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28 de jul. de 2015

A nova onda de monstrualização

Onda de monstrualização, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 27-07-2015.
Onda de monstrualização, criado em 27-07-2015.

O relacionamento entre jornais e leitores, internautas, ouvintes ou telespectadores é encarado […] como um tipo especial de história que faz uso de outra, apresentada na forma de unidade noticiosa, com clara função ideológica e persuasiva.
(Nilton Hernandes – A mídia e seus truques: o que o jornal, revista, TV, rádio e internet fazem para captar e manter a atenção do público, p. 39)
hegemonia
O que é: Supremacia, Autoridade soberana.
O que faz: Influência preponderante (liderança, predominância ou superioridade) sobre cidade, povo, país ou pessoas.
Métodos: Aculturação (introdução ostensiva de determinada cultura e visão de mundo) e/ou Militarização.
A Onda (*) é um filme que demonstra a capacidade de monstrualização humana, esse processo de diferenciação negativa do outro, quem quer que seja, por meio de um discurso hegemônico, uma única e inalterável verdade no campo das coisas e das relações pessoais.

Muitos indicam ser apenas fruto de intolerância religiosa. Mas, originariamente, as religiões ocidentais não pregam a destruição alheia e gratuita; dentre as práticas filosófico-religiosas orientais, a questão do equilíbrio me parece ser a tônica. De onde surge, então, tais movimentos? Como as pessoas são cooptadas por eles?

Nas aulas de filosofia conheci o pensador Michel Foucault, que alertava que qualquer acontecimento possui o discurso simultaneamente como um elemento e um dispositivo estratégico de relações de poder. Para ele, a manipulação social não é fortuita, tem alvo específico e há vários níveis de poder operando por meio dela. Pierre Bordieu é um pensador que avaliou a política de percepção cognitiva, a constituição da percepção de mundo por informação e orientação: educar corpo e mente visando obliterar questionamentos e encaminhar para uma determinada direção política.

Em comum, mostravam os processos que constroem os monstros a serem combatidos e a cruzada contra eles. No Brasil atual, ocuparam essa posição os comunistas, os esquerdistas, os gayzistas e quaisquer outros ativistas, especialmente os de Direitos humanos.

Uma vez infiltrados pelos discursos, é recorrente a negação de fatos históricos - até mesmo os recentes — pela multidão. Foca-se na desqualificação como base da estratégia malévola dos discursos de ódio contra qualquer pessoa com um desejo genuíno de uma sociedade mais igualitária e desejosa de políticas de redução das desigualdades sociais. É inadmissível questionar que uma ínfima camada de extremamente ricos gerem uma imensidão de miseráveis.

Criou-se uma Nova Onda. Cooptados inicialmente para a frente do ataque, os religiosos já tinham sido insuflados com o medo de igrejas fechadas e perseguição aos cristãos — pregados nos púlpitos por líderes religiosos inescrupulosos — desde a época da campanha visando colocar Collor na presidência da República.

A construção de simulacros — por meio de artigos e editoriais de revistas e do jornalismo televisivo— criou os salvadores da pátria, os paladinos da justiça, os incorruptíveis. Estes mesmos, comprovadamente corruptos, foram alvo do endeusamento manipulativo dessas publicações. Se em período eleitoral praticamente todas as matérias de capa da revista Veja eram exemplos, agora a questão é ininterrupta. Quem ganha e quem perde com isso?

De uma coisa tenho certeza:
  • os dóceis-manipuláveis cordeiros estão indo para o matadouro sorrindo, mesmo agindo absolutamente de forma contrária ao que professavam anteriormente;
  • Os politicamente-agora-inativos, desistiram da busca por justiça social porque desiludidos com a realidade que sempre souberam existir: o ser humano é altamente corruptível;
  • As camadas mais alienadas da sociedade, minorias e miseráveis, se deparam com a mais férrea onda antagonista que já tiveram conhecimento.
Culpabilizados, injuriados, agredidos e assassinados, quem se opõe à nova onda é alvo da mais nova monstrualização, da manipulação perpetrada pelo poder financeiro, político e midiático que quer recuperar sua hegemonia, fragilizada nesses últimos anos.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 28 de julho de 2015.

