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12 de jan. de 2018

Onda vingativa

Onda vingativa criado por Wellington de Oliveira Teixeira entre 10 e 12-01-2018.
Onda vingativa *, criado entre 10 e 12-01-2018

A vingança não vai reduzir ou prevenir o mal, porque ele já aconteceu.
(Dalai Lama)


Todos os seres humanos são capazes de atrocidades. Alguns agem por ganância, outros por necessidade, outros quando submetidos a extorções ou chantagens.

Na psiquê humana há camadas de proteção aos choques inevitáveis da realidade. São como cápsulas que envolvem o inenarrável ou insuportável, isolando-o. Fica mantido oculto e ocupa na alma um lugar obscuro, um poço profundo. Isso não define ninguém como medroso ou como psicopata.

É preciso uma estratégia de preparo e de fortalecimento para poder ir abrindo, consecutivamente, as cápsulas e lidar com seu conteúdo – antes que tenham a chance surgir e atuar de forma reptiliana, como um bote –, pois, situações desfavoráveis permitem que se visibilizem como medos, traumas ou transtornos. E quando o grau de acúmulo atinge certo limiar, dependendo do estímulo a que está submetido, qualquer um é capaz de tornar-se perigoso.

Em tempos em que a ganância impõe a ampliação do número de pessoas nas linhas da miséria, a insegurança evidencia-se, e muito, com o uso das capacidades individuais para obter o necessário. E isso inclui atuar contra outros seres incautos, desprotegidos, ou que possam representar as chances que lhe foram retiradas.

Isso é um a lógica, não uma defesa, porque todos são capazes de externar os monstros inomináveis acobertados do olhar alheio, quando atingidos, agredidos diretamente ou o motivo considerado justo para virem à tona. Lide com eles ou sucumba ao seu poder destrutivo, que apenas se inicia com a obstrução das capacidades racionais e, como em tantos casos recentes, gera uma onda vingativa que atinge todos ao redor.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 12 de janeiro de 2018.

* Acredito que a responsabilidade por atos e atitudes é algo pessoal. Diante de situações gerais ou inesperadas, é possível entender que há um desafio a se encarar (e até ser grato à situação que permite ampliar suas capacidades pessoais) e investir nessa apropriação potencializadora do ser. Quem age destrutivamente, começa por fazê-lo a si mesmo: um fato. Prefiro ir por outra via porque a minha plenitude o exige: paz de espírito é um bem inalienável.

18 de jul. de 2014

Fragmentos recuperáveis

Fragmentos recuperáveis, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 16-07-2014.
Fragmentos recuperáveis, em 16-07-2014.

Da Vinci sempre fora um tema embaraçoso para os historiadores, especialmente na tradição cristã. Apesar do seu gênio visionário, era um homossexual assumido e um adorador da divina ordem da Natureza, dois "crimes" que o colocavam em perpétuo estado de pecado contra Deus. Além disso, as bizarras excentricidades do artista projetavam uma aura admissivelmente demoníaca: da Vinci exumava cadáveres para estudar a anatomia humana, mantinha misteriosos diários em uma ilegível escrita invertida, acreditava possuir o poder alquímico de transformar o chumbo em ouro, julgava-se até capaz de enganar Deus criando um elixir que adiava a morte, e as suas invenções incluíam horríveis e nunca antes imaginados instrumentos de guerra e de tortura.
A incompreensão gera a desconfiança, refletiu Langdom.
(Dan Brown - Código Da Vinci - edição especial ilustrada, p.52)

Há quem reclame de tédio, mas quer apenas novidades mais ou menos — do tipo que não altera o status quo padrão: ir para novos restaurantes e casas de show, nova tendência da roupa (agora a calça tá mais apertada e colorida!); a gíria, cantor ou banda da moda.

Os retornos constantes de tudo que marcou época, mesmo com pequenas modificações, são a marca da falta de construções realmente novas. Mas, quem as quer realmente?

Sendo franco, acredito que, no fundo, poucos gostam das alterações radicais das rotinas, do desconhecido, do que exige um esforço para se concretizar. O incerto carrega, potencialmente, o medo em sua composição, daí a resistência. Mas, se houver vontade de avaliar, creio que se perceberá que, para contornar a questão, a cultura dominante promove sempre a aproximação com alguma antiga radicalidade que foi apropriada pelo sistema, como o foram as culturas limítrofes do skate, do surf, do rock. Os novos, controlados e lucrativos esportes radicais.

Não é difícil você encontrar expressões com a expressão inglesa new — como foi com o new hippie — para caracterizar o controle. O que era uma marca registrada de um modo de ser aventureiro, o velho jeans amaciado no corpo, surrado com o uso até tornar-se puído, tornou-se uma calça novinha, produzida com as mesmas características - com um preço justo, por isso, é claro: sua pressa foi atendida.

