Pesquisar este blog

Mostrando postagens com marcador relacionamentos. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador relacionamentos. Mostrar todas as postagens

21 de ago. de 2017

Divi & Dido

Resvalando, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 19-08-2017.
Resvalando *, criado em 19-08-2017.

Divi

Assomam pensamentos, escorrem em emoções,
acham entrecortadas incontáveis projeções;
fantasmas esquecidos, trancados em porões
de alma e calabouço contido em corações.

Dido

Jatos expelidos, quais palavras de vulcão,
magmas efervescentes brotam na ebulição,
silêncios engolidos resvalam na pressão,
querem voz e força e menos solidão.

DiviDidos

Querem voz e força e menos solidão de alma e calabouço. Contido em corações, magmas efervescentes brotam na ebulição. Acham entrecortadas incontáveis projeções: jatos expelidos. Quais palavras de vulcão, assomam pensamentos, escorrem em emoções. Fantasmas esquecidos, silêncios engolidos, trancados em porões resvalam na pressão.

(Wellington de Oliveira Teixeira — Divi & Dido)

Ser alguém inteiro é lidar com incansáveis desejos e afetos, inextrincáveis interrogações e descobertas e, quase sempre, esbarrar em incontáveis desencontros, desencaixes e decomposições que frustram.

A constituição de si é algo instantâneo mas, por mais breve que seja, permite um vislumbre de continuidade, de permanência. Mas atente para esse fato: cada vislumbre precisa ser demarcado, afirmado e registrado como uma conquista.

A Ordem se expressa quase sempre como um emaranhado de forças antagônicas que atravessam e interferem neste processo. A vida se constitui por meio de campos de força, como os imãs potencializados, que promovem ininterrupta divisão nos seres e elementos, impondo novas recomposições.

Mesmo com força de vontade e usar de muito entendimento para efetuar um encontro, a doação de partes de si acontece sem qualquer controle sobre o que acontecerá. Esse vai e vem ou doação-troca, é como ficar sustentado apenas em um fio sobre o abismo.

Quando as circunstâncias impedem a boa combinação dos elementos, pode ocorrer quebras interiores, divisões que em seu extremo provoca a perda da noção do porquê, da motivação ulterior, do desejo do vir-a-ser e da plenitude. Racham a sensibilidade. Implodem o interior. Explodem a razão. Faz passear na linha que beira a vida, sem inserir-se nela: inconformado, sem encaixe no mundo, dissociado.

Relações mal estabelecidas produzem emoções em frangalhos – talvez a razão para tantas canções 'românticas' – e é o que faz ampliar a imensa categoria dos alienados: o 'tudo bem, tanto faz' que se constitui como mote de vida.

Em momentos assim, é preciso gerar os pontos de fuga da pressão, é fundamental dar espaço a essas questões, inquietudes, sofrimentos ou o que mais incomodar. Há incontáveis e inomináveis formas de se fazer um voo e de expressar o que está arraigado e intrínseco, aquilo que fica guardado mas que quer ter voz e expressão própria: escreva, desenhe, se exercite, assista, converse, costure, cozinhe, viaje. É só um jato que alivia a pressão do vulcão, um brilho momentâneo, sim; mas faz toda a diferença.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 19 de agosto de 2017.

* O Transtorno Dissociativo de Identidade (TDI) ou transtorno de múltiplas personalidades é um fenômeno que ocorre quando um único indivíduo apresenta características de personalidades ou identidades diferentes, que se alternam no controle em momentos distintos, alterando sua forma de perceber e interagir com o meio.

Difere da esquizofrenia ('mente dividida') por ser mais uma fratura no funcionamento normal do cérebro do que da personalidade. Intriga profissionais da Saúde, é controverso, e novas pesquisas buscam mais evidências empíricas.

Pense um pouco e veja se você consegue correlacionar a personagem com o diagnóstico:
  • David Banner (Incrível Hulk);
  • Stanley Ipkiss (O Máscara);
  • Saint Seiya gêmeos (Cavaleiros do Zodíaco);
  • Dr Jekyll and Mr Hyde;
  • Sméagol (O Senhor dos Anéis);
  • Kevin Wendell Crumb (Fragmentado, 2017).

