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21 de ago. de 2017

Divi & Dido

Resvalando, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 19-08-2017.
Resvalando *, criado em 19-08-2017.

Divi

Assomam pensamentos, escorrem em emoções,
acham entrecortadas incontáveis projeções;
fantasmas esquecidos, trancados em porões
de alma e calabouço contido em corações.

Dido

Jatos expelidos, quais palavras de vulcão,
magmas efervescentes brotam na ebulição,
silêncios engolidos resvalam na pressão,
querem voz e força e menos solidão.

DiviDidos

Querem voz e força e menos solidão de alma e calabouço. Contido em corações, magmas efervescentes brotam na ebulição. Acham entrecortadas incontáveis projeções: jatos expelidos. Quais palavras de vulcão, assomam pensamentos, escorrem em emoções. Fantasmas esquecidos, silêncios engolidos, trancados em porões resvalam na pressão.

(Wellington de Oliveira Teixeira — Divi & Dido)

Ser alguém inteiro é lidar com incansáveis desejos e afetos, inextrincáveis interrogações e descobertas e, quase sempre, esbarrar em incontáveis desencontros, desencaixes e decomposições que frustram.

A constituição de si é algo instantâneo mas, por mais breve que seja, permite um vislumbre de continuidade, de permanência. Mas atente para esse fato: cada vislumbre precisa ser demarcado, afirmado e registrado como uma conquista.

A Ordem se expressa quase sempre como um emaranhado de forças antagônicas que atravessam e interferem neste processo. A vida se constitui por meio de campos de força, como os imãs potencializados, que promovem ininterrupta divisão nos seres e elementos, impondo novas recomposições.

Mesmo com força de vontade e usar de muito entendimento para efetuar um encontro, a doação de partes de si acontece sem qualquer controle sobre o que acontecerá. Esse vai e vem ou doação-troca, é como ficar sustentado apenas em um fio sobre o abismo.

Quando as circunstâncias impedem a boa combinação dos elementos, pode ocorrer quebras interiores, divisões que em seu extremo provoca a perda da noção do porquê, da motivação ulterior, do desejo do vir-a-ser e da plenitude. Racham a sensibilidade. Implodem o interior. Explodem a razão. Faz passear na linha que beira a vida, sem inserir-se nela: inconformado, sem encaixe no mundo, dissociado.

Relações mal estabelecidas produzem emoções em frangalhos – talvez a razão para tantas canções 'românticas' – e é o que faz ampliar a imensa categoria dos alienados: o 'tudo bem, tanto faz' que se constitui como mote de vida.

Em momentos assim, é preciso gerar os pontos de fuga da pressão, é fundamental dar espaço a essas questões, inquietudes, sofrimentos ou o que mais incomodar. Há incontáveis e inomináveis formas de se fazer um voo e de expressar o que está arraigado e intrínseco, aquilo que fica guardado mas que quer ter voz e expressão própria: escreva, desenhe, se exercite, assista, converse, costure, cozinhe, viaje. É só um jato que alivia a pressão do vulcão, um brilho momentâneo, sim; mas faz toda a diferença.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 19 de agosto de 2017.

* O Transtorno Dissociativo de Identidade (TDI) ou transtorno de múltiplas personalidades é um fenômeno que ocorre quando um único indivíduo apresenta características de personalidades ou identidades diferentes, que se alternam no controle em momentos distintos, alterando sua forma de perceber e interagir com o meio.

Difere da esquizofrenia ('mente dividida') por ser mais uma fratura no funcionamento normal do cérebro do que da personalidade. Intriga profissionais da Saúde, é controverso, e novas pesquisas buscam mais evidências empíricas.

Pense um pouco e veja se você consegue correlacionar a personagem com o diagnóstico:
  • David Banner (Incrível Hulk);
  • Stanley Ipkiss (O Máscara);
  • Saint Seiya gêmeos (Cavaleiros do Zodíaco);
  • Dr Jekyll and Mr Hyde;
  • Sméagol (O Senhor dos Anéis);
  • Kevin Wendell Crumb (Fragmentado, 2017).

24 de mar. de 2016

Incômodo essencial

Aguilhões, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 24-03-2016.
Aguilhões*, criado em 24-03-2016.

— Eu não entendo como você consegue amar um grupo de pássaros que há pouco tentava matá-lo.
— Oh, Francisco, a gente não ama isso! A gente não ama ódio e maldade, claro. A gente tem que praticar e ver a gaivota autêntica, o bem em todas elas, e ajudá-las a vê-lo em si mesmas. Foi isso que eu quis dizer com amor. E é divertido quanto a gente pega o jeito da coisa.
— Eu me lembro de um pássaro jovem e feroz. Francisco Coutinho Gaivota era o nome dele. Acabara de ser declarado Pária, estava pronto para enfrentar o Bando até a morte, prestes a começar uma vida infernal nos Penhascos do Fim do Mundo. E aqui está ele hoje, construindo seu paraíso particular e liderando o Bando inteiro na mesma direção.

(Richard Bach — Fernão Capelo Gaivota, p.90-91)


Pouquíssimas pessoas que conheço esforçam-se diariamente para alcançar um nível superior de vida — em meu entendimento, a correção de atos e atitudes e a compreensão de participar de um universo onde cada um é um mundo único. Mesmo esses, sem prepotência, confirmaram que são visitados por um sentimento de inadequação: seres iluminados culpando-se por não terem alcançado níveis mais elevados — como eu entendia erroneamente.

