Pesquisar este blog

Mostrando postagens com marcador morte. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador morte. Mostrar todas as postagens

8 de mar. de 2016

Morrer sem perceber

Avançando, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 04-02-2016.
Avançando, criado em em 04-02-2016.

Desisti de esperar que o caranguejo aparecesse. Não que vê-lo não fosse me deixar feliz, mas não iria mais passar meus dias a esperar. Se me perguntassem por que eu tinha desistido de esperar, seria difícil responder. Apenas estava ocupada demais todos os dias, estudando, colecionando, estudando mais, com atenção muito concentrada. Percebi que, talvez, o caranguejo quisesse que eu descobrisse a diferença entre esperar e perder tempo e esperar e aprender com o tempo.
Uma manhã, o sol nasceu e brilhou sobre a praia. Percebi, então, que minha sombra estava ao meu lado. Devia sempre ter estado ali, mas eu nunca a notara antes. É estranho como algo pode estar em um lugar o tempo inteiro e não ser notado em momento algum.
De repente, ver a sombra pareceu um descoberta.

(Brooke Newman — A andorinha-do-mar: uma história de descoberta, p.67-68)


De repente, alguém fica entre entre direções opostas — entre o pólo positivo e o negativo, entre uma possibilidade de ser e outra, entre pensamentos excludentes. É como uma frequência trêmula na energia. Pode chamar isso de insegurança. Imagine a luz de uma lâmpada tremendo quando falta ou retorna a energia elétrica em sua casa — às vezes, a lâmpada se queima; em outras, se recupera, se sustenta, e volta a emitir sua luz constante e ilumina tudo novamente.

Isso acontece porque o 'não ser', provocado pela ausência de energia, despotencializa. Até restabelecer a sua funcionalidade, fluxos distintos de luz e de escuridão interagem sequencialmente: sim e não, aceso e apagado, forte e fraco. Essa ilusão de ser é como uma luz estroboscópica (muito usada em shows) que quanto maior a intensidade e velocidade com que é emitida, mais faz parecer que tudo está lento.

A dúvida é o momento intermediário entre a certeza e a ignorância e, por incrível que pareça, a vida também o é! O seu propósito é terminar (é bem conhecida a expressão 'a única certeza da vida é a morte'), mas no durante — esse intervalo onde as experiências pessoais acontecem — ela se desenrola visando alcançar o seu potencial máximo. É nele que o inesperado, o impensável, o inimaginável ou apenas imaginado e sonhado a constroem.

Transformar-se é, então, superar a paralisia, o imobilismo e a repetição, porque é exatamente isso o que acontece na morte. Quem não avança, já morreu, só não foi avisado disso. As imensas variações entre o prazer e a dor só existem quando há mudança.

Tudo com que interagimos nos leva a definir o novo ser que seremos: somos o resultado da interação entre o que sentimos e pensamos e os estímulos externos que alcançam os nossos sentidos (olfato, tato, paladar, audição e visão — há quem diz que há outros). Quanto maiores as experiências, maiores as chances de aprendizado e evolução.

Como isso nos atinge no cotidiano? Sabe aqueles encontros que geram ambiguidade (aqueles casos em que não sentimos firmeza em alguém que encontramos)? Eles resultam do fluxo de aparências. Não é, mas finge ser. Produz dúvida. Diferentemente de quem não esconde seu estado de incerteza e busca a superação — um verdadeiro processo de transformação — essas pessoas estão paralisadas, usaram por tanto tempo uma máscara que ela grudou no rosto: são fixas e falsas — exatamente como a a morte, onde parece haver alguém ali, mas não o há.

Seja consciente de que a vida é a pura transição entre um estado e outro de ser, mas não é algo vazio(*). Sem ela, não se produz os encontros que potencializam alguém para algo além. Desde aquele primeiro encontro que iniciou o processo de geração de um novo ser, tudo o que acontece objetiva a transformação, o desenvolvimento. Toda experiência visa acumular as energias produtoras da expansão do ser. Sem ela, não há evolução e obstruir ou impedir esse processo é paralisar a vida, é morrer sem perceber.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 08 de março de 2016.

* Na porta de um cemitério a frase Nós que aqui estamos por vós esperamos. Essa frase intitulou um filme de 1998 de Marcelo Masagão. Questionando a banalização da vida e da morte produzida no século XX, expõe, de uma forma extremamente emocionante, os fragmentos biográficos de pequenos e grandes personagens. Qual a interferência possível, para cada um de nós, no coletivo e em nós mesmos?

26 de abr. de 2015

A semente da morte integra a vida

Semente criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 26-04-2015.
Semente, criado em 26-04-2015.

Em O fogo interior e O presente da Águia*, Don Juan propõe que o universo é constituído por feixes de energia. Um ser é gerado quando alguns desses feixes são retidos por um casulo de energia. Ao ocorrer uma sincronização entre feixes contidos no interior dos seres com outros de mesmo tipo em estado livre no universo, uma abertura é gerada no casulo energético do ser. O local onde ela ocorre é chamado ponto de aglutinação. Fruto da sintonia, surge a consciência.
Como tudo, o casulo perde — aos poucos ou rapidamente — sua consistência até se desfazer, determinando a morte do indivíduo e a dispersão dos seus feixes de energia no universo. A consciência produzida durante a vida do ser é consumida neste processo.
Há uma raríssima possibilidade de diferenciação. A dos indivíduos que, com seu aprendizado e experiência, acumularem energia pessoal, de nível tal, que os permita sincronizar todos os seus feixes simultaneamente, retendo sua consciência mesmo após a morte do corpo: a liberdade total.


Tudo que surge certamente findará. Para viabilizar um nascimento é necessário incluir em sua receita a semente da morte como um elemento estrutural. O tempo é diferenciado. Como comparar a duração de vida de um inseto e o de uma estrela, os mundos infinitesimais e os incalculáveis, nesse mesmo cosmo?

Correndo o risco de usar uma expressão estranha, abril abriu algumas cascas, expondo antigas feridas da alma. Territórios já explorados em tantas outras oportunidades voltam a causar insegurança e, em certos momentos, medo.

Há diversos processos associados à ideia de fim permanente de uma consciência. O pós morte gera a ausência, que é uma forma de presença que estamos longe ainda de assimilar. Conviver com a sensação de perda permite usá-la para adquirir mais experiência, não torná-la algo fácil ou aceitável. Então, repito: é preciso encarar os fantasmas e aceitar sua companhia durante os momentos em que a solidão quer usurpar tal encontro.

Busque os rastros de sua passagem para reacender a mágica dos encontros. Da marca que sela na alma um momento, um gesto ou um sentimento retirar a mesma potência que a fonte permitia: uma foto tornando-se a eternização do instante; a sonoridade de uma música, ou de uma voz, o enlevo.

