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30 de abr. de 2014

Reviravolta

Reviravolta, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 30-04-2014.
Reviravolta, criado em 30-04-2014.

s.f. Ato ou efeito de desfazer a volta;
giro ou volta sobre si mesmo, firmando-se apenas em um dos calcanhares;
volta rápida, pirueta, contravolta: o ginasta fez uma reviravolta.
Mudança brusca: reviravolta de opiniões.

(http://www.dicio.com.br/reviravolta/)


Hoje eu escolhi focar nos momentos felizes de pessoas conhecidas, amigas e ver como a vida é diversificada: estonteantemente capaz de produzir felicidade nas situações onde prevalece uma tristeza.

A bem da verdade, acredito que é mais uma capacidade humana de determinar a dosagem que se permitirá vivenciar de cada uma - a cada momento.

Sim, às vezes precisamos desviar o foco da nossa atenção, por alguns momentos, de determinados aspectos da realidade. Ela pode ser bastante dura, especialmente naquelas situações de grandes dificuldades que envolvem você e uma pessoa amada.

Há um determinado desgaste, que surge nesses casos, que ultrapassa o cansaço físico. Ele mina com as certezas e seguranças e corrói a esperança. Isto é, se não houver o devido cuidado e respeito a si mesmo.

É certo que somente encarando o desafio poderemos ultrapassá-lo. Mas é certo, também, que focar um ponto apenas, por muito tempo, provoca uma visão turva ou nebulosa.

Então, equilibrar-se nessas horas é precisamente dosar o foco no alvo, permitindo-nos um descanso de tempo em tempo para que, ao voltar, a visão esteja mais liberta e possa perceber e avaliar os detalhes, novamente.

Para ampliar a analogia, é ousar criar uma nova perspectiva, fazer um giro sobre si mesmo e dar uma reviravolta.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 30 de abril de 2014.

* Adorei saber que é o Mathias quem está a caminho, Mariana!

23 de abr. de 2014

Ladrilhos e fragmentos


Ladrilhos, criado em 22-04-2014.

Parte da genialidade de Einstein consistiu em perceber que embora as colisões ocorram com muita frequência,
como as moléculas são muito leves, colisões isoladas não têm efeito visível.
As mudanças de direções observáveis só ocorrem quando, por pura sorte,
as colisões numa direção particular forem preponderantes[…].
Quando einstein fez as contas, descobriu que, apesar do caos no nível microscópio,
havia uma relação previsível entre os fatores[…].

(Leonard Mlodinow - O andar do Bêbado: como o acaso determina nossas vidas, p. 178)


É possível não se gostar da ideia, mas somos um apanhado de ladrilhos sobrepostos em uma superfície que não é plana, nem um pouquinho, e, por mais que a gente queira, não se complementam bem. Tem tortuosidades, reboco aparente, partes descascadas, infiltrações e tudo o mais que garante a não homogeneidade, apesar de a apresentarmos como tendo.

Como o núcleo da terra, estamos em ebulição constante que liquidifica todo o material absorvido e o transforma, com um gasto considerável de energia.

De vez em quando, a mistura não se dá facilmente e ocorrem reações turbulentas que, de tão violentas, extravasam à superfície. Exatamente como os vulcões. Conforme o tempo passa, a massa se esfria e solidifica, criando uma nova carcaça. Assim se transforma a face visível.

Essa é a versão natural dos acontecimentos. Excepcionalmente, porém, esse processo também acontece provocado por tempestades emocionais que remexem com nosso conteúdo interior como num caldeirão de bruxa. Por ser um processo súbito, os raios de grande intensidade e velocidade penetram a superfície e, como os que provocam as trovoadas ensurdecedoras, atraem a nossa atenção.

Dependendo da capacidade de administrar suas consequências — um processo que pode ser demorado, doloroso, mas sempre revelador — a descaraterização da superfície ocorre e alguns não se reconhecem mais. É o surgimento de um novo eu, fundido como ferro ao fogo.

O que revelará, só se mostrará após o tempo de resfriamento. Para quem é cuidadoso consigo mesmo, talvez (quem sabe?), se houver dedicação cuidadosa ao processo de aparamento das arestas e polimento de sua superfície, a modelagem possa ser realizada de acordo com o perfil que sua vontade determine.

