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3 de jun. de 2015

Brinde à vida

Brinde à vida, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 03-06-2015.
Brinde à vida, criado em 03-06-2015.

Brindo à casa, brindo à vida, meus amores, minha família.
Atirei-me ao mar, mar de gente onde eu mergulho sem receio, mar de gente onde eu me sinto por inteiro.
Eu acordo com uma ressaca guerra, explode na cabeça e eu me rendo a um milagroso dia.
Essa é a luz que eu preciso: luz que ilumina, cria e nos dá juízo.
Voltar com a maré sem se distrair. Tristeza e pesar sem se entregar: mal vai passar, mal vou me abalar.
Esperando verdades de criança, (um momento bom como voltar com a maré sem se distrair)
Navegar é preciso senão a rotina te cansa (Tristeza e pesar sem se entregar)
Interesses na Babilônia viram nevoeiro. Poços em chamas tiram proveito
Passa, passa passageiro. A arte ainda se mostra primeiro.
Uma onda segue a outra, assim o mar olha pro mundo.

(O Rappa — Mar de Gente)


Contem conquistas como se contam derrotas, de modo tão corriqueiro que pareçam ser as únicas a acontecer.
— O fato de o corpo ter superado mais um dia, utilizando-se de todos os elementos de transformação conhecidos, não conta;

— Os inúmeros obstáculos vencidos, como distância, altura, o próprio e pesos extras carregados, não conta;

— A imensidão de seres microscópicos dentro e fora do corpo que foram manejados, aproveitando-os ao máximo para maximar a vida e impedindo as doenças, não conta;

— O enorme fluxo de informações acessadas, avaliadas, transformadas e estruturadas como conhecimento, não conta;

— O amplo espectro de sensações e sentimentos que compõem a subjetividade que ficaram sob equilíbrio, de modo ao que se chama loucura não tenha se apropriado da mente como seu território, não conta;
Um brinde ao que não se conta, diariamente, mas que, mesmo que inconscientemente, contamos para que mais um dia possa acontecer, podermos viver e reclamar do viver que é uma merda, pois nada de bom acontece.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 03 de junho de 2015.

* Por que somos bombardeados com tanta desgraça, que deixamos de ver a Graça que é viver.

21 de ago. de 2014

Quem sabe?, um dia...

Contingências, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 11-08-2014.
Contingências*, criado em 11-08-2014.

A contingência é a forma de representar como determinados comportamentos surgiram e se mantêm.
É a formula que a análise do comportamento se utiliza para estudar e entender como
certos comportamentos foram formados e como eles se mantêm atualmente.
A contingência não é apenas o evento reforçador, mas todo o sistema que mostra
como/porque uma resposta foi dada, como se formou repertórios comportamentais
e como tais repertórios se mantém no presente.

(Blog Psicologia analítico comportamental)
Há um certo grau de predição na prevenção.

Os acontecimentos não seguem seu cronograma, você já deve ter percebido. No entanto, já lhe passou pelo pensamento predeterminá-los. Acontece com todo mundo.

Desde que seus projetos incluam espaço para alterações, é um método eficiente. Do contrário, o que lhe aguarda são as frustrações.

Há diversas precauções possíveis: você planta a semente, mas sabe que o verão se aproxima. Então, você se resguarda com poço e cisternas onde acumula água e a libera na medida em que as reservas estejam sempre contingenciadas. Em lugares muito frios, prepara-se uma capa que protege o plantio, fruto ou fruta, do contato direto com a geada ou a neve.

O que geralmente esquecemos é de contingenciarmos uma reserva interna para os momentos dolorosos da vida. E, todos sabemos, eles vêm.

Muitos talvez não percebam ou desconheçam, o cuidado com a mente e a alma, o desenvolvimento espiritual são instrumentos para alcançarmos esse objetivo. Funcionam quando você interrompe o fluxo louco da vida, para e medita; quando você alonga seu passeio em local aprazível ou cria esse momento de forma inusitada, fora dos seus padrões; quando você se esforça para bloquear os fluxos de pensamentos que o agitam, toma um chá quente, ouve uma música leve, lendo um texto que incentiva práticas saudáveis…

Não tenho como imaginar a sua própria forma de tranquilizar-se, de ampliar suas forças internas e externas, de criar conexões que o fortalecem - alimentos, bebidas, pessoas e outros elementos que estariam incluídos aqui. Mas, se houver disposição pessoal, você se permitirá avaliar o que realmente lhe faz bem, não apenas os pequenos agrados diários que você se oferece.

A questão é que, quando se lê esse tipo de comentário ou exortação, a gente acena com a cabeça concordando com a lógica e a proposta mas, a seguir, se permite dizer: Verdade. Quem sabe?, um dia…

Wellington de Oliveira Teixeira, em 21 de agosto de 2014.

* Natureza daquilo que acontece de modo eventual, incidental ou desnecessário, possível de ocorrer de outra forma ou não se efetivar. Algo duvidoso, possível, mas incerto. Um acaso.
Um plano de contingência ou planejamento de riscos, de continuidade de negócios ou de recuperação de desastres objetiva produzir medidas que reativem rapidamente processos vitais, de forma plena ou minimamente aceitável, evitando paralisações prolongadas geradoras de qualquer forma de prejuízo.

6 de ago. de 2014

All faces

faces ocultas, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 05-08-2014.
faces ocultas, criado em 05-08-2014.

O cérebro é abastecido pelos olhos, ouvidos e outros sentidos, e o inconsciente traduz tudo em imagens e palavras.
(Ran Hassin - The new unconscious)


A ocultação é uma arte que pende igualmente para bons e maus usos. Na prática, geralmente, para os mais escusos.

Do processo defensivo e válido de não apresentar-se por completo de imediato nos encontros, aos ardilosos usos de máscaras que desfiguram, o dia a dia nos brinda com muitas camadas sobrepostas de faces. Desvendá-las é uma arte que poucos se preocupam em se aprimorar, quando o contrário — a arte da ocultação — há um grande número de exímios e cada vez mais experimentados.

Os jogos de interesses, articulados em estratégias cada vez mais eficazes de distorção das realidades, é a face atual e marcante dos meios de comunicação. Da mídia ao marketing, tudo brilha e é mais belo do que a realidade permitiria afirmar. Esbarramos com edições sofisticadas e apresentações parciais de dados que em nada se aproximam da imparcialidade. Na defesa de alguns interesses, não importa a vertente defendida, ela ocorre.

O problema maior não é quando grupos de interesses tentam tornar atraente ou maximizar suas propostas. A cota de espectadores é uma pequena minoria, seu alcance diminuto. É alarmante diante da atual hegemonia na comunicação, que, sob o poder do financiamento e de tecnologias quase que ilimitados, tenta infundir padrões, costumes, certo e errado, melhor e pior à população. A constituição do modo de agir e pensar determinados.

Seus rostos são sempre disfarçados por personagens de tramas novelísticas ou de sérios e competentes jornalistas sempre fortalecidos por imagens e som impecáveis, sedutores e convincentes. E segundos depois, lá se vai o poder de crítica, a credibilidade de alguém, e vem a implantação de uma nova doutrinação, que você e eu iremos assistir muitas e muitas vezes repercutir, cotidianamente, em outras mídias. Todo apresentarão bordões fáceis de gravar, opiniões facilmente assimiláveis.

A história confirma que a mentira repetida torna-se verdade. Não deveríamos, então, perceber que quem controla os meios de comunicação são os piores terroristas, quando os usam para domesticação dos anseios de uma população?

Não é paranoia. Perceba, que de repente, é necessário esticar cabelos, usar determinadas cores, combinar de determinado modo alguns utensílios e todos participam da mesmificação e da desindividualização da existência. E os mais influenciáveis, como os menos escolarizados e todas as crianças, passam a usar o penteado do jogador de futebol (por mais ridículo que ele seja!): despersonalizados. Se isso acontece com a aparência, tente imaginar o alcance do processo de manipulação de corações e mentes.

Aqueles que comandam o espetáculo escondem seus rostos como aquelas hortaliças, as alfaces, camada por camada retirada, você jamais consegue achar a face verdadeira, por mais que cada uma seja descartada.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 06 de agosto de 2014.

* Cientistas ingleses fizeram um experimento com um homem africano que em função de um acidente teve seu córtex visual completamente destruído. Em um laptop apresentaram imagens com círculos e quadrados. Houve 50% de acertos, o equivalente à sorte. Porém, a seguir apresentaram rostos amigáveis ou hostis. O resultado foi de dois terços de acertos, mesmo com o teste repetido.
O processo, inconsciente, recebe o termo científico blindsight, visão cega. É o uso da região cerebral (área fusiforme) especializada desde a época das cavernas para julgar rostos e evitar ameaças e morte.
Leia a respeito em http://super.abril.com.br/ciencia/mundo-secreto-inconsciente-741950.shtml
Os estudos de pesquisadores dessa área tem influenciado as novas formas de propaganda e marketing. A nova abordagem neurológica do inconsciente já produz resultados. Seu uso nem sempre ético.

24 de jun. de 2014

Fluxos circundantes

Irradiar, criado por Irradiar, criado em 22-06-2014. em 22 de junho de 2014.
Irradiar, criado em 22-06-2014.

Num passado remoto, o homem deve ter ouvido com assombro o som de batidas regulares
que vinham do fundo de seu peito, sem conseguir saber o que seria aquilo.
Não podia identificar-se com um corpo, essa coisa tão estranha e desconhecida.
O corpo era uma gaiola e dentro dela, dissimulada, estava uma coisa qualquer
que olhava, escutava, tinha medo, pensava e espantava-se;
essa coisa qualquer, essa sobra que subsistia, deduzido o corpo,
era a alma.

(Milan Kundera — A insustentável leveza do ser)

Você sempre volta com as mesmas notícias.
Eu queria ter uma bomba, um flit paralisante qualquer,
pra poder me livrar do prático efeito das tuas frases feitas, das tuas noites perfeitas. […]
pra poder te negar — bem no último instante — meu mundo que você não vê, meu sonho que você não crê.

