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28 de fev. de 2016

Interagir visando se fortalecer

Expansão, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 27-02-2016.
Expansão*, criado em 27-02-2016.

Se numa determinada sociedade há muitos indivíduos que vivem submetidos às relações que não combinam com a sua natureza, é evidente que, durante a maior parte da vida, eles tenham um constrangimento cada vez maior da sua potência de agir e de pensar, e tornam-se cada vez mais ignorantes dos afetos que são capazes, excedendo, muitas vezes, a capacidade de serem modificados; além disso, por viverem tristes e impotentes, estão muito vulneráveis aos afetos de ódio, ira, vingança e outras paixões nociva […].
(Amauri Ferreira — Introdução à Filosofia de Spinoza, p.82-83)


Alguns se confundem com frases do tipo 'Corpos são substâncias com propriedades e capacidades que interagem entre si'. Facilito: tudo que existe, para sobreviver, se relaciona de acordo com as condições do momento. Sentir fome e sede ou amor e ódio fazem parte da vida. O diferencial é como cada ser age ou reage, impelido por esses estímulos.

Com o esforço ao máximo no uso da capacidade de raciocinar (identificar e ordenar os elementos) e de pensar (criar estratégias) ganha-se maior autonomia, isto é, não se deixar levar pelas correntes do senso comum, evitar os assujeitamentos, superar as forças que enfraquecem a própria potência de vida.

Pode parecer banal, sem valor, mas qualquer encontro que se faz tem o poder de fortalecer ou enfraquecer, alegrar ou entristecer. A plenitude está em realizar os encontros de modo a retirar deles maior potência para a expansão de si mesmo e tornar-se feliz.

A disposição mental, psicológica e espiritual funciona como a base, o pano de fundo, para tudo que acontece no cotidiano: decidir encarar o que vier como uma forma de tornar-se mais pleno — não importa o preço exigido —, é o que permite evitar a dualidade do tipo é do bem ou é do mal.

O que isso tem a ver? Seres pensantes buscam sempre novas interações e encontros com o poder de fortalecê-los, mesmo com o que causa uma dor momentânea. E é esse tipo de entendimento que os diferem de quem vive a vida responsabilizando os acontecimentos ou culpando os outros pelo que vive ou deixa de viver.

A vida não é controlável, mas é uma escolha ou decisão individual o modo de reagir perante o que for encarado.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 28 de fevereiro de 2016.

* O conceito de expansão em Spinoza está muito ligado ao de curtir a vida. É possível lutar contra o enfraquecimento ou a tristeza. Esse é um dos maiores atos criativos da humanidade: entender e se assenhorar dos acontecimentos da vida e não se deixar subjugar nem querer julgar o que quer que seja, a não ser para acatar algo que compõe consigo mesmo e fortalece ou rejeitar algo que não compõe e enfraquece seu ser.

23 de fev. de 2016

Conquistas que evoluem

Desenvolvimento, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 23-02-2016.
Desenvolvimento, criado em 23-02-2016.

A liberdade é uma daquelas coisas sobre as quais quase todo mundo concorda. É importante, é algo bom e é um dos ideais políticos mais importantes – talvez o mais importante. A liberdade é também uma daquelas coisas sobre as quais quase todo mundo discorda. Quanta liberdade devemos ter? É preciso restrição para a liberdade florescer? Como pode a sua liberdade para fazer uma coisa entrar em acordo com a minha liberdade para fazer outra coisa?
(Ben Dupré — Liberdade positiva e negativa in 50 ideias de filosofia que você precisa conhecer, cap.44, p.180)

Antigas lendas de povos indígenas narravam que o ser humano possuía características internas de algum animal tais como força, perspicácia, sutileza, doçura, encanto, beleza e o que mais que pudesse qualificar o modo se expressavam. Incentivam seus filhos a aprender com o desenvolvimento dos animais, comparando-o com seu próprio processo, a sua evolução interior; a identificar que alguns processos eram quase imperceptíveis, outros eram drásticos — independente do tempo que levavam para se efetuar.

Cada sociedade gera formas de incentivar o indivíduo a ser um sujeito do seu processo de vida: de conceitos, afim de estabelecer caminhos de fortalecimento e desenvolvimento pessoal; aos ritos de passagem, para avaliar seus sucessos.

O diferencial entre o que ocupa o lugar de motrizes, aceleradores, redutores ou equilibradores das mudanças (psicologia, religião e convívio social, dentre outros) está no modo e nos elementos de apoio utilizados. Devem ser avaliados como inestimáveis, a menos que se tornem impeditivos à realização pessoal ou obstáculos no processo de alcançar a plenitude do ser.

