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26 de mai. de 2014

Cavalgar furacões

Cavalgando furacões, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 26-05-2014
Cavalgando furacões, criado em 26-05-2014.

Ele abriu os céus e desceu; nuvens escuras estavam debaixo dos seus pés.
Montou sobre um querubim e voou; elevou-se sobre as asas do vento.

(Bíblia — 2 Samuel 22: 10-11)

Sopra o Vento!
Voam pelos ares cadeiras, o lixo. Dança a Sacola Plástica.
A bola inalcançável já não faz mais a criança feliz,
Nem o boné aperta os miolos de mais uma Cabeça de Vento.
Ri o Vento pois não há nada mais rebelde do que ele.

(Quando o Vento sorri — C. A. Albani da Silva - 19-09-2012)


Apenas uma sugestão a você que se aventurou por essa leitura: o intrincado jogo de palavras que utilizo aqui não deve ser um elemento paralisador. Ilusões nos dirigem sem controle, mas no mundo tudo é ilusão, a tal ponto que, no pensamento cristão, para superar as limitações todos serão transformados.

Para pontuar o motivo do texto, vou dizer: Vá por mim, a razão não é o melhor instrumento quando você é surpreendido ao ser engolido por um furacão. Uma outra via deve ser ativada, e de forma urgente.

Minha sugestão é que você permita-se adotar as práticas dos inventores, especialmente quando os instrumentos existentes são defasados para uma determinada tarefa. Um modo de entendimento sobre o que eles fazem é exemplificar que quando seus sentidos falham na tentativa de enxergar pelas ondas luminosas (está escuro, há bloqueios) descobrem um meio de usar a detecção de ondas de calor, que permite.

Não é bem uma surpresa, para quem já viu algum filme que utiliza tecnologias avançadas, certo? É um simples processo de usar nível de ondas diferenciadas. Vou me apropriar — nesta prática de escrita-proposição — dessa lógica da viabilidade de trocar o método de percepção. E vou perguntar: Por que acontece o abandono das percepções inimagináveis por uma fixa, se a capacidade de absorção que possuímos ao nascer é virtualmente infinita?

Uma das respostas que me deram foi a inexistência de verdades estabelecidas até que a lei da sobrevivência física toma a dianteira (não há percepção sem uma estrutura que perceba) na forma de uma intricada relação simbiôntica que permite a sobrevivência do todo: um filhinho descobre que sem a mamãe não irá adiante e, com isso, o seu possível torna-se limitado — sem aprender os modos desse ser que lhe dá o suporte, não conseguirá descobrir nem vivenciar suas próprias descobertas.

Dê um pequeno salto e avalie que os seres humanos são frutos de uma adaptação ao planeta mãe. Isso bastaria como apresentação (bem básica) para a inserção de uma alma no mundo, mas não explica o porque de tantos não desenvolverem práticas que permitam retornar àquele desconhecido, optando por permanecer cativos dessa realidade fixa.

Dizem que as almas migram. Se o fazem deveria ser pelo prazer de novas descobertas. Mesmo os que assim acreditam, divergem com relação ao tempo: entre vidas, na própria vida (tipo viagem astral) ou na pós-vida. Será que, adotando-se a eternidade da alma, a questão se resolveria?

Duas vertentes geradoras de modos de pensar-agir me tomaram, a arte e a filosofia. Com filósofos entendi que as pessoas podem usar a alma para ir à fonte primordial do pensamento e, com isso, estruturar ideias dos possíveis existentes por lá. Com artistas entendi que uma obra de arte deve permitir à alma uma subversão das estruturas estabelecidas no mundo das verdades.

Vejo nesse conjunto de pensadores, práticas que são pedagógicas em si. Mas, e cada vez mais, gosto de imaginar que é a transformação pessoal provocada pela experiência estética o motivo para torná-las tão valiosas. Afinal diante de uma arte plena, inexplicavelmente, somos remetidos ao mundo sem fixidez, onde todos os significados vivem na dança das cadeiras, com a pequena distinção de que ninguém é excluído.

No mundo desses seres pensantes, não há determinação de um modo correto de viver, são vários; não há interpretação verdadeira, há modos de apreensão. Só que uma proposição como essa não tem sido o que, em geral, a humanidade deseja ou adota. Ela exige que cada um envolva-se por si e para si mesmo. O desafio, a diferença, a divergência tornam-se o campo de forças sem o qual não somos motivados nem nos deslocamos.

Encará-la exige muita coragem: corre-se um risco sério ao tentar cavalgar furacões. Mas, à rigor, sempre há momentos em que é possível enlouquecer, não importa se você é algum dos que fazem da vida uma busca consciente ou dos que preferem o deixa a vida me levar.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 26 de maio de 2014.

* Uma curiosidade para mim, é que quase desisti de colocar o ser alado cavalgando o furacão, na imagem.

24 de mai. de 2014

Vulcanos

Vulcanos, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 24-05-2014.
Vulcanos, criado em 24-05-2014.

