Se fosse perguntado em que a moral individual importaria ao Estado, mil respostas, todas falsas, são e foram feitas pelos dirigentes políticos: medo de escândalo e do contágio do exemplo, tutela dos indivíduos, medo mágico das consequências da impiedade para a coletividade, ideia de que a moral pessoal fosse o elo fraco de cada corrente e de que, se esse elo se rompesse, o tecido da coletividade se desfaria… Pouco importam essas más razões: as racionalizações contam menos que a força que faz acreditar nelas e as faz renascer incansavelmente. Essa força, Bergson a chamava obrigação social, pois ele colocava a energia da moral na pressão dos outros, da sociedade, e não em algum imperativo kantiano. A opinião pública não pode deixar de escandalizar-se com vícios privados; se ela pretender ser política, dará à sua indignação moral uma racionalização política […]
(Paul Veyne — Os gregos conheceram a democracia? — em Diógenes, cap.5 p.74)
Todo elemento reunido para formar algo pode ser qualificado como constitutivo, se a sua função na composição é essencial. Há perdas que ocorrem e, mesmo que provocando avarias fortes, não retiram do seu objeto original a sua essência. No entanto, há outras que imediatamente descaracterizam a propriedade original e, sem ela, não há mais identidade de ser para se expressar.
Uma constituição é o referencial máximo para a Nação. Por sua complexidade, exige leis que regulamentem diversos de seus dispositivos ou determinações. Para a sua composição, é necessário um ato de autorização emitido pelo povo por meio da convocação de uma Assembleia Constituinte. Nela, os representantes são eleitos exclusivamente para compor o seu teor e texto.
Uma Constituição cujo teor máximo declarado é a Cidadania não pode ser adulterada em sua essência. Portanto, as Emendas que cobrem suas cláusulas pétreas, seu sustentáculo, não podem e nem devem ser aceitas pela população.
É ilegítima a atuação de um Congresso que altera os pilares da constituição, uma vez que não foram autorizados para tal. Certamente, uma apropriação indevida dessas atribuições específicas. Isso se caracteriza como um Golpe perpetrado contra toda uma nação, uma fato inaceitável.
Certamente, somos uma democracia [re]iniciante, atropelada por diversas tentativas de intervenções para tomada do poder central: as ditaduras civil e militar, patrocinadas por geopolítica, por conglomerados econômicos e/ou por interesses financeiros internos.
O uso intenso de meios de comunicação para obliterar a razão, induzir práticas, atropelar os fatos com boatos ou má interpretações intencionais sempre foram características principais de movimentos golpistas.
Portanto, ações cidadãs de repúdio devem ser qualificadas como defensoras da Democracia e qualquer tentativa de desqualificação desses movimentos, inclusive abusando das concessões dos meios de comunicação para se lhe opôr, deve ser identificada como promotor de Golpe e rejeitado.
Não há solução fácil. Há diferentes matizes de interesses representados em um Congresso. Há camadas sobre camadas de formação, de classes, especialmente em uma país de dimensões continentais como o Brasil. O principal motor para a aglutinação entre todos deverá ser a defesa da Democracia.
Para mim, a defesa da Democracia exige o cumprimento da Constituição: a Cidadania estendida a todos; a atuação privada e pública na redução das extremas desigualdades sociais; a garantia dos Direitos fundamentais e humanos.
Não aceito heróis, salvadores da pátria, elevados a posições estratosféricas e endeusados. Minha fé está depositada em outro referencial: o esclarecimento — a educação cidadã promovendo a avaliação crítica — e a mobilização social para garantir direitos e conquistar novos. Já é sabido que em nosso país todos os que são divinizados — em especial os produzidos pela imprensa dominante — se corrompem e se tornam tiranos.
Wellington de Oliveira Teixeira, em 07 de julho de 2017.
* Os órgãos são elementos constitutivos de um organismo e são constituídos por diferentes tecidos que, associados, podem realizar diversas funções vitais, em humanos (cérebro, pele, brânquias, fígado, pulmões, rins e ouvidos) ou em vegetais (raízes, caule e flores).
Em humanos, sua potência individual ganha um patamar mais elevado e a realização tarefas de um nível superior quando eles se associam para compor os sistemas de órgãos (respiratório, reprodutor, vascular, dentre outros).
Utilizando uma analogia, esse nível de composição de diversos elementos (peculiares, potentes em si mesmos na execução das próprias funções) deveria ser o referencial para as mobilizações e coletivizações.
É necessário incendiar a vontade de pensar, afirmar a potência e o fluir nos novos seres pensantes.
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8 de jun. de 2017
Constitutivo, Constituinte e Constituição
19 de mar. de 2016
Uma democracia iniciante irá cometer erros
- polarização
- 1. ação de polarizar ou estado daí resultante.
2. concentração em extremos opostos do que antes estava alinhado, inclusive a divisão entre as opiniões.
A polarização é algo incrível: algo confirmado por torcidas de futebol. Na época em que os jornalistas opinavam em tabloides sobre a rodada semanal, havia o conceito de 'amor à camisa é fundamental' e o torcedor atento se apropriava de tudo a respeito do seu time (e de adversários), usando-o para fazer comentários, argumentar e realizar apostas.
De repente, empresas passaram a deter o controle sobre os jogadores, ao oferecer salários mirabolantes. Estes deixaram de jogar pelo time e o cenário esportivo mudou. A mídia hegemônica passou a deter o controle das grandes competições por meio de seus representantes nas confederações. Houve críticas, é claro. Mas elas se encarregaram de abafá-las. A corrupção se alastrou, todos sabiam, mas o que fazer?