* A Onda, dirigido por Dennis Gansel, é um filme alemão de 2008 que teve como inspiração o livro de mesmo nome de Todd Strasser e o experimento social da Terceira Onda.
Num curso sobre autocracia de apenas uma semana, o professor encara uma turma composta por alunos da terceira geração após a Segunda Guerra Mundial. Diante da incredulidade destes num ressurgimento da ditadura na Alemanha moderna, é iniciado um experimento que demonstra a facilidade da manipulação das massas.
Inicialmente, os alunos passaram a chamar o professor de Senhor Wenger e ficaram dispostos em carteiras para duas pessoas de frente para ele e ocupadas por estudante com baixa e outro com alta média escolar: deverão aprender com o outro, tornando-se um só. Qualquer fala deverá ser feita em pé e em frases curtas. Uma marcha em perfeita sincronia rítmica visa produzir a sensação de unicidade e incomodar a turma de anarquismo, no andar abaixo.
Por sugestão do professor, o grupo uniformiza as roupas (camisa branca e calças jeans) evitando distinções. Uma aluna reluta a adotá-lo, afirmando que uniformes acabam com a individualidade; outra comparece no dia seguinte sem uma camisa branca e percebe ser a única a não aderir ao uniforme.
Por sugestão dos próprios alunos, o grupo ganha o nome A Onda, uma forma de saudação (braço direito em frente ao peito), e um símbolo que, em forma de adesivos e pichações, alcança toda a cidade, inclusive a fachada da prefeitura.
As alterações nos comportamentos tornam-se visíveis. Um valentão protege o colega de alguns anarquistas brigões. As festas tornam-se exclusivas para membros d'A Onda, onde não-iniciados são hostilizados. Um dos alunos que era um excluído anteriormente adota completamente a ideia, queima suas roupas de marca e se oferece para ser guarda-costas do professor, que o convida para jantar. Sua esposa, professora na mesma escola, questiona o experimento por ter ido longe demais mas ele a acusa de inveja do seu sucesso com os alunos, gerando a separação do casal.
Surge uma oposição à Onda, irritando seus membros, que buscam um modo de eliminá-la. Num jogo de polo aquático, um dos membros d'A Onda briga com um oponente e a partida é cancelada. Ao mesmo tempo, inicia-se uma briga entre os torcedores. Na confusão, panfletos anti-Onda são distribuídos no meio das torcidas.
Em outra discussão, o causador da briga esportiva agride a namorada. Percebendo o que fez, vai a casa do professor e pede que ele acabe com A Onda. Este convoca uma assembléia com o grupo no auditório da escola.
A portas trancadas ele discursa, exaltando as atuações do grupo e as chances do movimento mudar os rumos da Alemanha. Ao receber um protesto, acusa de traição quem o fez e indicando uma punição. A seguir leva os alunos a perceber o quanto estavam sendo manipulados, mesmo crendo inicialmente que um regime como o Nazismo jamais teria lugar novamente, no país.
Ao declarar o fim d'A Onda, o aluno que desejava ser segurança do professor saca um revólver por medo de se isolar novamente. Alguém, crendo haver nela balas de festim, tenta retirar-lhe a arma e é ferido. Descontrolado, percebendo o erro que cometeu e o fim dA Onda, se suicida perante os estudantes traumatizados. O professor é preso, diante dos alunos, pais e outros professores.

A semiótica é uma teoria do texto que busca analisar os sentidos e a construção dos efeitos de sentido. Neste texto, as referências usadas para avaliar o percurso persuasivo de construção de sentidos e os 'efeitos de sentido' foram:
Pierre BOURDIEU: Meditações Pascalianas, de 2001.
Michel FOUCAULT: 1) Estratégia, poder-saber, de 2006; 2) Vigiar e punir: história da violência nas prisões, de 1987.
Antonio GRAMSCI usa a palavra hegemonia para descrever o tipo de dominação ideológica de uma classe social sobre outra, destacando a da burguesia sobre o proletariado e outras classes de trabalhadores. Para Todd Gitlin, a noção de cultura de Gramsci chama atenção para as estruturas rotineiras do 'senso comum', que funciona como sustentáculo para dominação de classe e tirania.