(Cazuza — Eu queria ter uma bomba)


Construir, comprar ou alugar algo para poder aproveitar as águas, as terras ou o ar é uma boa ideia para expandir seu universo e se permitir aprender um pouco mais. Há muitas formas de locomoção e o mundo é imenso. Mas eu passei a gostar de viajar incógnito e o universo das agências de turismo não é opção para mim. Realidades são estritas, não por eu não saber ou querer aproveitá-las. Quando desejo e posso, eu o faço! É que as viagens ganharam como determinantes as interações estabelecidas com a vida.

A palavra encontrar apequenou-se quando entendi que solidões não se atraem. Elas não se gostam — até se evitam! Até que aprendam a vivenciar a solitude, o estar só sem se sentir solitário, os seres tentarão multiplicar suas emoções apenas absorvendo o que lhes é oferecido. Triste situação daqueles que só aprenderam na escola insidiosa do sugar.

Percebi que meu voo sozinho é solidário apenas quando partilha aquilo que é o espaço constitutivo e possibilitador das trocas. Mas, atenção!, trocas não representam uma relação de pesos e medidas de iguais proporções. Todo encontro pleno propicia mais do que algo ou alguém e eu temos para oferecer, é a ordem do equilíbrio que se estabelece.

Para tentar explicitar isso que acontece de forma inexplicável vou citar o cuidar de uma criança. Pais ou responsáveis podem confirmar. Basta lembrar aquele sorrisinho encantador, que instantaneamente aflora uma força que atinge mais do que uma onda do Havaí e engloba tudo. E enriquece a alma.

Houve muitas vezes quando restou como lembrança apenas um encontro que travei durante a viagem realizada. Encontros se fazem com pessoas. Ou com luzes, águas, cores, superfícies, sabores, texturas, sons. Ou movimentos, porque eu adoro trilhar, escalar, nadar — ainda não aprendi a voar, senão adoraria citar.

Nos momentos em que a companhia foi realmente compartilhada, os voos individuais e os modos próprios de absorver a experiência foram determinantes. Cada um com seu cada um criou as condições onde os fluxos circundantes atravessaram simultaneamente ambos. E a satisfação foi plena por isso: em cada um o necessário se estabeleceu como recompensa.

Não tenho pretensões a puritano, então, diria que assemelha-se a uma espécie de clímax simultâneo no sexo.

De algum tempo para cá, as experiências extra muros de casa (minha ou de um familiar) têm sido tão escassas que ficaram meio perdidas da lembrança. E, em função de uma urgência desmedida da alma, adotei os voos virtuais para dar conta do que se apresenta à razão ou à emoção. E os meios, assim como os instrumentos, foram as imagens e os textos. Para os alados deixei a minha confissão das angústias.

Ainda gosto de encarar meus próprios desafios. Mas esse último período tem reservado outro movimento e precisei aglutinar questões daqueles que incluí como do meu mundo. Então, nada a reclamar. Vou lá e limpo, lustro e reafino este instrumento débil, e parto para desobstruir as cacofonias e construir sinfonias com os movimentos propostos pela vida.

Só assim consigo ser. E por ser um momento em que me permito o entendimento de que este é um encontro que vale a pena, me promovo plenitude e ela me aperfeiçoa.

Wellington de Oliveira Teixeira, entre 23 e 24 de junho de 2014.

* Agora é apenas nota de rodapé: …no meu mundo um troço qualquer morreu, num corte lento e profundo entre você e eu. E ficou tudo fora de lugar… (Cazuza — O nosso amor a gente inventa (estória de amor))

13 de abr. de 2014

Saudosismo ou saudade

Saudade, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 13-04-2014
Saudade, criado em 13-04-2014.

Lobo.
Eu, você, João girando na vitrola sem parar.
E eu fico comovido de lembrar o tempo e o som. Ah! Como era bom.
Mas chega de saudade.
A realidade é que aprendemos com João pra sempre a ser desafinados.
Ser.
Chega de saudade!

(Caetano Veloso - Saudosismo)


Saudosismo não é saudade.

Polêmico? Verdade! Então farei algumas considerações e espero que você as acompanhe, se possível, cuidadosamente.

Saudoso é quem permite que sinais anteriores efetuem na mente e no corpo efeitos singulares. Desculpe-me, compliquei. Tentemos ir por outra via. Imagine alguém recordando a alegria de ter carregado uma criança em seus braços e ter recebido um olhar, um sorriso e uma mão acariciando o seu rosto, em resposta. Nesse exato momento, um sorriso lhe brota nos lábios, um lágrima escorre na face e o coração diz para o dono: o mundo é lindo.

O saudosista é quem não permite que novos sinais efetuem o mesmo efeito em seu corpo, apenas os anteriores. Pela analogia, não permite que o adulto - que é aquela criança hoje - lhe promova tais sentimentos.

Um e outro recorrem ao passado como fonte de reativar forças, mas avalio que apenas um o faz de uma forma saudável. A vida é um continuum, inesgotável fonte de novos estímulos. Independente de tempo de vida, ou mesmo condição física, todos os seres vivos são capazes de se apropriar deles por meio de encontros ou de imagens mentais. Pense em alguém cego como capaz de fazê-lo por meio dos auditivos e faça outras considerações semelhantes. Creio que será o suficiente para avaliar a minha proposição.

Dizem que não envelhece quem se apropria do momento presente para projetar novos futuros. Ficam idosos, sim, e seus corpos ficam desgastados e com inúmeras questões resultantes deles, porém, tais efeitos são enfrentados de forma coerente: impedidos de extrapolar e desbotar todos os outros aspectos da vida.

Como disse, não é questão de idade, muitos jovens estão encarcerados em um passado, em uma relação anterior ou um momento cuja habilidade era notória e merecia elogios. Alguns querem permanecer na época em que lhes era permitido errar de forma inconsequente.

Não preciso fazer um compêndio para deixar claro um posicionamento: o uso do passado é uma ferramenta eficaz. Porém, como todo e qualquer bom instrumento, tem possibilidades de uso opostas. É preciso avaliar aquele que nos trará potência para a vida, momentos de prazer, elevação da alma.

Uma sugestão: promova boas recordações, se permita um pequeno túnel do tempo onde você resgate dos acontecimentos o poder que eles possuem de serem eternos em seus efeitos; faça isso sem abdicar dos novos acontecimentos que o cercam no exato momento em que você viaja ao passado. Como? Conte uma história de vida para alguém, uma que o inspire a ir adiante. O que você vive pode ser exclusivamente seu, mas pode efetuar muito mais quando compartilhado.

A vida é uma árvore com rede ramificada e interligada: raízes e galhos que se multiplicam para potencializar os seres que sustenta; distintas camadas sobrepostas que fortalecem; passado e presente numa totalidade única, mesmo que só percebamos a camada mais externa e atual.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 13 de abril de 2014.

* Saudosismo como movimento cultural português do inicio do século XX refere-se a mais do que sentimento individual, a saudade é elevada a um plano místico (relação do Homem com Deus e com o mundo, ânsia nostálgica da unidade do material e do espiritual) e corresponde a uma doutrina política e social.

24 de mar. de 2014

Desequilíbrio inicial

Desequilíbrio, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 24-03-2013
Desequilíbrio, criado em 24-03-2014

Dom Juan: Pois bem, um guerreiro começa com a certeza de que seu espírito está desequilibrado;
aí, vivendo num controle e consciência completos mas sem pressa nem compulsão,
ele faz o máximo para conseguir esse equilíbrio.

(Carlos Castaneda - Porta para o Infinito, p.31-32)

Incomodado com a maneira de reagir a alguns acontecimentos de minha vida, peguei o livro Porta para o Infinito para recordar alguns pensamentos do Dom Juan que deram origem a diversas formas que tenho de me expressar. É preciso reaprender diariamente para poder reafirmar ou refazer seus próprios conceitos. Nada deve se estabelecer como imutável na vida, especialmente o aprendizado pessoal adquirido com a vida.

Na época em que fiz a primeira leitura, além de bem novo, eu era devorador de literatura e o livro me pareceu fantástico demais: feiticeiros, poderes, práticas de vida de não-fazer…

No entanto, os pontos de vista apresentados eram extremamente sedutores para uma mente questionadora como a que eu possuía. Então, me entreguei à leitura e avaliação das propostas apresentadas. O fiz tentando abstrair meus preconceitos. Lembro-me que me propus buscar uma visão de mundo de um determinado indígena, no caso o Dom Juan, e a afirmação que me encantou, de início, foi a de que era preciso buscar esclarecimentos, não apenas explicações convenientes.

Seu método, para isso, consistia em acumular um poder pessoal por meio da transformação das práticas diárias: o não-fazer. Este se apresentou como uma prática que possuía um imenso poder ao liberar nossa energia gasta com a repetição, com as nossas rotinas, com as nossas aceitações sem questionamentos e tudo o que nos mantém preso à mesmice, que causa o tédio ou que impede um aperfeiçoamento.

Era tudo de que eu precisava: essa proposição gerou a abertura de um portal dimensional para reavaliar tudo em tudo. Minha busca me levou a trilhar diversos caminhos, a praticar novos esportes, a tentar novas teorias do conhecimento, a experimentar novos sabores e a me afirmar como pessoa e a ter voz sobre o que eu chamava de minha vida.

Hoje, recordando um dos conceitos que mais me seduziram, o da humildade do guerreiro, me recordei de algumas características que assumi como importantes para a minha vida: a busca da impecabilidade em ações e sentimentos, a meus próprios olhos, e não aos olhos de espectadores; a aceitação daquilo que sou não como fonte de pesar mas como um desafio vivo; a não baixar a cabeça para ninguém e não permitir que ninguém o faça para mim.

Tem sido uma aventura e tanto caminhar usando esses conceitos, afinal, não há como forjar um triunfo ou uma derrota. Repito com o Don Juan, que mais uma vez colaborou para que eu ordenasse meus pensamentos e sentimentos: 'Um guerreiro está nas mãos do poder e sua única liberdade é escolher uma vida impecável'.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 24 de março de 2014.

* Para Roberta Ozorio, que hoje estava carente.

17 de jan. de 2014

Impronunciável

Revolução amorosa, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 11/01/2014
Revolução amorosa, criado em 11/01/2014.