20 de fev. de 2016

Dicionarizando o relacionamento

Dicionarizando, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 20-02-2016.
Dicionarizando*, criado em 20-02-2016.

Disseste uma coisa bonita, Adso, agradeço-te. A ordem que nossa mente imagina é como uma rede, ou uma escada, que se constrói para alcançar algo. Mas depois deve-se jogar a escada, porque se descobre que, mesmo servindo, era privada de sentido.
(Umberto Eco — O nome da Rosa, p.553)


É de uso corrente, que uma corrente pode prender alguém, até mesmo uma corrente elétrica. Difere da água corrente que expressa liberdade e fluidez. Lembra-se da infância, quando mandavam vestir a camisa por causa da corrente de vento que resfriava?

A palavra — corrente, no parágrafo anterior — ganha sentidos diversos de acordo com o contexto em que for usada. Essa multiplicidade de sentidos é essencial à arte, à música, à poesia. À vida. Dar sentido a algo que foi dito pode ser uma tarefa extremamente difícil, mas é um desafio à altura dos que não aceitam a limitação.

Esse entendimento deveria embasar os encontros visando a construção de relacionamentos. Ao mesmo tempo em que é fundamental haver diálogo e exercer críticas construtivas, é preciso ter um instrumento para evitar interferências indevidas e o desrespeito ao outro. Falas invasivas e desqualificadoras produzem a desconstrução de um relacionamento.

É preciso esclarecer ou dar novos sentidos às falas, formas, aos gestos e às práticas, ressignificando-os e ampliando o dicionário particular de cada um para torná-lo coletivo. Chamo isso de dicionário relacional.

Certamente, no início poderá haver um certo engessamento. Há momentos em que o signo precisa ter apenas um significado. Combinar o que significará determinado vocábulo ou expressão vai retirá-la do mal dito, do mal entendido, do confuso. Mas entenda bem, isto é algo a ser feito em comum acordo.

Primeiro, e mais importante, é preciso determinar uma expressão ou palavra que faz tudo parar, congela o mundo. Ela será usada nos casos onde, mesmo não havendo a intenção, alguém se sentir agredido. Forçar o diálogo levará ao ponto em que só o ódio fluirá. Melhor afastar-se, dar um tempo, deixar esfriar.

Coisas ou situações que por um instante parecem valer muito, após alguns instantes perdem a sua importância. Outras sem importância, quando cultivadas ou expressas na mágoa ou no ódio, tornam-se suficientes para destruir vidas. Portanto, inicie esclarecendo o que causou o mal estar, só depois retorne ao diálogo. Avançar nesse processo é fazer o encontro ser pleno e íntegro, um exemplo de superação a ser recordado durante toda a vida.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 20 de fevereiro de 2016.

* Notas

19 de fev. de 2016

Relacionamentos assombrosos

Assombração, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 30-10-2015.
Assombração, criado em 30-10-2015.

Imbuia-se daquela visão. Imaginava-se a si próprio a jazer assim, igualmente exangue, igualmente extinto, e ao mesmo tempo lhe voltavam à memória os dois rostos, o seu e o dela, ambos jovens, de lábios rubros, de olhos ardorosos. Inteiramente o penetrava a sensação do presente e da simultaneidade, a sensação da eternidade. Nessa hora, Sidarta percebeu claramente, com maior nitidez do que nunca, que toda a vida é indestrutível e cada instante, eterno.
(Hermann Hesse — Sidarta, p. 98 )


Nossa percepção é formada inicialmente pelos estímulos captados pelos sentidos que ficam gravados interiormente. Não como uma uma reprodução simples como fotocópia, carimbo, gravura ou fotografia do elemento estimulador. O que assimilamos é o efeito do estímulo externo e do que ocorre dentro de nós naquele instante. Eles se combinam para gravar uma imagem daquele acontecimento. Cada momento é único, isso gera a singularidade, isto é, cada indivíduo expande diferenciadamente a sua genética.

A capacidade de relacionar essas imagens internas — imaginação ou memórias — é o que permite a construção da razão e da emoção*. Um processo que se repete dentro de nós a vida toda ao tocar, saborear, ouvir, cheirar e ver mas, especialmente, nos primeiros anos de vida. Assim é construído o núcleo do que definimos como eu.

