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3 de out. de 2015

Motivação para a destruição de ícones

Iconoclastia, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 03-10-2015.
Iconoclastia, criado em 03-10-2015.

Iconofilia
sentimento que promove a construção de imagens como protótipos referenciais ou adoração.
Iconoclastia
a arte de desconstruir ou destruir imagens iconográficas ou reputações.

Durante séculos, nossos ancestrais produziram ícones, imagens com representações físicas de conceitos ou sentimentos de uma pessoa ou grupo. Esses elementos de coesão social foram deificados e adorados. Seu imenso número revelava a diversidade de pensamentos e referenciava um determinado povo.

Com a ascensão do cristianismo e a política romana de aproximação deste com judaísmo visando maior controle social no Império, houve certa redução no uso de imagens. Só que o imperador bizantino Leão III iniciou o processo visando a imposição de um modo único de cultuar com a destruição irrestrita de mosaicos, afrescos, estátuas de santos, pinturas, ornamentos nos altares de igrejas, livros com gravuras e inumeráveis obras de arte. Só no Segundo Concílio de Niceia, os iconoclastas foram excomungados.

O entendimento dessa forma de atuação pode ser ampliado. É que o processo pode ser associado a uma produção social de desconstrução de figuras representativas, heróis, modelos. A nova iconoclastia* tem que processos que visam:
  • desfazer os referenciais impostos durante períodos político militar ditatoriais;
  • a desvalorização de uma empresa objetivando ter controle financeiro ou compra a preço reduzido;
  • o desgaste com objetivos político eleitorais;
  • gerar um repúdio a grupos minoritários;
  • criar condições de adoção de práticas anteriormente inaceitáveis.
Atualmente, em diversos lugares do mundo esse novo nível de ação se repete, na proporção da expansão do fundamentalismo. Ataques a elementos iconográficos de valor histórico inestimável se sucedem, motivados por intolerância. São catedrais, museus e tudo o mais que carregue um diferencial em relação ao modo que se quer determinar como o correto.

Há um diferencial importante entre propagar uma ideia, defendê-la, buscar adesões e agir contra quem pensa diferente. Religiões sempre buscaram neófitos via pregação de seus princípios. Quando isso é feito respeitando a vontade de pessoas que não pensam da mesma forma e não adotam seu modo de pensar, é gerado um ambiente harmonioso e inclusive propício para mudanças de pensamento e práticas. Quando a imposição toma a frente, nada de bom ocorre. Quem não aprende com a História e suas lições, incorre nos mesmos erros — ou acerto, segundo os armamentistas — que aqueles que há milênios geram guerras e mortes sobre a face da terra.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 03 de outubro de 2015.

* Quando um povo não é estimulado a desenvolver um pensamento crítico, seja por falta de estímulos educacionais ou por imposição de regimes autoritários, geralmente ocorre um processo de apropriação sociocultural. Nele, a desconstrução de valores locais é prioridade, do contrário, haverá resistência aos novos modos de pensar e agir que se quer implantar.
O Brasil vive um momento sui generis em sua história, forças de direita e esquerda num embate ferrenho tentam defender e propagar seus ideais e valores. A grande questão que se apresenta é que a mídia hegemônica no país tem seu lado e se posiciona diferenciadamente em relação aos fatos:
— encobrimento, silêncio, criação de elementos de distração quando lhe convém, isto é, quando os problemas são relacionados aos seus aliados.
— estardalhaço, manipulação da verdade, ampliação indevida do problema, quando se relaciona aos adversários.
Esse procedimento, vindo de veículos informativos importantes desqualifica a imprensa nacional e implica na necessidade de um estatuto que democratize as comunicações e impeça esse domínio por parte de apenas seis famílias.

28 de jul. de 2015

A nova onda de monstrualização

Onda de monstrualização, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 27-07-2015.
Onda de monstrualização, criado em 27-07-2015.

O relacionamento entre jornais e leitores, internautas, ouvintes ou telespectadores é encarado […] como um tipo especial de história que faz uso de outra, apresentada na forma de unidade noticiosa, com clara função ideológica e persuasiva.
(Nilton Hernandes – A mídia e seus truques: o que o jornal, revista, TV, rádio e internet fazem para captar e manter a atenção do público, p. 39)
hegemonia
O que é: Supremacia, Autoridade soberana.
O que faz: Influência preponderante (liderança, predominância ou superioridade) sobre cidade, povo, país ou pessoas.
Métodos: Aculturação (introdução ostensiva de determinada cultura e visão de mundo) e/ou Militarização.
A Onda (*) é um filme que demonstra a capacidade de monstrualização humana, esse processo de diferenciação negativa do outro, quem quer que seja, por meio de um discurso hegemônico, uma única e inalterável verdade no campo das coisas e das relações pessoais.

Muitos indicam ser apenas fruto de intolerância religiosa. Mas, originariamente, as religiões ocidentais não pregam a destruição alheia e gratuita; dentre as práticas filosófico-religiosas orientais, a questão do equilíbrio me parece ser a tônica. De onde surge, então, tais movimentos? Como as pessoas são cooptadas por eles?

Nas aulas de filosofia conheci o pensador Michel Foucault, que alertava que qualquer acontecimento possui o discurso simultaneamente como um elemento e um dispositivo estratégico de relações de poder. Para ele, a manipulação social não é fortuita, tem alvo específico e há vários níveis de poder operando por meio dela. Pierre Bordieu é um pensador que avaliou a política de percepção cognitiva, a constituição da percepção de mundo por informação e orientação: educar corpo e mente visando obliterar questionamentos e encaminhar para uma determinada direção política.

