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9 de abr. de 2015

Encare a autoinsuficiência

Autoinsuficiência criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 09-04-2015.
Autoinsuficiência, criado em 09-04-2015.

Colaboração difere de cooperação pois é uma filosofia de interação e um estilo de vida pessoal. Cooperação é uma estrutura de interação projetada para facilitar a realização de um objetivo ou produto final. A Aprendizagem Colaborativa, como filosofia de ensino, ultrapassa técnicas para a sala de aula. Visa uma menor intervenção do educador e, por consequência, propiciar mais responsabilidade ao estudante.
Um exemplo é reunir em pequenos grupos alunos de níveis diferenciados de performance para alcançar uma única meta. Incentiva-se um modo relacional que respeita e destaca as habilidades e contribuições individuais; o compartilhamento de autoridade e a aceitação de responsabilidades nas ações do grupo.
Como premissa, a construção de consenso por meio da cooperação entre os membros do grupo, contrapondo-se à ideia de competição, na qual alguns indivíduos são melhores que outros.
Os que adotam a filosofia da Aprendizagem Colaborativa aplicam seus conceitos em qualquer relacionamento: em sala de aula, reuniões de comitê, com grupos comunitários, dentro de suas famílias e com outras pessoas.

(Ted Panitz — A Definition of Collaborative vs Cooperative Learning*)


Por mais que busquemos segurança no que temos, desejamos ou fazemos, não há como manter esse estado sempre. Estruturalmente somos constituídos por parcialidades, incompletudes, impossibilidades. Mas, diariamente, entramos em um processo de negação insana desse fato. Assumimos práticas, discursos, ideias que tentam projetar uma autonomia que não temos para refletir. Produzimos uma holografia de nós — a aparência — e nela pautamos nossa vida. No fim das contas, só nos resta crer estar fazendo o melhor.

Vivemos de expectativas, de sonhos e de crenças. O dia amanhece ensolarado, com promessa de luzes e cores e sentimentos incríveis. De repente, o céu nubla as cores desbotam e a tempestade cai. Por que tentamos forçar que os sentimentos permaneçam inalterados?

Construímos a vida comprometidos com princípios que, apesar de genuínos, são incapazes de abarcar a realidade. Nossos sentidos são incríveis, nosso cérebro capaz de pensamentos complexos… mas tudo isso é gerenciado por uma razão frágil, incapaz de dar conta dos mundos micro e macro existentes. Por que insistir no controle de tudo e em determinar verdades?

Encontros que ganham intensidade e ocupam extensas áreas de nossas vidas são estabelecidos como eternos — é bem verdade que sem as ilusões ninguém vai adiante; sem a promessa do prazer (em qualquer momento que seja) paramos — mas tudo se resume ao nosso esforço pessoal.

A originalidade humana é a de constituir, reformular nossa visão de mundo; do indefinível ao supostamente conhecido, gerar a energia que impulsiona indivíduos, pequenos grupos sociais ou a humanidade. Uma energia esplêndida que, caso não fosse cooptada por interesses alheios, já teria elevado nossas capacidades em prol do bem comum.

Diariamente, direcionamos nossas capacidades para a produção de riquezas, quase que exclusivamente de cunho financeiro. As interconexões estão marcadas pelo signo do cifrão. Qualificamos alguns, desqualificamos a maioria (os semelhantes a nós!). Viramos capatazes dos novos senhores intercontinentais porque isso nos dá a ilusão de proximidade com esse poder. Reproduzimos seu modo de nos subjugar e perpetuamos seu poder. Educamos crianças desse modo, apenas para satisfazer ao mercado de trabalho.

É o medo de encarar a nossa autoinsuficiência. Fomos programados culturalmente a viver na individualidade e no egoísmo e a temer o compartilhamento**. Esquecemos que foi a colaboração que nos trouxe até aqui. Sem que expandíssemos por compartilhamento os conhecimentos, as capacidades e habilidades individuais, a produção atual em todas as esferas estaria muitos graus abaixo.

A era da internet pode estabelecer a colaboração como o elemento mais prioritário à raça humana se conseguir suplantar o ensino aprendizagem reprodutor. Se ninguém sabe tudo, então, por que não reunir aquilo que se sabe para o conhecimento seja estruturado por acréscimos? O sequenciamento do DNA humano é apenas um exemplo do que já conseguimos com colaboração e os avanços para o bem de todos podem alcançar muito mais. Mas continuamos aprisionados à ideia de suficiência individual. A quem interessa isso?

Wellington de Oliveira Teixeira, em 09 de abril de 2015.

* Esse é apenas um resumo dos principais tópicos. O texto completo encontra-se em:
http://ccti.colfinder.org/sites/default/files/a_definition_of_collaborative_vs_cooperative_learning.pdf

** A cooperação na relação mestre e aprendizes ou na produção de bens para sustento familiar foi substituída pelo controle das atividades de produção a partir da ascensão do capitalismo e o fordismo. Com ele, a individualização e a especialização definiram uma nova rota no aprendizado onde entender e participar de um todo não tinha mais utilidade, nem deveria ser incentivado.
Com o advento da internet, sistemas colaborativos especializados surgiram e foram aprimorados, facilitados pelo surgimento da Web 2.0 e da disseminação de licenças livres.

24 de jan. de 2015

Engrenagens

Engrenagens criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 23-01-2015.
Engrenagens*, criado em 23-01-2015.

Assim, o corpo é um modo da extensão e a alma é um modo do pensamento. A natureza humana repete de maneira finita a mesma estrutura que possui a substância infinita. A alma é ideia do corpo. O corpo é uma máquina complexa de movimento e de repouso composto por corpos menores, que por sua vez são máquinas de movimento e de repouso. É pelo corpo que tomamos contato com a realidade extensa exterior, isto é, com os demais corpos, com os quais interagimos. A alma, ideia do corpo, não é um reflexo do corpo, mas a consciência do corpo e de sua inteligibilidade, bem como a de outros corpos. Corpo e alma são totalmente individuais — são individuais no plano da existência e no plano da essência.
(Spinoza — Coleção Os pensadores, p.14-15)


Mesmo alguns mais experientes teimam em ir adiante acreditando que controlam as engrenagens que movimentam sua vida e dão rumo aos seus caminhos. Apostam nisso por terem, em alguns aspectos delas, determinado nível de controle.

Se eu fosse avaliar os caminhos no aprendizado, meu e de alguns outros seres pensantes com quem tive contato, diria que em várias ocasiões fazemos apostas de todas as fichas numa determinada bola da roleta. Como todo estatístico dirá, alguma hora se acerta, mesmo contra milhões de possibilidades contrárias. Tomar essa vez como a que se constitui o padrão é certamente ingenuidade. Então, sou obrigado a concluir que a ingenuidade é o padrão no mundo.

Dos frangalhos, fragmentos, retalhos que nos constituem temos a lição de que a vida se multiplica por divisão da fragmentação de uma estrutura, depois de um único, breve - mas muito potente – momento de união. Essas partes são assimiladas por milhões de outras, a vida vai adiante.

Isso significa apenas que, dentro dos limites possíveis a essa inconstante forma atual que adotamos, temos que agir, buscar encontros com os pedacinhos que possam nos fortalecer e não enfraquecer — muito cuidado com aquilo que dá a momentânea impressão de fortalecimento, mas que cobra um preço imenso depois!

Na linha da razão, nunca descuide de ser um bom agente de manutenção: lubrifique as correias, avalie os anéis e dentes das rodas dentadas, cuide bem das engrenagens acessíveis nesse momento. Quando a percepção mudar, experiencie as possibilidades desconhecidas, os fluxos, de modo a absorver a energia extra que ela confere.

Essa linha de pensamento pode ser ilustrada com sair do dia a dia para uma viagem a um lugar onde a maioria das rotinas se desfazem e as regras se alteram: mais chinelos ou pés descalços que sapatos; mais nudez e bronzeados que uniformes; mais brisa que ares-condicionados. Você sabia que as engrenagens geralmente permitem rodar em mais de uma direção?

Quanto aquelas coisas que escapam ao controle individual, bem, é tentar novas coletivizações, é ampliar o campo de ação dando as mãos a quem está próximo: nenhum conjunto de células isoladas formam tecido, só com a aglutinação elas ultrapassam suas possibilidades.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 23 de janeiro de 2015.

* As engrenagens são conjuntos de elementos que operam em pares (dentes de uma encaixando nos espaços entre os dentes de outra) e a maioria é de forma circular.Elas transmitem movimento uniforme e contínuo como o das escadas-rolantes ou relógios analógicos. (http://pt.wikipedia.org/wiki/Engrenagem)

23 de dez. de 2014

A lição do Flamboiã

Flamboiã, fotografado por Wellington de Oliveira Teixeira em 10-12-2014
Flamboiã, fotografado em 10-12-2014.

Gostaria de ter começado essa história assim:
"Era uma vez um pequeno príncipe que habitava um planeta pouco maior que ele, e que precisava de um amigo…".
Para aqueles que compreendem a vida, isso pareceria, sem dúvida, muito mais verdadeiro.

(Antoine Saint-Exupéry — O Pequeno Príncipe, p.18)*


O Flamboiã é um tipo de árvore que conquista muito a minha simpatia: adoro suas cores, o formato de suas folhas e flores, o contraste estabelecido entre a leveza de suas sementes em floração com a robustez dos seus galhos. Mas a possibilidade dessa apreciação ocorre apenas em determinadas épocas do ano.

Com ele obtive o aprendizado que compartilho: há momentos para que muitas das coisas desejadas tornem-se viáveis ou seus processos sejam mais propícios ao desenvolvimento.

Alguns países possuem, nessa época do ano, um inverno rigoroso e as tradições natalinas e de passagem de ano auxiliam no processo de restauração da esperança de que a próxima primavera irá trazer o renascimento do mundo e a colheita de tudo o que ficou oculto sob a neve ou a terra.

Nós, os sortudos habitantes do Rio de Janeiro e do Brasil coroado de belezas naturais, somos brindados, durante todo o verão, por exuberâncias. Em terra, no céu e no mar sua manifestação é estonteante. Isso facilita a lição dos ciclos: término de um, reinício em outro.

