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8 de mar. de 2016

Morrer sem perceber

Avançando, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 04-02-2016.
Avançando, criado em em 04-02-2016.

Desisti de esperar que o caranguejo aparecesse. Não que vê-lo não fosse me deixar feliz, mas não iria mais passar meus dias a esperar. Se me perguntassem por que eu tinha desistido de esperar, seria difícil responder. Apenas estava ocupada demais todos os dias, estudando, colecionando, estudando mais, com atenção muito concentrada. Percebi que, talvez, o caranguejo quisesse que eu descobrisse a diferença entre esperar e perder tempo e esperar e aprender com o tempo.
Uma manhã, o sol nasceu e brilhou sobre a praia. Percebi, então, que minha sombra estava ao meu lado. Devia sempre ter estado ali, mas eu nunca a notara antes. É estranho como algo pode estar em um lugar o tempo inteiro e não ser notado em momento algum.
De repente, ver a sombra pareceu um descoberta.

(Brooke Newman — A andorinha-do-mar: uma história de descoberta, p.67-68)


De repente, alguém fica entre entre direções opostas — entre o pólo positivo e o negativo, entre uma possibilidade de ser e outra, entre pensamentos excludentes. É como uma frequência trêmula na energia. Pode chamar isso de insegurança. Imagine a luz de uma lâmpada tremendo quando falta ou retorna a energia elétrica em sua casa — às vezes, a lâmpada se queima; em outras, se recupera, se sustenta, e volta a emitir sua luz constante e ilumina tudo novamente.

Isso acontece porque o 'não ser', provocado pela ausência de energia, despotencializa. Até restabelecer a sua funcionalidade, fluxos distintos de luz e de escuridão interagem sequencialmente: sim e não, aceso e apagado, forte e fraco. Essa ilusão de ser é como uma luz estroboscópica (muito usada em shows) que quanto maior a intensidade e velocidade com que é emitida, mais faz parecer que tudo está lento.

A dúvida é o momento intermediário entre a certeza e a ignorância e, por incrível que pareça, a vida também o é! O seu propósito é terminar (é bem conhecida a expressão 'a única certeza da vida é a morte'), mas no durante — esse intervalo onde as experiências pessoais acontecem — ela se desenrola visando alcançar o seu potencial máximo. É nele que o inesperado, o impensável, o inimaginável ou apenas imaginado e sonhado a constroem.

Transformar-se é, então, superar a paralisia, o imobilismo e a repetição, porque é exatamente isso o que acontece na morte. Quem não avança, já morreu, só não foi avisado disso. As imensas variações entre o prazer e a dor só existem quando há mudança.

Tudo com que interagimos nos leva a definir o novo ser que seremos: somos o resultado da interação entre o que sentimos e pensamos e os estímulos externos que alcançam os nossos sentidos (olfato, tato, paladar, audição e visão — há quem diz que há outros). Quanto maiores as experiências, maiores as chances de aprendizado e evolução.

Como isso nos atinge no cotidiano? Sabe aqueles encontros que geram ambiguidade (aqueles casos em que não sentimos firmeza em alguém que encontramos)? Eles resultam do fluxo de aparências. Não é, mas finge ser. Produz dúvida. Diferentemente de quem não esconde seu estado de incerteza e busca a superação — um verdadeiro processo de transformação — essas pessoas estão paralisadas, usaram por tanto tempo uma máscara que ela grudou no rosto: são fixas e falsas — exatamente como a a morte, onde parece haver alguém ali, mas não o há.

Seja consciente de que a vida é a pura transição entre um estado e outro de ser, mas não é algo vazio(*). Sem ela, não se produz os encontros que potencializam alguém para algo além. Desde aquele primeiro encontro que iniciou o processo de geração de um novo ser, tudo o que acontece objetiva a transformação, o desenvolvimento. Toda experiência visa acumular as energias produtoras da expansão do ser. Sem ela, não há evolução e obstruir ou impedir esse processo é paralisar a vida, é morrer sem perceber.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 08 de março de 2016.