Apesar da razão e emoção serem frutos da organização daquilo que foi absorvido, passamos a acreditar que são absolutamente verdadeiras. Não o são. São apenas fantasmas (como as imagens projetadas nas telas de cinema ou da televisão) e, como tal, mesmo sendo capazes de restituir em parte, não podem reconstruir a totalidade, o original. É, portanto, uma visão pessoal e tendenciosa.

Agora que você sabe isso, entenda que quando nos apaixonamos por alguém, esquecemos que foram as imagens formadas pelos contatos que estabelecemos com esta pessoa que nos tornaram seres apaixonados e que há um grande abismo entre o ser da imaginação e o real.

Nada impede, porém, de tentar usar o convívio para construir uma imagem mais acurada, mesmo que parcial e momentânea (seres saudáveis transformam-se diariamente, não se esqueça!). É um desafio que exige uma vontade soberana de ampliar a percepção do outro dentro de si. Ao encarar esse desafio, é possível a constituição de relacionamentos mais propensos a serem prazerosos e duradouros. Sem sombra de dúvidas, muito diferente da constituição de um contrato de relacionamento duradouro ou eterno que acaba virando uma história de fantasma e de assombração, até a morte.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 18 de fevereiro de 2016.

* Emoções sinalizam de forma potente e rápida os acontecimentos, permitindo a reação ao ambiente. Por outro lado, comunicam (in)voluntariamente o que se passa internamente. São, por assim dizer, as formas de se mover ou agir diante da realidade.

12 de fev. de 2016

Vazios configuráveis

Vazios configuráveis, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 12-02-2016.
Vazios configuráveis, criado em 12-02-2016.

Os psicólogos reconhecem que os custos irrecuperáveis (*) podem afetar as decisões devido à aversão à perda. O preço pago no passado acaba sendo visto como uma referência para o valor presente e futuro, embora o preço pago seja e deva ser irrelevante. Desse modo, esse seria um comportamento não racional. As pessoas ficam presas ao passado, tentando compensar decisões ruins e recuperar as perdas.
Estudo clássico avaliou apostadores e patrocinadores de cavalos, antes e depois da aposta realizada. A hipótese dos pesquisadores se confirmou: depois de comprometer $US2, as pessoas ficavam mais confiantes de que a aposta se pagaria.

(Adrian Furnham — Quando você já investiu demais para desistir, p. 126, OBS: o último parágrafo foi resumido)


Muitas pessoas com relacionamento estável desconfiam de novas configurações na vida. Evitam tentar o diferenciado, o inusitado. Quem sabe, por trás disso, uma crença no encaixe perfeito, no quadro acabado, um quebra-cabeça completado, metades complementares.

Atritos à parte — necessários porque sem eles as arestas insignificantes machucam profundamente —, desencontros são a sinalização de que os participantes do encontro se reconfiguraram, pois assimilaram das experiências o aprendizado necessário para seu desenvolvimento pessoal.

Ensinados a temer as incompletudes, nos incomodamos ao ver os espaços vazios. Ilógico, pois é algo que deveríamos buscar, já que permitem a mobilidade e a transformação: ventilação que impede a asfixia. O espaço dos encontros que estabelecemos espelham nosso desenvolvimento pessoal e permitem um vislumbre de quem o outro está se tornando.

A proposta (não uma regra!) é a compatibilização dos pontos de conexão ativos e fugir à adaptação.

Entenda a variação dos pontos ativados como alterações provocadas pela aleatoriedade da vida: o tipo de humor diário, o nível de energização, a capacidade de lidar com os elementos mais distanciados do ponto de encontro, mas capazes de gerar uma influência na composição.

Alguns encontros, inicialmente potencializadores, podem tornar-se tóxicos quando as dosagens de presença das partes se altera em níveis muito dessincronizados. Momento de refletir, avaliar o potencial e o modo de inclusão ou permanência nele — amizades eternas se formam de paixões, especialmente na velhice.

Somos indivíduos que devem absolutamente iniciar em si os construtos para seu aperfeiçoamento, de modo a poder refleti-lo nos encontros. Se isso não é feito, o encontro não mais tem efetividade, é apenas decorativo (da ordem das aparências) e intoxicante. Não tenha dúvida: isso cobra um preço muito caro.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 12 de fevereiro de 2016.