Uma Revolução Amorosa não pode se servir de armas, batalhas, jamais promoveria uma guerra, nunca derramaria uma gota de sangue. A Revolução Amorosa que imaginamos aproveita a Revolução Sexual iniciada há meio século para ir além do corpo exposto e eroticamente ativo. Quer chegar à alma e abrir as defesas que nos impedem de amar de modo amplo e intenso. A trajetória é desenvolvida por exercícios emocionais que questionam condutas e valores morais, substituindo-os por referenciais éticos. Uma ginástica afetiva que gradualmente substitua a moral pela ética pode representar tempo e espaço estendidos e suficientes para que nos aproximemos da Era Amorosa.
(Joaquim Z. B. Motta - A Moral do Amor - da Revolução Sexual À Revolução Amorosa


A experiência da vida é algo extremamente sutil*, não apenas por ser uma apropriação única de vivências. O toque do que nos escapa, do intangível e das considerações sociais pode tornar-se um fardo. E pesado.

Viver o silencioso mundo do oculto e abrigar a terrível missão da omissão, em si, já desconstrói qualquer fortaleza e corrói os escudos defensivos projetados pela razão.

Não é apenas uma questão de valoração. Certo ou errado - a maioria das vezes, neste caso - é apenas reflexo de uma moralização do encontros.

Acontece que a proposição de vivência compartilhada é singular, principalmente se incluir o obscuro mundo dos desejos, aspirações e pirações que a fantasia do viveram felizes para sempre produz.

É provável que seja possível desgrudar o desejo de ter prazer da fantasia do relacionamento perfeito e da apropriação do sentimento do outro. Para alguns que consigam, deve ser a chave para um respeitável modo de associação. Algo como aquela construção social do após a chama da paixão a amizade sustenta.

Ponderar o quanto há de disponibilidade, em si mesmo, para além de aceitar a trajetória do outro e permitir-se o alegrar-se com o caminho que ele percorre, o fazê-lo de forma abnegada e tranquila vivenciando isso sem intromissão dos próprios anseios, é algo que pode ser considerado uma tarefa impossível. Talvez, por isso muitos encaram esperançosamente o desafio. Um 'vamos ver no que dá' quase que inconsciente.

Como tudo na vida, provoca um desgaste. Só que, desta vez, na superfície da alma. E não é de forma alguma imperceptível ou desprezível. Muitos degeneram. Muitos perdem sua propriedade. Muitos se descaracterizam a ponto de não mais encontrar seus referenciais próprios: sucumbiram ao outro e ao seu desejo.

Uma questão que precisa ser solucionada é a de em que medida o confundir-se com o outro, o integrar-se ao outro e a entrega de si não despersonaliza.

Alguns, por conta de um determinado reforço social, não se ressentem da perda de si: autômatos em prol de fazer funcionar um relacionamento, esquecendo que não há relacionamento quando apenas uma parte cede, abre mão ou se abnega. Isso ficou claro nos relacionamentos constituídos durante os últimos séculos.

Como fruto da premissa da negação de si, juízes do comportamento alheio. Julgadores de práticas diferenciadas, mesmo quando escamoteado pelo verniz do desejo do melhor para alguém.

O mundo das relações não é mais o mesmo: as novas construções são determinadas pela exigência de equilíbrio entre as necessidades individuais e as do relacionamento e não há mais o temor do afastamento quando isso não ocorre.

A rejeição aos ditames morais que desqualificavam os que se separavam é algo que se estabeleceu em função de um desejo de encontrar, ou ver alguém amado encontrar, a felicidade compartilhada.

Mas alguns casos ainda não chegaram a receber o benefício dessa nova prática. Ficam escusos, ficam malogrados num gueto de relações indizíveis e se sustentam no apesar de, numa coragem de sobrepujar o imposto, o predeterminado.

Mas, mesmo entre esses, é possível aplicar essas reflexões: todos carregam muito de séculos de representações oficiais. A construção do novo não acontecerá do nada e nem será um decreto que acabará com as regras anteriores.

Sem questionar as diferenças, nem me prender a nenhum conceito pre-estabelecido, me permito avaliar o que percebo, o que vejo, o que não vejo mas surge e se expressa no apesar de. Talvez minha prática como psicólogo ou pensador seja algo a que não posso escapar. Talvez a minha vivência compartilhada seja um elemento provocador. Talvez haja tantos 'talvez' que eu me perca na tentativa de elencá-los, simplesmente para tentar justificar um texto, uma proposição, uma provocação das coisas que quando me pegam e não me soltam me levam às últimas consequências para tentar falar o impronunciável.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 17 de janeiro de 2014.

* A vida tem notas como de perfumes.
Perfumes são como fogos de artifício e sua graduação: explode com as notas de cabeça (o detalhe marcante do primeiro segundo), enriquecendo seu efeito com as notas de coração até que as notas de fundo o mantém como um rastro em nossa recordação.

17 de dez. de 2013

Ousar ser mais que uma parte

Ousar, criado por Wellington de Oliveira Teixeira, em 17-12-2013 Ousar, criado em 17-12-2013

Seus atos, bem como os atos de seus semelhantes em geral, parecem-lhe importantes
porque você aprendeu a pensar que são importantes.
Aprendemos a pensar sobre tudo — disse ele — e depois exercitamos nossos olhos para olharem como pensamos a respeito das coisas que olhamos. Olhamos para nós mesmos já pensando que somos importantes. E, por isso, temos de sentir-nos importantes! Mas quando o homem aprende a ver, entende que não pode mais pensar a respeito das coisas que ele olha, e se não pode mais pensar sobre as coias que olha, tudo fica sem importância […] tudo é igual, e dessa forma sem importância.

Você teme o vazio da vida de seu amigo.
Mas não existe vazio na vida de um homem de conhecimento, posso garantir-lhe.
Tudo está cheio até a borda.
(Carlos Castaneda - Uma estranha realidade pp.79-85)


Pedaços estão para além de partes de um todo.

Sabe quando você tem uma tarefa a executar que possui camadas de um roteiro a seguir ou uma construção que depende do passo anterior para poder ser executada? Na universidade me ensinaram a classificar essas partes como pre-requisitos: assim, não seria possível alcançar o topo sem percorrer os degraus.

Relativo. Como tudo, aliás.

Nossa mentalidade mecanicista só (re)afirma aquilo que ela foi programada para aceitar. Nosso comportamento padrão recompensa-castigo: meu ratinho branco e velho companheiro, Tommy, das aulas de psicologia comportamental o expressaria. Estímulo e respostas que constroem como agimos e pensamos.

Meu ratinho, parceiro de curso básico — que, para desespero das meninas, me acompanhava dentro da jaqueta às outras aulas —, ganhou esse nome por que eu havia assistido ao filme(*) de mesmo nome onde um autista era brilhante em jogar pimball (ou pebolim, em alguns locais do país). Um autismo programado.

Como o nosso.

Somos brilhantes em reproduzir o cotidiano, suas rotinas, em nos apegarmos ao costumeiro até que não haja mais qualquer gota de prazer a ser retirada das nossas práticas. E, ainda assim, continuamos indefinidamente apegados à crença de precisarmos delas para continuar.

A ruptura, que sempre é possível, precisa acontecer. Mas passei da fase da iconoclastia por si mesma. Já não sou tão punk assim.

Minha fé no poder do desfazer algo vem do crer que a energia que gastávamos para manter determinada rotina pode ser empregada para fortalecer outras diferenciadas.

Gosto de período a período fazer modificações amplas no meu habitat - além daquelas pequenas e quase imperceptíveis a outros olhos. Mas não o faço por fazer. Me obrigo a detectar uma necessidade, que aparece quando meus atos se tornam inócuos, insossos, não representativos daquilo que estou no momento.

É nesse campo propício que invisto nas tentativas de criar um novo, não apenas um renovado estar na vida. E, para obter isso, ouso coisas que não havia tentado, ainda.

Recordo-me de haver sentido esse movimento quando quis aprender a tocar instrumentos de teclas. Foi um desafio imenso para quem não tinha recurso nenhum: as pernas eram as teclas, onde meus dedos simulavam tocar um piano.

Parece um contrassenso, mas deu certo. Aprendi. E depois vivenciei um conjunto de momentos tão maravilhosos quanto inesquecíveis. Inclusive amar além de qualquer possibilidade de resistir.

Bem, isso não é confessionário. Uso o acontecimento como exemplo de o quanto o voo pode ser longo quando nos decidimos a ultrapassar o maquinismo, aquilo que em nós acredita que a roda não pode ser reinventada, que os descobrimentos são apenas tirar a coberta de cima de algo.

Uso porque quero me incentivar a viver situações como a de agora: transição.

Quero ser um transeunte da vida, não um expectador em uma estação de trem, de ônibus, de avião ou de espaçonaves. Quero ir além e transitar seus pensamentos e gerar novas emoções em você também, como o resíduo de minha vida, como a energia que se expande para além de sua fonte.

Um dia eu quis ser veículo, instrumento do sagrado em mim. Hoje entendo que não há dissociação entre mim e o sagrado, já que seu sopro é minha vida.

Ainda bem que, um dia, Deus ousou e disse "Haja Luz!".

Wellington de Oliveira Teixeira, em 17 de dezembro de 2013.

* Filme baseado na ópera rock lançada em 1969 pelo The Who. Durante a II Guerra Mundial o Capitão Walker é considerado morto em batalha. Sua esposa Nora Walker fica com a tarefa de cuidar sozinha de Tommy, filho recém-nascido do casal. Nora se envolve com Frank Hobbs, mas em 1951 seu antigo marido retorna repentinamente e é morto por Frank. O garoto Tommy presencia tudo, mas sua mãe e seu padrasto insistem que ele não viu, ouviu e não vai falar nada a ninguém, e em consequência Tommy se torna cego, surdo e mudo. Já adolescente, Tommy se torna um campeão de pinball, trazendo fama e fortuna para sua família. Depois de curado, ele se torna uma espécie de figura messiânica e angaria um culto de seguidores, que no final rejeitam seus ensinamentos e o abandonam. (http://pt.wikipedia.org/wiki/Tommy_(filme))

21 de nov. de 2013

A spinozidade da vida

spinozidade, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 21/11/2013
Spinozidade, criado em 21/11/2013

Não é por julgarmos uma coisa boa que nos esforçamos por ela, que a queremos, que a apetecemos, que a desejamos,
mas, ao contrário, é por nos esforçarmos por ela, por querê-la, por apetecê-la, por desejá-la, que a julgamos boa".
Espinoza, Ética, parte 3 prop. 9 esc.