* Na porta de um cemitério a frase Nós que aqui estamos por vós esperamos. Essa frase intitulou um filme de 1998 de Marcelo Masagão. Questionando a banalização da vida e da morte produzida no século XX, expõe, de uma forma extremamente emocionante, os fragmentos biográficos de pequenos e grandes personagens. Qual a interferência possível, para cada um de nós, no coletivo e em nós mesmos?

28 de fev. de 2016

Interagir visando se fortalecer

Expansão, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 27-02-2016.
Expansão*, criado em 27-02-2016.

Se numa determinada sociedade há muitos indivíduos que vivem submetidos às relações que não combinam com a sua natureza, é evidente que, durante a maior parte da vida, eles tenham um constrangimento cada vez maior da sua potência de agir e de pensar, e tornam-se cada vez mais ignorantes dos afetos que são capazes, excedendo, muitas vezes, a capacidade de serem modificados; além disso, por viverem tristes e impotentes, estão muito vulneráveis aos afetos de ódio, ira, vingança e outras paixões nociva […].
(Amauri Ferreira — Introdução à Filosofia de Spinoza, p.82-83)


Alguns se confundem com frases do tipo 'Corpos são substâncias com propriedades e capacidades que interagem entre si'. Facilito: tudo que existe, para sobreviver, se relaciona de acordo com as condições do momento. Sentir fome e sede ou amor e ódio fazem parte da vida. O diferencial é como cada ser age ou reage, impelido por esses estímulos.

Com o esforço ao máximo no uso da capacidade de raciocinar (identificar e ordenar os elementos) e de pensar (criar estratégias) ganha-se maior autonomia, isto é, não se deixar levar pelas correntes do senso comum, evitar os assujeitamentos, superar as forças que enfraquecem a própria potência de vida.

Pode parecer banal, sem valor, mas qualquer encontro que se faz tem o poder de fortalecer ou enfraquecer, alegrar ou entristecer. A plenitude está em realizar os encontros de modo a retirar deles maior potência para a expansão de si mesmo e tornar-se feliz.

A disposição mental, psicológica e espiritual funciona como a base, o pano de fundo, para tudo que acontece no cotidiano: decidir encarar o que vier como uma forma de tornar-se mais pleno — não importa o preço exigido —, é o que permite evitar a dualidade do tipo é do bem ou é do mal.

O que isso tem a ver? Seres pensantes buscam sempre novas interações e encontros com o poder de fortalecê-los, mesmo com o que causa uma dor momentânea. E é esse tipo de entendimento que os diferem de quem vive a vida responsabilizando os acontecimentos ou culpando os outros pelo que vive ou deixa de viver.

A vida não é controlável, mas é uma escolha ou decisão individual o modo de reagir perante o que for encarado.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 28 de fevereiro de 2016.

* O conceito de expansão em Spinoza está muito ligado ao de curtir a vida. É possível lutar contra o enfraquecimento ou a tristeza. Esse é um dos maiores atos criativos da humanidade: entender e se assenhorar dos acontecimentos da vida e não se deixar subjugar nem querer julgar o que quer que seja, a não ser para acatar algo que compõe consigo mesmo e fortalece ou rejeitar algo que não compõe e enfraquece seu ser.

1 de jun. de 2015

Embalsamados em âmbar

Embalsamados em âmbar, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 01-06-2015.
Embalsamados em âmbar*, criado em 01-06-2015.

senciente:
adjetivo masculino-feminino, originário do latim
sentiente
relativo ao que sente ou tem sensações; que é sensível.


Ideias e sentidos a serem dados perseguem a gente, são grudentos, mas eu os adoro porque não facilitam um estado de imobilidade.

Também da vida é a lógica do tempo escorregadio, aonde a criança, o adolescente, o jovem e o velho se conectam num mesmo ser. Alguns condenando-se pela descrença de si, independente da fase que vivam.