Em todos os casos, não há retorno quando acontece. A transformação ocorre e os ladrilhos se modificam, ou se perdem.

Somos um mundo rico em transformações de microescala. Fragmentos copiando a ordem natural da natureza cósmica. Afinal, nossas partículas não são tão diferenciadas de nós perante o todo.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 22 de abril de 2014.

Vulcanismo é um fenômeno geológico que ocorre do interior da Terra para a superfície, quando há o extravasamento do magma em forma de lava, além de gases e fumaça e é resultado das características de pressão e temperatura contidas no subsolo.
(Brasil Escola)

Por se tratar de um processo que ocorre em uma escala temporal mais lenta, durante o processo de fragmentação natural as espécies tendem a se adaptar às transformações da paisagem; em contrapartida com o forte aumento do intensivo processo de fragmentação gerado pelas atividades humanas, a perda estrutural e qualitativa de habitat tem aumentado o número de espécies ameaçadas.
(R. B. Primack - Essentials of conservation biology)

17 de abr. de 2014

O plausivel

Plausível, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 17-04-2014
Plausível, criado em 17-04-2014.

Quero lhe contar como eu vivi e tudo o que aconteceu comigo.
Viver é melhor que sonhar e eu sei que o amor é uma coisa boa, mas também sei que qualquer canto é menor do que a vida
de qualquer pessoa.
Por isso cuidado meu bem: há perigo na esquina! Eles venceram e o sinal está fechado pra nós que somos jovens.
Para abraçar meu irmão e beijar minha menina na rua é que se fez o meu lábio, o seu braço e a minha voz…

(Como nossos pais - Belchior)

Senso comum é o conhecimento irrefletido, tradição.
O senso crítico é baseado na crítica, na reflexão, na pesquisa e no pensamento:
o raciocínio busca comprovação antes de emitir uma avaliação ou realizar uma conclusão.




Uma vez, uma professora universitária me disse que sem uma taça de vinho, nada do que escrevia parecia verdadeiro, recendia a uma casca de verniz social. Bem, na opinião de quase todos os trabalhadores que anseiam por um happy hour ou pela cerveja da SEXta-feira, tudo certo.

Não ousem me dizer — quem não teve a oportunidade de experimentar o relaxamento que uma taça de vinho ou umas duas cervejas proporcionam — que isso seja falso. Como, também, não é falso dizer que não se deve tomar decisões no meio do fogo cruzado das emoções.

Tristes são as histórias de jogadores compulsivos que dizem ser o seu dia de sorte; daqueles que dizem que irão apenas beber mais uma dose; ou daqueles que… recuso-me a continuar. O que importa para minha questão é que a emoção apenas não determina o que fazemos, tudo é uma história de vida. São os pequenos acontecimentos que se acumulam e transformam-se num gigante a ser vencido.

Davi e Golias? Café pequeno.

Alegoria ou fato histórico, jamais irá detalhar a realidade diária de cada um de nós, o enfrentamento de dificuldades, o silêncio engolido com a garganta seca, o surrealismo dos padrões sociais: Negamos! Afirmamos! E, se nos dermos conta, nada daquilo se referencia àquilo que nos torna seres humanos. Nem mesmo a dor. Nem mesmo o prazer.

Sentir-se no meio do furacão? Brinca comigo, não. Com tantas pessoas despejadas, famintas, destituídas da humanidade, é mais do que ridículo recorrer às nossas novelinhas pessoais. Coitados dos mexicanos quando recebem os créditos! Juro (e não se deve jurar!) que a vida produzida socialmente, falsamente, manipulada pelos controles e descontroles de cada um de nós é algo inócuo. Inofensivo. Apenas uma proposição necessária adotada quando não há outra opção: máscaras sociais da madame e do patrão; do operário e do ladrão.

E todos somos responsáveis, tentando desesperadamente ignorar a culpa ou a responsabilidade de não interferirmos nesse modelo social anacrônico, de não sermos agentes de transformação social.