* O desenvolvimento do avião supersônico Concorde, entre 1950 e 1960, demonstrou em determinado momento sua insustentabilidade econômica. O projeto da francesa Aerospatiale e da britânica BAC colocou em operação apenas 14 unidades, mas o 'boom sônico' (rompimento da barreira do som) levou à proibição mundial de voos supersônicos sobre continentes.
Apesar do fracasso, o erro nunca foi admitido pelo governo britânico, que sustentou um desastre econômico visando manter a realidade política. Uma péssima decisão baseada no poder das aparências: o Efeito Concorde.

20 de jul. de 2015

Alterimizade

Alterimizade, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 18-07-2015.
Alterimizade*, criado em 18-07-2015.

O termo amizade carrega o sentido de um relacionamento afetivo sem conotações romântico-sexuais; envolve o conhecimento mútuo e a afeição, além de lealdade ao ponto do altruísmo. Originada no instinto de sobrevivência da espécie, das relações interpessoais durante a vida, tornou-se a mais comumente desejada de ser constituída, diferenciando-se do coleguismo onde interesses afins ganham prioridade sobre o companheirismo.

No início dos tempos, descobrimos que só compartilhando a vida seria possível, iniciando com a sobrevivência, conquistar uma vida melhor. Dos agrupamentos à sociedade telemidiática, a manutenção de contatos utilitários tornou-se indispensável.

Avançamos um pouco ao verificar que isso não bastava. Com o prazer da confidência e o apoio nas fraquezas, a solidariedade ganhou terreno e se qualificou como necessária para além de suas funções iniciais. Lentamente, o utilitarismo cedeu prioridade em prol da vivência compartilhada, da combinação das forças e das emoções, de um desejar o mesmo bem que a si mesmo.

Claro que não foi igual em toda a espécie, mas aprendemos a carregar o outro dentro de nós — imagética e energeticamente — e geramos o amigo, alguém que pode, ou não, ter nosso sangue e é receptáculo de nosso amor, que coexiste conosco, dentro de nossa alma.

Aos poucos, esse tipo de conexão além de genérico tornou-se genético, marcando a raça humana com a necessidade do companheirismo. Isso alcançou força incomum ao ponto de dotarmos o mundo com o reflexo da nossa alma e projetamos em todas as relações existentes esse conceito. Construímos um mundo onde as criaturas são fontes e propiciadoras dessa forma de contato — inclusive domesticamos animais em função dessa sensação de aconchego. Está muito claro que, quando completamente isolada, uma pessoa enlouquece.

Muitos, como eu, apreciam a fantasia e a transcendência associadas a essa ligação, identificando-a nos contatos entendidos como físicos e espirituais. Passamos a produzir o entendimento da unicidade entre os seres, orgânicos ou não, e adotamos os conceitos e práticas de preservação e colaboração: o universo tornou-se meu amigo: mexeu com ele, mexeu comigo. Há pensamentos que propõem haver níveis superiores de energia e conhecimento, dotando-os da capacidade dessa forma de relacionamento com os seres humanos.

Em qualquer aspecto que se olhe, a transcendência que é efetivada nesse tipo de relação nos propõe algo maior que o isolamento produzido por poder, ganância, ódio e outras mesquinharias ainda tão presentes nos contatos sociais. No diferente eu encontro o que preciso para realizar meu potencial humano quando a alteridade me leva, além do reconhecimento da existência de um outro, a estabelecer uma das mais belas experiências que a humanidade pode desejar vivenciar. Algo que, por falta de um conceito estruturado, vou nomear alterimizade.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 20 de julho de 2015.

* O neologismo tenta dar conta das conexões que estabelecemos com a diferença, de forma positiva atuando no sentido de complementaridade. Ao potencializar o outro, amplio as capacidades de existência plena e feliz em mim.

5 de jul. de 2015

A desestruturação é cósmica

Desestruturação cósmica, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 05-07-2015.
Desestruturação cósmica, criado em 05-07-2015.