Perdão e desculpa não se igualam por conta da intenção, existente no ato do primeiro. Desculpe-se, então, pelo incontrolável, por não amar (ou não mais), por seu corpo não ser tão esperto quanto antes e siga em paz. É tão difícil aprender a viver 'com' quanto é viver 'sem'. É um pouco abrir-se ao entendimento do essencial de cada momento para cada um.

O perdão de lá só vale quando o há aqui dentro de mim: por vezes, perdoar é um ato de pedir perdão — nossa corresponsabilidade por propomos uma vida para duas. Já vi o perdão alargar horizontes ao perceber e entender e aceitar o retorno da paz a mim.

Perdoar(-se) é abrir a oportunidade de seguir novos percursos… mas, embalsamados em âmbar translúcido, alguns iludem-se, impedem-se da liberdade que há ao experienciá-lo. Sintetizar isso é imaginar um pássaro de asas abertas, imobilizado (órgãos retirados, interior empalhado), apenas parecendo vivo. Se a analogia ficou muito intricada, esclareço: isolar-se e boicotar o que há de vida e de potência — mesmo que ínfimas — é o que nos mata em vida. Esse limite somos nós que nos impomos, não a Ordem.

Aos que dizem que o tempo é implacável, gostaria de opinar diferenciado. Implacável é a vontade dos seres sencientes. Conscientizados da potência que há encerrada em cada um, deveríamos encarar como único desafio válido o expandir-se ao infinito e ultrapassar as barreiras do possível. Impossível é um nome que deram para o desconhecido, antes de perceberem que há mais, muito mais no incognoscível, mesmo para a atual condição dos seres humanos.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 1° de junho de 2015.

* Durando mais de dois meses, o processo de embalsamamento no Antigo Egito constituía de:
  • extração do cérebro pelas narinas;
  • retidas dos órgãos via incisão lateral no corpo;
  • substituição do coração por um objeto envolto com textos sagrados;
  • emergir o corpo em natrão por 40 dias (processo de desidratação das células e combate às bactérias);
  • preencher com ervas aromáticas das cavidades vazias do corpo e fechá-la.

10 de jan. de 2015

Remendos soldados

Remendos criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 10-01-2015
Remendos, criado em 10-01-2015.

Será que é assim que termina, pensei, será que tudo o que um Mestre diz
não passa de um amontoado de palavras bonitas que não o podem salvar do primeiro ataque de um cão raivoso?

(Richard Bach — Ilusões. As aventuras de um Messias Indeciso)


Um dia tive a coragem de me contradizer algumas das crenças mais protegidas, a da inteireza. O que torna alguém pleno não consegue torná-lo inteiro, como peças complementares todas se encaixando. Somos um mosaico com várias reentrâncias, inclusive algumas arestas que machucam os que tentam uma aproximação indesejada. Para ser um pouco mais direto, somos apenas remendos.

Talvez por conta dessa minha ousadia, pude perceber que geramos pequenos bolsões de ordem, algumas áreas estruturadas como as redes de descanso onde nos permitimos o tempo de [re]composição. Nelas nos tornamos reclusos, nos permitimos as viagens de coração e de alma, incontáveis para quem quer que seja. Lá temos que ficar desnudos e, talvez, lá é que alcancemos a percepção das aglutinações, das possibilidades de reunir os pedaços que foram absorvidos nos encontros e desencontros da caminhada.

Entendi que o preço de iluminar um pouco mais determinada parte é fazer alguma outra empalidecer. Como focos de canhões de luz, nossa energia é direcionada em feixes para acomodar a necessidade mais imediata, aquilo de que precisamos em um exato momento. O que convencionamos ser a realidade nos toma e nos absorve, quase que completamente*.

A partir desse voo, reuni alguns dos aprendizados anteriores e resolvi aceitar algo que posso com certeza afirmar ser meu maior desafio: criar as condições de iluminar plenamente cada pedaço reunido e gerar uma solda que os reúna numa singularidade, simultaneamente. Pode parecer algo absurdo, um tipo de alucinação ou fábula, mas, se acontecer de conseguir, quem sabe até aonde conseguirei ir?

