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3 de jul. de 2015

Sobre todas as coisas

Persistência, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 03-07-2015.
Persistência*, criado em 03-07-2015.

A persistência é o menor caminho do êxito.
(Charles Chaplin — Chaplin - Vida e Pensamentos, p.118)


É preciso coragem e ousadia para encarar o nada, essa forma infame de nulificar as forças da vida em prol de uma falsa esperança de futuro melhor, que aceita a desqualificação da existência viva e pujante, em todos os níveis, no momento atual.

Somos, quando aceitamos pacificamente essa manipulação de sentimentos, pensamentos e práticas, apenas um animal olhando para a cenoura a frente sonhando com um prazer futuro. Não estou fazendo apologia a vida intensa mas destrutiva. Defendo outra forma de ser e estar nesse mundo: potência expandindo e manifestando em todos os seres.

Isso me leva a considerar não apenas formas elevadas ou sofisticadas de viver, as mais simples e primitivas também carregam e expressam a surgente força da vida. Insurgente contra a nulificação, a inexpressividade, a total imobilidade, ou aquilo que denominamos como morte. Morte em vida. São necessários a escuridão e a luz, repouso e a atividade, silenciar os pensamentos estabelecidos para que possamos escutar os novos e emergentes. O simples e belo é a forma mais sofisticada de expressão.

Aposto num processo diferenciado de luta. Não ir contra algo, mas a favor de um outro algo diferenciado, transformador e renovador da existência. Há regras que regem o diferente e diferem daquelas que nos regem, mas isso não deve nos afetar. A coexistência pacífica e frutífera deve ser a opção de modo de convivência.

Não me canso de repetir — e o farei até que o entendimento surja — de que a vida foi estabelecida e se mantém na diferenciação, não na igualdade como padrão. As semelhanças, os pontos em comum e a composição de forças produzem o que a leva adiante. Abelhas e flores: polinização e mel; água, carbono e sol: fotossíntese e oxigênio. A ordem é simbiôntica e não parasitária.

A vida valoriza cada ser, todos são igualmente necessários ao ciclo da vida; estimula a capacidade da coexistência entre os seres diferentes para se expandir.

É puro desejo, apesar da improbabilidade, visualizar uma realidade onde haja pessoas alimentando mais o amor que o ódio, consequentemente produzindo práticas mais fortalecedoras e sustentadoras da coesão e da coletivização. Utopia fundamental para eu desejar ir adiante, mesmo que seja apenas um referencial, o unir forças em prol de todos e do todo é minha meta.

Esbarra sempre nas palavras dogmáticas e legalistas de alguns. Quem sabe o fluxo mude — como a água contornando as pedras — e muitos percebam que o véu do templo já se rasgou — de alto a baixo — e um novo e contínuo fluxo de liberdade surgiu e sua efervescência no íntimo contrapõe-se à escravidão das antigas leis. Não é ficar lutando contra o olho por olho, é apenas manifestar o amor sobre todas as outras coisas.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 03 de julho de 2015.

* Diz-se que a vida é persistente, não desiste, mesmo diante de obstáculos que impossibilitam a sua permanência insiste em ir adiante.

28 de mar. de 2015

Recordações esquecidas

Recordações esquecidas criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 28-03-2015
Recordações esquecidas, criado em 28-03-2015.

É digno de nota que, por pouco que os homens sejam capazes de existir isoladamente, sintam, não obstante, como um pesado fardo os sacrifícios que a civilização deles espera, a fim de tornar possível a vida comunitária. A civilização, portanto, tem de ser defendida contra o indivíduo, e seus regulamentos, instituições e ordens dirigem-se a essa tarefa. Visam não apenas a efetuar uma certa distribuição da riqueza, mas também a manter essa distribuição; na verdade, têm de proteger contra os impulsos hostis dos homens tudo o que contribui para a conquista da natureza e a produção de riqueza. As criações humanas são facilmente destruídas, e a ciência e a tecnologia, que as construíram, também podem ser utilizadas para sua aniquilação.
(Sigmund Freud — O futuro de uma ilusão, p.4)
Permitir-se ter os sonhos mais lindos, sem depois acordar e se entristecer diante da realidade que os contradiz é, certamente, um desafio para cada ser humano. Exige equilibrar o desejável diante do possível quando, muitas das vezes, suas expectativas estão desfeitas ou vivências prazerosas frustradas no dia a dia.

