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16 de set. de 2017

Fluxos contingenciados

Fluxos contingenciados, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 16-09-2017.
Fluxos contingenciados *, criado em 16-09-2017.

O tempo do sonho é o instante do olhar, como o clarão de um relâmpado que, subitamente, clareia a paisagem noturna. E o tempo do desejo é sempre o presente, pois é ativo de modo permanente e constante, mesmo quando expressa um Wunsch de trinta anos atrás ou mais. O desejo está sempre lá: ávido de significantes.

(Antonio Quinet – A descoberta do inconsciente: Do desejo ao sintoma, p.75)


Impulsos não tem vida própria, nós lhes damos expressão conforme as percepções pessoais se manifestam. Há pulsos que fazem vibrar ações de amor e nos permitem colocar o outro em nível semelhante ao nosso. Outros, são os monstros que espreitam, prontos para assumir a superfície e provocar danos indiscriminados.

O convívio social exigiu gerar os calabouços interiores, uma espécie de cala-a-boca para diversas forças que atuam em cada um. Mas cada um desses afetos serve como sinalizador de nossas capacidades destrutivas e construtivas e de que o resultado vai depender da combinação e dosagem utilizada. Tudo, em dose exagerada, perde sua função principal e nos encaminha aos distúrbios desnecessários.

Fluxos enjaulados, não se efetuam. Nem visibilizam o que é circunstancialmente bom ou mau, pois nada é, em si, isto ou aquilo. Precisamos da ira tanto quanto da compaixão. Alcançar esse nível de evolução pessoal é fundamental: sem ele, somos presas fáceis da manipulação. Para seres que se estruturam em equilíbrios precários, como nós, é essencial encontrar o que realmente é deletério, o que destrói a integridade, a natureza e a vida.

Há discursos que, em sua essência, objetivam semear o ódio ou visam abusar da boa vontade alheia. Nos irar permite rejeitar o que é sórdido. Pode até nos conduzir a intervir por meio de ações que os desconstroem; na contramão deles, gerar práticas que constroem elementos que capacitam e produzem superação e ultrapassamentos. Mas, cuidado!, é fundamental não moralizar: cada um tem seu processo individual e exclusivo, mas este não precisa tornar-se excludente. O que, hoje, quem produz tais discursos crê, pode mudar, amanhã, alterando suas práticas, também.

Por uma outra via: itens do caminho, os que são preservados, tornam-se significativos porque fazem uma narrativa de vida. Certamente, você já amou e odiou, já acertou e errou, já conquistou e perdeu. Essas não são oposições conceituais, apenas. Representam os pequenos blocos que o constituíram. Agrupados em diversas configurações, manifestam o ser diferenciadamente, a cada situação.

Não importa o que você guarda dentro de si ou expõe para todos, tudo depende do uso que lhe é dado. Desse modo, não cabe desqualificar elementos do passado em função de práticas renovadas ou mais eficientes. Todos foram fundamentais à evolução pessoal. Há momentos para levar os monstros para passear, sim. Mas considere que, na vida, tudo exige equilíbrio e somente nele efetivamos essa sensação de plenitude e encontramos nosso lugar no mundo e na Ordem dos acontecimentos.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 16 de setembro de 2017.

* O inconsciente já foi entendido como o subterrâneo de um indivíduo, o local onde estariam reprimidos os impulsos destrutivos para ele: a prática de jogar para debaixo do tapete e manter as aparências.
Outras vias de pensamento tentam realizar uma releitura, compreendendo que o que é em determinado momento contido, por ser socialmente indesejável, sempre se manifesta em alguma outra circunstância. É preciso que não sejam contidos, mas contingenciados, que surjam como imagens para refletir (e permitir refletir sobre) os desejos obscuros. Sem isso não é possível colocá-los em cheque, entendê-los.
O uso intencional e equilibrado como fonte de criatividade, de expansão e especialmente como introdutor de novidades deve ser um dos objetivos da sociedade. As academias de arte perceberam isso e foram amplamente beneficiadas com a produção dos filmes de terror e suspense e outras formas de expressão.
O desafio é demonstrar que o 'dar vazão' é algo imprescindível, pois nos subterrâneos da alma esses fluxos contidos corroem o ser e geram as anomalias e distúrbios, as sociopatias. Mas, expressados de forma positiva voltam a ter sua função primordial, peso ou medida que compõe o equilíbrio das forças e permitem emergir um sujeito apto para a integridade e plenitude.

11 de jun. de 2014

Gritar o indizível

Indizível, criado por Wellington de Oliveira Teixeira entre 10 e 11-06-2014.
Indizível, criado entre 10 e 11-06-2014.

A arte é uma forma de o ser humano expressar suas emoções, sua história e sua cultura
através de alguns valores estéticos, como beleza, harmonia, equilíbrio.

(MEC — Arte na Educação de Jovens e Adultos)*

Não é que eu me arrependi, eu tô com vontade de rir;
Não é que eu me sinto mal, eu posso fazer igual.
Não é que eu vou fazer igual: eu vou fazer pior!
(Nem sempre se pode ser Deus — por isso que estou gritando.)

Não é que eu passei do limite, isso pra mim é normal;
Não é que eu me sinto bem, eu posso fazer igual.
Não é que eu vou fazer igual: eu vou fazer pior!
(Nem sempre se pode ser Deus — por isso que estou gritando.)

(Titãs - Nem sempre se pode ser Deus)


Não se cala à toa.

Forças incomensuráveis impedem o grito de escapar

dos recônditos da alma, sussurrar aos ouvidos da própria vida.

Constituídos os dóceis domesticados a sufocá-lo:

engolimos a dor para, em silêncio, digerí-la.

E a vida, que por muito espremida,

num supremo desespero, quer-se ainda:

se infiltra e constrói a rebeldia,

de cada ato ou expressão produz a súplica

para que a arte grite por nós

o indizível.

[pra ninguém ouvir.]

Wellington de Oliveira Teixeira, em 11 de junho de 2014.

* A publicação dedicada a orientação dos que trabalham com arte no EJA está disponível em
http://portal.mec.gov.br/seb/arquivos/pdf/eja_arte.pdf