Como os nossos pais (agradeço as palavras de Belchior e a voz da Elis Regina) repetimos, reproduzimos. Somos máquinas copiadoras. Transformadoras? Não se faça rir.

Mas, quando eu vejo meus netos ou meus sobrinhos-netos me questiono: O que realmente eu estou deixando para eles? Que parte de mim eles irão — por opção — avaliar, reproduzir, acreditar?

Um dia eu disse para o meu filho: 'mesmo que eu seja completamente contra o que você faça, jamais irei deixar de amá-lo'. Registrem isso, porque verdades são raras no mundo. Hoje, eu digo com clareza: 'isso jamais me fará abrir mão de mim mesmo, é parte de mim.'. Maturidade? Talvez. Certamente, um aprendizado sobre as relações humanas.

Teve alguém que ousou dizer que teria que ser do mesmo modo que para mim mesmo, a manifestação do meu amor. E eu aposto nele e naquelas palavras. Todo o resto é produção cultural, social. Precisa ser reavaliado (com extremo cuidado, eu sou primeiro a dizer!).

Numa época em que participei de um grupo que queria acessar modos mais plenos do que entendíamos ser adoração (eu era membro de uma estrutura religiosa), a primeira coisa que ficou clara era que era preciso modificar algumas das práticas cristalizadas e solidificadas em bases de tradição ou costumes de época. Antes disso, porém, um 'bando' de adolescentes — era assim que eram qualificados — entendeu que a transformação só aconteceria se eles se envolvessem, investissem naquilo que acreditavam, que se dispusessem a participar do modo que achavam que podiam. Tenho o orgulho imenso de dizer: eles o fizeram!

Mas agora eles cresceram e dizem que a realidade é outra. Será?

Sabe o que impede de agirmos hoje do mesmo modo? Acomodação. A mesma que faz um país inteiro se submeter. A mesma que corrói os ânimos, as reivindicações. A mesma que nos torna reprodutores, nunca produtores. Seres domesticados. Ânimos sem fôlego. E perceba bem, Animo e Fôlego são palavras especiais, sem elas não há existência humana.

Talvez, por isso — e me perdoem o pessimismo — a maquinização dos nossos desejos, a homogeneização de nossas características e o desrespeito às nossas diferenças tenham se tornado a herança para as novas gerações.

Imbecilizados?

Idiotizados?

Certamente, destituídos do possível, do viável, adotamos tristemente o plausível.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 17 de abril de 2014.

* Não esperem de mim, tão cedo, outro desabafo assim.

A arte de dividir-se

Dividir-se, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 16-04-2014
Dividir-se, criado em 16-04-2014.

Não se descobre o absurdo sem ser tentado a escrever algum manual de felicidade. "Mas como, com umas trilhas tão estreitas?" No entanto, só existe um mundo. A felicidade e o absurdo são dois filhos da mesma terra. São inseparáveis. O erro seria dizer que a felicidade nasce forçosamente da descoberta absurda. Ocorre do mesmo modo o sentimento do absurdo nascer da felicidade. "Acho que tudo está bem", diz Édipo, e essa fala é sagrada. Ela ressoa no universo feroz e limitado do homem. Ensina que tudo não é e não foi esgotado. Expulsa deste mundo um deus que nele havia entrado com a insatisfação e o gosto pelas dores inúteis. Faz do destino um assunto do homem e que deve se acertado entre os homens.
(Albert Camus - O Mito de Sísifo)***

Exemplos diários de dissociação incluem veículos de comunicação destacando estresse pós-traumático de soldados que retornam de guerra, vítimas de estupro acometidos de amnésia sobre os detalhes e, na Justiça, o problema de definição de responsabilidade sobre os atos, nos casos de Transtorno Dissociativo de Identidade (múltiplas personalidades). **


Alguém pode me dizer como se faz divisões sem que haja resíduos, sobras, restos? Imagino que é por causa deles que, durante a noite, meu cérebro não pare (mas será que algum momento ele para?).

Um pedido: não me fale de consciente e inconsciente. Pelo amor de Freud! Quociente é o resultado da divisão. E se os sujeitos não são inteiros, vai sobrar para alguém um resto. Geralmente, amargo para engolir.

