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19 de out. de 2017

Despersonalização induzida

Despersonalização induzida, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 17-10-2017.
Despersonalização induzida, criado em 17-10-2017.

Fundamentalismo:
Qualquer grupo religioso ou movimento étnico que acredita nos seus dogmas como verdade absoluta, indiscutível e objetiva voltar ao que são considerados princípios fundamentais, ou vigentes na fundação do determinado grupo.
Extremismo:
Quando o fundamentalismo ultrapassa as fronteiras de seu próprio grupo e inclui impor aos outros suas crenças; descarta o diálogo social atuando, inclusive violentamente, para determinar seu pensamento e sua fé como únicos.

Cessar a predação em prol da cooperação é o objetivo básico da adoção das ideias societárias onde a proteção se estabelece para todos em seu interior. Mas a civilização não é algo definível como universal se avaliarmos os diversos modos de agrupamentos humanos existentes e os produzidos intencionalmente na atualidade.

As imposições por dominação retiram dos seres humanos o mínimo necessário a sua integridade física. Sociedades regidas com despersonalização, empobrecimento, desnutrição e sob armamentos não se incluem no ideal (nem sequer o tangenciam) civilizatório. É preciso identificarmos os controles sociais como um poderoso armamento: os fundamentalismos extremistas e as ditaduras se estabelecem por seu intermédio.

O contrassenso se manifesta no fato de que sociedades avançadas em civilização promovem a descivilização, fomentando colocar seres humanos à margem do mínimo necessário para obtenção de lucros. O apoio (inclusive militar) às ditaduras facilita a extração dos bens nacionais, a utilização de pessoas como cobaias de experimentos laboratoriais, apenas para citar algumas das práticas que se incluem numa imensa lista para a manutenção de seus interesses.

Por fim, um paradigma tanto tortuoso quanto vil estabelece que há vidas que valem mais (e outras que não). Quanto vale 30 mortos nos EUA ou na Europa e quanto valem as vidas da Somália é algo determinado pelo Mercado, o único juiz absoluto da atualidade. Se é vendável, há produção de comoção, do contrário, usa-se o viés do encobrimento, da ocultação do fato nas manchetes dos poderosos meios de comunicação (leia-se, manipulação!) que atravessam a nossa civilização capenga.

Se o objetivo era a proteção da prática predatória, mas esta se estabelece em mentes e coração num outro nível (uma vida se torna descartável se não produz mais riquezas!), a imposição do mais poderoso é a barbárie institucionalizada.

Ou reacendemos em níveis mais fortes as ideias democratizadoras, as práticas de questionamentos e de críticas embasadas, ou, muito em breve, esse encabrestamento do pensamento e das liberdades individuais extremista irá produzir consequências deletérias para todos ao nosso redor. E iremos encarar, sofrendo, nossos jovens e adolescentes expostos, incautos, acreditando em sua imortalidade, sendo abduzidos, encarcerados e abusados* – simplesmente porque alguém poderoso desejou usar as facilidades que o poder absoluto e ditatorial permite.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 19 de outubro de 2017.

* khaled Hosseini é originário de Cabul, no Afeganistão, doutorado em medicina. Suas memórias de um Afeganistão pré-invasão soviética, o colapso do regime Talibã e suas experiências pessoais o levaram a escrever o seu primeiro romance O caçador de Pipas, 101 vezes na lista semanal de dos mais lidos do mundo e número um em quatro delas. O filme aborda o poder destrutivo das crenças religiosas quando são levadas ao extremo do fanatismo. Importantíssimo para se entender (de forma menos traumática) a que leva o calar-se diante dos fundamentalismos extremistas.

28 de set. de 2017

Adoro a dúvida

Dúvida, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 28-09-2017.
Dúvida *, criado em 28-09-2017.

A produção de valores precisa de condições favoráveis, do contrário, resulta em seres replicantes. Cópias sociais, como clones genéticos. Há os que louvam essa forma de ser: o Ser tornou impeditivo o ser autêntico.
(Wellington de Oliveira Teixeira — Quando a abstração tornou-se abominável)


Toda certeza é imprescindível e, ao mesmo tempo, instantânea – gera uma ruptura com o entendimento anterior e constitui uma nova compreensão. O problema em se adotar padrões imutáveis é que o imobilismo, a paralisia, a repetição terminam por deteriorar qualquer sistema.

Camuflado nos fundamentalismos, há controle, verdades e subjugo absolutos que beneficiam exclusivamente os seus incitadores. Períodos da história em que isso se verificou, houve mazelas e degradação nos seres humanos. Mas as pessoas o acataram e, como hoje, o admitiram pelo gosto do empoderamento.

Capitães do mato nada mais eram que escravos despersonalizados, que cauterizaram suas almas em função de obter algum poder sobre seus semelhantes: à época do período áureo da escravatura, já existiam sádicos e sociopatas, dentre outros (destaque para os cidadãos de bem, ditos sãos) que incentivaram a situação para dar vazão ao caldeirão de ódios ou desejos inconfessos e reprimidos.

