito a desejar.

** Baruch Spinoza foi um dos grandes racionalistas do século XVII dentro da chamada Filosofia Moderna, juntamente com René Descartes e Gottfried Leibniz.

8 de jul. de 2013

Por um acaso

Acaso, criado por Wellington de Oliveira Teixeira, em 08/07/2013
Acaso**, criado em 08/07/2013.

Eu
quando olhos nos olhos
sei quando uma pessoa
está por dentro
ou está por fora

quem está por fora
não segura
um olhar que demora

de dentro do meu centro
este poema me olha
Paulo Leminski (1944 – 1989)


Me permitam apresentar uma questão que me incomodava há muito anos: o chamado acaso e sua relação com Deus.

Negado ou afirmado, sempre com grande ênfase, evitado ou escamoteado com o uso de outras palavras, o acaso me parece tão importante quanto o conceito de necessidade - já que ambos permitem o conceito de evolução.

O acaso é aquele elemento de aleatoriedade infinita - em escala humana - que permite um viés mais simples para equacionar livre arbítrio e vontade divina.

Pois bem, esse modo de encarar o acaso permite sugerir que havendo uma voluntariedade ou desejo produz-se uma atração no campo das possibilidades propiciando encontros que permitem a assimilação de novos elementos.

Assim, para mim, o acaso é um dos maiores presentes de Deus para a humanidade, pois permite que as transformações e aperfeiçoamentos ocorram sem nenhum predeterminismo.

Se nossos encontros acontecem numa intervenção deste acaso, nossos relacionamentos também estão marcados por sua ação, mas sempre a partir de nossa vontade. Ao se entrar em um relacionamento afetivo que ganha prioridade emocional, como na amizade e no amor, as interações tornam-se muito mais poderosas produzindo, a partir das micro transformações no contato, mudanças no indivíduo como um ser. Essas relações são mais prazeirosas e marcantes e, portanto, as mais buscadas.

Essas relações profícuas, as infinitas pequenas assimilações e variações que permitem, os milhões de pequenos aperfeiçoamentos no indivíduo que vão transformando-o (não se esqueçam que tudo iniciou a partir da expressão de sua vontade) produzem o que aprendi a denominar de plenitude como ser - um estado de realização físico-psíquico-espiritual.

Meu entendimento - com base em conceitos filosóficos-cristãos - é de que a vontade de Deus para a humanidade se constituiu, de forma clara, com a identificação dela com Ele na manifestação do amor. Penso isso porque é no amor que, ao objetivar a felicidade de outrem, cedemos parte de nós mesmos. E, um paradoxo humano, esse me parece ser o único caso que ao se dar não se perde nada, ao contrário, a felicidade e a realização torna-se plena: portanto, agindo assim, o ser humano se torna mais identificado com Deus. "E nós conhecemos, e cremos no amor que Deus nos tem. Deus é amor; e quem está em amor está em Deus, e Deus nele" (1 João 4:16-17).

Penso - a partir dos pressupostos de minha fé - que podemos alcançar a vontade de Deus sem nenhuma imposição, por meio desse instrumento maravilhoso que é o acaso. Com ele, é possível crer que, ao manifestar o seu amor a partir da nossa origem, por meio do acaso ele nos dotou dos elementos de aglutinação que permitem refletirmos em nossa existência a sua própria essência: a procura do amor, a incorporação do amor, a manifestação do amor e a transmissão do amor. Quem sabe?, talvez o mais importante ciclo reprodutivo que a humanidade já percebeu ser capaz.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 08 de julho de 2013.

* Era para ser apenas uma anotação no facebook, mas tomou vida própria.

** Acaso (do latim a casu, sem causa) é algo sem motivo ou explicação aparente. Há, pelo menos, três sentidos diferentes, dependendo do sentido dado à palavra causa:
Algo que acontece sem finalidade ou sem objetivo, isto é, algo sem causa final. Oposto, filosoficamente, à teleologia.
Algo que ocorre independente de um determinado precedente, um efeito não predisposto. Oposto, filosoficamente, ao pré-determinismo.
Algo não-explicável por suas (cor)relações (simultânea ou precedente), portanto sem qualquer determinação. Oposto, filosoficamente, ao determinismo.
Definições feitas com base na wikipedia http://pt.wikipedia.org/wiki/Acaso

23 de mai. de 2013

Egometria

Egometria, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 23/05/2013
Egometria, criado em 23/05/2013.

Um guerreiro aceita seu destino, seja qual for, e o aceita na mais total humildade.
Aceita com humildade aquilo que ele é, não como fonte de pesar, mas com um desafio vivo.
É preciso tempo para cada um de nós compreender esse ponto e vivê-lo plenamente.
Eu, por exemplo, detestava a simples menção da palavra humildade.
Sou índio e nós índios sempre fomos humildes e nunca fizemos outra coisa senão curvar a cabeça.
Pensei que a humildade não fazia parte da vida de um guerreiro.
Mas estava enganado! Hoje sei que a humildade de um guerreiro não é a humildade de um mendigo.
O guerreiro não curva a cabeça para ninguém, mas ao mesmo tempo não permite que pessoa alguma curve a cabeça para ele.
O mendigo, ao contrário, prostra-se de joelhos por qualquer coisa e lambe as botas de quem quer que ele considere superior;
mas, ao mesmo tempo, exige que alguém que lhe seja inferior lhe lamba as botas.