Em comum, mostravam os processos que constroem os monstros a serem combatidos e a cruzada contra eles. No Brasil atual, ocuparam essa posição os comunistas, os esquerdistas, os gayzistas e quaisquer outros ativistas, especialmente os de Direitos humanos.

Uma vez infiltrados pelos discursos, é recorrente a negação de fatos históricos - até mesmo os recentes — pela multidão. Foca-se na desqualificação como base da estratégia malévola dos discursos de ódio contra qualquer pessoa com um desejo genuíno de uma sociedade mais igualitária e desejosa de políticas de redução das desigualdades sociais. É inadmissível questionar que uma ínfima camada de extremamente ricos gerem uma imensidão de miseráveis.

Criou-se uma Nova Onda. Cooptados inicialmente para a frente do ataque, os religiosos já tinham sido insuflados com o medo de igrejas fechadas e perseguição aos cristãos — pregados nos púlpitos por líderes religiosos inescrupulosos — desde a época da campanha visando colocar Collor na presidência da República.

A construção de simulacros — por meio de artigos e editoriais de revistas e do jornalismo televisivo— criou os salvadores da pátria, os paladinos da justiça, os incorruptíveis. Estes mesmos, comprovadamente corruptos, foram alvo do endeusamento manipulativo dessas publicações. Se em período eleitoral praticamente todas as matérias de capa da revista Veja eram exemplos, agora a questão é ininterrupta. Quem ganha e quem perde com isso?

De uma coisa tenho certeza:
  • os dóceis-manipuláveis cordeiros estão indo para o matadouro sorrindo, mesmo agindo absolutamente de forma contrária ao que professavam anteriormente;
  • Os politicamente-agora-inativos, desistiram da busca por justiça social porque desiludidos com a realidade que sempre souberam existir: o ser humano é altamente corruptível;
  • As camadas mais alienadas da sociedade, minorias e miseráveis, se deparam com a mais férrea onda antagonista que já tiveram conhecimento.
Culpabilizados, injuriados, agredidos e assassinados, quem se opõe à nova onda é alvo da mais nova monstrualização, da manipulação perpetrada pelo poder financeiro, político e midiático que quer recuperar sua hegemonia, fragilizada nesses últimos anos.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 28 de julho de 2015.

* A Onda, dirigido por Dennis Gansel, é um filme alemão de 2008 que teve como inspiração o livro de mesmo nome de Todd Strasser e o experimento social da Terceira Onda.
Num curso sobre autocracia de apenas uma semana, o professor encara uma turma composta por alunos da terceira geração após a Segunda Guerra Mundial. Diante da incredulidade destes num ressurgimento da ditadura na Alemanha moderna, é iniciado um experimento que demonstra a facilidade da manipulação das massas.
Inicialmente, os alunos passaram a chamar o professor de Senhor Wenger e ficaram dispostos em carteiras para duas pessoas de frente para ele e ocupadas por estudante com baixa e outro com alta média escolar: deverão aprender com o outro, tornando-se um só. Qualquer fala deverá ser feita em pé e em frases curtas. Uma marcha em perfeita sincronia rítmica visa produzir a sensação de unicidade e incomodar a turma de anarquismo, no andar abaixo.
Por sugestão do professor, o grupo uniformiza as roupas (camisa branca e calças jeans) evitando distinções. Uma aluna reluta a adotá-lo, afirmando que uniformes acabam com a individualidade; outra comparece no dia seguinte sem uma camisa branca e percebe ser a única a não aderir ao uniforme.
Por sugestão dos próprios alunos, o grupo ganha o nome A Onda, uma forma de saudação (braço direito em frente ao peito), e um símbolo que, em forma de adesivos e pichações, alcança toda a cidade, inclusive a fachada da prefeitura.
As alterações nos comportamentos tornam-se visíveis. Um valentão protege o colega de alguns anarquistas brigões. As festas tornam-se exclusivas para membros d'A Onda, onde não-iniciados são hostilizados. Um dos alunos que era um excluído anteriormente adota completamente a ideia, queima suas roupas de marca e se oferece para ser guarda-costas do professor, que o convida para jantar. Sua esposa, professora na mesma escola, questiona o experimento por ter ido longe demais mas ele a acusa de inveja do seu sucesso com os alunos, gerando a separação do casal.
Surge uma oposição à Onda, irritando seus membros, que buscam um modo de eliminá-la. Num jogo de polo aquático, um dos membros d'A Onda briga com um oponente e a partida é cancelada. Ao mesmo tempo, inicia-se uma briga entre os torcedores. Na confusão, panfletos anti-Onda são distribuídos no meio das torcidas.
Em outra discussão, o causador da briga esportiva agride a namorada. Percebendo o que fez, vai a casa do professor e pede que ele acabe com A Onda. Este convoca uma assembléia com o grupo no auditório da escola.
A portas trancadas ele discursa, exaltando as atuações do grupo e as chances do movimento mudar os rumos da Alemanha. Ao receber um protesto, acusa de traição quem o fez e indicando uma punição. A seguir leva os alunos a perceber o quanto estavam sendo manipulados, mesmo crendo inicialmente que um regime como o Nazismo jamais teria lugar novamente, no país.
Ao declarar o fim d'A Onda, o aluno que desejava ser segurança do professor saca um revólver por medo de se isolar novamente. Alguém, crendo haver nela balas de festim, tenta retirar-lhe a arma e é ferido. Descontrolado, percebendo o erro que cometeu e o fim dA Onda, se suicida perante os estudantes traumatizados. O professor é preso, diante dos alunos, pais e outros professores.

