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30 de mar. de 2015

Reavaliar antes de revalidar

Avaliar—Revalidar criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 30-03-2015.
Avaliar—Revalidar*, criado em 30-03-2015.

Seja pontual ou contínua, a avaliação só faz sentido quando leva ao desenvolvimento do educando.
(Cipriano Carlos Luckesi — UFBa)


Não é porque a prática de limpar os dentes com uma certa planta foi entendido como benéfico e adotado por uma sociedade, tornando-se uma tradição, que deveremos continuar repetindo os mesmos procedimentos. Somente ao se entender seu sentido — a higiene bucal é saudável — será possível avançar para novas e mais eficiente e saudáveis práticas que esta.

Uma questão importante a se desenvolver é que referências para a vida podem se tornar aprisionamento. Práticas imutáveis são como o gesso em uma perna fraturada, cuja função reparadora ocorre apenas durante um determinado tempo e, quando não retirado, incomoda, impede os movimentos, podendo gerar algo pior.

As tradições, assim como algumas rotinas que adotamos, carregam um aprendizado prático, especialmente as relacionadas ao convívio humano. Seu uso tem seu motivo e importância. Porém, mais importante que repetir uma prática é compreendê-la. Entender o sentido que lhe deu origem em determinado contexto, o motivo de sua adoção, no momento em que se formou, e sua atual utilidade.

Ao conseguir efetuar tal raciocínio, será possível fazer a apropriação das lições que carregam e desenvolver novas práticas que ampliem futuros e diferentes aprendizados pessoais ou sociais.

Nenhuma tradição vale por si. Assim como os aprendizados pessoais podem ser desenvolvidos, conforme o indivíduo alcança maior maturidade, toda e qualquer regra de prática de vida precisa ser reavaliada para que possa ser revalidada.

Do contrário, indivíduos e a sociedade conseguirão apenas engatinhar. Não há desenvolvimento quando a pessoa se recusa a deixar sua alimentação ultrapassar o leite materno. O resultado, que se evidencia diariamente, são indivíduos fragilizados, facilmente controláveis, presos ao seu estágio emocional, psicológico e espiritual mais primário.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 30 de março de 2015.

* Avaliar é:
  • Diagnosticar — determinar o nível atual de desempenho do aluno;
  • Qualificar — o que será necessário ensinar, no processo educativo;
  • Desenvolver — produzir continuamente ações visando alcançar os resultados esperados: que atividades, em que sequência, quais instrumentos, inclusive avaliativos para cada etapa.

24 de mar. de 2014

Desequilíbrio inicial

Desequilíbrio, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 24-03-2013
Desequilíbrio, criado em 24-03-2014

Dom Juan: Pois bem, um guerreiro começa com a certeza de que seu espírito está desequilibrado;
aí, vivendo num controle e consciência completos mas sem pressa nem compulsão,
ele faz o máximo para conseguir esse equilíbrio.

(Carlos Castaneda - Porta para o Infinito, p.31-32)

Incomodado com a maneira de reagir a alguns acontecimentos de minha vida, peguei o livro Porta para o Infinito para recordar alguns pensamentos do Dom Juan que deram origem a diversas formas que tenho de me expressar. É preciso reaprender diariamente para poder reafirmar ou refazer seus próprios conceitos. Nada deve se estabelecer como imutável na vida, especialmente o aprendizado pessoal adquirido com a vida.

Na época em que fiz a primeira leitura, além de bem novo, eu era devorador de literatura e o livro me pareceu fantástico demais: feiticeiros, poderes, práticas de vida de não-fazer…

No entanto, os pontos de vista apresentados eram extremamente sedutores para uma mente questionadora como a que eu possuía. Então, me entreguei à leitura e avaliação das propostas apresentadas. O fiz tentando abstrair meus preconceitos. Lembro-me que me propus buscar uma visão de mundo de um determinado indígena, no caso o Dom Juan, e a afirmação que me encantou, de início, foi a de que era preciso buscar esclarecimentos, não apenas explicações convenientes.

Seu método, para isso, consistia em acumular um poder pessoal por meio da transformação das práticas diárias: o não-fazer. Este se apresentou como uma prática que possuía um imenso poder ao liberar nossa energia gasta com a repetição, com as nossas rotinas, com as nossas aceitações sem questionamentos e tudo o que nos mantém preso à mesmice, que causa o tédio ou que impede um aperfeiçoamento.

Era tudo de que eu precisava: essa proposição gerou a abertura de um portal dimensional para reavaliar tudo em tudo. Minha busca me levou a trilhar diversos caminhos, a praticar novos esportes, a tentar novas teorias do conhecimento, a experimentar novos sabores e a me afirmar como pessoa e a ter voz sobre o que eu chamava de minha vida.

Hoje, recordando um dos conceitos que mais me seduziram, o da humildade do guerreiro, me recordei de algumas características que assumi como importantes para a minha vida: a busca da impecabilidade em ações e sentimentos, a meus próprios olhos, e não aos olhos de espectadores; a aceitação daquilo que sou não como fonte de pesar mas como um desafio vivo; a não baixar a cabeça para ninguém e não permitir que ninguém o faça para mim.

Tem sido uma aventura e tanto caminhar usando esses conceitos, afinal, não há como forjar um triunfo ou uma derrota. Repito com o Don Juan, que mais uma vez colaborou para que eu ordenasse meus pensamentos e sentimentos: 'Um guerreiro está nas mãos do poder e sua única liberdade é escolher uma vida impecável'.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 24 de março de 2014.

* Para Roberta Ozorio, que hoje estava carente.

6 de jun. de 2012

Aquilo que optamos por chamar de maternidade


Olho de Sauron - Senhor dos Anéis


Pra lavar nossas dores desses dias tão pesados.
Mais um pacifista se iguala à policia e ao ladrão,
Um pai de família: pacato cidadão,
Que não nota que o filho
Só ouve e repete
Simplesmente
A palavra
Não.
Pacato Cidadão - Gonzaguinha.



Lá vamos nós (que bom!) mais uma vez.

Um novo ser vai se estabelecendo. Ele está estruturando-se humano, por construir um campo de conexões específicas num mundo rodeado da infinitude de fluxos. Vai desenvolvendo essa superfície de contato com outros seres que estão, possivelmente, mais esquecidos da incorporalidade e mais acostumados ao que poderíamos comparar a uma espécie de casulo que define sua estrutura.

Bem, esse ser vem como consequência de uma opção (que pode não estar clara) de acalmar aquela certa incompletude que o desejo produz, aquela certa necessidade como espécie de perpetuação, aquela realização de um sonho de se desdobrar em outro: daquilo que optamos por chamar maternidade.

Mas preservo-me, alertando para o fato de que, com certeza, ao rotular esse movimento ou estruturação, cuido de não caracterizá-la como algo feminino. Ato contínuo, criação é expansão da alma, é transfigurar as relações etéreas em campos visíveis, é expandir as percepções dos sensíveis, é arte e, portanto, assexuada: algo que é de uma ordem mais espiritual que material - apesar de todo processo biológico envolvido.

É a partir daqui que surge uma questão bastante sensível, que poderia se tornar polêmica, caso seja apresentada sem os devidos cuidados.

Em toda a natureza, a maternidade é um vínculo que se estabelece no sentido de preparar o novo ser para atuar na vida de forma autônoma e independente. Tão comum que, alguns seres, praticamente ao nascer, assumem as suas funções no mundo.

Por alguma questão da ordem da nescessidade, os seres humanos ganharam um tempo relativamente longo de incubação e um período de estruturação das habilidades pós-parto que exigem atenção parental. Seus órgãos continuam seu desenvolvimento e sua estruturação de nível superior exige uma certa proteção do meio ambiente que é exercida por seus pais.

Mas, como muitas das atividades humanas, esse tempo não é pré-estabelecido, ele se constrói na relação. E, justamente aí, ocorre o que poderia ser chamado de desestruturação do processo de preparação para a vida. As funções parentais se prolongam, não por necessidade do novo ser, mas dos seus responsáveis.

Se torna fundamental analisar: Por que não incentivamos nossos filhotes a descobrirem a vida, a fazerem as suas escolhas, a realizarem descobertas, a desenvolverem um olhar próprio sobre a realidade, a lutarem por uma construção de si e de suas estruturas mentais baseada nas apropriações que consigam fazer? Fica, para mim, claro que é um processo necessário ao novo ser.

Que forças de insegurança atravessam nossas relações (pais e filhos) a ponto de tomarmos para nós a responsabilidade pelas direções e concepções de vida desse novo ser?

As tentativas de acesso ao mundo, hoje, são regidas pelo nosso sistema de negação (Não faça isso, menino(a)!). Aquela proteção, que antes era dedicava apenas às questões ligadas a preservação, passou a ser adota para tudo na vida. E, agora, a criança vive um mundo modelado por uma cerca de proteção com proporções absurdas, não tendo acesso à vida, não aprendendo por si, não estruturando seu mundo por meio de suas escolhas.

É de admirar que pessoas biologicamente adultas ainda não ultrapassaram o nível de dependência que deveria ser característico da primeira infância?

Minha preocupação passa pela questão do tipo de educação que (nos) proporcionamos: o aprendizado que a maternidade propõe é, sem dúvidas, aquele relativo a alteridade e às construções das estratégias próprias - aprendemos a superar nossos medos seguindo em frente, experimentando e descobrindo a melhor forma de prosseguir na vida, construindo perante as novas interfaces as nossas próprias formas de defesas e de ataques.