(Porta para o infinito - Carlos Castaneda)

A questão da superioridade é algo que permeia os conceitos do cotidiano de nossa sociedade. Aprendemos muito cedo na vida que devemos respeitar e aceitar sem questionar as determinações daqueles que estão no comando. Em nenhum momento, a avaliar como surgiu esse comando ou como passaram a ocupar essa posição os seus detentores. Restos de nosso recente passado militar ditatorial. Mas todos sabem que os sujeitos do domínio econômico têm produzido as condições favoráveis para que seus comparsas sejam eleitos e os retribuam com favorecimentos e enriquecimentos.

Nós brasileiros (estrangeiros, também) sabemos que o poder é ocupado - na maioria das vezes - por quem se resigna aos ditames de alguns endinheirados. Sua posição é algo frágil, sustentada por escusas trocas de favores. Então, para que o respeito?

Nossa forma de educar não privilegia as diferenças e o entendimento das consequências dela. Se assim o fosse, diríamos para cada criança, no momento de sua descoberta: veja o quanto você já aprendeu e como é capaz de decidir e agir. Continue assim e conquiste as suas oportunidades para realizar os seus desejos. Não. Não é assim que, nem mesmo aqueles que se dispõem a tal projeto educativo, o fazem.

Não somos ensinados a entender nem a ensinar que a maturidade ou a experiência é um estado possível de ser alcançado e, sim, a querer obter status social.

Vestimos nossas crianças com roupas que as adultizam e achamos normal. Elas precisam parecer e agir como celebridades. Alguém já viu alguém ensinando que ocupar uma posição social é algo que para algumas pessoas é importante - outras desejam outras coisas que também são dignas e valorozas?

Nosso método de valorizar posições é definido pelo conjunto de referências sociais da riqueza: a aparência diz quem se é; esquecemos de valorizar o ser e maximizamos o valor do ter; potencializamos práticas que extinguem a expressão individual, os sonhos pessoais em prol do valor do contracheque; legitimamos o valor absurdo de determinados produtos, nos tornamos painéis ambulantes de algumas marcas; vamos aos lugares onde a comida só prejudica a nossa saúde por que está na televisão e repetimos os jargões preconceituosos das telenovelas.

E os privilegiados, que geram filhos também já privilegiados, são legitimados no poder e todos dizem Amém!

Wellington de Oliveira Teixeira, em 25 de maio de 2013.

As manipulações por parte de alguns políticos de base religiosa sobre incautos é algo que assusta. Sentem-se tão confortáveis com o poder, e nem se preocupam se são, também, apenas um joguete nas mãos dos controladores do mundo, desde que possam tirar um pouco o seu quinhão.
Ah! se Jesus passasse por aqui para expulsá-los do templo (- e quem sabe do Congresso!).

21 de nov. de 2012

Uma boa ideia

Er e a lição das areias e do mar, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 21/11/2012
Er e a lição das areias e do mar, criado em 21/11/2012.

Custei um pouco a compreender o que estava vendo, de tão inesperado e sutil que era:
estava vendo um inseto pousado, verde-claro, de pernas altas.
Era uma 'esperança', o que sempre me disseram que é de bom augúrio...
Dentro do fiapo de pernas não havia nada dentro:
o lado de dentro de uma superfície tão rasa já é a própria superfície.
Parecia um raso desenho que tivesse saído do papel verde e andasse...
(Clarice Lispector - A descoberta do mundo)


Há uma boa ideia de anos atrás, nasceu um garotinho que, de cara, teve uma rede de desafios imensa para ultrapassar, se quisesse sobreviver.

Mesmo o fato de 'desenganar' a esperança da família com relação à sua vida - algo que os médicos fizeram, na época - não conseguiu ultrapassar a fé de pessoas que apostaram em sua sobrevivência e se postaram ao seu lado e se dispuseram à lutar como ele.

Não me recordo dos fatos, mas certamente isso tornou mais fácil minha escalada rumo à recuperação, meu ir vencendo cada etapa de restauração, ainda que com dificuldades e, muito provavelmente, com dores. As mesmas que me acompanharam durante muito tempo a vida, por conta de uma constituição inicial frágil.

E digo isso não como um lamento mas um hino de vitória, um poderoso Aleluia que invade meu ser plenamente, que me sensibiliza e me proporciona um respeito imenso pelos seres que são agraciados com a vida e agradecidos por estarem imersos nela.

Em especial, valorizo aqueles que a percebem como um dom valioso e que resolvem percorrer suas fases com reverência e humildade, diante de sua magnitude, e que, assim fazendo, transmitem força de vida aos que estão ao seu redor.

Nesse dia, que tenho escolhido para me recordar o valor de cada ser**, quero expressar a minha gratidão àqueles que compartilham comigo essa jornada: aos que se tornaram meus desafios e aos que foram meus aliados, pois reconheço que todos tem contribuído para o meu aperfeiçoamento.

Depois de tanto tempo, aprendi que alguns desses me referenciaram e são, insisto ainda nessa forma de pensar, valorosos guerreiros por serem capazes de doar a sua energia em prol da construção de um outro ser pleno.

Caiam, todos vocês, na PAz!
[o tempo de uma vida não basta para se viver uma amizade:]
Amigos São Amigos Para Sempre!!!

Wellington de Oliveira Teixeira, em 21 de novembro de 2012.

*Base para a arte: Wellington em Arraial do Cabo-RJ, JUL-2012. Foto: Luis Claudio da Rocha Prét.