Em vez do recolhimento ao silêncio e a aceitação passiva da dor — mesmo que com lágrimas —, é preciso celebrar a vida e a transformação de tudo em um todo. A energia que movia um foi apenas transferida para mover outro. Ela pode ser usada para se construir, por coesão de todas as partes que a compõe, a plenitude e, talvez, a evolução.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 26 de abril de 2015.

* Livros de Carlos Castanheda que narram os ensinamentos de Don Juan.

10 de abr. de 2015

Estrelas-guias geram buracos-negros

Estrelas e buracos, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 10-04-2015.
Estrelas e buracos, criado em 10-04-2015.

Uma sugestão: promova boas recordações, se permita um pequeno túnel do tempo onde você resgate dos acontecimentos o poder que eles possuem de serem eternos em seus efeitos; faça isso sem abdicar dos novos acontecimentos que o cercam no exato momento em que você viaja ao passado. Como? Conte uma história de vida para alguém, uma que o inspire a ir adiante. O que você vive pode ser exclusivamente seu, mas pode efetuar muito mais quando compartilhado.
(Wellington de Oliveira Teixeira — Saudosismo ou saudade*)


São tão estranhos esse amor com desejo de infinitude, essa vontade poderosa de alcançar o inominável e reconstituir as teias do destino, essa forçada quietude da fala — expressa com o silêncio, mas soando alto e ecoando sem fim na cabeça e no coração.

Por que, em zilhões de estrelas-guias, justamente a ordem foi para a minha se desfazer e gerar em mim um buraco negro por pulsar seu brilho e calor onde jamais voltará a ser vista por quem mais a desejava ver?

Saudade e dor jamais deveriam formar par, deveriam ser proibidas de emitir seu gélido sopro e assentar moradia em qualquer canto da alma, não deveriam poder instigar o voo sem conceder uma par de asas.

E eu fico aqui, um terráqueo engolidor da água salgada que foi destilada no fundo da alma, que por pressão interna extravasou e escorreu na face que mirava o horizonte perdido em busca do perdido para o horizonte.

Imagino que talvez algum novo tipo de sonho permita coincidências. Quem sabe do meu com o seu? Quem sabe esses nossos corpos sonhadores encontrem-se por aí, numa esquina do universo?

Até lá, breve ou nunca, vou mirar o vazio que ficou no céu enquanto ele se manifestar em mim, vou imaginar o improvável e quase impossível reencontro enquanto encontro nas marcas do corpo e da alma os signos de sua passagem tão radiante em minha vida.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 10 de abril de 2015.

* A citação é um trecho do texto Saudosismo ou Saudade que encontra-se completo nesse blog no endereço http://bigwzh.blogspot.com.br/2014/04/saudosismo-ou-saudade.html

6 de dez. de 2014

Minhas pequenas mortes

Pequenas mortes criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 06-12-2014
Pequenas mortes, criado em 06-12-2014.

Mas cada homem não é apenas ele mesmo; é também um ponto único, singularíssimo, sempre importante e peculiar,
no qual os fenômenos do mundo se cruzam daquela forma uma só vez e nunca mais.

(Hermann Hesse — Demian p.7)


Eu já morri muitas vezes em minha vida.

Pequenas mortes causadas por perdas incomensuráveis, porque perdas de amor e porque há muitas formas de se amar.

No lugar dos pedaços que foram arrancados da minha alma, a vida encarregou-se de ir construindo uma espécie de tampão para que o que restou não se esvaísse completamente.

Cada um desses pedaços tem um nome, uma história e foi um mundo que evadiu-se no universo. Algo que traduz um encontro inesquecível.

Dentre as formas de morrer, descobri uma que acentuava todos os aspectos da dor: um amor que se encontra com a morte repentina. Não há como chamar de despedida brusca, nem usar de pleonasmos para não ser cruel com outros, que também ficam e sofrem. Um cristal que se parte é impossível de ser recomposto.

Algumas vezes tive a sorte de ter sido usado pelas palavras de conforto. De algum modo, engoli a minha dor, acolhi a dor de um outro e lhe dei aconchego. Me ensinando ocupar um outro lado? Quem sabe? O lugar não importa quando o sofrimento o abraça.

Difícil é o descobrir que nenhum amor morre. A cicatriz que fica comprova mais que suficientemente que sua potência constitui, também, sua perpetuação em quem ousou acatá-lo e agasalhá-lo no coração.

Uma grande lição do abrir mão é saber que mesmo despedaçados seguimos em frente, constituímos uma nova forma de caminhar, estabelecemos um novo mundo — com todas as brechas e rombos e buracos negros que se configuraram, à despeito de nossa força desejante.

Todos os anos, uma hora ou outra, esta sensação estranha me toma e, como um vácuo, me engole. Fico cercado de memórias tristes, alheio a tudo o que é belo. O vazio, já me dizia a História sem fim, quando a gente permite, tira o que nos torna o que quer que sejamos.

Mais uma vez, vou apelar para a estratégia de trazer à memoria momentos de uma intimidade maravilhosa de um beijo, abraço, riso ou frase que se perpetuou. Vou insistir até que a presença se sobreponha a ausência. Uma técnica que aprendi a chamar de reacender a potência do encontro. Revivenciá-lo* e me deixar tomar pelo que senti naquele momento.

São muitos os brilhos nos olhares, os sorrisos mais do que marotos ou gentis eternizados em mim. Assim, antes que a morte desse atual corpo se estabeleça, vou reafirmando a Vida, essa com v maiúsculo que se intensifica em cada contato que estabeleço.

Que tal escutar aquela música e se deixar levar, sem compromisso com o tempo, até que esse momento de saudosismo sofrido se sacie e deixe a vida prosseguir?

Não se iluda, dor também é parte integrante do que chamamos mundo, partidas e despedidas também. Não importa o que se desfez — o encontro, o relacionamento, a vida de alguém — tudo é reabsorvido de um modo ou de outro no mundo físico, emocional ou espiritual. Cabe a você escolher o que fazer, enquanto tiver o poder de decidir.

Só não esqueça de carregar consigo e bem guardado o amor que um dia você recebeu e cuidou.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 06 de dezembro de 2014.

* Nos ensinamentos de Dom Juan, há um conceito de não estar preso a uma história de vida. Para liberar-se dela, sem perder o que foi importante, é preciso uma rememoração de tal intensidade que permitiria reviver a potência de um determinado momento e registrá-lo em si mesmo. A partir de então, bastaria retornar a esse ponto de energia para se reabastecer.

26 de set. de 2014

Reações ou redemoinhos

Redemoinhos, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 26-09-2014.
Redemoinhos*, criado em 26-09-2014.

Não ter mais alguém muito querido fisicamente presente
não nos impede de recordar e celebrar o tempo compartilhado.
Fazê-lo, com gratidão pela oportunidade que nos foi permitida do convívio,
honrará o sentimento que temos, acalmará nossa saudade,
e perpetuará as marcas deixadas em cada um de nós.