A semiótica é uma teoria do texto que busca analisar os sentidos e a construção dos efeitos de sentido. Neste texto, as referências usadas para avaliar o percurso persuasivo de construção de sentidos e os 'efeitos de sentido' foram:
Pierre BOURDIEU: Meditações Pascalianas, de 2001.
Michel FOUCAULT: 1) Estratégia, poder-saber, de 2006; 2) Vigiar e punir: história da violência nas prisões, de 1987.
Antonio GRAMSCI usa a palavra hegemonia para descrever o tipo de dominação ideológica de uma classe social sobre outra, destacando a da burguesia sobre o proletariado e outras classes de trabalhadores. Para Todd Gitlin, a noção de cultura de Gramsci chama atenção para as estruturas rotineiras do 'senso comum', que funciona como sustentáculo para dominação de classe e tirania.

26 de jul. de 2015

Enrijecidos, congelados e inertes

Enrijecidos, congelados e inertes, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 26-07-2015.
Enrijecidos, congelados e inertes, criado em 26-07-2015.

* Um trecho da bíblia que me encanta são os pensamentos filosóficos em forma de ensino dos provérbios. O poema abaixo, insiste na necessidade de buscar sabedoria e equilíbrio:
A sabedoria está clamando, o discernimento ergue a sua voz
nos lugares altos, junto ao caminho, nos cruzamentos ela se coloca;
ao lado das portas, à entrada da cidade, portas adentro, ela clama em alta voz:
"A vocês, homens, eu clamo; a todos levanto a minha voz.
Vocês, inexperientes, adquiram a prudência; e vocês, tolos, tenham bom senso.
Ouçam, pois tenho coisas importantes para dizer; os meus lábios falarão do que é certo.
Minha boca fala a verdade, pois a maldade causa repulsa aos meus lábios[…]".

(Provérbios 8:1-7)
Arrogância seria dizer que sou o único a identificar os vetores que visam o esfacelamento de qualquer projeto cujo núcleo a solidariedade é fundamental. O imenso tempo de discursos de superioridade enrijeceu os corações, congelou sentimentos e justificou seu rastro de miséria e incompreensão na humanidade: preconceitos, explorações e guerras.

O poder do antagonismo internamente produzido não deve ser minimizado, muito menos subestimado. Um corpo social que aceita pacificamente a barbárie certamente é um dos maiores feitos de um sistema que perverte as capacidades da alma: assistimos humilhações, matanças, massacres e destruições reais como se fossem filmes hollywoodianos de ação.

Para viabilizar a conglomerados financeiros o acesso e a conquista das reservas e bens de um país e ampliarem seus lucros estratosféricos:
  • insufla-se o medo do terrorismo ou perseguições.
  • Manipula-se o mercado de ações para obter o controle de empresas, o enriquecimento de uma parcela mínima da população e a ampliação da miséria.
  • Utilizam-se de profissionais inescrupulosos para falsificar resultados de pesquisas e assim justificar novas práticas, mais um remédio, outro agrotóxico e mais um agente poluente e cancerígeno.
Enquanto isso, mantidos enrijecidos, congelados, inertes, nos tornamos marionetes que repetem exaustivamente o discurso comprado por ninharia, e despejado diariamente em nossos lares. A escama que foi posta em nossos olhos desfoca a realidade. Parabenizamos nossos opressores, os que geraram esse desnível de condições sociais, os condecoramos com prêmios, desejamos ardentemente imitá-los.

Me regozijo quando avalio o novo perfil desenvolvimentista do Nordeste brasileiro, fruto do cooperativismo, da agricultura familiar, dos artesanatos populares e indígenas; que espalham pelo mundo nossas tradições mais básicas, não mais as europeias ou americanizadas. Simultaneamente, sofro com a produção cooperada da miséria na África, que se tornou o útil foco de testes farmacêuticos - cobaias fáceis; os diamantes do sangue de milhões derramados por pré pubescentes armados adornam corpos produzidos por cirurgiões e estilistas. Sou um ser humano, um cidadão do mundo.

Ancestrais perguntas tentam irromper das profundezas desse marasmo visando romper e derreter essa camada de proteção a que precisamos recorrer e nos submeter. A principal, "Onde estão as vozes que clamam por justiça?".

Em meio a essa loucura, os pacificadores, aqueles que levam os discursos de perdão, de ajuda — os verdadeiramente humanitários — viraram motivo de chacota. A frase 'direitos humanos para humanos direitos' é a falsificação máxima de uma religiosidade que em seu cerne aponta que nem um há, dentre os homens que pode ocupar essa posição; que, sem exceção, todos precisam de remissão. Qualificar apenas alguns como dignos, em prol da perpetuação do poder, sempre foi uma prática no mundo político religioso, mas vivenciamos uma lavagem cerebral sem precedentes que cauterizou as consciências*. Para mim, este, sim, é o caminho para o fim da humanidade.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 26 de julho de 2015.