Esse é o meu voo, qual é o seu?

Wellington de Oliveira Teixeira, em 10 de janeiro de 2015.

* Todo o cotidiano nos embaça a visão quando nos faz acreditar na rotina e na repetição e não na transformação.

30 de out. de 2014

Reflexos infinitos

Reflexos infinitos, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 04-10-2014
Reflexos infinitos*, criado em 04-10-2014.

Com cada início de vida, a roda das decisões começa a girar reproduzindo os mesmos processos anteriores,
e apenas uma decisão permite se distanciar da repetição em busca de algo original.
É isso que define tornar a vida expressiva ou não.

(Wellington de Oliveira Teixeira)


Me remeto àquelas improváveis possibilidades que eu pude dispersar ou reunir em uma única e simples decisão.

Por que, após elas, nos tornamos apenas isso, limitação. Perdemos a infinitude em prol da concretização.

Num paradoxo que me escapa ao entendimento, mesmo restrito às escolhas que foram estabelecidas, instituímos, após cada uma, um novo e infinito campo de possibilidades.

Nisso somos seres de quem somos, nisso a Ordem se estabelece em nós, nisso exploramos a cada encontro uma plenitude seguida de transformação.

Nisso contribuímos com a plenitude e a transformação da Ordem: reflexos infinitos, qual um único raio de sol atravessando uma minúscula gota d'água que gera, não apenas por si, um fragmentário e belo campo luminoso.

Energia luminosa que, uma vez liberada, não é possível mais cercear, por que cada reflexo se expande em múltiplos reflexos, numa escala infinita.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 30 de outubro de 2014.

* Reflexos que escapam da similaridade com seus originais tornam-se autênticos.

5 de jun. de 2014

A pele que cobria o monstro

Monstro atrás da pele, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 05-06-2014.
Monstro atrás da pele, criado em 05-06-2014.

Se buscarmos um paralelo para a lição da teoria atômica […]
[devemos nos voltar] para aqueles tipos de problemas epistemológicos com os quais já se defrontaram,
no passado, pensadores como buda e Lao Tsé em sua tentativa de harmonizar nossa posição
como expectadores e atores no grande drama da existência.

Niels Böhr (Nobel de Física, 1922) — Atomic, Physics and Human Knowledge, p.20 (*)

Todo rótulo é um crime contra o arbítrio por ser uma tentativa de usurpar a liberdade do outro, o que o torna livre: essa transmutação sui generis à humanidade.

Quantos tons de cinza você acha que eu deveria contar para dar conta da realidade. Você certamente já percebeu que nada é preto no branco (mesmo que você seja um adolescente idealista e tomado por uma causa!).

As vivências, em si, como letras no papel, são apenas um conjunto de símbolos que formam palavras. Mas cada uma não vale por si, depende do seu contexto, E contextos são — com texto ou não — indissociáveis de uma apreciação ou avaliação. Uma página em branco pode significar um 'não sei o que dizer'.

Em determinado momento você crê em algo. O que constitui em você essa crença está para além do que racionalmente você possa controlar: milhares de experiências que possuem um corpo como suporte — interagindo com as [d]eficiências que lhes são inerentes e estruturantes.

Ou você vai me dizer que cegos ou surdos ou paraplégicos constituíram o seu saber viver do mesmo modo que alguém que não possui essas questões para enfrentar? Posso questionar também com relação aos que constroem sua vida com base num lar amoroso e cuidadoso ou degradado por todo tido de má relações ou de drogadição.

Está mais do que provado que nenhuma estrutura, em si, é determinante do que alguém vai ser, crer ou viver. Há influência, e possivelmente forte, mas não é garantido porque simplesmente não é possível prever. Por mais que seja uma tentação acreditar, nada — absolutamente nada da ordem física ou emocional — pode ser determinante da construção de um ser.