18 de jul. de 2014

Fragmentos recuperáveis

Fragmentos recuperáveis, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 16-07-2014.
Fragmentos recuperáveis, em 16-07-2014.

Da Vinci sempre fora um tema embaraçoso para os historiadores, especialmente na tradição cristã. Apesar do seu gênio visionário, era um homossexual assumido e um adorador da divina ordem da Natureza, dois "crimes" que o colocavam em perpétuo estado de pecado contra Deus. Além disso, as bizarras excentricidades do artista projetavam uma aura admissivelmente demoníaca: da Vinci exumava cadáveres para estudar a anatomia humana, mantinha misteriosos diários em uma ilegível escrita invertida, acreditava possuir o poder alquímico de transformar o chumbo em ouro, julgava-se até capaz de enganar Deus criando um elixir que adiava a morte, e as suas invenções incluíam horríveis e nunca antes imaginados instrumentos de guerra e de tortura.
A incompreensão gera a desconfiança, refletiu Langdom.
(Dan Brown - Código Da Vinci - edição especial ilustrada, p.52)

Há quem reclame de tédio, mas quer apenas novidades mais ou menos — do tipo que não altera o status quo padrão: ir para novos restaurantes e casas de show, nova tendência da roupa (agora a calça tá mais apertada e colorida!); a gíria, cantor ou banda da moda.

Os retornos constantes de tudo que marcou época, mesmo com pequenas modificações, são a marca da falta de construções realmente novas. Mas, quem as quer realmente?

Sendo franco, acredito que, no fundo, poucos gostam das alterações radicais das rotinas, do desconhecido, do que exige um esforço para se concretizar. O incerto carrega, potencialmente, o medo em sua composição, daí a resistência. Mas, se houver vontade de avaliar, creio que se perceberá que, para contornar a questão, a cultura dominante promove sempre a aproximação com alguma antiga radicalidade que foi apropriada pelo sistema, como o foram as culturas limítrofes do skate, do surf, do rock. Os novos, controlados e lucrativos esportes radicais.

Não é difícil você encontrar expressões com a expressão inglesa new — como foi com o new hippie — para caracterizar o controle. O que era uma marca registrada de um modo de ser aventureiro, o velho jeans amaciado no corpo, surrado com o uso até tornar-se puído, tornou-se uma calça novinha, produzida com as mesmas características - com um preço justo, por isso, é claro: sua pressa foi atendida.

Em um mundo orientado para produtos ou orientado para clientes e não pessoas, o new você já virou padrão: renove-se! A questão que se apresenta é que a proposta não propõe a existência de nenhuma mudança real, são apenas enfeites e penduricalhos no velho manequim — que continua o mesmo de sempre.

Não gostamos do medo, mas deveríamos, mesmo sendo ele paradoxal: se a sobrevivência é impossível sem ele, a impotência se sustenta nele. E você fica entre um extremo e outro, deslizando em função dos acontecimentos e das emoções.

A ousadia na vida é algo tão sui generis que as pessoas já adotaram a expressão isso não é pra mim, quando confrontadas ou incentivadas a tentar.

Então, e essa é a proposta dessa reflexão, não se preocupe, ouse um pouco mais, deixe cair alguns pedaços. Um dia você reabsorverá grande parte dos fragmentos que ficaram dispersos pela vida — repletos de histórias e emoções que o contagiarão de revivências. Os outros, os que não importam de verdade, é melhor que realmente não voltem.

Mas haverá, certamente, haverá uma questão a que você será confrontado: reconstruir, renovar ou construir algo novo?

Wellington de Oliveira Teixeira, em 18 de julho de 2014.