A cada novo dia, outra teoria clássica é derrubada. Fundamentos que nos embasaram o pensamento, construídos a partir de definições pré-estabelecidas, perderam seu poder sustentador.

Bem, muitos não gostam e nem desejam aceitar que as definições que fizer se perderão com o tempo. Talvez, por isso, a temporariedade da construção do pensamento como um enigma é o que se propõe para nós outros.

Da física e da química que aprendi no fundamental e no secundário quase nada mais resta de pé. Que bom! Não tenho que me estabelecer como base de estrutura sólida, imutável, independente da variação que se estrutura no momento.

Pego o spin como exemplo: ele definia a direção do giro de uma partícula atômica. Portanto, seu campo magnético. Mas (e físicos, por favor, me ajudem), essa é uma visão muito estreita da realidade, uma vez que o fator giromagnético depende de carga, da espécie de partícula, da vetorialização e angulação, etc.

Me permitam utilizar essa entidade matemática e suas consequências como apoio para repensar meu caminho.

Em cada época, as ondulações do mar da vida produziram as condicionantes de minha apropriação da realidade. Houve épocas em que a dor era tão poderosa que nublava qualquer tentativa de raciocínio, mas o pensamento se estabelecia e produzia o necessário. Aconteceu, da mesma forma, quando era a alegria que assomava o terreno e quando todos os meio-termos se apresentaram, também.

Quem ou o que sou está diretamente relacionado com isso. A vida é isso. Momento.

E como uma mecânica quântica, o campo magnético da vida (que eu adotei com o nome de campo de possibilidades) proporciona e propulsiona atitudes, atos e encontros.

Meus queridos amigos mais jovens têm dito que me tornei hermético e com isso tenho produzido uma escrita obscura para eles. Talvez. Mas o simples preto no branco não se estabelece mais como parâmetro para minhas interpretações da realidade.

Os gestos que meu corpo aprendeu tiveram que receber adaptações ou reconstruções. Fiz o mesmo com meus julgamentos.

O olhar que produzo, diariamente, como realidade é apenas isso: uma produção e não é algo em si. O si, aí, sou eu. A realidade em mim e para mim.

Meu mundo se expandiu a ponto de acoplar outras realidades e a diferenciação se tornou o ponto central para qualquer raciocínio.

Gosto muito da ideia dos criacionistas de que Deus não repetiu nada, produziu a diferença em si, no mundo e nos relacionamentos. A beleza que observamos e vivenciamos se sustenta nisso.

O modo como cada um se propõe a vivenciar, a partir de suas próprias construções de mundo uma determinada realidade, é algo que cabe exclusivamente a essa pessoa. Assim, nossas valorações sobre o outro, seus atos, suas características acabam se tornando nada mais que uma forma de incluirmos a sua participação em nosso mundo.

Tenho sido conhecido como um ativista, especialmente com relação à Educação que considero a pedra fundamental na abertura dos mundos existentes em cada ser. Vou para a vida, participo de discussões, enfrento cacetetes por acreditar nisso.

E agora, nessa etapa de uma jornada que me é mais surpreende por não ter que se estabelecer em instituições estruturantes, e por possibilitar as (des)cobertas e (des)construções, eu honro os vínculos estabelecidos sem os laços que aprisionam. Sou grato pelos encontros que tive e por aqueles que se estruturaram de tal forma que estão aí na ordem do mundo. E do meu mundo. Sem nenhuma obrigação ou determinação de modo.

Talvez, uma das maiores conquistas da minha vida tenha sido essa: adotar, como prática, esse respeito ao tempo do outro, do momento do outro, e de estar aberto ao encontro - quando este se apresenta como possível, viável ou necessário.

Apenas uma visão (uma dentre tantas outras) que vou adotando conforme o aprendizado do ser e sua completude o exigem. Plenitude não é mais uma palavra para mim. É um desafio que altera o meu modo operandis para ser e estar de um modo pleno nessa ordem que a Ordem me permitiu vivenciar.

Se isto servir para dar partida para um outro ou novo pensamento, fique a vontade. Compartilhar é algo que me faz bem.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 21 de novembro de 2013.

* Li na wikipedia que o Spin não possui uma interpretação clássica, ou seja, é um fenômeno estritamente quântico, e sua associação com o movimento de rotação das partículas sobre seu eixo - uma visão clássica - deixa muito a desejar.

** Baruch Spinoza foi um dos grandes racionalistas do século XVII dentro da chamada Filosofia Moderna, juntamente com René Descartes e Gottfried Leibniz.

15 de jul. de 2013

Nosso interno-ambiente


Conhecimentos, fotografia base: desenho no banheiro do ICHF.*

"Pois então" — pensou —, "já que todas aquelas coisas passageiras me escorregaram por entre as mãos, acho-me novamente sob o sol, sozinho, como nos dias de infância. Nada possuo, nada sei fazer, nada posso realizar, nada aprendi. Não é mesmo estranho? Agora, que já não sou nenhum jovem, que meus cabelos já ficaram grisalhos, que minhas forças diminuem, volto à estaca zero, lá onde estive em criança!" Mais uma vez, esboçou um sorriso. Sim, seu destino era deveras singular. Ele ia abaixo e novamente se encontrava nessa terra totalmente vazio, tolo, desamparado. Mesmo assim, sentia-se incapaz de afligir-se por isso. Antes, pelo contrário, tinha vontade de dar uma gargalhada, de rir-se de si, de zombar desse mundo esquisito, estúpido.
(Sidarta - Herman Hesse, p.81-82)


A novidade é a coisa mais antiga no mundo.

Está na moda o conceito de inovação. Ele carrega em si a ideia de criar algo novo, diferenciado, transformador, ruptor de uma sequência ou de um modo de ser, estar ou desenvolver.

Empresas procuram a preço de outro pessoas com o talento de produzir o inesperado e, para isso, vão buscar em locais ou práticas mais inusitados. Vou propor apenas um exemplo: músicos para empresas de tecnologia. Você deve saber que a Lady Gaga é a nova diretora de criação da Polaroid e que o William Adams, mais conhecido como Will.i.am (do grupo Black Eyed Peas), vai colaborar no desenvolvimento de novas tecnologias da Intel.

Algo estranho, que percebo por trás desse movimento de transformação, é a produção da insaciável sede consumista: o capitalismo vendendo que velho é ruim, novo é bom. Quer saber, o pior é que acreditamos nisso: dizemos que um celular ou laptop de 2 ou 3 anos atrás é uma porcaria.

Na contramão disso, o espanhol Benito Muros está sendo ameaçado de morte por causa de sua criação: uma lâmpada que dura no mínimo 25 anos - que tem por base uma que existe em um parque de bombeiros de Livermore (Califórnia), acesa há mais de 111 anos.

Poucos, talvez, conheçam o conceito, mas a Obsolescência Programada é um acordo de muitos fabricantes para desenvolverem produtos de curta durabilidade de modo a obrigar-nos a adquirir novos produtos que seriam desnecessários se produzidos como antigamente. Você pensa: até aí, tudo bem, tem sempre novidade no pedaço. Mas esquece de que o seu inconsciente absorve, também, esse conceito para as outras áreas de sua vida, inclusive a afetiva.

Apresento de forma não-moralista a questão dos relacionamentos: vejo, a todo momento, imagens e frases nas postagens de redes sociais, nos diálogos ao vivo, que há o desejo de encontrar alguém para amar, para construir um vínculo e (para alguns) constituir uma família e viver uma experiência até a morte como em UP Altas Aventuras. Na prática, apresentamos imagens dos pequenos vôos das baladas, dos encontros fortuitos em finais de semana, dos namoros que duram até a primeira briga e o status do face serem alterados. Essa incoerência surge de onde?

A questão do novo que os negociantes expõe exaustivamente em seus comerciais é a coisa mais velha que o mundo já produziu e se chama transformação: nada se perde, tudo se transforma.

Assim, o inverno dá lugar à primavera, o frio ao calor, a cobra troca a pele e você suas células mortas, as unhas, cabelos... Isso se chama renovação.

Mas a natureza ensina que não é necessário desqualificar o antigo: ele é a estrutura eficaz que permite as mudanças. É na harmonização entre o antes e o depois que se estrutura um presente.

Algumas pessoas optam pelo caminho do monge e se retiram da agitação para meditar. Querem, com isso, não impedir o novo, a novidade de vida, mas melhorar a base deste processo abrindo mão do desnecessário. Isso se chama purificação.

Como eu disse, meu objetivo não é moralização de uma forma de ser social, mas propor uma avaliação dela. A sua própria avaliação. A experiência e a observação ensinam que só precisamos ter elementos que nos ativem a capacidade de pensar, o resto somos nós que fazemos, inclusive trilhar um outro caminho.

Por falar nisso, os antigos chamavam isso de metanóia ou mudança de mente que determinava um novo rumo para a vida.

Viu?, antigos tem muito para a ensinar-aprender com os novos. Essa é a proposição simples e diária da natureza: a busca do equilíbrio.

A palavra que eu queria dizer, que só agora me tomou é transitoriedade. Exatamente o que acontece com tudo. É o Iazul! (Tudo passa!) da história de Malba Tahan**.

Existe algo na ordem do necessário que determina que parte do antigo permaneça no novo e a essa forma de permanência nós humanos aprendemos a denominar de eu. Hora de melhorarmos nosso interno-ambiente.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 15 de julho de 2013.

* Me encanto com a gurizada do ICHF - Instituto de Ciências Humanas e Filosofia da UFF. Essa é uma amostra do que eles produzem por lá e nos incentiva a reavaliar toda a estrutura de conhecimento.