Em um mundo orientado para produtos ou orientado para clientes e não pessoas, o new você já virou padrão: renove-se! A questão que se apresenta é que a proposta não propõe a existência de nenhuma mudança real, são apenas enfeites e penduricalhos no velho manequim — que continua o mesmo de sempre.

Não gostamos do medo, mas deveríamos, mesmo sendo ele paradoxal: se a sobrevivência é impossível sem ele, a impotência se sustenta nele. E você fica entre um extremo e outro, deslizando em função dos acontecimentos e das emoções.

A ousadia na vida é algo tão sui generis que as pessoas já adotaram a expressão isso não é pra mim, quando confrontadas ou incentivadas a tentar.

Então, e essa é a proposta dessa reflexão, não se preocupe, ouse um pouco mais, deixe cair alguns pedaços. Um dia você reabsorverá grande parte dos fragmentos que ficaram dispersos pela vida — repletos de histórias e emoções que o contagiarão de revivências. Os outros, os que não importam de verdade, é melhor que realmente não voltem.

Mas haverá, certamente, haverá uma questão a que você será confrontado: reconstruir, renovar ou construir algo novo?

Wellington de Oliveira Teixeira, em 18 de julho de 2014.

* O código Da Vinci, como livro ou filme, permite aventura e descobertas. Mais ainda, pensar em inventividade: o mundo do explorador de possibilidades, Leonardo, é uma mostra do espírito humano em sua incansável busca por transformação, aperfeiçoamento e expressividade. Todos os códigos apresentados na obra são fragmentos que precisam ser questionados, avaliados e aglutinados para criar um painel completo. Crítica à perda de reverência pelo sagrado, afloram mais que às instituições religiosas ou práticas perversas individuais. Encantadoramente subversivo.

3 de jun. de 2014

Posição, direção e determinação

Atomizando, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 02 de junho de 2014.
Atomizando, criado em 02-06-2014.

O homem é uma corda, atada entre o animal e o além-do-homem — uma corda sobre um abismo.
Perigosa travessia, perigoso a-caminho, perigoso olhar-para-trás, perigoso arrepiar-se e parar.
O que é grande no homem, é que ele é uma ponte e não um fim:
o que pode ser amado no homem, é que ele é um passar e um sucumbir.
[…] Amo Aqueles que não procuram atrás das estrelas uma razão para sucumbir e serem sacrificados:
mas se sacrificam à terra, para que a terra um dia se torne do além-do-homem.
Amo Aquele que vive para conhecer e que quer conhecer para que um dia o além-do-homem viva.
E assim quer ele sucumbir.

(Nietzsche — Trecho de Zaratustra, prefácio §4, ano de 1883)


Escolher um caminho a seguir é o que sempre recomendo a todos que se veem diante de escolhas muito díspares, ou que conflituam os sentimentos, pensamentos e relações sociais. E quando — quase sempre — ouço 'Falar é fácil!', sou o primeiro a concordar. Ainda assim, mantenho a proposição inicial.

Certa vez, alguém me confrontou com uma frase que soou o gongo interior: 'você é um masoquista!'. O porque de soar é inteligível, uma vez que em sociedade abrimos mão do desejo puro e simples em prol de uma coletividade. No meu caso, a de suma importância para mim — a família.

O quanto vale a pena ou não é algo variável. Encarar os momentos solitários tende a diminuir, enquanto os de convívio a maximizar. Certamente, a questão se espelha em cada um que encarou a questão — talvez, todo o mundo.

Direcionar as ações com base na razão pura e simples é o maior criador de recalques que conheço. Cada desejo reprimido se anexa aos anteriores acumulando mais um grau na escala da insatisfação. Certamente você conhece pessoas que julgam todo mundo o tempo inteiro, os primeiros a jogarem a pedra, os que ignoram seus erros apontado os demais. Devo dizer sinceramente: seja piedoso com eles, são os que mais estão sofrendo.

A questão se encaminha mais para como canalizar a energia do desejo, em que momentos acatá-la e como utilizar o potencial que lhe é inerente.

Para avaliar a proposta, não é necessário ir muito longe, já que alimentação é um exemplo simples e preciso: comer o que se gosta, sempre, gera problemas sérios. Basta avaliar as consequências — físicas, sociais, emocionais, financeiras e outras mais — para a si mesmo e para os que estão ao seu redor (em especial nos casos em que se torna uma questão de doença).