O paralelo com a atualidade é fácil de fazer. Mas, ao se identificar o uso de um novo mecanismo estimulador mental como a midiotização, a situação torna-se muito mais crítica: ódios aflorando, práticas nefastas se estabelecendo, polarização indiscriminada e acrítica, todos os ingredientes necessários para obscurecer a razão. Não à toa, sugere a um observador atento um retorno à Idade das trevas.

A mente controlada esquece que, assim que se estabelecer o jugo, este recairá não apenas naqueles que foram designados como objetos do repúdio. As liberdades de todos ficam incontornavelmente restringidas. E, quando todos estão dominados, o corpo e a alma coletiva padecem, a sociedade adoece. Muitas das vezes, um arrependimento inócuo surge, mas o silenciamento envergonhado em nada altera a realidade, é puro ressentimento.

Só dando voz às dúvidas, permitindo que se efetuem socialmente, um novo processo tem a chance de se iniciar: o de ultrapassamento. É um movimento que afirma que algo que foi considerado essencial e agora se tornou um empecilho para o desenvolvimento — hora de descartá-lo ou substituí-lo, construir e constituir algo diferente.

A dúvida é o motriz da existência plena: não admite estagnação, anseia o próximo desafio e sua superação. Ela se estabelece e, de repente, neste 'foi de um jeito, agora está assim, mas pode mudar e, possivelmente, para melhor' um novo patamar e uma nova verdade surgem. Eu adoro a dúvida! Tem seus perigos (a vida é perigosa, em si), mas qualquer dúvida é melhor que uma certeza enrijecida.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 28 de setembro de 2017.

* A trilogia Retorno à caverna, Primórdios atualizados e Adoro a dúvida (texto e imagens) apresenta uma avaliação crítica ao momento em que vive o Brasil, a partir do Golpe que reuniu Poder financeiro, Legislativo, Executivo e Judiciário (comprovado com áudios e vídeos) sob a batuta do poderio hegemônico na comunicação da Rede Esgoto de TV.
Como item central e essencial à condução processo, a midiotização (a produção de fundamentalismo acrítico) é a maior e melhor arma já utilizada no país para estabelecimento de controle de comportamentos.
Esses textos não pretendem o academicismo, ao contrário, desejam a provocação, a náusea, a indisposição contra a displicente paralisia que se estabeleceu. Um incentivo à iconoclastia em função dos absolutismos e dos preconceitos de qualquer espécie que estabelecem sorrateira ou descaradamente discriminações e exclusões sociais.

17 de jun. de 2017

Fenômenos regressivos

Regressões criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 17-06-2017.
Regressões*, criado em 17-06-2017.

Em estatística, regressão é uma técnica que permite explorar e inferir a relação de uma variável dependente (variável de resposta) com variáveis independentes específicas (variáveis explicatórias).


É bastante comum observar atitudes de adultos consideradas infantis, em diversas situações no cotidiano. Muitas das quais regidas apenas por reação, por descontrole, por impulso.

Atitudes que remetem a um retorno ao modo de agir de crianças, em seu período inicial de formação, são chamadas de fenômenos regressivos. É uma queda evidente na capacidade de raciocinar e de se posicionar em um nível mais elevado. Exemplo simples, apontado pela psicologia comportamental, é a reação tempestuosa de uma criança vendo a mãe dar atenção e carinho a outra, sentido-se preterida: raiva e estardalhaço. No senso comum, ciúme.

Supõe-se adultos os que ultrapassam as fases da evolução no aprendizado racional e emocional. Mas não é bem assim. Toda estrutura tem suas brechas, rupturas, elementos mal acabados ou não inteiramente consolidados.

Na sociedade, encontros de interesses reúnem as pessoas. Alguns determinam ser um certo elemento o detentor de qualidades superiores que merecem o respeito, carinho e defesa; ao contrário de outros: tornam-se agremiações de times, partidos e religiões.

As disposições sociais, como as torcidas, quando perdem o sentido de preferências pessoais, válidas para todos, se tornam pontos de discórdia, ultrapassando o efeito lúdico de diversão, da competição saudável que potencializa seus participantes a se ultrapassarem. Exacerbadas, tendem a acarretar rivalização a ponto de sujeitos perderem a noção, a razão e a humanidade. Excitados pela grande descarga hormonal grupal, alguns se transformam e agem de forma automatizada — como as reações produzidas por feromônios em diversos outros elementos do reino animal. Seus comportamentos regridem a razão a baixíssimos graus.

Como esses comportamentos exigem descargas de doses contínuas, muitos buscam produzir o mesmo efeito dos hormônios e feromônios – uma droga no organismo de um drogadicto – em qualquer situação, mesmo as totalmente fora do contexto. Forjam-se situações para dar vazão às próprias inquietações, incapacidades: constroem-se as regressões. Polariza-se um determinado fato e, mesmo que completamente inadmissível socialmente, ganha sustentação por determinado grupo.