Wellington de Oliveira Teixeira


Uma questão aflorou hoje: se não somos iguais, por que esperar as mesmas reações de outra pessoa?

Há sempre um modo inusitado de reagir capaz de surgir, dependendo das circunstâncias, pelo modo como os fatos embolam dor e algo planejado para adiante. Há momentos em que sonhos e medos se reúnem num único instante numa combinação explosiva que não exige vazão imediata ou nos desagregarão.

Presenciar ou vivenciar algo assim traz de imediato a imagem de um redemoinho que pegou alguém e lhe retirou a noção de espaço e tempo, desfazendo, por alguns instantes, a própria personalidade.

Refazer-se após a reviravolta é de suma importância. Também o é, situar-se com calma e ir se fortalecendo diante dos elementos disparadores, até conseguir superá-los. Um processo assim, tão dolorido, certamente não é simples, por isso não se deve exigir a mudança de imediato.

Um tempo ou dois é o necessário para se reelaborar, gerar outras referências e reprogramar-se. Entenda que é preciso ter serenidade e saber que, pouco a pouco, o rumo da vida retoma, e se consegue ir em frente, realizar os sonhos, mesmo que não da maneira desejada de início. Não é sempre assim nesta vida?

Mas devemos sempre entender que poderá haver muitas outras surpresas ainda. Momentos felizes ou tristes sempre nos encontrarão e precisamos nos preparar para curti-los ou enfrentá-los.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 26 de setembro de 2014.

* Envolver-se é algo lindo, mas cobra seu preço: podemos ser tomado por um redemoinho de emoções.

7 de mai. de 2014

A ampulheta do fim

ampulheta do fim, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 07-05-2014
Ampulheta do fim, criado em 07-05-2014.

Recentemente, gastamos milhões de dólares mandando médicos para a África
com a missão de distribuir preservativos gratuitos e instruir as pessoas sobre métodos anticoncepcionais.
E um exército maior ainda de missionários católicos foi para lá em seguida dizer aos africanos que,
se eles usassem os tais preservativos, iriam todos para o inferno.
A África tem agora um novo problema ambiental: lixões transbordando de preservativos não utilizados.

(Dan Brown - Inferno, p.102)

Cerca de 42 milhões de pessoas são portadoras do vírus HIV no mundo todo.
Mais de dois terços delas vive na África, ao sul do Saara.
Nos países mais atingidos, um em cada três adultos tem o vírus.

(BBC Brasil)*


A ampulheta do mundo continua a liberar seus grãos e nós a trilhar a estrada da destruição em massa. Mas, não somos semelhantes aos que nos antecederam. Ao contrário daqueles poucos que viveram antes de nós, nossa contribuição é enormemente maior: somos bilhões que se reproduzem em escala geométrica.

É evidente que um dia, a terra irá sacudir, eliminar esses seres tão incômodos — isso se não a destruirmos junto. Em qualquer dos livros considerados sagrados ou tradições espirituais isso é o ponto final, ou para a civilização cristã-ocidental, o apocalipse.

Hoje, é a ciência que produzimos ao custo de tantas mortes de seres pensantes quem nos alerta, sinalizando já há algum tempo, a tolice que é esse procedimento.

Mas, definitivamente, somos seres individualistas, egoístas. Argumenta-se que por conta de uma evolução em que mais fortes, os que se alimentam melhor, os que matam mais sobrevivem. Não sei. Para mim, há um mal produzido historicamente: a necessidade de se obter mais e mais, a despeito de outros — tantos outros — que ficarão sem nada. Resumindo, consumismo. O fruto não apenas de um sistema econômico (capitalismos, socialismos, comunismos), uma vez que o erro é sistemático: ganância.

Algumas pessoas até esqueceram, após a queda do muro de Berlim, que o arsenal que a terra possui tem a capacidade de destruí-la várias vezes. O desejo de controlar outros povos, de dominar populações não usa mais arco e flexa, ou rifles automáticos. É a famosa escalada do mal: se alguém tem um canhão eu construo uma bomba, crio vírus geneticamente manipulado, utilizo a nanotecnologia da morte. Insanidade.

Mas, como acontece com indivíduos, tomara que o destino da Terra possa ser trocado. Mesmo não havendo mais como corrigir, pelo menos minimizar o estrago.

Não há como isso acontecer por decisão de alguns, assim como não se produz comportamentos apenas baixando leis (elas são subornáveis em benefício de poderosos e abastados). Tem que ser um processo de coletivização da questão. Tem que ser uma decisão interna de contribuir para a melhoria, uma metanoia — a mudança na mente que altera o rumo e as práticas de vida — propagada.

Os movimentos coletivizadores como o Greenpeace, dentre outros, tentam nos sensibilizar. Mas parece que fazemo-nos de surdos, queremos aquele famoso cada um no seu quadrado (uma das maiores imbecilidades já inventadas!) que ignora o fato de que ventos, mares, forças da natureza não são privativas de ninguém. Elas se manifestarão em qualquer lugar, mesmo que geradas há milhas e milhas distantes: alterações climáticas com desertificação ou inundações, destruição da calota polar e falta d'água, poluição e envenenamento das terras cultiváveis, propagação global de novas doenças de um modo incontrolável.

Dan Brown em seu livro Inferno traz um tema à tona: a superpopulação. Propagação do pessimismo? Não. Um tentar até o fim facilitar a conscientização.

Será que conseguiremos em tempo?

Wellington de Oliveira Teixeira, em 07 de maio de 2014.

* O problema não é exclusividade africana. Com 14 mil novos casos globais por dia, cresce o risco de a doença também ganhar força na Ásia.
http://www.bbc.co.uk/portuguese/especial/1341_aids_no_mundo/

2 de mai. de 2014

A mensagem do pombo correio

Pombo correio, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 02-05-2014
Pombo correio, criado em 02-05-2014.

Solte-me para que eu possa voar por terras longínquas
onde há campos, árvores e montanhas verdejantes; flores, fontes e florestas:
um lar além do horizonte.
Pombo correio a voar além dos sonhos há muito esquecidos.

(tradução livre do trecho de Skyline Pigeon - Elton John*)


Uma vez citei a forma como as pessoas assimilam músicas que tocam a sua alma transferindo-as para as suas relações pessoais, referindo-me a um costume entre pares de namorados. Não me ocorreu, na época, um outro uso. Um que me foi revelado apenas hoje, por conta de um depoimento feito por um sobrinho para seu tio que havia falecido.

Meu filhote Claudinho narrou o momento quando Paulo Roberto o ensinou a primeira música em inglês que havia aprendido, com isso, reproduzindo nele a mesma experiência - já que foi, também, a sua primeira.