Como sugestão, aproveite essa época para permitir-se momentos de uma reflexão positivista, esperançosa. Imagine o mundo dos seus desejos e - independente dos desafios necessários - já se prepare para ir ao seu encontro.

Como desejo, que você consiga ver o outro, que está ao lado ou distante, como um ser plenamente semelhante em necessidades, mesmo que divirja frontalmente em conceitos, propostas ou práticas.

Não podemos ocupar o lugar do outrem, mas podemos nos imaginar nele, a partir de nossas próprias necessidades na vida: de alegria, de amor, de esperança, de paz e de realização pessoal.

Isso, tente! Deseje de coração que ele obtenha tudo isso, mas o faça sem mesquinharia e sem invejas. Algo que aprendi há muito tempo embasa esse pensamento: quanto mais gente feliz e realizada no mundo, melhor será o mundo em que vou viver e também aqueles a quem amo tanto.

Bons festejos e reinício de ciclo de vida.
Wellington de Oliveira Teixeira, em 23 de dezembro de 2014.

* Às vezes, para se iniciar um novo ciclo, é preciso nos reinserirmos em um acontecimento do passado e resgatarmos o aprendizado que nos foi proporcionado. No reencontro desses dias com a família Prét, rememorações se fizeram necessárias e eu pude reacender o encontro com um pequeno príncipe na Vila de Trindade (Parati-RJ), o Alisson Gley. À potente memória daqueles momentos e meu grande aprendizado, fica meu agradecimento (e a vontade de experimentar o sabor da melhor geleia de minha vida).

26 de set. de 2014

Reações ou redemoinhos

Redemoinhos, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 26-09-2014.
Redemoinhos*, criado em 26-09-2014.

Não ter mais alguém muito querido fisicamente presente
não nos impede de recordar e celebrar o tempo compartilhado.
Fazê-lo, com gratidão pela oportunidade que nos foi permitida do convívio,
honrará o sentimento que temos, acalmará nossa saudade,
e perpetuará as marcas deixadas em cada um de nós.

Wellington de Oliveira Teixeira


Uma questão aflorou hoje: se não somos iguais, por que esperar as mesmas reações de outra pessoa?

Há sempre um modo inusitado de reagir capaz de surgir, dependendo das circunstâncias, pelo modo como os fatos embolam dor e algo planejado para adiante. Há momentos em que sonhos e medos se reúnem num único instante numa combinação explosiva que não exige vazão imediata ou nos desagregarão.

Presenciar ou vivenciar algo assim traz de imediato a imagem de um redemoinho que pegou alguém e lhe retirou a noção de espaço e tempo, desfazendo, por alguns instantes, a própria personalidade.

Refazer-se após a reviravolta é de suma importância. Também o é, situar-se com calma e ir se fortalecendo diante dos elementos disparadores, até conseguir superá-los. Um processo assim, tão dolorido, certamente não é simples, por isso não se deve exigir a mudança de imediato.

Um tempo ou dois é o necessário para se reelaborar, gerar outras referências e reprogramar-se. Entenda que é preciso ter serenidade e saber que, pouco a pouco, o rumo da vida retoma, e se consegue ir em frente, realizar os sonhos, mesmo que não da maneira desejada de início. Não é sempre assim nesta vida?

Mas devemos sempre entender que poderá haver muitas outras surpresas ainda. Momentos felizes ou tristes sempre nos encontrarão e precisamos nos preparar para curti-los ou enfrentá-los.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 26 de setembro de 2014.

* Envolver-se é algo lindo, mas cobra seu preço: podemos ser tomado por um redemoinho de emoções.

17 de ago. de 2014

Vício intrínseco

Vício intrínseco, criado por Wellington de Oliveira Teixeira, em 17-08-2014.
Vício intrínseco, criado em 17-08-2014.

Ela é uma droga pesada que te arranca de casa e, ao mesmo tempo, é o motivo de voltar pra casa.
Ela é lunática e perfeita, essa é pra casar; daquelas que mata o noivo no altar, se atrasar.
Te arremessa na cama e te poe no divã; é o veneno mortal no seu café da manhã;
é o amor matinal e a roubada de brisa. Até sua foto 3x4 é arte Mona Lisa.
Mano, avisa lá que hoje eu não vou jogar
porque ela acaba de ligar dizendo que tá muito louca pra que eu fique muito louco, também,
esperando ela voltar pra me fazer de refém.
Isso parece crime, mas eu não quero abrir ocorrência, senão eu sofro de abstinência:
ela combina carinho e dependência com poesia e inocência. Essa mina vicia.
(Rashid - Vício)


É como a gravidade, de que não se escapa. A gente foge, se dirige para a direção oposta. Desvia o pensamento e tenta preencher os vazios que repentinamente se impõem.

É inviável tentar se policiar o tempo todo. Um pequeno vacilo, uma brecha: lá se vai o controle e o pensamento vai em busca do desejo interditado, guardado, ocultado por tanto tempo, até da própria consciência.

É a vontade de comer ou qualquer outra forma de prazer, que se achega e nos seduz e nos reduz de forma inescapável ao que nos constitui.

Avaliando por moral, o imoral é temporal e isso para quem não é ingênuo é algo de que é difícil não resvalar sempre.

Queria que cada um se permitisse o que merece, inclusive um pequeno jantar acompanhado de um bom vinho. Pequenos, deliciosos e desejáveis prazeres.

Fugir do enrijecer: não dá para ser o que quer que seja em tempo integral, aceite! Somos parciais e desejamos as diferentes formas de nos satisfazer: todo excesso enjoa e destrói o encanto. Até mesmo um talento, uma profissão ou uma paixão.

Encenamos um espetáculo de encontros e desencontros e, na medida do possível, tentamos dar um toque de infinitude nos sentimentos que nos tomam e até nos encantam, como esta enevoada mas enluarada noite que convida para voos nos recônditos da alma. Que pede um surpreendimento dos covardes e escravizadores padrões como se gritasse 'É preciso ultrapassar(-se)'.

E enquanto a cortina do novo dia não ilumina o rosto, aprontando com o sonolento despertar e afugentando os resquícios dos pequenos, pulsantes, mas resguardados indícios dos verdadeiros sonhos, a gente fica de olhos fechados. Faz de conta que dorme. Disfarça que a vida tropeçou e quase xingou e engoliu em seco para seguir em frente. Não se diz que, lá no cantinho, se permitiu sentir a dor que tumultuou a alma. Respira-se fundo, tenta-se preencher qualquer espaço raso ou profundo, se preparando para abrir as cortinas e, de novo, saudar o respeitável público.

E lava-se o rosto, para espantar o que não pode ocupar o dia, e enfrenta-se as realidades produzidas ou admitidas como se fossem ansiadas. É como um vício intrínseco. Mesmo esfacelando-o em milhões de pequenos e inofensivos pedaços, não se pode garantir a impossibilidade de que a sua regeneração instantânea ocorra em um determinado segundo onde a trama do destino nos coloque no palco dos acasos ou dos encontros. A inevitável negação de si talvez seja a única possibilidade para quem dirige a peça. E para todos que a assistem.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 17 de agosto de 2014.

* O termo originado do latim intrinsecus - interno, inerente, constitutivo - pode qualificar algo na parte interior de outra coisa e que é fundamental para a sua existência. O âmago, íntimo e profundo.
É o que se estabelece fora de qualquer convenção:
  • o valor intrínseco de uma moeda é o seu valor conforme o peso do metal precioso à cotação comercial.
  • anatomicamente, o que se origina e incide no local em que age: o músculo.
  • na Física, o que decorre de maneira igualitária; o semicondutor ideal sem quaisquer influências e/ou impurezas.

22 de jul. de 2014

Construtos

Construtos, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 22-07-2014.
Construtos, criado em 22-07-2014.

São os signos da linguagem que deram origem às ciências abstratas.
Uma qualidade comum a várias ações engendrou as palavras vício e virtude;
uma qualidade comum a vários seres engendrou as palavras feiura e beleza.
Alguém disse um homem, um cavalo, dois animais;
em seguida, alguém disse um, dois, três, e toda a ciência dos números nasceu.
Ninguém tem ideia de uma palavra abstrata.
Notaram-se em todos os corpos três dimensões, o comprimento, a largura e a profundidade;
tratou-se de cada uma dessas dimensões, e daí todas as ciências matemáticas.
Toda abstração não é senão um signo vazio de ideia.

(Diderot: O sonho de D’Alembert - Coleção Os Pensadores, p.280)
*


A estruturação de qualquer elemento exige alguns substratos comuns. Real ou imaginário, a percepção inicia o processo e o desejo o embasa. E essa tem sido uma questão que atravessa, literalmente, grande parte das áreas do conhecimento. Não há, de teorias a práticas, absolutamente nada que escape dessa formulação: somos fundamentalmente seres desejantes e por (e no) desejo produzimos cultura.

Alguns pensadores buscam apontar e visibilizar o processo de geração de cultura de um determinado grupo e a constituição de novos hábitos a partir dos interesses comuns. Outros, navegam na captura do desejo, na aculturação acrítica, onde a imposição mesmo que disfarçada a promove.

Da inicial necessidade de proteção básica da vida, criamos variações que chegaram até a não tão atual assim conquista de status, produzindo relacionamentos, objetos, linguagem, cerimoniais e determinantes ético-morais e religiosos. Todos são fabricados. Não são prévios, muito menos naturais. No entanto, pelo prolongamento da prática, acabamos por naturalizá-los e normatizá-los. O normal passa ser a nossa forma de falar, de ser e de estar, então, os padronizamos.

Um dia encontramos um estrangeiro — migrante ou imigrante em nossas terras — e descobrimos a alteridade como possibilidade, depois do estranhamento. Pontuo, aqui, o início do fim da teoria da normalidade.

Aquele que se dispõe a observar ou avaliar as diferenças poderá se sentir atraído a aprender com a nova forma. Esse desejo, estimulador do contato, poderá viabilizar diálogos não intermediados pelo conhecimento prévio dos vocábulos. Gesticulações, referenciações aos objetos e práticas, seguidos da palavra usada por cada um para o mesmo, dicionariza a relação.