Não podemos apostar na morte, na incapacidade, nos desculpando com motivações exteriores, como se o mundo fosse, atualmente, mais perigoso que no passado. Precisamos nos alertar para o fato de que nós é que vivemos essas inseguranças e lutar para superá-las.

Os novos seres querem e, certamente necessitam, de uma estruturação baseada em uma educação para a vida, para as escolhas, para as vivências e para a apropriação de suas experiências pessoais: para a construção de sua plenitude. Nós, velhos seres, devemos entender o porque de Confúcio dizer que a nossa experiência é um farol que ilumina apenas o que já passou, não deve ser usado para o que virá; que, para esses novos provocadores da vida, precisamos ter um olhar renovado que consiga ver qual novidade ele traz que é capaz de nos levar a um novo patamar como seres.

Somos seres pensantes: isso significa que somos capazes de reavaliar tudo, de refazer em outras bases tudo, de nos transformarmos e, por essa transformação, nos renovarmos na prática e no entendimento. Podemos gerar novos paradigmas.

E, acredito, mais agora do que nunca: é hora de transformarmos as práticas castradoras desta maternidade atual, que não estão aí em função de um novo ser, mas do velho ser que, inseguro de si, se apoia na sua relação com o novo para voltar a sentir o saborzinho da novidade de vida que se perdeu com as velhas práticas da rotina.


Wellington de Oliveira Teixeira, em 16 de maio a 6 de junho de 2012.


* Obrigado Eric Bragança e Ubiracy Figueiredo por me permitirem refletir, na superfície límpida de nossas conversas, meus questionamentos.

** Olho de Sauron (da série Senhor dos Anéis, de J. R. R. Tolkien) é uma espécie de mau olhar, que observa apenas o que é de seu interesse e que é usado apenas para dominar e não para ampliar os horizontes e se libertar.

30 de dez. de 2011

Arco-íris

Kundalini, criado em 27-12-2011

Se fosse fazer uma teoria sobre a vida, resumiria em poucas palavras: a vida se compõe de energia de amor e fé que fazem funcionar todos os entes dos mundos existentes ou ainda não e produz intercâmbio entre eles.
Wellington de Oliveira Teixeira

Um dia alguém me ensinou e eu quero honrar a herança deixada, honrar a sua disposição de espírito e honrar o seu espírito de doação.

Sinto saudades dos mestres que a vida me proporcionou e que seguiram por outra direção, na rota de seu destino, como Seres Pensantes que são.

Um deles, Celio, na época em que eu trabalhava na Reitoria da UFF, no intervalo do trabalho, após me ensinar os primórdios dos bancos de dados (no caso, o dbase - um software pré-histórico, para os dias de hoje), me convidou para ir ao Ponto Jovem da Miguel de Frias para lancharmos.

O que se seguiu foi uma experiência que guardo comigo, até hoje.

Em frente, a praia, o céu limpo, o sol radiante, poucos transeuntes, ele me apresentou um conceito da energia violeta.

Talvez seja melhor discorrer um pouco sobre faixas de energia, para esclarecer a questão, um pouco. Pois bem, as cores, como a conhecemos em sua faixa visível aos olhos humanos, nada mais são do que frequência energética dentro de um espectro limitado, com cores variando entre o branco, o amarelo, o vermelho, o azul e suas intermediárias e misturas em diferentes graus. Cada cor tem a sua medida mensurada. Na lista não incluí a ausência de cor, que chamamos de preto, mas incluí o branco, que é a soma de todas as cores.

Como iniciei o meu relato, por conta de um espetáculo da natureza, um maravilhoso arco-íris que se apresentou por alguns instantes, fui introduzido a uma questão complicada: as energias que todos os seres compartilham e como elas atravessam e entrelaçam tudo o que há.

O ponto de vista dele utilizava como ponto de partida o conceito da física, como narrei anteriormente, e seguia para um caminho um pouco menos perceptível e muito mais conceitual, isto é, tudo é energia. Questionava como seria possível deslizar entre as suas faixas, quais propriedades que determinada faixa representaria, que influências dentro do espectro visível da vida de cada um poderia apresentar.

Uma a uma, foi descrevendo, e me impressionando com a forma de raciocínio e as implicações que a sua lógica produzia em relação à vida cotidiana.

O grande momento, para mim, foi quando ele descreveu o que ele citou a energia violeta que chamou de kundalini**. O nome e o conceito, naquela época, me eram desconhecidos e os famosos chakras, ou núcleos de energia, que estão divididos num corpo, eram apenas vagas concepções da época em que havia lido O Manto amarelo e A Terceira Visão*, influenciado pelo pensamento holístico do meu tio Nagil Teixeira, que gostava de leituras carregadas de pensamentos orientais.

A energia de vida, que promovia equilíbrio e gerava uma interface entre os seres e podia ser acessada e utilizada para fins altruístas era uma forma de ver o mundo muito diferente do que eu havia aprendido nos bancos de uma igreja batista, aos domingos, mas nao distante demais ou incompatível com o meu entendimento sobre questões espirituais.

A apresentação dele foi tao importante que a partir daquele dia fui buscar novas formas de entender o mundo, novos modos de ler o que chamava de realidade. Tentei encontrar pessoas que possuíam visão diferenciada e mais trabalhada que a minha. Trabalhei novas ideias e passei a formular as minhas próprias teorias sobre a vida.

Hoje, posso dizer que me sinto muito mais seguro de mim e de minhas formas de pensamento, até mesmo mais feliz.

Então, ao terminar esse ano de 2011, nada mais justo que agradecer àqueles que se dedicam a buscar o conhecimento e a transmiti-los, mestres no verdadeiro sentido da palavra, educadores que transformam o mundo pela forma como propiciam a mudança na vida dos que os encontram.

A esses seres pensantes, minha gratidão, meu respeito e meu desejo que Caiam na Paz!

Wellington de Oliveira Teixeira, em 30 de dezembro de 2011.

* Livros de Lobsang Rampa de 1966 e 1956, respectivamente.
** Kundalini ou em sânscrito: कुंडलिनी, significa algo como "enrolada como uma cobra" ou "aquela que tem a forma de uma serpente", é a energia que transita entre os chakras, o poder espiritual primordial ou energia cósmica que jaz adormecida no centro de força situado próximo à base da coluna, e aos órgãos genitais.
É a energia do Universo em seu aspecto Purna-Shakti, total, como potencial, sendo o Prana-Shakti o aspecto biológico, ou fisico, como calor, eletricidade, etc. Conheça um resumo em http://pt.wikipedia.org/wiki/Kundalini

26 de jul. de 2011

Os pequenos fundamentos da vida

Enfrentando o fantasma, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 25/07/2011Enfrentando o fantasma, criado em 25/07/2011.

A duração de uma vida não é suficiente para se viver uma amizade.
Amigos São Amigos Pra Sempre!
(Friends - Michael W. Smith)

A construção de jovens que queiram agir com correção em relação a sustentabilidade passa por um aprendizado.

Só terá a clareza para avaliar possíveis questões socioambientais os que tiverem em sua história aquele instante mágico em que fica paralisado diante das expressões naturais: da graciosidade simultanea à ferocidade do movimento de um jaguar; da engenhosidade do tecido das teias das aranhas; da intricada geometria e engenharia das casas de abelha; da força brutal das erupções vulcânicas, dos tsunamis, dos tremores de terra; e da delicadeza do magnetismo da aurora boreal. E, no caso humano, dos pequenos gestos de um bebê ao processo de crescimento e maturação do corpo, alma e espírito.

É preciso ensinar que a beleza se encontra nos olhos de quem vê, mas a natureza é pródiga em criar possibilidades de encantamento que podem ser diferentes para cada um, mas no todo, é universal. Todos possuímos a sensibilidade para tal e todos somos atingidos por seus eventos.

É preciso alertar para o lado obscuro, que nós humanos possuímos, capaz de engendrar no interior do ser um vilão ou um herói, dependendo de como for trabalhado.

É preciso amar incondicionalmente a vida, em todas as suas formas, e estar pronto a pequenos sacrifícios para que ela prospere e possa retribuir prodigamente, como é natural a todo amor.

É preciso aglutinar campos energéticos que atraiam outros seres e permitam o compartilhamento sem a deleção das individualidades, a não ser naqueles momentos onde o amor funde as pessoas em uma e em que não sabemos distinguir-nos de um outro.

É preciso acreditar na capacidade de transformação e de superação que todos nós possuímos e precisamos usar dia após dia.

É preciso mostrar com atos e atitudes que um ser pensante é aquele que entende isso, e busca ser pleno em tudo que faz, não para provar nada para ninguém, mas para afirmar que é possível e que vale a pena.

É preciso apostar que a vida é maior, o amor é maior, e que não custa tentar e apostar naquele pequeno grão de fé que existe em todos nós, naquele pequeno grão de mostarda...

Descobri, no meu aprendizado, que a família com que me acerquei - os nascidos parentalmente e os anexados e adicionados por afinidade ou diversidade - foi de fundamental importância para que o solo da minha vida pudesse frutificar.

Descobri na amizade uma força estruturadora de uma eficácia incrível, um suporte magnífico contra as grandes forças devastadoras do ódio, do desamor, da intolerância, do sofrimento e da dor.