Perante o sofrimento, algumas teorias psicológicas* propõem que vivenciamos, da raiva até a aceitação, estágios como a negação, negociação, depressão. Não irei desenvolver o conceito, uso essa informação apenas para mostrar que não é tão simples quanto parece. Embora, para alguns, ocorram de forma sutil, ocultados pelas necessidades diárias; em outros, os estágios ficam visíveis por meio de explosões de fala, lágrimas e inércia. De fora, desqualificar a turbulência vivenciada por outros é fácil. Afinal, a melhor dor é aquela que não sentimos.

Se encaminhar da autodestruição para a superação é o aprendizado principal do 'cair para aprender a se erguer': um processo eminentemente pessoal.

Como tudo na vida, o primeiro passo é entender o Isso passa! presente em cada acontecimento, dos mais tristes aos mais felizes. O segundo, é o Já ultrapassei algo semelhante! — cada queda nos ensina os pontos de desequilíbrio e, além disso, novas formas de reequilibrar. Por fim, perceber o A vida continua! e o tempo que gasto me prendendo ao que passou me impede de vivenciar o presente e de avançar para alcançar outras metas.

Nada que não a cessação da vida finaliza o processo de ser e estar nesse mundo incrível. Mesmo com tão bizarros fatos e acontecimentos que temos que encarar. Por isso, o Segue adiante! é um lema tão importante, não apenas retórica nas falas dos que incentivam.

Uma boa dica é refletir sobre o que foi vivenciado, sempre contextualizando a influência da experiência em seu presente ou futuro. Se não for para aprender a ir adiante, os ensinamentos do passado são inúteis: uma fotografia guardada em um álbum de recordações que já não é aberto há muito tempo.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 28 de março de 2015.

* Em 1969, Elisabeth Kübler-Ross lançou o livro On Death and Dying (Sobre a morte e o morrer, no Brasil) onde apresenta um modelo de cinco estágios vivenciados por quem sente a dor pela perspectiva da morte iminente. Sua pesquisa com pacientes terminais foi avaliada e, em boa parte, validada para diversas outras formas de perda ou sofrimento.

8 de set. de 2014

Vida é o pleno desequilíbrio

Ponto de desequilíbrio, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 08-09-2014
Ponto de desequilíbrio, criado em 08-09-2014.

Não existe um problema que não ofereça uma dádiva para você.
Você procura os problemas porque precisa das dádivas oferecidas por ele…
Valorize suas limitações, e, por certo, não se livrará delas.

(Richard Bach - Ilusões - as aventuras de um messias indeciso, p.62 e 82)


Vida é o pleno desequilíbrio onde estabelecemos um equilíbrio provisório, em que não devemos acreditar totalmente.

A arte de perceber os ventos contrários como uma força capaz de nos impulsionar é um dos maiores aprendizados que temos. Os deslizantes da água, terra e ar confirmam isso.

Na infância, e por muito anos depois, são os apoios que recebemos que nos ajudam a estruturar a base de assimilação dos elementos necessários para seguir adiante. Alguns alcançam a fase de transformação e de individualização consciente, entendendo que devem ir soltando, ponto por ponto, do mais simples ao mais difícil de abrir mão, os antigos apoios em função de construir os novos e próprios.

A vida age e obriga, quando ignoramos esse fato. Em toda a natureza há exemplos claros desse processo, em que é necessário o desapego e o enfrentamento das dificuldades. No entanto, enganam-se os que acreditam que esse processo é, obrigatoriamente, solitário. Não o é. Apenas o aprendizado e sua absorção o é. É possível criar estratégias e agir coletivamente. Deixar de lado apoios e criar referenciais.

Assim, ao invés de olharmos para a área da vida que atualmente está desbotada e desarrumada - por conta dos acontecimentos que nos deslocam, nos descentralizam e nos sacodem -, devemos utilizar como guias ou auxiliares, nesse momento de movimento desequilibrado, os referenciais que nos embasam.

Não tente pegar tudo simultaneamente. Defina o mais imediato e importante e assuma-o como prioridade. Agende, antecipadamente, os próximos e necessários passos, não permitindo que as questões exigidas por eles se tornem pr(é)ocupações que o atrapalhem agora. Foque no hoje. Dê o melhor de si no agora. Pense que, quando chegarem os outros itens, a realidade terá se transformado - e você com ela.