Tentei me posicionar a respeito, quando da criação da imagem (para ver esses detalhes, clique nela com a rodinha do mouse).
  • Sabe aquela plantinha do bem-me-quer—mal-me-quer?
  • Sabe a órbita que o elétron faz em torno do núcleo do átomo?
  • Já viu uma rosa dos ventos ou utilizou uma bússola?
  • Já encarou um paredão de rochas durante uma caminhada pela areia de uma praia?
Tudo isso me remete a posicionamento. Exatamente o que é necessário ter diante das questões da vida. Não se escapa: em cada situação encarada, haverá as perdas e danos como, também, seu oposto ganhos e restauração. Simultaneamente.

Fugir, fica claro por esse raciocínio, não resolve a questão, muito menos a adia — a faz piorar. É como o medo de um fantasma que paralisa. Só piora quando não encarado.

Todos temos nossos fantasmas e medos. Sabemos o terror que nos causam. Vi um filme em que ensinavam uma criança a ter coragem de se levantar da cama e acender a luz, quando sofria de terror noturno e tinha pesadelos imobilizadores e catalizadores de reações físicas muito fortes. Envolvia diretamente posicionamento e direção, junto com uma determinação construída por uma tática simples.

Com os olhos fechados, pense naquilo que tornou o seu dia mais legal, levante-se da cama e se prepare para ir em direção ao interruptor. Em 5, 4, 3, 2 , 1.

Abra os olhos, vá e acenda a luz!

Wellington de Oliveira Teixeira, em 03 de junho de 2014.

* Esse texto acabou antecipando o que gostaria de fazer para homenagear meus familiares que aniversariam no mês de junho.

8 de mai. de 2014

O necessário para refazer as suas forças

Turbulências, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 08-05-2014.
Turbulências, criado em 08-05-2014.

Senhor, dai-me a serenidade para aceitar o que não pode ser mudado;
a coragem para mudar o que pode ser mudado;
e a sabedoria para distinguir uma coisa da outra.

Reinhold Niebuhr


Turbulência é algo tão complicado quanto os seus sinônimos: agitação, alvoroço, desordem, inquietação, motim, perturbação, abalo, comoção, conflito, conturbação, desassossego, ebulição, efervescência, estremecimento (a lista é imensa!). Permitir-se um momento de recolhimento é uma tentativa de facilitar lidar com as consequências do que ela provoca na vida.

Há alguns movimentos da natureza que me referenciam o entendimento a respeito de como afetam o dia a dia — meu e de outros caminhantes da estrada da vida. Dentre eles, dois eu considero muito assustadores. São o vulcão em atividade e os tornados, pois destroem a superfície existente ao seu redor e promovem a mudança. Digo que são agentes de transformações radicais.

À distância, é lindo ver a erupção de um vulcão submerso. Documentários a respeito retratam sua atividade modificadora e seus efeitos que alcançam até a prática de surf nas praias, dependendo da profundidade. Tornados na superfície da terra, também. Sempre deixam um rastro que atesta a sua passagem.

Eu construo a minha reflexão com um aprendizado anterior: a água ultrapassa as questões pois aprendeu a ser fluida e a se transformar. Outros elementos são simplesmente destroçados.

Várias questões encaradas diariamente são capazes de transformar uma vivência, remexendo com sentimentos e pensamentos. Dificultam mais quando não há uma ação possível que esteja ao alcance para modificá-las.

Inatividade não é opção ou uma solução. Mas refletir, meditar pode ser. Se não para mudar a questão, para alterar o modo de encará-la ou de ser afetado por ela. E isso não é apenas jogo de palavras.

Quando alguém decide se definir como aprendiz da vida, imediatamente aceita o fato de que nem sempre dará conta de todas as questões. Independente do esforço dispendido para o aprendizado, algum dia surgirá uma questão na prova e ficará confundido ou incapaz momentaneamente de resolver.

Adotar esse posicionamento pode promover um pouco de paz na tormenta, nas revoluções que atingem diretamente a alma e gerar a calma necessária para ir aprendendo e superando, aos poucos.

Há uma reflexão, em forma de oração, atribuída erroneamente ao Francisco de Assis, que tem sido de grande auxílio em situações extremadas ao incentivar ousadia para mudar o que posso, tranquilidade para o que não posso e buscar a capacidade para realizar a distinção.

Sim, porque a vida segue, mesmo quando não estão solucionadas as questões. Mas você se permitiu a abertura necessária para acolher um pouco serenidade e paz: o necessário para refazer as suas forças.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 08 de maio de 2014.

Furacão (também chamado de ciclone ou tufão): ocorre em mares de águas muito quentes (acima de 27°C) e refere-se à mais forte tempestade da natureza, com até 1.000m de diâmetro e ventos a partir de 120km/h. Em seu centro ou 'olho' (de até 16km de diâmetro) é bem calmo, porém o turbilhão ao seu redor há ventos de mais de 300km/h.
Tornado: tormenta violentíssima que ocorre em qualquer lugar, cuja duração é de até três minutos. Sua base ou 'funil' tem poucos metros de diâmetro e ventos de até 800km/h, e arrasa tudo no seu caminho.