Descobri na fé e na esperança o poder de ir adiante. Mas foi no amor que tive a maior revelação: podemos ser melhores do que somos, por nós mesmos, quando incluímos alguém dentro de nós, a partir da partícula divina, pois descobri que o melhor nome para Deus é amor.

E, felizmente, consegui entender que cada um tem seu próprio processo de descobertas e de aprendizados. Mais que isso, um tempo próprio para a absorção da amplitude do que conquistou, até que possa por em prática em sua vida. Por isso, disse no início desta postagem, que 'a construção de jovens que queiram agir com correção em relação a sustentabilidade passa por um aprendizado', que agora complemento: primeiramente nosso para que haja o do outro.**


Wellington de Oliveira Teixeira, em 26 de julho de 2011.


* Esse texto eu escrevi para me lembrar - em qualquer momento difícil no futuro - que vale a pena ser e estar nesse mundinho chamado Terra.
** Acrescentei esse parágrafo no dia 28 de julho, pois o texto me pareceu incompleto por não mostrar que o processo de aprendizado não é de mão única.

26 de jun. de 2011

Ser o único a acreditar

Refratar-Refletir, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 26/06/2011Refratar-Refletir, criado em 26/06/2011

É típico do futuro ser perigoso...
Os principais avanços da civilização são processos, todos eles,
que destroem as sociedades em que ocorrem.
(Adventures in Ideas - Alfred North Whitehead)

É algo difícil ser pioneiro, ter ideias inovadoras, criar novos costumes, construir pensamentos e estruturas fora do modelo padrão. Crer é tão ou mais difícil que esses.

Não é incomum a valorização nas referências históricas, nas parábolas, nos mitos antigos e modernos, nos contos de fadas, de personagens da vida ou de um conto que, de alguma maneira, tornaram-se primeiros em um determinado campo de pensamento ou em prática de vida.

No afã de tornar única a sua forma de agir e pensar, os preservacionistas fazem de tudo para calar qualquer outra voz que se erga apontando uma nova perspectiva ou direção: para a manutenção da tradição como única forma de ação, valem-se de toda forma de recursos, e a memória da história humana está cheia de ações, principalmente as belicosas, que comprovam essa tese.

Na contramão deles, com bravura ou perspicácia, foram muitos os que conseguiram escapar às suas tramas e tramóias e nos trouxeram a um novo patamar científico e social.

Resolvi focar aqueles que nos inspiraram a fé e as práticas beneficentes e aqueles que sobrepuseram o interesse coletivo aos seus próprios, principalmente os cientistas e os educadores que conseguem olhar o campo de possibilidades adiante como metas a serem alcançadas, como desafios a serem vencidos e como obstáculos a serem superados.

Desisti de escolher um bom exemplo, que era minha ideia inicial, quando fui me lembrando de uma imensa lista de pessoas ousadas que, mesmo pagando o preço da inovação com a própria vida, seguiram em frente e se tornaram ícones para todos no presente, e, quem sabe, no futuro.

Resolvi desafiá-lo a fazer um pequeno inventário, incluindo pessoas próximas e distantes, famosas ou anônimas, e mostrar de algum modo a sua gratidão por eles. E para dar o pontapé inicial, fiz esse texto.


Wellington de Oliveira Teixeira, em 26 de junho de 2011.

* A imagem que produzi, veio da ideia de luzes se refletindo e se refratando, tentando ultrapassar os obstáculos: vidros, chuvas, rios, mares, poças, espelhos e o que mais se apresentasse.
* Hoje é o aniversário do meu sobrinho Raphael, então, esse texto vai pra ele. Parabéns, meu guri!

25 de jul. de 2010

Amor e Solidariedade: a regra de ouro.

Deixando germinar
'...Amarás o teu próximo como a ti mesmo.
Não há outro mandamento maior do que estes.'
(Bíblia - Marcos 12:31)

No Brasil, há uma prática chamada café-com-leite que consiste
em que os mais velhos e/ou habilidosos abram mão das suas capacidades pessoais
em prol da inclusão e da felicidade de alguém menor ou sem a habilidade necessária nas brincadeiras.
Parafraseando um texto bíblico, eu diria, Deus provou seu amor por nós,
quando abriu mão de Sua grandeza e viveu entre nós, como um de nós,
e nos ganhou para Si, por amor.
Este é um comportamento* que torna alguém mais do que especial.
(Wellington de Oliveira Teixeira)


No Brooklyn, Nova Iorque, Chush é uma escola que se dedica ao ensino de crianças especiais**. Algumas crianças ali permanecem por toda a vida escolar, enquanto outras podem ser encaminhadas para uma escola comum.

Num jantar beneficente de Chush, o pai de uma criança fez um discurso que nunca mais seria esquecido pelos que ali estavam presentes. Depois de elogiar a escola e seu dedicado pessoal, perguntou:

- 'Onde está a perfeição no meu filho Pedro, se tudo o que DEUS faz é feito com perfeição? Meu filho não pode entender as coisas como outras crianças entendem. Meu filho não pode se lembrar de fatos e números como as outras crianças. Então, onde está a perfeição de Deus?'

Todos ficaram chocados com a pergunta e com o sofrimento daquele pai, mas ele continuou:

- Acredito que quando Deus traz uma criança especial ao mundo, a perfeição que Ele busca está no modo como as pessoas reagem diante desta criança.

"Uma tarde, Pedro e eu caminhávamos pelo parque onde alguns meninos que o conheciam, estavam jogando beisebol. Pedro perguntou-me: Pai, você acha que eles me deixariam jogar?

Eu sabia das limitações do meu filho e que a maioria dos meninos não o queria na equipe. Mas entendi que se Pedro pudesse jogar com eles, isto lhe daria uma confortável sensação de participação. Aproximei-me de um dos meninos no campo e perguntei-lhe se Pedro poderia jogar. O menino deu uma olhada ao redor, buscando a aprovação de seus companheiros de equipe e mesmo não conseguindo nenhuma aprovação, ele assumiu a responsabilidade e disse:

Nós estamos perdendo por seis rodadas e o jogo está na oitava. Acho que ele pode entrar na nossa equipe e tentaremos colocá-lo para bater até a nona rodada.

Fiquei admirado quando Pedro abriu um grande sorriso ao ouvir a resposta do menino. Pediram então que ele calçasse a luva e fosse para o campo jogar. No final da oitava rodada, a equipe de Pedro marcou alguns pontos, mas ainda estava perdendo por três.

No final da nona rodada, a equipe de Pedro marcou novamente e agora com dois fora e as bases com potencial para a rodada decisiva, Pedro foi escalado para continuar. Uma questão, porém, veio à minha mente: a equipe deixaria Pedro, de fato, rebater nesta circunstância e deitar fora à possibilidade de ganhar o jogo? Surpreendentemente, foi dado o bastão a Pedro.
Todo o mundo sabia que isto seria quase impossível, porque ele nem mesmo sabia segurar o bastão.

Porém, quando Pedro tomou posição, o lançador se moveu alguns passos para arremessar a bola de maneira que Pedro pudesse ao menos rebater. Foi feito o primeiro arremesso e Pedro balançou desajeitadamente e perdeu.

Um dos companheiros da equipe de Pedro foi até ele e juntos seguraram o bastão e encararam o lançador. O lançador deu novamente alguns passos para lançar a bola suavemente para Pedro. Quando veio o lance, Pedro e o seu companheiro da equipe balançaram o bastão e juntos rebateram a lenta bola do lançador. O lançador apanhou a suave bola e poderia tê-la lançado facilmente ao primeiro homem da base, Pedro estaria fora e isso teria terminado o jogo. Ao invés disso, o lançador pegou a bola e lançou-a numa curva, longa e alta para o campo, distante do alcance do primeiro homem da base.

Então todo o mundo começou a gritar: Pedro corre para a primeira base, corre para a primeira. Nunca na sua vida ele tinha corrido... mas saiu disparado para a linha de base, com os olhos arregalados e assustado. Até que ele alcançasse a primeira base, o jogador da direita teve a posse da bola. Ele poderia ter lançado a bola ao segundo homem da base, o que colocaria Pedro fora de jogo, pois ele ainda estava correndo.

Mas o jogador entendeu quais eram as intenções do lançador, assim, lançou a bola alta e distante, acima da cabeça do terceiro homem da base. Todo o mundo gritou: Corre para a segunda, Pedro, corre para a segunda base.

Pedro correu para a segunda base, enquanto os jogadores à frente dele circulavam deliberadamente para a base principal.

Quando Pedro alcançou a segunda base, a curta parada adversária colocou-o na direção de terceira base e todos gritaram: Corre para a terceira.

Ambas as equipes correram atrás dele gritando: Pedro, corre para a base principal.

Pedro correu para a base principal, pisou nela e todos os 18 meninos o ergueram nos ombros fazendo dele o herói, como se ele tivesse vencido o campeonato e ganho o jogo para a equipe dele."

Naquele dia, disse o pai, com lágrimas caindo sobre sua face, aqueles 18 meninos alcançaram a Perfeição de Deus. Eu nunca tinha visto um sorriso tão lindo no rosto do meu filho!

Autor e data de criação desconhecidos.