Essa é uma leitura possível de ser feita a respeito dos discursos de ódio e práticas violentas da atualidade, no país. Extremismos ou fundamentalismos, então, podem ser entendidos como uma regressão da humanidade, onde tudo só tem sentido na satisfação de desejos pessoais, do contrário, o 'ciúme' toma a cena, obscurecendo a mente, e todo o descontrole de que ele é capaz se materializa: os tais dos crimes passionais.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 17 de julho de 2017.

* The Third Wave, de Ron Jones, relata um experimento de 1967, que objetivava esclarecer o surgimento e a ascensão do nazismo. Em cinco dias foi encerrado, pelo temor de se tornar inteiramente fora de controle. Demostrou a rapidez com que ideias e comportamentos de massa, antes inaceitáveis, podem se propagar. Foi filmado (A Onda) e utilizado para fins educativos, dando origem a inúmeras peças e grupos de estudos. Incrivelmente, criticado por grupos fundamentalistas, no Brasil.

3 de out. de 2015

Motivação para a destruição de ícones

Iconoclastia, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 03-10-2015.
Iconoclastia, criado em 03-10-2015.

Iconofilia
sentimento que promove a construção de imagens como protótipos referenciais ou adoração.
Iconoclastia
a arte de desconstruir ou destruir imagens iconográficas ou reputações.

Durante séculos, nossos ancestrais produziram ícones, imagens com representações físicas de conceitos ou sentimentos de uma pessoa ou grupo. Esses elementos de coesão social foram deificados e adorados. Seu imenso número revelava a diversidade de pensamentos e referenciava um determinado povo.

Com a ascensão do cristianismo e a política romana de aproximação deste com judaísmo visando maior controle social no Império, houve certa redução no uso de imagens. Só que o imperador bizantino Leão III iniciou o processo visando a imposição de um modo único de cultuar com a destruição irrestrita de mosaicos, afrescos, estátuas de santos, pinturas, ornamentos nos altares de igrejas, livros com gravuras e inumeráveis obras de arte. Só no Segundo Concílio de Niceia, os iconoclastas foram excomungados.

O entendimento dessa forma de atuação pode ser ampliado. É que o processo pode ser associado a uma produção social de desconstrução de figuras representativas, heróis, modelos. A nova iconoclastia* tem que processos que visam:
  • desfazer os referenciais impostos durante períodos político militar ditatoriais;
  • a desvalorização de uma empresa objetivando ter controle financeiro ou compra a preço reduzido;
  • o desgaste com objetivos político eleitorais;
  • gerar um repúdio a grupos minoritários;
  • criar condições de adoção de práticas anteriormente inaceitáveis.
Atualmente, em diversos lugares do mundo esse novo nível de ação se repete, na proporção da expansão do fundamentalismo. Ataques a elementos iconográficos de valor histórico inestimável se sucedem, motivados por intolerância. São catedrais, museus e tudo o mais que carregue um diferencial em relação ao modo que se quer determinar como o correto.

Há um diferencial importante entre propagar uma ideia, defendê-la, buscar adesões e agir contra quem pensa diferente. Religiões sempre buscaram neófitos via pregação de seus princípios. Quando isso é feito respeitando a vontade de pessoas que não pensam da mesma forma e não adotam seu modo de pensar, é gerado um ambiente harmonioso e inclusive propício para mudanças de pensamento e práticas. Quando a imposição toma a frente, nada de bom ocorre. Quem não aprende com a História e suas lições, incorre nos mesmos erros — ou acerto, segundo os armamentistas — que aqueles que há milênios geram guerras e mortes sobre a face da terra.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 03 de outubro de 2015.

* Quando um povo não é estimulado a desenvolver um pensamento crítico, seja por falta de estímulos educacionais ou por imposição de regimes autoritários, geralmente ocorre um processo de apropriação sociocultural. Nele, a desconstrução de valores locais é prioridade, do contrário, haverá resistência aos novos modos de pensar e agir que se quer implantar.
O Brasil vive um momento sui generis em sua história, forças de direita e esquerda num embate ferrenho tentam defender e propagar seus ideais e valores. A grande questão que se apresenta é que a mídia hegemônica no país tem seu lado e se posiciona diferenciadamente em relação aos fatos:
— encobrimento, silêncio, criação de elementos de distração quando lhe convém, isto é, quando os problemas são relacionados aos seus aliados.
— estardalhaço, manipulação da verdade, ampliação indevida do problema, quando se relaciona aos adversários.
Esse procedimento, vindo de veículos informativos importantes desqualifica a imprensa nacional e implica na necessidade de um estatuto que democratize as comunicações e impeça esse domínio por parte de apenas seis famílias.

17 de jul. de 2015

A linda imagem da podridão

Sarcófagos criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 16-07-2015.
Sarcófagos*, criado em 16-07-2015.