Não é possível assumir a dor, a responsabilidade e os outros elementos inerentes à experiência de vida de outra pessoa - por mais próxima e amada que seja! - mas podemos ser solidários. E devemos deixar isso bem claro.

É isso que tento fazer com essas reflexões junto ao meu sobrinho Weberson (que, nesse momento, tenta corajosamente ocupar os papéis de filho cuidadoso, de neto amoroso e de, em breve, papai e provedor) e ao meu filho Paulo Roberto (em fase de mudanças familiares importantes, inclusive de casa).

Todos nós, vendo esses desafios, estamos respeitosamente permitindo que vocês os enfrentem e decidam o momento em que é necessário alguém ao lado. Seja como companhia para relaxar ou alguém para ajudar a traçar novas rotas, porque, para amar não precisa chamar.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 08 de setembro de 2014.

* Ninguém sabe qual é o calo, onde se encontra e como dói, além da própria pessoa. Por isso, devemos deixá-la decidir como tratá-lo.

17 de abr. de 2014

A arte de dividir-se

Dividir-se, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 16-04-2014
Dividir-se, criado em 16-04-2014.

Não se descobre o absurdo sem ser tentado a escrever algum manual de felicidade. "Mas como, com umas trilhas tão estreitas?" No entanto, só existe um mundo. A felicidade e o absurdo são dois filhos da mesma terra. São inseparáveis. O erro seria dizer que a felicidade nasce forçosamente da descoberta absurda. Ocorre do mesmo modo o sentimento do absurdo nascer da felicidade. "Acho que tudo está bem", diz Édipo, e essa fala é sagrada. Ela ressoa no universo feroz e limitado do homem. Ensina que tudo não é e não foi esgotado. Expulsa deste mundo um deus que nele havia entrado com a insatisfação e o gosto pelas dores inúteis. Faz do destino um assunto do homem e que deve se acertado entre os homens.
(Albert Camus - O Mito de Sísifo)***

Exemplos diários de dissociação incluem veículos de comunicação destacando estresse pós-traumático de soldados que retornam de guerra, vítimas de estupro acometidos de amnésia sobre os detalhes e, na Justiça, o problema de definição de responsabilidade sobre os atos, nos casos de Transtorno Dissociativo de Identidade (múltiplas personalidades). **


Alguém pode me dizer como se faz divisões sem que haja resíduos, sobras, restos? Imagino que é por causa deles que, durante a noite, meu cérebro não pare (mas será que algum momento ele para?).

Um pedido: não me fale de consciente e inconsciente. Pelo amor de Freud! Quociente é o resultado da divisão. E se os sujeitos não são inteiros, vai sobrar para alguém um resto. Geralmente, amargo para engolir.

Quando alguém me diz que tem que dividir-se em dois para dar conta de suas tarefas, eu entendo. A figura propõe multiplicar ou dobrar a capacidade de resolução. E quando alguém me diz que está dividido, eu entendo. A figura propõe menos da metade da capacidade.

Ilógico? Pode ser, mas eu lhe garanto que a atenção de uma pessoa que está dividida não atinge a metade exata de suas tarefas, uma recebe menos que a outra de maior interesse. Essa é uma avaliação de senso comum, isto é, não está embasada na exatidão ou cientificidade. É uma atestado de sua existência por detecção e comprovação de um fato: é algo que acontece, realmente.

Imagine os alunos e trabalhadores que estão doidos para irem embora, na véspera do feriadão (é o seu caso?). A menina ou o menino que, em vez de realizar suas tarefas, divaga. Bem, aqui a divisão do tempo parece se prolongar, demora a passar, os ponteiros do relógio não estão favoráveis ao resultado desejado.

O que me provoca nesse processo é o fato de sermos capazes de produzir um outro de nós mesmos — ou algo muito próximo disso — nessas horas. Há pessoas que são capazes de repetir o que estavam dizendo, mesmo com a atenção totalmente fora de onde estavam. Outros, como em reuniões decisivas, que enquanto ouvem um argumento, já estão estruturando os contra-argumentos necessários para outra situação - simultaneamente. Fisicamente muito distantes do lugar em que estão o pensamento e a emoção: dissociados.

Buscando formulações menos avançadas, estou pensando especificamente em como fico dividido, em alguns casos, para tomar decisões. A velha e já manjada briguinha entre razão e emoção. É que estar de fora de uma situação dessas facilita o olhar mais frio e crítico. Mas estar dentro… bem… não é nada fácil.