* O código Da Vinci, como livro ou filme, permite aventura e descobertas. Mais ainda, pensar em inventividade: o mundo do explorador de possibilidades, Leonardo, é uma mostra do espírito humano em sua incansável busca por transformação, aperfeiçoamento e expressividade. Todos os códigos apresentados na obra são fragmentos que precisam ser questionados, avaliados e aglutinados para criar um painel completo. Crítica à perda de reverência pelo sagrado, afloram mais que às instituições religiosas ou práticas perversas individuais. Encantadoramente subversivo.

8 de abr. de 2014

Complicado

Complicado, criado por Wellington de Oliveira Teixeira, em 08-04-2014
Complicado, criado em 07-04-2014

Penso nisso:
se foi mal ou entendido, vai ficar mal-resolvido.
Ignoro, pois um caso deixa marcas mas não mata.
O respeito é garantido, a escolha é honrada;
Vá seguindo o seu caminho que eu vou por outra estrada.

(Outra estrada - Wellington de Oliveira Teixeira)


Não.

E dessa vez eu quis começar com uma negativa para depois me afirmar: eu não sou uma pessoa fácil, nem de se lidar! Quando o fluxo dentro de mim se esvai, sou um escorpião exposto ao mundo (que se desidrata e morre). E há quem diga que ele se suicida!

De novo, não. Rota suicidária não faz parte do meu caminho. Solidária, companheira e apaixonada, sim. Mas rotas são planejamentos que fazemos. Quem disse que o caminho deixará o traçado se materializar?

Mas sou tão insistente e persistente que ultrapasso limites, de vez em quando os meus. Também consigo ser transmorfo se a situação exigir. Largo o chão e ganho asas, deixo a casca (e tudo o que fui antes) queimar e me permito carregar apenas o essencial: as marcas que ninguém apaga, nem eu.

Lagos são bons para mergulhar. Mergulho fundo nas minhas lágrimas, se um dia foram de sangue, tudo bem, também. É um processo que chamamos de chorar. Mas seja muito cuidadoso, pois há diversas formas da água cair: pela dor física, pelo sofrimento emocional ou espiritual. Descobri, literalmente sem querer, que quando a alma não se contém a água que nos dá vida sai do corpo e leva com ela parte do desespero. Legal isso. Parece que a vida nos dá um mecanismo para nos ultrapassarmos. Superarmos o que não seria possível e, apenas por alguns momentos, nos permite gerar uma nova estratégia para seguir.

Não sei você, mas eu gosto de mudar, trocar as coisas de lugar, substituir quadros e me permitir um novo olhar ao meu redor. E faço isso extravasando o conteúdo que se estragou dentro de mim - deve ter sido por descuido! - senão o mal pode ser pior.

Também gosto de ouvir músicas. E, ao contrário de muitos, não fico remoendo nada. Música é uma estrada sonora que meu espírito aprendeu a seguir. Percorro refazendo as partes mais desgastadas. Então, como você deve ter imaginado, minha play-list ficou no repeat até eu conseguir projetar algo representativo desse momento.

E, acabei de rir de mim mesmo porque não a substituí ainda. Mas não o fiz porque tocou um trecho que eu adoro: the mountains shall be removed...

Reassisti essa semana um filme lindo (O mistério da libélula) que me impactou com a imagem desse inseto alado que no Japão é um popular símbolo poético do outono. Pontos de vista religiosos à parte, a representação da beleza de uma procura insana, da fé que movia corpo e alma, apresentados nessa obra, é emocionante. Marcou, com a questão de morte e uma nova vida, tanto que a utilizei (garanto que foi só agora que percebi o ato falho que cometi!) para me expressar imageticamente nessa ilustração.

Se eu dissesse, 'viu como eu sou complicado?' seria pretensão minha?

Wellington de Oliveira Teixeira, em 08 de abril de 2014.