A música é um fio condutor do espírito, produz um nível de sensibilidade cujo espectro ultrapassa palavras. Porém, o que me sensibilizou tanto não é o fato de que a experiência tenha se reproduzido ou que seja a primeira. É a disponibilidade em uma relação familiar para partilhar vivências e abrir portas novas, ocorrendo entre um tio e um sobrinho.

O convívio com os meu sobrinhos é uma das coisas na vida que mais me dão prazer. Para nós, brincar, discutir, analisar faz parte de todos os nossos movimentos juntos. Sempre um movimento aberto para a franqueza e compartilhamento dos fluxos de alma.

No caso do Claudio, a recordação acontece após cerca de 40 anos daquele movimento conjunto e, na narrativa do meu amigo, tornou-se aquela que retornou, no momento da morte do tio.

A letra da música, certamente, tinha correlação com o momento. No entanto, não creio que apenas isso bastaria - há tantas outras que falam do mesmo tema -, uma marca assim se aprofunda e só ganha sentido com a maturidade, com o entendimento de que os momentos são fugidios, evaporam facilmente. E aqueles momentos que não trazem algo para o nosso caminho se perdem pela estrada.

Desejei retratar a mensagem da música com um quadro com traços claros e fundo bem definido: um pombo voando pela linha do horizonte. E foi o que eu fiz. Isto é, até que reli o depoimento de despedida. Na dureza de um sentimento de perda, a dor muitas vezes se escamoteia em palavras exatas, traduções rígidas e, com isso, perdemos a aura poética, espiritual e emocional que sempre ronda a questão vida e (vida-pós) morte.

Voltei ao projeto e o refiz utilizando de aquarelas e movimentos sinuosos - como são os nossos caminhos de vida, como são os nossos pensamentos em momentos como esse, como entendi ser o intento dele ao utilizar de um instrumento de expressão de si para os familiares (muito além do de para si mesmo). Escolhi, para manter o mesmo grau de inferência, refazer a tradução feita por ele da música. E os correlacionei. Desejei reafirmar o seu entendimento de que hoje é o dia em que ele [o tio] pode estender suas asas e voar novamente.

E o que era para ser apenas uma postagem na rede social, generalizou-se, tornou-se um motivo de questionamento e, por isso, um texto do Ser Pensante. Explico. É aqui que eu penso o mundo que meu mundo produz, sob a única e exclusiva ótica que eu tenho: eu mesmo.

Mas saliento (e digo isso com toda a clareza, pois meu filhote sabe) porque ele sempre é parte do meu mundo: simplesmente doeu em mim, também.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 01-02 de maio de 2014.

* Os trechos da música utilizados aqui são:
Turn me loose from your hands Let me fly to distant lands
Over green fields, trees and mountains, Flowers and forest fountains
Home along the lanes of the skyway

For just a Skyline Pigeon Dreaming of the open
Waiting for the day He can spread his wings And fly away again

Fly away, skyline pigeon, fly
Towards the dreams You've left so very far behind.


a música encontra-se disponível em: http://letras.mus.br/elton-john/64492/

22 de mai. de 2013

Tempo de comemorar (todo dia é!)

Memória, criado por Wellington de Oliveira Teixeira, em 01-05-2013.
Memória, criado em 01-05-2013. (clique para ampliar)


O fato real é quando o corpo entende que pode ver.
Só então ele é capaz de saber que o mundo para o qual olhamos todo dia é apenas uma descrição.

E assim, dançará a sua morte aqui, em cima desse morro, no fim-do-dia.
E, em sua última dança, você contará sua luta, as batalhas que venceu e as que perdeu;
contará suas alegrias e perplexidades ao encontrar o poder pessoal.
Sua dança contará os segredos e maravilhas que você armazenou. E sua morte ficará aqui sentada, assistindo.
O sol poente brilhará sobre você sem queimá-lo, como fez hoje.
O vento será suave e o topo do morro tremerá.
Quando você chegar ao fim de sua dança, olhará para o sol, pois nunca mais o verá, desperto ou sonhando
e, então, sua morte apontará para o sul. Para a vastidão.
(Viagem à Ixtlan - Carlos Castañeda)

Avalio que transformações se estabelecem em nossos relacionamentos, com o passar do tempo. Manutenção também. Por isso, mesmo que não seja a mesma coisa do início - aquilo que chamamos de amor -, algo que se manteve não permitiu que ele fosse descaracterizado.

Em meio às tentativas, os considerados erros e os acertos reprogramam a nossa mente.

A descoberta da capacidade de efetivar algo proporciona segurança, mesmo quando a realidade não garante que obteremos resultados semelhantes na tentativa posterior.

Então, troféus e comemorações são a forma de colocarmos nossa estaca no topo da montanha e nos deslumbrarmos com um novo horizonte - o fruto da nossa vitória.

No entanto, coisas se perdem na viagem e nenhum poder da terra pode fazê-las retornar, ou mesmo recuperá-las do modo que desejaríamos. Ficaram para trás. Marcas daquilo que denominamos morte, as mesmas que vão produzindo, em tudo e a cada momento, milésimos de transformações que possibilitam a sua renovação em outra forma, outro modo ou patamar.

Mesmo não mais acreditando em nossa permanência (mudamos com o passar do tempo), apostamos numa certa imanência que permite que não nos desconheçamos, mesmo quando olhamos para o espelho e ele não reflete mais aquela imagem de tempos atrás. Nossas pequenas e acumuladas descaracterizações, realizadas pela ação da temporalidade, não pode tirar aquilo que em nós se manteve. Isso vale para os relacionamentos mantidos.

Eu considero isso uma conquista que deve ser bem apreciada. Por isso erguerei minha taça para um brinde a essa forma de experiência que inclui as transformações e as manutenções, às pequenas conquistas diárias, mensais, anuais e de vida, porque entendo que todo dia é, sim, tempo de comemorar.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 22 de maio de 2013.


Não sei bem porque, mas esses seis meses, após catorze anos, produziram uma tatuagem no meu coração.

26 de jun. de 2010

Assassinos


Defeito no olhar, criado por Wellington de Oliveira Teixeira, em 26/06/2010.Defeito no olhar, criado em 26/06/2010*.

A minha alma tá armada e apontada para cara do sossego!
Pois paz sem voz, paz sem voz, não é paz, é medo!
"Qual a paz que eu não quero conservar, prá tentar ser feliz?"
[Minha alma (a paz que eu não quero) - O Rappa]


Soube hoje que, em São Gonçalo-RJ, uma criança foi assassinada e largada em um terreno baldio porque era emo e emo é viado.

Os skinheads que o mataram (que tinham o dobro do tamanho e o triplo do peso do menino) disseram que excederam na dose, que era só para dar umas porradas, porque odeiam homossexuais.

Até quando as pessoas aceitarão que a intolerância faça parte de suas vidas?

Wellington de Oliveira Teixeira, em 26 de junho de 2010.