Jesus falou: Todas as coisas que vos disserem que observeis, observai-as e fazei-as; mas não procedais em conformidade com as suas obras, porque dizem e não fazem; Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas!;
  • porque fechais aos homens o reino dos céus; e nem vós entrais nem deixais entrar aos que estão entrando.
  • porque devorais as casas das viúvas, sob pretexto de prolongadas orações; por isso sofrereis mais rigoroso juízo.
  • porque percorreis o mar e a terra para fazer um prosélito; e, depois de o terdes feito, o fazeis filho do inferno duas vezes mais do que vós.
  • porque dizimais a hortelã, o endro e o cominho, e desprezais o mais importante da lei, o juízo, a misericórdia e a fé; deveis, porém, fazer estas coisas, e não omitir aquelas. Condutores cegos! que coais um mosquito e engulis um camelo.
  • porque limpais o exterior do copo e do prato, mas o interior está cheio de rapina e de intemperança. Fariseu cego! limpa primeiro o interior do copo e do prato, para que também o exterior fique limpo.
  • porque sois semelhantes aos sepulcros caiados, que por fora realmente parecem formosos, mas interiormente estão cheios de ossos de mortos e de toda a imundícia. Assim também vós exteriormente pareceis justos aos homens, mas interiormente estais cheios de hipocrisia e de iniquidade.
(Bíblia — trechos de Mateus 23:1-39)

Se a fé é seu único argumento, por favor, não me critique: é um direito inalienável meu crer de forma diferente de você.

Há um certo bode no ar, resultante de uma bad trip, a intoxicação causada por uma poderosa droga considerada lícita: a manipulação pelos meios de comunicação — religiosa ou não — realizada pelos mesmos operadores do controle midiático e utilizando as mesmas argumentações das estrelas gospel da pregação.

A crítica se estabelece na incoerência: prega-se o que não se pratica. Todos, por um passe de mágica, esqueceram que os primeiros cristãos receberam esta nomeação por repartirem entre si o cuidado, dividindo tudo o que possuíam. Cuidavam diligentemente dos pobres, das viúvas, das crianças — os desconsiderados socialmente. Comportavam-se como o comunista crucificado: tinham tudo em comum.

O tal do enriquecimento como prova da benção divina não foi alvo de nenhuma pregação do Cristo, nem discursos de desqualificação. Perdão. Esqueci dos pregadores aliados aos políticos e os desviadores da fé em prol dos recursos financeiros — o tais sepulcros caiados, vendendo uma linda e alva imagem da podridão interior. Os que, já naquela época fediam, e seu cheiro já alcançava os céus, na expressão que usam para outros grupos que não adotam seus discursos.

Palavras se desgastam pelo uso, mas ainda são importantíssimas: fundamentalismo, radicalismo, intolerância. Certamente o oposto da figura que alegam representar, os fariseus pós-modernos continuam reproduzindo o antigo modelo, aliando-se aos políticos em negociatas visando a expansão de seu poder de influência. Vale tudo para que suas imposições tornem-se leis.

E, como em gerações passadas, a população é usada em prol dos seus interesses: crucificam o salvador por que em desacordo com as interpretações estabelecidas. Certamente, ensinam o 'queremos o filho do Pai', só que indicam um outro para ocupar o lugar do autêntico, o Barrabás. Esse desvio do verdadeiro alvo se repete na atualidade e os incautos são enganados e perpetuam seu poder político, social e financeiro.

Recentemente, vi algumas pessoas se escandalizando ao ver crianças sendo obrigadas a decepar cabeças de infiéis, esquecendo que a motivação é a mesma, a prática é a mesma: controle social por uma camada sacerdotal. Que importa quantos são mortos ou torturados por interesses particulares escusos (como em qualquer ditadura!)? Que importa quantos são alijados de sua cidadania ou relegados a uma segunda categoria de humanidade? Uma vez a insanidade tenha se estabelecido, os discursos de ódio ganham consistência e prática: não pensa como eu, precisa ser eliminado. Afinal tudo é feito em nome de Deus — o que quer que tenham tornado essa expressão.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 17 de julho de 2015.

* Sepulcro foi a analogia escolhida por Jesus para a hipocrisia. O sarcófago, privilégio de mortos da classe alta, era uma urna funerária, geralmente de pedra, colocada sobre o solo ou enterrada. No Antigo Egito, corpos mumificados na busca de evitar-se o mau cheiro e deter a decomposição eram depositados nesse tipo de urna, mas a caixa ricamente ornada apenas desviava a atenção do essencial: não pulsava vida ali dentro.

1 de jul. de 2015

É preciso ser singular

Desindividualização, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 01-07-2015.
Desindividualização*, criado em 01-07-2015.