Não sei se um monstro toma o corpo das pessoas ou se elas apenas retiram a pele que o cobria — me recordei da metáfora 'lobos em pele de cordeiro' —, mas todas as pessoas quando se transtornam se transformam diante de determinadas situações, especialmente das indeterminadas ou das que as surpreende.

Pense bem: todas! Isso soa muito mal. Provoca náuseas. É duro de tragar. Mas é a verdade. Variamos na escala da realidade: nem bons nem maus — simplesmente humanos.

Considerando as relações cotidianas, alguns são mais eficientes em cuidar da questão, alguns mais capazes de manter enjaulada a vilania, muitos deslizam ao sabor das intempéries ou das bonanças. E esse muitos somos eu e você. Não creio que o mal nos constitui, tampouco somos feitos apenas do que é bom. O custo que o dom do arbítrio exigiu foi esse: sermos estruturalmente neutros.

Repare que até aqui não citei espiritualidade (por favor, não se precipite com as críticas!), a estruturação genética e a apropriação individual de uma psiquê carregam esse fardo. Exatamente o dos vocábulos. Coloque o seu nome à esquerda, à direita os adjetivos e classificações. Isso mesmo, se dicionarize. Faça isso quando estiver alegre, o mesmo quando triste e a seguir com raiva. A transmutação que você sofrerá ainda não será suficiente para mostrar o quanto você pode deslizar nos significados que você mesmo entende como definidores de sua personalidade ou o seu si mesmo.

Imagine as seguintes relações: você + um desafeto; você + o amor de sua vida; você + seu mentor preferido; você + um criminoso. Você = você? o você é o mesmo que o seu ideal (Você)?

Mesmo que tente se dizer o tempo todo 'Vou Ser!', não é apenas improvável, é algo impossível de se obter porque em sua constituição está a escalaridade e a ressignificação. Explico:

— você pode ser mais ou menos bondoso, triste, saudável etc.;
— você pode ser outro de acordo com o encontro que efetua: encontros nos definem e espelham quem somos nos momentos de sua duração.

Depois a imagem borra, a estrutura se desfaz, você retorna à estaca zero. Outra oportunidade. Tudo de novo.

Todo novo, decida-se, escolha, lute e conquiste o que tornar-se.

Não é o simples 'fulano é bom e sicrano é mal' e, por mais que você queira rotular — porque isso enganadoramente parece facilitar a vida —, não basta. É o trilhar um aperfeiçoamento pessoal, de descoberta em descoberta o que chamamos de amadurecer. E a incongruência dessa questão é que ninguém se torna melhor porque maduro, mas porque decidiu — vez após vez — por dar um determinado direcionamento à vida e foi capaz o suficiente de manter a rota, mesmo com tantos desvios promovidos pelos obstáculos encontrados.

Viu? Livre arbítrio, não arbitragem. Não seja juiz de ninguém, nem de você mesmo.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 05 de junho de 2014.

* Em relação à questão epistemológica, sugiro a leitura do texto de Akiko Santos (Laboratório de Estudos e Pesquisas Transdisciplinares — UFRRJ): Complexidade e transdisciplinaridade em educação: cinco princípios para resgatar o elo perdido. Disponível no Scielo:
http://www.scielo.br/pdf/rbedu/v13n37/07.pdf/

17 de dez. de 2013

Ousar ser mais que uma parte

Ousar, criado por Wellington de Oliveira Teixeira, em 17-12-2013 Ousar, criado em 17-12-2013

Seus atos, bem como os atos de seus semelhantes em geral, parecem-lhe importantes
porque você aprendeu a pensar que são importantes.
Aprendemos a pensar sobre tudo — disse ele — e depois exercitamos nossos olhos para olharem como pensamos a respeito das coisas que olhamos. Olhamos para nós mesmos já pensando que somos importantes. E, por isso, temos de sentir-nos importantes! Mas quando o homem aprende a ver, entende que não pode mais pensar a respeito das coisas que ele olha, e se não pode mais pensar sobre as coias que olha, tudo fica sem importância […] tudo é igual, e dessa forma sem importância.