Demorei assimilar esse incômodo como um instrumento de alerta para desprezar a incompletude: não basta aonde se chegou ou o que se alcançou, tem um novo estágio de vida reluzindo adiante e, mais do que convida, nos seduz para ir ao seu encontro. Enrosquei-me numa espiritualidade da degradação definitiva da vida, até perceber que essa interpretação não contribui para acender a vontade de, passo a passo, melhorar.

Além da afirmação da incapacidade, em seu bojo trazia a desqualificação de nossas capacidades como seres humanos. Política e economicamente aliada a interesses desprezíveis, tornou-se um mecanismo de controle e de apropriação do caminho de cada um. Mascarado como solução miraculosa, despreza as trajetórias individuais, gerando culpabilização, destituindo o ser de sua responsabilidade de constituir-se um ser mais pleno. Se tudo está fora de suas capacidades, nada pode ser feito: o ideal é inalcançável porque está em um outro universo.

Esse incômodo, se definido como culpa, beneficia apenas quem a promove. Proponho, então, uma outra forma de encará-lo. Ele é a capacidade da consciência humana de ajuizar e avaliar criticamente o esforço despendido e os resultados alcançados num trajeto.

Me reporto às oportunidades onde calma e a paz surpreendem ao fim de alguma etapa. Uma sensação como um toque na alma que se torna a sua validação. Algo como 'Você foi capaz, não desista, não paralise. Há mais!'. Assim, por mais exausto por conta dos desafios, você se ergue pra encarar o seguinte; evolui, amadurece e sobrepuja o que um dia acreditou ser impossível.

Desde que nascemos, vivenciamos isso. Superação está na ordem do dia dos seres humanos. O aprendizado de como agir e pensar resultou de não nos determos. O incômodo nos leva àquilo que ainda não alcançamos.

Modifique seu dicionário. Plenitude é ultrapassar o lugar onde se está e conseguir percorrer o espaço que o separa do que está adiante. Acolha o potencial positivo desse incômodo, a perfeição é a justa medida de conseguir se realizar ao alcançar o uso total e estratégico de uma — dentre as infinitas — potencialidades humanas.
Wellington de Oliveira Teixeira, em 24 de março de 2016.

* Uma espécie de lança cuja função é forçar os animais, pela dor, a seguir um certo trajeto. A expressão bíblica 'recalcitrar contra o aguilhão' atualizada assimila-se a 'dar soco em ponta de faca' e carrega o conceito de que fugir da retidão causa dor.
Pelas vias social e íntima, o conceito refere-se à punição legal pela quebra das regras sociais; no foro íntimo (o da internalização das leis), à culpa — consequência do erro produzida pelo tribunal da consciência.
Quero propor uma terceira via, a inquietação que ocorre ao se falhar é um instrumento natural de aprimoramento pessoal. Esse artigo procura trazer essa ideia à tona.

15 de mar. de 2016

Espaço para a inquietação

Devaneio, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 09-10-2015.
Devaneio*, criado em 09-10-2015.

Devaneio
é o desprendimento das próprias imediações de um indivíduo, durante o qual seu contato com a realidade é difuso e parcialmente substituído por uma fantasia visionária: um estado de espírito de quem se deixa levar por lembranças, sonhos e imagens. Popularmente conhecido como sonhar acordado.

Um pequeno estremecimento em seu pensamento, uma inquietação, talvez tardia, capaz de subtrair a sua atenção ao mundo (do que quer que você esteja fazendo), um devaneio, uma força carregada da conexão que realmente foi importante se vivenciar. Como a saudade que assoma determinado momento, interfere no cotidiano, não pede licença e se apropria dele.

Em alguns momentos, essa experiência é suficiente e a divagação é o que basta; em outros, só registram o limite do possível, algo é inatingível. Cuidado! Não é indicado ativar qualquer mecanismo de defesa ou plano de fuga, mas acatá-la, acolhê-la cuidadosamente.

Proporcionar-lhe o seu momento devido é abrir espaço para uma parte de si mesmo que exige a sua atenção. É um elemento necessário à vida. Isso não significa vivenciá-la na passividade ou reatividade — como em uma explosão de sentimentos.

Traga à consciência de, forma clara, os sentimentos envolvidos. Reacenda o que de bom pode ser ativado nessas memórias e despeça-se para continuar o seu cotidiano em paz. Do mesmo modo que necessidades biológicas que precisam ser satisfeitas reclamam incessantemente a sua atenção — e é bem viável essa analogia —, as emocionais claramente o fazem, também. É preciso lhes proporcionar seu espaço específico.

A importância de desenvolver o pensamento crítico, é que, nessas horas é possível avaliar o fato de que nenhum ser humano é pleno sem o equilibrar as suas emoções: submeter-se sem controle é adoecer; ignorá-las ou bloqueá-las é — semelhante ao privar-se de atender às biológicas —, encaminhar o sujeito à morte. A construção do equilíbrio é certamente um grande desafio. Mesmo quando conquistado, ele pode ser algo frágil e momentâneo. Portanto, seja sábio. Recorde e reafirme para si mesmo que o que é exercitado constantemente, aos poucos torna-se mais fácil e, simultaneamente, fortalece ou capacita quem o pratica.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 15 de março de 2016.

* O estado de espírito aqui apresentado não é o mesmo que ocorre em pessoas adoecidas ou com algum distúrbio mental. É uma experiência que se manifesta em um pequeno lapso de tempo e que, por trazer à mente recordações importantes, induz uma pessoa a revivenciá-las para 'matar as saudades'.