* Há pouco tempo escrevi sobre o efeito Pic-tá (http://bigwzh.blogspot.com/2010/06/efeito-pic-ta.html) e sobre o seu poder de 'fazer a diferença' em diversas questões. Pois bem, esta é uma delas: a inclusão de pessoas com deficiências físicas e/ou mentais em todos os planos. Meu desejo, ao REPUBLICAR essa mensagem é que muitos também o façam e que influenciemos a adoção de novas atitudes perante as diferenças entre os seres humanos.

** Não gosto do termo 'especiais' para crianças com deficiências físicas e/ou mentais, por melhor que seja a intenção. Para mim todas as crianças (e adolescentes e adultos e idosos...) são especiais. Só o mantive por respeito ao autor, mesmo que desconhecido.

20 de jun. de 2010

A impotência do calar-se

Impotência, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 20/06/2010Impotência, criado em 20/06/2010

O ignorante estabelece critérios que desclassifiquem o conselho alheio,
em prol da sua falta de conhecimento,
busca estabelecer ideias falsas sobre si mesmo
e o mundo que o cerca de forma errônea...
Ignorância é não saber, e não saber que não se sabe.
(http://pt.wikipedia.org/)

A Estratégia:
Os gregos colocaram diante das muralhas de Tróia um imenso cavalo de madeira e fingiram a retirada.

A Percepção afiada:
O sacerdote troiano Laocoonte advertiu seus compatriotas de que poderia ser um truque.

A Incapacidade de entendimento:
O rei ignorou o conselho e apenas se deixou encantar com a imensa obra de arte.

O Resultado:
Na calada da noite, Tróia é conquistada.

O Castigo:
Atena que estava do lado dos gregos, resolveu se vingar de Laocoonte por ter quase atrapalhado seus planos e enviou duas serpentes gigantescas que saíram do mar e envolveram-no e a seus filhos: o desespero no seu semblante de lutador é a impotência de um pai de não poder auxiliar aos filhos.

A Moral da História:
Apesar de a impotência - em qualquer nível - ser uma merda, diante da ignorância, melhor se calar!

Wellington de Oliveira Teixeira, em 20 de junho de 2010.


* A base desse artigo e da arte é a história de Laocoonte e seus filhos de Agesandro, Polidoro, e Atenodoro: Leia em http://www.sampa.art.br/historia/laocoonte/ (dica observe a beleza da escultura em ambiente natural).

25 de dez. de 2009

Irai-vos

Irai-vos,criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 25/12/2009 Irai-vos, criado em 25 de dezembro de 2009

Irai-vos e não pequeis; não se ponha o sol sobre a vossa ira,...
(Bíblia - Efésios 4:26)
Num bate papo:
Ontem fiquei meio 'revoltado' com essa parada de natal. Vou te explicar: é por que o pessoal fez um evento ontem para doar roupas, brinquedos e comida para o pessoal da da área onde organizam festas, só que o que me revoltou é porque eu já os vi 'expulsando' as crianças da região dos eventos - crianças de 7, 8 anos q estão sempre por ali.
Esse é um dos exemplos do que me revolta... acontece isso direto sabe, um outro exemplo é daquele pessoal que o ano inteiro não dá lugar aos idosos no ônibus, e chega neste período quer fazer doação para asilo. Para mim, demonstra o quão hipócritas eles são (é por isso que eu parei de andar de ônibus... agora eu não tenho q dar lugar para ninguém... )


Relaxa um pouco, foi o que eu disse.


Sim, é essencial não nos acomodarmos diante de atitudes questionáveis. Por conta do nosso próprio processo de vida devemos usá-las para entender como não devemos agir.

E, sim, a ira é algo precioso. Mas a atenção deve ser redobrada quando ela se manifesta, pois pode se tornar um impecilho quando paralisa ou consome a energia de uma pessoa.

Talvez por isso esteja escrito nas bíblias Irai-vos, MAS não pequeis: NÃO DEIXEIS QUE O SOL SE PONHA SOBRE A VOSSA IRA. Mas, o que significa isso? Simples: não durma irado. Aconteceu como um alerta, como uma avaliação do seu ou de outro comportamento. Mas acabou, ela já cumpriu a sua função.

Diante de injustiças, de intolerâncias, de ódios, de prepotências, do sofrimento, das guerras é saudável nos irarmos. Inclusive Deus se ira e, sendo ele perfeito, devemos avaliar a ira como algo bom.

O ódio, por outro lado, é a permanência da ira dentro de nós e causa a amargura, retira a energia que poderia ser utilizada para boas causas. Além disso, tende a nos fazer acreditar que podemos julgar as pessoas, o que me parece ser algo inconcebível: cada um tem seu caminho próprio e não há como sabermos a vivência, os problemas, as questões que cada um carrega para agir como age.

Então eu creio que devemos avaliar as atitudes e não os atos. Se uma atitude nos parece ser errada, usamos essa percepção para ensinar a nós mesmos como não deve ser. E, para mim, para mentalizar, desejar, orar e enviar uma energia positiva para quem me parece, naquele momento, precisar. Ou, como eu já disse, um pouco de luz.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 25 de dezembro de 2009.

* Pablo, sempre podemos ampliar a nossa visão de mundo, então, nunca a restrinja!

11 de dez. de 2009

Pessoas que constroem uma vida melhor

construindo vidas melhores, criado em10/12/2009Construindo vidas melhores, criado em 10/12/2009

Cada filosofia esconde também uma filosofia;
cada opinião é também um esconderijo,
cada palavra também uma máscara.
(Nietzsche - Considerações Extemporâneas - cap. IX § 289)


Hoje pensei em um tema para reflexão por conta de bons encontros que fiz nessa semana.

Descobri que há ainda pessoas com a capacidade de serem o que são, respeitando as diferenças das pessoas com quem tem contato.

Pude perceber, depois de muito tempo, que as semelhanças entre os seres ainda é um grande fator para que a vida seja mais plena.

Tive a oportunidade de propiciar momentos de descobertas simples e agradáveis, num restaurante de comida japonesa, que produziram sorrisos de felicidade.

Vi um olhar amigo, sincero, curioso por aprender mais, que me recordou o início do meu aprendizado como um ser pensante - sempre querendo mais descobertas e aprofundamentos.

Mais uma vez, em minha vida, acreditei no poder da vida de se reconstruir e propiciar uma vida melhor, por que são pessoas como essa do meu encontro que constroem uma vida melhor para todos ao seu redor.

Os que são plenos de si, mesmo com suas incompletudes naturais, são capazes de semear pequenos grãos de felicidade na vida de quem tem a oportunidade de encontrá-los.

É muito bom ser agradecido a Deus, a vida, e aos seres que tornam a minha vida plena.


Wellington de Oliveira Teixeira, em 11 de dezembro de 2009.


* Obrigado a você Daniel Rossi Marinho.

7 de jun. de 2009

Fluxos versus Fases

Well-OutrosFluxos foi criado por Wellington de Oliveira Teixeira, em 03/05/2009 Outros Fluxos criado em 03 de maio de 2009.

"Na Natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma."
(Antoine Lavoisier)


Para mim, a perfeição é o processo, diário, de quem sempre segue adiante.

Vivemos muitos momentos na vida biológica. Da concepção à morte entramos e saímos em fases diferenciadas que nos modificam do momento anterior: nascimento, infância, pré e adolescência, juventude, maturidade, velhice, que são os períodos que se espera que todo o humano viva.

E para traçar essa linha histórica de alguém pedimos auxílio às ciências e descobrimos genes, células, glândulas e outros elementos que comandam a função vital são todos programados para nos prepararem para percorrer essa linha do tempo, nos fazer morrer, ao final.

Todos os que não tropeçam prematuramente na morte, neste intervalo, passamos por isso com mais ou menos angústias, incertezas, temor.

Em geral queremos avançar na escala até o momento em que percebemos que adiante se encontra a escala descendente e a decadência. A partir de então queremos retardar o avanço para nos eternizar.

Geramos, por forças externas e internas, modelos para nos guiar e até tentamos nos assemelhar a eles. Mas os heróis são, na maioria das vezes, apenas uma tentativa de lidarmos com os nossos fracassos.

Quando penso a vida, tento me liberar do pensamento das fases. Em seu lugar me proponho pensar os fluxos. Fluxos não são fases. Não são estruturados, acontecem a todo momento.

Fluxos não são categorias, apesar de podermos pensá-los com auxílio de oposições: fluxo de tristeza e de alegria, ânimo e de desânimo, de força ou de fraqueza, por exemplo. Em resumo, fluxos de composição ou decomposição.

São os fluxos que geram em nós a busca de novos encontros e, por isso, nos levam adiante. E ao pensar nisso, imagino que sejam eles os responsáveis pelo nosso caminho.

Novidade de vida é algo que se processa a todo momento, mas não alcançamos, necessariamente, essa percepção de forma simultânea: uma questão com o sincronismo entre atenção e domínio de si.

Acredito que, mesmo com essas precariedades, somos lançados pelos fluxos às transformações e toda transformação precisa de energia para ser consolidada, nem que provenha da desconstrução do material original, o que, às vezes, causa uma certa dor e uma sensação de perda. Mas, como aprendemos já há muito tempo: nada se perde, tudo se transforma.

Sendo assim, o que nos impede de ultrapassar o estabelecido pelas fases e, exercitando uma vontade soberana de novos encontros com a vida - em muitas dimensões e arranjos -, conquistar o que se denominou de fronteiras pessoais e interpessoais?