Oração da Paz
Senhor: Fazei de mim um instrumento de vossa Paz.
Onde houver Ódio, que eu leve o Amor,
Onde houver Ofensa, que eu leve o Perdão.
Onde houver Discórdia, que eu leve a União.
Onde houver Dúvida, que eu leve a Fé.
Onde houver Erro, que eu leve a Verdade.
Onde houver Desespero, que eu leve a Esperança.
Onde houver Tristeza, que eu leve a Alegria.
Onde houver Trevas, que eu leve a Luz!
Ó Mestre, fazei que eu procure mais:
consolar, que ser consolado;
compreender, que ser compreendido;
amar, que ser amado.
Pois é dando que se recebe,
perdoando que se é perdoado,
e é morrendo que se vive para a vida eterna!
Amém.

(Origem anônima, geralmente atribuída a São Francisco de Assis)


Os fluxos de conexão com a terra, a água e o ar não precisam estar em equilíbrio com o indivíduo para que ele saiba quando e onde semear e produzir uma boa colheita. Do mesmo modo, muitas outras formas sensoriais que durante séculos foram utilizadas pela humanidade caíram em desuso. Inclusive, tornou-se obsoleta a capacidade de antecipação, diante das tecnologias desenvolvidas pela humanidade.*

Motivo de preocupação? Talvez. Caso ocorra um novo colapso na configuração mundial — a simples proximidade de um cometa ou expansão do fulgor de uma estrela seriam capazes de desabilitar a maioria dos recursos tecnológicos disponíveis.

Mas pensemos um pouco ampliado. Novos universos estão em formação nas incontáveis e distantes galáxias. Uma estrela está se desintegrando e sua força, ao expandir-se, propulsiona milhões de elementos em nossa direção. Talvez, possamos identificá-los e contemplar a sua luminosidade destacando-se em um céu limpo.

É assim que a transformação — mesmo a produzida com a destruição de uma estrutura milenar — é implacável e eficiente em seus propósitos. O infindável estabelecimento de restruturações. O conceito vale para minúsculas mudanças no seu corpo, para o que afeta sua mente e até para o que se estabelece como novo constituinte do seu espírito.

A Ordem definiu que tudo concorre igualmente para a manutenção do equilíbrio da vida, e nossa inserção nas leis universais deveria produzir respeito e consideração por todas as criaturas.

Apreciar fatos, pesquisar, desenvolver teorias é a manifestação mais pura de nossa natureza como seres desejantes, em especial do conhecimento. Na contramão, inquietação não propicia condições para a superação do que quer que ocupe a sua mente, mesmo o que surge em função dessa reflexão.

A vida propõe questões. Há recursos dentro e fora do ser humano para, apropriando-se deles, ultrapassá-las. E para todas aquelas que, por alguma impossibilidade momentânea, não foram superadas, o aprendizado da paciência e da perseverança também é um caminho que nos conduz à Sabedoria.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 05 de julho de 2015.

* A revolução tecnológica reconfigurou o modus operandi humano. Dispositivos modernos, integrados às redes virtuais, influenciam emoções, razão e inserção social. Produção, consumo, modos de sonhar, de lutar e divulgar ideias alcançaram outro estágio.
A intensificação do imediatismo, o desconforto perante novas exigências na execução de tarefas, a invasão de privacidade, a noção de tempo e as formas de lazer se enraízam e constituem a nova sociedade.
Apenas o primeiro passo para outra estruturação das sensibilidades e do cérebro afim de proporcionar a hibridação humano-máquina.

23 de ago. de 2014

Como a mim mesmo

Rodopios, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 23-08-2014
Rodopios*, criado em 23-08-2014.

ah, tem que ser (tem que ser!) hoje que eu vim
eu vim com tudo que tem haver com você
você nem sabe que sim, que simplesmente é assim:
assim que vejo você, você de frente pra mim,
eu me arrepio, grito, pulo, assobio, gesticulo, rodopio,
vou girando, vou girando, até cair no meio-fio

(Rodopio - Luiz Tatit)


Não há como pedir a quem quer que seja que entenda o que produzo.

Tudo que faço é apenas um reflexo das elaborações dos sentimentos que são provados por fornalhas de pensamentos, moldados a partir de uma ética do fortalecimento mútuo: recebo diariamente, de fontes diversas, os estímulos necessários para tal. Nenhum deles igual.