Em uma fazenda, animais insatisfeitos com o dono revoltaram-se contra o tratamento opressor, iniciando uma mudança social: igualdade entre os animais e inimizade com os homens. Fundaram a Granja dos Bichos onde a máxima era: Quatro pernas bom, duas pernas ruim.
Os porcos foram eleitos os supervisores das novas regras:
ninguém poderia morar em casa, dormir em camas ou usar roupas, beber álcool, fumar, tocar em dinheiro ou fazer comércio. O trabalho seria para o próprio sustento, aumentando o tempo de lazer. Mas logo surgiu a primeira discriminação: só os porcos poderiam comer maçã e leite — os animais estranharam, mas acabaram aceitando.
Após a superação de obstáculos e de uma batalha contra os homens, o líder da revolução assumiu o poder total e, com ajuda de cães adestrados, expulsou seu rivais. Com o golpe, muito trabalho e escassez. Os porcos passaram a morar na casa da fazenda, a dormir em camas, e resolveram fazer comércio com os homens. A constituição foi alterada:
Quatro pernas bom, duas pernas melhor. Todos os animais são iguais, mas só que uns são mais iguais do que os outros. Os que tentaram reagir foram todos acusados de traição, calados e sacrificados.
Com o passar do tempo, os animais ficaram perplexos ao verificar que era difícil distinguir quem era porco e quem era homem, devido a semelhança.

([resumo de] A revolução dos bichos — George Orwell)


Quando percebo alguém seguindo diferenciado de um certo padrão eu digo: 'que bom!'. A vida se constituiu pela diferenciação, não pela repetição. Se vejo alguém ousar o impensável, mais ainda. As conquistas da humanidade são baseadas em pensamentos incríveis que se concretizaram após um certo tempo. Mesmo quando foram casos considerados errados, improváveis, impossíveis ou inviáveis.

Sem contextualizar é impossível entender a história. Valores dependem da temporalidade, da localidade. É evidente que o que se entendia por amor no passado não é a mesma coisa que atualmente se crê, após sermos carregados pelo recente movimento artístico do romantismo. Casamentos, idem. Basta você recordar que era só um contrato para manter territórios e ampliar o poder político. Infância, então, nem se fala. Pense que crianças só ganhavam nome depois que tinham 'vingado', isto é, sobrevivido por certo tempo e poderia participar do trabalho familiar. A tal da inocência e separação das 'coisas de adulto' é uma invenção mais recente ainda.

Por isso, irrita ver quando insistem em definir papéis, obrigações sociais e as aparências deste ridículo 'way of life' monolítico, repetitivo, cujo único e determinado objetivo é que você o adote e exclua qualquer outro modo de ser.

Vejo todos que entram nessa corda bamba de sombrinha (lembrou do bêbado e a equilibrista?) constantemente aditivando-se, entorpecendo-se para aguentar a dor da máscara que não quer desgrudar do rosto. Observo-os se desqualificando por perder qualquer sombra de singularidade.

Insisto. Mesmo que hegemônico, esse é apenas um modo de viver. Insensato, ao meu ver, por retirar a expressividade. Quem entra nele se torna uma cópia de um quadro lindo feito por uma fotocopiadora: o resultado, todos sabem, é de muito baixa qualidade. É isso que a propaganda vende: desqualificação!

Não questionar é ser conivente, é aceitar um mundo mais pobre para todos. Não quero que morra, junto com a força individual que não mais se propaga, uma possível fonte de renovação em mim. E, não tenho dúvidas, o mundo é muito melhor quando há diversidade de forças de expansão e de motivação ao redor das pessoas. O 'way of life' é pura restrição, uma forma que promove apenas a adaptação.

A modelação promovida na atualidade por discursos fundamentalistas, não difere. A obrigatoriedade de seguir os valores estabelecidos por determinado grupo é um desrespeito às individualidades. Ignorando o fato, a máquina de desindividualizar produz discursos de ódio e práticas agressivas prontos a serem utilizados contra os que não se deixam formatar pelo padrão.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 1° de julho de 2015.

* Dentre os sinônimos de desindividualizar podemos citar descaracterizar, desindividualizar, generalizar. Em si, um processo que retira do indivíduo suas propriedades.
O psicólogo francês Le Bon, em em 1895, em sua pesquisa The Crowd: Um estudo da mente popular, avalia o modo como a personalidade individual pode ser dominada por uma determinação coletiva ou de multidão.
Comportamento de multidão é aquele "unânime, emocional e intelectualmente fraco".
Um dos focos se sua teoria é o fato conhecido com perda de responsabilidade pessoal em multidões. A força exercida pelo coletivo sobre qualquer indivíduo, provocando um colapso em suas características individuais e um comportamento primitivo e hedonístico: a desindividualização promove o descontrole sobre as restrições internas ou morais.

22 de jul. de 2014

Construtos

Construtos, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 22-07-2014.
Construtos, criado em 22-07-2014.