Cai na PAz e Vá em frente. Amigos São Amigos Pra Sempre!!!

Wellington de Oliveira Teixeira, em 7 de junho de 2009.

Para Pablo, após a sua nova tatuagem.

12 de fev. de 2009

Quando um segundo tempo chega

 Tayane Abs Gonçalves, anime dreams 2008-SP Fotógrafo desconhecido Tayane Abs Gonçalves, anime dreams -sp 2008

"Será que é assim que termina, pensei, será que tudo o que um Mestre diz não passa de um amontoado de palavras bonitas que não o podem salvar do primeiro ataque de um cão raivoso?"
(Richard Bach - Ilusões. As aventuras de um Messias Indeciso)

Eu conheci um jovem que sonhava ter um lar, ser um pai-amigo-professor, ter pequenas conquistas na vida desde que pudesse ter paz e sossêgo, possuir conhecimento que modificasse a sua e a vida de outros, ter a sua cara-metade para compartilhar tudo o que conseguisse e para se entregar por inteiro.

E o conheci de uma maneira inusitada, como tudo de bom na vida, um quase desconhecido o trouxe a mim e nos apresentou.

Logo de cara a pura oposição nele se mostrou: a estatura ocultava a grandeza do ser humano guardada em sua alma; a sua vivacidade se perdia em gestos contidos e tímidos; sua generosidade em partilhar escondia o imenso vazio que se criara pela necessidade de receber um olhar, um toque, um afeto genuínos; a firmeza dos seus gestos encobria a suavidade da sua entrega de si e do abrir mão do que lhe pertencia, por direito; o desprendimento em relação ao modo e ao que vestia camuflavam a força de sua presença e tudo o que apresentava apenas calava a bondade e superioridade do simples cuidar para que todos pudessem estar juntos e em prol da felicidade dos outros.

Abnegação não era ainda a palavra que o descrevia. Ele tinha apenas 13 anos e o que mais chamava a atenção era o seu olhar profundo e aquela tristeza que o acompanhou como amiga inseparável a vida toda. Em muitos momentos ela o tomou para si e o levou para um mundo exclusivo e impenetrável de onde, mesmo quem mais o amou, nunca pode retirá-lo.

A fascinação pelas conquistas o tornou um caçador de aventuras, desbravador de matas e buscador de trilhas para lugares onde o silêncio falava mais alto.

A sua entrega total o fez presa fácil da mágoa e do sofrimento - poucos são capazes de alcançar um patamar tão alto seja em coleguismo, amizade ou amor. Mas, como tudo no mundo, o aprendizado se fez presente e lhe conferiu honra ao mérito: onde todos desistiam, ele se entregava mais e mais.

Seus medos foram fantasmas sempre assíduos nessas horas, pois negar-se é o mesmo que abrir as defesas de si mesmo. E por conta disso, em muitos momentos tristeza foi sinônimo de depressão, de solidão, de incompreensão.

Eu sei por que eu vi, por que vivi junto tendo a impotência como companheira, já que ninguém pode viver a vida de outro e, mesmo que eu tenha as respostas para a pergunta dele, tenho como desafio conquistar as minhas próprias.

Indolência também foi marca registrada nesse jovem quase homem: tão fácil resolver as questões, por que se esforçar, por que antecipar os problemas, por que investir na previsão? Então, que tudo se resolva apenas quando não houver mais oportunidade de postergar.

Perdulário? Talvez. Mas jamais deixar de oferecer o melhor para os que estavam ao seu redor e principalmente sob sua proteção. Por conta disso, em várias ocasiões ficou em situação financeira complicada. Então, mais ainda se entregou a trabalhos extras para suprir tudo e mais um pouco. Mesmo que pessoalmente discorde desse procedimento, nele reconheço uma grande carga de afeto.

A sua sede de compreensão o levou a trilhar diversos caminhos entre filosofia, esoterismo e religiosidade. Leu muito, mas apenas o que lhe interessou. Conversou muito mais - esse era um caminho que mais lhe agradava - e questionou tudo e a todos. Colocou em cheque os parâmetros que o balizavam, por que eram de outros, para obter algo que fosse seu pedaço de fé, seu terreno de entendimento e sua proposta para a vida.

Agrediu alguns nesse processo, é claro. Autoridades se sentiram rejeitadas; parentes, incompreendidos; companheiros, solitários; amores, mal-amados. Fez parte de sua jornada pequenas agressões verbais, em momentos intempestivos, principalmente quando era o momento de dar novos passos, subir o degrau da plenitude. O quanto lhe doeu esse processo de desprendimento não sei dizer.

Foi conquistando os espaços desejados ao mesmo tempo em que abria mão de outras expectativas que tinha para si. E quando de si surgiram partes de si, mas, em si próprias, um outro, aprendeu o sentido da palavra abnegação enquanto o abrir mão de si por si mesmo. E o fez como não encontrei ninguém ainda capaz de fazê-lo.

E rio comigo mesmo ao pensar no herói que eu acabei de criar. E (des)rio, se é que posso criar essa palavra, por que é isso mesmo que eu acredito que ele seja por méritos próprios e não pelas palavras que posso me valer para descrevê-lo.

Um herói é aquele que ultrapassa a média e vai abrindo os caminhos com suas conquistas, mas, como todo mundo, carrega seus desafios e dores. Esse não difere.

Hoje, com família estabelecido, enfrenta o maior desafio de um grande homem: passar o bastão para os filhos, que reivindicam seu lugar no mundo sem sustentação, proteção, sobreposição de idéias por meio de autoridade formal. E, é claro, a sua liberdade para ir e vir sem justificativas, permissões ou esclarecimentos. Isso faz tão parte da vida que, mesmo repetindo-se há milhões de anos, nunca estamos preparados para enfrentar. Até mesmo nos convencemos de que o que acontece é por falta de amor, falta de respeito, falta de algo que nos faz falta e não sabemos bem o que é, mas que parece com o tornar-se desnecessário. Como pode ser desnecessário o abrir mão de si que sempre foi a sua marca registrada? No oculto da sua tristeza, aquele mundo onde ninguém o alcança, a sua dor se manifesta e acaba por expandir-se de tal modo que, mesmo inconscientemente, ataca os que ama.

Palavras geram mundo - isso ele aprendeu de guri. Mas, agora, ignora e agride. Diz o que não quer dizer, diz mau dito: maldito.

Supõe não ser mais quem era e não percebe que não é mesmo e ninguém é. E iguala-se ao menino(a) que o enfrenta - fazendo apenas o que a vida exige de cada um, isto é, o tornar-se alguém, individualizar-se, separar-se dos cordões umbilicais e tornar-se ser pensante para construir seu próprio arcabouço de conhecimento e vida. Numa expressão simples; buscar a sua plenitude.

Olhos de fora. É isso o que é necessário: uma outra visão, ângulos diferentes da mesma percepção. Não para delimitar o que deve ser feito, não! Ângulos auxiliares que nos alertem para outros possíveis que não entraram em nosso campo de visão. Todo o cotidiano nos embaça a visão quando nos faz acreditar na rotina e na repetição e não na transformação. Não vemos que o menino(a) cresceu e quer usar o que aprendeu.
_ "Você me ensinou assim, porque não posso aplicar na minha vida, agora?"
_ "Você é hipócrita!"
_ "Você é fraco!"

Será que foi isso que você achou daqueles que possuíam autoridade sobre você, quando foi o seu momento, nesta vida?

Mas esse homem feito não é igual a maioria. Certamente ele não pertence à mediocridade. É preciso respeitar o desafio de cada um: e esse é o dele. Quão difícil deve estar sendo essa nova tarefa hercúlea que a vida apresentou!

Só que ao mesmo tempo em que penso nisso, me lembro que a gente atrai o necessário sempre. Somos nós que buscamos os desafios pelo prazer e pelo aprendizado (shimoda e fernão capelo, lembra-se?), por isso devemos ampliar o nosso horizonte mais uma vez: somos seres ilimitados.

E, como estou distante, à distância me valho dos instrumentos possíveis para dar esse recado de um amigo para o seu melhor amigo: a superação sempre fez parte de sua trajetória e não será diferente dessa vez. Os caminhos não exitem em si, você é o caçador que faz as trilhas para alcançar o seu alvo. Construa, então, as pontes necessárias - se necessário use vigas de puro amor para serem indestrutíveis quando o ataque for mordaz, e agredir (só não se esqueça que nós é que permitimos que nos agridam) - e faça o fluxo ultrapassar as barreiras e os precipícios e alcançar o seu alvo.

Talvez seja esse o seu último grande e necessário ato para com esses que você amou, antes mesmo de nascerem - assim como eu. Por isso, dê o melhor de si. Acorde aquelas forças que repousaram por um tempo e manifeste o brilho deste ser que sempre foi alvo de minha admiração e amor.

Busquei nesse texto apenas recordá-lo de quem você é, porque é somente isso que é necessário.
Cai na PAz, meu amigo.


Wellington de Oliveira Teixeira, em 12 de fevereiro de 2009.



* Tayane (e Tiago) Abs Gonçalves são meus afilhados, filhos de Valcir Gonçalves e Djane Abs Gonçalves.

18 de abr. de 2008

Um castelo com alma

Keptah, criado em 6 de janeiro de 2006.