30 de abr. de 2014

Reviravolta

Reviravolta, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 30-04-2014.
Reviravolta, criado em 30-04-2014.

s.f. Ato ou efeito de desfazer a volta;
giro ou volta sobre si mesmo, firmando-se apenas em um dos calcanhares;
volta rápida, pirueta, contravolta: o ginasta fez uma reviravolta.
Mudança brusca: reviravolta de opiniões.

(http://www.dicio.com.br/reviravolta/)


Hoje eu escolhi focar nos momentos felizes de pessoas conhecidas, amigas e ver como a vida é diversificada: estonteantemente capaz de produzir felicidade nas situações onde prevalece uma tristeza.

A bem da verdade, acredito que é mais uma capacidade humana de determinar a dosagem que se permitirá vivenciar de cada uma - a cada momento.

Sim, às vezes precisamos desviar o foco da nossa atenção, por alguns momentos, de determinados aspectos da realidade. Ela pode ser bastante dura, especialmente naquelas situações de grandes dificuldades que envolvem você e uma pessoa amada.

Há um determinado desgaste, que surge nesses casos, que ultrapassa o cansaço físico. Ele mina com as certezas e seguranças e corrói a esperança. Isto é, se não houver o devido cuidado e respeito a si mesmo.

É certo que somente encarando o desafio poderemos ultrapassá-lo. Mas é certo, também, que focar um ponto apenas, por muito tempo, provoca uma visão turva ou nebulosa.

Então, equilibrar-se nessas horas é precisamente dosar o foco no alvo, permitindo-nos um descanso de tempo em tempo para que, ao voltar, a visão esteja mais liberta e possa perceber e avaliar os detalhes, novamente.

Para ampliar a analogia, é ousar criar uma nova perspectiva, fazer um giro sobre si mesmo e dar uma reviravolta.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 30 de abril de 2014.

* Adorei saber que é o Mathias quem está a caminho, Mariana!

13 de abr. de 2014

Saudosismo ou saudade

Saudade, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 13-04-2014
Saudade, criado em 13-04-2014.

Lobo.
Eu, você, João girando na vitrola sem parar.
E eu fico comovido de lembrar o tempo e o som. Ah! Como era bom.
Mas chega de saudade.
A realidade é que aprendemos com João pra sempre a ser desafinados.
Ser.
Chega de saudade!

(Caetano Veloso - Saudosismo)


Saudosismo não é saudade.

Polêmico? Verdade! Então farei algumas considerações e espero que você as acompanhe, se possível, cuidadosamente.

Saudoso é quem permite que sinais anteriores efetuem na mente e no corpo efeitos singulares. Desculpe-me, compliquei. Tentemos ir por outra via. Imagine alguém recordando a alegria de ter carregado uma criança em seus braços e ter recebido um olhar, um sorriso e uma mão acariciando o seu rosto, em resposta. Nesse exato momento, um sorriso lhe brota nos lábios, um lágrima escorre na face e o coração diz para o dono: o mundo é lindo.

O saudosista é quem não permite que novos sinais efetuem o mesmo efeito em seu corpo, apenas os anteriores. Pela analogia, não permite que o adulto - que é aquela criança hoje - lhe promova tais sentimentos.

Um e outro recorrem ao passado como fonte de reativar forças, mas avalio que apenas um o faz de uma forma saudável. A vida é um continuum, inesgotável fonte de novos estímulos. Independente de tempo de vida, ou mesmo condição física, todos os seres vivos são capazes de se apropriar deles por meio de encontros ou de imagens mentais. Pense em alguém cego como capaz de fazê-lo por meio dos auditivos e faça outras considerações semelhantes. Creio que será o suficiente para avaliar a minha proposição.

Dizem que não envelhece quem se apropria do momento presente para projetar novos futuros. Ficam idosos, sim, e seus corpos ficam desgastados e com inúmeras questões resultantes deles, porém, tais efeitos são enfrentados de forma coerente: impedidos de extrapolar e desbotar todos os outros aspectos da vida.

Como disse, não é questão de idade, muitos jovens estão encarcerados em um passado, em uma relação anterior ou um momento cuja habilidade era notória e merecia elogios. Alguns querem permanecer na época em que lhes era permitido errar de forma inconsequente.

Não preciso fazer um compêndio para deixar claro um posicionamento: o uso do passado é uma ferramenta eficaz. Porém, como todo e qualquer bom instrumento, tem possibilidades de uso opostas. É preciso avaliar aquele que nos trará potência para a vida, momentos de prazer, elevação da alma.