O que resiste e consegue vir à tona é digno de se manifestar.

Assim, acesse ao que escrevo e ao que desenho como o melhor de mim oferecido a quem quiser e puder utilizá-lo em benefício próprio.

Puro ato de antropofagia, o como a mim mesmo é o meu mais puro egoísmo em favor do seu. Só assim, expondo a minha verdade nua e crua posso contribuir com alguém. Vez por outra, agrido. Algumas, sensibilizo. Melhor quando apenas provoco e com isso desloco a passividade.

Não tento ensinar nada. Sequer pretendo ocupar o lugar da verdade, apenas sonho vivenciar as minhas.

As de muitos afetaram a minha, especialmente daqueles das artes. Escritores, filósofos, músicos, dançarinos, atores, médicos, amantes e amados são os artistas pensadores que conseguiram incendiar minhas inquietações.

E, certamente mais que todos os outros, os rodopios que o amor promove dos fundamentos à cama.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 23 de agosto de 2014.

* Série de giros ou voltas executados, em torno do próprio eixo, rapidamente; girar como um pião. Isso descreve muito bem as idas e vindas destes pensamentos e sentimentos que me tomam, mas que não possuem a graciosidade dos movimentos dos bailarinos.

22 de jul. de 2014

Construtos

Construtos, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 22-07-2014.
Construtos, criado em 22-07-2014.

São os signos da linguagem que deram origem às ciências abstratas.
Uma qualidade comum a várias ações engendrou as palavras vício e virtude;
uma qualidade comum a vários seres engendrou as palavras feiura e beleza.
Alguém disse um homem, um cavalo, dois animais;
em seguida, alguém disse um, dois, três, e toda a ciência dos números nasceu.
Ninguém tem ideia de uma palavra abstrata.
Notaram-se em todos os corpos três dimensões, o comprimento, a largura e a profundidade;
tratou-se de cada uma dessas dimensões, e daí todas as ciências matemáticas.
Toda abstração não é senão um signo vazio de ideia.

(Diderot: O sonho de D’Alembert - Coleção Os Pensadores, p.280)
*


A estruturação de qualquer elemento exige alguns substratos comuns. Real ou imaginário, a percepção inicia o processo e o desejo o embasa. E essa tem sido uma questão que atravessa, literalmente, grande parte das áreas do conhecimento. Não há, de teorias a práticas, absolutamente nada que escape dessa formulação: somos fundamentalmente seres desejantes e por (e no) desejo produzimos cultura.

Alguns pensadores buscam apontar e visibilizar o processo de geração de cultura de um determinado grupo e a constituição de novos hábitos a partir dos interesses comuns. Outros, navegam na captura do desejo, na aculturação acrítica, onde a imposição mesmo que disfarçada a promove.

Da inicial necessidade de proteção básica da vida, criamos variações que chegaram até a não tão atual assim conquista de status, produzindo relacionamentos, objetos, linguagem, cerimoniais e determinantes ético-morais e religiosos. Todos são fabricados. Não são prévios, muito menos naturais. No entanto, pelo prolongamento da prática, acabamos por naturalizá-los e normatizá-los. O normal passa ser a nossa forma de falar, de ser e de estar, então, os padronizamos.

Um dia encontramos um estrangeiro — migrante ou imigrante em nossas terras — e descobrimos a alteridade como possibilidade, depois do estranhamento. Pontuo, aqui, o início do fim da teoria da normalidade.

Aquele que se dispõe a observar ou avaliar as diferenças poderá se sentir atraído a aprender com a nova forma. Esse desejo, estimulador do contato, poderá viabilizar diálogos não intermediados pelo conhecimento prévio dos vocábulos. Gesticulações, referenciações aos objetos e práticas, seguidos da palavra usada por cada um para o mesmo, dicionariza a relação.

Em pouco tempo, poliglotas constituídos dialogam e referenciam um mundo novo, cuja absorção dos novos padrões culturais é facilitada. Pode parecer complicado, mas é um fato corriqueiro e diário.