Uma hora ou outra, estaremos contra a parede, com a corda no pescoço, pois não dá para ser um joão-bobo ou o grande boneco inflável que se mexe ao vento ('bonecão do posto tá maluco, tá doidão'!). Situação em que, não fosse o sofrimento estampado, seria risível.

Todo mundo sabe como pode ser paralisante esse embate dentro de si. Afinal de contas, ninguém quer perder ou se machucar. E a matemática da divisão diz que ela é o contrário da multiplicação e representada por uma fração. Ninguém quer ficar fracionado.

Já viu um divisor de sinal de antena? Ele tem uma entrada e várias saídas. E tem uma tarefa ingrata. Sua função é potencializar o sinal que cada saída receberá para não degradar a imagem resultante, mais ou menos o milagre da multiplicação.

Enquanto não houver uma rachadura completa ou uma soldagem bem feita, vale as tentativas. Dessa vez vou tentar uma 'viagem astral'. Meditar e ir aonde meu coração manda. Não vou contestá-lo. Mas, depois, vou segurar a onda com a minha razão. Ela sempre corre atrás da emoção, no meu caso, apesar de toda a minha racionalidade.

Então tá decidido: o jeito é equilibrar a situação porque se eu não tomar um partido, acabarei partido, igual a esse texto. O pior é que já tem muitos pedaços que restaram de outras divisões espalhados dentro de mim.

É preciso ser um artista para se manter inteiro, não é? Alguém tem um cola-tudo para emprestar?

Wellington de Oliveira Teixeira, em 17 e 18 de abril de 2014.

* Sobre divisão matemática, leia:
http://educacao.uol.com.br/disciplinas/matematica/divisao-o-inverso-da-multiplicacao.htm
http://pt.wikipedia.org/wiki/Divis%C3%A3o

** A Ação de dissociar na
Física: Desagregação de moléculas.
Química: Decomposição reversível dos corpos.
Psiquiatria: Ruptura da unidade psíquica, que constitui um dos principais sintomas psicóticos, notadamente da esquizofrenia. (Amplie seu conhecimento em http://www.psicosite.com.br/tex/sod/dis003.htm)

*** CAMUS, Albert - O Mito de Sísifo - http://www.planonacionaldeleitura.gov.pt/clubedeleituras/upload/e_livros/clle000131.pdf

30 de mar. de 2014

Os construtos carregam voce

Construtos criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 30-03-2014
Construtos, criado em 30-03-2014.

Eu sempre amei o deserto. A gente se senta numa duna de areia.
Não vê nada. Não escuta nada. De repente, alguma coisa irradia no silêncio…
— O que torna belo o deserto — disse o principezinho — é que ele esconde um poço em algum lugar.
[…] "O que eu vejo não passa de uma casca. O mais importante é invisível…".

(Antoine de Saint-exupéry - O pequeno príncipe)


Quer produzir algo? Não o faça se não for para trazer à tona um pedaço de você, representar ou apresentar uma instância não alcançada antes: os construtos carregam você.

Pode ser algo estranho, mas que possua uma determinada visão de belo para os seus próprios olhos. Ou não. Às vezes acontece de você alcançar uma beleza que o encanta, porém, ao olhá-la, naquele momento não representa nem parcialidade nem totalidade de você. Melhor 'piorar' o que se produziu. Igual ao jeans surrado, que representou uma geração por muito tempo: apenas uma calça puída - por uso, não por fábrica! - que era mais desejada do que uma nova.

Uma vez me perguntaram do que eu tive medo antes de começar a desenhar, escrever, tocar ou reger, programar. De não poder aprender, creio ter sido a minha resposta. Do que eu lembro: mesmo não sabendo os fundamentos da música, errando ou acertando as notas, eu tocava; mesmo não tendo um português correto e copiando muito do que eu lia e aprendia, eu escrevia; mesmo fazendo traços primários ou apenas utilizando sobreposições do que eu gostava, eu desenhava; mesmo não tendo formação de teatro, adaptava peças para os musicais; mesmo não tendo domínio do inglês, eu traduzia.

Ainda carrego um certo temor de não conseguir trazer minha plenitude ao começar qualquer coisa, não o de obter uma obra de arte ou não. Há pouco tempo atrás eu descobri que algo que eu fazia para dar vazão a minha alma - tocar piano - mexeu com a vida de algumas pessoas que sequer conheci pessoalmente. E, entenda bem, eu nunca fui um grande pianista. Segundo alguma dessas pessoas, sabiam quando era eu quem tocava, porque a música ganhava alma. Talvez, por isso, o que eu transmitia, mesmo com a pobreza do que era construído, ultrapassou a fronteira do eu e repercutiu até hoje em outros.