Você teme o vazio da vida de seu amigo.
Mas não existe vazio na vida de um homem de conhecimento, posso garantir-lhe.
Tudo está cheio até a borda.
(Carlos Castaneda - Uma estranha realidade pp.79-85)


Pedaços estão para além de partes de um todo.

Sabe quando você tem uma tarefa a executar que possui camadas de um roteiro a seguir ou uma construção que depende do passo anterior para poder ser executada? Na universidade me ensinaram a classificar essas partes como pre-requisitos: assim, não seria possível alcançar o topo sem percorrer os degraus.

Relativo. Como tudo, aliás.

Nossa mentalidade mecanicista só (re)afirma aquilo que ela foi programada para aceitar. Nosso comportamento padrão recompensa-castigo: meu ratinho branco e velho companheiro, Tommy, das aulas de psicologia comportamental o expressaria. Estímulo e respostas que constroem como agimos e pensamos.

Meu ratinho, parceiro de curso básico — que, para desespero das meninas, me acompanhava dentro da jaqueta às outras aulas —, ganhou esse nome por que eu havia assistido ao filme(*) de mesmo nome onde um autista era brilhante em jogar pimball (ou pebolim, em alguns locais do país). Um autismo programado.

Como o nosso.

Somos brilhantes em reproduzir o cotidiano, suas rotinas, em nos apegarmos ao costumeiro até que não haja mais qualquer gota de prazer a ser retirada das nossas práticas. E, ainda assim, continuamos indefinidamente apegados à crença de precisarmos delas para continuar.

A ruptura, que sempre é possível, precisa acontecer. Mas passei da fase da iconoclastia por si mesma. Já não sou tão punk assim.

Minha fé no poder do desfazer algo vem do crer que a energia que gastávamos para manter determinada rotina pode ser empregada para fortalecer outras diferenciadas.

Gosto de período a período fazer modificações amplas no meu habitat - além daquelas pequenas e quase imperceptíveis a outros olhos. Mas não o faço por fazer. Me obrigo a detectar uma necessidade, que aparece quando meus atos se tornam inócuos, insossos, não representativos daquilo que estou no momento.

É nesse campo propício que invisto nas tentativas de criar um novo, não apenas um renovado estar na vida. E, para obter isso, ouso coisas que não havia tentado, ainda.

Recordo-me de haver sentido esse movimento quando quis aprender a tocar instrumentos de teclas. Foi um desafio imenso para quem não tinha recurso nenhum: as pernas eram as teclas, onde meus dedos simulavam tocar um piano.

Parece um contrassenso, mas deu certo. Aprendi. E depois vivenciei um conjunto de momentos tão maravilhosos quanto inesquecíveis. Inclusive amar além de qualquer possibilidade de resistir.

Bem, isso não é confessionário. Uso o acontecimento como exemplo de o quanto o voo pode ser longo quando nos decidimos a ultrapassar o maquinismo, aquilo que em nós acredita que a roda não pode ser reinventada, que os descobrimentos são apenas tirar a coberta de cima de algo.

Uso porque quero me incentivar a viver situações como a de agora: transição.

Quero ser um transeunte da vida, não um expectador em uma estação de trem, de ônibus, de avião ou de espaçonaves. Quero ir além e transitar seus pensamentos e gerar novas emoções em você também, como o resíduo de minha vida, como a energia que se expande para além de sua fonte.

Um dia eu quis ser veículo, instrumento do sagrado em mim. Hoje entendo que não há dissociação entre mim e o sagrado, já que seu sopro é minha vida.

Ainda bem que, um dia, Deus ousou e disse "Haja Luz!".

Wellington de Oliveira Teixeira, em 17 de dezembro de 2013.