Bem, espero ter captado a sua atenção com essa analogia ou ilustração. Vale mais a dança das polarizações que a apatia, seja no futebol ou na política. Quem viveu os tempos do silêncio (a Ditadura Civil e Militar no Brasil) conheceu a necessidade das palavras cuidadosamente ditas para o monstro não vir pegar, torturar e matar.
Mas, aos poucos, iniciou uma mudança de rumo no país. A liberdade de falar evoluiu, o mesmo não aconteceu — ainda — em relação ao domínio das artimanhas político-midiáticas. Comum, na época dos governos do PSDB e PFL (atual DEM), toda corrupção era ocultada, engavetada até a prescrição ou arquivada. Não havia procuradores desenvolvendo processos bem sucedidos de levar políticos ou empresários julgados à cadeia. Daí um desconhecimento geral sobre as manipulações do jogo político.
Acontecimentos atuais promoveram uma discussão ímpar no país: de donas de casa aos doutores e especialistas, todos podem ser protagonistas nas opiniões — inclusive quem foi pego de surpresa, tem a chance de se posicionar a favor ou contra vendo as argumentações expostas.
De mais importante, a ampliação das informações abala o poderoso discurso produzido pela mídia hegemônica, usando como meio a internet e as novas tecnologias: notícias falaciosas são desmentidas por fotografia ou filmagens, instantaneamente enviadas do local; questionadas por qualquer um. Mesmo assim, a preponderância ainda é das análises emitidas pelos jornais de canais abertos de emissoras de TV.
Nem tudo são flores, é verdade. Deslizando no vai e vem do 'contra' ou 'à favor', o uso político dos boatos e o discurso do 'supostamente' se infiltra, domina e acirra os ânimos. Quem pode financia postagens em redes sociais para induzir determinado ponto de vista. O bom é que elas quase sempre encaram o contraditório, o questionamento, a crítica. Enquanto puder ser assim o esclarecimento pode ocorrer.
Mantenho um ponto de vista — até quando eu puder — uma democracia iniciante irá cometer erros, mas há um novo elemento no cenário que pode fazer a diferença: a indiferença está sendo colocada de lado e a corrente ('pra frente' ou 'pra trás', eu não sei!) percorre a população.
No mínimo, o retorno dos estudantes às ruas, exigindo seus direitos constitucionais na luta por Educação de qualidade — enfrentando corajosamente políticos poderosos e suas artimanhas deletérias — e se tornam, para mim, a Voz de um povo que começa a ser escolarizado. Uma voz difícil de ser calada, mesmo com interesses financeiros escusos tentando.
De repente, empresas passaram a deter o controle sobre os jogadores, ao oferecer salários mirabolantes. Estes deixaram de jogar pelo time e o cenário esportivo mudou. A mídia hegemônica passou a deter o controle das grandes competições por meio de seus representantes nas confederações. Houve críticas, é claro. Mas elas se encarregaram de abafá-las. A corrupção se alastrou, todos sabiam, mas o que fazer?
Bem, espero ter captado a sua atenção com essa analogia ou ilustração. Vale mais a dança das polarizações que a apatia, seja no futebol ou na política. Quem viveu os tempos do silêncio (a Ditadura Civil e Militar no Brasil) conheceu a necessidade das palavras cuidadosamente ditas para o monstro não vir pegar, torturar e matar.
Mas, aos poucos, iniciou uma mudança de rumo no país. A liberdade de falar evoluiu, o mesmo não aconteceu — ainda — em relação ao domínio das artimanhas político-midiáticas. Comum, na época dos governos do PSDB e PFL (atual DEM), toda corrupção era ocultada, engavetada até a prescrição ou arquivada. Não havia procuradores desenvolvendo processos bem sucedidos de levar políticos ou empresários julgados à cadeia. Daí um desconhecimento geral sobre as manipulações do jogo político.
Acontecimentos atuais promoveram uma discussão ímpar no país: de donas de casa aos doutores e especialistas, todos podem ser protagonistas nas opiniões — inclusive quem foi pego de surpresa, tem a chance de se posicionar a favor ou contra vendo as argumentações expostas.
De mais importante, a ampliação das informações abala o poderoso discurso produzido pela mídia hegemônica, usando como meio a internet e as novas tecnologias: notícias falaciosas são desmentidas por fotografia ou filmagens, instantaneamente enviadas do local; questionadas por qualquer um. Mesmo assim, a preponderância ainda é das análises emitidas pelos jornais de canais abertos de emissoras de TV.
Nem tudo são flores, é verdade. Deslizando no vai e vem do 'contra' ou 'à favor', o uso político dos boatos e o discurso do 'supostamente' se infiltra, domina e acirra os ânimos. Quem pode financia postagens em redes sociais para induzir determinado ponto de vista. O bom é que elas quase sempre encaram o contraditório, o questionamento, a crítica. Enquanto puder ser assim o esclarecimento pode ocorrer.
Mantenho um ponto de vista — até quando eu puder — uma democracia iniciante irá cometer erros, mas há um novo elemento no cenário que pode fazer a diferença: a indiferença está sendo colocada de lado e a corrente ('pra frente' ou 'pra trás', eu não sei!) percorre a população.
No mínimo, o retorno dos estudantes às ruas, exigindo seus direitos constitucionais na luta por Educação de qualidade — enfrentando corajosamente políticos poderosos e suas artimanhas deletérias — e se tornam, para mim, a Voz de um povo que começa a ser escolarizado. Uma voz difícil de ser calada, mesmo com interesses financeiros escusos tentando.
Wellington de Oliveira Teixeira, em 19 de março de 2016.
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