Em pouco tempo, poliglotas constituídos dialogam e referenciam um mundo novo, cuja absorção dos novos padrões culturais é facilitada. Pode parecer complicado, mas é um fato corriqueiro e diário.

Estudiosos como Piaget apontaram a graduação na construção da inteligência utilizando o conceito de camadas sobrepostas e apontaram que – como em qualquer construção – uma absorção não concluída ou parcial poderia gerar as rachaduras na estrutura. Apesar de, em regra, incapazes de fazer ruir o edifício, impedem um avançar mais pleno da manifestação das capacidades individuais. Apontaram mais além, o processo explica a radicalidade da capacidade humana de adaptação.

Pense na maturação social, onde uma criança amplia suas referências da família e vizinhos, para a escola e para o mundo: conteúdos, costumes, interesses, conceitos e práticas diversos se presentificam e põem em xeque a unicidade dos valores recebidos. Por curiosidade, por avaliação, por necessidade e por participação, muitos são adotados momentaneamente ou absorvidos. O universo pessoal é expandido.

Esse processo é análogo aos estudos realizados por pesquisadores (cientistas ou não) no seu caminho de descobertas, de confirmações e refutações dos conceitos e valores vigentes. A expressão pensar fora da caixa denota esse conceito.

As ciências sociais e psicológicas estão incluindo a incapacidade de lidar com a questão da variação, da mudança, do aprimoramento ou da transformação como uma das causas da constituição da rigidez nas pessoas.

Seja pela radicalização ou pela inflexão, o mundo daqueles que se agarram ao constituído e determinado como padrão mostra o quanto as construções internas são frágeis. O terror à possibilidade de ruir o arcabouço por conta da troca ou retirada de uma peça, faz com que a rejeição total, intransigente e determinista de um modelo crie, não uma pessoa, um elemento repetidor, impedindo a evolução e o processo de individualização e realização pessoal.

O construto chamado fundamentalismo está carregado dessa processual formalização, que ignora os efeitos do que ódios, agressões, distorções e torturas podem causar aos seres humanos em prol da modelagem comportamental e de pensamento. Sua sobrevivência exige seres docilizados, cujo potencial transformador seja encapsulado em formulações prévias, frases repetidas, posicionamentos irrefletidos mas seguidos à risca. Isso pode ser obtido pelo discurso manipulador ou pela ação direta dos aparelhos de repressão. Em ambos os casos, o resultado é único e triste: quem sofre seus efeitos clama por liberdade, mesmo que silenciosamente.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 22 de julho de 2014.

* Diderot propõe a existência um nível organizacional da natureza, um verdadeiro sistema onde tudo está unido, uma cadeia contínua, das formas mais primitivas de organização da matéria até as mais complexas, nos domínios do humano.
Animado por um fluxo, como concebido por Heráclito de Éfeso (séc. VI-V a.C.), o universo é obediente às leis formuladas por Descartes para a matéria; é dinâmico e em permanente transformação, em vez de estático e criado como um conjunto de coisas fixas, como concebia a tradição aristotélica e escolástica cristã.

18 de jul. de 2014

Fragmentos recuperáveis

Fragmentos recuperáveis, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 16-07-2014.
Fragmentos recuperáveis, em 16-07-2014.

Da Vinci sempre fora um tema embaraçoso para os historiadores, especialmente na tradição cristã. Apesar do seu gênio visionário, era um homossexual assumido e um adorador da divina ordem da Natureza, dois "crimes" que o colocavam em perpétuo estado de pecado contra Deus. Além disso, as bizarras excentricidades do artista projetavam uma aura admissivelmente demoníaca: da Vinci exumava cadáveres para estudar a anatomia humana, mantinha misteriosos diários em uma ilegível escrita invertida, acreditava possuir o poder alquímico de transformar o chumbo em ouro, julgava-se até capaz de enganar Deus criando um elixir que adiava a morte, e as suas invenções incluíam horríveis e nunca antes imaginados instrumentos de guerra e de tortura.
A incompreensão gera a desconfiança, refletiu Langdom.
(Dan Brown - Código Da Vinci - edição especial ilustrada, p.52)

Há quem reclame de tédio, mas quer apenas novidades mais ou menos — do tipo que não altera o status quo padrão: ir para novos restaurantes e casas de show, nova tendência da roupa (agora a calça tá mais apertada e colorida!); a gíria, cantor ou banda da moda.

Os retornos constantes de tudo que marcou época, mesmo com pequenas modificações, são a marca da falta de construções realmente novas. Mas, quem as quer realmente?

Sendo franco, acredito que, no fundo, poucos gostam das alterações radicais das rotinas, do desconhecido, do que exige um esforço para se concretizar. O incerto carrega, potencialmente, o medo em sua composição, daí a resistência. Mas, se houver vontade de avaliar, creio que se perceberá que, para contornar a questão, a cultura dominante promove sempre a aproximação com alguma antiga radicalidade que foi apropriada pelo sistema, como o foram as culturas limítrofes do skate, do surf, do rock. Os novos, controlados e lucrativos esportes radicais.

Não é difícil você encontrar expressões com a expressão inglesa new — como foi com o new hippie — para caracterizar o controle. O que era uma marca registrada de um modo de ser aventureiro, o velho jeans amaciado no corpo, surrado com o uso até tornar-se puído, tornou-se uma calça novinha, produzida com as mesmas características - com um preço justo, por isso, é claro: sua pressa foi atendida.

Em um mundo orientado para produtos ou orientado para clientes e não pessoas, o new você já virou padrão: renove-se! A questão que se apresenta é que a proposta não propõe a existência de nenhuma mudança real, são apenas enfeites e penduricalhos no velho manequim — que continua o mesmo de sempre.

Não gostamos do medo, mas deveríamos, mesmo sendo ele paradoxal: se a sobrevivência é impossível sem ele, a impotência se sustenta nele. E você fica entre um extremo e outro, deslizando em função dos acontecimentos e das emoções.

A ousadia na vida é algo tão sui generis que as pessoas já adotaram a expressão isso não é pra mim, quando confrontadas ou incentivadas a tentar.

Então, e essa é a proposta dessa reflexão, não se preocupe, ouse um pouco mais, deixe cair alguns pedaços. Um dia você reabsorverá grande parte dos fragmentos que ficaram dispersos pela vida — repletos de histórias e emoções que o contagiarão de revivências. Os outros, os que não importam de verdade, é melhor que realmente não voltem.

Mas haverá, certamente, haverá uma questão a que você será confrontado: reconstruir, renovar ou construir algo novo?

Wellington de Oliveira Teixeira, em 18 de julho de 2014.

* O código Da Vinci, como livro ou filme, permite aventura e descobertas. Mais ainda, pensar em inventividade: o mundo do explorador de possibilidades, Leonardo, é uma mostra do espírito humano em sua incansável busca por transformação, aperfeiçoamento e expressividade. Todos os códigos apresentados na obra são fragmentos que precisam ser questionados, avaliados e aglutinados para criar um painel completo. Crítica à perda de reverência pelo sagrado, afloram mais que às instituições religiosas ou práticas perversas individuais. Encantadoramente subversivo.

23 de jun. de 2014

Desapropriando a própria imagem

Máscaras, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 22-06-2014
Máscaras*, criado em 22-06-2014.

A coragem de viver:
deixo oculto o que precisa ser oculto e precisa irradiar-se em segredo.
Calo-me.
Porque não sei qual é o meu segredo.
Conta-me o teu, ensina-me sobre o secreto de cada um de nós.
Não é segredo difamante. É apenas esse isto: segredo.
E não tem fórmulas.

(Clacire Lispector — Água Viva, p.59)


Todos já falaram de máscara — concordo. — das artes teatrais nas quais somos os figurantes e ela a protagonista. Afinal, a própria identidade nos é desconhecida.

Esse antagonismo — que se precipita e deságua das alturas de desejar um si mesmo — é não perceber ou aceitar a própria multiplicidade estrutural ou a pluralidade na singularidade. As muitas possibilidades existentes em cada um ou essa inevitável esquizofrenia.

As aceitáveis justificativas sociais, a farsa do cidadão modelo. A aparência é o palco pouco antes do fechar as cortinas e os bastidores assumirem, como sempre.

Aprovação social atrelada aos círculos familiares, profissionais ou de amizades é o motriz de todo tipo de aparato maquiador da vivência. O refinamento extremo do fingimento, em outras palavras, a cortesia da hipocrisia nas relações. As pequenas ou grandes omissões da própria motivação sempre covardemente oculta pela tão bem vinda interface descaracterizadora. Personas que se instauram como personalidade ou disfarces adotados pela impossibilidade de encarar o medo estonteante do suicídio social.

Máscaras não aderem ao rosto, à alma. São inflexíveis as contraposições ao fluxo do ser e estar pleno que impedem o afirmar-se: é fundamental impedir a transitoriedade e a flexibilidade no modo com que nos identificamos, a verdadeira oferta de cada encontro. Por favor, entenda: um nadador apenas o é quando na substância líquida. Depois que inventam o desportista, sua prática se torna a sua máscara e o domina e o engaja a uma forma modeladora de vida.

Toda escolha ou determinação de papel é apenas máscara aderente: até mesmo a maternidade. O fluxo existe, a conexão é plena. Isso é o que basta na relação. Tudo o mais são costumes, formas temporárias de agir — que, comprovadamente, em cada época ganha formatos diferenciados.

Mas as máscaras permitem interpretações variadas. As artes nos ensinaram que, como elas, são uma fala cifrada que pode ser exposta e ocupa o lugar do não dito: máscara não é maldita; é o mal dito, aquilo que fica encoberto. Toda obra-prima é o que foi oculto em grau máximo, do sofrimento e dor à paixão e alegria — tudo o que permitiu o surgimento de um artista.

Como tudo, a máscara também tem faces. Seu lúdico uso recreativo, como a brincadeira de heróis, é prova de lucidez. Aquele disfarce necessário para ser o mocinho de verdade e vencer o mal na calada da noite. O aprendizado do como, quando e onde permitir-se.