** "Quando o homem atravessa período de felicidade, de alegria, de sorte e tranquilidade, deve pensar no futuro e ser comedido em suas expansões, sóbrio em suas atividades.
Convém que o afortunado não esqueça: IAZUL (isso passa). A roda do destino é incerta. A vida é cheia de mudanças.
Há ocasiões, porém, em que nos sentimos tristes, enfermos, feridos sentimentalmente, caminhando sob nuvens de infortúnios.
Para que o ânimo volte ao nosso espírito, proferimos cheios de fé, fortalecidos de esperança: I A Z U L! Isso passa. Sim, tudo passa.
Virão dias melhores, dias calmos e felizes. A prosperidade e a boa sorte voltarão a iluminar a nossa jornada. A saúde será reconquistada. E a serenidade procurará pouso em nosso coração."

16 de jun. de 2013

Pense numa história sem fim…

História sem fim, criado Wellington de Oliveira Teixeira, em 16/06/2013
História sem fim, criado em 16/06/2013

Diz a tradição que, no segundo antes de nossa morte, cada um se dá conta da verdadeira razão da existência.
E nesse momento nasce o Inferno ou o Paraíso.
O Inferno é olhar para trás nessa fração de segundo
e saber que desperdiçamos uma oportunidade de dignificar o milagre da vida.
O Paraíso é poder dizer nesse momento:
"Cometi alguns erros, mas não fui covarde. Vivi minha vida e fiz o que devia fazer."
(Aleph - Paulo Coelho)

A coragem de viver: deixo oculto o que precisa ser oculto e precisa irradiar-se em segredo.
Calo-me.
Porque não sei qual é o meu segredo. conta-me o teu, ensina-me sobre o secreto de cada um de nós.
Não é segredo difamante. É apenas isto: segredo.
E não tem fórmulas.
(Água Viva - Clarice Lispector)


É preciso ser criativo, dia após dia, para enfrentar a multidão de acontecimentos que se encara quando há o desejo de estar vivo e não de apenas sobreviver.

Não creia ser esta uma tarefa que alguém possa definir como fácil. Quanto mais experiência temos (nas entrelinhas, mais velhos ficamos) maior o entendimento de que a maleabilidade é uma ferramenta maravilhosa para lidar com as questões que nosso desenvolvimento pessoal propõe, mas como é difícil aprendermos a utilizá-la!

Pode ser uma suposição inexata a que faço, mas, vai precisar de um bom jogo de cintura qualquer um que busque ultrapassar aquelas determinações imbecilizantes e paralisantes que baseiam a vida daqueles que têm medo de tentar, buscar e descobrir motivos e razões antes de, efetivamente, adotar um pensamento ou uma prática.

Tudo bem, a experiência ancestral que nos foi transmitida por meio de costumes e práticas (ou mesmo a genética) tem um impacto grande em nossas construções de valores e com eles os modos de nos conectarmos a determinados grupos sociais e à sociedade como um todo. De forma alguma quero propor um abandono dessa herança.

Desde aqueles pequenos cuidados com a saúde como um chazinho, a canja, a maravilhosa combinação do feijão com arroz brasileira e tantas outras, até a legislação que nos rege o convívio social, foram séculos de aprendizado do tipo prático que só agora recebem atenção das ciências e comprovação oficial.

Mas, e com muito cuidado expresso isso, aquele aprendizado poderia ser outro em outro contexto. E, com os instrumentos que dispomos atualmente, cada um de nós - e não apenas os cientistas - pode fazer suas próprias inferências, descobertas e, especialmente, reavaliações.

Por exemplo, a lógica que possuíamos de enviar mensagens é clássica: papel, caneta ou máquina de datilografar, envelope, selo e Correios, prazo de chegada e prazo de retorno da mensagem. Tudo transformado com o telefone e as mensagens eletrônicas (famosos e-mails, no inglês). É impensável para a nova geração a lógica simples que existia. E com razão: diante de instrumentos novos devem surgir práticas novas.

Por que, então, não somos capazes de nos atualizarmos em tantos outros aspectos? Por que a contextualização não faz parte de nossa vida? Por que aquela velha e querida ranzinza não cede lugar às novidades, às invenções, às transformações?

Tudo bem. E vou concordar completamente com aqueles que pensaram que é preciso avaliar todo e qualquer novo comportamento, o novo em si não é sempre o melhor.

O melhor exemplo que encontro é com relação aos produtos descartáveis e os com obsolescência programada (data de validade). Se antes, um eletrodoméstico durava a vida do seu comprador, isso mudou muito. As lâmpadas duravam séculos, hoje, se muito, um ano. Antes um produto que apresentava defeito era consertado, hoje há o estímulo para comprar o novo e descartar o com problemas.

Certamente essa mentalidade nova nos trouxe questões a serem avaliadas - entre elas, uma bem importante, a dos relacionamentos.

Mas, como tudo que é novo, é necessário um tempo de adaptação, de descoberta da melhor forma de uso e da utilização consciente.

E é aí, que os que desenvolvem em si uma preguiça mental, emocional e até espiritual, se atém ao passado, ao já determinado e o transforma em fixidez, esquecendo que ele foi fruto de mudanças.

Bem, eu comecei pedindo para você pensar em uma história sem fim, não foi? Pois é. Essa é a sua história. E é o seu encontro com a vida e sua participação nas redes de interconexão deste mundo que pode fazer dessa história algo pobre e chato ou algo rico onde cada episódio é capaz de produzir uma imensa vontade de ir adiante e de descortinar os horizontes que trará o capítulo seguinte.

Repito, e dessa vez com uma ternura que poucas vezes possuo, tome a sua vida nas suas mãos com carinho, aceite o desafio de refazer-se diariamente, construa algo novo que fique como uma marca sua para quem vier junto ou depois. Todos precisamos ir ao encontro de nossa própria plenitude como ser. Para alguns que acreditam de uma determinada forma eu diria: um guerreiro que alcança estatura da perfeição.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 16 de junho de 2013.

Sabe aquela vontade que dá de apreciar um bom vinho, saboreando os detalhes de uma boa massa? Não permita a velha e horrível máxima 'vontade é coisa que dá e passa'.

23 de mai. de 2013

Egometria

Egometria, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 23/05/2013
Egometria, criado em 23/05/2013.

Um guerreiro aceita seu destino, seja qual for, e o aceita na mais total humildade.
Aceita com humildade aquilo que ele é, não como fonte de pesar, mas com um desafio vivo.
É preciso tempo para cada um de nós compreender esse ponto e vivê-lo plenamente.
Eu, por exemplo, detestava a simples menção da palavra humildade.
Sou índio e nós índios sempre fomos humildes e nunca fizemos outra coisa senão curvar a cabeça.
Pensei que a humildade não fazia parte da vida de um guerreiro.
Mas estava enganado! Hoje sei que a humildade de um guerreiro não é a humildade de um mendigo.
O guerreiro não curva a cabeça para ninguém, mas ao mesmo tempo não permite que pessoa alguma curve a cabeça para ele.
O mendigo, ao contrário, prostra-se de joelhos por qualquer coisa e lambe as botas de quem quer que ele considere superior;
mas, ao mesmo tempo, exige que alguém que lhe seja inferior lhe lamba as botas.

(Porta para o infinito - Carlos Castaneda)

A questão da superioridade é algo que permeia os conceitos do cotidiano de nossa sociedade. Aprendemos muito cedo na vida que devemos respeitar e aceitar sem questionar as determinações daqueles que estão no comando. Em nenhum momento, a avaliar como surgiu esse comando ou como passaram a ocupar essa posição os seus detentores. Restos de nosso recente passado militar ditatorial. Mas todos sabem que os sujeitos do domínio econômico têm produzido as condições favoráveis para que seus comparsas sejam eleitos e os retribuam com favorecimentos e enriquecimentos.

Nós brasileiros (estrangeiros, também) sabemos que o poder é ocupado - na maioria das vezes - por quem se resigna aos ditames de alguns endinheirados. Sua posição é algo frágil, sustentada por escusas trocas de favores. Então, para que o respeito?

Nossa forma de educar não privilegia as diferenças e o entendimento das consequências dela. Se assim o fosse, diríamos para cada criança, no momento de sua descoberta: veja o quanto você já aprendeu e como é capaz de decidir e agir. Continue assim e conquiste as suas oportunidades para realizar os seus desejos. Não. Não é assim que, nem mesmo aqueles que se dispõem a tal projeto educativo, o fazem.

Não somos ensinados a entender nem a ensinar que a maturidade ou a experiência é um estado possível de ser alcançado e, sim, a querer obter status social.

Vestimos nossas crianças com roupas que as adultizam e achamos normal. Elas precisam parecer e agir como celebridades. Alguém já viu alguém ensinando que ocupar uma posição social é algo que para algumas pessoas é importante - outras desejam outras coisas que também são dignas e valorozas?

Nosso método de valorizar posições é definido pelo conjunto de referências sociais da riqueza: a aparência diz quem se é; esquecemos de valorizar o ser e maximizamos o valor do ter; potencializamos práticas que extinguem a expressão individual, os sonhos pessoais em prol do valor do contracheque; legitimamos o valor absurdo de determinados produtos, nos tornamos painéis ambulantes de algumas marcas; vamos aos lugares onde a comida só prejudica a nossa saúde por que está na televisão e repetimos os jargões preconceituosos das telenovelas.

E os privilegiados, que geram filhos também já privilegiados, são legitimados no poder e todos dizem Amém!

Wellington de Oliveira Teixeira, em 25 de maio de 2013.

As manipulações por parte de alguns políticos de base religiosa sobre incautos é algo que assusta. Sentem-se tão confortáveis com o poder, e nem se preocupam se são, também, apenas um joguete nas mãos dos controladores do mundo, desde que possam tirar um pouco o seu quinhão.
Ah! se Jesus passasse por aqui para expulsá-los do templo (- e quem sabe do Congresso!).

22 de out. de 2012

Desencontros

Desencontro, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 17/10/2012
Desencontro, criado em 17/10/2012

A vida é a arte do encontro, embora haja tantos desencontros nesta vida.
(Vinícius de Moraes)

Boa parte das pessoas cresce acreditando que a vida será algo que a fará feliz, completa, realizada. E em realização e completude incluem formação acadêmica, condições de vida que permitam uma boa e bela moradia, vestimenta ao seu gosto, diversão nas festas com os amigos e nas happy hours, após o trabalho em um bom emprego.

