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10 de abr. de 2015

Estrelas-guias geram buracos-negros

Estrelas e buracos, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 10-04-2015.
Estrelas e buracos, criado em 10-04-2015.

Uma sugestão: promova boas recordações, se permita um pequeno túnel do tempo onde você resgate dos acontecimentos o poder que eles possuem de serem eternos em seus efeitos; faça isso sem abdicar dos novos acontecimentos que o cercam no exato momento em que você viaja ao passado. Como? Conte uma história de vida para alguém, uma que o inspire a ir adiante. O que você vive pode ser exclusivamente seu, mas pode efetuar muito mais quando compartilhado.
(Wellington de Oliveira Teixeira — Saudosismo ou saudade*)


São tão estranhos esse amor com desejo de infinitude, essa vontade poderosa de alcançar o inominável e reconstituir as teias do destino, essa forçada quietude da fala — expressa com o silêncio, mas soando alto e ecoando sem fim na cabeça e no coração.

Por que, em zilhões de estrelas-guias, justamente a ordem foi para a minha se desfazer e gerar em mim um buraco negro por pulsar seu brilho e calor onde jamais voltará a ser vista por quem mais a desejava ver?

Saudade e dor jamais deveriam formar par, deveriam ser proibidas de emitir seu gélido sopro e assentar moradia em qualquer canto da alma, não deveriam poder instigar o voo sem conceder uma par de asas.

E eu fico aqui, um terráqueo engolidor da água salgada que foi destilada no fundo da alma, que por pressão interna extravasou e escorreu na face que mirava o horizonte perdido em busca do perdido para o horizonte.

Imagino que talvez algum novo tipo de sonho permita coincidências. Quem sabe do meu com o seu? Quem sabe esses nossos corpos sonhadores encontrem-se por aí, numa esquina do universo?

Até lá, breve ou nunca, vou mirar o vazio que ficou no céu enquanto ele se manifestar em mim, vou imaginar o improvável e quase impossível reencontro enquanto encontro nas marcas do corpo e da alma os signos de sua passagem tão radiante em minha vida.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 10 de abril de 2015.

* A citação é um trecho do texto Saudosismo ou Saudade que encontra-se completo nesse blog no endereço http://bigwzh.blogspot.com.br/2014/04/saudosismo-ou-saudade.html

14 de set. de 2014

Coisa de momento

Coisa de momento, criado por Wellington de Oliveira Teixeira entre 10 e 14 -09-2014.
Coisa de momento*, criado entre 10 e 14 -09-2014.

A noite de sábado começava, era a primeira vez que passeava sozinho em Zurique e
aspirava profundamente o perfume da liberdade. A aventura espreitava-o em cada esquina.
O futuro tornava-se de novo um mistério. Voltava à vida de solteiro,
essa vida que anteriormente estava certo de ser o seu destino,
pois era a única em que poderia ser tal qual era realmente.
Vivera acorrentado a Tereza durante sete anos – ela havia seguido com o olhar
todos os seus passos. Era como carregar bolas de ferro amarrada nos calcanhares.
No momento, subitamente, seu passo estava mais leve. Quase voava.
Estava no espaço mágico de Parmênides: saboreava a doce leveza do ser.

(Milan Kundera - A insustentável leveza do ser, p.35-36)


A gente diz coisas sem se dar conta da extensão daquilo que dissemos.

Coisa de momento: dimensionado pelo êxtase que atravessou corpo, alma e espírito; que traz à tona o que nunca consegue aflorar além de parcialmente; que faz a palavra humano ganhar verdadeiro sentido. Genuinamente pleno, inescapável, indubitável. Mas, como tudo que é de ordem superior, é como um flash imenso que oblitera tudo o mais que se encontra além do foco do nosso olhar.

Depois, com o que chamamos de realidade do dia a dia, aquela magia se esvai por termos que usar os básicos sentidos da sobrevivência. E entramos novamente na matrix para termos as experiências comuns e ansiarmos enormemente por uma nova oportunidade de ultrapassarmos o invólucro que englobou a força vital e nos separou da ordem universal.

Particularidades nos tornam indivíduos, com todo o preço que se paga por isso, em especial a perda da conexão que nos integra ao todo.

E a gente sobrevive depois de conseguir uma fagulha para nos reincendiar, por um lapso temporal mínimo, e assim propulsionar a sequência dos momentos que se constitui o cotidiano. Só que somos capazes de um espectro muito maior; a amostra grátis que aqueles momentos nos proporcionam confirmam.

Então, isso é seguir em frente: ignorar a eternidade que nos cerca e nos assume em cada gesto. Certamente, seria loucura tentar dar conta dela nesse corpo tão maravilhoso mas tão reduzido ainda no uso de suas capacidades. Por isso, ansiamos experimentar a química fantástica que os sentimentos produzem alterando todos os padrões cerebrais — milhões de vezes superior ao que qualquer droga conseguiria — e vivenciarmos a irrealidade.

Só por isso, mais outra e outra vez, que, continuamente, resolvemos acreditar no eu, na ilusão das percepções. Tudo o mais é reduzido a apenas fantasia de um momento.