Quando alguém me diz que tem que dividir-se em dois para dar conta de suas tarefas, eu entendo. A figura propõe multiplicar ou dobrar a capacidade de resolução. E quando alguém me diz que está dividido, eu entendo. A figura propõe menos da metade da capacidade.

Ilógico? Pode ser, mas eu lhe garanto que a atenção de uma pessoa que está dividida não atinge a metade exata de suas tarefas, uma recebe menos que a outra de maior interesse. Essa é uma avaliação de senso comum, isto é, não está embasada na exatidão ou cientificidade. É uma atestado de sua existência por detecção e comprovação de um fato: é algo que acontece, realmente.

Imagine os alunos e trabalhadores que estão doidos para irem embora, na véspera do feriadão (é o seu caso?). A menina ou o menino que, em vez de realizar suas tarefas, divaga. Bem, aqui a divisão do tempo parece se prolongar, demora a passar, os ponteiros do relógio não estão favoráveis ao resultado desejado.

O que me provoca nesse processo é o fato de sermos capazes de produzir um outro de nós mesmos — ou algo muito próximo disso — nessas horas. Há pessoas que são capazes de repetir o que estavam dizendo, mesmo com a atenção totalmente fora de onde estavam. Outros, como em reuniões decisivas, que enquanto ouvem um argumento, já estão estruturando os contra-argumentos necessários para outra situação - simultaneamente. Fisicamente muito distantes do lugar em que estão o pensamento e a emoção: dissociados.

Buscando formulações menos avançadas, estou pensando especificamente em como fico dividido, em alguns casos, para tomar decisões. A velha e já manjada briguinha entre razão e emoção. É que estar de fora de uma situação dessas facilita o olhar mais frio e crítico. Mas estar dentro… bem… não é nada fácil.

Uma hora ou outra, estaremos contra a parede, com a corda no pescoço, pois não dá para ser um joão-bobo ou o grande boneco inflável que se mexe ao vento ('bonecão do posto tá maluco, tá doidão'!). Situação em que, não fosse o sofrimento estampado, seria risível.

Todo mundo sabe como pode ser paralisante esse embate dentro de si. Afinal de contas, ninguém quer perder ou se machucar. E a matemática da divisão diz que ela é o contrário da multiplicação e representada por uma fração. Ninguém quer ficar fracionado.

Já viu um divisor de sinal de antena? Ele tem uma entrada e várias saídas. E tem uma tarefa ingrata. Sua função é potencializar o sinal que cada saída receberá para não degradar a imagem resultante, mais ou menos o milagre da multiplicação.

Enquanto não houver uma rachadura completa ou uma soldagem bem feita, vale as tentativas. Dessa vez vou tentar uma 'viagem astral'. Meditar e ir aonde meu coração manda. Não vou contestá-lo. Mas, depois, vou segurar a onda com a minha razão. Ela sempre corre atrás da emoção, no meu caso, apesar de toda a minha racionalidade.

Então tá decidido: o jeito é equilibrar a situação porque se eu não tomar um partido, acabarei partido, igual a esse texto. O pior é que já tem muitos pedaços que restaram de outras divisões espalhados dentro de mim.

É preciso ser um artista para se manter inteiro, não é? Alguém tem um cola-tudo para emprestar?

Wellington de Oliveira Teixeira, em 17 e 18 de abril de 2014.

* Sobre divisão matemática, leia:
http://educacao.uol.com.br/disciplinas/matematica/divisao-o-inverso-da-multiplicacao.htm
http://pt.wikipedia.org/wiki/Divis%C3%A3o

** A Ação de dissociar na
Física: Desagregação de moléculas.
Química: Decomposição reversível dos corpos.
Psiquiatria: Ruptura da unidade psíquica, que constitui um dos principais sintomas psicóticos, notadamente da esquizofrenia. (Amplie seu conhecimento em http://www.psicosite.com.br/tex/sod/dis003.htm)

*** CAMUS, Albert - O Mito de Sísifo - http://www.planonacionaldeleitura.gov.pt/clubedeleituras/upload/e_livros/clle000131.pdf