* Filme baseado na ópera rock lançada em 1969 pelo The Who. Durante a II Guerra Mundial o Capitão Walker é considerado morto em batalha. Sua esposa Nora Walker fica com a tarefa de cuidar sozinha de Tommy, filho recém-nascido do casal. Nora se envolve com Frank Hobbs, mas em 1951 seu antigo marido retorna repentinamente e é morto por Frank. O garoto Tommy presencia tudo, mas sua mãe e seu padrasto insistem que ele não viu, ouviu e não vai falar nada a ninguém, e em consequência Tommy se torna cego, surdo e mudo. Já adolescente, Tommy se torna um campeão de pinball, trazendo fama e fortuna para sua família. Depois de curado, ele se torna uma espécie de figura messiânica e angaria um culto de seguidores, que no final rejeitam seus ensinamentos e o abandonam. (http://pt.wikipedia.org/wiki/Tommy_(filme))

30 de set. de 2009

Nudez de alma


misturadedesenhosdeoutros, foi feita em 31-08-2009 misturadedesenhosdeoutros**, foi feita em 31-08-2009.

"Posso voar mas não posso controlar o corpo
Que sorri para o mundo, escuta a música
Faz a dança e cativa sem parar."

Pós TPM - Dirty Fastfood*
(http://dirtyfastfood.blogspot.com/pos-tpm.html)


Que minha arte não me represente, mas me apresente; que não seja marcas que eu fiz, mas minhas marcas que ousei deixar vir à tona e tonalizar a tela; o meu próprio voo de descobrir nas misturas e formas iniciais a ideia que sobressai e ganha plano e me força às mudanças e alterações no que já estava dado - até que eu perceba que apenas um dado no todo e não algo estabelecido como um todo.

E me deixo levar, inventar, descobrir e redescobrir porções, criar camadas sobre outras e efeitos sobre efeitos até que algo em mim olha e vê e sabe que disse algo e que, por isso, me disse.

Então é só inventar uma moldura e não deixar que ela modele todo o caminho traçado e domine a conquista feita com o processo da descoberta.

É melhor ficar sem cobertura, nem cercas. Só de vez em quando, pra dizer que uma ideia se fechou por alguns instantes. E, depois, me permitir modificá-la, restabelecer o vínculo apenas para permitir que fluxos outros tenham vez, talvez os que não tiveram voz no primeiro embate, no primeiro encontro, no primeiro olhar.

E por que não? Há mais olhares possíveis pra cada cena, sempre, como há mais de uma forma de ler, tocar, cantar, escrever, sonhar.

É só um voo. E vôos são as coisas mais difíceis da vida: raridade hoje em dia, porque voo é o encontro de você com a vida, é a expressão de tudo que se armazena e se guarda e se destila. Voo é o encontro consigo mas num plano superior, onde se consegue tudo. Voo é o momento em que nada lhe toca, nada lhe detém, nada lhe contém, nada desvia você de você. E é o momento em que não havendo nada mais para acrescentar, basta crer. Crer que a plenitude se instalou e proporcionou a um ser o se tecer sem temer o vir a ser, o devir e o se desfazer. Por que é bom me dizer, me desdizer, para que haja um novo dizer sobre mim: alteridade em mim, novidade em si, uma nova idade para se viver.

Risco, sim, porque é arriscado viver, se sustentar no fio da teia de uma aranha, mas sem se prender, sem se perder, nunca se esconder, talvez, se proteger.

Um pouco de exposição, mas sempre a ação, sempre a expansão e a busca pela captura do instante do seu olhar, para provocar e fazer fluir e para passar adiante o que me provocou de início.

E torcer para que a construção seja outra, distinta e tão potente quanto a minha e aninhe outras questões: um processo sem fim que se irradia e ilumina quem quiser ser elo e se permitir ser verso ou qualquer outra forma de expressão.

Quem sabe uma nudez de alma, a luz da aura para poder sorrir?


Wellington de Oliveira Teixeira, em 30 de setembro de 2009.


* Uma pessoa que eu amo a maneira como se expõe e que, da mesma forma que se joga largada, se permite uma consistência de ser e estar.
** Espero ter em breve o nome do autor do anjo e da foto para fazer os créditos da minha mixagem.