* Arte sobre a escultura grega Ares Ludovis atribuida a Escopas
** Enquanto a Justiça for cega e cruzar os braços diante das torturas físicas e emocionais praticadas por alguns grupos não pode haver paz na terra.

15 de jun. de 2010

Vinni com Vinte e Um

Vinni Alô, Adeus. Eu te vejo do outro lado.*, criado em 15/06/2010.

Há muito que o SENHOR me apareceu, dizendo:
Porquanto com amor eterno te amei, por isso com bondade te atraí.
(Bíblia - Jeremias 31:3)

Gosto de recordar o desafio que eu fiz num momento seu de baixa estima,
numa casa de show em São Gonçalo:
vá dar uma volta e não me volte sem uma história de beijo pra contar.
E não é que você voltou feliz da vida?
('O Vinni que eu conheço - texto desse blog)

Fiz as contas hoje, pela manhã: no dia 20 deste junho seriam 21 anos de um brilho que, antes da duração, queria a intensidade e uma intensidade sem controle.

_ 'Eu quero o caos!'

Erra grandemente quem achar que essa manifestação demonstrava uma desordem pessoal, pelo contrário, sua busca de plenitude, de sua expressão no mundo era algo que o inquietava e o levava sempre adiante.

Exasperado ficava eu, em várias oportunidades, quando o via enveredando os caminhos sem o mínimo de cuidado.

Seu esoterismo marcava uma certa ambiguidade: ao mesmo tempo em que o tornava ciente da amplidão do universo o provocava a colocar o universo dentro de si. Mas quão poucos não buscam exatamente a mesma coisa: Deus em si.

Quem não pode ver sua timidez perder totalmente a dianteira para a ousadia, não conheceu a sua capacidade de amar pois, o querer tudo ao mesmo tempo, agora, também era um aspecto do seu amor.

Seu grupo era sua referência e seus apelidos (gas mask toy, sbuga, vinni, etc.) tinham a ver com o estilo gótico como se vestia (ele realmente usava uma máscara de gás em seus shows).

Claro que alguém assim tem muita personalidade e gera alguns embates com os outros (me incluo, aí). Vários amigos o ouviram reclamar do modo como eu o forçava a repensar suas propostas de vida - principalmente com relação à sua saúde -, ao mesmo tempo em que o viam ao meu lado e rindo sem limites: feliz. Que fique claro que este era o seu modo de ser com seus amigos: para criar novos espaços para a relação, ele forçava todos os limites.

Quem conhece alguém assim, sabe: é do tipo que se ama ou se odeia. Mas aquele baixinho até isso conseguia driblar, pois nunca ouvi de ninguém (mesmo daqueles que no momento estivessem irados com ele) frases de ódio a seu respeito.

Talvez, e por um segundo apenas, eu mesmo, quando soube que estava em coma por desrespeito ao seu diabetes. Nesse mesmo dia, eu escrevi um texto em forma de conversa com ele, numa tentativa de alcançá-lo. Este texto encontra-se nesse blog com o título O Vinni que eu conheço. O endereço é http://bigwzh.blogspot.com/2008/04/auto-fotografia-sei-que-o-que-eu-estou.html.

Hoje, comecei o dia remexendo meus arquivos no computador quando deparei, na pasta que o Pablo criou para si, com uma foto com qualidade bem ruim, do Vinni tocando na Candelarium - a banda que ambos pertenciam. Me dispus a tentar recuperar um pouco e acabei viajando na ideia. Naquele momento me recordei que estamos em junho - mês do aniversário do Vinícius - e foi quando eu calculei a sua idade caso estivesse entre nós. Vinte e um.

Pra mim, o seu silêncio carrega uma inverdade - não está morto enquanto a sua vida continua dentro de mim -, mas também uma verdade - a falta da sua presença ainda me dói.

Então, meu guri, vou antecipadamente desejando um feliz aniversário, aonde quer que você esteja, e lhe fazendo um pedido: reserve um lugar, aí, pra mim, onde eu possa compartilhar o seu sorriso e abraçá-lo por mais do que apenas um momento**.

Com amor eterno.


Wellington de Oliveira Teixeira, em 15 de junho de 2010.

* Fotos base tiradas em 26-11-05, no Recreativo Trindade (São Gonçalo-RJ)
** Trecho da Música Noah, hello, goodbye (Michael W. Smith)

8 de mar. de 2009

Coisa de momento

Nú dorsal, foto e arte por Wellington de Oliveira Teixeira, em 22/11/2006.
Nú dorsal, arte sobre foto em 22 de novembro de 2006

As suas pernas como colunas de mármore,
fundadas sobre bases de ouro puro;
o seu parecer como o Líbano,
excelente como os cedros.
O seu falar é muitíssimo suave:
sim, ele é totalmente desejável.
Tal é o meu amado, e tal o meu amigo,
ó filhas de Jerusalém
(Blíblia Sagrada, Cântico dos Cânticos 5:15-16).

Quanta felicidade é perdida por condições do momento que simplesmente não contamos ou não conseguimos ter sob nosso controle?

Gestos expressivos ficam engessados por uma capa de comportamento dito necessário diante de um olhar que espera algo mais.

E o nosso olhar congela, a boca resseca, a voz emudece. Por segundos, que parecem eternidade, a alma do ser sai de um corpo que teima em não ser completo. Parece que a batida do coração fica suspensa num vácuo.

Mas a morte é inexorável e a ninguém permite indulgências. Por que, então, desistimos de viver o que é pleno em nome das circunstâncias? Por que o falso tem prioridade fazendo com que as aparências subjuguem os verdadeiros sentimentos? Por que as marcas que nos constituem são, em sua maioria, de decisões errôneas, de forças castradoras, da covardia que nos domina sempre que estamos no campo social diante de outros imbecis, como nós, repetindo em côro o modelo social da dominação de um padrão?

Eu ainda recordo de ter visto em seus olhos o brilho diante da opção de liberdade - ainda que momentânea - que lhe apresentei na noite de sexta-feira. Ainda tenho a lembrança daquele sorriso surgindo no canto da boca e da entrega irrestrita do seu corpo e da sua alma.

Não. Eu não o censuro por voltar à vida cotidiana e recomeçar a eterna rotina de ser quem não é para poder ser alguém. Você foi verdadeiro demais ao dizer dos seus medos e da sua atual incapacidade de lidar com as questões de sua alma e com os conflitos do seu corpo.

Mas, verdade seja dita, naquela noite você foi pássaro e conseguiu fazer um vôo que ultrapassou as barreiras que o aprisionavam. E eu vi o brilho que um pouco de felicidade gerou em você.

Sei que foi uma coisa de momento e, como tudo na vida, passou. Quem sabe, haverá outros?

Wellington de Oliveira Teixeira, em 8 de março de 2009.