Em comum nos processos de desenvolvimento: para poder evoluir, há elementos que serão deixados para trás. O apego demasiado ao ser anterior, resultado das conquistas do passado, trava a busca de novas potencialidades. Novas e melhores conquistas caracterizam um potencial ampliado.

Atualmente, para alcançar esse objetivo, acredito ser mais efetivo ensinar a questionar, a produzir críticas amplas e embasadas ao invés de adotar verdades prontas do senso comum. Certamente, isso não induz a desrespeitar tradições, mas ampliá-las em entendimento e possibilidades. Um exemplo disso é o uso sustentável das florestas, da pesca e de outras atividades artesanais bastante tradicionais. Eliminadas as práticas predatórias, indivíduo e sociedade se beneficiam.

Em uma sociedade que aposta no mercado, num desenvolvimento ilimitado é muito estranho que o desenvolvimento pessoal esteja tão desqualificado e separado da plenitude individual, que só valha para o que produz mais potencial financeiro. A aposta no PIB (Produto Interno Bruto) se perde quando pensamos na FIB (Felicidade Interna Bruta)*, um conceito que vem crescendo entre aqueles que ultrapassaram o mercado tradicional e estão criando um mundo mais saudável onde ser é mais do ter e onde um benefício para todos supera o que é para um único indivíduo.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 23 de fevereiro de 2016.

* Minha sugestão é que você acesse ao sítio Felicidade Interna Bruta, onde há uma introdução ilustrada ao conceito.

21 de fev. de 2016

Na proximidade do irrecuperável

Quase irrecuparável, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 21-02-2016.
Quase irrecuparável *, criado em 21-02-2016.

Você poderia me ensinar a voar assim?
— Claro, se você quiser aprender.
— Quero. Quando podemos começar?
— Agora mesmo, se desejar.
— Eu quero aprender a voar daquele jeito – disse Fernão, com uma estranha luz brilhando em seus olhos. — Diga o que tenho que fazer.
Chiang falou devagar, observando com bastante atenção a gaivota mais jovem.
— Para voar tão rápido como o pensamento, para ir a todos os lugares que existem — respondeu –, você tem que começar sabendo que já chegou lá…
O macete, de acordo com Chiang, consistia em Fernão deixar de se considerar preso dentro de um corpo limitado, com 1,10 metro de envergadura de asa e um desempenho que poderia ser marcado com uma carta de navegação. O macete era saber que sua verdadeira natureza vivia, tão perfeita como um número não escrito, em toda parte e ao mesmo tempo no espaço e no tempo.

(Richard Bach — Fernão Capelo Gaivota, p.56)


A inveja gera o ser que não se é — um simulacro. Provavelmente, você vivenciou em sua infância aquela tradicional dualidade entre o ser o valentão e o ser o nerd, ou outra oposição semelhante. Se você evoluiu, entendeu que ameaçar alguém não é uma questão de poder agredir, é mais relacionado a ser, ao expressar-se pleno.

Ser é mais forte e efetivo do que o desejar ser porque, quando algo torna-se inalcançável como projeto, a inveja de quem o consegue sem esforço pode tornar-se uma obsessão. Quando imaturos, dificilmente conseguimos elaborar tal fato — ainda quando as circunstâncias são desfavoráveis. Lidamos da melhor maneira possível com o que nos foge ao controle, encaramos o que nos é possível no momento.

A natureza estabelece geneticamente duas respostas em cada corpo: ataque ou fuga. Não houve nenhuma derivação até que o ser humano ultrapassou a barreira do natural, estabelecendo uma nova marco, o da estratégia. Diferentemente dos animais predadores, que dominam a rotina de suas presas, somos capazes de constituir práticas, instantaneamente, baseados apenas no acúmulo de informações, mesmo que não repetitivas. Isso nos tornou os seres mais perigosos da face da terra.

Fomos além. Enquanto animais atingem apenas o físico, podemos destruir o que habita o interior do outro, mesmo de quem é fisicamente mais forte. Inventamos o sarcasmo, as humilhações e ultrapassamos as agressões. O uso da espionagem e da trapaça nos constituiu como seres que, quando não obtém algo pelas próprias capacidades, impedem que o outro o alcancem. Sorrindo para eles.

Um novo patamar de avaliações se estabeleceu e nos levou a julgar o caráter dos outros baseados no de origem: todos são capazes de oferecer seu pior aos outros. Após a transposição dessa linha divisória, o sagrado que havia na honra, na palavra e na promessa foi transgredido, destituído de sua capacidade de valor em si.