São os signos da linguagem que deram origem às ciências abstratas.
Uma qualidade comum a várias ações engendrou as palavras vício e virtude;
uma qualidade comum a vários seres engendrou as palavras feiura e beleza.
Alguém disse um homem, um cavalo, dois animais;
em seguida, alguém disse um, dois, três, e toda a ciência dos números nasceu.
Ninguém tem ideia de uma palavra abstrata.
Notaram-se em todos os corpos três dimensões, o comprimento, a largura e a profundidade;
tratou-se de cada uma dessas dimensões, e daí todas as ciências matemáticas.
Toda abstração não é senão um signo vazio de ideia.

(Diderot: O sonho de D’Alembert - Coleção Os Pensadores, p.280)
*


A estruturação de qualquer elemento exige alguns substratos comuns. Real ou imaginário, a percepção inicia o processo e o desejo o embasa. E essa tem sido uma questão que atravessa, literalmente, grande parte das áreas do conhecimento. Não há, de teorias a práticas, absolutamente nada que escape dessa formulação: somos fundamentalmente seres desejantes e por (e no) desejo produzimos cultura.

Alguns pensadores buscam apontar e visibilizar o processo de geração de cultura de um determinado grupo e a constituição de novos hábitos a partir dos interesses comuns. Outros, navegam na captura do desejo, na aculturação acrítica, onde a imposição mesmo que disfarçada a promove.

Da inicial necessidade de proteção básica da vida, criamos variações que chegaram até a não tão atual assim conquista de status, produzindo relacionamentos, objetos, linguagem, cerimoniais e determinantes ético-morais e religiosos. Todos são fabricados. Não são prévios, muito menos naturais. No entanto, pelo prolongamento da prática, acabamos por naturalizá-los e normatizá-los. O normal passa ser a nossa forma de falar, de ser e de estar, então, os padronizamos.

Um dia encontramos um estrangeiro — migrante ou imigrante em nossas terras — e descobrimos a alteridade como possibilidade, depois do estranhamento. Pontuo, aqui, o início do fim da teoria da normalidade.

Aquele que se dispõe a observar ou avaliar as diferenças poderá se sentir atraído a aprender com a nova forma. Esse desejo, estimulador do contato, poderá viabilizar diálogos não intermediados pelo conhecimento prévio dos vocábulos. Gesticulações, referenciações aos objetos e práticas, seguidos da palavra usada por cada um para o mesmo, dicionariza a relação.

Em pouco tempo, poliglotas constituídos dialogam e referenciam um mundo novo, cuja absorção dos novos padrões culturais é facilitada. Pode parecer complicado, mas é um fato corriqueiro e diário.

Estudiosos como Piaget apontaram a graduação na construção da inteligência utilizando o conceito de camadas sobrepostas e apontaram que – como em qualquer construção – uma absorção não concluída ou parcial poderia gerar as rachaduras na estrutura. Apesar de, em regra, incapazes de fazer ruir o edifício, impedem um avançar mais pleno da manifestação das capacidades individuais. Apontaram mais além, o processo explica a radicalidade da capacidade humana de adaptação.

Pense na maturação social, onde uma criança amplia suas referências da família e vizinhos, para a escola e para o mundo: conteúdos, costumes, interesses, conceitos e práticas diversos se presentificam e põem em xeque a unicidade dos valores recebidos. Por curiosidade, por avaliação, por necessidade e por participação, muitos são adotados momentaneamente ou absorvidos. O universo pessoal é expandido.

Esse processo é análogo aos estudos realizados por pesquisadores (cientistas ou não) no seu caminho de descobertas, de confirmações e refutações dos conceitos e valores vigentes. A expressão pensar fora da caixa denota esse conceito.

As ciências sociais e psicológicas estão incluindo a incapacidade de lidar com a questão da variação, da mudança, do aprimoramento ou da transformação como uma das causas da constituição da rigidez nas pessoas.

Seja pela radicalização ou pela inflexão, o mundo daqueles que se agarram ao constituído e determinado como padrão mostra o quanto as construções internas são frágeis. O terror à possibilidade de ruir o arcabouço por conta da troca ou retirada de uma peça, faz com que a rejeição total, intransigente e determinista de um modelo crie, não uma pessoa, um elemento repetidor, impedindo a evolução e o processo de individualização e realização pessoal.

O construto chamado fundamentalismo está carregado dessa processual formalização, que ignora os efeitos do que ódios, agressões, distorções e torturas podem causar aos seres humanos em prol da modelagem comportamental e de pensamento. Sua sobrevivência exige seres docilizados, cujo potencial transformador seja encapsulado em formulações prévias, frases repetidas, posicionamentos irrefletidos mas seguidos à risca. Isso pode ser obtido pelo discurso manipulador ou pela ação direta dos aparelhos de repressão. Em ambos os casos, o resultado é único e triste: quem sofre seus efeitos clama por liberdade, mesmo que silenciosamente.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 22 de julho de 2014.