* Pra que eu nunca esqueça, mesmo depois de nove anos…

30 de abr. de 2008

Peralta Celeste (saudade do Bruno)

Vai com os anjos, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 13/11/2000*
Vai com os anjos, criado em em 13/11/2000*


Peralta:
menino travesso, traquinas.

Quem te conheceu sabe disso, guri.

O céu deve estar desesperado, não é? (pode contar pra mim…)

Sabe,

Sorriso pode ser coisa boa, mas o seu é coisa rara: ao mesmo tempo que encanta e cativa, desarma. Qualquer um que tentou ralhar com você sabe disso. (tô mentindo, cara?)

E mesmo sabendo disso, foi tão bom receber um…

Obrigado!

Por que? Por você ser sempre você.E se acha que vou esquecer as suas artes, pode desistir, mas vou aliviar – como sempre… – e vou falar de outro dom especial seu que certamente todos os amigos chegaram a conhecer: o carinho (quem recebeu um abraço, um beijo ou piscar de olho que confirme!)

Divinamente inspirada essa mistura que faz de você alguém sem igual, dessas que por onde chegam deixam logo a sua marca de maneira indelével como essa que guardo comigo e provoca essa manifestação.

Certamente falta não é a palavra pra ser usada. Duvida? Então pense comigo: como se pode sentir falta de alguém que está tão presente nas lembranças, nos sentimentos e nas marcas nos corpos que sentiram o seu toque? E quer saber mais? Pois bem, aí vai: nós nos eternizamos em todos aqueles que nos amam. Está preparado para aturar todos nós de uma vez só, todos os dias? Espere, então, para ver quando estivermos todos do outro lado da cerca… aí vai fazer mais sentido ainda as palavras que dizíamos na roda de amigos:

No Limit!

porque não haverá nenhum para nos separar.

Até lá, continue armando por aí e Cai na Paz, Bruno, porque Amigos São Amigos Prá Sempre!!!

Wellington de Oliveira Teixeira, em 13 de novembro de 2000.



*com acréscimos em 30/04/2008

23 de abr. de 2008

O Vinni que eu conheço.

Vinícius em auto fotografia em 22-02-2008Vinícius em auto fotografia em 22-02-2008.

Sei que o que eu estou fazendo é apenas uma tentativa. Não consigo imaginar o que devo escrever a seu respeito, principalmente porque nós não nos conhecemos tanto assim.

Estou escrevendo porque preciso. É a minha maneira de tentar lhe chamar de onde você está. Minha alma tenta contato com a sua. Creio que o que estou fazendo é como jogar uma isca de pensamento, dourada de sentimentos bons para alcançá-lo nesse limbo que chamam de coma.

Estou só usando todas as minhas possibilidades de elevar meu pensamento à sua potência máxima: desenho, escrevo, escuto música, contato amigos para fazer uma corrente em seu favor. Busco Deus em mim e peço que ele o encontre, pois também está em você.

Já ouvi, já escrevi, já li, diversas vezes sobre o silêncio e seu poder especial de nos colocar em um estado especial de mente e espírito. E recorro à ele, também.

O cérebro consegue desenvolver melhor quando utiliza mais de um sentido do corpo: vejo uma foto sua, você tocando no youtube, as fotos que você tirou por puro narcisismo. E, como numa enxurrada de emoções, a mão segue as determinações dessa força e vai digitando o que vai acontecendo, como a dizer dessa saudade, dessa vontade de poder ralhar com você, de abraçá-lo a dizer 'que bom que você está de volta fdp', e o palavrão só vai significar o textual, uma palavra muito potente, forte no que transmite: pura expressão de amor e amizade.

Não acreditar que estamos ligados a tudo no mundo é uma opção que não é minha mais. Creio no Uno, no indivisível que habita todas as partículas do universo (tal como em mim e em você).

Creio no poder da força máxima desse universo, criadora, reparadora, motriz, potencializadora: a do amor. E há, sim, nesse instante um fluxo contínuo desse amor atravessando perpassando mundos que sequer imagino existirem para alcançá-lo, inundá-lo, onde quer que seja a sua habitação nesse momento.

Há algum tempo você passou a fazer parte da minha vida, por conta de afinidades com o mundo musical: você é baterista e eu sou um simples produtor indo ao último ensaio antes do primeiro show da sua banda.

Como eu disse - me pareceu o fim do mundo (acho que deveria colocar aqui o rsrs, ou ahhahah). No entanto, vocês se saíram bem para principiantes.

Depois a gente se encontrou num momento seu de descoberta de novos mundos. E, por conta de uma brincadeira que eu fazia com colegas, ao passar, você foi incluído e, por 'pagar cofrinho', teve a cueca puxada pra cima (os homens que já sentiram isso sabem que incomoda). Mas você estava tendo o seu vôo particular e se foi.

Na semana seguinte se incluiu no nosso grupo com facilidade e felicidade - um novo modo de experimentar coisas novas.

Foi então que, cheio de dúvidas quanto à vida, ao seu potencial e ainda assim, cheio de sonhos e previsões para si mesmo, para as suas bandas atuais e futuras, você me buscou.

Hoje rio um pouco da sua ingenuidade, mas alguns de seus pequenos truques de marketing (gas mask toy) funcionaram e já deixam marcas de reconhecimento nos ambientes frequentados por você.

Teimosia creio que sempre foi a sua marca registrada, assim como a vontade de se expressar e de se descobrir.

Você faz as coisas, em alguns momentos, apenas para dizer que fez; outras, por que não consegue deixar de fazer algo inusitado: seu desejo de novidade também lhe caracteriza muito bem. Ousadia, portanto, não lhe é uma palavra indiferente.

Nas suas palavras, muitos pensam conhecê-lo bem. Não ousaria dizer isso, mesmo depois das longas conversas que tivemos, das considerações com relação às suas visões autocríticas e da minha eleição como um parceiro, amigo e confidente.

É que todos precisam desabafar - e você percebeu isso - então _'Melhor ser com um amigo psicólogo'. Eu ri e refutei: _'Não posso atender aos amigos, como psicólogo, apenas como amigo'. Você riu, brincou com esse conceito _'quer dizer que você consegue se dividir em dois?' e eu filosofei: _'Sou múltiplo, por natureza'. E rimos mais ainda.

Gosto de recordar do desafio que eu fiz num momento seu de baixa estima, numa casa de show em São Gonçalo: vá dar uma volta e não me volte sem uma história de beijo pra contar. E não é que você voltou feliz da vida?

Pensei em algo nesse instante. E me respondi: não, o que eu estou fazendo não é contar a história de alguém que se foi, é apenas acender boas marcas, como as histórias que contamos das aventuras que temos na vida. Nos torna mais vivos ainda.

E estar vivo é estar em luta, diariamente. Cada um com a sua. Cada um com seu cada um, dizia-me o mestre Ubiracy.