* Do livro Uma Estranha Realidade, de Carlos Castaneda, destaco trechos que realmente valem a pena ser analisados:
Para ser um guerreiro, e preciso ser claro como um cristal.
Um guerreiro vive estrategicamente. Nunca carrega fardos que não suporta. Um guerreiro deve sempre estar preparado para combater.
O espírito de um guerreiro não é dado a caprichos nem reclamações, nem a vencer ou perder. O espírito do guerreiro só é dado à luta, e cada embate é a última batalha de um guerreiro sobre a face da terra. Assim, o resultado lhe importa muito pouco. Em sua última batalha na terra, o guerreiro deixa seu espírito correr solto, livre e claro. E enquanto trava sua batalha, sabendo que sua vontade é impecável, o guerreiro ri-se a grande.
Todo e qualquer ato, pode bem ser a sua última batalha. Logo, em sua vida diária o guerreiro escolhe seguir o caminho com coração. É a escolha constante do caminho com coração que torna o guerreiro diferente dos homens comuns. Ele sabe que um caminho tem coração quando é um com ele, quando sente muita paz e prazer percorrendo sua extensão.
As coisas que o guerreiro escolhe para fazer seus escudos são os itens do caminho com coração.

22 de out. de 2012

Desencontros

Desencontro, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 17/10/2012
Desencontro, criado em 17/10/2012

A vida é a arte do encontro, embora haja tantos desencontros nesta vida.
(Vinícius de Moraes)

Boa parte das pessoas cresce acreditando que a vida será algo que a fará feliz, completa, realizada. E em realização e completude incluem formação acadêmica, condições de vida que permitam uma boa e bela moradia, vestimenta ao seu gosto, diversão nas festas com os amigos e nas happy hours, após o trabalho em um bom emprego.

Não conheço ninguém que não se considera uma boa pessoa e, por isso, não mereça essas coisas e mais um encontro amoroso que lhe propicie um relacionamento que satisfaça a alma e o corpo.

Mas a razão diz que, como em quase tudo, apenas uma fração muito pequena da população alcança tais condições de vida e se sente realizada.

Dentre milhões de razões possíveis, uma me confunde e me provoca o questionamento: o desencontro.

Sabe aquela cantora, que você crê que alcançou tudo ao tornar-se famosa, que se destrói com as bebidas? Sabe aquele dono de empresa que acaba envolvido em escândalos e crimes? Sabe aquele jogador de futebol que se tornou ídolo internacional e agora é encontrado sempre drogado? Sabe aquele menino pobre que sonhava ser ator e quando conseguiu não conseguiu lidar com a fama em sua vida?

Casos como esses em que tudo parece ter conspirado para que a plenitude fosse alcançada destoam da realidade que é produzida depois.

Em que momento a força dos encontros que fortaleciam se desfez e as conexões perderam sua capacidade de unir?

Em que ponto do processo o desejo de ir a frente, de conquistar ficou estagnado? Em quanto tempo aquele dinheiro que iria resolver todos os problemas deixou claro que ele não era a solução esperada? Quando o relacionamento em que se apostara deixou de injetar aquela adrenalina, aquela endorfina, aquele nervosismo e aquele não sair da cabeça o dia inteiro?

O sofrimento tem sido mais que uma constante na vida de tantas pessoas e tem causado tanto estrago que não há como não ficar impressionado.

A questão que me faço é: em que as pessoas estão fazendo a aposta de sua vida? Digo isso porque vejo as pessoas jogarem com a sorte, se jogarem para qualquer um, esquecerem sua identidade na busca de imitar os que considera bem-sucedidos, repetindo jargões televisivos e incapazes de ter atitudes críticas, avaliações críticas, pensamentos e não repetições de frases feitas ou algum aforisma encantador.

Esses desencontros que separam as pessoas de si mesmas é algo que me surpreende e me assusta. Diante do possível, uma aceitação subserviente que não deseja o ultrapassamento. Diante do necessário, a incapacidade de superação e da busca de renovação.

Toda vez que vejo um bom filme (que bom que eles ainda existem!) me proponho uma absorção dos fluxos racionais e emocionais: uma reflexão cuidadosa que inclua os sentimentos que me atravessaram.