Não conheço ninguém que não se considera uma boa pessoa e, por isso, não mereça essas coisas e mais um encontro amoroso que lhe propicie um relacionamento que satisfaça a alma e o corpo.

Mas a razão diz que, como em quase tudo, apenas uma fração muito pequena da população alcança tais condições de vida e se sente realizada.

Dentre milhões de razões possíveis, uma me confunde e me provoca o questionamento: o desencontro.

Sabe aquela cantora, que você crê que alcançou tudo ao tornar-se famosa, que se destrói com as bebidas? Sabe aquele dono de empresa que acaba envolvido em escândalos e crimes? Sabe aquele jogador de futebol que se tornou ídolo internacional e agora é encontrado sempre drogado? Sabe aquele menino pobre que sonhava ser ator e quando conseguiu não conseguiu lidar com a fama em sua vida?

Casos como esses em que tudo parece ter conspirado para que a plenitude fosse alcançada destoam da realidade que é produzida depois.

Em que momento a força dos encontros que fortaleciam se desfez e as conexões perderam sua capacidade de unir?

Em que ponto do processo o desejo de ir a frente, de conquistar ficou estagnado? Em quanto tempo aquele dinheiro que iria resolver todos os problemas deixou claro que ele não era a solução esperada? Quando o relacionamento em que se apostara deixou de injetar aquela adrenalina, aquela endorfina, aquele nervosismo e aquele não sair da cabeça o dia inteiro?

O sofrimento tem sido mais que uma constante na vida de tantas pessoas e tem causado tanto estrago que não há como não ficar impressionado.

A questão que me faço é: em que as pessoas estão fazendo a aposta de sua vida? Digo isso porque vejo as pessoas jogarem com a sorte, se jogarem para qualquer um, esquecerem sua identidade na busca de imitar os que considera bem-sucedidos, repetindo jargões televisivos e incapazes de ter atitudes críticas, avaliações críticas, pensamentos e não repetições de frases feitas ou algum aforisma encantador.

Esses desencontros que separam as pessoas de si mesmas é algo que me surpreende e me assusta. Diante do possível, uma aceitação subserviente que não deseja o ultrapassamento. Diante do necessário, a incapacidade de superação e da busca de renovação.

Toda vez que vejo um bom filme (que bom que eles ainda existem!) me proponho uma absorção dos fluxos racionais e emocionais: uma reflexão cuidadosa que inclua os sentimentos que me atravessaram.

Dessa vez, um filme japonês (Mei shao nian zhi lian ou Bishōnen*), com legendas em inglês que faz um cruzamento entre as experiências de vida de jovens prostitutos, alguns dos motivos que os levaram a seguir esse caminho e a questão que surge quando um deles, inadvertidamente, se apaixona e tenta mudar sua forma de ser e viver.

Creio que desencontro é uma palavra que descreve bem muitas das questões a que somos confrontados durante o nosso percorrer aquela estrada que nos levaria à plenitude e à felicidade. Mas, estou certo disso, ainda não consegui que o seu significado ficasse claro para mim.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 22 de outubro de 2012.


Bishōnen (美少年?) é um termo japonês cujo significado literal é belo jovem (garoto). Descreve uma estética da cultura pop japonesa: um jovem homem cuja beleza (e sedução) transcende os seus limites de gênero e orientação sexual, algo popularizado pelas bandas de glam rock da década de 1970, embora também tenha raízes na antiga literatura japonesa, nos ideais homossociais e homoeróticos das cortes e dos intelectuais da China Imperial, e nos conceitos estéticos indianos que foram passados do hinduísmo, importados pelo budismo à China. http://pt.wikipedia.org/wiki/Bish%C5%8Dnen

5 de mar. de 2012

Reconstruindo percepções


Língua de águas, criado em em 16/01/2008


Caro Amigo*,

Nesse período de tempo de nosso convívio, aconteceu de haver continuidade de pensamentos e sentimentos. E tentei produzir, desse novo momento, o jogo de palavras que pudessem expressar o que aconteceu entre nós.

Palavras são apenas instrumentos. Nós fazemos uso, e devemos cuidar delas, principalmente por que são um excelente meio de construção de si mesmo – o que projeto, mesmo que parcialmente, me representa de modo que me espelho e nos vejo.

Caminhos se produzem e são produzidos em si mesmos.

Cai na PAz!


Está chovendo. Gotas mais que gostosas de uma cachoeira sobre um corpo que, apesar de antes não se deixar umedecer e refrescar-se por medo da força da queda d'água, ousou tentar.

Uma, duas, três vezes e percebeu que era mais o frio posterior do que o toque da água que provocava aquela sensação de ter que sair logo. Num outro momento se assustou e se afastou: descobriu que a água pode ser rasa e frágil ou caudalosa e destruidora.

E, agora o tempo passado, retornou o desejo de tentar, experimentar aquela incrível sensação do novo, do refrigério da alma, do sentir-se amado e tocado pela fluidez — mágica é a palavra para descrevê-la.

E veio, vindo aos poucos, ao encontro do reencontro consigo. Como seria? Como reagiria? O que permitiria? O que ousaria?

E aconteceu que a água não estava mais caudalosa: corria e caia com suavidade e não era invasiva.

Os poucos toques só trouxeram paz e a capacidade para saber que a força voltara a fluir: o magnetismo entrou em ação para vir trazendo do universo as pequenas peças de encaixe que recomeçaram a completar o grande quebra-cabeça do primeiro encontro.

Os antigos pontos de afluência se ativaram, os pontos de aglutinação se reacenderam trazendo consigo percepções bem leves e estruturando um novo campo de forças - e um pouco da antiga temerosidade pelos rumos dos acontecimentos.

Mas a água trouxe o relaxamento, a paz, e seguiu acessível sem deixar de seguir seu caminho. Mais que isso, a certeza de que era hora de mergulhar, sentir-se imerso em sua imensidão e aprender com seu mundo de transformações constantes.

Uma sombra de dúvida pairou ainda: há o preparo para sentir-se absorvido, entrar e deixar-se levar, para reinventar o modo de ser? É possível equilibrar dois modos de vida tão diferentes, sem se perder?

A lua cheia do alto do centro do planeta emitia um halo de luz ao seu redor e a pequena garoa que caía só fez realçar a beleza de sua aparição: equilíbrio no céu e, na terra, um sorriso teimava aparecer por causa da imensa paz no ser.

E eu sussurrei no seu ouvido palavras de amizade e amor e depois foi sua vez de ligar para eu saber que você fora capaz de ouvir, mesmo sem saber o quê.

Dormi e acordei pleno de vida.


Wellington de Oliveira Teixeira, em 15 de abril de 2006.

* Para Cµssa e Zé Henrique que me ensinaram um pouco mais da minha própria vida

30 de dez. de 2011

Arco-íris

Kundalini, criado em 27-12-2011

Se fosse fazer uma teoria sobre a vida, resumiria em poucas palavras: a vida se compõe de energia de amor e fé que fazem funcionar todos os entes dos mundos existentes ou ainda não e produz intercâmbio entre eles.
Wellington de Oliveira Teixeira

Um dia alguém me ensinou e eu quero honrar a herança deixada, honrar a sua disposição de espírito e honrar o seu espírito de doação.

Sinto saudades dos mestres que a vida me proporcionou e que seguiram por outra direção, na rota de seu destino, como Seres Pensantes que são.

Um deles, Celio, na época em que eu trabalhava na Reitoria da UFF, no intervalo do trabalho, após me ensinar os primórdios dos bancos de dados (no caso, o dbase - um software pré-histórico, para os dias de hoje), me convidou para ir ao Ponto Jovem da Miguel de Frias para lancharmos.

O que se seguiu foi uma experiência que guardo comigo, até hoje.

Em frente, a praia, o céu limpo, o sol radiante, poucos transeuntes, ele me apresentou um conceito da energia violeta.

Talvez seja melhor discorrer um pouco sobre faixas de energia, para esclarecer a questão, um pouco. Pois bem, as cores, como a conhecemos em sua faixa visível aos olhos humanos, nada mais são do que frequência energética dentro de um espectro limitado, com cores variando entre o branco, o amarelo, o vermelho, o azul e suas intermediárias e misturas em diferentes graus. Cada cor tem a sua medida mensurada. Na lista não incluí a ausência de cor, que chamamos de preto, mas incluí o branco, que é a soma de todas as cores.

Como iniciei o meu relato, por conta de um espetáculo da natureza, um maravilhoso arco-íris que se apresentou por alguns instantes, fui introduzido a uma questão complicada: as energias que todos os seres compartilham e como elas atravessam e entrelaçam tudo o que há.

O ponto de vista dele utilizava como ponto de partida o conceito da física, como narrei anteriormente, e seguia para um caminho um pouco menos perceptível e muito mais conceitual, isto é, tudo é energia. Questionava como seria possível deslizar entre as suas faixas, quais propriedades que determinada faixa representaria, que influências dentro do espectro visível da vida de cada um poderia apresentar.

Uma a uma, foi descrevendo, e me impressionando com a forma de raciocínio e as implicações que a sua lógica produzia em relação à vida cotidiana.

O grande momento, para mim, foi quando ele descreveu o que ele citou a energia violeta que chamou de kundalini**. O nome e o conceito, naquela época, me eram desconhecidos e os famosos chakras, ou núcleos de energia, que estão divididos num corpo, eram apenas vagas concepções da época em que havia lido O Manto amarelo e A Terceira Visão*, influenciado pelo pensamento holístico do meu tio Nagil Teixeira, que gostava de leituras carregadas de pensamentos orientais.

A energia de vida, que promovia equilíbrio e gerava uma interface entre os seres e podia ser acessada e utilizada para fins altruístas era uma forma de ver o mundo muito diferente do que eu havia aprendido nos bancos de uma igreja batista, aos domingos, mas nao distante demais ou incompatível com o meu entendimento sobre questões espirituais.