O mesmo não pode se dizer do disfarce do terno no calor tropical, o enchimento das lingeries, apliques e tudo o que é fashion (ou retrô). O não você diário, a sobredeterminação de um modo de ser que desapropria a própria imagem. Aquilo que com sua repetição produz o assujeitado, o reacionário, assim como todos os que não ousam tomar a vida nas próprias mãos: apenas uma máquina que o sistema mantém pois é produtiva e reprodutiva da escravidão.

Wellington de Oliveira Teixeira, entre 22 e 23 de junho de 2014.

* Jung avalia na Psicologia Analítica que carregamos psicogeneticamente um inconsciente que é coletivo, herdado dos ancestrais mais primitivos, perpetuado em cada nova geração. Persona, animus ou anima, sombra e Eu são os estágios do desenvolvimento, seus arquétipos universais.
  • Persona ou máscara são os vários papéis sociais, as relações intrapessoais ou interpessoais. Liga-se à habilidade de convívio e atuações sem se estratificar ou adotar definitivamente uma.
  • Anima constitui o lado feminino da psique masculina, o Animus o lado masculino da psique feminina, e seu desenvolvimento continuado permite relacionamentos mais plenos.
  • Sombra refere-se a parte evolutiva e mais profunda. Mais poderoso — e potencialmente mais perigoso — dos arquétipos: os ferozes e vorazes ímpetos animais do ser humano que precisam ser domesticados no indivíduo.
  • Eu como principal arquétipo organiza a personalidade humana, unificando e harmonizando os demais, atuando nos complexos e na consciência.
O objetivo de qualquer personalidade é o estado de autorrealização e de conhecimento do seu próprio Eu.

5 de jun. de 2014

A pele que cobria o monstro

Monstro atrás da pele, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 05-06-2014.
Monstro atrás da pele, criado em 05-06-2014.

Se buscarmos um paralelo para a lição da teoria atômica […]
[devemos nos voltar] para aqueles tipos de problemas epistemológicos com os quais já se defrontaram,
no passado, pensadores como buda e Lao Tsé em sua tentativa de harmonizar nossa posição
como expectadores e atores no grande drama da existência.

Niels Böhr (Nobel de Física, 1922) — Atomic, Physics and Human Knowledge, p.20 (*)

Todo rótulo é um crime contra o arbítrio por ser uma tentativa de usurpar a liberdade do outro, o que o torna livre: essa transmutação sui generis à humanidade.

Quantos tons de cinza você acha que eu deveria contar para dar conta da realidade. Você certamente já percebeu que nada é preto no branco (mesmo que você seja um adolescente idealista e tomado por uma causa!).

As vivências, em si, como letras no papel, são apenas um conjunto de símbolos que formam palavras. Mas cada uma não vale por si, depende do seu contexto, E contextos são — com texto ou não — indissociáveis de uma apreciação ou avaliação. Uma página em branco pode significar um 'não sei o que dizer'.

Em determinado momento você crê em algo. O que constitui em você essa crença está para além do que racionalmente você possa controlar: milhares de experiências que possuem um corpo como suporte — interagindo com as [d]eficiências que lhes são inerentes e estruturantes.

Ou você vai me dizer que cegos ou surdos ou paraplégicos constituíram o seu saber viver do mesmo modo que alguém que não possui essas questões para enfrentar? Posso questionar também com relação aos que constroem sua vida com base num lar amoroso e cuidadoso ou degradado por todo tido de má relações ou de drogadição.

Está mais do que provado que nenhuma estrutura, em si, é determinante do que alguém vai ser, crer ou viver. Há influência, e possivelmente forte, mas não é garantido porque simplesmente não é possível prever. Por mais que seja uma tentação acreditar, nada — absolutamente nada da ordem física ou emocional — pode ser determinante da construção de um ser.

Não sei se um monstro toma o corpo das pessoas ou se elas apenas retiram a pele que o cobria — me recordei da metáfora 'lobos em pele de cordeiro' —, mas todas as pessoas quando se transtornam se transformam diante de determinadas situações, especialmente das indeterminadas ou das que as surpreende.

Pense bem: todas! Isso soa muito mal. Provoca náuseas. É duro de tragar. Mas é a verdade. Variamos na escala da realidade: nem bons nem maus — simplesmente humanos.

Considerando as relações cotidianas, alguns são mais eficientes em cuidar da questão, alguns mais capazes de manter enjaulada a vilania, muitos deslizam ao sabor das intempéries ou das bonanças. E esse muitos somos eu e você. Não creio que o mal nos constitui, tampouco somos feitos apenas do que é bom. O custo que o dom do arbítrio exigiu foi esse: sermos estruturalmente neutros.

Repare que até aqui não citei espiritualidade (por favor, não se precipite com as críticas!), a estruturação genética e a apropriação individual de uma psiquê carregam esse fardo. Exatamente o dos vocábulos. Coloque o seu nome à esquerda, à direita os adjetivos e classificações. Isso mesmo, se dicionarize. Faça isso quando estiver alegre, o mesmo quando triste e a seguir com raiva. A transmutação que você sofrerá ainda não será suficiente para mostrar o quanto você pode deslizar nos significados que você mesmo entende como definidores de sua personalidade ou o seu si mesmo.

Imagine as seguintes relações: você + um desafeto; você + o amor de sua vida; você + seu mentor preferido; você + um criminoso. Você = você? o você é o mesmo que o seu ideal (Você)?

Mesmo que tente se dizer o tempo todo 'Vou Ser!', não é apenas improvável, é algo impossível de se obter porque em sua constituição está a escalaridade e a ressignificação. Explico:

— você pode ser mais ou menos bondoso, triste, saudável etc.;
— você pode ser outro de acordo com o encontro que efetua: encontros nos definem e espelham quem somos nos momentos de sua duração.

Depois a imagem borra, a estrutura se desfaz, você retorna à estaca zero. Outra oportunidade. Tudo de novo.

Todo novo, decida-se, escolha, lute e conquiste o que tornar-se.

Não é o simples 'fulano é bom e sicrano é mal' e, por mais que você queira rotular — porque isso enganadoramente parece facilitar a vida —, não basta. É o trilhar um aperfeiçoamento pessoal, de descoberta em descoberta o que chamamos de amadurecer. E a incongruência dessa questão é que ninguém se torna melhor porque maduro, mas porque decidiu — vez após vez — por dar um determinado direcionamento à vida e foi capaz o suficiente de manter a rota, mesmo com tantos desvios promovidos pelos obstáculos encontrados.

Viu? Livre arbítrio, não arbitragem. Não seja juiz de ninguém, nem de você mesmo.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 05 de junho de 2014.

* Em relação à questão epistemológica, sugiro a leitura do texto de Akiko Santos (Laboratório de Estudos e Pesquisas Transdisciplinares — UFRRJ): Complexidade e transdisciplinaridade em educação: cinco princípios para resgatar o elo perdido. Disponível no Scielo:
http://www.scielo.br/pdf/rbedu/v13n37/07.pdf/

3 de jun. de 2014

Posição, direção e determinação

Atomizando, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 02 de junho de 2014.
Atomizando, criado em 02-06-2014.

O homem é uma corda, atada entre o animal e o além-do-homem — uma corda sobre um abismo.
Perigosa travessia, perigoso a-caminho, perigoso olhar-para-trás, perigoso arrepiar-se e parar.
O que é grande no homem, é que ele é uma ponte e não um fim:
o que pode ser amado no homem, é que ele é um passar e um sucumbir.
[…] Amo Aqueles que não procuram atrás das estrelas uma razão para sucumbir e serem sacrificados:
mas se sacrificam à terra, para que a terra um dia se torne do além-do-homem.
Amo Aquele que vive para conhecer e que quer conhecer para que um dia o além-do-homem viva.
E assim quer ele sucumbir.

(Nietzsche — Trecho de Zaratustra, prefácio §4, ano de 1883)


Escolher um caminho a seguir é o que sempre recomendo a todos que se veem diante de escolhas muito díspares, ou que conflituam os sentimentos, pensamentos e relações sociais. E quando — quase sempre — ouço 'Falar é fácil!', sou o primeiro a concordar. Ainda assim, mantenho a proposição inicial.

Certa vez, alguém me confrontou com uma frase que soou o gongo interior: 'você é um masoquista!'. O porque de soar é inteligível, uma vez que em sociedade abrimos mão do desejo puro e simples em prol de uma coletividade. No meu caso, a de suma importância para mim — a família.

O quanto vale a pena ou não é algo variável. Encarar os momentos solitários tende a diminuir, enquanto os de convívio a maximizar. Certamente, a questão se espelha em cada um que encarou a questão — talvez, todo o mundo.

Direcionar as ações com base na razão pura e simples é o maior criador de recalques que conheço. Cada desejo reprimido se anexa aos anteriores acumulando mais um grau na escala da insatisfação. Certamente você conhece pessoas que julgam todo mundo o tempo inteiro, os primeiros a jogarem a pedra, os que ignoram seus erros apontado os demais. Devo dizer sinceramente: seja piedoso com eles, são os que mais estão sofrendo.

A questão se encaminha mais para como canalizar a energia do desejo, em que momentos acatá-la e como utilizar o potencial que lhe é inerente.

Para avaliar a proposta, não é necessário ir muito longe, já que alimentação é um exemplo simples e preciso: comer o que se gosta, sempre, gera problemas sérios. Basta avaliar as consequências — físicas, sociais, emocionais, financeiras e outras mais — para a si mesmo e para os que estão ao seu redor (em especial nos casos em que se torna uma questão de doença).

Tentei me posicionar a respeito, quando da criação da imagem (para ver esses detalhes, clique nela com a rodinha do mouse).
  • Sabe aquela plantinha do bem-me-quer—mal-me-quer?
  • Sabe a órbita que o elétron faz em torno do núcleo do átomo?
  • Já viu uma rosa dos ventos ou utilizou uma bússola?
  • Já encarou um paredão de rochas durante uma caminhada pela areia de uma praia?
Tudo isso me remete a posicionamento. Exatamente o que é necessário ter diante das questões da vida. Não se escapa: em cada situação encarada, haverá as perdas e danos como, também, seu oposto ganhos e restauração. Simultaneamente.