Mito de Er

O pastor Er, da região da Panfília, morreu e foi levado para o Reino dos Mortos. Ali chegando, encontra as almas dos heróis gregos, de governantes, de artistas, de seus antepassados e amigos. Ali, as almas contemplam a verdade e possuem o conhecimento verdadeiro.

Er fica sabendo que todas as almas renascem em outras vidas para se purificarem de seus erros passados até que não precisem mais voltar à Terra, permanecendo na eternidade. Antes de voltar ao nosso mundo, as almas podem escolher a nova vida que terão. Algumas escolhem a vida de rei; outras, a de artista ou a de sábio.

No caminho de retorno à Terra, as almas atravessam uma grande planície por onde corre um rio, o Lethé (em grego, 'esquecimento'), e bebem de suas águas. As que bebem muito, esquecem toda a verdade que contemplaram; as que bebem pouco, quase não se esquecem do que conheceram.

As que escolheram vida de rei, de guerreiro ou de comerciante rico são as que mais bebem das águas do esquecimento; as que escolheram a sabedoria são as que menos bebem. Assim, as primeiras dificilmente (talvez nunca) se lembrarão, na nova vida, da verdade que conheceram, enquanto as outras serão capazes de lembrar e ter sabedoria, usando a razão. as almas

26 de jul. de 2011

Os pequenos fundamentos da vida

Enfrentando o fantasma, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 25/07/2011Enfrentando o fantasma, criado em 25/07/2011.

A duração de uma vida não é suficiente para se viver uma amizade.
Amigos São Amigos Pra Sempre!
(Friends - Michael W. Smith)

A construção de jovens que queiram agir com correção em relação a sustentabilidade passa por um aprendizado.

Só terá a clareza para avaliar possíveis questões socioambientais os que tiverem em sua história aquele instante mágico em que fica paralisado diante das expressões naturais: da graciosidade simultanea à ferocidade do movimento de um jaguar; da engenhosidade do tecido das teias das aranhas; da intricada geometria e engenharia das casas de abelha; da força brutal das erupções vulcânicas, dos tsunamis, dos tremores de terra; e da delicadeza do magnetismo da aurora boreal. E, no caso humano, dos pequenos gestos de um bebê ao processo de crescimento e maturação do corpo, alma e espírito.

É preciso ensinar que a beleza se encontra nos olhos de quem vê, mas a natureza é pródiga em criar possibilidades de encantamento que podem ser diferentes para cada um, mas no todo, é universal. Todos possuímos a sensibilidade para tal e todos somos atingidos por seus eventos.

É preciso alertar para o lado obscuro, que nós humanos possuímos, capaz de engendrar no interior do ser um vilão ou um herói, dependendo de como for trabalhado.

É preciso amar incondicionalmente a vida, em todas as suas formas, e estar pronto a pequenos sacrifícios para que ela prospere e possa retribuir prodigamente, como é natural a todo amor.

É preciso aglutinar campos energéticos que atraiam outros seres e permitam o compartilhamento sem a deleção das individualidades, a não ser naqueles momentos onde o amor funde as pessoas em uma e em que não sabemos distinguir-nos de um outro.

É preciso acreditar na capacidade de transformação e de superação que todos nós possuímos e precisamos usar dia após dia.

É preciso mostrar com atos e atitudes que um ser pensante é aquele que entende isso, e busca ser pleno em tudo que faz, não para provar nada para ninguém, mas para afirmar que é possível e que vale a pena.

É preciso apostar que a vida é maior, o amor é maior, e que não custa tentar e apostar naquele pequeno grão de fé que existe em todos nós, naquele pequeno grão de mostarda...

Descobri, no meu aprendizado, que a família com que me acerquei - os nascidos parentalmente e os anexados e adicionados por afinidade ou diversidade - foi de fundamental importância para que o solo da minha vida pudesse frutificar.

Descobri na amizade uma força estruturadora de uma eficácia incrível, um suporte magnífico contra as grandes forças devastadoras do ódio, do desamor, da intolerância, do sofrimento e da dor.

Descobri na fé e na esperança o poder de ir adiante. Mas foi no amor que tive a maior revelação: podemos ser melhores do que somos, por nós mesmos, quando incluímos alguém dentro de nós, a partir da partícula divina, pois descobri que o melhor nome para Deus é amor.

E, felizmente, consegui entender que cada um tem seu próprio processo de descobertas e de aprendizados. Mais que isso, um tempo próprio para a absorção da amplitude do que conquistou, até que possa por em prática em sua vida. Por isso, disse no início desta postagem, que 'a construção de jovens que queiram agir com correção em relação a sustentabilidade passa por um aprendizado', que agora complemento: primeiramente nosso para que haja o do outro.**


Wellington de Oliveira Teixeira, em 26 de julho de 2011.


* Esse texto eu escrevi para me lembrar - em qualquer momento difícil no futuro - que vale a pena ser e estar nesse mundinho chamado Terra.
** Acrescentei esse parágrafo no dia 28 de julho, pois o texto me pareceu incompleto por não mostrar que o processo de aprendizado não é de mão única.

14 de jul. de 2011

Vazio, suspiros e saudades

Vazio suspiros e saudades criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 05/07/2011Vazio, suspiros e saudades, criado em 05/07/2011

Se um dia você for embora
Não pense em mim, que eu não te quero meu
Eu te quero seu

Se um dia você for embora
Vá lentamente como a noite que amanhece
sem que a gente saiba exatamente como aconteceu

Se um dia você for embora
Ria se teu coração pedir, Chore se teu coração manda,
Mas não esconda nada que nada se esconde.