Encontrei na vida diversas cabeças que pensavam coisas diferentes. Seus pensamentos geraram milhões de novos pensamentos em muitas outras pessoas. Levavam adiante o conhecimento para que o Homem pudesse tornar-se Ser Pensante.Espero que este seja um destes elementos que nos encaminham para a novidade do pensar. Felicidades!




Era uma vez… Um castelo.

Ele tinha uma alma que era hospitaleira e ficava feliz quando podia abrigar outras almas dentro de si. Sua felicidade irradiava. Quem olhava a sua fachada percebia uma beleza especial e desejava entrar. Com isso novas almas habitaram a alma do castelo.
Pela manhã, suas janelas eram abertas e os raios do sol iluminavam o seu interior; o aroma das flores do lado de fora tinham oportunidade e entravam; a brisa suave aproveitava e passeava por entre as paredes do castelo.

E o castelo vivia agradecido àquelas almas que o habitavam e habituou-se a tê-las em seu interior.

Sua felicidade era como a música que pairava em suas dependências: uma música que vinha das esferas celestes, dos riachos, das plantas, do vento, de sua alegria.

Numa noite especial, uma fada apareceu por lá e vendo a beleza da alma do castelo - que com prazer abrigava outras almas em si - resolveu dar-lhe a oportunidade de ter realizado um desejo seu. E lhe contou sua intenção. Depois de pensar um pouco o castelo disse para a fada que o seu grande desejo era tornar-se homem. Interrogado pela fada sobre seu desejo, ele falou que queria aprender como era ser abrigado por uma outra alma. A fada percebendo-lhe as nobres intenções, lhe concedeu o desejo.

E castelo tornou-se homem. Alma de homem que foi vagar e buscar o seu abrigo. E como tivesse sido o único castelo das redondezas, foi buscar em outro lugar algum outro para ser abrigo. E seguindo seu caminho encontrou outros homens que também buscavam abrigo. E se uniram na caminhada e na busca. Trilharam muitas vias, se conheceram e continuaram buscando alguma alma acolhedora.

Os companheiros passaram a reclamar do seu destino e, seguindo-lhes os passos, reclamou também. E tanto reclamou que esqueceu quem era e não mais conseguia se lembrar da sua antiga alegria.

Sua alma agora era triste e ele estava vazio

Um dia sentiu algo que o alertava para o estranho rumo que estava tomando: abrira um novo caminho por estar em busca de uma felicidade maior, mas nada havia encontrado que lhe acrescentasse além de lamúria e tristeza. Decidiu ser hora de refletir, ser mais prudente e questionar melhor sobre o modo e a direção que estava seguindo

E, seguindo, ele e os companheiros encontraram algo que poderia servir de abrigo: um castelo abandonado que tinha uma fachada triste. Tentaram entrar, mas descobriram que suas portas e janelas estavam cerradas e haviam placas indicando que a entrada era proibida. Não havendo meios para entrar, decidiram seguir adiante

E essa frustração se juntou às outras e pesaram na alma do ex-castelo. A maioria dos companheiros desistiu da busca.

Que fazer agora? Ir em frente ou voltar? Continuar lutando por seu desejo ou desistir? Tantas decepções aparecem no caminho de quem tenta o novo. Será que vale a pena prosseguir? Sua mente de homem questionava e pensamentos surgiam dos encontros-desencontros da vida. Mesmo com as dificuldades enfrentadas, uma coisa era certa: castelo crescia com seus novos conhecimentos. E, pensando assim, decidiu ir em frente.

Poucos foram os aliados no encontro ao desconhecido, mas agora sabiam com mais certeza o que queriam e não desistiriam tão fácil. “Nem se difícil”, dizia ele consigo mesmo. E fortalecendo-se e animando-se uns aos outros, seguiram até que chegaram a um lugar que a ele parecia familiar. Lá encontraram um castelo com uma fachada alegre, e desejaram entrar. Entraram seus companheiros. Entrou ele. E quando se sentiu abrigado, algo se abriu dentro dele. Viu que sua alma e a do castelo eram uma. E a felicidade foi tanta, que tornou-se novamente castelo. Muito mais bonito, muito mais feliz.

E agora, depois da longa jornada, sabia o que era ter abrigo: seus companheiros o haviam abrigado durante o caminho, quando o fortaleceram e o animaram. E, assim percebendo, mais feliz ficou em abrigar os que o haviam ensinado tanto.

E castelo alcançou mais do que desejou…


Wellington de Oliveira Teixeira em dezembro de 1996.

E o Fodão criou um mundo…

O fodão Criou o Mundo, arte Wellington de Oliveira Teixeira O fodão criou o mundo, criado em 16 de outubro de 1998.

E não o fez uma cópia do mundo do Outro. Claro que não. Não seria imbecil a tal ponto. Tudo bem que o Outro acertara algumas coisas: aprontara primeiro Céu, Terra, Águas. Qualquer principiante sabe disso. Mas, por que demorar 7 dias (ou melhor 6 porque um era o Sábado e nem Ele era de ferro), Ah! e é preciso fazer um outro desconto, por que qualquer ser criador precisa tirar um cochilo de 20 minutos – leia-se duas horas – após o almoço. E isso já reduz de 6 dias para 5 e ½. Mas, mesmo assim, é muito tempo só para dizer algumas palavras como Haja Luz em latim e ver se houve mesmo (e ele até pensou: é melhor eu não falar demais por que se a Fiat Lux souber que usaram seu slogan vai criar um problema na justiça com o Outro. E, mesmo tendo sido um plágio do Outro, ele não o criticava. Afinal, cada um com o seu cada um.). Qualquer ser inteligente verifica o resultado do que fez, mas precisava ficar dizendo para si mesmo que tudo que estava fazendo era bom? É claro! Como todo bom ser criador, que sabe que é bonzão. Nisso o Outro era perfeito. Mas param por aí as semelhanças.

E, é claro, que o Fodão começou o mundo por uma criança. Não cometeria o mesmo erro do Outro, que criou um homem e depois se ferrou ao ser abandonado por sua criação. Apesar de ter achado uma vacilada feia do Outro, não o criticava. Afinal, cada um com o seu cada um.

Outra, que ele achara ter sido uma vacilada feia do Outro, foi a de ter criado, logo a seguir, uma mulher. É claro! Todo ser que tenha um mínimo de inteligência (homem, é claro!), sabe que mulher quando aparece sempre gera problemas para o homem resolver ou, então, faz uma merda 'irresolvível'. Não é culpa dela não ser imagem e semelhança do seu criador e, por isso mesmo, incapaz de alcançar um pensamento que seja criativo. Também o Outro foi tirar logo um pedaço das axilas para criar uma mulher. (E ele já pensou: é por isso que elas precisam de tanto perfume e vivem em lojas para ver se melhoram a aparência e aparecem um pouco). Mas não criticaria o Outro. Afinal, cada um com o seu cada um. Criaria, em vez dela, Terras Encantadas por toda a parte.

E, existiria apenas uma escola: a dele. Prá que outra? (e ele já pensou, de novo, numa outra vacilada do Outro, essa de mandar outro para ensinar em seu lugar. Tinha que dar no que deu: quando perceberam a enganação, espancaram o cara, e o penduraram numa cruz, só para que o Outro pudesse ver mais de perto. Isso foi demais. Quanta irresponsabilidade! Por que não assumia que não sabia ensinar? Quem sabe vai e faz por si mesmo, não manda recados!). E as turmas seriam divididas entre os meninos que conseguiam e os que não conseguiam pensar, analisar e falar como o Fodão. É claro que ele daria uma atenção especial para os que já conseguiam, mas, de maneira alguma, deixaria os outros de lado. Simplesmente daria a parte que eles já conseguiam assimilar. E, afinal de contas, quem é burro tem que pastar prá aprender.

E houve a manhã e a tarde do primeiro dia. E, é claro, como não podia deixar de ser, o Fodão foi dar uma caminhada na praia e ver se havia festa por lá. Afinal de contas era o seu aniversário. E ele não cometeria uma vacilada igual a do outro (diga-se de passagem, já estava de saco cheio com as vaciladas do Outro. Mas não criticaria o Outro. Afinal, cada um com o seu cada um.) de só por ser um ser eterno não assinar em baixo por todos os anos já vividos. E foi ver, em seu vídeo cassete, os jornais da tarde e da noite.

E chegou o fim da noite do primeiro e único dia, por que o Fodão acordou e viu que tivera um sonho.

E pensou consigo mesmo "Só um Fodão prá ter um sonho como esse". E tocou o sinal do recreio e a gurizada correu ao seu encontro. Ele pegou um Halls, colocou na boca. Gritou: “Aqui só tem um que manda!”

E, lá no fundo da sala, alguém escutou uma voz de um baixinho dizendo: “E sou eu!”.

Uma homenagem a um grande educador, prof.º Ubiracy Martins de Figueiredo, no dia de seu aniversário.


Wellington de Oliveira Teixeira em 16 de outubro de 1998.