O Espírito diz claramente que nos últimos tempos alguns abandonarão a fé e seguirão espíritos enganadores e doutrinas de demônios. Tais ensinamentos vêm de homens hipócritas e mentirosos, que têm a consciência cauterizada […].
Pois tudo o que Deus criou é bom, e nada deve ser rejeitado, se for recebido com ação de graças, pois é santificado pela palavra de Deus e pela oração. Se você transmitir essas instruções aos irmãos, será um bom ministro de Cristo Jesus, nutrido com as verdades da fé e da boa doutrina que tem seguido.

(Bíblia — trecho de 1 Timóteo 4)

17 de jul. de 2015

A linda imagem da podridão

Sarcófagos criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 16-07-2015.
Sarcófagos*, criado em 16-07-2015.

Jesus falou: Todas as coisas que vos disserem que observeis, observai-as e fazei-as; mas não procedais em conformidade com as suas obras, porque dizem e não fazem; Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas!;
  • porque fechais aos homens o reino dos céus; e nem vós entrais nem deixais entrar aos que estão entrando.
  • porque devorais as casas das viúvas, sob pretexto de prolongadas orações; por isso sofrereis mais rigoroso juízo.
  • porque percorreis o mar e a terra para fazer um prosélito; e, depois de o terdes feito, o fazeis filho do inferno duas vezes mais do que vós.
  • porque dizimais a hortelã, o endro e o cominho, e desprezais o mais importante da lei, o juízo, a misericórdia e a fé; deveis, porém, fazer estas coisas, e não omitir aquelas. Condutores cegos! que coais um mosquito e engulis um camelo.
  • porque limpais o exterior do copo e do prato, mas o interior está cheio de rapina e de intemperança. Fariseu cego! limpa primeiro o interior do copo e do prato, para que também o exterior fique limpo.
  • porque sois semelhantes aos sepulcros caiados, que por fora realmente parecem formosos, mas interiormente estão cheios de ossos de mortos e de toda a imundícia. Assim também vós exteriormente pareceis justos aos homens, mas interiormente estais cheios de hipocrisia e de iniquidade.
(Bíblia — trechos de Mateus 23:1-39)

Se a fé é seu único argumento, por favor, não me critique: é um direito inalienável meu crer de forma diferente de você.

Há um certo bode no ar, resultante de uma bad trip, a intoxicação causada por uma poderosa droga considerada lícita: a manipulação pelos meios de comunicação — religiosa ou não — realizada pelos mesmos operadores do controle midiático e utilizando as mesmas argumentações das estrelas gospel da pregação.

A crítica se estabelece na incoerência: prega-se o que não se pratica. Todos, por um passe de mágica, esqueceram que os primeiros cristãos receberam esta nomeação por repartirem entre si o cuidado, dividindo tudo o que possuíam. Cuidavam diligentemente dos pobres, das viúvas, das crianças — os desconsiderados socialmente. Comportavam-se como o comunista crucificado: tinham tudo em comum.

O tal do enriquecimento como prova da benção divina não foi alvo de nenhuma pregação do Cristo, nem discursos de desqualificação. Perdão. Esqueci dos pregadores aliados aos políticos e os desviadores da fé em prol dos recursos financeiros — o tais sepulcros caiados, vendendo uma linda e alva imagem da podridão interior. Os que, já naquela época fediam, e seu cheiro já alcançava os céus, na expressão que usam para outros grupos que não adotam seus discursos.

Palavras se desgastam pelo uso, mas ainda são importantíssimas: fundamentalismo, radicalismo, intolerância. Certamente o oposto da figura que alegam representar, os fariseus pós-modernos continuam reproduzindo o antigo modelo, aliando-se aos políticos em negociatas visando a expansão de seu poder de influência. Vale tudo para que suas imposições tornem-se leis.

E, como em gerações passadas, a população é usada em prol dos seus interesses: crucificam o salvador por que em desacordo com as interpretações estabelecidas. Certamente, ensinam o 'queremos o filho do Pai', só que indicam um outro para ocupar o lugar do autêntico, o Barrabás. Esse desvio do verdadeiro alvo se repete na atualidade e os incautos são enganados e perpetuam seu poder político, social e financeiro.

Recentemente, vi algumas pessoas se escandalizando ao ver crianças sendo obrigadas a decepar cabeças de infiéis, esquecendo que a motivação é a mesma, a prática é a mesma: controle social por uma camada sacerdotal. Que importa quantos são mortos ou torturados por interesses particulares escusos (como em qualquer ditadura!)? Que importa quantos são alijados de sua cidadania ou relegados a uma segunda categoria de humanidade? Uma vez a insanidade tenha se estabelecido, os discursos de ódio ganham consistência e prática: não pensa como eu, precisa ser eliminado. Afinal tudo é feito em nome de Deus — o que quer que tenham tornado essa expressão.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 17 de julho de 2015.

* Sepulcro foi a analogia escolhida por Jesus para a hipocrisia. O sarcófago, privilégio de mortos da classe alta, era uma urna funerária, geralmente de pedra, colocada sobre o solo ou enterrada. No Antigo Egito, corpos mumificados na busca de evitar-se o mau cheiro e deter a decomposição eram depositados nesse tipo de urna, mas a caixa ricamente ornada apenas desviava a atenção do essencial: não pulsava vida ali dentro.

2 de abr. de 2015

Remendo puído

Remendo puído criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 01-04-2015
Remendo puído, criado em 01-04-2015.