Vulcão é um tipo de montanha, uma estrutura geológica.
Sua produção é realizada por magma, gases e partículas quentes quando emergem à superfície.
Para além do magma derramado, sua função é injetar poeira, gases e aerossóis na atmosfera
— sem a dose projetada a transformação da superfície retardaria.
Mesmo que inconscientemente, somos pequenos vulcões nas relações que estabelecemos na terra.

(Wellington de Oliveira Teixeira)


Dói, para si e para quem atinge.

Mas, um vulcão que não expele suas lavas não cumpre sua função porque não basta tê-las aceitado dentro de si: sendo substrato e fruto do mundo inteiro, a ele deve retornar.

O significado da dor que sofreu ou da que causou só aparecerá depois; o entendimento da energia gasta e das consequências, muito tempo depois — talvez depois de estar extinto.

Nossa linearidade impede de entendermos o processo.

É necessário retornar à helicoide, ao cone cuja ponta está na base. Um pequeno furo capaz de transbordar imensos jarros produtores de vida.

Talvez por isso as espinhas nos rostos para corações adolescentes: hora de transformar a casca exterior.

Talvez, repito por não ter outra palavra para expressar, somente assim aprendamos que nesta vida o passageiro é apenas isso. Sua viagem por ele também.

E enquanto não entendermos as interpenetrações das realidades (cada um possui a sua) não alcancemos a beleza desse engendramento.

A terra, a areia, o tijolo, as ferramentas e tudo o mais usado, jamais alcançarão os desígnios do engenheiro. Será preciso ultrapassar o tempo da construção para se apreciar o resultado, ainda porque nenhum de nós teve a chance de olhar a planta original.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 24 de maio de 2014.

* Para Diogo de Azevedo Ramos, um filhote de vulcão.

21 de mai. de 2014

Ideia fixa

Ideia fixa, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 20-05-2014.
Ideia fixa, criado em 20-05-2014.

Fixação: seus olhos no retrato, minha assombração, fantasmas no meu quarto.
Fixação,
I want to be alone!
(Fixação - Kid Abelha)


Algumas pessoas não percebem que quanto mais você tenta se livrar de uma ideia, mais ela se fixa e exige a sua atenção. Resta apenas dedicar-lhe o seu tempo.

O problema é quando ela é do tipo muito, muito insistente. Ela vai e volta, sempre nos momentos mais inconvenientes para desviar sua atenção e retirar a objetividade de um raciocínio.

Esse peixe é uma ideia assim: de tão insistente acabou sendo construído com a reprodução de milhares de peixes iguais reduzidos. Algo semelhante à técnica utilizada nas imagens 3D que vinham em livros ou quadros e exigiam um determinado modo de observar para que sua profundidade fosse obtida. Há pouco tempo achei uma imagem nesse padrão e refiz a sensação do campo ampliado de visão.

Apesar de, no caso do peixe dessa imagem — fruto de uma outra imagem que criei —, antes de desistir de mudá-lo, testei várias proposições: isolamento, descamação e fossilização. Mas ele se revitalizava sempre. Chegou o momento onde larguei de mão e admiti que precisava destacá-lo, desfazendo toda a imagem de fundo e tornando-a apenas um suporte.

No fim das contas, justifiquei a ação pelo fato de ser um elemento importante que me acompanha e me dá prazer há muito tempo — talvez desde a adolescência. No fundo, tentei apenas me livrar dele ou do que ele representa para mim nesse momento.

Por fim, construí um certo afastamento e obtive de volta a capacidade de raciocinar, que havia perdido. Não é muito, mas já dá para superar a paralisação e ir adiante: melhor uma ideia flutuante do que uma fixa.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 20 de maio de 2014.

* Obsessão, como uma ideia fixa, refere-se às crenças erradas e distorcidas, que, por conta de uma intensa repetição involuntária, tornam-se um transtorno limitador à vida por distorcer a realidade: pensamentos negativos conectado a algo que causam incompletude e culpa. Há sempre a sensação da falta ou de algo mal feito, independente das novas tentativas de finalização.

17 de mai. de 2014

Emoldurando histórias

Emoldurando histórias, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 17-05-2014
Emoldurando histórias, criado em 17-05-2014

Ora, há diversidade de dons, mas o Espírito é o mesmo.
E há diversidade de ministérios, mas o Senhor é o mesmo.
E há diversidade de operações, mas é o mesmo Deus que opera tudo em todos.
Mas a manifestação do Espírito é dada a cada um, para o que for útil.
Porque a um pelo Espírito é dada a palavra da sabedoria; e a outro, pelo mesmo Espírito, a palavra da ciência; e a outro, pelo mesmo Espírito, a fé; e a outro, pelo mesmo Espírito, os dons de curar; e a outro a operação de maravilhas; e a outro a profecia; e a outro o dom de discernir os espíritos; e a outro a variedade de línguas; e a outro a interpretação das línguas.
Mas um só e o mesmo Espírito opera todas estas coisas, repartindo particularmente a cada um como quer.
Porque, assim como o corpo é um, e tem muitos membros, e todos os membros, sendo muitos, são um só corpo, assim é Cristo também.