17 de abr. de 2008

As escolhas

As escolhas - Wellington de Oliveira Teixeira - outubro de 1996 As escolhas - criado em outubro de 1996

“Qualquer caminho é apenas um caminho e não constitui insulto algum – para si mesmo ou para os outros – abandoná-lo quando assim ordena o seu coração(…) Olhe cada caminho com cuidado e atenção. Tente-o tantas vezes quantas julgar necessário… Então faça a si mesmo e apenas a si mesmo uma pergunta: possui este caminho um coração? Em caso afirmativo o caminho é bom. Caso contrário, esse caminho não possui importância alguma!”
(Dom Juan)


…“Vai ver que é assim mesmo e vai ser assim pra sempre. Vai ficando complicado e ao mesmo tempo diferente.”…
Renato Russo


Cada dia que passa, experiências vão sendo vividas ao interagir com o meio em que se vive. O dia a dia de cada homem produz nele uma seqüência de acontecimentos, de todos os tipos e intensidades. A esta seqüência de acontecimentos e as experiências produzidas por ela, ele resolveu chamar de existência.

Geração após geração, o homem tem realizado uma busca do que lhe é fundamental, tem procurado o eu sou que lhe diz respeito. À esse eu sou, que ele percebe ser a base de sua existência, a sua natureza, o que realmente é, no mais íntimo de si, deu o nome de essência.

A primeira coisa que percebeu é que a existência de alguém tem precedência a todo e qualquer sentido dado a esta mesma existência. Em outras palavras, essa busca o levou a entender um fato: sou (existência) é anterior à questão de saber o que sou (essência). “A existência precede a essência”, como dizia Sartre.


“O que sinto muitas vezes faz sentido e outras vezes não descubro o motivo que me explica porque é que não consigo ver sentido no que sinto, o que procuro, o que desejo e o que faz parte do meu mundo.”
Renato Russo

O que se observa na humanidade é que essa essência não está definida de antemão. Cada pessoa faz-se no dia a dia. É uma construção. E como as construções diferenciam-se uma das outras em muitos aspectos, cada pessoa diferencia-se das outras: é singular.

Se o homem não possui tal natureza, é ele quem vai criar-se a si mesmo. Criar sua própria natureza, sua própria essência.

Para alguns pensadores, nós somos uma experimentação, nos produzimos ao ir vivendo de tentativa em tentativa, até descobrirmos o que nos torna pleno. Viveríamos numa pura improvisação: atores colocados num palco, sem que o roteiro tivesse sido definido anteriormente, onde temos que decidir a personagem, o texto, como falar, como queremos viver.


“Sou uma gota d’água, sou um grão de areia.
Renato Russo


À diferença dos outros seres, o homem percebe que existe e que um dia terá de morrer. Por si só isso já o diferencia completamente e o isola. Se ele não vê nenhum sentido nisso tudo, sente-se alienado: um ser estranho no mundo. Isso pode levar ao desespero, tédio, depressão. Só que essa característica de se saber é o que lhe permite ser livre. O homem não foi definido, e tem a liberdade para o fazê-lo como quiser. E, é claro, isso o torna responsável por tudo o que faz. Não é como outros animais que seguem seus instintos, sua essência, sem que possa fazer nenhum questionamento e sem que possa ser responsabilizado pelos seus atos.

Essa liberdade faz de cada momento uma situação de escolha. Nos força a tomar decisões durante toda a nossa vida. E se a essência não preexiste em nós, também não existem valores ou regras eternas, a partir das quais podemos nos guiar. E isso torna mais importantes as nossas decisões, as nossas escolhas.


“Tudo é dor e toda dor vem do desejo de não sentirmos dor.”
Renato Russo


Algumas pessoas acham isso um fardo pesado demais para carregar. Preferem não se preocupar e se deixam levar, como uma folha à mercê do vento, levada para qualquer direção. O medo de assumir uma postura, uma idéia, um sentimento, um desejo, consegue lhe causar uma paralisia de tal proporção, que é melhor deixar de lado. Tentar esquecer. Tentar diminuir a responsabilidade por sua própria decisão. Só que isso cobra um preço: negar-se a si mesmo e viver a dor de, dia a dia, tentar não ser.


“Há tempos são os jovens que adoecem. Há tempos o encanto está ausente e há ferrugem nos sorrisos e só o acaso estende os braços a quem procura abrigo e proteção.”
Renato Russo


Só que, quem nega a sua capacidade de escolher, torna-se como uma massa anônima, impessoal. Passa de um ato para outro sem qualquer conflito ou pensamento. Não tem um eu próprio, pois foge de si mesmo e se refugia em mentiras. Não há como produzir felicidade num caminho de auto-negação. Onde a alegria verdadeira? Onde a espontaneidade? Onde a expressividade? Onde um relacionamento que complemente? Onde a amizade? Onde o amor?


Você diz que seus pais não entendem, mas você não entende seus pais. Você culpa seus pais por tudo e isso é absurdo: são crianças como você. O que você vai ser quando você crescer?
Renato Russo


Culpa do destino se não consegui ser feliz. Culpa da sociedade se não demonstro meus sentimentos. Culpa da geração anterior o fato do mundo estar como está. A responsabilidade nunca está nas próprias mãos: alguém sempre nos fez alguma coisa. É preciso projetá-la no outro. Qualquer outro. A vida no negativo é uma marca registrada dos que vivem desse modo.


“Começo a ficar livre – espero. Acho que sim. De olhos fechados não me vejo.”
Renato Russo


Mas nós, os que um dia resolvemos não mais aceitar ser uma marionete do destino, os que decidimos não permitir que os ventos do dia a dia nos levem pra qualquer direção contra nossa vontade, os que não queremos viver de culpa e nem desejamos viver culpando ninguém, os que encaramos a vida como uma grande chance de enfrentar o desafio da liberdade de ser – mesmo com preço que ela cobra, podemos criar um sentido para a nossa própria vida, pois somos nós que escolhemos aquilo que nos é importante, especial e fundamental. Nossas escolhas nos tornam o que somos. O nosso ato de decidir espelha aquilo que produzimos como nossa essência: as prioridades de nossa vida, os sentimentos que nos invadem, as qualidades que valorizamos e cuidamos em nós.


“Quando não estás aqui, meu espírito se perde. Voa longe…”
Renato Russo


E é a valorização do que é importante para nós que transforma nosso modo de olhar o mundo: abre as portas da percepção.

É o modo como percebemos que muda tudo o que acontece na nossa existência. Por exemplo: quando se vai buscar alguém por quem se está apaixonado numa rodoviária cheia de gente, nossa atenção não se liga a todas essas pessoas. Podemos achar que tomam espaço, que atrapalham, mas são irrelevantes. Naquele momento, a única coisa que se registra é que a pessoa que se quer não está ali. E esse não está se torna muito mais importante do que todos os outros sim está que possam existir naquele local. Só que, a partir do momento em que a pessoa desejada aparece, tudo se transforma dentro de nós: a angústia nos abandona, a falta desaparece, a plenitude nos toma de assalto. O mundo se transforma com nossa mudança. Porque o mundo só é aquilo que percebemos com a nossa consciência. E, se esta muda, o mundo muda também.


“O mundo começa agora – apenas começamos.”
“E daí, de hoje em diante, todo dia vai ser o dia mais importante.”
Renato Russo


Então, a decisão é a grande conquista da humanidade. Sua grande aliada. Cada dia que inicia traz consigo a novidade de vida, uma existência nova, exatamente porque ele começa com uma decisão: a de querer tomar as decisões e assumir a responsabilidade por viver num mundo tão fantástico, misterioso, maravilhoso e insondável (pequena homenagem a Dom Juan Matus, o índio mestre na arte de decidir, que me ensinou a procurar ter o espírito de um guerreiro impecável) ou achar que tudo no mundo é uma benção ou maldição. E que temos que suportar a vida porque ela é assim mesmo.

No fim das contas os que são, sabem que não há essa escolha inicial. Seu dia começa com a certeza de que o que se fizer será expressão de si, de sua essência. E procuram dar o melhor de si para que seu espírito e seus atos seja impecáveis.


“Preocupe-se e pense antes de tomar qualquer decisão, porém,
uma vez tomada, siga seu caminho, livre de preocupações e pensamentos;
haverá mil outras decisões ainda a sua espera.”
Dom Juan Matus

13 de abr. de 2008

O mistério de nós mesmos.

Voando, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 15/03/2005
Voando foi criado em 15-03-2005


Guerreiros falam do conhecimento como um pássaro mágico e misterioso que interrompeu seu vôo por um momento, de modo a dar ao homem esperança e propósito; que eles vivem sob a asa desse pássaro, ao qual chamam pássaro da sabedoria, pássaro da liberdade; que o nutrem com sua dedicação e impecabilidade. Sabem que o vôo do pássaro da liberdade é sempre em linha reta. Uma vez que não há maneira de fazer uma volta, não há maneira de fazer um círculo e retornar; e o pássaro da liberdade pode fazer apenas duas coisas: levar os guerreiros consigo, ou deixá-los para trás. (nagual Elias - O poder do Silêncio - Carlos Castañeda)


Era uma vez, duas vezes, três - sei lá quantas! -, uma pessoa comum, por isso mesmo totalmente incomum. Era igual a todo mundo, e como você sabe ninguém é igual a ninguém. E, como qualquer outro, teve muitos sonhos quando criança, que diminuiram quando adolescente, que diminuiram muito quando jovem, que diminuiram mais ainda quando adulto..., o que sempre foi bastante comum entre a maioria das pessoas que ele conhecia, portanto, não era tão estranho assim que, agora, já nem sonhasse mais.