Fugir, fica claro por esse raciocínio, não resolve a questão, muito menos a adia — a faz piorar. É como o medo de um fantasma que paralisa. Só piora quando não encarado.

Todos temos nossos fantasmas e medos. Sabemos o terror que nos causam. Vi um filme em que ensinavam uma criança a ter coragem de se levantar da cama e acender a luz, quando sofria de terror noturno e tinha pesadelos imobilizadores e catalizadores de reações físicas muito fortes. Envolvia diretamente posicionamento e direção, junto com uma determinação construída por uma tática simples.

Com os olhos fechados, pense naquilo que tornou o seu dia mais legal, levante-se da cama e se prepare para ir em direção ao interruptor. Em 5, 4, 3, 2 , 1.

Abra os olhos, vá e acenda a luz!

Wellington de Oliveira Teixeira, em 03 de junho de 2014.

* Esse texto acabou antecipando o que gostaria de fazer para homenagear meus familiares que aniversariam no mês de junho.

17 de mai. de 2014

Emoldurando histórias

Emoldurando histórias, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 17-05-2014
Emoldurando histórias, criado em 17-05-2014

Ora, há diversidade de dons, mas o Espírito é o mesmo.
E há diversidade de ministérios, mas o Senhor é o mesmo.
E há diversidade de operações, mas é o mesmo Deus que opera tudo em todos.
Mas a manifestação do Espírito é dada a cada um, para o que for útil.
Porque a um pelo Espírito é dada a palavra da sabedoria; e a outro, pelo mesmo Espírito, a palavra da ciência; e a outro, pelo mesmo Espírito, a fé; e a outro, pelo mesmo Espírito, os dons de curar; e a outro a operação de maravilhas; e a outro a profecia; e a outro o dom de discernir os espíritos; e a outro a variedade de línguas; e a outro a interpretação das línguas.
Mas um só e o mesmo Espírito opera todas estas coisas, repartindo particularmente a cada um como quer.
Porque, assim como o corpo é um, e tem muitos membros, e todos os membros, sendo muitos, são um só corpo, assim é Cristo também.

(Bíblia— I Coríntios 12:4-12)


É tão bom poder registrar fatos da vida e realizar práticas que nos valorizam. Especialmente visando futuras boas recordações ou reacender sentimentos que produzem alegrias, reflexões e nos reafirmam a capacidade de superação.

Não. Isso não é um egoísmo, no sentido comum dado ao termo. É criar pequenos oásis na vida. Produzir estações aonde você pode ir para permitir-se, num breve momento de descanso, refrescar-se e reavaliar a jornada no arenoso cotidiano.

Nesta madrugada, aceitei a sugestão do Zidson Arduim e ouvi a gravação de uma palestra que recapitulava a questão do eu, com base nas práticas passadas (reconheço que eficientes à época), e que desqualificava algumas das teorias que embasam práticas atuais, em especial as que valorizam as capacidades e possibilidades de uma pessoa e incentivam seu desenvolvimento.

Exemplificando com inúmeros livros e projetos que visam auto-ajuda (adorei quando citou que esse auto relacionava-se ao faturamento do autor) questionou muitos destes ensinamentos. Me deterei na questão do espelho e do cultivo de um eu centrado em si mesmo.

De imediato, ponto para ele por ter encarado a questão do egocentrismo, remetendo-a à prática deletéria de glorificação da alegria e o denegrimento da tristeza e seu correlato na juventude contrapondo-se ao medo doentio do envelhecimento: um tudo deve estar maravilhosamente bem e belo para ser bom.

Fiquei, porém, detido a refletir sobre as consequências propostas por ele após a expansão do raciocínio inicial. Sinceramente, me vi tentado a dizer que usou de silogismo (premissa verdadeira, conclusões falsas ou não tão verdadeiras assim — por validarem apenas um determinado percentual do todo).

Questiono seu uso do texto bíblico do minimizar o Eu para que o Cristo sobressaia, uma vez que não foi contraposto aos que sugerem que o Cristo deve ser visto em você ou naqueles que propõem o investimento no crescimento pessoal (físico, emocional e espiritual) para tornar-se valoroso instrumento do Espírito.

É fundamental distinguir a vida centrada em um eu do imagético social (a todo custo, bem sucedido, lindo, sempre novo, feliz e disposto) do eu sustentador de um ser, aquele sem o qual a pessoa desaba, se desidentifica e perde a energia para vivenciar os acontecimentos da vida — tão bem representada pelo que considero ser a maior doença contemporânea: a depressão.

Dito isso, retorno ao que me propus escrever, isto é, produzir ações e pensamentos que me capacitem a encarar não apenas o cotidiano, mas constituírem-se um reservatório para aqueles momentos em que nos esgotamos em função das necessidades nossas e as dos que amamos.

Assumo de antemão que gosto da ideia dos quadros e das fotografias como uma alegoria desse pensamento. Geralmente porque estão associados aos nossos momentos de alegria, quando estamos descontraídos, acompanhados de pessoas que são do nosso agrado ou amadas. Uma pequena olhada e nos proporcionamos momentos de reconforto, sorriso, boas reflexões.

Produzir algo assim liga-se intimamente a uma atitude proativa de construir e vivenciar os momentos e permitir o cultivo de um eu não auto-centrado. Sólido em si, mas amplo o suficiente para entender que na composição com outros se dá uma multiplicação das próprias potências: capacidades que estão diretamente relacionadas à permissão de ser e estar compartilhando um mundo completamente imprevisível, extraordinário e infinito em possibilidades.

Meu ponto de vista defende que não é destruindo o eu, mas o qualificando que alcançaremos a verdade bíblica, pois nos aproximaremos dos parâmetros estabelecidos pelo próprio Cristo: como a si mesmo.

Sugiro que não deixe passar despercebido o fato de que ele estava nos dando a sua maior contribuição: o amor como a única e máxima referência da vida. Ele fez disso um revisionismo de toda a antiga lei — aquela do tirou-perdeu, matou-morreu, olho por olho.

O atributo que inseriu transforma-nos por uma nova perspectiva: a ampliação do entendimento de quanto melhor conseguir ser, quanto mais aprimoramento, quanto mais próximo da perfeição ou do máximo possível, melhor a contribuição realizada para toda a humanidade.

Nada mais do que construir um si mesmo amável, desejada e decididamente expansionista e coletivizador: Um por todos, logo, todos por um.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 17 de maio de 2014.

* Dom Juan questiona a vontade de simplesmente fazer desaparecer a angústia da vida e os sentimentos confusos sem nenhum esforço para tal — algo bastante atual e representado pela medicalização da vida.
Se por um lado, Em casos extremos, um drinque permitia a um homem um momento de paz e desapego, um momento para saborear algo que não se repete., por outro, utilizar-se sempre do mesmo artifício, é fugir da realidade:
Você é demais - disse ele. Daqui a pouco vai pedir um remédio de feiticeiros para remover tudo que o aborrece, sem fazer nenhum esforço de sua parte, apenas o esforço de engolir o que lhe for dado. Quanto pior o gosto, melhor o resultado. Esse é o lema do homem ocidental. Você quer resultado, um poção e você está curado.
(Carlos Castaneda — O Lado ativo do infinito, p.126-127).

14 de abr. de 2014

Quando a vida se desbota

Desbotando, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 14-04-2014.
Desbotando *, criado em 14-04-2014.

Mas quando a noite chega e eu não tenho mais pra quem fingir, só eu sei o que isso dói.
Eu te vejo sorrir demais e esse olhar que pode tudo.
E eu nem sei se acho graça ou não, porque eu sei, eu sei que lá no fundo,
sempre que a noite chega e você não tem pra quem fingir
Sempre que a noite chega, você queria tanto alguém igual a mim.
E a gente acaba a noite sempre assim:
bebendo orgulho e solidão, chorando em frente a televisão, mantendo silêncio pra ninguém ouvir.
Pra ninguém ouvir. Shh…

(Silêncio - Heróis da Resistência)


Quantas vezes você já viu fotografias do amanhecer? Geralmente, apresentadas com frases que realizam uma ode ao dia ensolarado que se inicia, definido como um espetáculo da natureza. Evidente que a luz tem um poder incrível de avivar as cores e suas tonalidades, destaca inclusive as áreas sombreadas. Em muitos, produz, também, o mesmo efeito nas emoções.

Quem já apreciou um aquário de peixes ornamentais provavelmente vai lembrar de como as cores de um peixe embelezam determinado local. Os que são iluminados, mais ainda.

Não sou biólogo, mas já aprendi que, no mar, quanto mais profundo se vai mais escassa é a iluminação, assim, deve ser extremamente difícil avaliar a coloração dos peixes - se é que ela existe.

Carl Jung também considerava esse fato com relação à psique e questionava: de quais instrumentos dispomos para alcançar determinadas áreas dentro de nós mesmos nesta busca da compreensão de quem somos e o que desejamos? O quanto eles podem colaborar para destacar os elementos encobertos até mesmo de nossa consciência?

É preciso ter clareza de que há diversos níveis de situações. Em algumas delas devemos ser bastante cuidadosos, inclusive buscar ajuda profissional para encará-las. Uma delas é quando ocorre níveis crescentes de depressão.

Se eu tivesse que explicar depressão, sem usar os termos mais específicos, diria que é um processo que ocorre e reduz, em nós, os sentimentos positivos em relação à vida; desbota o colorido que embelezava as coisas ao nosso redor. E, mesmo que esteja tudo maravilhoso, não conseguimos compartilhar dos sentimentos de todos. Nos tornamos um peixe sem cor no aquário.

Nas várias vezes em que me dispus a participar de um processo colaborativo ou psicoterápico, me deparei com a mesma questão: é importante não complicá-lo, mas é preciso facilitá-lo sem banalizar.

Se encontro questões mais superficiais - no sentido de apreendidas com mais facilidade - no dia-a-dia, evito utilizar de instrumentos padrões. Para que 'psicologizar' nesses casos? Todos podemos fazer um exame das situações que vivemos; compartilhar questões que nos afligem; evitar enfrentamentos desnecessários; cuidar melhor de nossa saúde física e mental por meio de atividades físicas e recreativas. Estes são instrumentos que podem ser considerados terapêuticos numa forma ampla.