Uma sugestão: promova boas recordações, se permita um pequeno túnel do tempo onde você resgate dos acontecimentos o poder que eles possuem de serem eternos em seus efeitos; faça isso sem abdicar dos novos acontecimentos que o cercam no exato momento em que você viaja ao passado. Como? Conte uma história de vida para alguém, uma que o inspire a ir adiante. O que você vive pode ser exclusivamente seu, mas pode efetuar muito mais quando compartilhado.

A vida é uma árvore com rede ramificada e interligada: raízes e galhos que se multiplicam para potencializar os seres que sustenta; distintas camadas sobrepostas que fortalecem; passado e presente numa totalidade única, mesmo que só percebamos a camada mais externa e atual.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 13 de abril de 2014.

* Saudosismo como movimento cultural português do inicio do século XX refere-se a mais do que sentimento individual, a saudade é elevada a um plano místico (relação do Homem com Deus e com o mundo, ânsia nostálgica da unidade do material e do espiritual) e corresponde a uma doutrina política e social.

12 de abr. de 2014

Desistências

resiliência, criado em Wellington de Oliveira Teixeira, em 12-04-2014
Resiliência, criado em 12-04-2014.

Denyel foi arremessado à goela do monstro. Farejou seu odor nauseante […] estava condenado, mas resistia. Deu cotoveladas e socos.
[…] Quando a bocarra se expandiu, Denyel tomou uma atitude impensada. Sem mais pedras para jogar, enfiou a mão na jaqueta e arremessou tudo o que guardava nos bolsos. […] O querubim achou que seria morto em seguida, no entanto o tentáculo afrouxou. Surpreendentemente, o corpo do monstro se agitou numa tremedeira […]tornou a se espremer, descendo ao abismo da escuridão infinita, uma passagem aberta para o universo sombrio.

(Eduardo Spohr — Filhos do Éden 2: Anjos da morte, p.450-452)

Vejo pessoas que tornam-se dependentes de obter soluções imediatas, senão jogam fora ou abrem mão. Entendo essa atitude ser fruto de uma sociedade consumista que incentiva usos temporários e rápidas desistências.

Muito se diz sobre a capacidade humana de superar. Dentre as maneiras de exaltar a resiliência está uma que propõe, para além de superar uma questão, ser capaz de reconstruir, refazer, reestruturar determinados aspectos ou partes perdidas.

Declaro-me fã deste determinado modo de entender a potência desse processo: mais do que apenas ficar de pé em meio à tempestade, tornar-se capaz de inventar - com o que disponível estiver - escudos protetores para continuar caminhando, seguindo em frente, alcançando mais um trecho para alcançar seu objetivo.

Quase sempre, quando proponho essa forma as pessoas (a maioria discretamente) dão um risinho. Não me parece ser de deboche, apenas manifestação involuntária a uma certa ingenuidade minha. Só que, nas várias vezes que busquei refazer o processo de entendimento e achar as brechas, não as encontrei. É possível. É viável. É factível.

Bem, sendo assim, por que as pessoas consideram ingenuidade? Será que o sofrimento vai deixando resíduos, que aos poucos se acumulam e produzem resistência no sentido contrário, isto é, a busca de evitar os enfrentamentos? Porque é isso o que acontece.

Uma vez eu ouvi a expressão 'tiraram o meu chão', em outras 'estou no fundo do poço' ou 'não tenho mais forças para tentar'. A impotência que elas carregam não é pequena, não é desconsiderável. Manifestam um estado ou condição humana onde a esperança se desfez, a visão de algo além se nublou, um estado emocional de esgotamento. Não à toa, pessoas assim precisam de ajuda especializada, inclusive os próprios especialistas que não estão imunes ao processo por contaminação.

Nessas horas, em vez de me focar no processo global eu me permito indicar soluções muito particularizadas e parcializadas: não tente resolver tudo de uma vez. Encontre aquele pequenino aspecto em que você ainda se proporciona um pouco de felicidade e use-o como escudo inicial. Ilumine ao redor dele outros. É como ir ao cinema com um amigo e depois passear na praça, na praia. Um prolongamento do momento bom. Isso é como formar pilares para que você possa colocar uma tampa no seu poço que, de placa em placa, vai cobrindo toda a sua superfície. Não tente encher o poço - ele é profundo. Basta tampar a sua abertura externa, construir uma ponte que o permita atravessar essa profundidade. Se você reforçá-la, diariamente, aos poucos nem notará mais que ficou detido por ela, anteriormente.

Somos seres individualmente muito incríveis. De uma potência maravilhosa. O exercício do enfrentar nos empodera mais, nos fortalece mais.