* Diderot propõe a existência um nível organizacional da natureza, um verdadeiro sistema onde tudo está unido, uma cadeia contínua, das formas mais primitivas de organização da matéria até as mais complexas, nos domínios do humano.
Animado por um fluxo, como concebido por Heráclito de Éfeso (séc. VI-V a.C.), o universo é obediente às leis formuladas por Descartes para a matéria; é dinâmico e em permanente transformação, em vez de estático e criado como um conjunto de coisas fixas, como concebia a tradição aristotélica e escolástica cristã.

23 de mai. de 2013

Egometria

Egometria, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 23/05/2013
Egometria, criado em 23/05/2013.

Um guerreiro aceita seu destino, seja qual for, e o aceita na mais total humildade.
Aceita com humildade aquilo que ele é, não como fonte de pesar, mas com um desafio vivo.
É preciso tempo para cada um de nós compreender esse ponto e vivê-lo plenamente.
Eu, por exemplo, detestava a simples menção da palavra humildade.
Sou índio e nós índios sempre fomos humildes e nunca fizemos outra coisa senão curvar a cabeça.
Pensei que a humildade não fazia parte da vida de um guerreiro.
Mas estava enganado! Hoje sei que a humildade de um guerreiro não é a humildade de um mendigo.
O guerreiro não curva a cabeça para ninguém, mas ao mesmo tempo não permite que pessoa alguma curve a cabeça para ele.
O mendigo, ao contrário, prostra-se de joelhos por qualquer coisa e lambe as botas de quem quer que ele considere superior;
mas, ao mesmo tempo, exige que alguém que lhe seja inferior lhe lamba as botas.

(Porta para o infinito - Carlos Castaneda)

A questão da superioridade é algo que permeia os conceitos do cotidiano de nossa sociedade. Aprendemos muito cedo na vida que devemos respeitar e aceitar sem questionar as determinações daqueles que estão no comando. Em nenhum momento, a avaliar como surgiu esse comando ou como passaram a ocupar essa posição os seus detentores. Restos de nosso recente passado militar ditatorial. Mas todos sabem que os sujeitos do domínio econômico têm produzido as condições favoráveis para que seus comparsas sejam eleitos e os retribuam com favorecimentos e enriquecimentos.

Nós brasileiros (estrangeiros, também) sabemos que o poder é ocupado - na maioria das vezes - por quem se resigna aos ditames de alguns endinheirados. Sua posição é algo frágil, sustentada por escusas trocas de favores. Então, para que o respeito?

Nossa forma de educar não privilegia as diferenças e o entendimento das consequências dela. Se assim o fosse, diríamos para cada criança, no momento de sua descoberta: veja o quanto você já aprendeu e como é capaz de decidir e agir. Continue assim e conquiste as suas oportunidades para realizar os seus desejos. Não. Não é assim que, nem mesmo aqueles que se dispõem a tal projeto educativo, o fazem.

Não somos ensinados a entender nem a ensinar que a maturidade ou a experiência é um estado possível de ser alcançado e, sim, a querer obter status social.

Vestimos nossas crianças com roupas que as adultizam e achamos normal. Elas precisam parecer e agir como celebridades. Alguém já viu alguém ensinando que ocupar uma posição social é algo que para algumas pessoas é importante - outras desejam outras coisas que também são dignas e valorozas?

Nosso método de valorizar posições é definido pelo conjunto de referências sociais da riqueza: a aparência diz quem se é; esquecemos de valorizar o ser e maximizamos o valor do ter; potencializamos práticas que extinguem a expressão individual, os sonhos pessoais em prol do valor do contracheque; legitimamos o valor absurdo de determinados produtos, nos tornamos painéis ambulantes de algumas marcas; vamos aos lugares onde a comida só prejudica a nossa saúde por que está na televisão e repetimos os jargões preconceituosos das telenovelas.

E os privilegiados, que geram filhos também já privilegiados, são legitimados no poder e todos dizem Amém!

Wellington de Oliveira Teixeira, em 25 de maio de 2013.

As manipulações por parte de alguns políticos de base religiosa sobre incautos é algo que assusta. Sentem-se tão confortáveis com o poder, e nem se preocupam se são, também, apenas um joguete nas mãos dos controladores do mundo, desde que possam tirar um pouco o seu quinhão.
Ah! se Jesus passasse por aqui para expulsá-los do templo (- e quem sabe do Congresso!).

15 de nov. de 2012

Super são, não supressão

Supressão*, criado em 15/11/2012

Precisamos transformar a realidade deste mundo não com mais ódios e preconceitos.
Devemos trazer ideias novas e defendê-las com bons argumentos.
Negar outras ideias não nos leva a nada além de um fundamentalismo.
E como me entristece ver o ódio que tem sido gerado por tanta gente no mundo
pela incapacidade de respeitar o pensamento alheio
e de entender que cada um está num determinado patamar de seu desenvolvimento pessoal
e precisa, mais do que qualquer outra coisa, de estímulo para ir adiante
e descobrir seus valores e construir algo bom para si e para os que estão ao seu redor.