É verdade que às vezes, não muito frequentemente, as regras morais colidem e você ofende alguém, independente da decisão que toma. Mas o mundo não é um lugar perverso porque as pessoas não conhecem a diferença entre o certo e o errado. Nove entre dez vezes, o caminho certo está bastante claro, a não ser por uma coisa.
— Que seria?
— Que não é do interesse ou desejo das pessoas fazer o que é certo. Nunca houve um moralista que pudesse dizer qualquer coisa mais clara do que a Regra de Ouro… trate os outros como você gostaria de ser tratado. Tudo mais na moralidade são só firulas ou mentiras.
[…] Imamuel Kant. Filósofo. Já morreu. Ele dizia que se você quiser saber se suas ações são morais, deve universalizá-las.
— Não sei o que significa.
— Se quiser saber se uma ação que você está para empreender é errada, deve se perguntar: e se todos se comportassem assim?
…Se você se visse diante da sua morte e da morte de sua família pela mão dos Redentores, ou de alguém como eles, quem você iria querer que ficasse entre vocês e eles: eu ou Imamuel Kant?

(Paul Hoffman — O bater de suas asas, volume 3 da trilogia A mão esquerda de Deus, pp. 266-269)
Quando alguém se decide pelo ódio, nenhum argumento contrário faz sentido. Todos os preconceitos são produzidos dessa maneira: incitando-se o ódio. Aquele que estava adormecido em alguém por sofrimentos passados ou aquele que, nesse momento, atua no seu coração.

Você se assustaria com o que é possível produzir em um ser humano usando esse recurso. Ditadores, a história (transmitida ou vivenciada) nos ensina se tornaram os tiranos que foram usando desse recurso. Sociedades inteiras mobilizadas numa predeterminada direção por interesses político financeiros escusos e acobertados.

E os discursos repetidos mecanicamente assomam o consciente, após tanto ser internalizado, remendos puídos tomam o lugar da verdade. Verdade absoluta, como muitos líderes religiosos de todos os tempos usaram para manipular a população. Docilizados, ovelhinhas indo para o matadouro caladinhas.

Não à toa, até hoje, são os ingênuos que tem a sua fé cooptada por sepulcros caiados para dizer "Queremos Barrabás!".

Wellington de Oliveira Teixeira, em 02 de abril de 2015.

Nota: Não há erro na grafia do nome do filósofo — fictício nesta obra.

22 de mar. de 2015

Desgraçados

Graça, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 21-03-2015
Graça, criado em 21-03-2015.

Na antiguidade, alguns judeus rotulavam como alguém 'sem a benção' ou 'sem a graça de Deus' os muito pobres ou miseráveis. A palavra desgraçado, atualmente, ainda carrega esse sentido.
Conceito original do cristianismo, a Graça consiste em uma dádiva ou um presente imerecido. Pelo pecado original, todos mereciam a morte, mas, ao invés do castigo, a manifestação do amor suplantou a Lei e determinou o perdão e proporcionou a plenitude da vida. Ato divino, impossível de ser obtido de outra forma, resta-nos aceitá-lo com gratidão e reproduzir em nossa vida esta manifestação do amor.
Interessante é a diferenciação que pode ser feita entre a Graça e a Misericórdia: se em uma se recebe o imerecido; noutra, não se recebe o merecido. Num ato de amor, elas são complementares.

(Wellington de Oliveira Teixeira — Ser Pensante by Well)
Mas para vocês que reverenciam o meu nome, o sol da justiça se levantará trazendo cura em suas asas.
(Bíblia — Malaquias 4:2)


Um dia eu adotei a palavra Ordem* para evitar usar Deus — palavra que se tornou sinônimo dessa coisa horrível que manda matar, agredir, discriminar, isolar —, esse verdadeiro pistoleiro à espreita e apontando seu projétil matador para ínfimas criaturas do universo. Exatamente o mesmo que é capaz de mandar matar, em nome da fé, famílias. Ideia tão absorvida e aceita que justifica o ódio em nome do amor, contra os inimigos da sua verdade verdadeira — qualquer outra interpretação é diabólica — é preciso entrar em guerra. Só que esse Nós contra Eles é a total reversão do evangelho.

Não, não estou raivoso, creia-me! Estou tomado por compaixão e amor. Por isso, indiquei os passos que me levaram a uma das melhores decisões da minha vida: distanciar-me da estrutura religiosa.

Desde então, vi ampliar-se a multidão de pregadores pronunciando maldições mais que bençãos; dos que querem convencer a população a construir seus castelos financeiros, citando maldições e propondo milagres. Há muito que já nem ocultam seus escusos motivos pessoais, nem a prioridade dos seus interesses corporativos: hora de eleger mais um líder da fé, o escolhido de Deus — que agora também é miliciano e apoia o armamentismo.

Se funciona, não se mexe. Hora de reutilizar discursos da KKK e do nazismo:
  • anuncia-se o fim do mundo, dos bons costumes, da moral e da família;
  • define-se o alvo dos preconceitos (judeus já deram a sua cota) — negros pobres periféricos e homossexuais são os novos desgraçados!
  • vozes possantes e inflamadas, fazem do medo o melhor método de conversão;
  • propaga-se incessantemente interpretações visando controlar comportamentos e vidas.
A fé sempre foi manipulada, usada, corrompida, destituída da pureza e de tudo o que permite a conexão com o que ultrapassa a realidade absorvível. Hoje, continua assim, diferindo pela massificação televisiva e os efeitos especiais. A pedra fundamental da fé perdeu seu lugar.