Eu descobri, também, que produzir novos encontros abre novas possibilidades, compartilhar questões permite que escutemos a nossa própria voz, deixar o sofá ou cama e caminhar faz bem.

Bem, essa é a minha visão. Há outras.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 12 de abril de 2014.

* Eu ri quando terminei a revisão do texto. Ficou parecendo texto de autoajuda. Que seja!

24 de mar. de 2014

Desequilíbrio inicial

Desequilíbrio, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 24-03-2013
Desequilíbrio, criado em 24-03-2014

Dom Juan: Pois bem, um guerreiro começa com a certeza de que seu espírito está desequilibrado;
aí, vivendo num controle e consciência completos mas sem pressa nem compulsão,
ele faz o máximo para conseguir esse equilíbrio.

(Carlos Castaneda - Porta para o Infinito, p.31-32)

Incomodado com a maneira de reagir a alguns acontecimentos de minha vida, peguei o livro Porta para o Infinito para recordar alguns pensamentos do Dom Juan que deram origem a diversas formas que tenho de me expressar. É preciso reaprender diariamente para poder reafirmar ou refazer seus próprios conceitos. Nada deve se estabelecer como imutável na vida, especialmente o aprendizado pessoal adquirido com a vida.

Na época em que fiz a primeira leitura, além de bem novo, eu era devorador de literatura e o livro me pareceu fantástico demais: feiticeiros, poderes, práticas de vida de não-fazer…

No entanto, os pontos de vista apresentados eram extremamente sedutores para uma mente questionadora como a que eu possuía. Então, me entreguei à leitura e avaliação das propostas apresentadas. O fiz tentando abstrair meus preconceitos. Lembro-me que me propus buscar uma visão de mundo de um determinado indígena, no caso o Dom Juan, e a afirmação que me encantou, de início, foi a de que era preciso buscar esclarecimentos, não apenas explicações convenientes.

Seu método, para isso, consistia em acumular um poder pessoal por meio da transformação das práticas diárias: o não-fazer. Este se apresentou como uma prática que possuía um imenso poder ao liberar nossa energia gasta com a repetição, com as nossas rotinas, com as nossas aceitações sem questionamentos e tudo o que nos mantém preso à mesmice, que causa o tédio ou que impede um aperfeiçoamento.

Era tudo de que eu precisava: essa proposição gerou a abertura de um portal dimensional para reavaliar tudo em tudo. Minha busca me levou a trilhar diversos caminhos, a praticar novos esportes, a tentar novas teorias do conhecimento, a experimentar novos sabores e a me afirmar como pessoa e a ter voz sobre o que eu chamava de minha vida.

Hoje, recordando um dos conceitos que mais me seduziram, o da humildade do guerreiro, me recordei de algumas características que assumi como importantes para a minha vida: a busca da impecabilidade em ações e sentimentos, a meus próprios olhos, e não aos olhos de espectadores; a aceitação daquilo que sou não como fonte de pesar mas como um desafio vivo; a não baixar a cabeça para ninguém e não permitir que ninguém o faça para mim.

Tem sido uma aventura e tanto caminhar usando esses conceitos, afinal, não há como forjar um triunfo ou uma derrota. Repito com o Don Juan, que mais uma vez colaborou para que eu ordenasse meus pensamentos e sentimentos: 'Um guerreiro está nas mãos do poder e sua única liberdade é escolher uma vida impecável'.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 24 de março de 2014.

* Para Roberta Ozorio, que hoje estava carente.

15 de nov. de 2012

Super são, não supressão

Supressão*, criado em 15/11/2012

Precisamos transformar a realidade deste mundo não com mais ódios e preconceitos.
Devemos trazer ideias novas e defendê-las com bons argumentos.
Negar outras ideias não nos leva a nada além de um fundamentalismo.
E como me entristece ver o ódio que tem sido gerado por tanta gente no mundo
pela incapacidade de respeitar o pensamento alheio
e de entender que cada um está num determinado patamar de seu desenvolvimento pessoal
e precisa, mais do que qualquer outra coisa, de estímulo para ir adiante
e descobrir seus valores e construir algo bom para si e para os que estão ao seu redor.


Quando não percebemos a cooptação de nosso pensamento, a supressão de nossa capacidade crítica provoca uma lacuna que é capaz de anular ou mesmo extinguir o respeito e o amor ao próximo. A isso eu chamo de aprisionamento da alma.
Wellington de Oliveira Teixeira

Não sei bem o que está acontencendo atualmente (já há muito tempo, talvez) quando uma certa força produtora do nada anda permeando os pensamentos e as vontades, principalmente de uma determinada juventude.