Se por acaso um dia você for embora
Leve o menino que você é

(Meu Menino - Nana Caymmi*)

E, num instante, você partiu.

Não sei dizer o quanto isso me partiu, naquela época.

Eu era um daqueles que apostam nos sonhos, dos que acreditam que o amor completa todas as coisas, assim como nos completa.

Me vi diante dos pedaços de mim, sem ter como alterar os fatos.

Era tudo parte do inexorável poder do necessário da ordem dos acontecimentos.

Mas quem disse que adolescentes acreditam em consequências? Perigo? Jamais!

Tudo estava dentro daqueles desejos, por mais absurdos que fossem, por mais desesperantes nos momentos em que apareciam, por mais febril que nos deixassem durante as noites insones entrecortadas de vazio, suspiros e saudades.

Fazer loucura era normal. Expor-se além do necessário, trivial. Tudo valeria a pena para aproximar-se. Encontrar era muito.

Gato e rato. A fuga era um brinquedo perverso e a adrenalina subia tanto que não havia como fugir de tentar novamente.

Hoje, após tantos anos, um que de saudosismo bate à porta. E, apesar do que poderia imaginar, não quero abri-la: todas as feridas saram, os ossos calcificam, o coração volta a bater com outra cadência, por outro alento e por novas questões.

Ainda assim, não creio que devo abandonar as memórias, impedir os sentimentos de me inundarem por alguns momentos e transbordarem por meus olhos ausentes da vida cotidiana. Isso faz parte dessa coisa chamada amor.

E todo amor é pra sempre.

Até poderia ter dito "isto é, o amor verdadeiro", mas não acredito em nenhum outro tipo.

E daqueles que se foram para sempre - não importa para qual distância ou a quanto tempo - me permito que a alma me inunde. Revivo a força do encontro e dos muitos momentos partilhados.

É que um pouquinho de paz é necessário para vivermos uma vida plena e todos os que nos tornaram um pouquinho melhores merecem ser recordados com aquela tranquilidade linda que só os que respeitam a vida podem se permitir. E também ofertar.


Wellington de Oliveira Teixeira, em 14 de julho de 2011.

* Obrigado a você, Dê, por ter me ensinado a apreciar a Nana e a preferir o amor que cuida.

15 de jun. de 2011

O choque

O choque, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 14/06/2011
O choque, criado em 14/06/2011

Não estejais inquietos por coisa alguma;
antes as vossas petições sejam em tudo conhecidas diante de Deus pela oração e súplica, com ação de graças.
E a paz de Deus, que excede todo o entendimento,
guardará os vossos corações e os vossos sentimentos em Cristo Jesus.
(Bíblia - Filipenses 4:6-7)

O dia-a-dia é aquele mestre que prega peças em seus alunos: de vez em quando dá uma prova surpresa e, é claro, pega quase todo mundo desprevenido.

Em alguns momentos, faz-nos sentir que as portas começaram a se fechar, as cores a desbotar e a vida a murchar.

É algo muito estranho: o positivo pode tornar-se negativo e, com isso, levarmos um choque.

Bichos soltos esse tal de medo, essa tal de insegurança. Bicho estranho esse tal de humano.

É... um dia de tristeza é algo assim.

Mas dias tristes são normais, tanto quanto os felizes. Aprendemos com os dois tipos. É meio estranho o fato de ser típico acabarmos destacando apenas os tristes.

Mas, de repente, basta um pouco de esforço nosso para que pareça que a porta começou a se abrir, a luz começou a brilhar e aquela flor a florecer.

Descobrimos que somos mais do que pensamos e que podemos ir além.

E a vida entra nos trilhos, a caminhada prossegue.

Sorrindo? Ainda não, mas quase.

Um esboço já vale a pena: é suficiente para nos encorajar e para despreocupar os que estão ao nosso redor buscando nos fazer sentir melhor.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 15 de junho de 2011 .

* Para o meu irmão, Beto Lobo, que está aprendendo a ver a mão de Deus e a Sua ação nos fatos de sua vida diária.

30 de abr. de 2011

Perderam a fé

Perderam a fé, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 14/05/2011
Perderam a fé, criado em 14/05/2011

Por essa razão eu lhes falo por parábolas:
‘Porque vendo, eles não vêem e, ouvindo, não ouvem nem entendem’.
Neles se cumpre a profecia de Isaías:
‘Ainda que estejam sempre ouvindo, vocês nunca entenderão;
ainda que estejam sempre vendo, jamais perceberão.
(Bíblia - Mateus 13:13-14)

... A princípio
Insensíveis como feras, dei aos homens sentido, atribuí-lhes mente...
No início, vendo, pareciam cegos, e ouvindo, não escutavam, mas como fantasmas se atropelavam
Em sonhos, a história perplexa de seus dias
Confundiam
(Ésquilo - Prometeu acorrentado)


Acontece todo dia: alguém perde a sua fé.

É estranho pensar assim, ou, talvez, seja algo tão triste que não aceitemos tão facilmente esse pensamento.

Mas, se tivermos a coragem de avaliar, veremos que dia após dia, pequenas situações, pequenos gestos, coisinhas que não deveriam ser importantes, vão nos desgastando, vão nos tornando mais céticos e menos receptivos às coisas espirituais.

Talvez o acesso a nossa alma fique entupido e, por isso, ela não consiga mais se alimentar e acabe por definhar. E com ela a nossa fé.