É porque eu gosto quando as pessoas encaram suas dificuldades e tentam por si mesmas ultrapassá-las que incentivo esse posicionamento perante a vida. Tenho consciência do poder que cada um possui de se construir e reconstruir e sou coerente com esse raciocínio. Colaboro na avaliação da situação e deixo o barco seguir seu rumo: em um mar tão grande, é quase impossível não haver peixes para pescar.

Sou muito fã das relações de amizade, mas avalio que sejam um suporte maravilhoso, desde que por alguns momentos. Processos de dependência nunca devem ser encarados como benéficos. Divida as suas questões mas não aceite ficar na situação de 'coitadinho'. Pena pode ser o pior sentimento que alguém lhe dedique.

Crie coragem, pegue seus pincéis e vá colorir a sua vida!
Wellington de Oliveira Teixeira, em 14 de abril de 2014.

* Para ver detalhes do peixinho, clique na imagem.

17 de jan. de 2014

Impronunciável

Revolução amorosa, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 11/01/2014
Revolução amorosa, criado em 11/01/2014.

Uma Revolução Amorosa não pode se servir de armas, batalhas, jamais promoveria uma guerra, nunca derramaria uma gota de sangue. A Revolução Amorosa que imaginamos aproveita a Revolução Sexual iniciada há meio século para ir além do corpo exposto e eroticamente ativo. Quer chegar à alma e abrir as defesas que nos impedem de amar de modo amplo e intenso. A trajetória é desenvolvida por exercícios emocionais que questionam condutas e valores morais, substituindo-os por referenciais éticos. Uma ginástica afetiva que gradualmente substitua a moral pela ética pode representar tempo e espaço estendidos e suficientes para que nos aproximemos da Era Amorosa.
(Joaquim Z. B. Motta - A Moral do Amor - da Revolução Sexual À Revolução Amorosa


A experiência da vida é algo extremamente sutil*, não apenas por ser uma apropriação única de vivências. O toque do que nos escapa, do intangível e das considerações sociais pode tornar-se um fardo. E pesado.

Viver o silencioso mundo do oculto e abrigar a terrível missão da omissão, em si, já desconstrói qualquer fortaleza e corrói os escudos defensivos projetados pela razão.

Não é apenas uma questão de valoração. Certo ou errado - a maioria das vezes, neste caso - é apenas reflexo de uma moralização do encontros.

Acontece que a proposição de vivência compartilhada é singular, principalmente se incluir o obscuro mundo dos desejos, aspirações e pirações que a fantasia do viveram felizes para sempre produz.

É provável que seja possível desgrudar o desejo de ter prazer da fantasia do relacionamento perfeito e da apropriação do sentimento do outro. Para alguns que consigam, deve ser a chave para um respeitável modo de associação. Algo como aquela construção social do após a chama da paixão a amizade sustenta.

Ponderar o quanto há de disponibilidade, em si mesmo, para além de aceitar a trajetória do outro e permitir-se o alegrar-se com o caminho que ele percorre, o fazê-lo de forma abnegada e tranquila vivenciando isso sem intromissão dos próprios anseios, é algo que pode ser considerado uma tarefa impossível. Talvez, por isso muitos encaram esperançosamente o desafio. Um 'vamos ver no que dá' quase que inconsciente.

Como tudo na vida, provoca um desgaste. Só que, desta vez, na superfície da alma. E não é de forma alguma imperceptível ou desprezível. Muitos degeneram. Muitos perdem sua propriedade. Muitos se descaracterizam a ponto de não mais encontrar seus referenciais próprios: sucumbiram ao outro e ao seu desejo.

Uma questão que precisa ser solucionada é a de em que medida o confundir-se com o outro, o integrar-se ao outro e a entrega de si não despersonaliza.

Alguns, por conta de um determinado reforço social, não se ressentem da perda de si: autômatos em prol de fazer funcionar um relacionamento, esquecendo que não há relacionamento quando apenas uma parte cede, abre mão ou se abnega. Isso ficou claro nos relacionamentos constituídos durante os últimos séculos.

Como fruto da premissa da negação de si, juízes do comportamento alheio. Julgadores de práticas diferenciadas, mesmo quando escamoteado pelo verniz do desejo do melhor para alguém.

O mundo das relações não é mais o mesmo: as novas construções são determinadas pela exigência de equilíbrio entre as necessidades individuais e as do relacionamento e não há mais o temor do afastamento quando isso não ocorre.

A rejeição aos ditames morais que desqualificavam os que se separavam é algo que se estabeleceu em função de um desejo de encontrar, ou ver alguém amado encontrar, a felicidade compartilhada.

Mas alguns casos ainda não chegaram a receber o benefício dessa nova prática. Ficam escusos, ficam malogrados num gueto de relações indizíveis e se sustentam no apesar de, numa coragem de sobrepujar o imposto, o predeterminado.

Mas, mesmo entre esses, é possível aplicar essas reflexões: todos carregam muito de séculos de representações oficiais. A construção do novo não acontecerá do nada e nem será um decreto que acabará com as regras anteriores.

Sem questionar as diferenças, nem me prender a nenhum conceito pre-estabelecido, me permito avaliar o que percebo, o que vejo, o que não vejo mas surge e se expressa no apesar de. Talvez minha prática como psicólogo ou pensador seja algo a que não posso escapar. Talvez a minha vivência compartilhada seja um elemento provocador. Talvez haja tantos 'talvez' que eu me perca na tentativa de elencá-los, simplesmente para tentar justificar um texto, uma proposição, uma provocação das coisas que quando me pegam e não me soltam me levam às últimas consequências para tentar falar o impronunciável.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 17 de janeiro de 2014.

* A vida tem notas como de perfumes.
Perfumes são como fogos de artifício e sua graduação: explode com as notas de cabeça (o detalhe marcante do primeiro segundo), enriquecendo seu efeito com as notas de coração até que as notas de fundo o mantém como um rastro em nossa recordação.

21 de nov. de 2013

A spinozidade da vida

spinozidade, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 21/11/2013
Spinozidade, criado em 21/11/2013

Não é por julgarmos uma coisa boa que nos esforçamos por ela, que a queremos, que a apetecemos, que a desejamos,
mas, ao contrário, é por nos esforçarmos por ela, por querê-la, por apetecê-la, por desejá-la, que a julgamos boa".
Espinoza, Ética, parte 3 prop. 9 esc.

A cada novo dia, outra teoria clássica é derrubada. Fundamentos que nos embasaram o pensamento, construídos a partir de definições pré-estabelecidas, perderam seu poder sustentador.

Bem, muitos não gostam e nem desejam aceitar que as definições que fizer se perderão com o tempo. Talvez, por isso, a temporariedade da construção do pensamento como um enigma é o que se propõe para nós outros.

Da física e da química que aprendi no fundamental e no secundário quase nada mais resta de pé. Que bom! Não tenho que me estabelecer como base de estrutura sólida, imutável, independente da variação que se estrutura no momento.

Pego o spin como exemplo: ele definia a direção do giro de uma partícula atômica. Portanto, seu campo magnético. Mas (e físicos, por favor, me ajudem), essa é uma visão muito estreita da realidade, uma vez que o fator giromagnético depende de carga, da espécie de partícula, da vetorialização e angulação, etc.

Me permitam utilizar essa entidade matemática e suas consequências como apoio para repensar meu caminho.

Em cada época, as ondulações do mar da vida produziram as condicionantes de minha apropriação da realidade. Houve épocas em que a dor era tão poderosa que nublava qualquer tentativa de raciocínio, mas o pensamento se estabelecia e produzia o necessário. Aconteceu, da mesma forma, quando era a alegria que assomava o terreno e quando todos os meio-termos se apresentaram, também.

Quem ou o que sou está diretamente relacionado com isso. A vida é isso. Momento.

E como uma mecânica quântica, o campo magnético da vida (que eu adotei com o nome de campo de possibilidades) proporciona e propulsiona atitudes, atos e encontros.

Meus queridos amigos mais jovens têm dito que me tornei hermético e com isso tenho produzido uma escrita obscura para eles. Talvez. Mas o simples preto no branco não se estabelece mais como parâmetro para minhas interpretações da realidade.

Os gestos que meu corpo aprendeu tiveram que receber adaptações ou reconstruções. Fiz o mesmo com meus julgamentos.

O olhar que produzo, diariamente, como realidade é apenas isso: uma produção e não é algo em si. O si, aí, sou eu. A realidade em mim e para mim.

Meu mundo se expandiu a ponto de acoplar outras realidades e a diferenciação se tornou o ponto central para qualquer raciocínio.

Gosto muito da ideia dos criacionistas de que Deus não repetiu nada, produziu a diferença em si, no mundo e nos relacionamentos. A beleza que observamos e vivenciamos se sustenta nisso.

O modo como cada um se propõe a vivenciar, a partir de suas próprias construções de mundo uma determinada realidade, é algo que cabe exclusivamente a essa pessoa. Assim, nossas valorações sobre o outro, seus atos, suas características acabam se tornando nada mais que uma forma de incluirmos a sua participação em nosso mundo.

Tenho sido conhecido como um ativista, especialmente com relação à Educação que considero a pedra fundamental na abertura dos mundos existentes em cada ser. Vou para a vida, participo de discussões, enfrento cacetetes por acreditar nisso.

E agora, nessa etapa de uma jornada que me é mais surpreende por não ter que se estabelecer em instituições estruturantes, e por possibilitar as (des)cobertas e (des)construções, eu honro os vínculos estabelecidos sem os laços que aprisionam. Sou grato pelos encontros que tive e por aqueles que se estruturaram de tal forma que estão aí na ordem do mundo. E do meu mundo. Sem nenhuma obrigação ou determinação de modo.

Talvez, uma das maiores conquistas da minha vida tenha sido essa: adotar, como prática, esse respeito ao tempo do outro, do momento do outro, e de estar aberto ao encontro - quando este se apresenta como possível, viável ou necessário.