Era bastante atento à vida. Gostava de viver vendo a vida passar. E, como a maioria, 'Estava à toa na vida e o 'seu' amor o chamou pra ver a vida passar… e ele foi ver. E viu sua vida ir sumindo lá no finalzinho da rua. Até deu um tchauzinho pra ela, pois, afinal de contas, ele era um sujeito educado, apesar de nunca ter se preocupado muito com cultura, como quase todos que conhecia. Esquentar a cabeça pra que? Isso é coisa de intelectual. Deixe que outros pensem por você. Dá menos trabalho. Não é assim que os colegas falavam na escola? Mas ele estudou. Não muito, como a maioria. Chegou até ao nível médio. Mediano como a maioria. E a sua vida foi assim, mediana.

Lia um pouco e tirava algum proveito do que lia. Sempre podia falar mais e ser mais respeitado pelo que sabia. Não se aventurava muito em compreender tudo o que lia, afinal de contas quem o fazia?

Mas ele era um trabalhador. Não fazia exatamente o que sonhara durante a sua vida, mas quem consegue ser o que quis? A maioria das pessoas que conhecia não havia conseguido. Por que logo ele teria de conseguir? Estava sobrevivendo, e até bem em relação a muita gente. Não passava fome, tinha o que vestir. Até ia assistir aos filmes que a galera falava que era bom. Jogava bola, e era até bom-de-bola, em relação à maioria dos colegas. Não seria nunca um profissional ou o craque mais falado do time, mas também não seria o último a ser escolhido na hora de dividir times para uma pelada de rua.

Gostava de música. Ah! música é música. Ouvia tudo o que as pessoas ouviam. Conhecia a maioria dos hits de sucesso que tocava nas rádios populares. Até cantava! Não seria um cantor profissional, as dava pra cantar com o grupo, que ele e os colegas criaram. Não era um grupo assim de primeira, mas não era ruim também. Estava mais para a média.

Teve momentos de impacto em sua vida. E ainda consegue se lembrar deles. Fez artes, pintou o sete, fez escândalos nos acampamentos, fumou um cigarro e bebeu um gole de vinho escondido, experimentou sexo... Mas o que tinha demais? Todo mundo não fazia isso? Ninguém podia dizer que ele era anormal. Isso não! Havia cometido alguns erros, alguns enganos. Mas erros todo mundo também comete: Herrar é Umano!

Já tinha traçado os planos para a sua vida: só construir uma casa e casar, ter filhos, ter netos, quem sabe?, fazer uma viagem de turismo, com hotel e tudo, ter um ''carro, comida e alguns 'miões' por mês'', porque todo mundo precisa ter algum conforto, né?

E esperar a morte, por que a morte todo mundo um dia vai ter que encarar.

A vida agora estava toda certinha, dentro dos padrões. Ninguém podia negar: era verdade. Mas bateu uma sensação de que lhe faltava algo, ou que algo lhe escapava das mãos, e não conseguiu identificar o quê. E, por alguns momentos, tentou descobrir o que era. Mas depois deixou pra lá. Afinal de contas, como todos diziam, isso era coisa pra pessoas que não tinham nada a fazer na vida.

Um dia, por um acaso, que não é comum na vida, leu que ser mediano, médio ou medíocre era a mesma coisa. E aquele era o impulso que precisava na vida. E desejou transformar-se. E, dia após dia, procurou dar sentido a cada coisa que fazia. E isso o distinguiu entre todos os seus iguais. O tornou senhor de si, de suas práticas e de seus pensamentos. Já não lhe bastava viver: a vida era pequena demais para se viver e ele precisava de Vida que não se esgota, por mais que a vivamos, que traz a cada dia não a mesma rotina, mas um mundo novo de possibilidades para serem analizadas, escolhidas e realizadas. Uma vida onde o brilho dos sonhos era o mesmo que se expressava em cada olhar, em cada gesto, em cada atitude interior, em cada fala. É claro que isso não o tornou muito popular, mas, em compensação, o tornou mais feliz, mais inteiro, mais verdadeiro consigo mesmo. E a vida tornou-se para ele uma história sem fim...

Somente um sino e um pássaro quebram a quietude...
Parece que os dois conversam com o sol poente.
Silêncio colorido de ouro, a tarde é feita de cristais.

Uma pureza agita as árvores frescas, e
além de tudo isso
um rio transparente sonha que correndo sobre pérolas
se liberta e flui para o infinito.
(Juan Ramón Jimenez)

Wellington de Oliveira Teixeira em 21 de novembro de 1995.

12 de abr. de 2008

Quando é hora de voar…

(Dragão foi criado em 15-10-2005)

Há uma hora, um momento, um instante, um repente em que percebemos ser aquele em que temos de modificar o modo de produção que desenvolvemos para gerar nossa vida. E, mesmo sem qualquer perspectiva quanto ao que se possa construir para mais adiante, devemos nos ater ao que já conquistamos para vislumbrar as novas possibilidades de conquistas. Não há qualquer pré-determinação quanto a isso, mas, às vezes, um certo medo nos segura para não irmos adiante e nem percebemos que fazemos isso conosco afim de nos atrasar na caminhada para o que nos espera, de uma maneira ou de outra.


Uma batalha se forma no horizonte. A permanência e a mudança se digladiam tentando criar as novas bases para a caminhada.A clareza do ser e a amizade se configuram como as nossas únicas armas nessa luta. Porque, é certo que alguém já nos olhou com um olhar que nos vaza e transforma nosso corpo em uma redoma transparente, onde se pode ver o interior e o que se passa ao seu redor. E, com esse olhar, esse amigo nos provoca, nos perturba, nos incomoda e impede a nossa paralisia. Às vezes, sem perceber cria o contexto que é preciso para não nos permitir ficar parados.


Mas nossa razão, pensando estar nos auxiliando e nos livrando de algum perigo, tenta, de todas as maneiras, evitar a força que nos estimula a ir adiante e usa de artimanhas, que muitas vezes nos enganam. Ela sabe que não é fácil reconhecermos nossas inseguranças e nos torna desconfiados com relação ao pensamento que as pessoas têm de nós mesmos; sabe da dependência que criamos com relação ao nosso círculo de convívio e com as expectativas do núcleo social em que vivemos. E provoca essas sensações quando tentamos prosseguir.


Essa batalha é boa, na medida em que precisamos pesar os caminhos que seguimos, mas não podemos permitir que seja uma desculpa para uma covardia de nossa parte.


Todos os dias o mundo descortina diante de nossos olhos as suas mudanças e não há como evitar as influências de suas transformações, mas podemos gerar os meios para que as que ocorram em sua decorrência, em nós, possam vir sem maiores contratempos.


Uma atitude pessoal menos rígida, uma disposição de abertura para experimentar o novo, uma atenção para os acontecimentos que germinam ao redor, são como um campo virtual para o restabelecimento da caminhada e o desfazer da imobilidade e da paralisia. Mas, em si mesmas, não bastam. O que se é e o que se plasma nesse universo para a própria vida dependem, em uma grande medida, dos atos que nos permitimos praticar no dia a dia. E, porque nossa prática não pode ser descolada de um certo modo de pensar o cotidiano, de um comprometimento com uma determinada forma de vida, meu viver me molda tanto quanto meu pensar a respeito dele. Todo processo pode ser percebido pelos aspectos opostos e complementares: uma força antagônica ao processo e ao mesmo tempo propulsora.


É como uma interdependência extremamente produtiva para nosso desenvolvimento enquanto ser que sente, pensa, fala e vivencia. É uma força que, ao nos desafiar, provoca um desejo de ultrapassá-lo e, ao fazê-lo, nos superamos.


E pode ser extremamente prejudicial, enquanto elemento que, na mesma medida, pode nos impedir de ir além, nos tornar fechados em nós mesmos e nos limites daquilo que já havíamos conseguido: as histórias de vitórias no passado.


Guerreiros que se apaixonaram pela deusa Lembrança e pelo deus Passado. Cultuadores da resignação, da mesmice e do olhar perdido. Dominados pelo poder de um poderoso ar paralisante. Escravos de uma solidão, forjada por eles mesmos. Esquecidos de si e do fato de que só a batalha os torna guerreiros. Sem ela são apenas cidadãos comuns de um dia a dia comum, procurando o comum. Só a batalha os ativa, permite-lhes a chance de vivenciar o inesperado, o alerta constante, a criação constante de novas estratégias, por que, a cada situação, uma nova configuração se estabelece e exige um novo pensar, um novo sentir e um novo agir. Ela os produz enquanto seres da transformação, da possibilidade, da renovação e da liberdade. Liberdade para o ir e o vir, de escolher o momento e o local para entrar em luta. A possibilidade de dar o melhor de si, a cada momento, por que a vida depende somente do que se escolhe e se produz. Da renovação dos sentimentos e pensamentos. Da transformação do ser que se supera a todo instante.


Nessa perspectiva, creio ser um bom momento para “dar um toque” em você: que tal perceber quando é hora de sair do chão da mesmice e voar em direção ao horizonte dos guerreiros. Um ser pensante é aquele que todos os dias batalha para conseguir superar os desafios da vida e gerar em si a semente do ser que ele será.


Caminhos se encontram, se cruzam e podem até se separar, mas nada faz com que deixem de ser caminhos com coração para os que realmente se gostam.
E eu continuo acreditando que… Friends Are Friends Forever!!!

Wellington de Oliveira Teixeira, 10 de outubro de 1998.