Estudiosos como Piaget apontaram a graduação na construção da inteligência utilizando o conceito de camadas sobrepostas e apontaram que – como em qualquer construção – uma absorção não concluída ou parcial poderia gerar as rachaduras na estrutura. Apesar de, em regra, incapazes de fazer ruir o edifício, impedem um avançar mais pleno da manifestação das capacidades individuais. Apontaram mais além, o processo explica a radicalidade da capacidade humana de adaptação.

Pense na maturação social, onde uma criança amplia suas referências da família e vizinhos, para a escola e para o mundo: conteúdos, costumes, interesses, conceitos e práticas diversos se presentificam e põem em xeque a unicidade dos valores recebidos. Por curiosidade, por avaliação, por necessidade e por participação, muitos são adotados momentaneamente ou absorvidos. O universo pessoal é expandido.

Esse processo é análogo aos estudos realizados por pesquisadores (cientistas ou não) no seu caminho de descobertas, de confirmações e refutações dos conceitos e valores vigentes. A expressão pensar fora da caixa denota esse conceito.

As ciências sociais e psicológicas estão incluindo a incapacidade de lidar com a questão da variação, da mudança, do aprimoramento ou da transformação como uma das causas da constituição da rigidez nas pessoas.

Seja pela radicalização ou pela inflexão, o mundo daqueles que se agarram ao constituído e determinado como padrão mostra o quanto as construções internas são frágeis. O terror à possibilidade de ruir o arcabouço por conta da troca ou retirada de uma peça, faz com que a rejeição total, intransigente e determinista de um modelo crie, não uma pessoa, um elemento repetidor, impedindo a evolução e o processo de individualização e realização pessoal.

O construto chamado fundamentalismo está carregado dessa processual formalização, que ignora os efeitos do que ódios, agressões, distorções e torturas podem causar aos seres humanos em prol da modelagem comportamental e de pensamento. Sua sobrevivência exige seres docilizados, cujo potencial transformador seja encapsulado em formulações prévias, frases repetidas, posicionamentos irrefletidos mas seguidos à risca. Isso pode ser obtido pelo discurso manipulador ou pela ação direta dos aparelhos de repressão. Em ambos os casos, o resultado é único e triste: quem sofre seus efeitos clama por liberdade, mesmo que silenciosamente.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 22 de julho de 2014.

* Diderot propõe a existência um nível organizacional da natureza, um verdadeiro sistema onde tudo está unido, uma cadeia contínua, das formas mais primitivas de organização da matéria até as mais complexas, nos domínios do humano.
Animado por um fluxo, como concebido por Heráclito de Éfeso (séc. VI-V a.C.), o universo é obediente às leis formuladas por Descartes para a matéria; é dinâmico e em permanente transformação, em vez de estático e criado como um conjunto de coisas fixas, como concebia a tradição aristotélica e escolástica cristã.

8 de jul. de 2014

Cabo de guerra ou conflitos de uma vida a dois

Nuances, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 03-07-2014.
Nuances, criado em 03-07-2014.

Todas essas ondas e águas, carregadas de sofrimentos,
precipitavam-se em busca de suas metas, que eram muitas,
as cataratas, o lago, o estreito, o mar
e, uma a uma, as metas eram alcançadas, mas a cada qual seguia outra;
da água formava-se a bruma, que subia ao céu, transformava-se em chuva,
a cair das alturas, virava fonte, virava regato, virava rio
e novamente iniciava sua jornada, novamente fluía rumo à meta.

(Herman Hesse - Sidarta, p.113-114)


Deixe-me perguntá-lo: alguma vez você ficou variando a resposta para uma determinada questão, pelo fato delas serem condizentes com seu pensamento mas inviáveis simultaneamente? De uma maneira estranha, o que se relaciona aos relacionamentos amorosos acabam sempre permitindo essa ambiguidade. Contradição ou não, os fluxos do desejo se reagrupam dentro de nós e alteram nosso modo de agir em cada situação, mesmo nas semelhantes ou repetitivas. Estou falando daquelas separações parciais que ocasionalmente ocorrem quando há uma divergência, discordância ou briga.

Conforme o tempo passa, há uma tendência de abrirmos mão da questão original nos momentos quando estamos mais aditivados pela libido. Parece estranho, mas mudamos em função da proximidade ou de uma longa distância.