Dessa vez, um filme japonês (Mei shao nian zhi lian ou Bishōnen*), com legendas em inglês que faz um cruzamento entre as experiências de vida de jovens prostitutos, alguns dos motivos que os levaram a seguir esse caminho e a questão que surge quando um deles, inadvertidamente, se apaixona e tenta mudar sua forma de ser e viver.

Creio que desencontro é uma palavra que descreve bem muitas das questões a que somos confrontados durante o nosso percorrer aquela estrada que nos levaria à plenitude e à felicidade. Mas, estou certo disso, ainda não consegui que o seu significado ficasse claro para mim.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 22 de outubro de 2012.


Bishōnen (美少年?) é um termo japonês cujo significado literal é belo jovem (garoto). Descreve uma estética da cultura pop japonesa: um jovem homem cuja beleza (e sedução) transcende os seus limites de gênero e orientação sexual, algo popularizado pelas bandas de glam rock da década de 1970, embora também tenha raízes na antiga literatura japonesa, nos ideais homossociais e homoeróticos das cortes e dos intelectuais da China Imperial, e nos conceitos estéticos indianos que foram passados do hinduísmo, importados pelo budismo à China. http://pt.wikipedia.org/wiki/Bish%C5%8Dnen

29 de ago. de 2010

Atuação

Atuação, criado em 16 de outubro de 2010 **

Não por força nem por violência, mas sim pelo meu Espírito, diz o Senhor
Bíblia - Zacarias 4:6


Somos seres humanos intuindo uma realidade ampliada, desde os primórdios de nossa raça. Nomeamos deuses e seres de outras esferas. Por conta de que? De dar conta de algo que não podíamos mensurar, quantificar ou qualificar.

Não. Não é lógico. Simplesmente necessário.

Foi o necessário que nos levou adiante, fez com que a nossa percepção se aguçasse, nossa curiosidade ultrapassasse os pequenos limites a que estávamos submetidos. E quão importante foi esse passo: a construção da nossa razão.

Enchentes que trouxeram destruição e doenças que trouxeram mortandade em massa, vulcões que expeliram a saliva da morte para grandes povoados. Assim a natureza fez-se instrumento de transformação, não apenas física. A razão surgiu como a arma do pensamento para atravessar os vales de horrores a que a humanidade foi submetida.

É claro que não entendíamos os efeitos naturais com mais precisão que hoje. Claro que podemos dar razões para eles. Mas o que não conseguimos, mesmo com o passar do tempo, foi alterar a potência com que eles atuam em nós. Ainda hoje, tememos os grandes raios e trovões, nos assustamos com a força das grandes ondas se chocando no litoral ou os invadindo e, quando os ventos rugem e o vendaval nos acerca, ciclones ou furacões, algo dentro de nós toma consciência da nossa finitude, da fragilidade da vida humana, da poeira que ela é perante o universo.

Resíduos de uma primitividade na alma que algum dia a tecnologia irá fazer dissipar? Creio que não, pois, é exatamente nesse momento que a grandeza do homem o toma e ele age. E esse agir tem o duplo que existe em todos nós. Nossa espiritualidade não foi dissolvida diante da ação da razão.

Sim, além de corpo e alma, somos seres de espiritualidade. E sem me importar com o modo como cada um pode nomeá-la, explicá-la ou manifestá-la, percebo que ela age no dia a dia das pessoas e fico feliz com isso.

Como disse no início, diante da limitação do corpo a alma busca razões. Quando estas não bastam, o que em nós é espírito age.

Sim, somos capazes de perceber que algo se manifesta e, ultrapassando nossos limites, transforma nosso modo de pensar, sentir e agir. O Deus em mim se manifesta nesse estado especial.

E isso é como chamo não a minha ação, mas a atuação da Ordem: a Tua ação.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 29 de agosto de 2010.

* Dois filmes trabalham uma visão de espiritualidade que considero muito bonita: Avatar e O Último Mestre do Ar. Os dois teriam em seu título a palavra Avatar, que é uma forma encarnada de um Ser Supremo, que reside em um plano espiritual (wikipedia). Em ambos a natureza permite o acesso aos recursos espirituais que estão guardados no interior das pessoas e as situações limites, como desafios a serem superados, fornecem as condições para a sua apropriação.