Não sinto ódio, mas uma extrema tristeza e asco ao ver a música que abre os recônditos de uma alma à Ordem, conecta-nos de forma ímpar por acender a centelha divina em cada um, ser usada por seres abomináveis para instrumentar um discurso de enriquecimento acima de tudo. O culto ao dinheiro, de bençãos barganhadas com trocas de favores com o tal Deus: dê para a igreja e receba em troca prosperidade. A riqueza destronou o amor e transformou-se em o maior sinal da graça.

Minha esperança é que possamos acordar desse pesadelo. Do fundo da alma desejo que, sobre esse mundo cinzento — fruto dessa tal ira santa consumidora de vidas — seja estendido o manto multicolorido da Graça, da mudança que ocorre por um único e exclusivo meio escolhido pela Ordem: o amor. Não à toa, nas origens dessa forma de crer, amor e deus eram sinônimos e sua manifestação, por quem quer que fosse, comprovava de forma inequívoca a semelhança ou filiação. Afinal, uma das mais impressionantes analogias feitas sobre deus é a de quem ama é uno com Ele, porque Ele é o próprio amor.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 21 de março de 2015.

* A expressão Ordem, que uso, se refere à potência geradora de toda a vida, que na narrativa bíblica se manifesta a partir de comandos, como o 'Haja Luz!'.

6 de ago. de 2014

All faces

faces ocultas, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 05-08-2014.
faces ocultas, criado em 05-08-2014.

O cérebro é abastecido pelos olhos, ouvidos e outros sentidos, e o inconsciente traduz tudo em imagens e palavras.
(Ran Hassin - The new unconscious)


A ocultação é uma arte que pende igualmente para bons e maus usos. Na prática, geralmente, para os mais escusos.

Do processo defensivo e válido de não apresentar-se por completo de imediato nos encontros, aos ardilosos usos de máscaras que desfiguram, o dia a dia nos brinda com muitas camadas sobrepostas de faces. Desvendá-las é uma arte que poucos se preocupam em se aprimorar, quando o contrário — a arte da ocultação — há um grande número de exímios e cada vez mais experimentados.

Os jogos de interesses, articulados em estratégias cada vez mais eficazes de distorção das realidades, é a face atual e marcante dos meios de comunicação. Da mídia ao marketing, tudo brilha e é mais belo do que a realidade permitiria afirmar. Esbarramos com edições sofisticadas e apresentações parciais de dados que em nada se aproximam da imparcialidade. Na defesa de alguns interesses, não importa a vertente defendida, ela ocorre.

O problema maior não é quando grupos de interesses tentam tornar atraente ou maximizar suas propostas. A cota de espectadores é uma pequena minoria, seu alcance diminuto. É alarmante diante da atual hegemonia na comunicação, que, sob o poder do financiamento e de tecnologias quase que ilimitados, tenta infundir padrões, costumes, certo e errado, melhor e pior à população. A constituição do modo de agir e pensar determinados.

Seus rostos são sempre disfarçados por personagens de tramas novelísticas ou de sérios e competentes jornalistas sempre fortalecidos por imagens e som impecáveis, sedutores e convincentes. E segundos depois, lá se vai o poder de crítica, a credibilidade de alguém, e vem a implantação de uma nova doutrinação, que você e eu iremos assistir muitas e muitas vezes repercutir, cotidianamente, em outras mídias. Todo apresentarão bordões fáceis de gravar, opiniões facilmente assimiláveis.

A história confirma que a mentira repetida torna-se verdade. Não deveríamos, então, perceber que quem controla os meios de comunicação são os piores terroristas, quando os usam para domesticação dos anseios de uma população?

Não é paranoia. Perceba, que de repente, é necessário esticar cabelos, usar determinadas cores, combinar de determinado modo alguns utensílios e todos participam da mesmificação e da desindividualização da existência. E os mais influenciáveis, como os menos escolarizados e todas as crianças, passam a usar o penteado do jogador de futebol (por mais ridículo que ele seja!): despersonalizados. Se isso acontece com a aparência, tente imaginar o alcance do processo de manipulação de corações e mentes.

Aqueles que comandam o espetáculo escondem seus rostos como aquelas hortaliças, as alfaces, camada por camada retirada, você jamais consegue achar a face verdadeira, por mais que cada uma seja descartada.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 06 de agosto de 2014.

* Cientistas ingleses fizeram um experimento com um homem africano que em função de um acidente teve seu córtex visual completamente destruído. Em um laptop apresentaram imagens com círculos e quadrados. Houve 50% de acertos, o equivalente à sorte. Porém, a seguir apresentaram rostos amigáveis ou hostis. O resultado foi de dois terços de acertos, mesmo com o teste repetido.
O processo, inconsciente, recebe o termo científico blindsight, visão cega. É o uso da região cerebral (área fusiforme) especializada desde a época das cavernas para julgar rostos e evitar ameaças e morte.
Leia a respeito em http://super.abril.com.br/ciencia/mundo-secreto-inconsciente-741950.shtml
Os estudos de pesquisadores dessa área tem influenciado as novas formas de propaganda e marketing. A nova abordagem neurológica do inconsciente já produz resultados. Seu uso nem sempre ético.

22 de jul. de 2014

Construtos

Construtos, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 22-07-2014.
Construtos, criado em 22-07-2014.