Penso, reflito, tento fazer uma avaliação cuidadosa que não busque no saudosismo uma referência, provoco um rearranjo do meu pensamento e principalmente das estruturas das minhas lógicas, tudo em busca de produzir um pouco mais de clareza sobre esse contexto de realidade aonde os jovens perderam as esperanças, os ideais, projetos políticos e estão se agarrando às correntes de pensamentos fundamentalistas de forma acriteriosa.

Essa vontade me tomou a alma a partir do momento em que um menino - que se tornou um sobrinho de alma há alguns anos atrás -, de uma hora para outra, começou a apostar as suas fichas em frases e pensamentos extremamente fundamentalistas. Numa linguagem que historicamente aprendi a usar, direitistas, muito próximos de fascistas. Mas, aceito de bom grado evitar esses termos daqui para adiante, em prol da busca de conciliar as diferenças e evitar as forças que estão esgarçando as linhas de contato.

Quando conheci o Francis Lauer, cujo nome de usuário numa rede de chats antiga (mIRC) era Zack-, me encantei com a sua capacidade, generosidade, força de vontade e busca de conhecimento.

Na época, ele era um adolescente que vivia alguns conflitos e buscava ultrapassar algumas questões de vida. Eu, buscava algumas teorias e pensamentos que embasassem aquilo que eu chamava de magia da vida.

Após o falecimento de meu Bruninhu, tristeza e uma certa falta de vontade me afastaram das salas de bate-papo e de muitos convívios, do dele não.

Vi, com atenção e preocupação, os novos passos de seu caminho. Busquei me inteirar das novas formas de pensamento, de religiosidade, de escolaridade, com o objetivo de estar pronto a compartilhar, sempre que solicitado por ele, das questões que o atravessavam.

Considero que fizemos um percurso muito bonito de amizade e respeito, independente da distância que existe entre Santa Maria (RS) e São Gonçalo (RJ). E, até então, não houve nada que tivesse conseguido atravessar o bom relacionamento e confiança que partilhávamos.

Hoje, já um jovem adulto, vi a transformação de seu pensamento e propostas de vida. Algumas questões que eu tranquilamente afirmaria serem opiniões e crenças pessoais que não denunciavam nada além de sua busca por expressão, de valorização da vida, e de sua fé (coisas que, a mim, sempre provocavam respeito) mudarem para posicionamentos bastante radicais.

Percebi que um determinado pensamento passou a ser dominante. Não o seu, mas o de um certo grupo que se aglutina sob o nome fiat libertatis. Do que pude observar, nas postagens no facebook, um grupo de políticos e empresários que defendem práticas e conceitos sociopolíticos bem ortodoxos e conservadores que está expresso no lema que adotam: conservador nos costumes e liberal na economia. Coisa até comum para quem quer sacralizar suas ideias, utilizam-se de frases em latim para dar um verniz aos seus posicionamentos e pronunciamentos. Em português claro: fundamentalismo.

Buscando ser cuidadoso no meu posicionamento, pude observar como a defesa da vida, na qual o Francis se engajou, expresso contra a prática do aborto, se expandiu para posicionamentos políticos e capitalistas, em alguns momentos beirando ao contraditório.

Em um desses momentos, expressou que era melhor que crianças trabalhassem nas fazendas em regime análogo à escravidão do que estarem em uma escola, já que, neste governo, estariam aprendendo o socialismo ou o comunismo - algo inaceitável na visão deles.

Por me posicionar, como sempre fiz, contrário à essa visão, no dia 28 de outubro, ele simplesmente não quis mais ter-me na sua lista de contatos do facebook e, pelo que posso avaliar, como amigo.

Meu maior medo é que - apesar de tão talentoso como é - ele perca o rumo da vida que estava construindo tão bem: uma busca incessante por crescimento pessoal e a proposta de fé que abrangia uma prática consciente de compreensão. Mais que isso, uma visão ampla, em que respeito e amor ao próximo eram partes integrantes e fundamentais.

Mas quero crer que talvez eu esteja exagerando um pouco e a minha preocupação e carinho tenham me levado a imaginar mais do que a realidade possa me oferecer como visão. Que meu guri esteja vivendo um percurso necessário ao seu crescimento pessoal que, logo logo, será ultrapassado e do qual se erguerá fortalecido e pronto para continuar o exercício do amor e respeito ao próximo acima de qualquer convenção social.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 15 de novembro de 2012.

*Supressão: ação ou efeito de suprimir; eliminação, lacuna, omissão, abolição, anulação, cessação, derrogação, extermínio e extinção.

6 de out. de 2009

Poderia ser diferente

Focinho, criado por Alexander Kharlamov Focinho, criado por Alexander Kharlamov*


"…vai dizer que você prefere o ódio ao amor? Então neguinho, me diz, qual é?"
(Qual é? - Marcelo D2).