Quando não percebemos a cooptação de nosso pensamento, a supressão de nossa capacidade crítica provoca uma lacuna que é capaz de anular ou mesmo extinguir o respeito e o amor ao próximo. A isso eu chamo de aprisionamento da alma.
Wellington de Oliveira Teixeira

Não sei bem o que está acontencendo atualmente (já há muito tempo, talvez) quando uma certa força produtora do nada anda permeando os pensamentos e as vontades, principalmente de uma determinada juventude.

Penso, reflito, tento fazer uma avaliação cuidadosa que não busque no saudosismo uma referência, provoco um rearranjo do meu pensamento e principalmente das estruturas das minhas lógicas, tudo em busca de produzir um pouco mais de clareza sobre esse contexto de realidade aonde os jovens perderam as esperanças, os ideais, projetos políticos e estão se agarrando às correntes de pensamentos fundamentalistas de forma acriteriosa.

Essa vontade me tomou a alma a partir do momento em que um menino - que se tornou um sobrinho de alma há alguns anos atrás -, de uma hora para outra, começou a apostar as suas fichas em frases e pensamentos extremamente fundamentalistas. Numa linguagem que historicamente aprendi a usar, direitistas, muito próximos de fascistas. Mas, aceito de bom grado evitar esses termos daqui para adiante, em prol da busca de conciliar as diferenças e evitar as forças que estão esgarçando as linhas de contato.

Quando conheci o Francis Lauer, cujo nome de usuário numa rede de chats antiga (mIRC) era Zack-, me encantei com a sua capacidade, generosidade, força de vontade e busca de conhecimento.

Na época, ele era um adolescente que vivia alguns conflitos e buscava ultrapassar algumas questões de vida. Eu, buscava algumas teorias e pensamentos que embasassem aquilo que eu chamava de magia da vida.

Após o falecimento de meu Bruninhu, tristeza e uma certa falta de vontade me afastaram das salas de bate-papo e de muitos convívios, do dele não.

Vi, com atenção e preocupação, os novos passos de seu caminho. Busquei me inteirar das novas formas de pensamento, de religiosidade, de escolaridade, com o objetivo de estar pronto a compartilhar, sempre que solicitado por ele, das questões que o atravessavam.

Considero que fizemos um percurso muito bonito de amizade e respeito, independente da distância que existe entre Santa Maria (RS) e São Gonçalo (RJ). E, até então, não houve nada que tivesse conseguido atravessar o bom relacionamento e confiança que partilhávamos.

Hoje, já um jovem adulto, vi a transformação de seu pensamento e propostas de vida. Algumas questões que eu tranquilamente afirmaria serem opiniões e crenças pessoais que não denunciavam nada além de sua busca por expressão, de valorização da vida, e de sua fé (coisas que, a mim, sempre provocavam respeito) mudarem para posicionamentos bastante radicais.

Percebi que um determinado pensamento passou a ser dominante. Não o seu, mas o de um certo grupo que se aglutina sob o nome fiat libertatis. Do que pude observar, nas postagens no facebook, um grupo de políticos e empresários que defendem práticas e conceitos sociopolíticos bem ortodoxos e conservadores que está expresso no lema que adotam: conservador nos costumes e liberal na economia. Coisa até comum para quem quer sacralizar suas ideias, utilizam-se de frases em latim para dar um verniz aos seus posicionamentos e pronunciamentos. Em português claro: fundamentalismo.

Buscando ser cuidadoso no meu posicionamento, pude observar como a defesa da vida, na qual o Francis se engajou, expresso contra a prática do aborto, se expandiu para posicionamentos políticos e capitalistas, em alguns momentos beirando ao contraditório.

Em um desses momentos, expressou que era melhor que crianças trabalhassem nas fazendas em regime análogo à escravidão do que estarem em uma escola, já que, neste governo, estariam aprendendo o socialismo ou o comunismo - algo inaceitável na visão deles.

Por me posicionar, como sempre fiz, contrário à essa visão, no dia 28 de outubro, ele simplesmente não quis mais ter-me na sua lista de contatos do facebook e, pelo que posso avaliar, como amigo.

Meu maior medo é que - apesar de tão talentoso como é - ele perca o rumo da vida que estava construindo tão bem: uma busca incessante por crescimento pessoal e a proposta de fé que abrangia uma prática consciente de compreensão. Mais que isso, uma visão ampla, em que respeito e amor ao próximo eram partes integrantes e fundamentais.

Mas quero crer que talvez eu esteja exagerando um pouco e a minha preocupação e carinho tenham me levado a imaginar mais do que a realidade possa me oferecer como visão. Que meu guri esteja vivendo um percurso necessário ao seu crescimento pessoal que, logo logo, será ultrapassado e do qual se erguerá fortalecido e pronto para continuar o exercício do amor e respeito ao próximo acima de qualquer convenção social.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 15 de novembro de 2012.

*Supressão: ação ou efeito de suprimir; eliminação, lacuna, omissão, abolição, anulação, cessação, derrogação, extermínio e extinção.