A apresentação dele foi tao importante que a partir daquele dia fui buscar novas formas de entender o mundo, novos modos de ler o que chamava de realidade. Tentei encontrar pessoas que possuíam visão diferenciada e mais trabalhada que a minha. Trabalhei novas ideias e passei a formular as minhas próprias teorias sobre a vida.

Hoje, posso dizer que me sinto muito mais seguro de mim e de minhas formas de pensamento, até mesmo mais feliz.

Então, ao terminar esse ano de 2011, nada mais justo que agradecer àqueles que se dedicam a buscar o conhecimento e a transmiti-los, mestres no verdadeiro sentido da palavra, educadores que transformam o mundo pela forma como propiciam a mudança na vida dos que os encontram.

A esses seres pensantes, minha gratidão, meu respeito e meu desejo que Caiam na Paz!

Wellington de Oliveira Teixeira, em 30 de dezembro de 2011.

* Livros de Lobsang Rampa de 1966 e 1956, respectivamente.
** Kundalini ou em sânscrito: कुंडलिनी, significa algo como "enrolada como uma cobra" ou "aquela que tem a forma de uma serpente", é a energia que transita entre os chakras, o poder espiritual primordial ou energia cósmica que jaz adormecida no centro de força situado próximo à base da coluna, e aos órgãos genitais.
É a energia do Universo em seu aspecto Purna-Shakti, total, como potencial, sendo o Prana-Shakti o aspecto biológico, ou fisico, como calor, eletricidade, etc. Conheça um resumo em http://pt.wikipedia.org/wiki/Kundalini

19 de dez. de 2011

Sugado

Cupido
Cupido dobrando seu arco*

Novo mundo - grande horizonte
Abra os olhos e veja que é verdade.
Novo mundo - do outro lado das assustadoras ondas azuis
(David Wilcox))

A dor, a saudade, a sensação de solidão, sentimentos partidos, a vontade imensa de rever. A lista pode prosseguir tão facilmente que assusta.

Sim, estou discorrendo sobre o término de um relacionamento. Talvez, após a perda considerada sem retorno, a forma de luto mais difícil para o ser humano enfrentar.

Claro que, como para tudo, há uma solução. Ou várias. Qual delas se aplicará e imprimirá a marca desejada para mente e coração voltarem a conviver em paz, e permitirá a liberdade do espírito que foi aprisionado?

Meu guri, sobrinho emprestado há muitos anos, está vivendo uma experiência assim. Ele acha que estou longe dele, que não o apoiei quando me enviou uma mensagem sms solicitando força.

E é aqui que a experiência de vida nos orienta a dar os passos. Envelhecer nos dá uma noção de espaço-tempo um pouco mais ampliada. Uma pequena elevação na qual subimos e avaliamos o campo abaixo: ambos os lados e o centro; distâncias e passos a serem dados, por qualquer dos lados; uma análise um pouco melhor do campo de forças existente.

Mas, não existe remédio para a dor, quando se acredita em falta. Pode colocar um F maiúsculo nela, pois é capaz de eliminar as conquistas, as forças absorvidas, os momentos felizes como um buraco negro das galáxias que retira toda a luz do seu redor como um campo magnético imenso puxando tudo para o seu interior faminto.

Meu menino está se sentindo assim: sugado.

Para ele, a questão está apenas ali. E ele não é diferente da maioria, nesse caso.

Mas essa frase anterior é apenas quase verdadeira, pois o meu guri é alguém extremamente diferenciado em suas práticas de vida. Escolheu caminhos que o fortaleceram como ser pensante, como ser social, como ser espiritual e que o encaminharam para um patamar de nível superior: a produção de sua vida influi diretamente na de muitos, sua energia se amplia e alcança mundos que são desconhecidos por ele, como certamente milhões de pessoas diriam se o tivessem conhecido e sabido dos investimentos que fez na ordem do desconhecido - aquela ordem em que a fé é suprema.

Mas é quase impossível para ele nesse momento ampliar seu olhar e aplicar a Visão (têm olhos, mas não vêem). Se o fizesse teria avaliado o momento como todos os outros vividos - nenhum é melhor ou pior do que outro - se o encarar como um desafio de vida. Desafio que ele buscou, ao seguir a meta do aperfeiçoamento.

Insensibilidade não é o que eu estou passando. Ao contrário, estou me empenhando em descobrir as formas de transmitir-lhe a forma dele mesmo obter energia extra que o fará conseguir ultrapassar não apenas esse momento, mas todo e quaisquer outros que venham ao seu encontro.

Como ser pensante que é, meu sobrinho não está passando pela vida: ele a vive intensamente. Intensidade essa que o atravessa agora e o potencializa para aprender com o campo dos encontros.

Silêncio pode ser uma grande arma para quem ama utilizar. Mas em outros momentos é preciso expressões manifestas. 'Vôe por todo o mar e volte aqui pro meu peito...' um trecho da música O Vento, do Jota Quest, em que a banda registra em poesia cantada essa questão é um exemplo de a dor gerando algo bonito que ultrapassa o momento e atinge milhões de pessoas, numa sequência exponencial.

A força que cada um possui depende de aonde é aplicada. Muitos demolidores aprenderam isso na prática. Viram o desafio gigantesco ruir aos seus pés, com aplicação nos pontos certos da carga explosiva que possuem. Tudo tem seu calcanhar de Aquiles. Basta avaliar e achá-lo.

Mas um processo assim não merece ser interrompido, nem mesmo atrapalhado com uma força externa. Estragaria o poder do aprendizado, a alegria da vitória e colocaria em outras mãos o troféu.

Sei disso e ajo da maneira que considero melhor. Um poderoso silêncio que carrega uma intenção inflexível de colaborar com a grande ordem do universo a fim de que todo o campo de energia ao redor dele colabore (algum tempo atrás ouvi a expressão 'conspirar' para isso) para que esse guerreiro saia do campo de batalha vitorioso e certo do aperfeiçoamento conquistado junto com a energia de vida que o potencializará para enfrentar os próximos desafios.

A você, meu querido Francis Lauer** (Santa Maria - RS), meus melhores pensamentos, sentimentos e ações.

Aguardo para ouvir, com alegria, a história de sua superação.

Meu abraço afetuoso e meu intento de que você Caia na PAz! (Amor e Entendimento!!!)

Wellington de Oliveira Teixeira, em 19 de dezembro de 2011.


* Cupido dobrando seu arco, cópia romana de um original grego atribuído a Lisipo, Musei Capitolini, Roma.

** Nos áureos tempos do mIRC (dinossauro das mensagens instantâneas, de hoje), participávamos de salas de bate-papo que discutia o mundo desconhecido, invisível, espiritual. E dele, naquela época apenas um gurizinho, recebi bons textos e pude compartilhar boas conversas. Até hoje não tivemos a oportunidade de um encontro pessoal, mas isso não impediu a grande amizade que se desenvolveu.

9 de out. de 2011

Se eu fosse escrever uma história de amor

História de amor, criado por História de amor, criado em 09/10/2011
História de amor, criado em 09/10/2011

Eu procuro um amor Que ainda não encontrei
Diferente de todos que amei...
Nos seus olhos quero descobrir Uma razão para viver
E as feridas dessa vida Eu quero esquecer...

Pode ser que eu a encontre Numa fila de cinema
Numa esquina Ou numa mesa de bar...

Procuro um amor Que seja bom prá mim
Vou procurar Eu vou até o fim...
E eu vou tratá-la bem Prá que ela não tenha medo
Quando começar a conhecer Os meus segredos...

Eu procuro um amor Uma razão para viver
E as feridas dessa vida Eu quero esquecer...
Pode ser que eu gagueje Sem saber o que falar
Mas eu disfarço E não saio sem ela de lá...

(Segredos - Frejat)


Se eu fosse escrever uma história de amor, eu não saberia iniciar e nem terminar.

É que eu creio que a gente nunca sabe quando o amor começa, quando a sua marca se torna indelével na alma e imprime seu toque ímpar, aquele que nos modifica para sempre. Momento tão distinto assim é algo que, de tão interessante, deveria ter uma placa de aviso afixada no caminho da vida. Tipo um aviso de estrada ou arco de entrada das cidades litorâneas do Rio de Janeiro.

A bem da verdade, acho até que, após algum tempo, ela aparece e fica exposta, mas não creio que seja no momento exato quando o amor chega, me parece que espera um tempo para confirmar a sua veracidade e só então se fixa.

Essa questão de veracidade tem a ver com a confusão que se faz entre um romance, uma paixão, um encontro casual ardente, que também deixam alguma marca, com esse sentimento e movimento interno que nos transtorna e, de vez em sempre, nos transforma.

Acredito, também, que o final de um romance é algo acontece. Pequenos romances podem ser como uma hospedaria ou hotel: local bom para ficar por algum tempo, mas não para se morar. É que, para mim, o amor se eterniza no local aonde fez morada algum dia. A impressão é que se a gente chega a dizer adeus, ele ignora e fica em stand by. É como uma casa de campo ou de praia que se visita apenas num período de férias ou feriado. Fica lá, esperando ser habitada uma outra vez. E como você sabe, é possível se ter mais de um tipo de moradia... e, para mim, de amor.

Algumas vezes, me divirto com a meninada de hoje, expondo a sua vida em redes sociais e comunicadores instantâneos. 'ALGUM-NOME, você é o amor da minha vida', 'ALGUM-NOME, vou te amar pra sempre'... e alguns dias depois, tudo de novo, mas o ALGUM-NOME é outro. Acontece assim. Início, meio e fim com duração imediata, quase instantânea, e fugaz.

Frejat fez uma divertida música*, com um toque de humor muito especial, e num trecho ele diz 'Homem não chora por dor nem por amor... Esse meu rosto vermelho, molhado, é só dos olhos pra fora. Todo mundo sabe que homem não chora.' Se eu fosse tentar encontrar um ponto aonde diria que o romance realmente acaba, diria que é exatamente aí, quando um homem faz isso que o Frejat canta [meu riso veio espontâneo aqui e foi tão legal que quis registrar].

Mas histórias de amor não são histórias comuns, não são histórias de romances, apesar de haver muito romance nelas. Não me aventuraria afirmar que sejam para todos, como para mim, eternas. Todos os meus amores moram comigo naquela moradia que citei acima. E, para a minha felicidade, apesar de sempre haver mais vagas, a minha casa está lotada: as últimas entradas foram de Miguel e Lucas, irmãos gêmeos, nascidos há cerca de oito meses, filhos dos meus afilhados Jaqueline e Felipe.