Apenas uma visão (uma dentre tantas outras) que vou adotando conforme o aprendizado do ser e sua completude o exigem. Plenitude não é mais uma palavra para mim. É um desafio que altera o meu modo operandis para ser e estar de um modo pleno nessa ordem que a Ordem me permitiu vivenciar.

Se isto servir para dar partida para um outro ou novo pensamento, fique a vontade. Compartilhar é algo que me faz bem.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 21 de novembro de 2013.

* Li na wikipedia que o Spin não possui uma interpretação clássica, ou seja, é um fenômeno estritamente quântico, e sua associação com o movimento de rotação das partículas sobre seu eixo - uma visão clássica - deixa muito a desejar.

** Baruch Spinoza foi um dos grandes racionalistas do século XVII dentro da chamada Filosofia Moderna, juntamente com René Descartes e Gottfried Leibniz.

16 de jun. de 2013

Pense numa história sem fim…

História sem fim, criado Wellington de Oliveira Teixeira, em 16/06/2013
História sem fim, criado em 16/06/2013

Diz a tradição que, no segundo antes de nossa morte, cada um se dá conta da verdadeira razão da existência.
E nesse momento nasce o Inferno ou o Paraíso.
O Inferno é olhar para trás nessa fração de segundo
e saber que desperdiçamos uma oportunidade de dignificar o milagre da vida.
O Paraíso é poder dizer nesse momento:
"Cometi alguns erros, mas não fui covarde. Vivi minha vida e fiz o que devia fazer."
(Aleph - Paulo Coelho)

A coragem de viver: deixo oculto o que precisa ser oculto e precisa irradiar-se em segredo.
Calo-me.
Porque não sei qual é o meu segredo. conta-me o teu, ensina-me sobre o secreto de cada um de nós.
Não é segredo difamante. É apenas isto: segredo.
E não tem fórmulas.
(Água Viva - Clarice Lispector)


É preciso ser criativo, dia após dia, para enfrentar a multidão de acontecimentos que se encara quando há o desejo de estar vivo e não de apenas sobreviver.

Não creia ser esta uma tarefa que alguém possa definir como fácil. Quanto mais experiência temos (nas entrelinhas, mais velhos ficamos) maior o entendimento de que a maleabilidade é uma ferramenta maravilhosa para lidar com as questões que nosso desenvolvimento pessoal propõe, mas como é difícil aprendermos a utilizá-la!

Pode ser uma suposição inexata a que faço, mas, vai precisar de um bom jogo de cintura qualquer um que busque ultrapassar aquelas determinações imbecilizantes e paralisantes que baseiam a vida daqueles que têm medo de tentar, buscar e descobrir motivos e razões antes de, efetivamente, adotar um pensamento ou uma prática.

Tudo bem, a experiência ancestral que nos foi transmitida por meio de costumes e práticas (ou mesmo a genética) tem um impacto grande em nossas construções de valores e com eles os modos de nos conectarmos a determinados grupos sociais e à sociedade como um todo. De forma alguma quero propor um abandono dessa herança.

Desde aqueles pequenos cuidados com a saúde como um chazinho, a canja, a maravilhosa combinação do feijão com arroz brasileira e tantas outras, até a legislação que nos rege o convívio social, foram séculos de aprendizado do tipo prático que só agora recebem atenção das ciências e comprovação oficial.

Mas, e com muito cuidado expresso isso, aquele aprendizado poderia ser outro em outro contexto. E, com os instrumentos que dispomos atualmente, cada um de nós - e não apenas os cientistas - pode fazer suas próprias inferências, descobertas e, especialmente, reavaliações.

Por exemplo, a lógica que possuíamos de enviar mensagens é clássica: papel, caneta ou máquina de datilografar, envelope, selo e Correios, prazo de chegada e prazo de retorno da mensagem. Tudo transformado com o telefone e as mensagens eletrônicas (famosos e-mails, no inglês). É impensável para a nova geração a lógica simples que existia. E com razão: diante de instrumentos novos devem surgir práticas novas.

Por que, então, não somos capazes de nos atualizarmos em tantos outros aspectos? Por que a contextualização não faz parte de nossa vida? Por que aquela velha e querida ranzinza não cede lugar às novidades, às invenções, às transformações?

Tudo bem. E vou concordar completamente com aqueles que pensaram que é preciso avaliar todo e qualquer novo comportamento, o novo em si não é sempre o melhor.

O melhor exemplo que encontro é com relação aos produtos descartáveis e os com obsolescência programada (data de validade). Se antes, um eletrodoméstico durava a vida do seu comprador, isso mudou muito. As lâmpadas duravam séculos, hoje, se muito, um ano. Antes um produto que apresentava defeito era consertado, hoje há o estímulo para comprar o novo e descartar o com problemas.

Certamente essa mentalidade nova nos trouxe questões a serem avaliadas - entre elas, uma bem importante, a dos relacionamentos.

Mas, como tudo que é novo, é necessário um tempo de adaptação, de descoberta da melhor forma de uso e da utilização consciente.

E é aí, que os que desenvolvem em si uma preguiça mental, emocional e até espiritual, se atém ao passado, ao já determinado e o transforma em fixidez, esquecendo que ele foi fruto de mudanças.

Bem, eu comecei pedindo para você pensar em uma história sem fim, não foi? Pois é. Essa é a sua história. E é o seu encontro com a vida e sua participação nas redes de interconexão deste mundo que pode fazer dessa história algo pobre e chato ou algo rico onde cada episódio é capaz de produzir uma imensa vontade de ir adiante e de descortinar os horizontes que trará o capítulo seguinte.

Repito, e dessa vez com uma ternura que poucas vezes possuo, tome a sua vida nas suas mãos com carinho, aceite o desafio de refazer-se diariamente, construa algo novo que fique como uma marca sua para quem vier junto ou depois. Todos precisamos ir ao encontro de nossa própria plenitude como ser. Para alguns que acreditam de uma determinada forma eu diria: um guerreiro que alcança estatura da perfeição.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 16 de junho de 2013.

Sabe aquela vontade que dá de apreciar um bom vinho, saboreando os detalhes de uma boa massa? Não permita a velha e horrível máxima 'vontade é coisa que dá e passa'.

23 de mai. de 2013

Egometria

Egometria, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 23/05/2013
Egometria, criado em 23/05/2013.

Um guerreiro aceita seu destino, seja qual for, e o aceita na mais total humildade.
Aceita com humildade aquilo que ele é, não como fonte de pesar, mas com um desafio vivo.
É preciso tempo para cada um de nós compreender esse ponto e vivê-lo plenamente.
Eu, por exemplo, detestava a simples menção da palavra humildade.
Sou índio e nós índios sempre fomos humildes e nunca fizemos outra coisa senão curvar a cabeça.
Pensei que a humildade não fazia parte da vida de um guerreiro.
Mas estava enganado! Hoje sei que a humildade de um guerreiro não é a humildade de um mendigo.
O guerreiro não curva a cabeça para ninguém, mas ao mesmo tempo não permite que pessoa alguma curve a cabeça para ele.
O mendigo, ao contrário, prostra-se de joelhos por qualquer coisa e lambe as botas de quem quer que ele considere superior;
mas, ao mesmo tempo, exige que alguém que lhe seja inferior lhe lamba as botas.

(Porta para o infinito - Carlos Castaneda)

A questão da superioridade é algo que permeia os conceitos do cotidiano de nossa sociedade. Aprendemos muito cedo na vida que devemos respeitar e aceitar sem questionar as determinações daqueles que estão no comando. Em nenhum momento, a avaliar como surgiu esse comando ou como passaram a ocupar essa posição os seus detentores. Restos de nosso recente passado militar ditatorial. Mas todos sabem que os sujeitos do domínio econômico têm produzido as condições favoráveis para que seus comparsas sejam eleitos e os retribuam com favorecimentos e enriquecimentos.

Nós brasileiros (estrangeiros, também) sabemos que o poder é ocupado - na maioria das vezes - por quem se resigna aos ditames de alguns endinheirados. Sua posição é algo frágil, sustentada por escusas trocas de favores. Então, para que o respeito?

Nossa forma de educar não privilegia as diferenças e o entendimento das consequências dela. Se assim o fosse, diríamos para cada criança, no momento de sua descoberta: veja o quanto você já aprendeu e como é capaz de decidir e agir. Continue assim e conquiste as suas oportunidades para realizar os seus desejos. Não. Não é assim que, nem mesmo aqueles que se dispõem a tal projeto educativo, o fazem.

Não somos ensinados a entender nem a ensinar que a maturidade ou a experiência é um estado possível de ser alcançado e, sim, a querer obter status social.

Vestimos nossas crianças com roupas que as adultizam e achamos normal. Elas precisam parecer e agir como celebridades. Alguém já viu alguém ensinando que ocupar uma posição social é algo que para algumas pessoas é importante - outras desejam outras coisas que também são dignas e valorozas?

Nosso método de valorizar posições é definido pelo conjunto de referências sociais da riqueza: a aparência diz quem se é; esquecemos de valorizar o ser e maximizamos o valor do ter; potencializamos práticas que extinguem a expressão individual, os sonhos pessoais em prol do valor do contracheque; legitimamos o valor absurdo de determinados produtos, nos tornamos painéis ambulantes de algumas marcas; vamos aos lugares onde a comida só prejudica a nossa saúde por que está na televisão e repetimos os jargões preconceituosos das telenovelas.

E os privilegiados, que geram filhos também já privilegiados, são legitimados no poder e todos dizem Amém!

Wellington de Oliveira Teixeira, em 25 de maio de 2013.

As manipulações por parte de alguns políticos de base religiosa sobre incautos é algo que assusta. Sentem-se tão confortáveis com o poder, e nem se preocupam se são, também, apenas um joguete nas mãos dos controladores do mundo, desde que possam tirar um pouco o seu quinhão.
Ah! se Jesus passasse por aqui para expulsá-los do templo (- e quem sabe do Congresso!).