Quando criança, nosso mundo é um rico imaginário que nos permite viver em mundos diversos, aceitar possibilidades infinitas, conviver com paradoxos. Tudo é novidade, há beleza em tudo, o surpreendente é acolhido. E, por ser assim, o caminho para o corpo, para a alma e para o espírito fica livre. O ser se alimenta e cresce. A fé também.

Quantas vezes rimos da ingenuidade dos pequenos, dos seus mundos que apostamos ser ilusórios? É algo que fomos aprendendo pelo caminho.

Ignoramos que o que chamamos de razoável é apenas uma convenção que se transforma com o passar do tempo, e acreditamos ser uma verdade e verdade com v maiúsculo.

Aí, vem um adulto louco que durante muito tempo só comeu e bebeu razão, que usa os sinais matemáticos para explicar uma nova física e nos diz que há mais de um mundo. Mundos e dimensões além das que aprendemos a experimentar pois nosso aparelho perceptivo (olfato, tato, audição, paladar e visão) não é suficiente para percebê-los. Diz que é possível, até, que sejamos aptos mas que, por desuso de algumas possibilidades desses instrumentos, não conseguimos.

Aí vem um grupo de físicos, fazendo testes incríveis num equipamento gigantesco construído num túnel que possui quilômetros (Grande Colisor de Hádrons do CERN), visando provar algo incrível: a partícula de Deus - no linguajar deles, os bósons de Higgs.

Eles acreditam plenamente. Cientistas que possuem uma fé incrível. Por isso mesmo avançam tanto. Não se limitam e querem que os limites se desfaçam. Há uma lista crescente deles.

Na contramão desse avanço, em nosso dia a dia, a maioria continua repetindo os velhos chavões da antiga razão, e constroem cada vez mais um mundo imbecilizado, ordenado, obediente e sem um vislumbre de sua grandeza.

É de se admirar que tantos percam a sua fé?

Wellington de Oliveira Teixeira, em 30 de abril de 2011.

* Me entristece ver, nos dias de hoje, o quanto os atos perversos de alguns tem gerado indiferença, sofrimento e, principalmente, a perda da fé no lado bom da vida. Dá para acreditar que isso é feito de propósito, para que nos tornemos servis e obedientes e sem nenhuma fé:
marionetes das forças que desejam-nos perfeitamente manipuláveis.

15 de jun. de 2010

Vinni com Vinte e Um

Vinni Alô, Adeus. Eu te vejo do outro lado.*, criado em 15/06/2010.

Há muito que o SENHOR me apareceu, dizendo:
Porquanto com amor eterno te amei, por isso com bondade te atraí.
(Bíblia - Jeremias 31:3)

Gosto de recordar o desafio que eu fiz num momento seu de baixa estima,
numa casa de show em São Gonçalo:
vá dar uma volta e não me volte sem uma história de beijo pra contar.
E não é que você voltou feliz da vida?
('O Vinni que eu conheço - texto desse blog)

Fiz as contas hoje, pela manhã: no dia 20 deste junho seriam 21 anos de um brilho que, antes da duração, queria a intensidade e uma intensidade sem controle.

_ 'Eu quero o caos!'

Erra grandemente quem achar que essa manifestação demonstrava uma desordem pessoal, pelo contrário, sua busca de plenitude, de sua expressão no mundo era algo que o inquietava e o levava sempre adiante.

Exasperado ficava eu, em várias oportunidades, quando o via enveredando os caminhos sem o mínimo de cuidado.

Seu esoterismo marcava uma certa ambiguidade: ao mesmo tempo em que o tornava ciente da amplidão do universo o provocava a colocar o universo dentro de si. Mas quão poucos não buscam exatamente a mesma coisa: Deus em si.

Quem não pode ver sua timidez perder totalmente a dianteira para a ousadia, não conheceu a sua capacidade de amar pois, o querer tudo ao mesmo tempo, agora, também era um aspecto do seu amor.

Seu grupo era sua referência e seus apelidos (gas mask toy, sbuga, vinni, etc.) tinham a ver com o estilo gótico como se vestia (ele realmente usava uma máscara de gás em seus shows).

Claro que alguém assim tem muita personalidade e gera alguns embates com os outros (me incluo, aí). Vários amigos o ouviram reclamar do modo como eu o forçava a repensar suas propostas de vida - principalmente com relação à sua saúde -, ao mesmo tempo em que o viam ao meu lado e rindo sem limites: feliz. Que fique claro que este era o seu modo de ser com seus amigos: para criar novos espaços para a relação, ele forçava todos os limites.

Quem conhece alguém assim, sabe: é do tipo que se ama ou se odeia. Mas aquele baixinho até isso conseguia driblar, pois nunca ouvi de ninguém (mesmo daqueles que no momento estivessem irados com ele) frases de ódio a seu respeito.

Talvez, e por um segundo apenas, eu mesmo, quando soube que estava em coma por desrespeito ao seu diabetes. Nesse mesmo dia, eu escrevi um texto em forma de conversa com ele, numa tentativa de alcançá-lo. Este texto encontra-se nesse blog com o título O Vinni que eu conheço. O endereço é http://bigwzh.blogspot.com/2008/04/auto-fotografia-sei-que-o-que-eu-estou.html.

Hoje, comecei o dia remexendo meus arquivos no computador quando deparei, na pasta que o Pablo criou para si, com uma foto com qualidade bem ruim, do Vinni tocando na Candelarium - a banda que ambos pertenciam. Me dispus a tentar recuperar um pouco e acabei viajando na ideia. Naquele momento me recordei que estamos em junho - mês do aniversário do Vinícius - e foi quando eu calculei a sua idade caso estivesse entre nós. Vinte e um.