A eternidade aqui não valeria um único sequer momento sem este instante mágico, onde se reúne tudo o que se é até que o eu desaparece ou consegue se ultrapassar.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 14 de setembro de 2014.

* As pequenas experiências de plenitude ampliada, simultâneas da nulidade do eu, como no êxtase físico ou espiritual, são fundamentalmente o que permite a perpetuação da vontade de produzir novos encontros.

30 de ago. de 2014

Energia em formato de memória

Memória, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 29-08-2014.
Memória, criado em 29-08-2014.

Confie em seu poder pessoal: é tudo o que temos neste mundo misterioso.
A escuridão é como o vento, uma entidade desconhecida à solta, que pode lhe pegar se não tiver cuidado.
Você deve entregar-se ao seu poder pessoal, fundir-se com ele…
Um guerreiro é impecável quando confia em seu poder pessoal,
sem considerar que ele seja pequeno ou grande.

(Dom Juan, em Viagem a Ixtlan de Carlos Castañeda, p.161-162)
É quando os fios de cabelo da nuca arrepiam e uma estranha sensação, vaga, de estar fora do tempo, é subtituída por outra que cola na mente uma certeza; não em outro.

Nesse momento, único em efeitos, em que perco o senhorio de mim, ao mesmo tempo em que me expresso mais verdadeiro que nunca; não em outro.

Só quando preciso encontrar um modo de racionalizar - qualquer um - para que esse encontro da alma com o infinito, com o atemporal, não me faça ultrapassar os limites de um corpo cada vez menos interessado no estático, no substancial, no sequencial; só nele.

Eu me confidencio, calmamente, que este tempo de vida é pequeno; que as marcas estampadas no invólucro individualizante cumpriram sua função; que os motivos encontrados para realizar essa jornada se esgotaram; que tudo se iguala e por isso mesmo ganha o mesmo status: não há importância pois tudo tem valor; que não há dor na paz, na aparência, talvez; que é quando um antigo fluxo se expande que um novo núcleo se aglutina: a vida não se desfaz se reconstitui em outras vias; que, a novidade chega não para ocupar o lugar do antigo, ela estabelece um novo;

Apenas um flash, um estalo. Em um piscar de olhos o tudo torna-se nada, melhor, visibiliza-se como apenas uma camada transparente - como as da cebola - que por um exato e ínfimo instante é permeável e permite ser transposto.

Não mais substância, o que se configurou forma desfaz-se e torna-se, aos poucos, o que sempre foi: uma energia que flui e ganha, em todos, o formato de uma memória.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 30 de agosto de 2014.

* Quando converso com algumas pessoas sobre poder pessoal, cito o conceito de capacidades pessoais bem conhecido por cristãos, resumido em uma parábola (uma ilustração que permite a absorção imediata de um conceito difícil), como a que a palavra talento pode significar poder, capacidade ou habilidade pessoal, além do conceito de bem, gravado em moeda com esse mesmo nome.
Porque isto é também como um homem que, partindo para fora da terra, chamou os seus servos, e entregou-lhes os seus bens.
E a um deu cinco talentos, e a outro dois, e a outro um, a cada um segundo a sua capacidade, e ausentou-se logo para longe.

(Bíblia - Mateus 25:14-15)

11 de jun. de 2014

Gritar o indizível

Indizível, criado por Wellington de Oliveira Teixeira entre 10 e 11-06-2014.
Indizível, criado entre 10 e 11-06-2014.

A arte é uma forma de o ser humano expressar suas emoções, sua história e sua cultura
através de alguns valores estéticos, como beleza, harmonia, equilíbrio.

(MEC — Arte na Educação de Jovens e Adultos)*

Não é que eu me arrependi, eu tô com vontade de rir;
Não é que eu me sinto mal, eu posso fazer igual.
Não é que eu vou fazer igual: eu vou fazer pior!
(Nem sempre se pode ser Deus — por isso que estou gritando.)

Não é que eu passei do limite, isso pra mim é normal;
Não é que eu me sinto bem, eu posso fazer igual.
Não é que eu vou fazer igual: eu vou fazer pior!
(Nem sempre se pode ser Deus — por isso que estou gritando.)

(Titãs - Nem sempre se pode ser Deus)


Não se cala à toa.

Forças incomensuráveis impedem o grito de escapar

dos recônditos da alma, sussurrar aos ouvidos da própria vida.

Constituídos os dóceis domesticados a sufocá-lo:

engolimos a dor para, em silêncio, digerí-la.

E a vida, que por muito espremida,

num supremo desespero, quer-se ainda:

se infiltra e constrói a rebeldia,

de cada ato ou expressão produz a súplica

para que a arte grite por nós

o indizível.

[pra ninguém ouvir.]

Wellington de Oliveira Teixeira, em 11 de junho de 2014.

* A publicação dedicada a orientação dos que trabalham com arte no EJA está disponível em
http://portal.mec.gov.br/seb/arquivos/pdf/eja_arte.pdf