Então, como eu tenho uma porção de atividades pra fazer hoje, vou parando por aqui. Já enchi a sua paciência demais, por enquanto. Volto em outro momento para encontrá-lo aonde quer que você esteja, porque ainda acredito que Amigos São Amigos Pra Sempre.

Abração e Cai na PAz!

Wellington de Oliveira Teixeira em 22-04-2008.

Dois dias após esse texto o Vinni faleceu.
(20 junho de 1989 a 24 de abril de 2008)

13 de abr. de 2008

O mistério de nós mesmos.

Voando, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 15/03/2005
Voando foi criado em 15-03-2005


Guerreiros falam do conhecimento como um pássaro mágico e misterioso que interrompeu seu vôo por um momento, de modo a dar ao homem esperança e propósito; que eles vivem sob a asa desse pássaro, ao qual chamam pássaro da sabedoria, pássaro da liberdade; que o nutrem com sua dedicação e impecabilidade. Sabem que o vôo do pássaro da liberdade é sempre em linha reta. Uma vez que não há maneira de fazer uma volta, não há maneira de fazer um círculo e retornar; e o pássaro da liberdade pode fazer apenas duas coisas: levar os guerreiros consigo, ou deixá-los para trás. (nagual Elias - O poder do Silêncio - Carlos Castañeda)


Era uma vez, duas vezes, três - sei lá quantas! -, uma pessoa comum, por isso mesmo totalmente incomum. Era igual a todo mundo, e como você sabe ninguém é igual a ninguém. E, como qualquer outro, teve muitos sonhos quando criança, que diminuiram quando adolescente, que diminuiram muito quando jovem, que diminuiram mais ainda quando adulto..., o que sempre foi bastante comum entre a maioria das pessoas que ele conhecia, portanto, não era tão estranho assim que, agora, já nem sonhasse mais.

Era bastante atento à vida. Gostava de viver vendo a vida passar. E, como a maioria, 'Estava à toa na vida e o 'seu' amor o chamou pra ver a vida passar… e ele foi ver. E viu sua vida ir sumindo lá no finalzinho da rua. Até deu um tchauzinho pra ela, pois, afinal de contas, ele era um sujeito educado, apesar de nunca ter se preocupado muito com cultura, como quase todos que conhecia. Esquentar a cabeça pra que? Isso é coisa de intelectual. Deixe que outros pensem por você. Dá menos trabalho. Não é assim que os colegas falavam na escola? Mas ele estudou. Não muito, como a maioria. Chegou até ao nível médio. Mediano como a maioria. E a sua vida foi assim, mediana.

Lia um pouco e tirava algum proveito do que lia. Sempre podia falar mais e ser mais respeitado pelo que sabia. Não se aventurava muito em compreender tudo o que lia, afinal de contas quem o fazia?

Mas ele era um trabalhador. Não fazia exatamente o que sonhara durante a sua vida, mas quem consegue ser o que quis? A maioria das pessoas que conhecia não havia conseguido. Por que logo ele teria de conseguir? Estava sobrevivendo, e até bem em relação a muita gente. Não passava fome, tinha o que vestir. Até ia assistir aos filmes que a galera falava que era bom. Jogava bola, e era até bom-de-bola, em relação à maioria dos colegas. Não seria nunca um profissional ou o craque mais falado do time, mas também não seria o último a ser escolhido na hora de dividir times para uma pelada de rua.

Gostava de música. Ah! música é música. Ouvia tudo o que as pessoas ouviam. Conhecia a maioria dos hits de sucesso que tocava nas rádios populares. Até cantava! Não seria um cantor profissional, as dava pra cantar com o grupo, que ele e os colegas criaram. Não era um grupo assim de primeira, mas não era ruim também. Estava mais para a média.

Teve momentos de impacto em sua vida. E ainda consegue se lembrar deles. Fez artes, pintou o sete, fez escândalos nos acampamentos, fumou um cigarro e bebeu um gole de vinho escondido, experimentou sexo... Mas o que tinha demais? Todo mundo não fazia isso? Ninguém podia dizer que ele era anormal. Isso não! Havia cometido alguns erros, alguns enganos. Mas erros todo mundo também comete: Herrar é Umano!

Já tinha traçado os planos para a sua vida: só construir uma casa e casar, ter filhos, ter netos, quem sabe?, fazer uma viagem de turismo, com hotel e tudo, ter um ''carro, comida e alguns 'miões' por mês'', porque todo mundo precisa ter algum conforto, né?

E esperar a morte, por que a morte todo mundo um dia vai ter que encarar.

A vida agora estava toda certinha, dentro dos padrões. Ninguém podia negar: era verdade. Mas bateu uma sensação de que lhe faltava algo, ou que algo lhe escapava das mãos, e não conseguiu identificar o quê. E, por alguns momentos, tentou descobrir o que era. Mas depois deixou pra lá. Afinal de contas, como todos diziam, isso era coisa pra pessoas que não tinham nada a fazer na vida.

Um dia, por um acaso, que não é comum na vida, leu que ser mediano, médio ou medíocre era a mesma coisa. E aquele era o impulso que precisava na vida. E desejou transformar-se. E, dia após dia, procurou dar sentido a cada coisa que fazia. E isso o distinguiu entre todos os seus iguais. O tornou senhor de si, de suas práticas e de seus pensamentos. Já não lhe bastava viver: a vida era pequena demais para se viver e ele precisava de Vida que não se esgota, por mais que a vivamos, que traz a cada dia não a mesma rotina, mas um mundo novo de possibilidades para serem analizadas, escolhidas e realizadas. Uma vida onde o brilho dos sonhos era o mesmo que se expressava em cada olhar, em cada gesto, em cada atitude interior, em cada fala. É claro que isso não o tornou muito popular, mas, em compensação, o tornou mais feliz, mais inteiro, mais verdadeiro consigo mesmo. E a vida tornou-se para ele uma história sem fim...

Somente um sino e um pássaro quebram a quietude...
Parece que os dois conversam com o sol poente.
Silêncio colorido de ouro, a tarde é feita de cristais.

Uma pureza agita as árvores frescas, e
além de tudo isso
um rio transparente sonha que correndo sobre pérolas
se liberta e flui para o infinito.
(Juan Ramón Jimenez)

Wellington de Oliveira Teixeira em 21 de novembro de 1995.

9 de abr. de 2008

Um sonho quando a gente acorda

(Incidência foi criada em 17-11-2007)

O que se faz com um sonho que acaba quando a gente acorda? Aprendi há muito tempo um diálogo que aconteceu entre um mestre zen-budista e seu discípulo:

_ O que você veio fazer aqui?

_ Escutar o cuco.

Ele entra numa sala e fica durante várias horas. Então, ao sair, o mestre lhe pergunta:

_ Escutou o cuco?

_ Não. O cuco não canta no inverno.