Pra mim, o seu silêncio carrega uma inverdade - não está morto enquanto a sua vida continua dentro de mim -, mas também uma verdade - a falta da sua presença ainda me dói.

Então, meu guri, vou antecipadamente desejando um feliz aniversário, aonde quer que você esteja, e lhe fazendo um pedido: reserve um lugar, aí, pra mim, onde eu possa compartilhar o seu sorriso e abraçá-lo por mais do que apenas um momento**.

Com amor eterno.


Wellington de Oliveira Teixeira, em 15 de junho de 2010.

* Fotos base tiradas em 26-11-05, no Recreativo Trindade (São Gonçalo-RJ)
** Trecho da Música Noah, hello, goodbye (Michael W. Smith)

8 de jun. de 2010

Não querer mais que bem querer

Talheres - Arte sobre foto*, criado em 08/06/2010.

O amor é bom, não quer o mal. Não sente inveja ou se envaidece...
É um não querer mais que bem querer.
(Monte Castelo - Legião Urbana)


Sabe, queria ser bem romântico ao escrever esse texto, mas fiquei obstruído. Amar é complicado. Ser amado é tanto ou mais. E tentar unir esses amores... [haja esforço!].

Mas se a humanidade, após séculos e séculos, ainda busca esse encontro idealizado, talvez, e reparem que eu disse talvez, haja um grande possível nele que ultrapassa todas as outras questões.

Você, assim como eu, já deve ter a sua coleção favorita de músicas românticas [mesmo que não queira confessar!]. E, entre tantas falando sobre o amor, fiquei bastante encucado [intrigado, cismado; preocupado, inquieto.] com a frase de uma delas: 'É um não querer mais que bem querer.' Convanhamos: que maneira complicada de dizer que querer bem [a alguém ou a algo] é a única coisa que se deseja!

Mas, ser pensante que sou, saí em busca de entender as razões da frase. Me recordei que no encarte do cd Quatro Estações havia um comentário de que a música Monte Castelo era uma adaptação de um poema de Luis de Camões (soneto número 11) e de um texto da Bíblia (I Coríntios 13). Descobri então que o trecho da música que havia me encucado [agora você já sabe o que é, né?] é uma citação direta do soneto, que transcrevo abaixo [viva São Google. Santa Wikipedia, Batman!]:

Amor é um fogo que arde sem se ver,
é ferida que dói, e não se sente;
é um contentamento descontente,
é dor que desatina sem doer.

É um não querer mais que bem querer;
é um andar solitário entre a gente;
é nunca contentar se de contente;
é um cuidar que ganha em se perder.

É querer estar preso por vontade;
é servir a quem vence, o vencedor;
é ter com quem nos mata, lealdade.

Mas como causar pode seu favor
nos corações humanos amizade,
se tão contrário a si é o mesmo Amor?

Para o Renato Russo, a resposta à pergunta de Camões contida nos últimos versos [que pergunta? Se o amor é tão contrário a si mesmo, como pode seu favor (sua atuação) causar (gerar) a amizade nos corações humanos?], encontra-se no texto bíblico de I Coríntios 13. Lá o amor ganha o status de a potência máxima da vida:


'Ainda que eu [cita trocentas coisas] e não tivesse amor, nada seria.'
'O amor nunca falha;'
'Agora, pois, permanecem a fé, a esperança e o amor, estes três, mas o maior destes é o amor.'

Mas tem uma coisa a mais [Ser Pensante é FlÓriDA!]: ele entitula a música de Monte Castelo [olhe a citação no final do texto com **], e mistura ódio (uma guerra mundial) e amor [será que é só para complicar as coisas?].

Pensei, pensei... [saiu fumaça...] até que me lembrei de uma aula na faculdade, onde o professor de filosofia Claudio Ulpiano [esse era Ser Pensante, mesmo!] mandou essa: o amor e o ódio estão na mesma face de uma moeda. A indiferença é que está do outro! Cá com meus botões, será que o Renato teve aulas com ele, também? Talvez por isso é que ele simplesmente decreta: É só o amor que conhece o que é verdade.

Isso tudo para dizer 'eu te amo'. E eu lhe pergunto: será que o meu amor sabe disso?

Wellington de Oliveira Teixeira, em 08 de junho de 2010.

* A foto base dessa montagem está disponível em:
http://www.orkut.com.br/Main#AlbumZoom?gwt=1&uid=810050098124745897&aid=1233812923&pid=1274843911441

** A Batalha de Monte Castello foi travada ao final da Segunda Guerra Mundial e marcou a presença da Força Expedicionária Brasileira entre as tropas aliadas que tentavam conter o avanço das forças do Exército alemão, no Norte da Itália. [wikipedia, é claro!]

12 de fev. de 2009

Quando um segundo tempo chega

 Tayane Abs Gonçalves, anime dreams 2008-SP Fotógrafo desconhecido Tayane Abs Gonçalves, anime dreams -sp 2008

"Será que é assim que termina, pensei, será que tudo o que um Mestre diz não passa de um amontoado de palavras bonitas que não o podem salvar do primeiro ataque de um cão raivoso?"
(Richard Bach - Ilusões. As aventuras de um Messias Indeciso)

Eu conheci um jovem que sonhava ter um lar, ser um pai-amigo-professor, ter pequenas conquistas na vida desde que pudesse ter paz e sossêgo, possuir conhecimento que modificasse a sua e a vida de outros, ter a sua cara-metade para compartilhar tudo o que conseguisse e para se entregar por inteiro.