É disso que eu falo, quando faço essa proposição: apenas seja pleno, utilize o seu potencial, expresse aquilo que você possui. Se isso vai torná-lo um artista ou não, que importa? A construção de si, a expressão de si, o lidar com o que há dentro de você deve ser prioridade.

E, quem sabe?, tentando uma determinada atividade, você encontre um caminho a enveredar. Se for com o coração, poderá até não ser útil por um determinado padrão mas certamente será bom.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 30 de março de 2014.

* Me encantei ao saber que uma das repercussões foi ganhar um xará.

6 de set. de 2009

Realidade da ficção

garotas (med_gallery_412_190124.jpg, obtida em www.imagemdefundo.com.br
garotas (med_gallery_412_190124.jpg), de www.imagemdefundo.com.br **

"Se você treinar para ser uma ficção por algum tempo, compreenderá que os personagens de ficção às vezes são mais reais do que pessoas de carne e osso e corações pulsando."
(Ilusões - Richard Bach).


Como quase sempre acontece quando eu vejo um bom filme, me sinto compelido a avaliar a vida como um todo. Sim, o que chamo de ficção me remete sempre ao que chamo de realidade.

Não preciso que no final dos créditos esteja escrito que aquela é uma obra de ficção e que os fatos, personagens, acontecimentos são apenas uma história possível. Até mesmo em obras baseadas em fatos reais. Toda realidade não é mais que uma interpretação.

O modo como percebo os acontecimentos do meu dia a dia fazem dele o que ele é, nada mais que isso. É como um dia de sol radiante quando eu estou muito triste: não me diz nada de sua beleza.

Me recordo uma vez em que fui para a Região dos Lagos, aqui no RJ, e fui caminhar e correr na praia. Pensamento a mil, sentimentos à flor da pele e uma vontade imensa de me ultrapassar e à dor que eu estava sentindo: rejeição e incompreensão não são algo que se possa viver facilmente. Me recordo que, depois de aproximadamente 40 minutos correndo pela beira da praia, me toquei que o sol estava se pondo e criando reflexos fantásticos na superfície da água do mar que tocava a praia. Cansaço, distração, oxigenação no cérebro? Não sei bem o que me fez ver com outro olhar aquilo que já estava olhando. Também me fez parar, observar tudo ao meu redor, entender um pouco o meu lugar naquele mundo fantástico que eu podia vivenciar. Sentei-me na areia e fiz uma prece em agradecimento pela oportunidade recebida. Foi o suficiente para ultrapassar a dor. Louvado Seja!

Depois de algum tempo em cartaz, finalmente, assisti ao Quem quer ser milionário? uma viagem pela Índia e seus contrastes sociais. A história do Jamal e sua perseverança ao se manter fiel ao seu amor e, contra todos os obstáculos, ir ao seu encontro.

Prosseguir em direção a um alvo com persistência não é uma marca registrada do mundo atual onde tudo é passageiro, tudo é substituível, tudo é para apenas uma estação.

Outro filme que me fez refletir a esse respeito foi o Prova de Fogo. Nele um casal às vésperas de um divórcio, vive experiências inusitadas quando o pai do marido, propõe para ele cerca de 40 dias de espera que seriam preenchidos com tarefas de um pequeno manual. Aos poucos a transformação da visão do imediatismo se desfaz em prol de uma mais voltada para a plenitude do encontro e do amor.

Estou refletindo a esse respeito: a velocidade dos encontros não precisa ser estabelecida pela falta de paciência com o dia a dia. Seria possível ter uma outra ótica sobre nossas motivações.

De certa forma, o que proponho como questão, para ser pega com carinho*, é que a realidade é múltipla dependendo da nossa percepção. E basta um pouco de vontade para a observarmos sob um outro prisma.

Quem sabe a ficção não é mais fatual do que a realidade?


Wellington de Oliveira Teixeira, em 06 de setembro de 1998.

* obrigado por me ensinar a falar assim, Denise Farias, tem sido muito importante pra minha vida.
** Pela primeira vez posto uma arte não feita por mim, mas que eu gostaria de parabenizar o autor. Só não consegui. Deixei, então, o endereço de onde achei. Parabéns, autor!