São os signos da linguagem que deram origem às ciências abstratas.
Uma qualidade comum a várias ações engendrou as palavras vício e virtude;
uma qualidade comum a vários seres engendrou as palavras feiura e beleza.
Alguém disse um homem, um cavalo, dois animais;
em seguida, alguém disse um, dois, três, e toda a ciência dos números nasceu.
Ninguém tem ideia de uma palavra abstrata.
Notaram-se em todos os corpos três dimensões, o comprimento, a largura e a profundidade;
tratou-se de cada uma dessas dimensões, e daí todas as ciências matemáticas.
Toda abstração não é senão um signo vazio de ideia.

(Diderot: O sonho de D’Alembert - Coleção Os Pensadores, p.280)
*


A estruturação de qualquer elemento exige alguns substratos comuns. Real ou imaginário, a percepção inicia o processo e o desejo o embasa. E essa tem sido uma questão que atravessa, literalmente, grande parte das áreas do conhecimento. Não há, de teorias a práticas, absolutamente nada que escape dessa formulação: somos fundamentalmente seres desejantes e por (e no) desejo produzimos cultura.

Alguns pensadores buscam apontar e visibilizar o processo de geração de cultura de um determinado grupo e a constituição de novos hábitos a partir dos interesses comuns. Outros, navegam na captura do desejo, na aculturação acrítica, onde a imposição mesmo que disfarçada a promove.

Da inicial necessidade de proteção básica da vida, criamos variações que chegaram até a não tão atual assim conquista de status, produzindo relacionamentos, objetos, linguagem, cerimoniais e determinantes ético-morais e religiosos. Todos são fabricados. Não são prévios, muito menos naturais. No entanto, pelo prolongamento da prática, acabamos por naturalizá-los e normatizá-los. O normal passa ser a nossa forma de falar, de ser e de estar, então, os padronizamos.

Um dia encontramos um estrangeiro — migrante ou imigrante em nossas terras — e descobrimos a alteridade como possibilidade, depois do estranhamento. Pontuo, aqui, o início do fim da teoria da normalidade.

Aquele que se dispõe a observar ou avaliar as diferenças poderá se sentir atraído a aprender com a nova forma. Esse desejo, estimulador do contato, poderá viabilizar diálogos não intermediados pelo conhecimento prévio dos vocábulos. Gesticulações, referenciações aos objetos e práticas, seguidos da palavra usada por cada um para o mesmo, dicionariza a relação.

Em pouco tempo, poliglotas constituídos dialogam e referenciam um mundo novo, cuja absorção dos novos padrões culturais é facilitada. Pode parecer complicado, mas é um fato corriqueiro e diário.

Estudiosos como Piaget apontaram a graduação na construção da inteligência utilizando o conceito de camadas sobrepostas e apontaram que – como em qualquer construção – uma absorção não concluída ou parcial poderia gerar as rachaduras na estrutura. Apesar de, em regra, incapazes de fazer ruir o edifício, impedem um avançar mais pleno da manifestação das capacidades individuais. Apontaram mais além, o processo explica a radicalidade da capacidade humana de adaptação.

Pense na maturação social, onde uma criança amplia suas referências da família e vizinhos, para a escola e para o mundo: conteúdos, costumes, interesses, conceitos e práticas diversos se presentificam e põem em xeque a unicidade dos valores recebidos. Por curiosidade, por avaliação, por necessidade e por participação, muitos são adotados momentaneamente ou absorvidos. O universo pessoal é expandido.

Esse processo é análogo aos estudos realizados por pesquisadores (cientistas ou não) no seu caminho de descobertas, de confirmações e refutações dos conceitos e valores vigentes. A expressão pensar fora da caixa denota esse conceito.

As ciências sociais e psicológicas estão incluindo a incapacidade de lidar com a questão da variação, da mudança, do aprimoramento ou da transformação como uma das causas da constituição da rigidez nas pessoas.

Seja pela radicalização ou pela inflexão, o mundo daqueles que se agarram ao constituído e determinado como padrão mostra o quanto as construções internas são frágeis. O terror à possibilidade de ruir o arcabouço por conta da troca ou retirada de uma peça, faz com que a rejeição total, intransigente e determinista de um modelo crie, não uma pessoa, um elemento repetidor, impedindo a evolução e o processo de individualização e realização pessoal.

O construto chamado fundamentalismo está carregado dessa processual formalização, que ignora os efeitos do que ódios, agressões, distorções e torturas podem causar aos seres humanos em prol da modelagem comportamental e de pensamento. Sua sobrevivência exige seres docilizados, cujo potencial transformador seja encapsulado em formulações prévias, frases repetidas, posicionamentos irrefletidos mas seguidos à risca. Isso pode ser obtido pelo discurso manipulador ou pela ação direta dos aparelhos de repressão. Em ambos os casos, o resultado é único e triste: quem sofre seus efeitos clama por liberdade, mesmo que silenciosamente.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 22 de julho de 2014.

* Diderot propõe a existência um nível organizacional da natureza, um verdadeiro sistema onde tudo está unido, uma cadeia contínua, das formas mais primitivas de organização da matéria até as mais complexas, nos domínios do humano.
Animado por um fluxo, como concebido por Heráclito de Éfeso (séc. VI-V a.C.), o universo é obediente às leis formuladas por Descartes para a matéria; é dinâmico e em permanente transformação, em vez de estático e criado como um conjunto de coisas fixas, como concebia a tradição aristotélica e escolástica cristã.

7 de jun. de 2014

As lentes e a visao

Lentes, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 07-06-2014
Lentes, criado em 07-06-2014.