E o conheci de uma maneira inusitada, como tudo de bom na vida, um quase desconhecido o trouxe a mim e nos apresentou.

Logo de cara a pura oposição nele se mostrou: a estatura ocultava a grandeza do ser humano guardada em sua alma; a sua vivacidade se perdia em gestos contidos e tímidos; sua generosidade em partilhar escondia o imenso vazio que se criara pela necessidade de receber um olhar, um toque, um afeto genuínos; a firmeza dos seus gestos encobria a suavidade da sua entrega de si e do abrir mão do que lhe pertencia, por direito; o desprendimento em relação ao modo e ao que vestia camuflavam a força de sua presença e tudo o que apresentava apenas calava a bondade e superioridade do simples cuidar para que todos pudessem estar juntos e em prol da felicidade dos outros.

Abnegação não era ainda a palavra que o descrevia. Ele tinha apenas 13 anos e o que mais chamava a atenção era o seu olhar profundo e aquela tristeza que o acompanhou como amiga inseparável a vida toda. Em muitos momentos ela o tomou para si e o levou para um mundo exclusivo e impenetrável de onde, mesmo quem mais o amou, nunca pode retirá-lo.

A fascinação pelas conquistas o tornou um caçador de aventuras, desbravador de matas e buscador de trilhas para lugares onde o silêncio falava mais alto.

A sua entrega total o fez presa fácil da mágoa e do sofrimento - poucos são capazes de alcançar um patamar tão alto seja em coleguismo, amizade ou amor. Mas, como tudo no mundo, o aprendizado se fez presente e lhe conferiu honra ao mérito: onde todos desistiam, ele se entregava mais e mais.

Seus medos foram fantasmas sempre assíduos nessas horas, pois negar-se é o mesmo que abrir as defesas de si mesmo. E por conta disso, em muitos momentos tristeza foi sinônimo de depressão, de solidão, de incompreensão.

Eu sei por que eu vi, por que vivi junto tendo a impotência como companheira, já que ninguém pode viver a vida de outro e, mesmo que eu tenha as respostas para a pergunta dele, tenho como desafio conquistar as minhas próprias.

Indolência também foi marca registrada nesse jovem quase homem: tão fácil resolver as questões, por que se esforçar, por que antecipar os problemas, por que investir na previsão? Então, que tudo se resolva apenas quando não houver mais oportunidade de postergar.

Perdulário? Talvez. Mas jamais deixar de oferecer o melhor para os que estavam ao seu redor e principalmente sob sua proteção. Por conta disso, em várias ocasiões ficou em situação financeira complicada. Então, mais ainda se entregou a trabalhos extras para suprir tudo e mais um pouco. Mesmo que pessoalmente discorde desse procedimento, nele reconheço uma grande carga de afeto.

A sua sede de compreensão o levou a trilhar diversos caminhos entre filosofia, esoterismo e religiosidade. Leu muito, mas apenas o que lhe interessou. Conversou muito mais - esse era um caminho que mais lhe agradava - e questionou tudo e a todos. Colocou em cheque os parâmetros que o balizavam, por que eram de outros, para obter algo que fosse seu pedaço de fé, seu terreno de entendimento e sua proposta para a vida.

Agrediu alguns nesse processo, é claro. Autoridades se sentiram rejeitadas; parentes, incompreendidos; companheiros, solitários; amores, mal-amados. Fez parte de sua jornada pequenas agressões verbais, em momentos intempestivos, principalmente quando era o momento de dar novos passos, subir o degrau da plenitude. O quanto lhe doeu esse processo de desprendimento não sei dizer.

Foi conquistando os espaços desejados ao mesmo tempo em que abria mão de outras expectativas que tinha para si. E quando de si surgiram partes de si, mas, em si próprias, um outro, aprendeu o sentido da palavra abnegação enquanto o abrir mão de si por si mesmo. E o fez como não encontrei ninguém ainda capaz de fazê-lo.

E rio comigo mesmo ao pensar no herói que eu acabei de criar. E (des)rio, se é que posso criar essa palavra, por que é isso mesmo que eu acredito que ele seja por méritos próprios e não pelas palavras que posso me valer para descrevê-lo.

Um herói é aquele que ultrapassa a média e vai abrindo os caminhos com suas conquistas, mas, como todo mundo, carrega seus desafios e dores. Esse não difere.

Hoje, com família estabelecido, enfrenta o maior desafio de um grande homem: passar o bastão para os filhos, que reivindicam seu lugar no mundo sem sustentação, proteção, sobreposição de idéias por meio de autoridade formal. E, é claro, a sua liberdade para ir e vir sem justificativas, permissões ou esclarecimentos. Isso faz tão parte da vida que, mesmo repetindo-se há milhões de anos, nunca estamos preparados para enfrentar. Até mesmo nos convencemos de que o que acontece é por falta de amor, falta de respeito, falta de algo que nos faz falta e não sabemos bem o que é, mas que parece com o tornar-se desnecessário. Como pode ser desnecessário o abrir mão de si que sempre foi a sua marca registrada? No oculto da sua tristeza, aquele mundo onde ninguém o alcança, a sua dor se manifesta e acaba por expandir-se de tal modo que, mesmo inconscientemente, ataca os que ama.

Palavras geram mundo - isso ele aprendeu de guri. Mas, agora, ignora e agride. Diz o que não quer dizer, diz mau dito: maldito.