(Bíblia— I Coríntios 12:4-12)


É tão bom poder registrar fatos da vida e realizar práticas que nos valorizam. Especialmente visando futuras boas recordações ou reacender sentimentos que produzem alegrias, reflexões e nos reafirmam a capacidade de superação.

Não. Isso não é um egoísmo, no sentido comum dado ao termo. É criar pequenos oásis na vida. Produzir estações aonde você pode ir para permitir-se, num breve momento de descanso, refrescar-se e reavaliar a jornada no arenoso cotidiano.

Nesta madrugada, aceitei a sugestão do Zidson Arduim e ouvi a gravação de uma palestra que recapitulava a questão do eu, com base nas práticas passadas (reconheço que eficientes à época), e que desqualificava algumas das teorias que embasam práticas atuais, em especial as que valorizam as capacidades e possibilidades de uma pessoa e incentivam seu desenvolvimento.

Exemplificando com inúmeros livros e projetos que visam auto-ajuda (adorei quando citou que esse auto relacionava-se ao faturamento do autor) questionou muitos destes ensinamentos. Me deterei na questão do espelho e do cultivo de um eu centrado em si mesmo.

De imediato, ponto para ele por ter encarado a questão do egocentrismo, remetendo-a à prática deletéria de glorificação da alegria e o denegrimento da tristeza e seu correlato na juventude contrapondo-se ao medo doentio do envelhecimento: um tudo deve estar maravilhosamente bem e belo para ser bom.

Fiquei, porém, detido a refletir sobre as consequências propostas por ele após a expansão do raciocínio inicial. Sinceramente, me vi tentado a dizer que usou de silogismo (premissa verdadeira, conclusões falsas ou não tão verdadeiras assim — por validarem apenas um determinado percentual do todo).

Questiono seu uso do texto bíblico do minimizar o Eu para que o Cristo sobressaia, uma vez que não foi contraposto aos que sugerem que o Cristo deve ser visto em você ou naqueles que propõem o investimento no crescimento pessoal (físico, emocional e espiritual) para tornar-se valoroso instrumento do Espírito.

É fundamental distinguir a vida centrada em um eu do imagético social (a todo custo, bem sucedido, lindo, sempre novo, feliz e disposto) do eu sustentador de um ser, aquele sem o qual a pessoa desaba, se desidentifica e perde a energia para vivenciar os acontecimentos da vida — tão bem representada pelo que considero ser a maior doença contemporânea: a depressão.

Dito isso, retorno ao que me propus escrever, isto é, produzir ações e pensamentos que me capacitem a encarar não apenas o cotidiano, mas constituírem-se um reservatório para aqueles momentos em que nos esgotamos em função das necessidades nossas e as dos que amamos.

Assumo de antemão que gosto da ideia dos quadros e das fotografias como uma alegoria desse pensamento. Geralmente porque estão associados aos nossos momentos de alegria, quando estamos descontraídos, acompanhados de pessoas que são do nosso agrado ou amadas. Uma pequena olhada e nos proporcionamos momentos de reconforto, sorriso, boas reflexões.

Produzir algo assim liga-se intimamente a uma atitude proativa de construir e vivenciar os momentos e permitir o cultivo de um eu não auto-centrado. Sólido em si, mas amplo o suficiente para entender que na composição com outros se dá uma multiplicação das próprias potências: capacidades que estão diretamente relacionadas à permissão de ser e estar compartilhando um mundo completamente imprevisível, extraordinário e infinito em possibilidades.

Meu ponto de vista defende que não é destruindo o eu, mas o qualificando que alcançaremos a verdade bíblica, pois nos aproximaremos dos parâmetros estabelecidos pelo próprio Cristo: como a si mesmo.

Sugiro que não deixe passar despercebido o fato de que ele estava nos dando a sua maior contribuição: o amor como a única e máxima referência da vida. Ele fez disso um revisionismo de toda a antiga lei — aquela do tirou-perdeu, matou-morreu, olho por olho.

O atributo que inseriu transforma-nos por uma nova perspectiva: a ampliação do entendimento de quanto melhor conseguir ser, quanto mais aprimoramento, quanto mais próximo da perfeição ou do máximo possível, melhor a contribuição realizada para toda a humanidade.

Nada mais do que construir um si mesmo amável, desejada e decididamente expansionista e coletivizador: Um por todos, logo, todos por um.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 17 de maio de 2014.

* Dom Juan questiona a vontade de simplesmente fazer desaparecer a angústia da vida e os sentimentos confusos sem nenhum esforço para tal — algo bastante atual e representado pela medicalização da vida.
Se por um lado, Em casos extremos, um drinque permitia a um homem um momento de paz e desapego, um momento para saborear algo que não se repete., por outro, utilizar-se sempre do mesmo artifício, é fugir da realidade:
Você é demais - disse ele. Daqui a pouco vai pedir um remédio de feiticeiros para remover tudo que o aborrece, sem fazer nenhum esforço de sua parte, apenas o esforço de engolir o que lhe for dado. Quanto pior o gosto, melhor o resultado. Esse é o lema do homem ocidental. Você quer resultado, um poção e você está curado.
(Carlos Castaneda — O Lado ativo do infinito, p.126-127).