E chegou a Betsaida; e trouxeram-lhe um cego, e rogaram-lhe que o tocasse.
E, tomando o cego pela mão, levou-o para fora da aldeia;
e, cuspindo-lhe nos olhos, e impondo-lhe as mãos, perguntou-lhe se via alguma coisa.
E, levantando ele os olhos, disse: Vejo os homens; pois os vejo como árvores que andam.
Depois disto, tornou a pôr-lhe as mãos sobre os olhos, e o fez olhar para cima:
e ele ficou restaurado, e viu a todos claramente.

(Bíblia — Marcos 8:22-25)


Veja bem: os olhos enxergam de acordo com o conjunto de lentes de que ele dispõe. Concordam com a afirmação 100% dos usuários de óculos ou lentes de contato e daqueles que trabalham com microscópios ou telescópios. Mas introduzirei uma outra categoria, a de quem exercita o pensamento crítico.

Diariamente somos expostos a um conjunto imenso de imagens. Imagens brutas ou inocentes, até que passam pelo filtro das edições — e são várias. Me guiarei na lógica por um princípio antigo e um texto atribuído a Jesus, que absorvi: há os quem tem olhos e veem — fica subtendido que há os que não conseguem ver bem mesmo tendo olhos.

Aprimorar o mecanismo que nos permite perceber mais do que o sensível — aquilo que parece ser evidente — é percebermos o fundo do palco, o tipo de iluminação, as cores escolhidas, a trilha sonora, e tudo o mais que produz a transformação de seu sentimento: a manipulação do dado para criar um determinado tipo de informação, um determinado modo de reagir — o que chamamos de aceitação.

Todo mundo sente, mas nem sempre percebe, que é o efeito da sonorização do filme de terror que faz a cena tão impactante; idem para o beijo no final do filme romântico. Talvez nem perceba que o mesmo acontece nos jornais televisivos: a cena original foi cortada, editada, destacada nos trechos que interessam aos seus editores — acredite!, eles também tem preferências políticas e acordos comerciais.

Não são apenas os vilões que se utilizam do recurso: você se veste, se perfuma, usa uma determinada combinação de roupas e acessórios quando pretende encontrar com alguém ou mesmo influenciar pessoas (profissionalmente ou não).

Somente com o uso da crítica — há sempre o positivo e o negativo em cada proposição — que suas opiniões poderão ultrapassar a repetição dos argumentos preparados e emitidos pelos âncoras ou formadores de opinião. Fique muito atento, também, às peças de divulgação produzidas pelos marqueteiros escolhidos por cada partido ou alianças locais. Todos se utilizam dos mesmos recursos, todos querem o mesmo: cativar você.

Você sabe o que significa estar cativo? É estar seduzido, aprisionado, escravizado. É perder a liberdade. É sujeitar-se.
Me permita uma pequena pausa no fluxo do texto para dizer: É por isso a raiva que sinto de que esta tenha sido a palavra escolhida na tradução do Pequeno Príncipe, num dos textos mais famosos do mundo, inclusive a ação proposta a seguir, a de enlaçar (ser preso ou capturado por laços). A expressão não deixou de ser verdadeira: você escravizou, agora se responsabilize! [Isso vai dar panos para mangas… certamente!]. Estabelecer conexões e ser cuidadoso nas relações é bem diferente do que a tradução-traição do original sugeriu.
Agora o outro lado: é preciso descontar muito ao avaliar o contexto e o período em que foi escrito. Eram outras épocas, outros modos de entender relacionamentos como amizade, namoro ou casamento. Viu? Até aqui, utilizar-se de crítica ajuda a entender as lógicas subjacentes ao que se vê.

A proposta que percorre esse texto é simples: há muitos e diferentes tipos de interesses ao seu redor — a seu critério, bons ou ruins — e você precisa estar atento para não se deixar levar inocentemente. Astúcia e prudência são o remédio para a questão (retornei ao meu aprendizado original). Citarei uma narrativa onde tentaram encurralar Jesus*: os impostos. Atento, percebeu a armadilha que haviam preparado, respondeu a questão separando-a em suas partes constituintes: distingua o que é de fé e o que é mundano ou secular (A Deus o que é de Deus e a César o que é de César!).

Muitas das consequências do fundamentalismo vem exatamente por não ser capaz de distinguir essa questão. Optaram pela letra morta e não o seu sentido. Decidiram ignorar todo o contexto que envolvia o momento da narrativa.

Ou receberam lentes ruins ou as utilizam para enganar. Fariseus dos tempos modernos?

Wellington de Oliveira Teixeira, em 07 de junho de 2014.

* Então, retirando-se os fariseus, consultaram entre si como o surpreenderiam nalguma palavra;
E enviaram-lhe os seus discípulos, com os herodianos, dizendo:
Mestre, bem sabemos que és verdadeiro, e ensinas o caminho de Deus segundo a verdade,
e de ninguém se te dá, porque não olhas a aparência dos homens.
Dize-nos, pois, que te parece? É lícito pagar o tributo a César, ou não?
Jesus, porém, conhecendo a sua malícia, disse: Por que me experimentais, hipócritas?
Mostrai-me a moeda do tributo. E eles lhe apresentaram um dinheiro.
E ele diz-lhes: De quem é esta efígie e esta inscrição?
Dizem-lhe eles: De César. Então ele lhes disse: Dai pois a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus.
E eles, ouvindo isto, maravilharam-se, e, deixando-o, se retiraram.

(Bíblia — Mateus 22:15-22)