Supõe não ser mais quem era e não percebe que não é mesmo e ninguém é. E iguala-se ao menino(a) que o enfrenta - fazendo apenas o que a vida exige de cada um, isto é, o tornar-se alguém, individualizar-se, separar-se dos cordões umbilicais e tornar-se ser pensante para construir seu próprio arcabouço de conhecimento e vida. Numa expressão simples; buscar a sua plenitude.

Olhos de fora. É isso o que é necessário: uma outra visão, ângulos diferentes da mesma percepção. Não para delimitar o que deve ser feito, não! Ângulos auxiliares que nos alertem para outros possíveis que não entraram em nosso campo de visão. Todo o cotidiano nos embaça a visão quando nos faz acreditar na rotina e na repetição e não na transformação. Não vemos que o menino(a) cresceu e quer usar o que aprendeu.
_ "Você me ensinou assim, porque não posso aplicar na minha vida, agora?"
_ "Você é hipócrita!"
_ "Você é fraco!"

Será que foi isso que você achou daqueles que possuíam autoridade sobre você, quando foi o seu momento, nesta vida?

Mas esse homem feito não é igual a maioria. Certamente ele não pertence à mediocridade. É preciso respeitar o desafio de cada um: e esse é o dele. Quão difícil deve estar sendo essa nova tarefa hercúlea que a vida apresentou!

Só que ao mesmo tempo em que penso nisso, me lembro que a gente atrai o necessário sempre. Somos nós que buscamos os desafios pelo prazer e pelo aprendizado (shimoda e fernão capelo, lembra-se?), por isso devemos ampliar o nosso horizonte mais uma vez: somos seres ilimitados.

E, como estou distante, à distância me valho dos instrumentos possíveis para dar esse recado de um amigo para o seu melhor amigo: a superação sempre fez parte de sua trajetória e não será diferente dessa vez. Os caminhos não exitem em si, você é o caçador que faz as trilhas para alcançar o seu alvo. Construa, então, as pontes necessárias - se necessário use vigas de puro amor para serem indestrutíveis quando o ataque for mordaz, e agredir (só não se esqueça que nós é que permitimos que nos agridam) - e faça o fluxo ultrapassar as barreiras e os precipícios e alcançar o seu alvo.

Talvez seja esse o seu último grande e necessário ato para com esses que você amou, antes mesmo de nascerem - assim como eu. Por isso, dê o melhor de si. Acorde aquelas forças que repousaram por um tempo e manifeste o brilho deste ser que sempre foi alvo de minha admiração e amor.

Busquei nesse texto apenas recordá-lo de quem você é, porque é somente isso que é necessário.
Cai na PAz, meu amigo.


Wellington de Oliveira Teixeira, em 12 de fevereiro de 2009.



* Tayane (e Tiago) Abs Gonçalves são meus afilhados, filhos de Valcir Gonçalves e Djane Abs Gonçalves.

28 de set. de 2008

o diabo também é um anjo

Anjos de tipo diferente, criado por Wellington de Oliveira Teixeira, em 28/09/2008
Anjos de tipo diferente, criado em 28/09/2008


E não é maravilha, porque o próprio Satanás se tranfigura em anjo de luz.
Bíblia - 2 Coríntios 11:14.


Não é sempre que conseguimos, mas por que não ter como alvo a transparência das emoções, a expressividade na beleza ou na feiúra dos atos, a plenitude do ser, sempre procurando, simultaneamente com isso, evitar o enfraquecimento de quem quer que seja?

As forças que vamos conquistando durante a vida são produto da experiência adquirida de muitos, em sua maioria difíceis, momentos e encontros que fazemos.

E guardados, como segredos em nossos corpos, um grupo de marcas e de sinais nos caracterizam, nos individualizam, geram a memória de um ente e historicizam uma partícula do universo - nós mesmos.

E, pano de fundo que se quer figura principal, um embate entre conceitos, preconceitos, defeitos perfeitos, um letreiro que propagandeia uma máscara que se gruda ao rosto, um resto de nós nunca desfeitos, um algo novamente velho de mente: o nosso viver demente.

Seguindo o traçado de um caminho pré-determinado, um modelo que enclausura, embota, nos empurra para um não-ser repetitivo igual a uma corrente de água em descedente correria: queda após queda.

As pequenas irrupções que conseguem alcançar a superfície já doente são cada vez mais minúsculas tentativas de expressão, signos de uma pressão, mas que não sai do sub, está sob: um pálido sonho de estar sobre os impedimentos e se mostrar.

Um poderoso mecanismo de captura das verdades individuais se perpetua, através dos seus companheiros de jornada, em olhares desviados, de sorrisos escondidos e de irônicas, mas verdadeiras, boas-vontades de todos. Sejam os amores que nos tomam para si e nos cobram por isso a nossa própria vida ou os ódios que nos aprisionam a acontecimentos, pessoas, frustrações e nos paralisam.

Como muitas coisas na vida, vemos passar e ir embora. Não desfrutamos, não aprendemos, não compartilhamos. E ficamos no eterno não, não, não. Não e não.

E quase sempre esquecemos que o diabo também é um anjo. O detalhe que diferencia é que, mesmo nas horas de mostrar a sua face mais terrível, os anjos se expressam plenos. É o diabo quem finge ser o que não é para obter a aprovação e conquistar seus objetivos.



Wellington de Oliveira Teixeira, em 28 de setembro de 2008.


* O preço a pagar-se por expressar plenamente a verdade de um ser é diretamente proporcional à imbecilidade de uma sociedade.