Depois nos tornamos simulacros, simuladores de humanos, seres cuja essência se reformula somente por interesses. Praticamente destituídos da humanidade, tentamos reencontrar um retorno, um modo de restaurar a potência do ser pleno. Ainda bem, a plenitude é algo sempre em construção, não algo pronto e acabado a ser comprado em antiquários. Exige um preço. E este é a reconstrução dos valores em si. Isso não significa restaurar os antigos — foram eles que nos enganaram e nos elevaram a esse patamar de coisas —, mas restaurar a potência de ser feliz com o que se é e não com o que o outro define ser o bom ou o melhor para nós mesmos. Mais. Entender que o diferente o é em si. E deve continuar a sê-lo.

Estabelecer como uma luta válida e agradável ajudar a construir a plenitude do outro é o novo desafio que precisamos encarar. Talvez assim, consigamos gerar aliados fortes o suficiente para nos auxiliarem em nossa própria tarefa de ser o melhor que podemos. Seres plenos e felizes podem tornar o mundo muito melhor que seres dominados, constrangidos, destituídos de sua potência como ser. Só não entende isso quem se perdeu de forma muito próxima do irrecuperável.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 21 de fevereiro de 2016.

* Algumas pessoas abrem mão da admiração — um elemento que nos promove a vontade de de mirar num possível melhor e na possibilidade de ultrapassamento —, tomados pela inveja, sentimento que leva a querer destruir o elemento que lhe causa um sentimento de inferioridade. Um leva a uma rota de experimentações próprias e descobertas; o outro, a um abismo dentro de si, que atua como prisão e apaga a visão do que e de quem se é. Não se vai de um a outro repentinamente. No caso da inveja, é mais como um deslizar, só que em ladeira abaixo, até um ponto onde não parece mais haver retorno.

20 de fev. de 2016

Dicionarizando o relacionamento

Dicionarizando, criado por Wellington de Oliveira Teixeira em 20-02-2016.
Dicionarizando*, criado em 20-02-2016.

Disseste uma coisa bonita, Adso, agradeço-te. A ordem que nossa mente imagina é como uma rede, ou uma escada, que se constrói para alcançar algo. Mas depois deve-se jogar a escada, porque se descobre que, mesmo servindo, era privada de sentido.
(Umberto Eco — O nome da Rosa, p.553)


É de uso corrente, que uma corrente pode prender alguém, até mesmo uma corrente elétrica. Difere da água corrente que expressa liberdade e fluidez. Lembra-se da infância, quando mandavam vestir a camisa por causa da corrente de vento que resfriava?

A palavra — corrente, no parágrafo anterior — ganha sentidos diversos de acordo com o contexto em que for usada. Essa multiplicidade de sentidos é essencial à arte, à música, à poesia. À vida. Dar sentido a algo que foi dito pode ser uma tarefa extremamente difícil, mas é um desafio à altura dos que não aceitam a limitação.

Esse entendimento deveria embasar os encontros visando a construção de relacionamentos. Ao mesmo tempo em que é fundamental haver diálogo e exercer críticas construtivas, é preciso ter um instrumento para evitar interferências indevidas e o desrespeito ao outro. Falas invasivas e desqualificadoras produzem a desconstrução de um relacionamento.

É preciso esclarecer ou dar novos sentidos às falas, formas, aos gestos e às práticas, ressignificando-os e ampliando o dicionário particular de cada um para torná-lo coletivo. Chamo isso de dicionário relacional.

Certamente, no início poderá haver um certo engessamento. Há momentos em que o signo precisa ter apenas um significado. Combinar o que significará determinado vocábulo ou expressão vai retirá-la do mal dito, do mal entendido, do confuso. Mas entenda bem, isto é algo a ser feito em comum acordo.

Primeiro, e mais importante, é preciso determinar uma expressão ou palavra que faz tudo parar, congela o mundo. Ela será usada nos casos onde, mesmo não havendo a intenção, alguém se sentir agredido. Forçar o diálogo levará ao ponto em que só o ódio fluirá. Melhor afastar-se, dar um tempo, deixar esfriar.

Coisas ou situações que por um instante parecem valer muito, após alguns instantes perdem a sua importância. Outras sem importância, quando cultivadas ou expressas na mágoa ou no ódio, tornam-se suficientes para destruir vidas. Portanto, inicie esclarecendo o que causou o mal estar, só depois retorne ao diálogo. Avançar nesse processo é fazer o encontro ser pleno e íntegro, um exemplo de superação a ser recordado durante toda a vida.

Wellington de Oliveira Teixeira, em 20 de fevereiro de 2016.

* Notas