Não!, é algo inteiramente distinto do ódio o que nos faz ir adiante, aprender. Mas acredito que o ódio seja a mais primitiva forma de aprendizado: com a dor.

O ódio, em si, não ensina, ele causa o sofrimento e a dor, estes sim, são capazes de trazer algum aprendizado; o mais básico, do tipo 'doeu, eu evito'. Já levou um choque? Já se queimou? Já tropeçou?

O ódio é um mecanismo de autodestruição. É um modo de usar a energia da vida para desfazer a vida, transformá-la em partes menores, rompendo os encontros que, acumulados, aglutinam e geram novas formas de ser e estar no fluxo, no complexo energético que é este mundo.

Não é preciso ser um gênio para perceber que há formas mais elegantes, elevadas, eloquentes de se aprender que não a pelo ódio. Mas quão difícil é acessá-las conscientemente e optar com convicção por essas vias.

Todos ainda carregamos uma espécie de primitivismo espiritual, uma barbárie em nossos elementos constituintes, algo de que precisamos apenas para dar os primeiros passos e que logo se tornou obsoleto diante dos novos instrumentos ao nosso dispor - obtidos após os aprendizados iniciais da vida.

É como uma tralha que enche de peso a nossa bagagem e impede um caminhar mais confortável e, no entanto, parece que nos apegamos a ela.

Como é difícil entender: aprendeu, segue adiante, descubra novas formas de aprender. A experiência absorvida se tornou a parte integrante de nós que nos ensina a não repetir os erros anteriores. Não será necessário usar os mesmos mecanismos ou deixá-los a disposição para um possível uso futuro.

Alguns argumentam que nosso cérebro-quase-pré-histórico é o que nos mantém vivos, pois é acionador dos reflexos nos momentos de perigo. E a nossa intuição não seria um elemento muito mais eficaz para nos proteger, nos resguardar quando damos ouvidos e atenção necessários?

A adrenalinha da raiva é o melhor meio de tornar o corpo pronto para responder às agressões externas? Será que o ataque é a melhor defesa? Será que já não acumulamos o suficiente para não invadirmos o espaço alheio e provocarmos esse tipo de reação de ataque para a defesa? Respeito aos seres não garante atitudes melhores de ambas as partes, de modo a evitar a maioria dos conflitos que existem no mundo?

Qualquer que seja o sistema político, econômico, religioso, ele é apenas uma forma de interação social de modo a podermos compartilhar nossas vidas, criarmos os meios de colaboração e de desenvolvimento. São instrumentos e não um fim. O que quer que seja mais essencial para cada um de nós não está atrelado a nenhum deles.

Por que, então, somos tão sectários? Quem gosta do vermelho, e não do azul, não presta? Quem não torce pelo mesmo time, quem não está na mesma religião ou professa nossos conceitos filosóficos não serve? Geramos guerra e discórdia, diariamente, por optarmos por viver assim.

É isso mesmo! É opção. Todos podem agir por interação, compartilhamento, visando o desenvolvimento mútuo e a superação dos obstáculos coletivamente.

Indivíduos, sim, mas partículas de um todo. Partes da mesma natureza que luta para alcançar equilíbrios cada vez mais bem sucedidos. Exercitando uma troca de energia constante, onde o que eu tenho de melhor e em maior quantidade, meus dons e minhas capacidades, vão em auxílio a outro que o possui em menor escala e, num fluxo maravilhoso, este que recebeu colabora com o que um outro não possui: um organismo vivo, onde cada peça é fundamental e essencial; nem melhor, nem pior.

Imagino esse movimento como um fluxo de energia que percorre todo o fio, se transmitindo por meio de cada parte, numa grande conexão universal.

Comecei falando de ódio porque uma ideia me fez tremer quando pensei nesse incrível mecanismo de doação universal (amor é uma boa palavra para ele?), algo que não havia pensado antes, em toda a minha vida: o ódio também se propaga dessa maneira só que, em vez de acrescentar, ele retira algo de cada elemento, que ficando deficiente retira do elemento a seguir, como elos de um cadeia que aprisiona e suga sempre, sem acrescentar nada.

E quanto mais vejo ou ouço ou participo de um fluxo de ódio (roubos, assassinatos, guerra, discórdia, ira), ativa ou passivamente, mais eu me envergonho com o pouco que contribuí para a transformação dessa realidade e desejo, ardentemente, me aperfeiçoar para poder contribuir um pouquinho mais com a vida.


Wellington de Oliveira Teixeira, em 06 outubro de 2009.


* Desculpem-me aqueles que esperavam uma arte minha, aqui. Ódio é um tema muito difícil pra mim.