15 de nov. de 2012

Super são, não supressão

Supressão*, criado em 15/11/2012

Precisamos transformar a realidade deste mundo não com mais ódios e preconceitos.
Devemos trazer ideias novas e defendê-las com bons argumentos.
Negar outras ideias não nos leva a nada além de um fundamentalismo.
E como me entristece ver o ódio que tem sido gerado por tanta gente no mundo
pela incapacidade de respeitar o pensamento alheio
e de entender que cada um está num determinado patamar de seu desenvolvimento pessoal
e precisa, mais do que qualquer outra coisa, de estímulo para ir adiante
e descobrir seus valores e construir algo bom para si e para os que estão ao seu redor.


Quando não percebemos a cooptação de nosso pensamento, a supressão de nossa capacidade crítica provoca uma lacuna que é capaz de anular ou mesmo extinguir o respeito e o amor ao próximo. A isso eu chamo de aprisionamento da alma.
Wellington de Oliveira Teixeira

Não sei bem o que está acontencendo atualmente (já há muito tempo, talvez) quando uma certa força produtora do nada anda permeando os pensamentos e as vontades, principalmente de uma determinada juventude.

Penso, reflito, tento fazer uma avaliação cuidadosa que não busque no saudosismo uma referência, provoco um rearranjo do meu pensamento e principalmente das estruturas das minhas lógicas, tudo em busca de produzir um pouco mais de clareza sobre esse contexto de realidade aonde os jovens perderam as esperanças, os ideais, projetos políticos e estão se agarrando às correntes de pensamentos fundamentalistas de forma acriteriosa.

Essa vontade me tomou a alma a partir do momento em que um menino - que se tornou um sobrinho de alma há alguns anos atrás -, de uma hora para outra, começou a apostar as suas fichas em frases e pensamentos extremamente fundamentalistas. Numa linguagem que historicamente aprendi a usar, direitistas, muito próximos de fascistas. Mas, aceito de bom grado evitar esses termos daqui para adiante, em prol da busca de conciliar as diferenças e evitar as forças que estão esgarçando as linhas de contato.

Quando conheci o Francis Lauer, cujo nome de usuário numa rede de chats antiga (mIRC) era Zack-, me encantei com a sua capacidade, generosidade, força de vontade e busca de conhecimento.

Na época, ele era um adolescente que vivia alguns conflitos e buscava ultrapassar algumas questões de vida. Eu, buscava algumas teorias e pensamentos que embasassem aquilo que eu chamava de magia da vida.

Após o falecimento de meu Bruninhu, tristeza e uma certa falta de vontade me afastaram das salas de bate-papo e de muitos convívios, do dele não.

Vi, com atenção e preocupação, os novos passos de seu caminho. Busquei me inteirar das novas formas de pensamento, de religiosidade, de escolaridade, com o objetivo de estar pronto a compartilhar, sempre que solicitado por ele, das questões que o atravessavam.

Considero que fizemos um percurso muito bonito de amizade e respeito, independente da distância que existe entre Santa Maria (RS) e São Gonçalo (RJ). E, até então, não houve nada que tivesse conseguido atravessar o bom relacionamento e confiança que partilhávamos.

Hoje, já um jovem adulto, vi a transformação de seu pensamento e propostas de vida. Algumas questões que eu tranquilamente afirmaria serem opiniões e crenças pessoais que não denunciavam nada além de sua busca por expressão, de valorização da vida, e de sua fé (coisas que, a mim, sempre provocavam respeito) mudarem para posicionamentos bastante radicais.

Percebi que um determinado pensamento passou a ser dominante. Não o seu, mas o de um certo grupo que se aglutina sob o nome fiat libertatis. Do que pude observar, nas postagens no facebook, um grupo de políticos e empresários que defendem práticas e conceitos sociopolíticos bem ortodoxos e conservadores que está expresso no lema que adotam: conservador nos costumes e liberal na economia. Coisa até comum para quem quer sacralizar suas ideias, utilizam-se de frases em latim para dar um verniz aos seus posicionamentos e pronunciamentos. Em português claro: fundamentalismo.

Buscando ser cuidadoso no meu posicionamento, pude observar como a defesa da vida, na qual o Francis se engajou, expresso contra a prática do aborto, se expandiu para posicionamentos políticos e capitalistas, em alguns momentos beirando ao contraditório.

Em um desses momentos, expressou que era melhor que crianças trabalhassem nas fazendas em regime análogo à escravidão do que estarem em uma escola, já que, neste governo, estariam aprendendo o socialismo ou o comunismo - algo inaceitável na visão deles.

Por me posicionar, como sempre fiz, contrário à essa visão, no dia 28 de outubro, ele simplesmente não quis mais ter-me na sua lista de contatos do facebook e, pelo que posso avaliar, como amigo.

Meu maior medo é que - apesar de tão talentoso como é - ele perca o rumo da vida que estava construindo tão bem: uma busca incessante por crescimento pessoal e a proposta de fé que abrangia uma prática consciente de compreensão. Mais que isso, uma visão ampla, em que respeito e amor ao próximo eram partes integrantes e fundamentais.

Mas quero crer que talvez eu esteja exagerando um pouco e a minha preocupação e carinho tenham me levado a imaginar mais do que a realidade possa me oferecer como visão. Que meu guri esteja vivendo um percurso necessário ao seu crescimento pessoal que, logo logo, será ultrapassado e do qual se erguerá fortalecido e pronto para continuar o exercício do amor e respeito ao próximo acima de qualquer convenção social.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 15 de novembro de 2012.

*Supressão: ação ou efeito de suprimir; eliminação, lacuna, omissão, abolição, anulação, cessação, derrogação, extermínio e extinção.

6 de out. de 2009

Poderia ser diferente

Focinho, criado por Alexander Kharlamov Focinho, criado por Alexander Kharlamov*


"…vai dizer que você prefere o ódio ao amor? Então neguinho, me diz, qual é?"
(Qual é? - Marcelo D2).


Não!, é algo inteiramente distinto do ódio o que nos faz ir adiante, aprender. Mas acredito que o ódio seja a mais primitiva forma de aprendizado: com a dor.

O ódio, em si, não ensina, ele causa o sofrimento e a dor, estes sim, são capazes de trazer algum aprendizado; o mais básico, do tipo 'doeu, eu evito'. Já levou um choque? Já se queimou? Já tropeçou?

O ódio é um mecanismo de autodestruição. É um modo de usar a energia da vida para desfazer a vida, transformá-la em partes menores, rompendo os encontros que, acumulados, aglutinam e geram novas formas de ser e estar no fluxo, no complexo energético que é este mundo.

Não é preciso ser um gênio para perceber que há formas mais elegantes, elevadas, eloquentes de se aprender que não a pelo ódio. Mas quão difícil é acessá-las conscientemente e optar com convicção por essas vias.

Todos ainda carregamos uma espécie de primitivismo espiritual, uma barbárie em nossos elementos constituintes, algo de que precisamos apenas para dar os primeiros passos e que logo se tornou obsoleto diante dos novos instrumentos ao nosso dispor - obtidos após os aprendizados iniciais da vida.

É como uma tralha que enche de peso a nossa bagagem e impede um caminhar mais confortável e, no entanto, parece que nos apegamos a ela.

Como é difícil entender: aprendeu, segue adiante, descubra novas formas de aprender. A experiência absorvida se tornou a parte integrante de nós que nos ensina a não repetir os erros anteriores. Não será necessário usar os mesmos mecanismos ou deixá-los a disposição para um possível uso futuro.

Alguns argumentam que nosso cérebro-quase-pré-histórico é o que nos mantém vivos, pois é acionador dos reflexos nos momentos de perigo. E a nossa intuição não seria um elemento muito mais eficaz para nos proteger, nos resguardar quando damos ouvidos e atenção necessários?

A adrenalinha da raiva é o melhor meio de tornar o corpo pronto para responder às agressões externas? Será que o ataque é a melhor defesa? Será que já não acumulamos o suficiente para não invadirmos o espaço alheio e provocarmos esse tipo de reação de ataque para a defesa? Respeito aos seres não garante atitudes melhores de ambas as partes, de modo a evitar a maioria dos conflitos que existem no mundo?

Qualquer que seja o sistema político, econômico, religioso, ele é apenas uma forma de interação social de modo a podermos compartilhar nossas vidas, criarmos os meios de colaboração e de desenvolvimento. São instrumentos e não um fim. O que quer que seja mais essencial para cada um de nós não está atrelado a nenhum deles.

Por que, então, somos tão sectários? Quem gosta do vermelho, e não do azul, não presta? Quem não torce pelo mesmo time, quem não está na mesma religião ou professa nossos conceitos filosóficos não serve? Geramos guerra e discórdia, diariamente, por optarmos por viver assim.

É isso mesmo! É opção. Todos podem agir por interação, compartilhamento, visando o desenvolvimento mútuo e a superação dos obstáculos coletivamente.

Indivíduos, sim, mas partículas de um todo. Partes da mesma natureza que luta para alcançar equilíbrios cada vez mais bem sucedidos. Exercitando uma troca de energia constante, onde o que eu tenho de melhor e em maior quantidade, meus dons e minhas capacidades, vão em auxílio a outro que o possui em menor escala e, num fluxo maravilhoso, este que recebeu colabora com o que um outro não possui: um organismo vivo, onde cada peça é fundamental e essencial; nem melhor, nem pior.

Imagino esse movimento como um fluxo de energia que percorre todo o fio, se transmitindo por meio de cada parte, numa grande conexão universal.

Comecei falando de ódio porque uma ideia me fez tremer quando pensei nesse incrível mecanismo de doação universal (amor é uma boa palavra para ele?), algo que não havia pensado antes, em toda a minha vida: o ódio também se propaga dessa maneira só que, em vez de acrescentar, ele retira algo de cada elemento, que ficando deficiente retira do elemento a seguir, como elos de um cadeia que aprisiona e suga sempre, sem acrescentar nada.

E quanto mais vejo ou ouço ou participo de um fluxo de ódio (roubos, assassinatos, guerra, discórdia, ira), ativa ou passivamente, mais eu me envergonho com o pouco que contribuí para a transformação dessa realidade e desejo, ardentemente, me aperfeiçoar para poder contribuir um pouquinho mais com a vida.


Wellington de Oliveira Teixeira, em 06 outubro de 2009.


* Desculpem-me aqueles que esperavam uma arte minha, aqui. Ódio é um tema muito difícil pra mim.