E realmente não sei quando começou, se foi antes do nascimento, se quando eu os peguei no colo e os abençoei, num outro momento de cuidado. Mas aconteceu. E, agora, é para sempre.

Um dia desses, após um período muito desafiador e sofrido para o Miguelzinho, que havia saído da UTI de um hospital por problemas no pulmão, fui com meus afilhados visitá-lo. Algo que vi, me marcará para sempre a história com ele. Ele sorriu e deu uma risada, do tipo gargalhada, linda, maravilhosa. Naquele momento eu percebi que o amor já havia se instalado. A placa se elevou e o arco ganhou nome.

Bem, como eu disse no início, contar história de amor para mim é complicado, pois não acredito que possa finalizar.

Um dia, há muito tempo atrás, me apaixonei por uma música** mas, por não gostar da tradução que fizeram para ela, me pus a trabalhar a imagem que ela me trazia, o seu contexto, a sua mensagem e, ao concluir sua tradução, entendi que o que nela estava escrito seria a marca registrada de minha vida. Fica então como uma espécie de substituto para o final...

O tempo de uma vida não basta para se viver uma amizade:
Amigos São Amigos Para Sempre!!!

Wellington de Oliveira Teixeira, em 1º de outubro de 2011.


* 'Homem não chora' (Frejat) você assiste em http://www.youtube.com/watch?v=fD93ALYXNNI&feature=related.
** Friends (Michael W. Smith) você assiste em http://www.youtube.com/watch?v=IbPKaIozS-c

13 de ago. de 2011

Golfinhos e afilhados


Golfinhos, pintura em parede feita por Wellington, Tiago e Tayane em 1995Golfinhos, pintura em parede em 1995.

Oh, pedaço de mim, Oh, metade afastada de mim
Leva o teu olhar
Que a saudade é o pior tormento, É pior do que o esquecimento
É pior do que se entrevar

Oh, pedaço de mim, Oh, metade exilada de mim
Leva os teus sinais
Que a saudade dói como um barco, Que aos poucos descreve um arco
E evita atracar no cais

Oh, pedaço de mim, Oh, metade arrancada de mim
Leva o vulto teu
Que a saudade é o revés de um parto, A saudade é arrumar o quarto
Do filho que já morreu

Oh, pedaço de mim, Oh, metade amputada de mim
Leva o que há de ti
Que a saudade dói latejada, É assim como uma fisgada
No membro que já perdi

Oh, pedaço de mim, Oh, metade adorada de mim
Leva os olhos meus
Que a saudade é o pior castigo, E eu não quero levar comigo
A mortalha do amor

Adeus.

(Pedaço de Mim - Chico Buarque)*


Histórias são para ser contadas, mesmo com tão poucos bons contadores de histórias.

Uma expressão de uso comum para designar mentirosos é Contador de história. Está implícito aí uma referência pejorativa, já que ninguém aguenta ficar ouvindo baboseiras. Daí outra boa expressão: meu ouvido não é pinico!

De vez em quando, a vida proporciona um encontro especial com uma pessoa, um texto, um filme, que apresenta uma boa história.

Gosto de classificar desse modo aquelas que nos divertem, nos emocionam, nos prendem a atenção e, com isso, nos ensinam. Àquelas que não têm público alvo e alcançam de crianças a adultos. As que permitem a simplificação para torná-las acessíveis a todos, independente do modo como foram escritas ou apresentadas.

Tenho observado que o exercício de contar histórias aperfeiçoa a capacidade de criá-las (isso vale também para os mentirosos, infelizmente!).

Um dos meus afilhados, Tiago, na semana passada completou 19 anos e resolveu fazer um projeto: pintar as paredes do seu quarto, para representar o seu mundo, hoje. E, para isso, me pediu uma contribuição: uma arte.

Tiago e sua irmã Tayane, quando tinham três e dois anos, respectivamente, adoravam momentos criativos. Leituras, pinturas, jogos, filmes, tudo era um bom pretexto para momentos de grande prazer e compartilhamento.

Um dia, a mãe deles propôs algo muito interessante, que logo prendeu a atenção dos dois: pintar a área de trás da casa que estava com uma pintura um pouco (talvez demais!) mal feita.

Seria uma atividade para todos e cada um poderia expressar-se como quisesse. Para iniciar, começou a criar flores na lateral de uma das paredes, numa espécie de moldura. Ao que eles, com olhos refletindo o brilho dos momentos de travessura, não demoraram a pegar pincéis, tintas e a começar a criar a sua arte.

Lembro-me de Tiago perguntar-me se eu pintaria. Ao que eu repliquei: você vai me ajudar? O riso e a felicidade dele foram suficientes para me incluir no projeto.

Lembro-me, também, que eu tinha assistido, algum tempo antes, o filme Imensidão Azul**. Inspirado nele, fiz uma área retangular e deixei que meus afilhados pintassem de várias tonalidades de azul, colocando alternadamente, cada um em meu colo. Por fim, incluí os dois do modo como achei que deveriam ser naquele momento: dois golfinhos brincalhões, com um mundo de águas ao seu redor para se divertirem.

Contei para o Tiago a história dessa aventura e daqueles momentos de sua infância. Nesse instante, percebi que a magia daquele momento foi revisitada e reacendida, em ambos.

Sem sombra de dúvidas, uma boa história torna-se atemporal e possui a capacidade de avivar em nós o valor da vida e dos sentimentos mais plenos que somos capacidades de vivenciar.

Ao término de nossa conversa, pensei 'é hora de imaginar o que irei desenhar dessa vez'. Afinal de contas, meu afilhado já é um homem com experiências próprias e merece algo que reflita tudo o que já conquistamos.

Depois, com um sorriso bem maroto surgindo em meus lábios, desejei para ele muitas histórias como essa para contar para o mundo.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 13 de agosto de 2011.


* No caminho para o aeroporto Santos Dummont, eu e o Tiago fomos conversando sobre os monstros sagrados da música e seu valor na atualidade. Um dos nomes avaliados foi o de Chico Buarque.
** Le grand bleu, dirigido por Luc Besson. O filme contava a história de Jacques Mayol, conhecido como "homem-golfinho" (http://pt.wikipedia.org/wiki/Jacques_Mayol).

26 de jul. de 2011

Os pequenos fundamentos da vida

Enfrentando o fantasma, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 25/07/2011Enfrentando o fantasma, criado em 25/07/2011.

A duração de uma vida não é suficiente para se viver uma amizade.
Amigos São Amigos Pra Sempre!
(Friends - Michael W. Smith)

A construção de jovens que queiram agir com correção em relação a sustentabilidade passa por um aprendizado.

Só terá a clareza para avaliar possíveis questões socioambientais os que tiverem em sua história aquele instante mágico em que fica paralisado diante das expressões naturais: da graciosidade simultanea à ferocidade do movimento de um jaguar; da engenhosidade do tecido das teias das aranhas; da intricada geometria e engenharia das casas de abelha; da força brutal das erupções vulcânicas, dos tsunamis, dos tremores de terra; e da delicadeza do magnetismo da aurora boreal. E, no caso humano, dos pequenos gestos de um bebê ao processo de crescimento e maturação do corpo, alma e espírito.

É preciso ensinar que a beleza se encontra nos olhos de quem vê, mas a natureza é pródiga em criar possibilidades de encantamento que podem ser diferentes para cada um, mas no todo, é universal. Todos possuímos a sensibilidade para tal e todos somos atingidos por seus eventos.

É preciso alertar para o lado obscuro, que nós humanos possuímos, capaz de engendrar no interior do ser um vilão ou um herói, dependendo de como for trabalhado.

É preciso amar incondicionalmente a vida, em todas as suas formas, e estar pronto a pequenos sacrifícios para que ela prospere e possa retribuir prodigamente, como é natural a todo amor.

É preciso aglutinar campos energéticos que atraiam outros seres e permitam o compartilhamento sem a deleção das individualidades, a não ser naqueles momentos onde o amor funde as pessoas em uma e em que não sabemos distinguir-nos de um outro.

É preciso acreditar na capacidade de transformação e de superação que todos nós possuímos e precisamos usar dia após dia.

É preciso mostrar com atos e atitudes que um ser pensante é aquele que entende isso, e busca ser pleno em tudo que faz, não para provar nada para ninguém, mas para afirmar que é possível e que vale a pena.

É preciso apostar que a vida é maior, o amor é maior, e que não custa tentar e apostar naquele pequeno grão de fé que existe em todos nós, naquele pequeno grão de mostarda...

Descobri, no meu aprendizado, que a família com que me acerquei - os nascidos parentalmente e os anexados e adicionados por afinidade ou diversidade - foi de fundamental importância para que o solo da minha vida pudesse frutificar.

Descobri na amizade uma força estruturadora de uma eficácia incrível, um suporte magnífico contra as grandes forças devastadoras do ódio, do desamor, da intolerância, do sofrimento e da dor.

Descobri na fé e na esperança o poder de ir adiante. Mas foi no amor que tive a maior revelação: podemos ser melhores do que somos, por nós mesmos, quando incluímos alguém dentro de nós, a partir da partícula divina, pois descobri que o melhor nome para Deus é amor.

E, felizmente, consegui entender que cada um tem seu próprio processo de descobertas e de aprendizados. Mais que isso, um tempo próprio para a absorção da amplitude do que conquistou, até que possa por em prática em sua vida. Por isso, disse no início desta postagem, que 'a construção de jovens que queiram agir com correção em relação a sustentabilidade passa por um aprendizado', que agora complemento: primeiramente nosso para que haja o do outro.**


Wellington de Oliveira Teixeira, em 26 de julho de 2011.


* Esse texto eu escrevi para me lembrar - em qualquer momento difícil no futuro - que vale a pena ser e estar nesse mundinho chamado Terra.
** Acrescentei esse parágrafo no dia 28 de julho, pois o texto me pareceu incompleto por não mostrar que o processo de aprendizado não é de mão única.