Um elemento modificador é o tempo de separação. Pode ser menos eficaz e até mesmo secundário nos casos onde outras opções ficam disponíveis e acessáveis. Marca isso aquelas pequenas fugas para uma balada noturna, após a discussão e o que chamo de pequenos rompimentos. Funcionam até que fica claro que substitutos não são capazes de alcançar o padrão original. Nessa hora, ocorre um retorno.

Mesmo que você não seja psicólogo, pode entender o mecanismo, não é? Pois bem, e quando sua posição não muda? Você padece com todos os efeitos e ainda assim — pelo fato de a questão ter significado importante — você prefere pagar o preço à aceitação.

É esse conflito interior é o que resolvi analisar (inclusive, fazer uma autoanálise faz muito bem!): forças da libido versus forças dos valores pessoais. Presto o devido esclarecimento de que a libido abarca o amor romântico-sexual enquanto que valores pessoais incluem aqueles sociais.

Para desenvolver a proposta de avaliar vou utilizar o conceito de uma atividade chamada cabo de guerra: uma corda com um nó central tem em ambas as pontas pessoas puxando-a em sua direção. É feito um traçado central e se alguém de algum lado for puxado até ela e ultrapassá-la, perde.

Como você deve ter suposto, o nome da brincadeira é bem alusivo aos acontecimentos: diariamente transformamos algumas das que seriam consideradas pequenas questões em motivo para uma disputa. O objetivo da reflexão não é alcançar uma solução-padrão para a questão, por isso, tenha sempre em mente que a resposta deve ser uma construção condizente com cada caso.

Como tesão e sentimentos amorosos falam por si, uma vez que a sua falta se presentifica em qualquer momento (dia ou noite), irei focar na importância dos valores para a manutenção de uma personalidade. Dependendo do nível de rigidez pessoal ou do esforço despendido na produção de um determinado valor, ele passa a ter um status de identidade, a tal ponto que, sem ele, o sujeito não consegue mais referir-se a si mesmo: não se sente mais o mesmo, e essa despersonalização provoca sofrimento, depressão, em casos extremos suicídio. Por isso, essas duas forças antagônicas e de grande potência produzem uma disputa que pode se estender por uma vida inteira.

Sem nenhum comprometimento com aquela antiga proposta estratificada de relacionamento, quero indicar a transição para as novas questões. Se por um lado havia papéis e liderança definidos e seguidos à risca nos antigos relacionamentos, a nova faceta exige equilíbrio na relação e cada participante precisa equilibrar-se e colaborar no equilíbrio do encontro: dois remadores em um barco pequeno na correnteza.

Em versão bem humorada, a personagem do Jô Soares, o Irmão Carmelo, não queria mais efetuar cerimônias de casamento por conta do 'casa-separa, casa-separa' da vida moderna. Numa tradução possível: Como pessoas que não conseguem ser independentes e capazes de lidar com suas realidades poderão constituir relacionamentos equilibrados? Na realidade, não o fazem. Criam uma espécie de gangorra para lidar com a questão, hora um está por baixo e por isso busca forças para se erguer, mas o faz rebaixando o outro. Por alguns poucos momentos as forças se equilibram, mas isso nunca se mantém.

Bom, creio que você entendeu os pormenores — causas e consequências — e está pronto para avaliar suas próprias disputas. Como já estou acostumado a ouvir 'você não me respondeu a questão!', vou lhe dizer assim: se o que você tem com alguém é de grande valor, aponte a questão para essa pessoa e descubra o quanto de valor você tem na resposta recebida — mesmo que seja uma questão semelhante. Assim, a busca pelo ponto de equilíbrio será uma tarefa conjunta onde limitações poderão ser contornadas.

O não ter dado a devida atenção a um valor resolve-se com um 'me desculpe', mas o silêncio, a omissão numa tentativa de abandonar a questão impede o prosseguir da relação. Aqui difere da gangorra. Não há quem se rebaixe, há pessoas conscientes de seus fortes e fracos que desejam se relacionar de uma forma plena, onde ambos tenham a oportunidade de ficar satisfeitos. Em todas as maneiras.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 08 de julho de 2014.

* Cabo de guerra é uma atividade esportiva que faz parte dos Jogos Mundiais. http://pt.wikipedia.org/wiki/Cabo_de_guerra