** A demora para publicar teve alguns motivos:
estava me sentindo um pouco sem inspiração e não conseguia fazer uma arte para o texto, muito trabalho e tempo escasso.

6 de set. de 2009

Realidade da ficção

garotas (med_gallery_412_190124.jpg, obtida em www.imagemdefundo.com.br
garotas (med_gallery_412_190124.jpg), de www.imagemdefundo.com.br **

"Se você treinar para ser uma ficção por algum tempo, compreenderá que os personagens de ficção às vezes são mais reais do que pessoas de carne e osso e corações pulsando."
(Ilusões - Richard Bach).


Como quase sempre acontece quando eu vejo um bom filme, me sinto compelido a avaliar a vida como um todo. Sim, o que chamo de ficção me remete sempre ao que chamo de realidade.

Não preciso que no final dos créditos esteja escrito que aquela é uma obra de ficção e que os fatos, personagens, acontecimentos são apenas uma história possível. Até mesmo em obras baseadas em fatos reais. Toda realidade não é mais que uma interpretação.

O modo como percebo os acontecimentos do meu dia a dia fazem dele o que ele é, nada mais que isso. É como um dia de sol radiante quando eu estou muito triste: não me diz nada de sua beleza.

Me recordo uma vez em que fui para a Região dos Lagos, aqui no RJ, e fui caminhar e correr na praia. Pensamento a mil, sentimentos à flor da pele e uma vontade imensa de me ultrapassar e à dor que eu estava sentindo: rejeição e incompreensão não são algo que se possa viver facilmente. Me recordo que, depois de aproximadamente 40 minutos correndo pela beira da praia, me toquei que o sol estava se pondo e criando reflexos fantásticos na superfície da água do mar que tocava a praia. Cansaço, distração, oxigenação no cérebro? Não sei bem o que me fez ver com outro olhar aquilo que já estava olhando. Também me fez parar, observar tudo ao meu redor, entender um pouco o meu lugar naquele mundo fantástico que eu podia vivenciar. Sentei-me na areia e fiz uma prece em agradecimento pela oportunidade recebida. Foi o suficiente para ultrapassar a dor. Louvado Seja!

Depois de algum tempo em cartaz, finalmente, assisti ao Quem quer ser milionário? uma viagem pela Índia e seus contrastes sociais. A história do Jamal e sua perseverança ao se manter fiel ao seu amor e, contra todos os obstáculos, ir ao seu encontro.

Prosseguir em direção a um alvo com persistência não é uma marca registrada do mundo atual onde tudo é passageiro, tudo é substituível, tudo é para apenas uma estação.

Outro filme que me fez refletir a esse respeito foi o Prova de Fogo. Nele um casal às vésperas de um divórcio, vive experiências inusitadas quando o pai do marido, propõe para ele cerca de 40 dias de espera que seriam preenchidos com tarefas de um pequeno manual. Aos poucos a transformação da visão do imediatismo se desfaz em prol de uma mais voltada para a plenitude do encontro e do amor.

Estou refletindo a esse respeito: a velocidade dos encontros não precisa ser estabelecida pela falta de paciência com o dia a dia. Seria possível ter uma outra ótica sobre nossas motivações.

De certa forma, o que proponho como questão, para ser pega com carinho*, é que a realidade é múltipla dependendo da nossa percepção. E basta um pouco de vontade para a observarmos sob um outro prisma.

Quem sabe a ficção não é mais fatual do que a realidade?


Wellington de Oliveira Teixeira, em 06 de setembro de 1998.

* obrigado por me ensinar a falar assim, Denise Farias, tem sido muito importante pra minha vida.
** Pela primeira vez posto uma arte não feita por mim, mas que eu gostaria de parabenizar o autor. Só não consegui. Deixei, então, o endereço de onde achei. Parabéns, autor!