_ Mas se você veio escutar o cuco, porque o silêncio do cuco não se fez ouvir?

A gente está acostumado a, apenas, perceber o que é visível, aparente, o que chama a atenção. E, quando, por qualquer motivo, não temos acesso à aparência, perdemos a direção e não somos capazes de reagir de uma forma positiva.

Durante muito tempo, eu trabalhei com música, regendo, tocando piano, flauta ou violão. Uma das coisas mais importantes na execução de qualquer peça era exatamente os momentos de pausa ou silêncio entre uma nota e a outra. Quando bem usada, dava um toque especial à interpretação e criava um clima de encantamento na platéia.

Comecei a trabalhar com artes. Então descobri que não bastava encher a tela com figuras ou informações. Muitas vezes o essencial, para que se pudesse destacar alguma coisa, era fazer com que o espaço em branco em torno da figura principal fosse maior que a própria figura.

Entrei para a faculdade de psicologia e, ainda lá, tive a oportunidade de aprender sobre figura e fundo (gestalt). E percebi que o que torna algo principal no campo de visão é o destaque dado pelo que está por detrás. Da mesma forma, agora visto pela psicanálise, que o inconsciente era o motriz dos acontecimentos que se davam na consciência.

Passei a perceber nas relações amorosas, aquele momento de silêncio, em que tudo está dito, em que o amor se diz plenamente. Descobri o vazio de todos os sentidos, no êxtase sexual: puro silêncio dentro de nós e ao mesmo tempo completude do ser.

Até, que, um dia, eu me encontrei com um anjo peralta. E dizem que anjos não são peraltas…

Mas eu não me importei com isso. Quem sabe era uma nova classe de anjo ainda não classificada pela angelologia dos padres, dos pastores, dos místicos, dos magos e bruxos, dos pretensos sábios? O que importava era que, exatamente naquele encontro, eu descobri um novo tipo.

Alguns poderiam pensar: “Será q isso dá prêmio Nobel?”, “Será que isso vai para os anais da humanidade como uma grande descoberta?”, “Será que isso vai alterar o catecismo, os dogmas ou a hermenêutica?”. Não que eu seja contra, mas de que isso adianta diante do fato da gente ter alcançado o acesso a uma expressão divina?

Do que aprendi sobre anjos, eles são seres enviados por Deus como companheiros que nos auxiliam no dia a dia, ou como nossos guardiões nas situações em que nos sentimos cercados por uma bruma de escuridão, ou como mensageiros da Sua vontade, manifestando-a e retornando para o convívio com Ele.

É claro que eu não sou um especialista em anjos. Mas eu conheci UM anjo. E o encontro com ele foi suficiente para redirecionar a minha vida. Porque ele foi tudo aquilo que eu sabia sobre os anjos: companheiro que me acompanhou sorrindo, brincando, zoando e que me divertiu muito, mesmo nas horas em que eu estava mais deprimido, trazendo uma luz para dentro daquele lugar escuro que havia se tornado meu coração: foi a mensagem divina de que a vida é plena e da importância de aproveitá-la a todo momento. Mas, como todo anjo, veio, cumpriu sua missão e voltou pra Deus.

Pra quem nunca encontrou um anjo, melhor, nunca abriu seu olhar para vê-los ao nosso redor, talvez, seja simples pensar em Vinda–Permanência–Ida como um processo natural e pleno. Não é simples, não! É complicado. A gente se acostuma a ter um anjo por perto, mesmo quando esse anjo apronta das suas travessuras e, por vezes, nos deixa de cabelo em pé, irritados, preocupados, pensativos. É que, na hora, não estamos muito a par do que ele está fazendo: nos aperfeiçoando, nos aprimorando, nos tornando mais próximos daquilo que Deus deseja pra nós.

Comecei por entender meu anjo como um anjo incomodador. É… ele não me deixava em paz por muito tempo, não! A cada vez que eu me acomodava (e pensava: até que enfim um pouco de descanso.), olha ele lá aprontando uma das suas, tirando-me a tranqüilidade e até a seriedade.

Passado o primeiro momento (irritação, reclamação, discussão), o espaço refeito, um carinho, um aceno de paz. Era ele se aproximando com sutileza ou atrapalhado, mas sempre retornando para meu lado, se achegando e se aconchegando em mim e dentro de mim. Como resistir?

E eu achando que seria sempre assim. “Não tem jeito, mesmo!” – dizia-me, muitas vezes.

E fui aprendendo a conviver com ele, seu jeito, suas traquinagens e seus carinhos.

Costume é algo sério: quando a gente vê um anjo todos os dias, pensa que será assim pra sempre.

Mas, um dia, Deus sente saudades do seu peraltinha – é, Deus sente saudades, sim. Minha neta me ensinou isso. Como ela me disse, Ele diz para o Papai Noel vir buscar o anjo e levar de volta pro céu, por que ele tá com saudades. E aí, o anjo não tem nem tempo de se despedir. É Deus quem está chamando. Tem que ir ligeiro, rápido. E se vai, assim, de súbito.

Mas aí, quem fica com saudade somos nós, que nos acostumamos a tê-lo ao nosso lado, a vê-lo se acomodando, incomodando, se dando: raio de luz. Divinamente humano. Humanamente divino. Angélico. Coisa rara de ver.

Imperceptível para olhos desavisados mas que, ainda assim, se manifesta e cumpre seu papel. Mistério de ser e estar.

Mas, há como imaginar um dia sem o sol, mesmo que esteja nublado ou chuvoso? Claro que não! Ele está lá, mesmo que não se veja: meus olhos é que não o vêem. Meu anjo também. Eu é que preciso abrir os olhos da percepção espiritual e sentir, nas marcas que ficaram, a sua presença. Compreender o papel que ele desempenhou na minha vida. E, principalmente, em homenagem a sua vida e a sua presença entre nós, criar um mundo melhor pra mim e pros outros companheiros que ainda se encontram ao meu lado. Quem sabe não são, também eles, anjos que eu ainda não percebi?

Um dia, na antigüidade, uma família foi visitada por estranhos. E só depois perceberam que haviam sido hospedeiros de anjos. Talvez, como seres humanos, ainda limitados, seja essa a nossa sina: a de só perceber a importância das coisas na sua ausência. Só no vazio, na pausa, no silêncio, percebemos a plenitude da vida, seu valor, sua perfeição.

E ouço o Louis Armstrong, cantando a música que toca, neste momento, no meu rádio: “Eu olho o céu que está azul, e eu digo pra mim mesmo: que mundo maravilhoso…”.

Eu olho pra dentro de mim, percebo a grandeza dos desígnios de Deus e, mesmo com uma lágrima teimando em cair, eu canto também: “what a wonderful world…” e agradeço a Deus a presença de anjos na minha vida e na de todos os outros.

(Em homenagem a um anjo chamado Bruno)